quinta-feira, 29 de agosto de 2019


29 DE AGOSTO DE 2019
DAVID COIMBRA

Uma placa para Everton


Eu achava que Everton fosse o Cebolinha. Eu achava que Everton fosse um guri. Essa impressão começou a se apagar às 21h49min de terça-feira, depois que ele marcou o gol de empate contra o Palmeiras, no Pacaembu. Sentado no sofá da sala, assistindo pela TV, vi Everton passar por debaixo do travessão e colher a bola do fundo das redes. Com ela sob o braço direito, cerrou o punho esquerdo, rilhou os dentes e gritou para os companheiros de time:

- Vamos ganhar! Muitos outros jogadores já fizeram o mesmo gesto, no passado, mas desta vez houve algo diferente: a mudança era o próprio Everton. Ali não havia mais o menino simples que se diverte jogando bola. Não. Ali havia um líder. Ele empurrava a sua equipe para cima do inimigo.

Quatro minutos depois, Everton cometeu uma temeridade. Ele recebeu a bola a um passo do grande círculo e olhou para a frente. Diante dele posicionava-se praticamente o time inteiro do Palmeiras. Então, ele tomou uma decisão irresponsável: iria driblar todos, até chegar ao gol. Qualquer técnico sensato o condenaria, talvez pensasse até em tirá-lo do time por essa deliberação desmiolada. Mas não Renato. Renato não é um técnico sensato: é um técnico audacioso.

Com as bênçãos de Renato, Everton foi. Junto com ele era como se fossem Foguinho e Luiz Carvalho, Gessy e Juarez, Tarciso e Iúra, Paulo Nunes e Jardel, porque Everton não parecia um só, parecia legião, porque era muitos. E ele investiu verticalmente, quase que em linha reta, deixando, no primeiro toque na bola, dois adversários para trás e em seguida mais um e mais dois e veio o goleiro e também o goleiro ele evitou, mas caiu, e a bola sobrou para Alisson, e foi gol.

Romildo, providencie, por favor, uma placa para eternizar em bronze o gol de Everton e entregue-a ao Museu do Futebol do Pacaembu. Nessa placa, descreva a jogada, como fiz acima, mas não termine o texto sem observar que essa foi a obra de um menino que cresceu e que está se tornando gigante.

Se você acha que exagero, conto, agora, a circunstância em que vive Everton. É o seguinte: desde o começo do ano, circulam, diariamente, boatos de que ele será vendido para um clube europeu, que no Velho Mundo ganhará milhões, que a glória planetária o aguarda. Isso acontece muito com grandes jogadores e, quando acontece, sabe como eles reagem? Diminuindo-se. 

Eles se desconcentram, eles fazem pressão para sair, eles não demonstram mais vontade de jogar onde estão. Everton fez o contrário. Everton se tornou maior. Nunca reclamou, nunca fez chantagem, nunca deixou de se esforçar. Nessa partida épica contra o Palmeiras, ele marcou atacantes na lateral esquerda, ele puxou contragolpe aos 48 do segundo tempo, ele se atirou aos pés dos adversários para roubar a bola. A estatura de Everton aumentou depois dessa partida. Agora ele é outro. Agora ele não é o Cebolinha. Agora ele é um homem.

DAVID COIMBRA

29 DE AGOSTO DE 2019
EM DIA

EM ACORDO COM A INOVAÇÃO


Recentemente, o Mercosul e a União Europeia anunciaram um acordo que, se confirmado, formará a maior área de livre comércio do planeta, representando 25% da economia mundial e um mercado de 780 milhões de consumidores. Para o Brasil, o acordo, que reduzirá ou eliminará tarifas de importação para mais de 90% dos produtos comercializados entre os blocos, vai aumentar especialmente a competitividade do agronegócio. 

Segundo estimativas do Ministério da Economia, o acordo representará um incremento do PIB da ordem de US$ 87,5 bilhões em 15 anos, podendo chegar a US$ 125 bilhões se forem consideradas a redução das barreiras não tarifárias e o incremento esperado na produtividade. De acordo com especialistas, porém, em paralelo à redução de tarifas, é possível que aumentem as exigências relativas a questões sanitárias, sustentabilidade dos sistemas produtivos, rastreabilidade e certificação de produtos.

Nesse contexto, o agronegócio brasileiro, que é reconhecidamente competitivo, tem muito o que avançar para aproveitar a oportunidade. E a chave está em usar tecnologia e inovações aplicadas ao segmento, coisa que estão fazendo as mais de 300 agtechs (como estão sendo chamadas as startups do agro) mapeadas em estudo da Liga Ventures. Elas são ainda apenas 3% das startups do país, de acordo com o mapeamento da Associação Brasileira de startups, e 5,9% no RS, de acordo com estudo do Distrito e KPMG, mas com grande potencial de crescimento a seguir o ritmo global. De acordo com estudo da Zion Market Research, o mercado de smart agriculture deverá superar os US$ 15 milhões até o final de 2025, crescendo 13% entre 2017 e 2025.

As agtechs são empresas de biotecnologia, internet das coisas e drones, mas também são marketplaces, sistemas de gestão de propriedades e novas formas de plantio. Há startups para todos os gostos e, especialmente, todas as necessidades do agronegócio. Mais de 300 chances de fazer desse setor um caminho ainda mais concreto de desenvolvimento para o país.

O novo bloco tem muitos desafios. Um deles é passar pela aprovação dos parlamentos que, atualmente, ardem em dúvidas sobre o acordo. Mas tem, do ponto de vista do Brasil, muitas oportunidades embasadas especialmente na inovação do agronegócio. Vamos aproveitar?

Líder de Impacto Social no Tecnopuc e diretora técnica da Anprotec gcferreira@pucrs.br
GABRIELA FERREIRA

29 DE AGOSTO DE 2019
OPINIÃO DA RBS

UM LIMITE À BARBÁRIE


Merece uma profunda apuração e uma resposta firme das autoridades o covarde ataque a um ônibus no início da madrugada de terça-feira, em Canoas, região metropolitana de Porto Alegre. É preciso identificar, prender e punir os responsáveis pela barbárie que provocou terror e deixou 14 pessoas feridas, para que atos como esse sejam exemplarmente desencorajados. Facínoras que perpetram investidas violentas contra cidadãos inocentes devem ter uma resposta à altura das organizações policiais e da Justiça. Antes que se repitam iniciativas do gênero, a população e as instituições devem fazer o possível para apoiar as forças ostensivas e de investigação na busca e detenção dos delinquentes.

O Estado tem conquistado avanços na batalha contra o crime, e o episódio do atentado ao ônibus deve servir para remobilizar todas as instituições que de alguma forma combatem a violência, para aprofundar ainda mais os danos infligidos às facções que dominam o submundo dos delitos associados à violência no Rio Grande do Sul. 

