quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025


26 de Fevereiro de 2025
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Imprensa portuguesa em voo de retomada da TAP

O primeiro voo direto da TAP entre Lisboa e Porto Alegre, desde a enchente que interditou o aeroporto Salgado Filho, deixará a capital portuguesa às 14h20min do dia 1º de abril. O pouso em Porto Alegre está previsto para às 21h45min do mesmo dia.

Nesse voo virão jornalistas portugueses - entre eles os editores-chefes do jornal O Público e da revista Volta ao Mundo. A bordo também estará o CEO da TAP, Luís Rodrigues. A estratégia da Secretaria de Turismo do Estado é divulgar destinos turísticos para visitantes de outros países. Os profissionais da imprensa portuguesa devem ficar no Estado durante uma semana.

Alta nas vendas

Conforme análise do Observatório do Turismo, com base em dados da plataforma ForwardKeys, a venda de passagens entre Lisboa e Porto Alegre cresceu 7% desde que a retomada do voo direto entre as duas capitais foi disponibilizada para compra de bilhetes, de dezembro de 2024 até o dia 13 de fevereiro deste ano. O período comparado é o mesmo entre 2023 e 2024. A projeção é que a chegada de turistas internacionais ao Salgado Filho cresça 79% em abril, na comparação com o mesmo mês do ano passado.

Considerando partidas internacionais e domésticas, os voos no acumulado desde a reabertura do aeroporto, de 16 de outubro de 2024 a 9 de fevereiro de 2025, correspondem à chegada de 415 mil passageiros. São Paul, Distrito Federal, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Paraná representaram quase 80% das chegadas. _

Fim de um ciclo heroico

Na próxima sexta-feira, passarão para a reserva os dois últimos militares do grupo de fundadores do Serviço de Busca, Resgate e Salvamento com Cães do Corpo de Bombeiros Militar do RS, em julho de 2003. Após 35 anos na ativa, irão se aposentar o coronel Romeu Rodrigues da Cruz Neto e o primeiro sargento Gerson Meirelles - o terceiro membro fundador foi o primeiro sargento Julenir Cardoso Duarte (já na reserva).

O serviço começou naquela época com somente os três militares e dois cães (Luck e Zeus).

Hoje, são cinco canis espalhados pelo Estado (um na Capital e quatro no Interior) com mais de 25 militares adestradores e 15 cães de busca e salvamento.

Romeu e Meirelles deixam um grande legado e uma legião de agradecidos pelo trabalho na localização de pessoas, seja no RS ou em outros Estados - em tragédias em Santa Cataria, no Rio de Janeiro e em Brumadinho (MG), por exemplo. _

Finalmente, o dinheiro das merendeiras

As merendeiras que prestaram serviço à rede estadual de ensino em 2023 em todo o RS começaram a receber os salários. Elas estavam com os vencimentos atrasados desde novembro. Conforme Arthur Heiss, advogado do Sindicato dos Empregados em Empresas de Asseio e Conservação e de Serviços Terceirizados no Estado (Seeac-RS), o juiz Gustavo Jacques, da Vara do Trabalho de Estância Velha, responsável pelo caso, determinou o depósito na conta da entidade. O sindicato afirma ter enviado Pix para as contas de mais de cem merendeiras. O advogado acredita que todas receberão seus salários até sexta-feira. Na próxima segunda-feira, o sindicato fará um rescaldo para avaliar se o número foi alcançado. _

O incêndio na Câmara de Vereadores de Salvador é a segunda tragédia arquitetônica em 20 dias na capital baiana. No início do mês, foi o teto da Igreja de São Francisco que desabou.

A vida e o legado de um grande publicitário

Geraldo Rodrigues Neto, um dos mais premiados publicitários brasileiros, morreu no último dia 3, aos 71 anos. Porto-alegrense, teve uma trajetória marcada pela criatividade, que renderam a ele mais de 120 prêmios, entre eles um Leão de Ouro no Festival de Cannes.

Ironia do destino, ele morreu poucos dias antes de lançar um livro, que deixou pronto. Em 10 de fevereiro, foi lançado O Recomeçar, obra que se tornou um testamento emocional e profissional de Geraldo. O livro mergulha na trajetória de um homem que soube, como poucos, transformar desafios em novas oportunidades.

Olhar enriquecido

Além do Leão de Ouro em Cannes, ele recebeu a Medalha de Ouro no Festival de Nova York e o prestigiado Critics? Choice - Os 100 Melhores Comerciais do Mundo. No Brasil, também recebeu o prêmio Profissionais do Ano da Rede Globo, além de ser laureado no FIAP e no Clube de Criação de São Paulo.

Em suas páginas, o autor compartilha memórias e momentos de superação. Seu olhar sobre a vida é enriquecido por sua experiência com uma deficiência visual desde os primeiros anos de vida, o que não impediu que trilhasse um caminho de sucesso e resiliência. A obra, adaptada para baixa visão, está disponível na Amazon. _

A correção de Macron e a ironia de Trump

O dinheiro enviado pelo Ocidente em ajuda à Ucrânia foi o motivo de correção feita pelo presidente da França, Emmanuel Macron, a Donald Trump. O americano disse que a Europa recuperaria o dinheiro remetido, enquanto os EUA, não. Macron tocou no braço de Trump e o corrigiu:

Não, na verdade, para ser franco, pagamos 60% do esforço total, e isso incluiu empréstimos, garantias, subsídios e fornecemos dinheiro de verdade, para deixar claro. Temos US$ 230 bilhões em ativos russos congelados na Europa, mas isso não é uma garantia de empréstimo porque não nos pertencem, eles estão apenas congelados.

Enquanto Macron falava, Trump fez um gesto de "mais ou menos". Após a explicação, o presidente americano ironizou:

- Se você acredita nisso, tudo bem por mim. _

INFORME ESPECIAL

Os saudosos bailes das associações de amigos

Jamais descíamos na boquinha da garrafa.

Havia os bailes tradicionais da Sociedade dos Amigos do Balneário de Atlântida (Saba), da Sociedade dos Amigos de Capão da Canoa (Sacc), da Sociedade dos Amigos de Tramandaí (SAT), da Sociedade dos Amigos da Praia de Torres (Sapt) e da Sociedade Amigos do Cassino (SAC). A recreação envolvia expectativas de crianças e marmanjos. Contávamos com a opção do baile infantil de tarde e a do baile adulto de noite.

Não existia nenhuma baixaria. Nenhuma apelação.

Predominava a singeleza das marchinhas. Você cantava Bandeira Branca. Você cantava Turma do Funil. Você cantava Ô, Abre Alas. Você cantava Me Dá um Dinheiro Aí. Você cantava Chiquita Bacana. Você cantava Allah-La-Ô.

Nem dependíamos de DJ. Não se pretendia mudar a playlist, ou acrescentar um hit recente. Pertencíamos a uma geração de indicação livre, em que imperava uma ideia de confraternização para todos.

Foi ali que aprendi a decorar os nossos sambas básicos e ancestrais. A Saba, a Sacc, a SAT, a Sapt e a SAC me serviram de escola das raízes populares.

Dançava-se com os ombros, com o trote da galhofa, abrindo passagem com os braços em ioiô para cima.

"Sou o pirata da perna de pau,

Ainda que algumas melodias apresentassem duplo sentido, não se podia condená-las. Afinal, elas traziam trivialidades - para pensar o contrário, a sua mente é que se encontrava suja. A criatividade transcendia a censura.

Mamãe eu quero mamar

Dá a chupeta para o bebê não chorar."

