sexta-feira, 29 de outubro de 2021


INFORME ESPECIAL

Um poeta rumo à imortalidade

Conhecido pelo lirismo com que retrata a verve e a vida do gaúcho campeiro, o poeta Luiz Coronel, 83 anos, deseja ter o nome e o legado imortalizados. Candidato a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras (ABL), o criador de mais de 70 obras - entre elas livros, dicionários e letras de canções clássicas do arcabouço regional - briga uma peleia das bravas. Mas seu cavalo é tinhoso.

- Só não corro contra o vento, porque o vento é meu padrinho - brinca o mestre, citando uma das joias de sua lavra.

Como disse a Rosane de Oliveira na crônica do último domingo, publicada em GZH, se depender da torcida do Rio Grande do Sul, Coronel já está mais do que eleito. A expectativa é de que o resultado saia até o fim de novembro.

Se vencer, o escritor promete fazer um tributo a Mario Quintana, que morreu sem ter sido aceito na ABL, e propor uma série de ações literárias.

- Sou um homem de projetos e vou seguir assim. Não quero ser imortal por vaidade. O tempo é uma montanha. Tu sobes e vês o mundo mais claro. Quero ser imortal para fazer o pensamento circular - ressalta Coronel.

JULIANA BUBLITZ INTERINA

quinta-feira, 28 de outubro de 2021


28 DE OUTUBRO DE 2021
ALMANAQUE GAÚCHO

Esqui volta a ser atração em Garibaldi

A cidade de Garibaldi, na serra gaúcha, resgata uma de suas maiores atrações turísticas - de grande sucesso na época e que rendeu ao município reconhecimentos no Brasil e no Exterior. No dia 31 de outubro de 1970, quando a cidade comemorava 70 anos de emancipação, a maior pista artificial de esqui das Américas, com um quilômetro de extensão, foi inaugurada oficialmente.

De acordo com um documento do Arquivo Histórico de Garibaldi, a Academia Brasileira de Esqui foi criada em 24 de agosto de 1968, tendo entre seus sócios-fundadores o empresário garibaldense David Afonso Antônio Santini (in memorian) e outros 27 nomes. Depois de muitos testes e obras, foi iniciada a construção da primeira pista experimental, concluída em 19 de agosto de 1968. Um dia depois, 20 de agosto de 1968, David Santini esquiou na serra gaúcha. Simultaneamente, foram concluídas as obras do primeiro tele assento funicular brasileiro, com 40 cadeirinhas. Os equipamentos necessários para a prática do esporte, como os esquis, sapatos, ferragens e bastões, foram fabricados no local. Outra atração construída para os visitantes foi o tobogã gigante, com 300 metros de comprimento, em três faixas paralelas de deslize individuais, sobre tapetes com freios para controle de velocidade. A estação contava, ainda, com um ringue de patinação sobre rodas. O complexo de lazer foi desativado em 2001.

A antiga Estação de Esqui Presidente Médici, ativa entre 1970 e 2001, ganha, agora, uma versão itinerante - com 120 metros de comprimento, 3,6 metros de largura e 40 torres de sinalização. A nova estrutura será inaugurada no dia 31, às 10h30min, com evento na Rua Júlio de Castilhos, em frente à prefeitura. Nessa data, a cidade celebra seus 121 anos de emancipação política.

Um resgate histórico, feito pela Associação dos Amigos do Esqui de Garibaldi (AAEG), permitiu reativar a tão sonhada pista, que mexe com a memória de muitas famílias, turistas e atletas. Para quem não sabe, o primeiro homem a esquiar no Brasil foi Santini, idealizador da primeira estação. Com o garibaldense tendo realizado o feito em agosto de 1968, desde então, o esporte tem lugar cativo entre os habitantes da cidade. O Campeonato Brasileiro de Esqui e a Olimpíada Brasileira de Esqui atraíram, no passado, praticantes de diversas partes do mundo.

"Muitas pessoas têm uma memória afetiva com Garibaldi justamente pelas experiências vividas nos tempos da Estação de Esqui. São famílias inteiras, pais que traziam os filhos, os atletas, além dos próprios garibaldenses que sempre se envolveram muito com esse esporte. A união, o trabalho conjunto e a solidariedade da nossa gente se materializa nesse verdadeiro presente no dia do aniversário do município", destaca o prefeito Alex Carniel, que sempre assumiu o compromisso com o retorno da atração.

O fundador da AAEG, Vitor Guaragni, ressalta que a pista é um sonho que renasceu dentro da própria comunidade, com união, atitude solidária e muita pesquisa. "Foram anos de trabalho, juntando pedaços esquecidos de tudo que restou do antigo esqui, com a ajuda dos amigos que formam a Associação. Foi um projeto sonhado por muitos e que agora sai do papel", comemora.

Para Aroldo Juliano Pietta, que frequentou a estação de esqui por oito anos e chegou a trabalhar como instrutor, a estrutura reativa um legado marcante na cidade. "Eu conheço mais de 26 estações ao redor do mundo e sei que quem aprende a esquiar na pista artificial, tira de letra quando chega na neve. Essa é mais uma razão para termos a pista itinerante: as pessoas podem aprender aqui e depois aproveitar um dos esportes mais lindos que existem", salienta.

O atual presidente da entidade, Rafael de Paula, convida a comunidade para a inauguração. "É uma honra fazer parte desse projeto que traz de volta, após 20 anos, a pista de esqui. Garibaldi merece a oportunidade de conhecer - ou de voltar a ver essa pista -, que já trouxe tanto orgulho para a cidade", destaca.

Em caso de chuva, a inauguração será transferida para o dia 7 de novembro.

 ALMANAQUE GAÚCHO


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8 DE OUTUBRO DE 2021
ALMANAQUE GAÚCHO

Esqui volta a ser atração em Garibaldi

A cidade de Garibaldi, na serra gaúcha, resgata uma de suas maiores atrações turísticas - de grande sucesso na época e que rendeu ao município reconhecimentos no Brasil e no Exterior. No dia 31 de outubro de 1970, quando a cidade comemorava 70 anos de emancipação, a maior pista artificial de esqui das Américas, com um quilômetro de extensão, foi inaugurada oficialmente.

De acordo com um documento do Arquivo Histórico de Garibaldi, a Academia Brasileira de Esqui foi criada em 24 de agosto de 1968, tendo entre seus sócios-fundadores o empresário garibaldense David Afonso Antônio Santini (in memorian) e outros 27 nomes. Depois de muitos testes e obras, foi iniciada a construção da primeira pista experimental, concluída em 19 de agosto de 1968. Um dia depois, 20 de agosto de 1968, David Santini esquiou na serra gaúcha. Simultaneamente, foram concluídas as obras do primeiro tele assento funicular brasileiro, com 40 cadeirinhas. 

