sexta-feira, 9 de novembro de 2007



DE BAR EM BAR

Ricardo Carle foi a pessoa mais autêntica que eu conheci. Não me canso de admirar a sua rebeldia profunda e quase sempre silenciosa. Não se queixava, não culpava ninguém pelo que detestava e vivia o presente com uma intensidade brutal.

Jornalista por intuição, boêmio por natureza e leitor por paixão absoluta, não se tornou escritor por ter uma capacidade autocrítica exacerbada e falta e tempo. De manhã, dormia. De tarde, fazia jornalismo. De noite, bebia, sonhava e amava.

Era tudo ou nada. Se não pudesse fazer uma obra-prima, preferia ler, beber e esperar. Passou uma parte importante da sua juventude no Bom Fim. Foi atropelado numa madrugada em frente ao Bar do Beto. Morreu no ano passado, depois de anos de invalidez.

Aceitei escrever 'Antes do Túnel, Junto às Palmeiras (uma História Pessoal do Bom Fim)', que lanço hoje, a partir das 19h30, na Feira do Livro, apenas para render-lhe homenagem. Juntos, tivemos vitórias e derrotas.

Meu primeiro livro sobre o Bom Fim – 'A Miséria do Cotidiano' – foi o produto de uma grande derrota, uma dissertação de mestrado em Antropologia, na Ufrgs, reprovada na banca. Um feito que poucos conseguiram na vida.

Às vezes, fico sabendo que um intelectual famoso – um Walter Benjamin – passou pelo mesmo vexame. Tento guardar o nome para me sentir em boa companhia, mas acabo esquecendo. Ricardo zombava das convenções. Guardei um conselho que me deu: nunca esconder o passado.

Foi ele quem me introduziu no Bom Fim das 'tribos' juvenis dos anos 80. Para ele, era apenas um bando de guris e gurias tentando se divertir.

Este meu segundo livro sobre o Bom Fim reconstrói o universo de Ricardo Carle. Poderá ser outro fiasco. Ao menos, não corre o risco de ser reprovado. Um leitor me diz que faço autopromoção. Nego.

Quase todos os colunistas reúnem os seus textos jornalísticos de maior sucesso em livros. Eu transformo meus livros mais fracassados em crônicas de jornal. Depois de citar dez vezes 'Aprender a (vi)ver', um exemplar foi vendido. Eu adoro rir de mim mesmo.

Ricardo acharia a maior graça dessa história e me ajudaria a contá-la para o maior número de pessoas. Isso se estivesse numa fase falante. Em contrário, me convidaria para um brinde com alguma bebida de forte teor alcoólico e ponto final. Na época, eu brindava com água mineral.

A vontade de falar de Ricardo num livro foi tão forte que venci a minha resistência a voltar a um tema que tanta dor de cabeça me causou no passado. A causa era muito justa. Por Ricardo, aceito pagar mico em sessão de autógrafos.

Sempre considerei que Ricardo Carle tinha tudo para ser um escritor melhor do que Charles Bukowsky, capaz de transformar o Bom Fim num bairro mítico pós-Scliar.

Ricardo passou pela vida rapidamente como autor e personagem, protagonista e narrador de uma história oral ambientada num Bom Fim que tinha uma fauna: punks, darks, carecas, existencialistas, marxistas, hippies, yuppies.

Hoje, teremos ainda, às 17h30min, na Sala dos Jacarandás do Memorial do RS, uma mesa sobre 'mídia e imaginário' com cinco franceses de primeiríssima linha: Philippe Joron, Michel Moatti, Ronan Prigent, Lucien Sfez e Patrick Tacussel. Finalmente vamos entender tudo sobre o divórcio do presidente Sarkozy e de sua esposa hipermoderna.

Depois, Tacussel autografará 'Sociologia do Imaginário', livro que deverá se tornar referência para estudantes e pesquisadores em ciências humanas.

juremir@correiodopovo.com.br

Uma ótima sexta-feira e uma excelente fim de semana para todos nós.

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