Você estava entre conhecidos e vizinhos. Precisava namorar alguém sob a vigilância da família, com a arte da sedução indireta, feita por mímica.

O recurso mais comum e seguro era se engatar no trenzinho para buscar quem você gostou no lado oposto da pista.

CARPINEJAR


25 de Fevereiro de 2025
NÍLSON SOUZA

Animais digitais

Aristóteles disse que o homem é um animal social. Umberto Eco escreveu que se trata de um animal fabulador por natureza. Já o nosso melhor fabulador, Luis Fernando Verissimo, numa de suas tantas crônicas geniais, brincou que o homem é o único animal que usa gravata e pensa que Deus é parecido com ele.

Quanta exclusividade perdida! Não somos mais nada disso. Até a gravata saiu de moda nas reuniões de seus principais usuários, os executivos de empresas. Além disso, deixamos de fabular e estamos nos tornando antissociais, a cada dia mais absorvidos pelos aparatos tecnológicos.

Agora somos animais digitais.

Recebi na semana passada (pela via digital, é claro) um desses gráficos acelerados que relaciona a passagem dos anos com os hábitos sociais, mais especificamente com o tempo que as pessoas dedicam às suas atividades e às outras pessoas. Resumo da ópera: nos últimos 15 anos, o mundo online sugou praticamente toda a atenção que era dispensada à família, à religião, aos amigos e aos estudos. Não sei qual é a fonte do levantamento, mas basta sair à rua para se constatar a quantidade de pessoas hipnotizadas pelas telinhas digitais, mesmo quando se reúnem com amigos numa mesa de bar.

Nesse contexto, confesso que esperava uma reação indignada dos jovens estudantes com a recente proibição de celulares nas escolas. Porém, pelo que tenho acompanhado, a garotada está aceitando bem. Reportagens recentes sugerem que crianças e adolescentes começam a resgatar o convívio com os colegas, participam de brincadeiras e jogos tradicionais no recreio e, o mais incrível, prestam atenção no professor em sala de aula. Se essa tendência for mantida, talvez os animais digitais até voltem a interagir socialmente e a fabular. Então, ninguém precisará usar gravata para saber se Deus é parecido conosco. Basta esperar que a menininha da anedota termine o seu desenho.

Já contei aqui, mas repito porque a considero uma pérola da fabulação. Quando a professora perguntou à garotinha de cinco anos o que estava desenhando, ela respondeu: "Deus". A mestra, num impulso de lógica, argumentou: "Mas ninguém sabe como é o rosto de Deus". E a pequena, sem tirar os olhos do papel:

- Já vão saber! O conteúdo desta coluna reflete a opinião do autor

NÍLSON SOUZA


25 de Fevereiro de 2025
OPINIÃO RBS

Nova chance para o polo naval

Permanecem vivos nas memórias dos gaúchos os momentos de euforia pelo surgimento do polo naval da zona sul do Estado, entre 2007 e 2013, e a frustração com o declínio que se seguiu nos anos posteriores. No auge, festejava-se a bonança, os mais de 12 mil empregos gerados e a profusão de negócios que surgiam a reboque dos estaleiros nas áreas de comércio, serviços, construção civil e indústria de transformação. 

Parecia alvorecer uma era de prosperidade econômica para a região, em especial Rio Grande, impulsionada pela grande necessidade de plataformas e outras embarcações pela Petrobras para a exploração do pré-sal. Depois, lamentava-se pelas demissões em massa e o desgosto pelos investimentos e planos fracassados, resultado dos atrasos para a entrega das encomenda da estatal conjugados com o estouro da Operação Lava-Jato, que atingiu em cheio o setor.

Pouco mais de uma década após o começo do naufrágio do polo naval gaúcho, emerge uma nova esperança. Foi formalizado ontem, com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o contrato para a construção de parte de quatro navios no Estaleiro Rio Grande, operado pela Ecovix. São embarcações da classe handy, utilizadas para transportar derivados de petróleo. Em um segundo momento, serão finalizadas em Niterói (RJ), pela Mac Laren. As empresas formaram um consórcio que venceu licitação da Transpetro, subsidiária da Petrobras, no ano passado. O valor do contrato é de R$ 1,6 bilhão.

A expectativa é da criação de mil empregos em Rio Grande nos próximos três anos. É bem abaixo do período áureo do polo naval no passado recente. Ainda assim, a retomada solenizada ontem merece celebração. É uma nova oportunidade para a cadeia produtiva da construção naval se consolidar na Zona Sul, a partir da busca por mais contratos. No horizonte, está uma nova concorrência da estatal para oito navios de transporte de gás, como parte do programa de ampliação e renovação de frota da Transpetro. Dessa forma, ressurge a chance de reaquecimento de toda a economia regional.

Mas o mais importante, para afastar o risco de novas decepções, é demonstrar aprendizado para evitar que os erros do passado se repitam. Políticas como as que exigiam alto nível de conteúdo local, por exemplo, pareciam ter méritos, por incentivar a produção doméstica de bens e serviços para o setor, mas a realidade mostrou que o país não estava preparado para atender a tamanha demanda. 

Uma retomada gradual e mais modesta, com a garantia das entregas no tempo previsto, é mais prudente do que se lançar em contratos ambiciosos, mas arriscados, para a construção de grandes navios e plataformas. Frustrações semelhantes à de Rio Grande ocorreram em outros Estados, e o surto de surgimento de estaleiros deu lugar a uma grande decepção, quebradeiras e milhares de trabalhadores demitidos.

Retomar a indústria naval no país é uma obsessão do governo Lula. A curva de aprendizado não é uma necessidade apenas quanto à competitividade dos estaleiros. Espera-se que, agora, também existam melhores mecanismos de controle para impedir malfeitos como os que ajudaram a pôr a pique o setor há pouco mais de uma década. 

OPINIÃO RBS

25 de Fevereiro de 2025
GPS DA ECONOMIA - Anderson Aires

Inflação persistente e em alta no país

O mais recente relatório Focus, divulgado ontem, destacou variações nas projeções de inflação e câmbio. As estimativas para o futuro refletem em parte o cenário econômico observado hoje no país, com pressão nos preços aos consumidores, mesmo em um ambiente com dólar mais distante dos R$ 6, observados entre o fim de 2024 e as primeiras semanas do ano.

No dólar, o recuo foi leve, passando dos R$ 6 para R$ 5,99 na análise do Focus para o final de 2025. Mesmo assim, é a primeira vez que o indicador fica abaixo dos R$ 6 nas projeções neste ano.

Já a estimativa de inflação para o fechamento do ano pulou de 5,6%, na semana passada, para 5,65% ontem.

No geral, as projeções seguem mostrando tendência de piora. Além da inflação subindo a lomba, a expectativa de juro segue estacionada em 15% ao ano e o PIB também não se mexe, seguindo em 2,01%. Aliás, parte dos economistas enxerga certo otimismo nesse patamar, especulando atividade mais tímida neste ano.

O economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, afirma que o recuo no câmbio no boletim é muito pequeno e insignificante para surtir efeitos nos preços internos. A elasticidade na relação entre efeito do dólar no IPCA e os diferentes impactos em cadeias e setores também afetam essa dinâmica, segundo o economista. Agostini destaca que, mesmo com viés de baixa recente do câmbio, outros fatores tornam esse efeito neutro nos preços:

- Parece que os efeitos do clima foram muito mais severos do que a questão do câmbio. Por exemplo, café e outras commodities agrícolas dispararam de preço por conta do clima. Então, mesmo com o câmbio mais favorável, não teve jeito, o custo aumentou muito. Ficou meio neutro.