Os equipamentos necessários para a prática do esporte, como os esquis, sapatos, ferragens e bastões, foram fabricados no local. Outra atração construída para os visitantes foi o tobogã gigante, com 300 metros de comprimento, em três faixas paralelas de deslize individuais, sobre tapetes com freios para controle de velocidade. A estação contava, ainda, com um ringue de patinação sobre rodas. O complexo de lazer foi desativado em 2001.

A antiga Estação de Esqui Presidente Médici, ativa entre 1970 e 2001, ganha, agora, uma versão itinerante - com 120 metros de comprimento, 3,6 metros de largura e 40 torres de sinalização. A nova estrutura será inaugurada no dia 31, às 10h30min, com evento na Rua Júlio de Castilhos, em frente à prefeitura. Nessa data, a cidade celebra seus 121 anos de emancipação política.

Um resgate histórico, feito pela Associação dos Amigos do Esqui de Garibaldi (AAEG), permitiu reativar a tão sonhada pista, que mexe com a memória de muitas famílias, turistas e atletas. Para quem não sabe, o primeiro homem a esquiar no Brasil foi Santini, idealizador da primeira estação. Com o garibaldense tendo realizado o feito em agosto de 1968, desde então, o esporte tem lugar cativo entre os habitantes da cidade. O Campeonato Brasileiro de Esqui e a Olimpíada Brasileira de Esqui atraíram, no passado, praticantes de diversas partes do mundo.

"Muitas pessoas têm uma memória afetiva com Garibaldi justamente pelas experiências vividas nos tempos da Estação de Esqui. São famílias inteiras, pais que traziam os filhos, os atletas, além dos próprios garibaldenses que sempre se envolveram muito com esse esporte. A união, o trabalho conjunto e a solidariedade da nossa gente se materializa nesse verdadeiro presente no dia do aniversário do município", destaca o prefeito Alex Carniel, que sempre assumiu o compromisso com o retorno da atração.

O fundador da AAEG, Vitor Guaragni, ressalta que a pista é um sonho que renasceu dentro da própria comunidade, com união, atitude solidária e muita pesquisa. "Foram anos de trabalho, juntando pedaços esquecidos de tudo que restou do antigo esqui, com a ajuda dos amigos que formam a Associação. Foi um projeto sonhado por muitos e que agora sai do papel", comemora.

Para Aroldo Juliano Pietta, que frequentou a estação de esqui por oito anos e chegou a trabalhar como instrutor, a estrutura reativa um legado marcante na cidade. "Eu conheço mais de 26 estações ao redor do mundo e sei que quem aprende a esquiar na pista artificial, tira de letra quando chega na neve. Essa é mais uma razão para termos a pista itinerante: as pessoas podem aprender aqui e depois aproveitar um dos esportes mais lindos que existem", salienta.

O atual presidente da entidade, Rafael de Paula, convida a comunidade para a inauguração. "É uma honra fazer parte desse projeto que traz de volta, após 20 anos, a pista de esqui. Garibaldi merece a oportunidade de conhecer - ou de voltar a ver essa pista -, que já trouxe tanto orgulho para a cidade", destaca.

Em caso de chuva, a inauguração será transferida para o dia 7 de novembro. 

ALMANAQUE GAÚCHO

28 DE OUTUBRO DE 2021
+ ECONOMIA

Gerdau tem alta de 800% no lucro

A Gerdau havia tido resultado histórico no segundo trimestre, e no período de julho a setembro, subiu a marca: teve salto de 620% no lucro em relação a igual período de 2020, para R$ 4,6 bilhões. Foi recorde trimestral nos 120 anos completados neste 2021, o que permitirá distribuir dividendos de R$ 2,4 bilhões. Nos primeiros nove meses do ano, o lucro foi 800% maior do que igual período de 2020.

Com esse resultado, nem as turbulências afetam o otimismo do CEO da Gerdau, Gustavo Werneck. A coluna quis saber se a mudança nos indicadores macroeconômicos preocupava, e o executivo respondeu assim:

- É claro que as volatilidades de curto prazo têm impacto. Uma alta do juro pode inibir investimentos imobiliários, mas nossa crença é de que o Brasil não vai voltar, no longo prazo, às taxas de antes. O juro subiu, mas há grande expansão no crédito imobiliário, que no Brasil está abaixo de 15% do total, enquanto nos Estados Unidos chega a 85%. Então, há outros fatores que vão sustentar o mercado de construção nos próximos anos.

Não é um otimismo oco, frisou. Projeções internas apontam crescimento no consumo de aço em 2022 entre 4% e 6%. Mas a companhia está preocupada com falta de semicondutores. Segundo Werneck, a Gerdau tem todos os chips de que vai precisar até o final de 2023, quando projeta normalização.

Mas a escassez afeta um de seus mercados, o das montadoras. O executivo afirmou que veículos pesados consomem 10 vezes mais aços especiais - produzidos em Charqueadas (foto) - do que os leves. E 60% do mercado automotivo da Gerdau está nesse segmento. Werneck revelou que tem clientes com pedidos para os próximos cinco anos. Com a redução na cotação do minério de ferro, que fez o preço do aço disparar, a coluna quis saber se haverá repasse do custo menor aos clientes. Werneck respondeu assim:

- É um tema sensível, que envolve concorrência, então tomamos cuidado com ética e compliance. Quando há estabilidade entre oferta e demanda, há mais possibilidade de negociação, em patamares que sustentem nível adequado de rentabilidade para a Gerdau. No próximo trimestre, deve haver mais competição em vergalhões, para construção. Estamos nos fortalecendo em outros segmentos, como aços planos, chapa grossa e bobina a quente, para manter a rentabilidade.

MARTA SFREDO

28 DE OUTUBRO DE 2021
NÍLSON SOUZA

Os mortos que voltaram


Há exatos 50 anos, numa Feira do Livro como esta que reabre amanhã no Centro de Porto Alegre, Erico Verissimo lançava o seu último romance. Incidente em Antares, apresentado ao público porto-alegrense no dia 29 de outubro de 1971, continua sendo uma leitura atual, atraente e divertida - não apenas pela contundência e pela precisão da crítica política nele contida, mas também - e principalmente - por usar o realismo fantástico para escancarar as mentiras de uma sociedade hipócrita e injusta.

Em primeiro lugar, destaca-se a sacada genial do maior escritor gaúcho, surgida - segundo relato da professora Maria da Glória Bordini - quando ele leu num jornal norte-americano a notícia sobre uma greve de coveiros. A partir daquela pequena nota, Erico construiu uma história envolvente tendo como palco uma cidade fictícia do Rio Grande do Sul, na qual mortos insepultos devido à paralisação dos trabalhadores do cemitério levantam de seus esquifes e voltam temporariamente à vida para acertar contas com autoridades, parentes e maus cidadãos. Um acerto de contas moral, bem entendido, pois não se trata de uma dessas sangrentas batalhas de zumbis das séries televisivas.

