sábado, 10 de novembro de 2007



10 de novembro de 2007
N° 15414 - O Prazer das Palavras | Cláudio Moreno


Epônimos

Irmão do sinônimo e do antônimo, o termo epônimo designa todo vocábulo que nasceu a partir do nome próprio de algum personagem real ou fictício.

Poderíamos chamar de epônimos vocábulos como darwinismo ou freudiano, derivados do nome de autores famosos. São incontáveis também os epônimos científicos, pois centenas de pesquisadores deixaram sua marca no vocabulário médico (mal de Parkinson, trompa de Falópio, síndrome de Down) ou nas classificações da Botânica e da Zoologia.

O verdadeiro epônimo, contudo - o genuíno, o legítimo de Braga - , é aquele vocábulo comum, bem conhecido, que foi extraído do nome de alguém que realmente viveu, uma pessoa em carne e osso que ficou, assim, imortalizada no material indestrutível das palavras. É claro que nem sempre esta honra foi atribuída a quem a merecia.

No batismo de objetos e aparelhos, por exemplo, em que o natural seria usar o nome de seu inventor (código morse, alfabeto braile), houve casos em que a tradição ou a opinião popular terminaram privilegiando nomes de pessoas que apenas divulgaram a invenção ou a tornaram famosa, como ocorreu com a guilhotina.

Seu inventor, ao contrário do que se pensa, não foi o Dr. Guillotin, mas Antoine Louis, secretário da Academia de Medicina.

Em plena Revolução Francesa, o dr. Guillotin apenas sugeriu à Assembléia que se adotasse uma forma de execução mais rápida e menos infamante que a forca; a máquina projetada por Louis, com uma pesada lâmina de corte oblíquo, foi aprovada e entrou em funcionamento em 1792, separando milhares de cabeças de seus respectivos donos, inclusive a de seu inventor.

Depois que o dr. Guillotin morreu de câncer, em 1824, os filhos pediram ao governo que mudasse o nome do sinistro instrumento, mas este já estava tão enraizado na língua francesa que, por ironia, eles é que tiveram de trocar de sobrenome.

Já o nome rastafári, que a maioria associa a Bob Marley, ao reggae e à Jamaica, designa muito mais do que aquele bizarro cabelo preso em trancinhas, coberto por gorros multicoloridos.

Suas verdadeiras raízes estão no antigo império da Etiópia, visto pelos escravos e seus descendentes (principalmente no Caribe) como o símbolo de uma supremacia negra que remontaria ao tempo do lendário Rei Salomão.

Quando o Ras ("príncipe real") Tafari Markonnen assumiu o trono em 1930, com o nome de Hailé Selassié, foi saudado como o novo Messias, destinado a liderar as minorias negras oprimidas na retomada do esplendor dos antigos reinos africanos.

O Ras Tafari foi deposto e morreu na prisão, mas o movimento imortalizou seu nome, pregando uma vida de simplicidade junto à natureza contra o consumismo desenfreado dos brancos.

Um conhecido epônimo é diesel. Embora muitos tenham trabalhado no projeto, foi o engenheiro alemão Rudolph Diesel quem desenvolveu e patenteou o motor que hoje leva o seu nome.

O combustível que Diesel tinha em mente eram os óleos vegetais: quando demonstrou seu projeto, na exposição de Paris, em 1900, o motor era movido a óleo de amendoim. No entanto, depois de sua morte, em 1913, a indústria do petróleo encampou sua invenção, modificou o motor e produziu especialmente para ele um derivado do petróleo que batizou de diesel fuel.

A idéia original de usar óleos vegetais, renováveis e não-poluentes, foi retomada nos últimos anos com a utilização do biodiesel, que vem sendo usado na Europa e na América do Norte.

Outro epônimo famoso é grogue, que vem do almirante Edward Vernon (1684-1757), conhecido na Marinha Inglesa pelo apelido de "Old Grog" por causa do inseparável capote de gorgorão (em Inglês, grogram) que ele vestia quando soprava a tormenta.

Nessa época, a bordo dos navios de Sua Majestade servia-se uma generosa ração diária de rum, o que explica a lendária fama de beberrões que os marujos ingleses têm até hoje.

Para atenuar a embriaguez, Old Grog mandou diluir o rum com água, em partes iguais, acrescentando à bebida um pouco de suco de limão ou de lima, recurso muito empregado para combater o escorbuto.

Embora criticada por todos, a mistura - agora chamada de "grog", grogue - revelou-se uma eficiente defesa contra os ventos gelados da Antártica nos navios que contornavam o Cabo Horn, na ponta da América do Sul, principalmente quando servida bem quente, adoçada com açúcar mascavo.

Além de designar a bebida, grogue também é um adjetivo muito usado em nosso idioma, com o sentido de "tonto, atordoado".

Finalmente, um aviso aos leitores que me escrevem pedindo cópia de colunas anteriores: a L&PM Pocket acaba de lançar cem crônicas de O Prazer das Palavras. O primeiro volume pode ser encontrado na Feira; o segundo está no prelo e chegará em breve às livrarias.

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