É cristalino que o afastamento dos líderes presos de suas bases e exércitos de liderados tem efeito concreto na desarticulação de suas ações, mas é preciso que os esforços para mantê-los incomunicáveis nas casas prisionais sejam robustecidos por todos os setores envolvidos na tarefa de enfraquecer e inviabilizar as quadrilhas. Mesmo que ainda não tenha sido descoberta a motivação do ataque, como a possibilidade de alguma represália a alguém que estivesse no veículo, a forma como agiram indica autoria de grupo organizado.

As forças de segurança do Estado, aos poucos, têm recuperado o terreno perdido para a bandidagem, como mostram as estatísticas recentes que apontam recuo dos principais indicadores relacionados a delitos. Entre eles, os violentos. É uma avanço, portanto, que não pode ser passível de dar nenhum passo para trás, sob pena de voltar a transmitir confiança aos celerados.

A energia a ser empregada nesta empreitada é gigantesca. E não pode ser uma responsabilidade atribuída apenas às corporações policiais do Rio Grande do Sul, que penam com a falta de pessoal e de recursos materiais necessários para o seu aparelhamento, em virtude da situação calamitosa das finanças do Piratini. A colaboração inclusive da população que mais sofre com o controle que esses grupos tentam impor em comunidades é também crucial para dar um basta a esses arrojos dos criminosos em solo gaúcho. Pelo que toda a sociedade clama, seja qual for a classe social, é por paz e segurança para trabalhar e tocar a vida. 

OPINIÃO DA RBS


29 DE AGOSTO DE 2019
+ ECONOMIA

Empresários sofrem pressão lá fora

Enquanto se multiplicam temores e relatos de impacto nos negócios de exportadores brasileiros, em reação ao dano à imagem do país no Exterior provocado pela má gestão da crise da Amazônia, o empresário gaúcho Marcus Coester (foto), CEO da Aeromovel Brasil, sentiu na pele o clima hostil de fóruns internacionais.

- Todos levamos a culpa - avalia Coester sobre o clima que enfrentou na última semana. - Como brasileiro, fui confrontado por interlocutores estadunidenses em todas as reuniões, precisamente seis vezes. Às vezes com deboche, às vezes com sarcasmo, mas também com certo grau de enfrentamento.

Coester, que disputa projetos fora do Brasil, como conexão no aeroporto de Los Angeles, relata que executivos e empresários brasileiros enfrentam "caricaturas" do Brasil.

- A negligência e talvez o posicionamento político arcaico do governo federal em relação a temas de sustentabilidade ambiental começaram a gerar situações embaraçosas aos brasileiros com negócios em outros países. Sem entrar na discussão dos reais interesses políticos e econômicos das outras nações sobre a floresta amazônica, o atual quadro em nada ajuda as empresas brasileiras com atuação internacional.

Luis Ferreira, executivo de uma grande multinacional com unidade na Região Metropolitana, reforçou o relato:

- Vou para um seminário de marketing digital e não tem uma pessoa que, ao saber que sou brasileiro, não me questiona, em um tom não agressivo, mas assertivo, sobre o problema.

Segundo Ferreira, a "visão rasa" da crise da Amazônia e o clima de cobrança moral pode ser difícil de imaginar do Brasil, mas é real e vai "muito além dos círculos profissionais". Para o executivo, o problema não é só do governo:

- Como brasileiros, nos encanta a ideia de termos o ?pulmão do mundo?, essa metáfora infeliz que virou marca, e como população somos pouco versados na dimensão e complexidade do problema.

MARTA SFREDO


29 DE AGOSTO DE 2019
AMBIENTE

Setores mantêm apoio, mas criticam comunicação

Ainda que apontem falhas de comunicação na condução da crise das queimadas e discordem do tom adotado pelo presidente, representantes de setores que apoiaram Jair Bolsonaro nas eleições seguem, em sua maioria, ao lado do governo na agenda de reformas. Para políticos, empresários e líderes do agronegócio ouvidos por ZH, o chefe de Estado brasileiro agiu de forma correta ao defender a posse da Amazônia e ao não ceder às pressões do colega francês, Emmanuel Macron.

À frente da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), Gedeão Pereira diz que o setor "segue absolutamente fechado com Bolsonaro". Embora grandes produtores rurais como o ex-ministro Blairo Maggi tenham externado preocupação frente ao risco de boicote comercial ao país, Gedeão afirma não acreditar nessa hipótese.

- O pano de fundo da crise é uma guerra comercial entre o agronegócio brasileiro e o francês, mas nosso foco é a Ásia. Somos "asiadependentes". Se a China reclamasse, aí sim me preocuparia. O fato é que Macron está desgastado pela opinião pública francesa e tentou achar um bode expiatório - opina Gedeão.

Presidente da Associação dos Produtores de Soja do Estado (Aprosoja-RS), Luis Fernando Fucks compartilha a percepção:

- O posicionamento de Bolsonaro está sendo extremamente coerente com o que ele falou desde o inicio.

Na avaliação do empresário Ricardo Felizzola, do Grupo Parit, Macron foi oportunista ao tomar a frente nas críticas ao Brasil, por temer os efeitos do acordo entre Mercosul e União Europeia.

- De Bolsonaro, a gente pode esperar qualquer coisa. O que não pode é o presidente francês chamá-lo de mentiroso e dizer que a Amazônia é território internacional. Goste-se ou não de Bolsonaro, quem agiu de forma incorreta foi o presidente da França - sustenta Felizzola.

Bolsonarista de primeira hora, o senador Luis Carlos Heinze (PP) irrita-se ao ser questionado sobre a ação do presidente no caso:

- Somos um dos países que mais preserva o meio ambiente. Quem tem moral para falar de nós? Aí os agricultores franceses, que são os mais subsidiados do planeta, vêm fazer provocações. Eles que nos respeitem. A Amazônia é do Brasil.

Prejuízos

Outros políticos que declararam voto em Bolsonaro em 2018 destacam a importância de defender a hegemonia brasileira no território, mas fazem ressalvas à estratégia de comunicação do Planalto no auge da crise. Entre eles, está o deputado federal Jerônimo Goergen (PP). Para ele, o presidente "falou demais" e acabou dando argumentos aos adversários. Goergen faz a ressalva de que a crítica é "construtiva":

- O fato de dizer que precisava de apoio traria credibilidade no cenário internacional e não daria discurso para que usassem isso como barreira comercial.

Parlamentares que apoiaram Bolsonaro no 2º turno têm parecer semelhante. O deputado federal Marcel van Hattem (Novo) aponta, entre pontos negativos, o temperamento do presidente:

- A retórica agressiva não contribui em nada, ainda mais sabendo que estávamos certos. Macron está usando essa questão para recuperar apoio na França. Foi completamente infeliz e desnecessário falar da família (Bolsonaro reagiu a comentário sobre a esposa de Macron e depois apagou).

Para o senador Lasier Martins (Podemos), o presidente tem de aprender a conter os ímpetos:

- Como sempre, Bolsonaro falou sem pensar, de forma precipitada. Isso só causa prejuízos.