A alta da inflação, principalmente em alimentos básicos como carne e ovos, tem sido uma das principais pedras no sapato do governo federal, que luta para frear queda de popularidade. _

Lenha na fogueira

O IPCA-15, um dos principais dados da agenda econômica desta semana no país, sai hoje e ganha um pouco mais de atenção nesse cenário de luta contra a guinada nos preços. Com alimentos pressionando e recentes altas nos combustíveis, existe espaço para avanço mais expressivo e acima da média no indicador de fevereiro. Além disso, avanços sazonais em itens como mensalidades escolares jogam mais lenha na fogueira.

Aporte de R$ 2 milhões para fazer 15 mil alfajores por hora

Com previsão de faturar R$ 30 milhões neste ano, a Odara vai ampliar sua produção de alfajores em 50% em Porto Alegre, para 15 mil unidades por hora. O aporte totaliza R$ 2 milhões.

Até junho, o empreendedor Jeison Scheid pretende investir ao menos metade do montante. Inundada pela enchente, a fábrica localizada no bairro Sarandi teve de parar entre maio e junho de 2024. Mesmo assim, a Odara teve faturamento de R$ 21 milhões no ano, crescimento de 19% em relação a 2023. Paraná está no foco da expansão para 2025. _

Banco gaúcho com lucro recorde em 2024

Os bancões registraram lucros líquidos históricos em 2024. Mas não só: o banco gaúcho Agibank também teve resultado recorde, de R$ 870,9 milhões, aumento de 102,5% em comparação com 2023.

Parte do avanço da lucratividade das instituições financeiras ocorre na esteira do crescimento do crédito. A carteira do Agibank teve alta de 52,1%, atingindo R$ 24 bilhões.

Para 2025, a projeção é de expansão menor no setor. O choque monetário em curso no país deve levar a Selic para perto de 15% e desacelerar a economia. Com inflação mais alta, também há temor de aumento de inadimplência, o que dificulta a concessão de crédito.

Mesmo em cenário mais desafiador, o Agibank prevê expandir três vezes o crescimento médio do segmento em 2025. _

0,43% foi a alta do dólar ontem. A moeda americana fechou o dia em R$ 5,755.

Falas do ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, em Rio Grande sobre a perspectiva de criação de 100 mil empregos em janeiro, acima do esperado, e do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, sobre ajuste fiscal estressaram o mercado ao longo do dia.

GPS DA ECONOMIA

25 de Fevereiro de 2025
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Lula leva esperança de recuperação para Rio Grande

O contrato bilionário para a construção de quatro navios cargueiros não é a redenção da Metade Sul, mas representa uma mudança de perspectiva para Rio Grande, abalado pelo desmonte do polo naval à época do Plano Rio Grande. Por isso, a segunda-feira está sendo tratada como histórica pela prefeita Darlene Pereira (PT).

A retomada do polo naval, mesmo que ainda em caráter precário e com menos empregos do que teve nos anos de fartura, também anima os moradores de Pelotas, cidade que na eleição de 2024 deu a vitória a Fernando Marroni (PT). A proximidade e a afinidade entre os dois municípios fazem com que a saúde financeira de um impacte na economia do outro.

Na época de ouro (década de 2010), o polo naval chegou a empregar 12 mil trabalhadores. Foi um período de crescimento do comércio e dos serviços, mas o sonho não durou.

Com a Lava-Jato e as denúncias de corrupção, o polo entrou em colapso. Hoje, restaram apenas 200 trabalhadores, que executam operações menores, como desmanche e reparos em embarcações. A previsão é de pouco mais de mil empregos no início, mas a expectativa da prefeita Darlene é de ampliação no número de vagas com a contratação de novos projetos.

Do ponto de vista político, o investimento em Rio Grande é simbólico para Lula e o PT. Isso explica a presença de tantos deputados do partido na assinatura dos contratos. Pelotas e Rio Grande deram vitória a Lula no primeiro e no segundo turnos de 2022.

Em 2024, o PT elegeu, além dos prefeitos de Pelotas e Rio Grande, o de Bagé, Luiz Fernando Mainardi. Relembrando: em Bagé, Lula e seus simpatizantes foram corridos a relho quando ele fez uma caravana por municípios do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina e do Paraná.

O fato de Bolsonaro não ter feito qualquer obra de vulto na região (a duplicação da BR-116 até hoje não foi concluída) explica os resultados favoráveis a Lula na Zona Sul. Com os investimentos anunciados agora, o presidente retribui a confiança e prestigia os líderes da região.

Comitiva de peso

Para mostrar a importância dos investimentos, Lula levou para Rio Grande não só a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, mas o vice- presidente Geraldo Alckmin e os ministros das Minas e Energia, Alexandre Silveira, e da Casa Civil, Rui Costa. Não é comum o presidente e o vice viajarem para a mesma cidade. Alckmin é ministro do Desenvolvimento Econômico. _

As vaias ao vice-governador Gabriel Souza em Rio Grande foram a reprise de um comportamento primitivo que petistas exibem desde o primeiro governo Lula. Gabriel estava no evento representando o governo do Estado e deveria ter sido tratado com respeito, como manda a boa educação.

Pela primeira vez, uma mulher à frente de Santa Maria

Pela primeira vez em 166 anos de história, Santa Maria está sob comando de uma mulher. Ontem, o prefeito Rodrigo Decimo (PSDB) transmitiu o cargo à vice Lúcia Madruga, para viajar a São Paulo, onde vai apresentar o case da parceria público-privada (PPP) da iluminação pública em uma conferência sobre o tema.

A transmissão de cargo foi celebrada por familiares, amigos e colegas da professora, como é carinhosamente chamada a vice-prefeita.

- Representar as mulheres do meu município nesta posição é uma honra muito grande. Encaro com muita vontade de fazer acontecer - disse Lúcia, emocionada. _

Compra de imóveis avança na Capital

A Secretaria de Apoio à Reconstrução, do governo federal, assina hoje o contrato de número 500 da Compra Assistida em Porto Alegre. Serão firmados 40 novos contratos, totalizando 531 residências de até R$ 200 mil adquiridas pela União na Capital, destinadas a pessoas afetadas pela enchente de maio de 2024.

Segundo o chefe da pasta, Maneco Hassen, a maioria das casas será adquirida para afetados da região das Ilhas e do Humaitá, no entorno da Arena do Grêmio.

Em todo o Estado, são quase mil residências adquiridas pelo programa. Com as 40 desta terça, o governo chega a 794 contratos assinados. Além destes, a secretaria negocia outros 2.699 imóveis. _

Republicanos tem disputa por comando da AL

Com clima tenso entre os deputados, a bancada do Republicanos deve votar hoje quem comandará a Assembleia Legislativa (AL) em 2026. Enquanto a ala mais conservadora alega falta de interlocução interna e quer nova avaliação do acordo, o deputado Sergio Peres desconversa e mantém a confiança no reconhecimento à decisão que o escolheu como futuro presidente da Casa. _

Internada há quatro dias, Dilma deve ter alta hoje

A ex-presidente Dilma Rousseff deve ter alta hoje do Shangai East International Medical Center, em Xangai, na China, onde está desde sexta-feira devido a uma crise de labirintite. Aos 77 anos, ela foi internada com mal-estar, pressão alta e vômito. A ex-presidente vive na China desde 2023, quando assumiu a presidência do Novo Banco de Desenvolvimento, o "banco do Brics". 

