sexta-feira, 9 de novembro de 2007



09 de novembro de 2007
N° 15413 - David Coimbra


Silêncio na mesa

Numa dessas noites quentes da primavera porto-alegrense, acomodei-me à cadeira de um restaurante e, antes mesmo de erguer o olhar para o queixo do garçom, já havia observado o casal sentado na mesa ao lado. Atiçaram-me a curiosidade. Pareciam pouco à vontade, não falavam um com o outro. Não se olhavam.

Verdade, esta não é uma cena exatamente incomum. Acontece, e sempre que acontece chama a atenção. Casais assim tornam-se ostentosos.

Porque o silêncio que existe entre eles os separa, não os une. Não é um silêncio harmônico, aquele das pessoas que não precisam de palavras para conviver em paz. Ao contrário, é um silêncio de quem já não tem palavras a trocar, um silêncio vazio, que, por isso, é um silêncio ruidoso.

Mas o casal que vi dias atrás era diferente dos outros que já havia encontrado. Porque os dois eram muito jovens. Não combinava com eles aquele ar cansado, aquele desânimo.

Não. Um casal jovem, quando fica amuado, é porque houve briga. Um está irritado com o outro, ou ambos estão irritados. Só que aqueles dois não tinham a aparência de quem está zangado. Eles simplesmente estavam desanimados.

O jantar deles transcorreu todo assim, os dois de olhar baço, sem nem se encarar. Comecei a torcer para que estourasse uma discussão entre eles. Porque, se existe raiva, se existe cobrança, existe esperança. Mas não era o caso. Eles estavam enfarados. Tão novinhos, e já desistentes.

Aquilo foi me incomodando. Tinha vontade de ir lá e sacudi-los:

- Façam alguma coisa! Briguem! Xinguem-se! Mas façam alguma coisa!!!

Porém, não fiz nada. Fiquei olhando. Eles nem notavam. Pudera: era tão densa a aragem de desalento a envolvê-los que provavelmente não notariam nem se me levantasse, puxasse uma cadeira e sentasse entre eles.

Então, quando eu mesmo ia pedir a conta, a sobremesa deles chegou. O garçom fez aterrissar na toalha um prato de bom tamanho, tendo ao centro algo que não consegui identificar, um sorvete, talvez, ou um creme qualquer.

Foram postas duas colheres diante deles, mas o rapaz não fez menção de empunhar a sua. A moça, sim, ela tomou a colher e levou um bocado entre os dentes.

Aí aconteceu a transformação. Ao engolir a sobremesa, ela se aprumou na cadeira, ficou ereta, seu rosto de menina se iluminou, seus olhos brilharam e ela emitiu um som pela primeira vez na noite:

- Ah... - foi o que ela fez. Só isso: ah... E o rapaz a fitou com interesse inédito. Ficou olhando-a como se só naquele instante tivesse descoberto sua presença.

Ela olhou para ele. Ele continuava olhando para ela. Ela, de repente vivaz, arrancou com a colher um naco do doce e o ofereceu ao namorado.

Ele piscou, pensou, mas recusou com um gesto de cabeça. Ela de pronto conduziu a colher à própria boca e, ao provar a iguaria, repetiu, fechando os olhos de prazer:

- Aaah...

Ele a olhava ainda mais curioso. Ela, novamente, mergulhou a colher no acepipe e, novamente, esticou a mão e a fez flutuar diante da boca do namorado. Ele vacilou, franziu a testa, jogou o corpo um centímetro para trás, mas, enfim, cedeu. Abocanhou a colher. E a mágica se fez com ele também.

O garoto, mal o doce desceu-lhe pela garganta, assumiu nova postura na cadeira, arregalou os olhos de contentamento, olhou para a namorada e... sorriu! E ela sorriu para ele, e a sorrir eles ficaram, e logo estavam rindo, e um minuto depois gargalhando.

A noite terminou com os dois aos beijos. Fui-me embora contente. Mas ainda me arrependo por não ter perguntado qual era o nome daquela sobremesa.

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