
10 de novembro de 2007
N° 15414 - Cláudia Laitano
Os mornos
"Assim, porque és morno, não és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca." Esse versículo do Apocalipse assombrou minha consciência durante algum tempo. Foi mais ou menos entre os 12 e os 17 anos, época em que eu vivi um período de ruidosa obstinação religiosa.
Alguns pais convivem com filhos que tocam bateria, outros com guris que não querem estudar. Os meus tiveram que aturar uma gasguita messiânica, sinceramente convencida de que sua missão na Terra era fazer a família inteira acompanhá-la no rumo da salvação.
Ninguém é mais convicto do que um adolescente convicto, eu sei, mas não era só isso. O negócio é que, naquele momento, nada me parecia mais desprezível do que aquela religiosidade opaca de quem escolhe o que lhe serve de uma doutrina e descarta todo o resto.
No meu auto-imposto código de conduta religiosa, não bastava acreditar, era preciso viver a fé de forma intensa e ostensiva - ou seja, não ser "morna". Por isso o proselitismo, a pregação doméstica, os sermões na hora do almoço.
Mas, assim como veio, a fé um dia foi embora. Não de forma lenta e suave, como um incêndio que vai se apagando aos poucos, mas repentinamente - como quem foge.
Talvez tenham sido as novas leituras, os novos interesses, ou o velho medo de "amornar". O fato é que, em determinado momento, abri mão da fé, de forma completa e definitiva.
Conversando com uma amiga que vai à igreja com alguma regularidade, chegamos à conclusão de que nem um extremo nem o outro pegam muito bem nos ambientes sociais e profissionais que freqüentamos.
O "quente" e o "frio" são vistos com alguma desconfiança - um desvio da ordem natural das coisas, que é não falar muito de religião. Até entende-se a fé no atacado, as multidões de devotos, as festas religiosas, mas a religiosidade cotidiana, do colega que vai à igreja todo domingo, parece quase exótica, extemporânea.
Do meu lado, posso dizer que recebo os olhares mais espantados quando afirmo - sem proselitismo, que alguma coisa a idade me ensinou - que não acredito em Deus. Como se o simples fato de externar uma convicção pudesse ser, de alguma forma, agressivo, inadequado. Os mornos não perdoam.
O sucesso de dois livros recém-lançados no Brasil, Deus, um Delírio, do biólogo Richard Dawkins, e Deus não É Grande, do jornalista Christopher Hitchens, mostra que não são poucas as pessoas interessadas em tratar o assunto "a quente", isto é, trazendo para a arena dos assuntos públicos um tema que não é necessariamente privado, na medida que tem reflexos, por exemplo, nas leis de um país - que submete a todos igualmente, tenham ou não fé.
Hitchens esteve em Porto Alegre esta semana, como conferencista do seminário Fronteiras do Pensamento, falando, entre outras coisas, sobre a necessidade de debater a fé em um mundo em que os usos políticos da religião estão cada vez mais longe de serem mornos.
É a discussão mais velha da Humanidade, e por isso mesmo não deveria ser jogada para baixo do tapete.
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