A arma do escritor - e de seus ressentidos personagens - é unicamente a palavra. Com discursos no coreto central da cidade, os mortos denunciam a corrupção, a violência, as traições, o autoritarismo e outras mazelas de uma sociedade desigual. O mais curioso é que o romance foi lançado em pleno regime militar, driblando a censura real num dos momentos de maior repressão no país.

Os mortos-vivos dão um verdadeiro show de moral nos muito-vivos. Livres de convenções e represálias graças ao verdadeiro habeas corpus preventivo que a morte lhes confere, os sete defuntos escancaram a podridão dos poderes, desmascaram a hipocrisia da sociedade conservadora e fazem todo o tipo de acusações contra os autodenominados "cidadãos de bem" - extrato social que não raro abrange um contingente expressivo de canalhas.

Incidente em Antares, que também virou minissérie de televisão, continua sendo uma leitura imprescindível, especialmente nestes tristes tempos em que os mortos - sem volta e sem um coreto para se manifestar - continuam sendo desrespeitados pelos que se julgam mais vivos, mas que são apenas retardatários na fila inexorável.

NÍLSON SOUZA

quarta-feira, 27 de outubro de 2021


27 DE OUTUBRO DE 2021
DAVID COIMBRA

Não foi bem assim que aconteceu

A perspectiva histórica é superestimada. Nós acreditamos que, analisando os fatos muito tempo depois da sua ocorrência, os veremos como realmente são. Bobagem. A distância até pode nos dar um pouco mais de isenção, mas também nos ilude, porque nos esquecemos do que sentíamos no momento em que tudo aconteceu.

Você suspira ao recordar os momentos livres e irresponsáveis da juventude, quando cometia desatinos hoje engraçados, mas se esquece como a insegurança o fazia infeliz na época. Você pensa numa mulher do passado e suspira de novo: "Ah, ela era maravilhosa..." Você jura que era a mulher da sua vida. Mas, se tivessem ido em frente e se casado, talvez agora você rosnasse: "Que chata!"

É assim: nem na sua própria vida você consegue ver as coisas claramente, mesmo em retrospectiva, imagine na História. Veja esses grupos de derrubadores de estátuas: eles julgam o passado com os valores do presente, um erro infantil e tosco.

Há também os que tentam interpretar o passado de acordo com seus interesses ou crenças. Movimentos negros gostariam que os antigos egípcios fossem negros. Não eram. Há uma fartura de pinturas e esculturas da época que representam o tom de pele dos egípcios do tempo dos faraós: eram morenos da cor do chocolate ao leite.

Ora, os movimentos negros não precisam das façanhas dos antigos egípcios. Dois dos maiores gênios políticos da Humanidade, Mandela e Luther King, eram negros, e eles conseguiram o que raríssimos conseguem: mudaram o mundo pela paz. Que europeu branquicela alcançou o que eles alcançaram?

Sem sair do antigo Egito: Cleópatra. Feministas insistem que ela era feia, sobretudo por causa de uma moeda com a efígie dela encontrada há alguns anos. A figura na moeda parece de fato uma bruxa, mas é bastante improvável que Cleópatra fosse feia. Não apenas porque conquistou dois dos maiores homens da sua época, Júlio César e Marco Antônio, mas porque se dedicava a cuidar da própria aparência com um desvelo que só as beldades têm.

Esse preconceito contra a beleza feminina é irritante por dois motivos. Em primeiro lugar porque desvaloriza a beleza como se fosse algo fútil, que não foi conquistado, mas ganho de presente. Isso não é verdade: só a plasticidade das feições não é o suficiente para tornar uma mulher atraente e interessante. É preciso existir um consórcio entre a beleza e a personalidade.

Em segundo lugar, esse preconceito é irritante porque supervaloriza a beleza, acreditando que só ela seria capaz de tornar uma mulher irresistível. Cleópatra, se fosse apenas bela, não seria lembrada 2 mil anos depois de sua morte.

Uma das mulheres mais lindas que conheci era também uma das mais chatas. Depois que você estabelecia um contato mais profundo com ela, não conseguia ouvi-la por mais de 15 minutos sem querer se atirar nas águas do Arroio Dilúvio. Um amigo meu, inclusive... Mas não posso contar isso sem a aprovação dele. Deixa para outro dia.

O que eu queria dizer é que a perspectiva histórica nem sempre nos dá uma ideia justa do tamanho das coisas. Mas às vezes dá. Vou fornecer um exemplo amanhã. Aguarde.

DAVID COIMBRA

27 DE OUTUBRO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

O ÊXITO DA VACINAÇÃO

Nove meses após a primeira gaúcha receber a dose inicial contra a covid-19, não há o que contestar em relação ao êxito da imunização como grande arma para conter a covid-19. No momento mais dramático da pandemia no Estado, em meados de março, a média diária de óbitos chegou a 328, e agora está abaixo de 20, uma extraordinária queda de 95% (leia reportagem na página 16). Nesse mesmo intervalo de tempo, a curva da vacinação cumpre uma trajetória contrária. Avança. Os totalmente protegidos no Estado, com o esquema completo, eram somente 2% e agora passam da metade da população, provando que eram acertadas as previsões de cientistas, autoridades da saúde e médicos de que, conforme fosse progredindo a cobertura, os números da doença cederiam.

Há o que celebrar, mas ainda não é aceitável que, em média, as vítimas fatais no Estado permaneçam na casa das dezenas. É preciso continuar reduzindo paulatinamente as estatísticas. Para deter a circulação do vírus, ainda é essencial que toda a população apta complete o seu esquema vacinal e receba a dose de reforço quando for o caso, ampliando a barreira individual e coletiva contra o novo coronavírus. Ao mesmo tempo, ainda seguem importantes os cuidados pessoais, como o uso de máscara, higienização das mãos e sempre que possível evitar aglomerações.

Além de mortes, as vacinas têm contribuído para diminuir as estatísticas de contágios, adoecimentos e quadros graves, o que se traduz em menor pressão no sistema de saúde. Ao evitar casos críticos, é possível ainda esperar um menor número de pessoas com sequelas persistentes da doença. Por todos os ângulos que se olhe, os benefícios da vacina são claros e contundentes, materializados nas estatísticas e, mais importante, em vidas salvas e uma menor quantidade de famílias enlutadas.