JULIANA BUBLITZ


29 DE AGOSTO DE 2019
L.F. VERISSIMO

Vilões



Até onde minha memória alcança - e ela vai longe -, se fala em queimadas no Brasil. A diferença entre as queimadas de hoje e as queimadas de antanho é que aquelas tinham autores conhecidos e universalmente execrados, proprietários rurais que recorriam a métodos primitivos e perigosos de limpar suas terras e prepará-las para a produção, e se danasse quem protestasse. O que mudou de antes para agora é que já não se sabe mais com tanta clareza quem são os vilões desse drama.

Na minha remota adolescência, ninguém falava na questão ambiental, fora alguns idealistas esquisitos. Para todos os efeitos relevantes, o ambiente não existia. Hoje "vilão" não é mais o proprietário rural sem consciência do mal que suas queimadas fazem, pode ser um investidor ausente que só vê suas terras em chamas da janela de um avião. Contra os protestos de quem quer a Amazônia como o último refúgio de um mundo que se torna rapidamente irrespirável, ganha força um vilão ao qual só faltava uma coisa para se impor, o poder. Agora ele está no poder.

À visão romântica de uma Amazônia refúgio impõe-se a do tesouro escondido, muito mais realista e excitante. O que haverá de riqueza sob as árvores da Amazônia, uma vez desmatado tudo e afastados os índios, é difícil de imaginar. Madeira, petróleo, ouro... Nada nos faltará. Salvo, claro, ar.

***

IÊ-IÊ-IÊ

Falando em memória... Não sei por que, pensei nos Beatles. Já sei por quê. Li numa matéria sobre o mercado editorial que três capas garantem as vendas de livros, no mundo todo: capas em que apareçam Lincoln, Hitler ou cachorros. A matéria não explicava a preferência. Os livros sobre Hitler vendem mais na Alemanha, os sobre Lincoln, nos Estados Unidos, e os sobre cachorros, em toda parte. 

Comecei a imaginar um encontro de Lincoln e Hitler numa pet shop, mas logo fui tomado por grande melancolia. E os Beatles, por que não eram os mais vendidos? Lembrei que, anos atrás, o Internacional formou um ataque de jovens que logo ganhou o apelido de ataque iê-iê-iê. Um eco do "yeah, yeah, yeah" dos Beatles, que na época era a referência cultural de uma geração e ninguém mais canta. Enfim, saudade de mim mesmo.

L.F. VERISSIMO

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

28 DE AGOSTO DE 2019
DAVID COIMBRA

Brasil, o país dos puxa-sacos de políticos

O brasileiro é um povo que gosta de bajular políticos. Na Europa parlamentarista, primeiros-ministros vêm e vão com naturalidade. Até Churchill, que foi Churchill, enfrentou seus reveses populares. Nos Estados Unidos, eles fazem reverência ao cargo, não ao homem que o ocupa. O presidente da República é uma pessoa comum, que pode ter de responder à Justiça na primeira instância, como qualquer outro cidadão, e que, depois de exercido o mandato, se retira para a planície. Os serviços que prestou são valorizados e lhe garantem até alguns privilégios, mas ninguém o considera superior.

No Brasil, por conta da nossa tradição populista, certos políticos ganham status de semideuses. Os brasileiros esperam que eles sejam heróis. Houve quem colocasse o apelido "Lula" como seu nome do meio. Imagine: a pessoa ama tanto aquele político que quer ser ele. O político toma conta da personalidade dela, como se fosse uma possessão.

Outros chamam Bolsonaro de "mito". Querem dizer, evidentemente, que Bolsonaro é uma espécie de entidade, um ser humano dotado de tantas capacidades extraordinárias que se transformou em lenda. Mas Bolsonaro não é autor de façanha alguma na vida pública ou fora dela, a não ser ter enfrentado e vencido o partido do outro político santificado, Lula.

Na verdade, pouco importa. Ainda que a crença ilógica nos superpoderes dos políticos tivesse nexo, não faria diferença. A coerência é desprezível em matéria de fé. O que os brasileiros querem é puxar alegremente o saco de seus políticos e encontrar argumentos para defendê-los, mesmo que a defesa seja absurda.

Por isso, quando você critica Lula ou Bolsonaro você sempre será considerado canalha. Os bajuladores de um e outro não aceitam que seus ídolos tenham cometido erros; a crítica é que é mal-intencionada.

Faço todo esse prolegômeno para explicar como é penoso fazer crítica a políticos no Brasil. Não todos, claro. Os nossos extremos é que são terrivelmente suscetíveis.

Mas acredito na boa vontade das pessoas. Acho que elas podem enxergar pelo menos parte da realidade com algum distanciamento, apesar da paixão.

O que está acontecendo com o Brasil urge uma reflexão desse tipo.

Falo, agora, com o eleitor de Bolsonaro. Não é possível que os crentes em Bolsonaro, por devotados que sejam, considerem normal o comentário que ele fez a respeito da mulher do presidente francês, Macron. Se você não sabe o que foi, explico: um seguidor de Bolsonaro publicou no Twitter uma foto de Michelle Bolsonaro ao lado de uma de Brigitte Macron, insinuando que o presidente francês sente inveja do brasileiro porque a brasileira é mais bonita do que a francesa. Bolsonaro respondeu: "Não humilha, cara. Kkkkkkkk".

Ontem, percebendo a repulsiva descortesia de seu comentário, Bolsonaro negou que tivesse insultado Macron e Brigitte, e encerrou uma entrevista coletiva quando os repórteres insistiram em perguntar a respeito do assunto.

Ora, é evidente que Bolsonaro ofendeu o presidente da França e sua esposa. É evidente que ele foi grosseiro e mal-educado. E é evidente que ele não assumiu a responsabilidade pelos seus atos, ao negar o que fez.

Esse tipo de atitude é grave. Não é só mais uma gafe do presidente. Pode ser muito ruim não apenas para ele, Bolsonaro, mas para todo o país. E é isso que os bolsonaristas precisam ver. A bravata, a fanfarronice e o deboche podem ser úteis durante a campanha eleitoral, mas são péssimos depois que o cargo é alcançado. Bolsonaro não é mais só um deputado folclórico, nem um candidato exótico; ele é presidente do Brasil e tem o dever de se comportar como tal. Tudo o que o presidente fala e faz é observado, analisado e tem consequências. Se você é bolsonarista e quer que o Brasil dê certo, critique-o. Censure-o. Talvez assim ele entenda que o significado de "mito" é fábula, é fantasia, é algo que só existe na imaginação, enquanto os problemas do Brasil são bem reais.

DAVID COIMBRA

28 DE AGOSTO DE 2019
ARTIGOS

AS BELEZAS DO LESTRÍGONE


Ao facilitar que se reaja por impulso, sem refletir, ou se emita opinião sem fundamentá-la ou por ela se responsabilizar, a internet dá visibilidade ao Homo sapiens menor. Daí, as fofocas, agressões e fake-news no céu virtual. Há gente que sofre verdadeira metamorfose, jogando no lixo velhas amizades.

