sexta-feira, 9 de novembro de 2007



09 de novembro de 2007 | N° 15413
Paulo Sant'ana


O clarim da odisséia

Desde cedo da manhã de ontem, o rádio e a televisão transmitiam os detalhes e as conseqüências do cerrado e intenso tiroteio que sacudiu a Vila Areia, à margem da freeway.

Primeiro, dois policiais civis do Denarc foram atingidos por balaços vindos do interior do barraco que tencionavam invadir com um mandado de busca e apreensão de drogas e armas.

Mas o traficante que estava dentro do barraco tinha em seu poder e a seu serviço um eficiente sistema de vigilância, equipado com câmeras de televisão que foram colocadas em cercas e postes da rua da vila, que denunciavam a ele a aproximação da polícia.

Depois de anunciarem sua presença na parte de fora da casa, iniciou-se o tiroteio, findo o qual dois policiais civis estavam feridos com tiros de fuzil do traficante, um no ombro, outro levemente no couro cabeludo.

O traficante vencia o primeiro round.

Chegou reforço da PM e então o tiroteio se tornou mais acirrado. Os moradores depuseram que houve mais de cem tiros e que as balas zuniam nos ouvidos dos circunstantes. Então haviam acorrido para o local cerca de cem policiais de todas as corporações.

O segundo round, incrivelmente, seria vencido pelo tocaiado bandido, pereceu com um tiro na cabeça o PM Emerson Cerbercerlaq, com 33 anos.

Emerson, assim que desceu da viatura policial, correu para trás da casa do traficante, posicionando-se para combate.

Recebeu um tiro de fuzil que se alojou em sua cabeça. Levado para o hospital, morreu antes de ser atendido.

Imagina-se com que sacrifício o PM morto ontem fez o curso secundário, estudou durante cinco ou seis anos numa faculdade de Direito, sabe-se lá se privada, custando os olhos da cara, e acabou conseguindo o curso superior, tendo somente como rendimento o seu salário aviltante de policial militar.

E, depois de formado em Direito, recentemente ainda alcançava a façanha de pagar, não sei como, um curso preparatório para o exame da OAB, pretendendo ser, como anunciava, oficial da PM ou delegado de polícia.

Mas era incessante e árdua a luta pela sobrevivência, ele continuou sendo PM até que um chamado trágico de sua profissão levou-o ontem para o desastre do enfrentamento da polícia contra o traficante, na Vila Areia.

E lá, ontem pela manhã, tombou o herói e o mártir da luta contra a criminalidade, mas também da tão sublime luta que tantos brasileiros empreendem para alcançar um diploma superior enquanto trabalham, em busca de melhores dias e da fuga dos salários miseráveis que os sufocam.

Um PM que se formou em Direito, sendo PM, que façanha! Para acabar morto por uma bala de fuzil de um bandido que inexplicavelmente intentou enfrentar sozinho quase cem policiais que cercavam sua residência.

Hoje, em Alvorada, quando estiver sendo sepultado o PM Emerson, deve soar bem forte e melodioso o som de um clarim que homenageará solene a saga de um trabalhador da segurança pública que deu a vida pela causa da sua profissão, na tentativa de subir degrau a degrau a íngreme, dura e por vezes inglória escala social brasileira.

Mas a maior perplexidade viria a acontecer depois que o traficante, satisfeitas suas exigências, concordou em entregar-se e saiu para a rua de mãos para cima, sendo aprisionado.

Só que o preso se entregou debaixo de aplausos, uma ovação dos moradores da vila.

Estranha e inexplicável quanto perversa a lógica social que encerra o mistério de um malfeitor que recém havia morto um policial e ferido outros dois ser recolhido à prisão sob a consagração de seus vizinhos.

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