POLÍTICA E PODER


25 de Fevereiro de 2025
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

As urnas e os governos que apoiaram a Ucrânia

Os resultados eleitorais recentes mostram um padrão: governos de países que mais investiram recursos financeiros na Ucrânia, na guerra contra a Rússia, pagaram um preço alto com derrota nas urnas.

O exemplo mais recente é a Alemanha, onde, no domingo, a centro-esquerda do chanceler Olaf Scholz sofreu derrota histórica, a maior desde 1949. Perdeu a eleição legislativa para os conservadores, que voltam ao poder, e para a extrema direita da AfD.

Essa punição no voto pela opinião pública já havia sido sentida pelo Partido Democrata nos Estados Unidos. Joe Biden, que fez do apoio à Ucrânia uma de suas principais agendas na política externa, não conseguiu eleger como sucessora Kamala Harris.

Antes, em julho, no Reino Unido, o governo do primeiro-ministro conservador Rishi Sunak, um dos principais fiadores da Ucrânia contra Vladimir Putin, foi derrotado de forma esmagadora pelo Partido Trabalhista, liderado por Keir Starmer. E, na França, a coalizão de esquerda Nova Frente Popular obteve o maior número de assentos na Assembleia Nacional, embora sem força suficiente para governar sozinha. A coalizão governista, Juntos, ficou em segundo lugar.

Diante do risco de a Ucrânia ficar sozinha na guerra, líderes europeus e do Canadá visitaram Kiev para marcar os três anos da guerra - e demonstrar apoio. Além da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, os visitantes incluíram o primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, e os líderes de Espanha, Dinamarca, Estônia, Finlândia, Islândia, Letônia, Lituânia, Noruega e Suécia, bem como o presidente do Conselho Europeu, António Costa, e a vice-presidente da Comissão Europeia, Kaja Kallas. _

O Papa e a carta de renúncia

Desde a renúncia de Bento XVI, em 2013, a saída de um papa devido a problemas de saúde é algo relativamente normalizado na Santa Sé. O próprio Francisco, desde que foi eleito, tem buscado dar mais transparência à gestão da Igreja. Ele anunciou, em uma entrevista ao jornal espanhol ABC, em 2022, ter escrito uma carta de renúncia entregue ao então secretário de Estado, cardeal Tarcísio Bertone. A ideia é que o documento seja usado caso ele fique inconsciente, por exemplo. _

Entrega e condições - O que disse Francisco

"Assinei a renúncia e disse a ele (Bertone): ?Em caso de impedimento médico ou algo assim, aqui está minha renúncia. Você a tem?."

Questionado se queria que esse fato fosse conhecido, Francisco respondeu: "É por isso que estou lhe contando".

Ele acrescentou que não sabia o que Bertone fez posteriormente com a carta. Acredita que a teria entregue ao sucessor na Secretaria de Estado, cardeal Pietro Parolin.

Texto e suposições

Não é a primeira carta do tipo na história da Igreja.

Paulo VI, e possivelmente Pio XII, também tomoumedida semelhante.

O texto da carta de Francisco não é público, e as condições que ele estipulou para sua renúncia são desconhecidas.

Supõe-se que, caso a carta seja utilizada e o Papa renuncie, o comando da Igreja ficaria a cargo do decano do colégio cardinalício, cardeal Giovanni Battista Re, de 91 anos.

Mandatos prorrogados

Recentemente, Francisco prorrogou os mandatos do decano e do vice-decano do Colégio de Cardeais.

O Papa havia limitado o mandato do cardeal decano a cinco anos em 2019. O mandato de Re havia expirado em meados de janeiro.

Entrevista - Vitorio Sorotiuk - Presidente da Representação Central Ucraniano-Brasileira

"Ninguém quer a paz do cemitério"

O advogado Vitorio Sorotiuk preside a Representação Central Ucraniano-Brasileira (RCUB). À coluna, ele comentou os três anos da invasão russa e a exclusão da Ucrânia da mesa de negociações sobre seu próprio futuro.

Como o senhor avalia a situação na Ucrânia, três anos depois do início da guerra?

A gente está em uma situação delicada. Primeiro, a Ucrânia resistiu durante três anos ao segundo maior exército do planeta. Heroicamente. De um lado, foi a derrota do Putin por não ter conseguido mudar a Ucrânia inteira, mas, por outro lado, ele está ocupando 20% do território da Ucrânia. Nesse momento, se tinha uma oligarquia tanto na Ucrânia quanto na Rússia, principalmente, que a gente chama o reino das oligarcas, nos Estados Unidos também passou para o domínio de oligarquias. 

De um novo tipo: homens que jogam por debaixo do tapete todos os princípios civilizatórios e legais que a humanidade construiu nos escombros da Segunda Guerra Mundial, como as Nações Unidas e todas as normas internacionais. Está vindo um pragmatismo de interesses puramente econômicos: os EUA se somam à Rússia para pegar as riquezas do país. A situação torna-se mais complicada. É claro que todo mundo deseja a paz. Mas no cemitério também tem paz. E ninguém quer a paz do cemitério. E ninguém quer a paz do agressor.

O que significa a eventual vitória da Rússia?

Regride-se a um período anterior a 1945, com as regras anteriores. É isso que a administração Donald Trump está fazendo em nível internacional.

Como o senhor avalia o fato de a Ucrânia não ter sido chamada para negociar seu próprio futuro?

Hoje (ontem), Emmanuel Macron está com Trump. Não é uma questão ucraniana, é europeia. Você tem um país que faz fronteira com Lituânia, Letônia e Estônia, a Finlândia foi obrigada a entrar na Otan. Espero que essa semana, Macron converse com Trump, o representante britânico também irá falar com ele.

Zelensky tinha de estar envolvido nessas conversas?

Obrigatoriamente. Na Rússia com o Putin houve uma regressão na questão da criminalização da violência contra a mulher, virou um caso de problema doméstico. (Há) eleição fraudada, há 20 anos Putin se reelege. Jornalistas, a maioria está no exílio. É uma ditadura e um novo termo que cunhou-se hoje, de um fascismo russo, chamado ruscismo.

O que o senhor acha que vai ocorrer com a Ucrânia nas próximas semanas?

Hoje a Europa reagiu, com uma nova onda de sanções contra a Rússia. O próprio Zelensky disse que temos de criar o exército europeu agora, vai levar ao fortalecimento militar da Europa, e a questão da Europa é gastar mais em armamento. Na verdade, estava muito cômodo embaixo do guarda-chuva dos EUA, mas eles são imprevisíveis. _

INFORME ESPECIAL

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025



24 de Fevereiro de 2025
CARPINEJAR

20022002

Mariana e Vicente facilitaram a minha paternidade. São dois filhos que me ensinaram como agir. Bastava ouvi-los e aceitá-los. Vesti a transparência. Vicente completou 23 anos na última quinta-feira. Nasceu no palíndromo 20022002, data mágica, capaz de ser lida de trás para diante.

Talvez isso explique o seu temperamento objetivo, claro, sem avessos. Não suporta mentiras, duplicidade, ambiguidade, verbo que não seja atitude.

Fica ofendido com injustiça. Reúne as distintas versões dos fatos para opinar. Dentro dele, existe uma delicadeza para conseguir que o interlocutor mude de perspectiva como se ele próprio fosse descobrindo a verdade sozinho.

Possui uma fala mansa, mas determinada. Não sobe o tom de voz, e sim o volume da empatia. Divergências são suavizadas com "eu entendo o seu ponto de vista". Ninguém resiste depois de ser legitimado. Realmente escolheu o melhor curso para exercitar o seu dom: Relações Internacionais, na UFRGS. Sua formatura será em 27 de março.