Nós sempre tivemos esse lado obscuro. Não é culpa da inovação. É do ser humano mesmo. Do contrário, Raskolnikov não teria matado a velha agiota e a irmã inocente a machadadas, no Crime e Castigo, de Dostoievski. A internet facilita nossos sentimentos mais primitivos. Não ter de olhar nos olhos do outro é mais fácil. E o anonimato é um convite ao delito. Vem daí, em parte, a onda de agressividade cibernética.

Alimente-se da Frigga da doçura. Este lestrígone chamado internet possui dentro do peito também um coração, capaz de oferecer belezas singulares. O Concerto nº 2, para piano, de Rachmaninoff. A Polonaise, de Eugene Onegin, de Tchaikovsky. O Chorus of the Polovtsian Maidens, do Prince Igor, de Borodin. A Abertura de La Forza del Destino, de Verdi. Estas joias estão na internet, com igual facilidade que as imbecilidades dos piores representantes da espécie humana.

Quem decide é o nosso desejo e um leve pressionar do indicador. E a scene de O Lago dos Cisnes ou a Dance of the Sugar-Plum Fairy, do Quebra-Nozes, de Tchaikovsky? O Intermezzo da Cavalleria Rusticana, de Mascagni! Da palestra de Jorge Luiz Borges, La Ceguera, no Teatro Coliseo, em Buenos Aires, proferida em 1977, aos deliciosos textos do teatro de Molière! Está tudo lá!

Como um navegador português, num galeão do século 16, você tem um mundo a descobrir pela internet. Depende de você! Procure o alimento sadio para a alma. Não o combustível barato que só alimenta a raiva. Aproveite para elevar-se como ser humano. Pare de usar a internet como leniente para seus recalques. Ofender ou desqualificar quem pensa diferente só o diminuirá como pessoa. Comece com a Sinfonia nº 5, em ré menor, de Schostakovitch.

GILBERTO SCHWARTSMANN

28 DE AGOSTO DE 2019
OPINIÃO DA RBS

UM PLANO NECESSÁRIO



Mesmo que represente uma reversão nas expectativas de alguns setores, merece atenção e compreensão da sociedade gaúcha o plano do governo Eduardo Leite para tentar reequilibrar as finanças do Estado. O conjunto de ações também é parte essencial para o Rio Grande do Sul finalmente assegurar as condições para aderir ao regime de recuperação fiscal da União. Medidas duras vêm pela frente, mas é necessário admitir que o sacrifício se impõe. Alternativas homeopáticas já não são suficientes para acender, no fim do túnel, uma luz que sinalize a certeza de que o Piratini encontrará uma situação fiscal mais tranquila nos próximos anos.

Afinal, o quadro atual tem origem em décadas de leniência de todos os poderes com gastos sem lastro. O receio de perder popularidade e capital eleitoral mostrou- se pródigo para concessões de toda ordem. A máquina pública é hoje engrenagem enferrujada que praticamente vive para si, consumindo quase a totalidade dos recursos que consegue arrecadar com salários, aposentadorias e o mínimo custeio.

Há pontos no plano que têm ainda o poder de ajudar o Estado a recuperar um pouco do vigor econômico. Concessões, privatizações e parcerias público-privadas são vitais para melhorar a infraestrutura. São ainda positivas ações que modernizem a administração pública, aperfeiçoem a atuação da Receita e revisem os incentivos fiscais, mecanismo que se mostrou necessário para a atração de investimento, mas fez os Estados se digladiarem em uma guerra fratricida que pode ter os dias contados com a reforma tributária.

Devem encontrar maior resistência os pontos sobre previdência e correção de benefícios ao funcionalismo. O gasto com pessoal é o item que mais sufoca as finanças gaúchas. E é exatamente por isso a urgência em revisar benesses incabíveis para um Estado que acumula déficits bilionários a cada ano. O caminho da volta do desenvolvimento só será trilhado com a casa em ordem.

OPINIÃO DA RBS

28 DE AGOSTO DE 2019
+ ECONOMIA

Risco de duplo erro na crise amazônica



Na segunda-feira à noite, depois de saber que o colega da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, havia indicado que o governo Bolsonaro recusará os US$ 20 milhões prometidos pelo G7, o grupo dos sete países mais ricos, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo, Salles considerou a oferta "uma ajuda importante de ser aceita". Apesar do sensacionalismo e da desinformação que cercaram a reação global ao aumento das queimadas na Amazônia, o problema existe. Recusar ajuda, depois do imenso desgaste da imagem do Brasil no Exterior, é um duplo erro.

O primeiro é muito prático, como apontou Salles. A obrigação do governante é conduzir soluções. Em ao menos duas oportunidades recentes, o presidente Jair Bolsonaro foi dramático ao descrever as finanças do governo. Já afirmou que os ministros estavam "desesperados" com a falta de dinheiro e, ao explicar por que não podia reforçar a fiscalização na Amazônia, afirmou que o orçamento federal estava "um caos".

O segundo equívoco está na avaliação da profundidade da crise de imagem do Brasil. O presidente não deve ter visto as capas dos principais jornais do mundo na segunda-feira. Houve exagero? Certamente. Mas desinformação se combate com transparência e disposição de corrigir o problema. Aceitar ajuda seria um passo nessa estratégia. Até o tamanho do aceno - o valor é claramente insuficiente para combater a "destruição da maior floresta tropical do planeta", se houvesse - contribuiria para frear a especulação sobre o alcance das queimadas.

Ao indicar que pretende recusar a oferta do G7, o Brasil corre o risco de reforçar a imagem de pária ambiental, aumentar a rejeição popular no Exterior e enfrentar boicotes espontâneos. É tudo o que o país não precisa quando não consegue reativar o consumo interno e tem, no mercado externo, a oportunidade para vender, gerando empregos e renda.

Tantos ruídos já contagiam o humor dos investidores. Tantos confrontos abertos pelo presidente representam desgaste na sua aprovação nacional geral e específica - com os donos do dinheiro. As medidas de combate a incêndio na floresta deram esperança, a recusa de ajuda soa como rompimento com a comunidade internacional.

MARTA SFREDO

28 DE AGOSTO DE 2019
NILSON SOUZA

Brincando com fogo


Tenho o maior respeito por esse pessoal que ganha a vida fazendo malabarismo ou vendendo de tudo nos sinais de trânsito da Capital. São, em sua maioria, pessoas hábeis e criativas. Preferiria, evidentemente, vê-las em outros palcos ou no comércio formal, mas, considerando o flagelo do desemprego em nosso país, a informalidade é aceitável, principalmente por parte de quem trabalha de forma honesta. O camelódromo dos semáforos oferece uma diversidade incrível de produtos, que vão da casquinha doce ao balão de silicone com luz de LED. Já os espetáculos oferecidos pelos artistas de rua incluem pirâmides humanas, domínio de bola, manipulação de cones e outros objetos.