Os dados de ontem à tarde da Secretaria Estadual da Saúde mostravam que 93,8% da população adulta do Estado já tinha recebido ao menos a primeira dose e, do total de habitantes do Rio Grande do Sul, a taxa chegava a 78,1%. Já estão com o esquema completo 75,7% dos adultos. É um sinal inequívoco de confiança na ciência, que atesta a eficácia e a segurança dos imunizantes disponíveis no país. Os altos percentuais, que tendem a continuar crescendo, o que é essencial para frear a propagação viral, mostram ainda que, a despeito de existir desinformação e disseminação de teorias conspiratórias sobre as vacinas, a conscientização vence o negacionismo com larga vantagem. A pandemia não chegou ao fim, é verdade, mas é possível dizer que, a cada dose recebida, as esperanças se tornam mais palpáveis.

OPINIÃO DA RBS

27 DE OUTUBRO DE 2021
+ ECONOMIA

Mega-aposta em nanotecnologia

Além dos negócios imobiliários, Carlos Gerdau Johannpeter acelera a aposta em nanotecnologias. Filho de Jorge Gerdau Johannpeter, deixou a carreira de executivo no Grupo Gerdau há quase 25 anos para tocar iniciativas próprias.

A nanotecnologia decorreu de "vocação natural" na área de materiais, detalha. Foi diretor de aços da Gerdau, onde acumulou conhecimentos sobre metalurgia, física e química. E montou, com ex-executivos da empresa da família, a Domus Nanotech: o ex-vice-presidente Joaquim Bauer e o ex-diretor de aços especiais Joaquim Durão. Como convém a uma empresa de seu tempo, tem duas mulheres na alta gestão: Suzana Kakuta, diretora da Tecnosinos, e Thuany Maraschin, doutorada com 11 anos de experiência em materiais nanoestruturados.

- É um time melhor do que eu, como deve ser. Estamos estudando grafeno há três ou quatro anos, quando não havia nem de perto a visibilidade que tem hoje - detalhou.

Formalmente, a Domus Nanotech existe há três meses. Nesse estágio inicial, tem previsão de investimentos de R$ 3 milhões em dois anos. Parece pouco para quem carrega "Gerdau" no nome, mas no universo das startups é uma mega-aposta. E Carlos avisa:

- Na medida em que criemos resultados e nossas teses se confirmem, esse número vai aumentar bastante. Parte já está investida, parte é prevista para o próximo ano, outro tanto ainda está em construção.

A Domus Nanotech já tem clientes. O que pode ser revelado - há contratos de confidencialidade - é a Biosens, startup que atua em pesquisa, desenvolvimento, produção e comercialização de biossensores que pretende ampliar o acesso a diagnósticos laboratoriais. Com base em eletrodos de grafeno, oferece exames que conseguem detectar precocemente uma doença que afeta a coagulação do sangue. Segundo Carlos, ainda há soluções aplicadas aos segmentos de resinas plásticas, tintas, vernizes, baterias elétricas e construção.

- Temos conversas com empresas de cimento, concreto, outra frente com grande potencial. O princípio geral é reduzir custo e aumentar eficiência, facilitando o acesso.

Ensaio de privatização da Petrobras

Existe mesmo um ensaio de projeto de lei para venda de ações da Petrobras. A confirmação veio do líder do governo no Senado, Fernando Bezerra (MDB-PE). Como não houve apresentação formal, a Petrobras foi obrigada a publicar nota informando que nada sabe e pedindo informações ao governo federal.

A privatização seria feita por capitalização, como na Eletrobras.Começaria com a migração da estatal para o Novo Mercado, segmento da bolsa de valores que só admite empresas que tenham apenas ações ordinárias.

O que dá o controle à União é a posse de 50,5% desse tipo de ações. O outro tipo são as preferenciais, chamadas assim por ter prioridade na distribuição de dividendos. A mera conversão de ações preferenciais em ordinárias faria o governo perder o poder de decisão final, porque só tem 36,75% do total dos papéis.

O ensaio pode ser qualquer coisa, de manobra diversionista ao relatório da CPI da Covid, a manipulação de preço. Parece venda de terreno na lua, ou demolir a sala e deixar o bode ao ar livre. Até Bolsonaro sabe disso:

- Se você tirar do monopólio do Estado, que existe, e botar no monopólio de uma pessoa particular, fica a mesma coisa, ou talvez até pior.

Neste ponto, está certo. Mas agora, além da greve de caminhoneiros, colhe o risco de uma de petroleiros. Era só o que faltava.

MARTA SFREDO

27 DE OUTUBRO DE 2021
MÁRIO CORSO

Nem Lula, nem Bolsonaro

Estou terminando o livro Antifrágil - Coisas que se beneficiam com o caos, de Nassim Nicholas Taleb. Gosto do autor, embora creia que seu pensamento seja desigual: às vezes muito lógico e baseado em evidências, em seguida saca do bolso uma narrativa anedótica e coloca no mesmo nível do que vinha sendo dito. Mas, no geral, esse pensador inclassificável não decepciona, ninguém sai de mãos vazias de seus livros.

Nesse livro ele debate e nos expõe um conceito inusual: a antifragilidade. Quando descrevemos algo como frágil, queremos dizer que é algo que pode se quebrar, se desfazer, caso sofra uma perturbação. Pensamos o antônimo dele como algo que suporta acidentes preservando a mesma forma, saindo sem cicatrizes de uma experiência. A melhor palavra para isso seria resiliência. Este conceito quer dizer que algo, ao sofrer um golpe, volta à forma anterior sem deixar marcas.

Pois bem, diz o autor, mas resiliência não é o avesso de fragilidade. A verdadeira oposição à fragilidade é algo que, ao sofrer um acidente, saiu-se melhor depois dele. Ou seja, algo que aproveita-se da adversidade para crescer e aperfeiçoar-se. Este objeto, conceito ou pessoa seria o que ele chama de antifrágil.

Para ele, a resiliência seria como um estágio neutro. Como em eletricidade, o contrário de positivo é o negativo e não o neutro, embora este último se oponha aos dois.

É preciso ler o livro, existem muitas nuances. Por exemplo, a natureza, no sentido dos seres vivos, é muito frágil, mas no conjunto é antifrágil. A soma dos sofrimentos individuais leva a um coletivo mais forte. Assim foi, e segue sendo, a evolução da vida no planeta.

Um avião é frágil, mas cada desastre reduz a probabilidade de que outros aconteçam. Os erros são corrigidos, incorporados, e o sistema como um todo é muito seguro.

Essa introdução é para lembrar ao pessoal do "nem Lula, nem Bolsonaro", que ambos os candidatos são notavelmente antifrágeis. Você bate e eles crescem.

Não quer dizer que, caso se queira, não possam ser derrotados. Mas, neste caso, a estratégia precisa de mais inteligência. Ficar demonizando-os, não construirá nenhuma alternativa.

