sábado, 10 de novembro de 2007



11 de novembro de 2007
N° 15415 - Luis Fernando Verissimo


Me liga

Hoje, a representação de telefone é a mão no ouvido com o mindinho e o dedão estendidos. É um gesto definitivo porque só pode significar telefone, mas que demorou a ser adotado

O gesto usado para significar telefone revela a idade de qualquer um. Ainda existe gente que toca uma manivela imaginária perto do ouvido quando quer dizer, de longe, "me liga", ou "vou te ligar". Para a grande maioria da população este é um gesto sem sentido. O que manivela tem a ver com telefone? Antigamente, muito antigamente, todos os telefones tinham manivela.

O telefone original era com manivela. Quando Alexander Graham Bell fez o primeiro telefonema da história, ligando para um assistente na sala ao lado, usou a manivela. (E não é verdade que o assistente, ao atender, disse "Quem fala?").

Mas hoje girar a mão como quem gira uma manivela ao lado da cabeça só significa que a pessoa é maluca. Ou muito antiga.

Outro gesto datado é girar o dedo no ar. Do tempo em que os telefones tinham discos, lembra? Você introduzia o dedo no buraco correspondente ao número desejado e rodava o disco.

Fazer isso em forma de mímica deixava claro para a pessoa distante que você se referia ao telefone (e a mensagem era "me liga" ou "vou te ligar"), a não ser que você a estivesse convidando para dançar - ou coisa pior. Já existe toda uma geração que nasceu, cresceu e se tornou adulta na era pós-disco, e para a qual o dedo girando no ar também perdeu qualquer sentido. Não quer mais nem dizer "vamos dar umas voltas pelo salão?".

Mesmo porque hoje ninguém mais dá voltas no salão, dançam sem sair do lugar. E, pensando bem, os próprios salões seguiram os telefones com disco para a obsolescência. Os poucos que restam também são só para efeito de nostalgia.

Não existe nenhum gesto semafórico que imite a ação de digitar os números num telefone moderno. Talvez porque um dedo sendo espetado repetidamente no ar acabasse sendo um gesto mais grotesco do que expressivo e, como a manivela fantasma, despertasse dúvidas sobre a sanidade mental do mímico.

A digitação foi esquecida, e hoje a representação universal de telefone é a mão no ouvido com o mindinho e o dedão estendidos.

É um gesto definitivo porque só pode significar telefone, sem mal-entendidos possíveis.

E é um gesto recente que demorou, estranhamente, a ser adotado, pois também valeria para os fones antigos, se alguém tivesse pensado nele antes. Mais uma prova de como a humanidade, às vezes, demora para descobrir o óbvio.

O mindinho e o dedão estendidos valerão como mímica até que chegue a era dos telefones implantados na gente, quando ninguém precisará mais sinalizar "me liga" ou "vou te ligar". Pois estará todo o mundo permanentemente ligado com todo o mundo.

Outra evolução na história da telefonia, paralela ao avanço técnico, foi no linguajar das telefonistas. O "alô" só varia de língua para língua - "hola", "hello", "pronto", o enigmático "estou" de Portugal etc. - mas o que vem depois, ou o que a telefonista diz antes de dizer que quem você procura está em reunião, também vem se modificando com o tempo. Consagrou-se, por exemplo, o "quem gostaria?".

É uma abreviação da frase "Quem gostaria de falar com o Dr. Fulano se ele não estivesse em reunião?", claro, mas, mesmo assim, é uma frase inquietante, como todas as frases incompletas. Você sabe que só precisa dizer o seu nome mas fica com a impressão de que estão falando de outro. De alguém de quem você é apenas um porta-voz. Você hesita. Ela repete:

- Quem gostaria, por favor? - Ahn... ele. - Quem é ele?

- Eu. "Ele" sou eu. - E quem é o senhor? - Eu sou o que gostaria.

Resolvida essa questão, passa-se para outra questão, mais difícil.

- De onde? - Como? - De onde? - Bem... Daqui. - Daqui onde, por favor? - De onde eu estou falando!

Ela quer saber que empresa, que organização, que entidade privada ou pública, que interesses, que outra esfera de realidade além da sua insignificante pessoa física, está por trás da sua chamada. Não adianta tentar brincar e dizer coisas como "Da barriga da mamãe". Telefonistas não estão ali para brincadeiras. Telefonistas estão ali para saber quem gostaria, e de onde gostaria.

- De onde? - É particular. - Um momentinho, por favor.

Aí entra a musiquinha. Outra novidade relativamente recente no mundo da telefonia é essa: momentinho tem musiquinha.

Como o momentinho raramente faz juz ao diminutivo, a musiquinha se prolonga e já houve casos de um momentinho durar por todo o ciclo dos Nibelungen de Wagner. Finalmente:- O Dr. Fulano está em reunião.- Obrigado.

Você liga de novo. Identifica-se como quem gostaria e diz de onde. - O senhor não acabou de telefonar? Eu disse que o Dr. Fulano está em reunião. - Eu sei, mas desta vez é só para ouvir a música. Eu sei, mas desta vez é só para ouvir a música.

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