Como a maioria das pessoas, sou um espectador compulsório deste show diário, com as minhas preferências e aversões. Admiro, por exemplo, aqueles jovens que fazem embaixadas com uma diminuta bolinha, às vezes demonstrando mais habilidade do que craques da Seleção. De outra parte, torço o nariz para os baleiros que penduram arbitrariamente seus produtos no espelho retrovisor dos carros.

Há, porém, um tipo que me causa apreensão: o sujeito que faz piruetas com tochas de fogo. Talvez seja mais de um, pois já tive o desprazer de observá-lo em diferentes locais da cidade. Não questiono sua destreza, embora já o tenha visto deixar cair no asfalto um dos bastões em chamas. O que realmente me preocupa é o risco de uma tragédia. Automóveis são movidos a combustível inflamável. Com as filas de veículos que se formam nos semáforos, basta um vazamento de gasolina para gerar a tempestade perfeita.

Assim como na Amazônia, não custa prevenir. O menino dos malabares incandescentes que vá brincar de outra coisa.

NÍLSON SOUZA

terça-feira, 27 de agosto de 2019


27 DE AGOSTO DE 2019
MAPA DO TURISMO


Caxias entra para a Região das Hortênsias


Caxias do Sul integra, a partir de agora, a Região Turística das Hortênsias. É o que mostra o Mapa do Turismo Brasileiro, divulgado ontem pelo Ministério do Turismo. A relação é atualizada a cada dois anos, e o novo mapeamento vai vigorar até 2021.

A alteração atende solicitação da prefeitura, que anunciou, ainda em junho, a intenção de deixar a Região Uva e Vinho. Os trâmites para a mudança ocorreram neste ano devido ao prazo aberto pelo Ministério do Turismo para o envio da documentação dos municípios que pretendiam mudar de região. No dia 19 de junho, a proposta foi apresentada aos municípios que integravam a Região das Hortênsias e acabou aprovada pela maioria. O município de Gramado, contrário à entrada de Caxias, foi voto vencido.

Entre as justificativas para a mudança apresentada pela secretária de Turismo de Caxias, Renata Carraro, está a de que, atualmente, o município apresenta similaridades com os demais integrantes da Região das Hortênsias. Outros argumentos são que os limites geográficos e a construção do aeroporto de Vila Oliva permitem maior integração entre as cidades.

Após o acordo entre os municípios das Hortênsias, Caxias enviou a documentação à Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Turismo do Estado (Sedetur), responsável por realizar os encaminhamentos ao governo federal. No dia 24 de julho, porém, durante a tramitação no governo do Estado, uma liminar proferida pelo juiz João Pedro Cavalli Júnior proibiu a mudança de região.

Prazos

Na decisão, estão os argumentos de que o tema deveria ter ampla discussão popular e que Caxias do Sul é reconhecida nacionalmente pela ligação cultural e histórica com a uva e o vinho. Além disso, poderia haver prejuízo ao turismo local. Com a liminar, Caxias acabou perdendo o prazo para a mudança, e a Sedetur enviou ao Ministério do Turismo a documentação mantendo Caxias na Região Uva e Vinho. O município, no entanto, conseguiu derrubar a liminar no dia 14 de agosto e, na segunda-feira passada, a Sedetur encaminhou à União a validação da mudança para a Região das Hortênsias.

Por nota, a secretária Renata Carraro afirmou que "a mudança tem o propósito de fortalecer o turismo caxiense. Esse é um passo muito importante para Caxias do Sul e será um marco para a história com a aproximação de cidades que tem o turismo como a principal atividade econômica e que já possuem uma sinergia".

Ela não detalhou as próximas ações para desenvolvimento do turismo dentro da nova região.

ANDRÉ FIEDLER


DAVID COIMBRA

Malagueta, perus, bacanaço e Luan

Talvez você nunca tenha ouvido falar no João Antônio. Devia: foi um dos maiores escritores do Brasil em todos os tempos. Sua especialidade eram as histórias curtas. O conto.

Histórias curtas são subestimadas pela crítica. Um dos raros gênios literários que o Brasil produziu só escrevia histórias curtas. Na verdade, muito curtas, curtíssimas, crônicas. Falo de Rubem Braga.
Quanto ao João Antônio, alguns de seus livros são poesia disfarçada de malandragem. Procure Malagueta, Perus e Bacanaço ou Meninão do Caixote. Leia-os. Você não vai se arrepender.

Li, creio, todos os livros dele e não entendia por que não era mais festejado. Quando o conheci, entendi. João Antônio era um homem que pouco ligava para as aparências. Usava uma calça velha, azul e desbotada no tempo em que isso não era sinônimo de liberdade e chinelos de dedo no tempo em que chinelos de dedo não eram vendidos em Nova York. Eu tinha 20 anos de idade, pouca experiência, muitas ilusões e grande categoria para dar lançamentos de 60 metros no campo do Alim Pedro. 

Acompanhei-o durante uma semana em Porto Alegre a fim de assessorá-lo na divulgação de seus livros. João Antônio me tratava como um igual. Um dia, caminhávamos pelo Centro e, ao ver a beleza de pedra do Viaduto da Borges, ele pediu para irmos até as escadarias. Fomos. Subimos em direção à Duque e, no meio do caminho, ele se sentou em um degrau.
- Vamos conversar um pouco - sugeriu.

Sentei ao seu lado, e lá ficamos nós, falando de jornalismo, de literatura, das mulheres, de sinuca, da vida. Você consegue imaginar um desses escritores de academia de hoje refestelado no degrau de uma escadaria, conversando só por conversar com um gurizão que era pago para promover os seus livros?
Não tenho dúvida: se João Antônio tivesse uma personalidade mais, digamos, exuberante, ele certamente seria mais valorizado. Porque ele não era acintoso, ele tinha pouca visibilidade, mas sabia encantar o leitor.

Lembro agora de João Antônio por causa de Luan. Nenhum jogador do Brasil joga como Luan. Poucos jogaram parecido, em qualquer clube, em qualquer tempo. A movimentação que Luan faz, mesmo quando passa por má fase, dá lógica ao time. Ele concede fluência ao meio-campo e agudeza ao ataque. Mas Luan, às vezes, é considerado lento ou desatento. É o jeito dele, meio malemolente, meio melancólico, sem o marketing do romancista, apenas com a simples brevidade do cronista. Suspeito que foi essa imagem que levou Tite a preteri-lo na Seleção. 

Pois Tite estava errado. Luan consertou a Seleção na Olimpíada e é o principal jogador do Grêmio há três anos. Com ele, o futebol do Grêmio se torna escorreito, as coisas acontecem. Eu não prescindiria de Luan numa decisão como essa, de hoje, contra o Palmeiras. Eu apostaria nele. Mas, é claro, Renato sabe muito mais do que eu. Ele deve estar reservando algo especial para aproveitar o talento de Luan. Um talento que não é acintoso, que tem pouca visibilidade e é até mal compreendido. Mas que pode encantar o torcedor.


DAVID COIMBRA


EM DIA

QUE TAL AJUDAR O BRASIL?