Os candidatos a representar a dita terceira via não se firmam por se restringirem a discursos negativos: dizem não sou isto ou aquilo, ao invés de a que vêm. O país está quebrado e sem rumo. A inflação voltou, há milhões sem emprego e milhões passando fome. Digam o que vão fazer. Quais são as propostas? Qual o projeto para o país?

Bolsonaro foi eleito para evitar o PT e o país ficou pior. Um projeto apenas para tirar Bolsonaro tenderia à repetição do erro.

A população escuta a turma do "nem nem" com mais um "nem": nem Lula, nem Bolsonaro, nem tenho uma saída para a crise.

A terceira via não se funda porque não diz nada palpável.

MÁRIO CORSO

27 DE OUTUBRO DE 2021
INFORME ESPECIAL

Pressão por reposição vai além dos professores Coração pulsando em Encantado

Não são apenas os professores estaduais que reclamam da falta de reposição salarial desde 2014. Com exceção de categorias específicas, como profissionais da segurança pública, a maioria dos servidores do Estado está sem reajuste há pelo menos sete anos. O problema - que amplifica as pressões sobre o governador Eduardo Leite - é agravado pela inflação.

De acordo com levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), as perdas acumuladas por técnicos com Ensino Superior (engenheiros, veterinários, arquitetos, etc) e especialistas em Saúde (médicos, enfermeiros, farmacêuticos, etc) se aproximam dos 50%.

O estudo foi encomendado pelo Sindicato dos Servidores de Nível Superior do RS (Sintergs), que conta com cinco mil filiados, a maioria ligada às áreas da Saúde e da Agricultura. Além de apontar as perdas, o trabalho mostra que o custo de vida, nesse período, se multiplicou. Em sete anos, a cesta básica subiu 96,2%. A energia elétrica aumentou 91,4%, e o gás de cozinha, 120,5%.

- Metade do nosso poder de compra foi corroído. Com a inflação em dois dígitos, a situação piorou - diz o presidente do Sintergs, Antonio Augusto Medeiros.

Desde que assumiu a gestão, Leite conseguiu melhorar as finanças do Estado, que voltaram a ter superávit, e vem anunciando investimentos importantes. Mas o equilíbrio das contas ainda é delicado.

Há perspectiva de perdas em 2022, devido a mudanças na cobrança do ICMS, e o cenário de instabilidade política e econômica não dá sinais de trégua. Pelo contrário.

Sensível aos apelos, o governador dificilmente conseguirá postergar a negociação com o funcionalismo. O desafio será atender as reivindicações - justas, sem dúvida - sem inviabilizar o Estado.

De braços abertos sobre o Vale do Taquari, a estátua do Cristo Protetor de Encantado agora tem um coração. A cavidade esculpida no peito do monumento dará lugar a um mirante com acesso por elevador. Ali, será instalada uma vidraça de 3,8 metros de largura por 3,3 metros de altura, com vista para toda a região, rodeada de verde e belas paisagens.

Por trás das mais de mil toneladas de ferro e concreto da imagem, está uma mobilização comunitária incomum, movida pela fé e por um histórico de união. A construção é viabilizada por doações privadas e pelo esforço de um grupo de moradores. A obra começou em julho de 2019 e deve ser inaugurada em 2022.

- Estamos na expectativa de concluir a estátua em janeiro e de finalizar a infraestrutura de acesso até o fim do primeiro semestre do ano que vem. Atrasou um pouco por causa da chuva, mas não temos do que reclamar - destaca o empresário Rafael Fontana, da Associação Amigos do Cristo de Encantado.

Além do apoio de doadores, a entidade vem conseguindo recursos para os trabalhos a partir da visitação pública ao local, aos sábados, domingos e feriados. A cada final de semana, são cerca de mil visitantes. Cada adulto contribui com R$ 20.

Para saber mais informações, basta acessar o site do projeto: cristoencantado.com.br.

INFORME ESPECIAL

terça-feira, 26 de outubro de 2021


26 DE OUTUBRO DE 2021
DAVID COIMBRA

O mistério de Bolsonaro

Por que Bolsonaro faz essas coisas, como dizer em uma live que quem toma vacina contra a covid pode desenvolver aids? Faço essa pergunta sem paixões políticas, que não as tenho. Eu realmente não sei por que ele faz isso.

Por que Bolsonaro não quer que as pessoas tomem a vacina contra a covid? Está comprovado que, por enquanto, as vacinas são a única forma de salvar o mundo da peste. Não são apenas as pesquisas volumosas e sólidas que atestam essa verdade, os números da doença no planeta inteiro o provam. Então, repito: por que Bolsonaro estimula as pessoas a não se proteger contra esse mal terrível que mata, mutila e deixa sequelas? Qual é a intenção dele?

Não pode ser por ignorância. Sei que Bolsonaro não é exatamente um expert em medicina e saúde - quando deputado, um dos dois projetos que aprovou em 28 anos de atuação foi o que liberava aquela pílula que alegava combater o câncer, uma charlatanice que só iludia os desesperados pela cura. Quer dizer: Bolsonaro realmente não entende nada do assunto. Mas ele é presidente da República. Não é possível que esteja cercado exclusivamente por imbecis e mal-intencionados. 

Alguém, algum assessor, um ministro, um empresário que o apoia, alguém tinha de ter alertado que é no mínimo imprudente dizer que a vacina contra covid dá aids. Não estou nem falando em irresponsabilidade, em estupidez e em maldade, que poderiam ser suscitadas por esse ato. Estou falando que é imprudente. Estou falando que não cabe a ele fazer esse tipo de alegação. Estou falando que o presidente de um país cheio de problemas, como o Brasil, tem mais o que fazer do que se aventurar pelo terreno da ciência, que, para ele, é absolutamente desconhecido.

Portanto, insisto na minha angústia: não entendo o que leva Bolsonaro a cometer uma declaração dessas. O que ele ganha com isso? O que qualquer pessoa no Brasil ganha? Ao contrário: sem as vacinas, a doença estaria descontrolada, o número de mortes seria 10 vezes maior do que é e novas restrições teriam de ser impostas às pessoas. Assim, a economia sofreria um abalo muito mais grave do que já sofreu, o desemprego aumentaria e a arrecadação de impostos diminuiria, o que é péssimo para qualquer governo.

Logo, com essa afirmação Bolsonaro está pondo em risco a saúde e a vida dos brasileiros, bem como do seu próprio governo. Quer dizer: é ruim para todo mundo. Não faz o bem a ninguém. Então, por que ele faz isso? Por quê? POR QUÊ?

DAVID COIMBRA

26 DE OUTUBRO DE 2021
CARLOS GERBASE

Alguns bilhões?