Mas ele poderia ter sido cineasta. Poderia ter sido escritor. Não duvido de que ainda se torne. Não duvido de coisa nenhuma. Vem sendo cada vez mais ele mesmo. É acolhedor como a sombra de uma árvore no verão. É discreto como o primeiro vento da manhã. Não tem redes sociais. Não faz questão de aparecer. Combate a vaidade com o estudo.

Quando ando com ele na rua, revela o superpoder de trocar rapidamente de lado. Vou olhar para a esquerda, ele já está na direita. Eu o perco de repente pelo prazer de ganhá-lo de volta em seguida. Ele cria saudades estando junto.

Tudo o que indiquei para ele, ele leu. E leu muito além do que li, encontrando seus parentes na palavra. A biblioteca é a nossa parede, os livros são os nossos quadros.

Sei que ele escreve diários em caderninhos numerados. Não tenho ideia do conteúdo. Notei apenas que sua letra amadureceu com a prática da verdade. Era miúda e foi se esticando. A gente conversa todo dia. Nunca pensei que um filho também seria meu melhor conselheiro.

Somos colorados fanáticos. Somos viajantes natos. Somos adoradores de pudim de leite.

Eu o amo tanto que chega a doer. Mas essa ligação não padece de sofrimento, é como aquela gargalhada que dói, que dobra o corpo pelo acesso de cumplicidade. Sua simples presença já me alegra. Sua existência me fortalece.

Foi com Vicente que eu valorizei a urgência de cumprir as promessas. Ele é torcedor do Indiana Pacers. Na sua infância, eu disse que iria levá-lo para assistir aos jogos do seu time de basquete pela NBA em Indianápolis. No ano passado, estávamos lá no Gainbridge Fieldhouse.

Ele me encarava diferente. Com os olhos encerados.

Perguntei: - O que foi? Ele respondeu: - Nada!

Esse nada entre pai e filho é tudo. Quando nada falta.

Que seus sonhos se realizem, Vicente, e que suas realidades sempre virem sonhos. _

CARPINEJAR


24 de Fevereiro de 2025
CLAUDIA LAITANO

Desmemória

"Vergangenheitsbewältigung" é uma daquelas palavras que não se solta casualmente em uma conversa sem correr o risco de cobrir o interlocutor de espanto e perdigotos. Duden, o Aurélio alemão, dá a seguinte definição para o termo - cunhado, não por acaso, em 1945: "Debate público realizado dentro de um país sobre um período problemático de sua história recente. Na Alemanha, em especial sobre o nacional-socialismo".

Foram os alemães que inventaram a palavra, mas outros países teriam motivos de sobra no armário para pegar emprestado o espírito da coisa, se quisessem ou tivessem liberdade para tanto: sul-africanos fazendo um mea-culpa sobre o apartheid, russos expondo os massacres do stalinismo, norte-americanos reparando os danos da segregação racial, brasileiros trazendo à tona os crimes cometidos pelos militares durante a ditadura.

Escrevo sem saber os resultados das eleições alemãs de domingo, mas o rápido crescimento do partido populista de extrema direita Alternativa para a Alemanha, principalmente entre homens jovens, mostra que não há "Vergangenheitsbewältigung" que sempre dure, nem vergonha que nunca acabe. De todos os países em que a extrema direita avançou nos últimos anos, nenhum construiu tantos anteparos legais contra a banalização dos erros do passado e a distorção da história. Parecia impossível que a Alemanha - justo a Alemanha - fosse escorregar nessa casca de banana.

Na contramão da desmemória coletiva que transforma a história em uma espécie de parque temático decorado conforme as preferências do freguês, o passado tem se tornado uma das matérias-primas mais valorizadas da literatura contemporânea. O interesse por diários, relatos biográficos e sociobiográficos, histórias de família (como Ainda Estou Aqui, de Marcelo Rubens Paiva) e autoficção não é novo, mas a chamada "escrita de si" talvez tenha chegado ainda mais perto de ser vista como tendência dominante depois que a memorialista Annie Ernaux ganhou um Nobel, em 2022.

Como se uma das respostas da arte para as tentativas cada vez mais frequentes de varrer o "Vergangenheitsbewältigung" para baixo do tapete esteja vindo na forma de um imenso quebra-cabeças de relatos que reavivam e reafirmam a potência da memória. _

CLAUDIA LAITANO

24 de Fevereiro de 2025
OPINIÃO RBS

Caso para o plenário do STF

É bastante provável que a denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) contra Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado e outros crimes será aceita pelo Supremo Tribunal Federal (STF). O ex-presidente deve ser julgado ainda neste ano pela Corte. Confirmando-se a hipótese, será um processo fadado a galvanizar a atenção dos brasileiros, com ampla reverberação também internacional. Figuraria no banco dos réus, afinal, um ex-mandatário da República que mantém a devoção de parcela significativa dos brasileiros e a repulsa de outra parte. Estaria ainda em análise se foi tentada a mais grave agressão contra uma democracia.

Sobram motivos para concluir que será um acontecimento histórico e de enorme repercussão, junto ao escrutínio da conduta dos demais denunciados que vierem a se tornar réus, alguns de alta patente militar. Da mesma forma, não faltam razões para se reforçar a importância de o processo penal ser conduzido sem que se arrede um milímetro das balizas da Constituição e com totais garantias de prerrogativas como o direito ao contraditório e à ampla defesa. Dada a sensibilidade do caso, é preferível inclusive que sejam feitas concessões não obrigatórias para estreitar a margem de versões que coloquem suspeição no processo.

Um destes flancos abertos é a indicação de que o ministro do STF Alexandre de Moraes pretende manter o eventual julgamento na Primeira Turma da Corte, composta por ele e por Flávio Dino, Cristiano Zanin, Cármen Lúcia e Luiz Fux. O mais aconselhável seria levar o caso para o plenário da Corte. Uma decisão extraída de todo o colegiado teria maior aceitabilidade perante o conjunto da opinião pública. Os 11 ministros poderiam votar e expor suas razões. Manifestariam-se os membros da Segunda Turma Edson Fachin, Gilmar Mendes, Dias Toffoli, Nunes Marques e André Mendonça. Os dois últimos foram indicados por Bolsonaro para o STF.

Noticia-se que há ministros descontentes com a postura de Moraes. Entre outras alegações, lembram que a Corte estará analisando as responsabilidades de um ex-presidente da República. Trata-se de um caso de rara retumbância, de peso político e que ficará na memória do país. Nada mais adequado, portanto, do que dividir a tarefa com todos os membros do STF, conferindo maior legitimidade à decisão.

Não se deve evitar debates e divergências públicas que naturalmente surgirão. Caberá a quem acompanhar as diferentes fundamentações fazer o juízo sobre os argumentos expostos. Talvez nada faça os apoiadores mais empedernidos de cada um dos lados da polarização mudarem a sua visão. Ainda assim, não são poucos os brasileiros que se rendem à razão e aos fatos.

O regimento da Corte foi alterado em 2023. Processos penais podem ter desfecho nas turmas. Mas Moraes e a própria Primeira Turma podem levar o julgamento para o plenário. Os réus envolvidos nos atos antidemocráticos de 8 de janeiro foram julgados pelo plenário. Uma fatia da sociedade nutre desconfiança pelo STF ou por parte de seus ministros. Há motivos descabidos, mas outros são bastante razoáveis, como a concentração excessiva de poder em Moraes, a verborragia de outros membros e recentes decisões relacionadas à Lava-Jato. Levar a decisão para os 11 ministros, portanto, faria bem ao próprio STF como instituição e seria um argumento a mais para atestar que foi feita justiça, com correção e lisura. 