Mais uma vez, bandeiras verde-amarelas empunhadas pela cidadania pedindo reformas, demissões no STF, e protestando sobre atos do Congresso que afrontam o razoável estavam nas ruas no último fim de semana. Trata-se de uma consciência de que o Brasil tem de mudar a partir do estágio atual, que é o resultado de 30 anos de um dirigismo estatal ineficiente.

Durante esse tempo houve a evolução de um sistema que, baseado na Constituição de 1988, se implantou no país para sugar, para roubar, para inibir o crescimento e para criar monstrengos de toda ordem, sempre em nome dos desvalidos, do povo pobre do Brasil. Uma democracia manipulada pelo dinheiro foi o principal método político e que deixa uma herança institucional que obriga agora o contribuinte a aceitar que algo em torno de R$ 3 bilhões sejam gastos nas próximas eleições para cobrir campanhas.

Um simples absurdo! Vai-se gastar isto com o quê? Nas últimas eleições, apesar de o sistema estar no seu apogeu, ele foi detonado pelas redes sociais e veio uma mudança notável. Há hoje um processo quase revolucionário em curso. As Câmaras perderam seu viés de esquerda e o Legislativo está aprovando mudanças. A Previdência é um exemplo.

Há ainda uma consciência popular do que ocorre. E isto se dá sem a menor colaboração da mídia convencional, que, sem perceber-se ridícula, e isto é incrível, atira-se no ser do contra, irritada com os defeitos de retórica do presidente, deixando de lado o que realmente importa, que é o que está sendo feito para mudar o Brasil.

Ver a maior parte da mídia nacional dar um apoio tácito a um equivocado presidente francês, claramente defendendo interesses econômicos de seu país, mentindo que a Amazônia estaria sendo destruída pela política do novo governo, decepciona quem gostaria de ver análise fria, técnica e completamente contextualizada com um mínimo de patriotismo.

Quem reage às mudanças sem um argumento que não seja a pura antipatia pelo atual presidente deveria pensar mais no país e aceitar o que pensa o brasileiro. A agenda de reformas é imensa e, em vez de nos preocuparmos com retórica de político, precisamos ajudar o Brasil a tomar rumo, e se este rumo é diferente do que nos orientou nos últimos anos, tem chance de ser muito mais certo.


RICARDO FELIZZOLA


OPINIÃO DA RBS

AS LIÇÕES DO FOGO

Vencida, ao que parece, a onda mais aguda de críticas internacionais ao presidente Jair Bolsonaro pelas bravatas e omissão na defesa da floresta amazônica, é recomendável que, a partir de agora, o governo aprenda a deixar de brigar com os fatos. O primeiro e maior aprendizado deste desastre de imagem é que os incêndios, mesmo que na média dos últimos 15 anos, foram potencializados e escandalizaram o mundo pela postura de negação e terceirização de responsabilidades do Planalto.
Outro ensinamento: a dimensão da cadeira presidencial deveria refrear a tentação do presidente de guiar seu cardápio de decisões e declarações por desinformação, radicalismo e teorias conspiratórias que poluem as redes sociais de seguidores fanáticos, substituindo-as pela informação técnica e científica. 

No fundo, os bolsonaristas mais radicais prestam um serviço a adversários que tanto combatem ao atribuir um rótulo esquerdista à causa ambiental, quando, na realidade, a defesa do desenvolvimento sustentável é a face mais moderna do capitalismo. Basta lembrar que a ideia de preservacionismo nasceu nos Estados Unidos, com a criação do primeiro parque nacional, o de Yellowstone, em 1872. No século passado, a Europa capitalista tomou a frente da defesa do ambiente, enquanto a então União Soviética e a China comunista desprezavam protocolos ambientais e se convertiam em vilões da poluição.

A imagem do Brasil que liderava diversas frentes ambientais, entre as quais a de produção de energia renovável, ruiu em poucas semanas pela incúria do presidente, mas desde sexta-feira à noite, quando mudou o tom e adotou atitudes concretas para enfrentar o problema das queimadas, o governo Bolsonaro dá sinais de que começa a compreender o impacto de suas ações ou da falta delas. 

A par da descabida menção do presidente francês, Emmanuel Macron, a uma absurda "internacionalização" da Amazônia, esses dias turbulentos teriam sido bem menos ameaçadores ao vital agronegócio brasileiro se o governo tivesse se mirado na modesta Bolívia, que, diante do incêndio de mais de meio milhão de hectares, se apressou em requisitar os serviços de bombeiros florestais internacionais por meio de um Boeing 747, a maior aeronave empregada nesse tipo de ação. Enquanto o Brasil transmitia ao mundo incontáveis imagens de incêndios, a Bolívia produzia impressionantes cenas de combate ao fogo - e de preocupação com o ambiente.

O mesmo cuidado com a imagem vem mudando a percepção sobre a Etiópia, um dos países com os piores registros de devastação ambiental. Apesar da pobreza crônica, as autoridades locais lideram uma das maiores campanhas de reflorestamento da história. Para enfrentar as secas, a Etiópia planeja plantar 4 bilhões de árvores, 40 para cada um de seus 100 milhões de habitantes. Com isso, o país, que se confundia com desmatamento crônico, miséria agravada pelas estiagens e regimes autocráticos, começa a reverter a percepção negativa aos olhos do mundo.

Além de ameaçar o agronegócio, o despreparo governamental para lidar com questões ambientais pode atingir a meta do governo Bolsonaro de aumentar significativamente o fluxo turístico externo depois da dispensa de visto a americanos e japoneses, entre outros. A natureza brasileira é uma atração de primeira grandeza, mas também esse chamariz sofrerá por um bom tempo em razão do desastre de comunicação. Equador, Colômbia e Peru, que compartilham a floresta amazônica e fazem da natureza seu mais vistoso cartão de visitas, já aprenderam há muito que não se brinca com fogo e com a imagem internacional.

OPINIÃO DA RBS

segunda-feira, 26 de agosto de 2019


DAVID COIMBRA

Os demônios que nos rondam



Outro dia citei uma passagem do Gênesis que explica um pouco dos nossos padecimentos do século 21. Nada a ver com religião, e sim com conceitos que forjam a vida prática. É uma parte da história de Noé. Gosto desse trecho da Bíblia, porque é meio misterioso. Há um pedaço que diz assim:

"Aconteceu que, como os homens começaram a multiplicar-se sobre a face da terra, e lhes nasceram filhas, viram, os filhos de Deus, que as filhas dos homens eram formosas e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram. Então disse o Senhor: ?

Não permanecerá o meu Espírito para sempre com o homem, porque ele também é carne, e a duração da sua vida será somente de 120 anos?". Isso significa que havia dois tipos de criaturas humanas: os homens e os filhos de Deus. Quem seriam esses filhos de Deus? Se você for mais adiante no Gênesis, vai descobrir: eram os "Nefilins", que algumas traduções da Bíblia chamam de "gigantes". 