O ator inglês Damian Lewis interpretou um especulador financeiro nova-iorquino ganancioso e sem escrúpulos chamado Bobby Axelrod em cinco temporadas de Billions. Ao que tudo indica, a série terá uma sexta temporada, mas sem Lewis. Ele diz que sentirá saudade dos antigos companheiros, que define como "alguns dos mais espertos, engraçados e talentosos profissionais de atuação e produção com quem já trabalhei". O que nos faz pensar: se Lewis estava gostando tanto de atuar na série, por que sair agora?

Há um detalhe importante: sua esposa, a atriz Helen McCrory, morreu de câncer em abril deste ano, e ele quer ficar mais tempo com os filhos. É uma razão e tanto. Mas há um outro fator. Lewis conta que, quando andava pelas ruas de Nova York, constantemente ouvia coisas como "Axe, você é o cara!". Como o personagem é, na sua opinião, "um ser humano realmente desprezível", Lewis concluiu que as pessoas não se importavam com as barbaridades executadas por Axe, torcendo por seu sucesso, mesmo que burlando a lei e pisoteando seus competidores.

O mal-estar moral de Lewis é compreensível. Algo parecido pode ter acontecido com John Hamm, ao interpretar o publicitário arrogante Don Drapper em Mad Men, e com Bryan Cranston, que viveu o fabricante de drogas Walter White em Breaking Bad. Vilões charmosos fazem parte da história do cinema e foram recebidos com pompa e circunstância nas melhores séries dramáticas de TV. Lewis é ator experiente e conhece esse processo. Então volto a perguntar: por que abandonar uma série de sucesso, em que vivia personagem complexo e desafiador?

Hipótese: há cada vez mais espectadores que confundem ficção com realidade, tomando ações de personagens imorais como incentivo para imoralidades reais do mundo real. Essa incapacidade de ver a arte como representação do mundo - com suas mazelas, suas injustiças e suas desigualdades - leva a dois caminhos igualmente perigosos. O primeiro é o que atingiu Lewis ao ouvir "Axe, você é o cara!". O segundo é a reação supostamente virtuosa a essa confusão, que, levada ao extremo, exigiria dos roteiristas de Billions a retirada de todo o charme pessoal de Axelrod, ou, pior ainda, a inclusão na história de uma exposição didática da sua vilania. Os roteiristas, ainda bem, não se renderam, pelo menos por enquanto. Lewis, contudo, não aguentou a pressão de alguns espectadores imbecis com quem cruzou na rua. O que nos leva a outra pergunta: são alguns poucos, ou alguns bilhões?

CARLOS GERBASE

26 DE OUTUBRO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

GÁS NATURAL E NOVAS PERSPECTIVAS

A privatização da Sulgás, adquirida pela Compass em leilão na sexta-feira na B3, em São Paulo, tende a produzir uma série de vantagens para o Rio Grande do Sul. Pela perspectiva do poder público, a alienação dos 51% de participação na companhia garantirá o ingresso de R$ 927,8 milhões nos cofres do governo gaúcho. É uma soma nada desprezível para um Estado ainda em situação financeira delicada, mas que com reformas, outras desestatizações e aumento da arrecadação vem conseguindo manter salários em dia e anuncia investimentos em áreas prioritárias para a população. 

Ao longo dos próximos anos, tudo indica que a troca de comando e de gestão permitirá a ampliação da oferta de gás natural, tanto nas áreas já atendidas quanto nas regiões onde a Sulgás ainda está ausente, seja por novos ramais ou outras alternativas para a distribuição, como o transporte por caminhões. Hoje, como se sabe, a presença da empresa está demasiadamente concentrada entre a Região Metropolitana e a Serra.

Estatal criada em 1993, a Sulgás não tinha o histórico de problemas de outras empresas ligadas ao Estado, como as do Grupo CEEE. Pelo contrário, vinha se mantendo lucrativa, mas sem as condições de caixa necessárias para um plano mais ambicioso de investimentos, capaz de atender à demanda pelo insumo usado na indústria, no comércio, nas residências e nos automóveis e que tem um cardápio de vantagens, de econômicas a aspectos ambientais. 

Esta maior capacidade será indispensável sobretudo quando for resolvido o obstáculo hoje existente pela limitação do volume de gás natural que chega ao Estado. Com um grande conglomerado por trás, que atua na área de energia e tem interesse em expandir a oferta, há naturalmente maior disponibilidade de recursos e apetite por ampliar o negócio. Ganhos de escala e diluição de custos, por outro lado, normalmente também significam maior possibilidade de valores mais em conta para o consumidor final.

Para os clientes, aliás, o menos importante é se uma empresa fornecedora é pública ou privada. Contam a qualidade do serviço prestado e a capacitação para dar as resposta exigidas pelo mercado de maneira ágil. Mas, mostra a experiência, uma gestão privada profissional, livre de interferências políticas e de amarras burocráticas típicas de estatais reúne melhores condições de ser eficiente e satisfazer a clientela. Mais investimentos e expansão da oferta ainda significam, ao fim, economia se movimentando e competitividade pelo maior uso do gás natural.

O fato de a Compass, do grupo Cosan, ter sido a única interessada na aquisição da participação de 51% do Estado na Sulgás não chega a ser exatamente uma surpresa. Era a candidata mais lógica, uma vez que também está em processo de aquisição do controle da Gaspetro, que detém os outros 49% na estatal gaúcha. Ambas as transações, é bom ressaltar, ainda serão examinadas pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Só após a eventual aprovação do órgão dedicado a zelar pela concorrência é que o Estado receberá o pagamento.

Mas há, como exposto antes, um gargalo a ser solucionado para que todas as melhores perspectivas se confirmem. É preciso aumentar a disponibilidade de gás natural no Rio Grande do Sul para que se possa ampliar a distribuição, hoje estagnada nos cerca de 2 milhões de metros cúbicos por dia, capacidade do gasoduto que chega ao Estado. É um debate que se prolonga há mais de duas décadas, sem que as alternativas aventadas se materializem. 

Ressurgiu, nos últimos meses, a possibilidade da construção de um terminal de gás natural liquefeito (GNL) associado a uma usina termelétrica em Rio Grande, processo que passa por etapa de licenciamento ambiental. São aguardadas, para os próximos dias ou semanas, novidades que podem indicar desfecho positivo para essa novela também cheia de idas e vindas há 13 anos.


26 DE OUTUBRO DE 2021
FEDERAIS GAÚCHAS

Colação ao vivo só em 2022

Maioria das universidades projeta para o ano que vem o retorno das formaturas presenciais; nas particulares, cenário é outro

Ainda não será neste ano que os alunos das universidades federais gaúchas colocarão togas para receber os diplomas e comemorar com seus familiares a almejada graduação. Com planos de retomada gradual das atividades presenciais, a maioria das instituições planeja para 2022 o retorno das formaturas presenciais. A exceção é a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que elaborou um plano de retorno das colações de grau ao Salão de Atos, mas sem previsão de apreciação pelo Comitê Covid.