24 de Fevereiro de 2025
POLÍTICA E PODER - Paulo Egídio

Gaúchos disputam o mesmo ministério

Considerada certa em Brasília, a saída de Paulo Teixeira do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) abriu espaço para uma disputa pela cadeira em meio à reforma ministerial estudada pelo presidente Lula. No momento, os mais cotados para a função são dois petistas gaúchos: Edegar Pretto e Paulo Pimenta.

Presidente da Companhia Nacional do Abastecimento (Conab), Pretto ganhou força nos últimos dias. Dois dirigentes nacionais do PT levaram o nome dele como indicação ao ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, um dos auxiliares diretos de Lula.

Pretto já vinha acumulando credenciais ao propor diretamente a Lula uma solução para baixar o preço dos alimentos e ao dobrar o orçamento do programa que compra alimentos de agricultores familiares. Com relação histórica com o MST, tem a simpatia dos movimentos sociais ligados ao campo e poderia facilitar a vida de Gleisi Hoffmann, que deve substituir Marcio Macêdo na Secretaria Geral da Presidência, pasta que articula a relação do governo com a sociedade civil organizada.

Em contrapartida, Pimenta planeja voltar à Esplanada após ser demitido da Secretaria de Comunicação da Presidência (Secom) e tem como trunfo a relação pessoal com Lula.

A decisão do presidente terá reflexos na disputa pelo comando do PT gaúcho e nas eleições de 2026. Lula já demonstrou preferência pelas candidaturas de Pretto ao Piratini e de Pimenta ao Senado, mas correntes internas questionam uma decisão "de cima para baixo" e cogitam pleitear a realização de prévias para definir os candidatos. Nesse cenário, quem estiver no ministério ganha status de interlocutor direto do presidente e mais poder para articular a liberação de recursos em Brasília.

No período como ministro da Secom, Pimenta ocupou o espaço de "embaixador" do RS no governo federal, o que garantiu vigor para que se colocasse como principal nome do PT para 2026 no Estado. No entanto, integrantes de outras correntes petistas afirmam que esse poder se esvaiu com a saída da Secom.

Hoje, Pretto e Pimenta estarão ao lado de Lula no evento marcado para as 10h30min em Rio Grande, no Sul do Estado. _

Álém do Mampituba

Criada pelo governo Leite para atrair investimentos ao Estado, a Agência de Desenvolvimento do Rio Grande do Sul (Invest RS) planeja abrir um escritório em São Paulo ainda neste semestre. O objetivo será atrair investidores estrangeiros, que muitas vezes vêm ao Brasil e ficam apenas na capital paulista.

A iniciativa está incluída no plano de trabalho de 2025 da Invest RS, no qual serão aplicados R$ 23,7 milhões. 

Caminho facilitado

A decisão do PSDB de partir para uma união com o Podemos e o pequeno Solidariedade, em vez de uma fusão com o PSD ou com o MDB, facilita o caminho para que o governador Eduardo Leite consiga disputar a Presidência da República em 2026.

A presidente do Podemos, Renata Abreu, já convidou Leite a concorrer por seu partido em 2022 e permanece entusiasmada com a ideia.

Se a opção fosse pelo PSD, os tucanos chegariam em tamanho menor e estariam sujeitos às decisões de Gilberto Kassab. Leite ainda enfrentaria a concorrência interna do governador do Paraná, Ratinho Júnior. Por sua vez, o MDB ocupa espaços estratégicos no governo Lula, inclusive com rumores de que teria interesse em indicar o vice do petista em 2026. _

aliás

Dirigentes do Podemos garantem que a união com o PSDB está encaminhada, mas ainda é preciso definir o formato do casamento - fusão, federação ou incorporação - e resolver impasses em Estados onde ainda há dissenso, como Minas Gerais e Goiás.

Lula diz que nem auxiliares sabem feitos do governo

(Interino)

- Fiz uma reunião ministerial há mais ou menos 20 dias e eu descobri, na reunião, que o ministério do meu governo não sabe o que estamos fazendo. Ora, se o ministério não sabe, o povo muito menos - queixou-se Lula, no sábado, durante o evento no RJ.

Mais uma vez, o presidente criticou a comunicação oficial.

Após listar uma série de números positivos da economia, como a queda no desemprego e o aumento da massa salarial, Lula disse que, entre 2023 e 2024, promoveu mais políticas de inclusão social do que em seus oito anos de gestões anteriores, mas reclamou que essas informações não foram repassadas aos militantes e à população.

Diante disso, prometeu distribuir materiais que listem as realizações do mandato nos dois primeiros anos e pediu que as informações sejam replicadas pelos petistas:

- Um publicitário falava sempre para mim: a gente só vai ganhar o jogo quando as coisas que a gente faz estiverem sendo comentadas na mesa do bar. _

De mala e cuia

Fora do país desde 2023, o ex-ministro Onyx Lorenzoni (PL) retorna ao Rio Grande do Sul em maio, com a intenção de mergulhar nas articulações políticas para a eleição de 2026. Antes, Onyx deve se encontrar no mês que vem com o ex-presidente Jair Bolsonaro, em Brasília.

Após a derrota para Eduardo Leite no segundo turno em 2022, Onyx planejava concorrer novamente ao Piratini. No entanto, tem sido aconselhado a considerar uma candidatura ao Senado ou a deputado federal. 

Falta de diálogo

Filho de Onyx, o deputado estadual Rodrigo Lorenzoni diz que ainda não há definição sobre a candidatura do pai em 2026 e reclama da falta de discussão no PL sobre a eleição estadual.

O deputado reconhece que a candidatura de Luciano Zucco ao Piratini encontra eco nas bases do partido, mas diz que o mesmo não ocorre com a pretensão de Giovani Cherini de disputar o Senado.

- Sou líder da bancada estadual e nunca fui perguntado sobre 2026 - diz Rodrigo. _

Registro de procedência

Para dar transparência às emendas parlamentares recebidas, a prefeitura de Novo Hamburgo criou um canal específico no Portal da Transparência que identifica o valor, o destino dos recursos e quem foi o deputado ou senador que repassou a verba.

O pedido para a criação da ferramenta foi encaminhado à diretoria de Transformação Digital da prefeitura pelo prefeito Gustavo Finck (PP). _

MIRANTE

Oito vezes vereador de Porto Alegre, Reginaldo Pujol, 85 anos, segue sendo figura frequente no plenário da Câmara. Filiado ao União Brasil, Pujol ocupa um cargo comissionado na Procuradoria-Geral do Município e ajuda o governo Melo na articulação política.

Está disputado o passe da deputada federal Any Ortiz, de saída do Cidadania. Em Porto Alegre, aliados indicam preferência pelo PP.

Presidente do MDB no RS, o deputado Vilmar Zanchin reúne a executiva hoje para definir a data das convenções municipais de 2025. O mais provável é que fiquem para abril.

Sem candidatos postos para 2026, o PP tem três correntes internas no RS: os que querem compor com Gabriel Souza (MDB), os que querem uma aliança com o PL e os que clamam por candidatura própria. A última ala é minoritária.

POLÍTICA E PODER

24 de Fevereiro de 2025
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Os extremistas estão chegando

A centro-direita conquistou a maioria dos votos nas eleições na Alemanha. Estamos falando da CDU (União Democrata-Cristã), do líder Friederich Merz, a direita moderada, que imprime uma derrota mordaz à centro-esquerda e encerra a era Olaf Shcolz no poder.