Os Nefilins eram os anjos decaídos, soldados do primeiro anjo banido, Lúcifer. Ou seja: eram demônios! E eles se relacionaram e tiveram filhos com as filhas dos homens. Você percebeu a gravidade disso? Deus percebeu: "Então arrependeu-se o Senhor de haver feito o homem sobre a terra e pesou-lhe o seu coração. E disse o Senhor: ?Destruirei o homem que criei de sobre a face da terra, desde o homem até ao animal, até ao réptil, e até à ave dos céus; porque me arrependo de os haver feito?".


Foi por isso que sobreveio o Dilúvio.


Entenda: muitas histórias da Bíblia são parábolas, contadas para exercer um efeito moral no povo. O que interessa, portanto, é o que o Gênesis pretende ensinar. E a lição vem depois de passado o Dilúvio, quando Deus abençoou Noé e seus três filhos e deu-lhes uma ordem, que é o naco de texto que reproduzi. Deus disse assim:


"Frutificai e multiplicai-vos e enchei a terra. Vós sereis objeto de temor e de espanto para todo animal da terra, toda ave do céu, tudo o que se arrasta sobre o solo e todos os peixes do mar: eles vos são entregues em mão. Tudo o que se move e vive vos servirá de alimento; eu vos dou tudo isto, como vos dei a erva verde."


Eis o centro filosófico da história. O homem é dono de tudo: da "erva verde" e dos animais. Essa ideia sempre moveu o ser humano, ele sempre manipulou a natureza para viver com mais conforto. Em alguns casos, criou grandes coisas; em outros, destruiu grandes coisas. A civilização, afinal, é o controle da natureza, seja a dos nossos instintos, seja a que nos cerca. Mas, com a experiência, o homem aprendeu que a natureza é um sistema integrado: o que é feito aqui pode produzir efeitos acolá. Essa nova sabedoria fez o homem compreender que, às vezes, a melhor forma de usufruir da natureza é deixá-la como está.


Estou falando, obviamente, da Amazônia.


A Amazônia vale muito mais de pé do que derrubada. Não apenas por ser o "pulmão verde" do planeta, mas por possuir riquezas naturais que podem ser exploradas sem que haja devastação. A Amazônia é dotada de um bioma riquíssimo e do maior acervo hídrico do mundo, pode ser a sede da nova ciência do planeta, da nova química, da nova biologia, da nova medicina, e render trilhões de dólares para o Brasil, tudo isso preservando a natureza.


Nefilins de dentro e de fora do país rondam a Amazônia. Temos de protegê-la com inteligência, não com brutalidade. Antes que a ira do Senhor caia sobre nós.

DAVID COIMBRA


EM DIA

ERRADO É ERRADO

Gosto sempre de contar para as pessoas um dos ensinamentos que tive aos sete anos. Ao chegar em casa com uma fruta que tinha pegado naturalmente ao passar por uma fruteira, minha mãe, dona Nilva, perguntou onde eu havia conseguido. Simplesmente peguei sem pagar. Minha mãe, ao descobrir o meu ato ilícito, teve uma atitude imediata: me pegou pela mão e me levou de volta ao estabelecimento para pagar pela fruta e pedir desculpas ao dono da fruteira. Na minha cabeça de menino, até aquele momento, não achava que teria algum problema pegar uma fruta em meio a uma quantidade enorme delas.

A lição foi dada e me mostrou que, independentemente do valor monetário de uma fruta, a atitude estava errada e se configurava, sim, em roubo!!! Em casa, replicamos a história com os filhos ao cruzar em frente ao presídio mostrando onde estão reclusos aqueles que roubaram ou cometeram outros crimes, mas que começaram com pequenos delitos. E sei que a lição também ficou gravada na cabeça deles.

Fico chocado quando ouço pessoas proferindo o dito popular "achado não é roubado e quem perdeu é relaxado", como se uma apropriação indébita fosse legal. Se quisermos mesmo acabar com a corrupção no Brasil, além de banir a impunidade dos criminosos, é necessário educar - em casa e na escola - iniciando um debate permanente sobre ética, direito e moral. Embora muitas condutas sejam sabidamente imorais, a sociedade, muitas vezes, desconhece que, além de imorais, também são crime.
  
É fácil falar e apontar a corrupção de grandes criminosos que aparecem nas capas dos jornais, revistas e televisões, mas a reflexão que precisamos fazer é: será que não somos coniventes no dia a dia da nossa comunidade com pequenos atos ilícitos? É correto não emitir nota fiscal, não declarar Imposto de Renda, falsificar carteira de estudante, dar/aceitar troco errado, fazer "gato" da rede de energia, fazer up grade legal da assinatura de TV a cabo, furar fila, comprar produtos falsificados, bater ponto para o colega de trabalho ou falsificar assinaturas?

Vivenciamos hoje uma sociedade contaminada por atitudes que viraram padrão, esquecendo que o errado é errado. É o bom exemplo na prática que educa nossos jovens e não a teoria das palavras.


OPINIÃO DA RBS

BEM MAIS QUE UMA FEIRA

Ao longo das suas 42 edições, a Expointer se transformou em símbolo da pujança do agronegócio gaúcho, um setor que aprendeu a superar obstáculos e, também por isso, virou referência nacional e mundial. Até 1º de setembro, o Parque de Exposições Assis Brasil, em Esteio, será palco de múltiplas atrações e cenário de encontros que gerarão negócios e reforçarão laços.

O primeiro deles entre tradição e futuro, dois aspectos que tanto a agricultura quanto a pecuária gaúchas sabem compreender e valorizar. A tecnologia, expressa em máquinas, utensílios e processos muitas vezes disruptivos, já é parte inseparável da realidade do setor que, apesar dos olhos no futuro, mantém suas raízes fortes e ativas.

É justamente a capacidade de promover encontros que transformou a Expointer, sem nenhum demérito a outras iniciativas, em um marco único. Somente no primeiro dia de funcionamento, mais de 50 mil pessoas visitaram o parque de Esteio. A afluência do público urbano é esse diferencial que empresta uma relevância peculiar ao evento. Milhares de crianças, vindas de lugares onde a relação com o agronegócio se dá, basicamente, nos supermercados, açougues e vendas de bairro, aprendem sobre as dificuldades e o fascínio da produção de alimentos, máquinas e insumos.

Cria-se, assim, um elo relevante nessa cadeia de valor, tantas vezes subestimada por quem não a conhece.
O ambiente festivo não impede que as atenções de Esteio estejam voltadas também para o macrocenário, mais uma comprovação da sintonia do agronegócio com a realidade de um mundo cada vez mais dinâmico e desafiador. A guerra comercial entre Estados Unidos e China traz para cá as ameaças e oportunidades que caracterizam as crises.

Se, por um lado, as barreiras impostas reciprocamente pelas superpotências abrem espaço para a nossa produção, por outro, geram uma instabilidade com desdobramentos imprevisíveis. Outra variável que se apresenta no horizonte do agronegócio gaúcho são as possíveis consequências do desgaste da imagem do Brasil gerado por notícias sobre os danos das queimadas e dos desmatamentos na Amazônia, fato que mereceu, na sexta-feira, finalmente, uma reação sóbria e racional por parte do governo federal.