Na Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), estão sendo feitas formaturas virtuais mensais, com estudantes de diferentes cursos simultaneamente. O plano é mudar o cenário no ano que vem.

- Inicialmente, serão somente formaturas externas. Mais adiante, as turmas menores voltarão às formaturas na UFCSPA - relata a reitora Lucia Pellanda, que explica que, devido à limitação de espaço, formaturas de cursos com muitos alunos, como Medicina, Enfermagem, Fonoaudiologia e Fisioterapia, já aconteciam fora do prédio da instituição antes da pandemia.

Destinada a cursos da área da Saúde, porém, a universidade conta com o apoio de muitos estudantes na manutenção, por enquanto, das solenidades no formato remoto. Formado em Biomedicina no dia 25 de agosto, Luís Felipe Castro, 28 anos, preferiu nem mesmo tirar fotos de toga, por entender que ainda não era seguro.

- Acho uma atitude prudente da UFCSPA. No momento, acho que é o ideal, porque as nossas condições epidemiológicas ainda não permitem que a gente retome de forma segura. É um passo de cada vez. Com todo mundo se vacinando, vamos começando a retomar a rotina, mas, agora, não se deve voltar - defende o novo biomédico.

Amanhã, será a vez de Luís Furtunato, 26 anos, se formar em Medicina pela UFCSPA. O dia não será celebrado como ele imaginava.

- É algo que a gente espera bastante, inclusive a família. É como se fosse um rito de passagem. Mas compreendemos também a situação que vivemos e que nem tudo pode ser como esperamos. Vamos nos reunir, eu, minha mãe e minha irmã, e comemorar nós três a ocasião - resume o jovem.

A turma de Luís pretende realizar uma colação de grau presencial quando tudo estiver liberado. Alguns cogitam também fazer festas, plano que não é compartilhado por Luís. Mesmo assim, o formando fez questão de participar da prova de toga, para ter em fotos o registro do rito de passagem.

Expectativa

Maior instituição de Ensino Superior do Rio Grande do Sul, a UFRGS elaborou um plano de retorno das colações de grau que prevê a realização de solenidades no Salão de Atos, seguindo uma série de protocolos e com limitação de número de formandos no palco e de convidados na plateia. O documento será analisado pelo Comitê Covid da universidade após a divulgação das novas diretrizes para o retorno gradual das atividades presenciais, que deve ser divulgado hoje. Atualmente, a UFRGS mantém a maioria das aulas no formato remoto, mas a previsão é de que um retorno gradual das atividades presenciais aconteça a partir de 17 de janeiro, quando começa o semestre letivo.

Por enquanto, as formaturas presenciais não estão permitidas. Na conclusão dos semestres de 2020/1 e 2020/2, contudo, foram liberadas cerimônias de formatura de gabinete com até cinco formandos e até dois convidados por formando. No caso de turmas mais numerosas, como a Medicina, as cerimônias se estenderam ao longo de quase um dia inteiro. No semestre de 2020/2, foram permitidos discursos e o uso de beca. Ainda assim, 66% dos estudantes preferiram as colações de grau totalmente virtuais.

A mais adiantada é a Universidade Federal do Rio Grande (Furg), que prevê formaturas presenciais, ainda que com uma série de protocolos, já na fase dois do seu plano de contingência, que deve começar no dia 16 de novembro. Os eventos estão sujeitos à avaliação do Comitê de Monitoramento, de combate e prevenção à covid-19 na instituição.

 ISABELLA SANDER


26 DE OUTUBRO DE 2021
RECORTES DE VIAGEM

Na Argentina, após a reabertura

Com fronteiras aéreas abertas para brasileiros desde 1º de outubro, mas com muitas restrições e poucos voos, a Argentina deve ficar mais acessível a partir do dia 1º de novembro. Então, aqui vão experiências sugeridas pelo Instituto Nacional de Promoción Turística para ainda aproveitar a primavera no país vizinho:

Fotografar Buenos Aires tingida por jacarandás. Estima-se haver mais de 14 mil árvores da espécie na capital, incorporados à paisagem da cidade desde o final do século 19.

Caminhar entre canteiros de tulipas em Trevelin (Chubut). Na rota 259, na Área Natural Protegida Nant, o atrativo com 2 milhões de flores abre entre outubro e novembro.

Observar orcas, baleias, golfinhos e pinguins em Puerto Madryn (Chubut). Há diversos pontos de observação dos animais que desfilam pelas águas da região nesta época.

Passear pelo Rosedal em Buenos Aires. O jardim de Palermo, premiado pela Federação Mundial das Sociedades de Rosas, reúne 8 mil espécimes de rosas de 93 espécies diferentes.

Andar de caiaque nos lagos de Bariloche (Río Negro). Nahuel Huapi, Brazo Tristeza, Gutierrez, Moreno e Mascardi também são alguns dos locais sugeridos para a prática do esporte.

Tomar vinho em Mendoza após praticar esportes. A dica é praticar atividades ao ar livre como caiaque, rafting, trekking ou cavalgada e coroar o dia com uma taça de vinho da região.

RECORTES DE VIAGEM


26 DE OUTUBRO DE 2021
+ ECONOMIA

O "efeito Bolsonaro" nas bombas

Desta vez, o novo reajuste nos preços dos combustíveis foi antecedido por uma prova prática da influência presidencial sobre esse custo. Na sexta-feira, o comportamento de Jair Bolsonaro ajudou o dólar a baixar de R$ 5,755, no auge da especulação sobre a eventual saída de Paulo Guedes e novos buracos no teto, para R$ 5,627, quando "prestigiou" o ministro e disse que não faria "aventuras".

Então, ao contrário do que costuma dizer o presidente, ele tem, sim, grande capacidade de amortecer reajustes cada vez maiores e mais frequentes.

Sim, há uma crise global de energia e o preço do petróleo sobe para todos. Ontem, o barril do tipo brent, que a Petrobras usa como referência, inclusive, subiu mais 0,35%, para US$ 85,83.

Mas na fórmula de reajuste da Petrobras, o componente "câmbio" tem peso tão importante quanto o petróleo. Como o dólar sobe a cada ronco de motociata presidencial, menos ruído no Planalto se traduziria em menor pressão nessa componente, portanto em menor necessidade de reajuste.