Mas essa não é a notícia. A informação relevante e com a qual todos deveríamos nos preocupar é que a AfD (Alternativa para a Alemanha), o partido de extrema direita, ficou em segundo lugar. Sejamos claros: na Alemanha, no país que foi palco da experiência nefasta do nazismo, neste momento, a ultradireita, de princípios xenófobos, racistas, anti-imigração, está se tornando a segunda maior força do Bundestag (parlamento alemão). Não é pouco. É terrível.

É sinal dos tempos. Não é um fenômeno isolado: a extrema direita vinha ganhando força na Áustria, na Itália, na Holanda e na França. Agora, chega à Alemanha. Não pode ser visto como algo comum. Deveria provocar estupor pelas memórias que suscita.

Desde a Segunda Guerra Mundial, um partido extremista não alcançava tamanho poder no país de Adolf Hitler. Na mente, vem à memória a República de Weimar, a erosão das siglas de centro, o fim do diálogo.

Há, por óbvio, explicações: o momento econômico, a crise migratória, o medo da Rússia (que Donald Trump só alimenta) e tudo mais. Mas a adesão de eleitores não se traduz, necessariamente, pelas políticas externas. Há uma grande desilusão com as promessas não absorvidas pela globalização.

A AfD, por enquanto, não deve chegar a indicar o chanceler, já que todos os partidos avisaram que não pretendem se aliar com a sigla para formar um novo governo. Há um certo corredor sanitário. Mas até quando a fronteira entre a democracia e o abismo irá se manter impenetrável é algo que não sabemos. _

Para ficar por dentro - O conclave da vida real

Para quem se interessa sobre as regras que regem um conclave (da vida real), sugiro o livro de John Allen Jr. Conclave - A política, as personalidades e o processo da próxima eleição papal. Foi escrito no momento em que havia o evidente declínio da saúde do papa João Paulo II, em 2005. Foi minha cartilha no Vaticano durante a cobertura daqueles dias em Roma. O jornalista Allen Jr. era correspondente na capital italiana da National Catholic Reporter. É um dos maiores entendedores da política do Vaticano no século 21. _

No mínimo, devo dizer que a obra faz uma crítica ao catolicismo, portanto, não espere, necessariamente, uma história religiosa.

Vou me deter à política, que conheço um pouco após a cobertura de dois conclaves: a sucessão de João Paulo II, em 2005, e de Bento XVI, em 2013. Falei "política", porque, sim, embora a Igreja tenha sua porção sagrada, há uma parte humana, que, dia a dia, intramuros, é acometida pelo modo de gerir comezinho dos humanos. E essa porção nem sempre conhecida dos purpurados vem à tona no conclave, a eleição do papa: as alianças, as expectativas e visões de mundo de cada um dos cardeais, o conflito constante entre tradição e modernidade.

Nisso, o filme de Edward Berger é exemplar: revela os jogos de poder, a velha disputa entre cardeais progressistas (o cardeal Thomas Lawrence) e conservadores (o cardeal Godofredo Tedesco) e, sobretudo, o poder da Cúria.

Aliás, escrevi, no fim de semana, que o Papa é prisioneiro do trono de São Pedro. Lembrei, ao assistir ao filme, que o Pontífice é, verdadeiramente, refém da Cúria - a burocracia da Santa Sé, onde tudo se move mais devagar ainda do que em um governo laico.

O Vaticano é uma monarquia teocrática - e além da burocracia de qualquer Estado, há, ainda, os dogmas de fé, a tradição, as puxadas de tapete e o poder. Ah, vaidade é um pecado capital, mas, não esqueçamos a porção humana da Igreja, de que já falei.

O filme é bom, embora as cenas um pouco escuras para meu gosto. Também senti falta de mais expressões extramuros, mas entendo a opção do diretor em enfatizar a clausura. A obra aborda o papel secundário reservado às mulheres no clero, especialmente das religiosas. Existe uma dificuldade além de se buscar, nos tempos atuais, o isolamento total dos cardeais do mundo exterior.

Lawrence é o mais antigo dos cardeais. Cabe a ele administrar a "sede vacante" até que o novo Papa seja eleito. Vive os dilemas de organizar uma eleição na qual ele próprio pode ser o eleito. Josef Ratzinger, em 2005, era o decano.

Contradisse a máxima do conclave de que, quem entra papa sai cardeal. O alemão entrou papa e saiu... Papa. 

Casa dos Raros - Conferência na UFRGS sobre crise climática

O projeto RS: Resiliência & Sustentabilidade, que ocorrerá no Salão de Atos da UFRGS, é fruto de cooperação entre a Secretaria para Apoio à Reconstrução do Rio Grande do Sul, do governo federal, e a Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). A iniciativa apoia 10 linhas de pesquisa das universidades federais gaúchas. _

Em tempo: na vida real, se o pior ocorrer no Vaticano, e o papa Francisco morrer, o papel exercido na ficção por Thomas Lawrence, vivido pelo ator Ralph Nathaniel Twisleton-Wykeham-Fiennes, será exercido pelo cardeal italiano Giovanni Battista Re. Ele é o decano do colégio cardinalício, logo, o administrador de eventual conclave.

INFORME ESPECIAL

domingo, 23 de fevereiro de 2025


Por que pessoas inteligentes acreditam em mentiras?

O pior ignorante é aquele que sabe só a metade da história. Sócrates já dizia o óbvio: "Você não sabe o que não sabe". Esse pensamento nunca fez tanto sentido quanto na sociedade moderna. O maior perigo não está em não saber, mas em não saber que não se sabe. O pensamento socrático nos ensina que reconhecer a própria ignorância é o primeiro passo para se alcançar a verdade e a sabedoria.

No entanto, o reconhecimento da própria ignorância é, paradoxalmente, uma habilidade que as pessoas que se consideram esclarecidas geralmente não têm.

Vivemos bombardeados de informações por todos os lados, o que não significa que elas nos aproximam da verdade ou aumentam a nossa compreensão da realidade. A armadilha está em acreditar que a mera abundância de informações nos deixará suficientemente bem-informados. Como diz Yuval Harari, a informação nada mais é senão uma tentativa de perceber realidade, mas não é a realidade em si. Sem o exercício do pensamento crítico, ela se transforma facilmente em desinformação.

A imagem mostra uma estátua de Sócrates, um filósofo grego, sentado em uma cadeira. Ele está com a mão no queixo, em uma pose pensativa. A estátua é esculpida em pedra clara e apresenta detalhes nas vestes. Ao fundo, é possível ver uma estrutura arquitetônica e um céu claro.

Sócrates já dizia o óbvio: “Você não sabe o que não sabe” - Fábio Chiossi/Folhapress

O pior ignorante é aquele que sabe apenas a metade da história. Conhecimento funciona como geleia: quanto menos se sabe mais se tenta espalhar.

Existem lacunas no nosso conhecimento que não estamos dispostos a confrontar. É mais fácil reforçar as crenças que confirmam o nosso universo familiar do que lidar com verdades que podem ser dolorosas e desafiadoras. É esse o maior problema: as mentiras podem ser mais confortáveis do que a verdade.

Transformar dados em conhecimento, requer uma dose de humildade intelectual, pois a construção humana é incapaz de capturar a totalidade da realidade. Tão abundantes quanto as informações, são as pessoas que não têm humildade intelectual, que têm uma confiança desproporcional –e muitas vezes ilógica– em suas próprias convicções. Não por coincidência, são as que mais compartilham conteúdos emitindo (replicando) opiniões sobre tudo, sem ter absorvido e refletido minimamente sobre a verdade dos fatos.

O fluxo insistente de informações tem o mesmo efeito da falta de informações: a desinformação. Ele é usado como um instrumento de controle e polarização. Histórias são editadas, inimigos são fabricados, medidas extremas são justificadas. Os livros de história nos mostram o quanto isso é perigoso.

Não nos enganemos que é um fenômeno exclusivo dos regimes totalitários. A desinformação representa risco grave para democracias modernas e sociedades abertas, que parecem caminhar para a ruína.

Distorções são o prato cheio para confundir o debate público e tornar indistintas medidas repressivas de atos de resistência legítimos. Situações antes consideradas inaceitáveis, foram normalizadas: a legitimação do terrorismo como uma forma possível de se negociar; o negacionismo da ciência; a relativização de direitos fundamentais; a negação de mudanças climáticas –o que tem retardado ações urgentes para se combater a crise ambiental.

A desinformação já fez os seus estragos mais perigosos: minou princípios éticos e morais, corroeu a confiança nas instituições e intensificou a polarização e o ódio.

Estamos condenados, então, a repetir mentiras até que elas se tornem verdades em nossas mentes?

Talvez, o maior problema não seja a mentira, ou a estupidez –ambas condições inevitáveis que nem os mais inteligentes escapam–, mas a aversão à sensatez e o desprezo pela verdade.

sábado, 22 de fevereiro de 2025



07/02/2025 - 16h00min
Martha Medeiros

Longa vida àqueles que ainda vivem para nos inspirar

Somos seres domesticados que cumprem o script universal e que precisam desesperadamente de transcendência, portanto, saudemos os talentos multiculturais que nos salvam da brutalidade e da tacanhice

Lembro das risadas que Ney Latorraca provocava em novelas que iam ao ar logo após o telejornal onde Gloria Maria exibia suas primeiras reportagens. Nos intervalos, os bordões criados pela equipe de Washington Olivetto nos induziam a escolher determinada marca de geladeira ou de lingerie, e depois, tevê desligada, era a hora de escutar Gal Costa ou bailar com Rita Lee, mulheres modernas que também devem ter lido as crônicas, contos e poemas de Marina Colasanti, que abriu tantas portas para nós. 

É um baque chegar nesta fase da vida sabendo que amanhã ou depois virá a notícia de mais uma baixa entre aqueles que fizeram parte da nossa história. Estão nos deixando, um a um. Eles adoecem, eles envelhecem – assim como nós. Perdê-los é perder-se também. 

O paradoxo é que, mesmo abalados por esta “renovação de estoque” (assim Millôr Fernandes designava o processo de nascimento e morte), ainda assim, só temos a celebrar. Tivemos a honra de sermos todos contemporâneos. Cada época tem seus ícones, e minha geração foi bem sortuda com o elenco que lhe coube. Que tipo de existência teríamos sem os craques da Tropicália e do Asdrúbal, sem Domingos Oliveira, sem Antonio Cícero? Os dias se tornam inúteis se não escutamos uma canção ou lemos um poema de algum mortal que ajuda a nos formatar.  

Quem primeiro me alcançou um livro de Marina Colasanti foi minha mãe, eu tinha 20 anos, e a partir daí Marina também assumiu, para mim, um papel maternal. Ambas – mãe em contato direto e escritora em contato indireto – foram os faróis que me conduziram na vida: Martha, é por aqui. 

Hoje sei que de nada vale o empenho diário – trabalhar, sobreviver, cuidar dos outros, cuidar de si, sofrer, resistir – se não formos compensados por momentos de plenitude, em que nos conectamos com as ideias e os sentimentos de estranhos que iniciam um diálogo secreto conosco e fazem nossa consciência se expandir. 

Às vezes, quando fico sem ânimo com o rumo que o mundo está tomando, me pergunto por que estou mofando dentro de um apartamento, cumprindo horários e compromissos repetitivos a fim de manter a ordem social, em vez de viver de forma mais lúdica, em simbiose com a natureza, livre das agendas e das expectativas dos outros? 

Não há resposta certa, todo cotidiano é imperfeito: nenhuma maneira de existir atende 100% às nossas necessidades. Então passamos a vida tentando nos adequar, até que chega o dia em que o esforço não é mais preciso. Fim.

Em que tudo isso vai dar, afinal? Em nada. Somos seres domesticados que cumprem o script universal e que precisam desesperadamente de transcendência, portanto, saudemos os talentos multiculturais que nos salvam da brutalidade e da tacanhice. Longa vida àqueles que ainda vivem para nos inspirar. 


22 de Fevereiro de 2025
CARPINEJAR

Caminhos do desejo

Existe uma expressão urbanista para caracterizar aquela trilha aberta pela população nos parques e praças: caminhos do desejo. São atalhos feitos por dentro do gramado, contrariando o desenho do passeio público. Costumam servir para ganhar tempo e encurtar os passos.

Por mais que tenha a orientação clara das calçadas, o fluxo transgride e inventa um novo roteiro. De tanto ser percorrido, abre-se uma senda de terra batida. É possível visualizá-la de longe. Caminhos do desejo representam o que todos vivemos nas amizades.

Ainda que você dê um sábio conselho, alerte sobre os perigos, pese os prós e contras do dilema, certamente o amigo não seguirá suas palavras. Nada o fará se desviar da determinação dele em direção ao precipício.

Qualquer argumentação racional e serena não substitui o impacto da experiência pessoal. O sujeito precisa mesmo quebrar a cara e juntar os seus cacos em vitral para aprender a lição. Só a experiência ilumina a verdade. Só a experiência apura os ouvidos. Só a experiência catequiza.

Sua retórica bonita não convencerá ninguém, seus pareceres fundamentados encontrarão as paredes da obsessão. Você pode ter passado por uma situação semelhante, um sofrimento parecido, estar falando do lugar da ferida, e o amigo não acatará a sua versão dos fatos.

Acreditará que com ele será diferente, que contará com mais sorte do que você, desprezando estatísticas e evidências. É o que mais acontece nos nossos afetos: ser refutado, e continuar junto.

É uma falácia supor que os amigos pensam igual, sentem igual. O que mantém os laços é que eles nunca se separam, apesar das divergências latentes, apesar de quem se confidenciou nunca adotar a orientação confiável da parceria.

Irei ilustrar a provação com um exemplo comum.

O amigo amarga um relacionamento tóxico, um cativeiro emocional, é humilhado com frequência pelo seu par, constrangido a pedir licença para poder se manifestar, recebe gritos e depreciações em troca de uma atenção apaixonada e incondicional.

No primeiro término, ele solicita a sua opinião. Você diz para aproveitar a oportunidade de livramento, explica que a pessoa não o merece, que ele mudou para pior com a família e com o seu círculo de contatos mais próximo. Só falta soletrar: não volte!

Na semana seguinte, o amigo some porque realizou exatamente o oposto - estabeleceu a reconciliação. Resta conviver com o casal e permanecer disponível na retaguarda. Não tem como ficar ofendido, não tem como se afastar, não tem como se ver desvalorizado e ludibriado.

Os enganos do romance são maiores do que os acertos das amizades. Lealdade é aguentar o erro de quem você ama, suportar a mancada, penar lado a lado, e depois confortar como se fosse uma novidade, como se nada tivesse sido dito antes.

Jamais cutucar o orgulho com "eu avisei!". 

CARPINEJAR