Não seria necessário comprar briga com governadores por mudanças no ICMS, nem elaborar estratégias complexas de formação de um "colchão" para suavizar as oscilações globais, que deveria ter sido previsto em momentos de baixa no preço do petróleo, ou seja, dependeria de planejamento, um dos muitos pontos fracos do atual governo.

Nem exigiria gasto de capital político e energia em grande reforma estrutural, outro capítulo essencial em que faltou esforço. Se mudasse a comunicação para gerar menos ruído, como na sexta-feira, o dólar subiria menos. E os combustíveis também. Simples assim.

MARTA SFREDO

segunda-feira, 25 de outubro de 2021


Amor, verdadeiro amor

Não consigo entender todo esse prestígio do amor romântico. As músicas, por exemplo. Noventa por cento delas são sobre o amor romântico. No caso das sertanejas, cem por cento. Houve um tempo em que se dizia que a música sertaneja era "música de caminhoneiro". Agora imagine um caminhoneiro típico, dirigindo um Fenemê gigantesco, de camisa de física e palito no canto da boca, envolto em uma nuvem de lágrimas enquanto ouve o rádio da carreta.

É assim. Os caminhoneiros são sensíveis.

Todo mundo é sensível. Os filmes mais incensados são sobre o amor romântico. Não estou nem falando das comédias românticas, que são bobinhas. Estou falando do dramalhão. Doutor Jivago. Até hoje, as pessoas que assistiram a Doutor Jivago uivam para a Lua quando ouvem o Tema de Lara. Nos anos 1970, homens e mulheres adultos saíam do cinema vermelhos e fungando depois de ver Love Story. E, cá para nós, que filmezinho bem chato.

O que seria da poesia se não houvesse o amor romântico como tema? "De tudo, ao meu amor serei atento antes..."

É um exagero. Até porque esse amor romântico não é amor; é paixão. Um sentimento efêmero. Está cientificamente provado que a paixão dura, no máximo, um ano e meio. A não ser, é claro, que o relacionamento tenha fracassado antes. Aí o amante frustrado pode ficar remoendo e dourando aquele sentimento por décadas. Só a paixão fracassada é eterna.

Uma arte que fosse realmente realista abordaria os temas que são de fato importantes para os seres humanos. Tipo: a glândula adrenal. Recentemente descobri, por experiência própria, a extensão da relevância da glândula adrenal. Por que nenhum roqueiro canta:

"A glândula adrenal

É bem pequeninha

No entanto

Ela é nossa amiguinha

A glândula adrenal

É muito legal

Eu fico mal sem minha glândula adrenal"?

Mas, não. Ninguém dá bola para a glândula adrenal. Só falam do coração, coração, coração, e no sentido emocional, nunca como uma câmara muscular oca com quatro cavidades, sendo elas dois ventrículos e dois átrios.

A arte nunca dá atenção aos nossos órgãos internos, mas eles são os bens mais importantes que temos. Ninguém saberia viver sem eles. Queria ver o Roberto Carlos entoando, em vez de "eu te amo, eu te amo, eu te amo", uma ode a algo que é verdadeiramente fundamental como: "Papila, papila, papila gustativa...".

O amor romântico, depois de realizado, pode até se transformar de paixão em amor real, dois velhinhos de mãos dadas caminhando pela praia e tudo mais. Certo. Isso é bom. Mas não merece músicas, porque não vicejam, numa cena dessas, as labaredas da paixão. Há ali apenas a ponderação e a sabedoria, e a arte não gosta de ponderação e sabedoria. A arte gosta de ardores. Eu, não. Ah, não. Eu sei o que faz a diferença na vida. Oh, minhas queridas células, minhas amadas moléculas, meus tecidos, minhas fibras, minhas rótulas e meus hormônios, vocês são esquecidos pelo mundo, mas eu os amo com todo o meu ser, e o amor é fogo que arde sem se ver.

DAVID COIMBRA 

25 DE OUTUBRO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

EM BUSCADE RESPOSTAS

A chegada da pandemia acelerou transformações no mundo do trabalho e no consumo. Trouxe novos hábitos ligados à saúde e reforçou preocupações ambientais devido aos alertas de que novos agentes infecciosos podem se espalhar pelo planeta por obra da devastação da natureza. Ao mesmo tempo, desafios que existiam antes da crise sanitária permaneceram na pauta. 

Alguns são globais, como as mudanças climáticas, outros locais, a exemplo da busca por soluções para os gargalos logísticos que minam a competitividade do Rio Grande do Sul. Neste momento, com o avanço da vacinação, o arrefecimento da covid-19 e uma retomada mais ampla das atividades, chegou o momento de entender melhor todas essas mudanças e voltar a visitar temas cujo debate mais aprofundado foi adiado devido a outras urgências.

Colaborar com o exame dessas pequenas revoluções, avaliar tendências que se consolidam e compreender em que estágio estão as iniciativas que buscam remover obstáculos ao desenvolvimento do Estado são os propósitos do Projeto Bússola. Serão ao todo quatro reportagens, sendo que a primeira foi publicada na mais recente superedição de Zero Hora e as demais sairão nos próximos três finais de semana. 

Os conteúdos podem ser conferidos ainda em GZH, Rádio Gaúcha e RBS TV nas sextas-feiras. O primeiro tema abordou a capacitação profissional diante das novas demandas do mercado de trabalho, e os seguintes serão distribuição e logística, sustentabilidade e novas regras sanitárias. A intenção é discutir como as empresas gaúchas se adaptam à nova realidade, logo após o período de elevadas incertezas que irrompeu com a pandemia.

A primeira das reportagens em Zero Hora, assinadas por Rafael Vigna, discutiu um aparente paradoxo no mercado de trabalho. Enquanto se atravessa um período de desemprego alto, existem milhares de vagas que companhias não conseguem preencher por falta de mão de obra qualificada. É um fenômeno observado em setores como de TI e na indústria 4.0, em que cada vez mais rápido são incorporadas novas e avançadas tecnologias, como robótica e inteligência artificial. 

Essa realidade de escassez de recursos humanos preparados é um freio para o crescimento da economia e só poderá ser contornada com uma guinada na educação e com o reforço no ensino profissional, junto a programas de treinamento oferecidos pelas próprias empresas. Avançar na produtividade do trabalho é uma imposição para qualquer país ou Estado que queira caminhar em direção ao progresso e à elevação da renda.

Nas próximas superedições de Zero Hora, serão esmiuçadas questões ligadas à infraestrutura, à sustentabilidade na economia e aos cuidados sanitários que permanecerão. Hoje, empresas e sociedade ainda tateiam na busca por entender o novo quadro que emergiu com a pandemia. Com o Projeto Bússola, o Grupo RBS, consciente de seu papel de estimular discussões de interesse do Estado, tenta mais uma vez contribuir para o debate que busque respostas.

OPINIÃO DA RBS