Some-se a estes fatores todos os demais, ligados à gestão mais direta dos negócios e aos ciclos impostos pela natureza, com todas as suas oscilações e imprevisibilidades. Some-se também a isso o recém-firmado acordo entre Mercosul e União Europeia e seus impactos no tecido produtivo local. Tem-se, assim, uma ideia aproximada do nível de exigência das atividades ligadas à agricultura e à pecuária, geradoras essenciais de empregos, riqueza e desenvolvimento em um país que tantos entraves ainda impõe a quem empreende.

Durante os dias da Expointer, celebramos, com justiça, um Rio Grande do Sul que deu certo e, a julgar pelo empenho e pela capacidade dos homens e das mulheres responsáveis por essa trajetória, irá continuar servindo de pilar para o desenvolvimento de um país que muito se beneficiaria se, também em outras áreas, seguisse os exemplos que vêm do agronegócio gaúcho.
OPINIÃO DA RBS


+ ECONOMIA

"O dano está feito"

ENTREVISTA | RUBENS RICUPERO - Diplomata, ex-ministro do Meio Ambiente

Primeiro ministro do Meio Ambiente do Brasil, o diplomata Rubens Ricupero (foto) acompanha com tristeza as queimadas na Amazônia, e mais ainda, a terra arrasada que restou para a imagem internacional do Brasil:

- Perdeu-se um esforço de 30 anos. O dano está feito. O agronegócio vai sofrer, será preciso correr atrás do prejuízo. O esforço que antes seria para abrir novos mercados terá de ser aplicado para recuperar terreno.

Quais serão as consequências da escalada de rejeição global?

Não creio que vá haver melhora no clima para aprovação do acordo com o Mercosul. Enquanto durar o impacto dessas queimadas, vai ficar na geladeira. A Comissão Europeia tem interesse em aprovar, porque negociou o acordo, mas não tem maioria. Vai haver aliança entre Verdes e a esquerda, mas também dos conservadores, mais ligados à agricultura. Mesmo em condições ideais, a aprovação teria sido arriscada. Nas atuais, conhecendo a dinâmica, a sensação é de que vai demorar. Vão deixar assunto na geladeira até que baixe a poeira e haja mudança efetiva.

É possível esperar mudança?

O presidente foi muito leviano. Durante meses, acumulou provocações. Quando houve reação, o governo se assustou. O pronunciamento lembrou os da Dilma, escrito e lido. Não era algo que falasse com sinceridade. Ele mudou inteiramente, passou a dizer coisas que nunca disse em toda a vida. Soou tão artificial que houve panelaços. Foi muito significativo porque ocorreu, em geral, em bairros que votaram nele. Essa mudança de discurso, em si, não basta. Tem de mudar a política. E para isso, tem de mudar o homem que colocou no ministério. Nomeou o que chamo de antiministro. 

Está lá para desmontar. Antes da posse, queria suprimir o Ministério do Meio Ambiente, transferir para a Agricultura. Acabou não fazendo porque o setor ruralista e a ministra que havia escolhido (Teresa Cristina) não quiseram. Na época, disse ?esperem só para ver quem vou colocar no ministério?. Escolheu um indivíduo condenado em São Paulo por improbidade administrativa em questão de mineração. Posso dizer porque fui o primeiro ministro do Meio Ambiente e da Amazônia. Lembro como formamos gente para isso. Desmantelaram tudo. Desencorajou e criticou seguidamente os fiscais do Ibama. Inclusive mandou punir o que o havia multado. Ele tem obsessão antiambiental.

Vê conexão entre a multa e a política ambiental?

Em parte, é porque foi multado. Lembra muito o que os psicanalistas chamam de governantes que agem por ressentimento. Quando fiscais do Ibama desarticularam uma operação de madeireiros ilegais e destruíram, conforme a lei prevê, o equipamento que usavam, o presidente e o antiministro tiveram acesso de cólera. Desautorizaram publicamente, disseram que os fiscais não deveriam, tinham primeiro de fazer ação educativa. Todos os governos anteriores, com maior ou menor eficácia, combateram o desmatamento. Este é o primeiro que, desde o começo, deixou claro que era contra a fiscalização. Não são só palavras, são atos.

Do que vai depender a recuperação da imagem?

Para ficar satisfatório, do ponto de vista internacional, tem de mudar a política. Não basta mandar o Exército. Ele tem de mudar o antiministro, tem pôr de volta os funcionários. Daqui a alguns dias, o comitê de Meio Ambiente da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) vai começar o exame das políticas ambientais brasileiras em Paris. Como o Brasil vai querer entrar na OCDE se não mudar de política? O problema lá não é como o pessoal pensa aqui, que pode haver sanções de governo. Pode haver sanções espontâneas da população. Ao contrário do Brasil, lá a consciência ambiental é muito avançada. A carne brasileira já custava a metade da argentina, por causa da qualidade. Agora, vai ser como um veneno.

Qual o tamanho do desgaste?

Eu era assessor especial de (José) Sarney quando assassinaram Chico Mendes. Houve a primeira grande campanha sobre destruição da Amazônia. A resposta foi muito adequada: ofereceu o Brasil para ser sede da Rio 92. Teve atitude proativa, não defensiva. Houve um segundo momento de melhora, quando começou a cair o desmatamento, entre 2004 e 2005, que em grande parte se deve a Marina Silva (ex-ministra do MMA). Perdeu-se um esforço de 30 anos. Não é o governo que desmata. São atores privados, grileiros, pecuaristas, madeireiros ilegais. O papel do governo é impedir. Mas basta cruzar os braços, amarrar os fiscais, para que o desmatamento aumente. 

O presidente é o autor desta crise. Não é só na Europa, é na Ásia, nos Estados Unidos. Ainda que o Trump seja aliado, é do Congresso a última palavra sobre comércio. Trump quis mudar o Nafta (Acordo de Livre Comércio da América do Norte, que reúne EUA, Canadá e México). Foi obrigado a reforçar cláusulas ambientais e trabalhistas, e há risco de não aprovar. Imaginar que o Brasil possa manter essas políticas em relação aos indígenas, em relação à mata, e obter alguma vantagem comercial com os EUA é não conhecer a situação real. O agronegócio vai sofrer, será preciso correr atrás do prejuízo. O esforço que antes seria para abrir novos mercados, terá de ser aplicado para recuperar terreno perdido.

MARTA SFREDO


CLÁUDIA LAITANO

Espiral do tempo

Meu mundo é hoje, diz uma linda canção de Paulinho da Viola. Outro artista da excepcional safra de 1942 (Tim Maia, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Paul McCartney, Jimi Hendrix...), Caetano Veloso disse algo parecido ao completar 77 anos, no início de agosto: "Eu sigo moleque. Eu sei que sou velho, mas estou curioso para experimentar a velhice. A verdade é que, se não houver muitas desvantagens, nunca se é velho: a pessoa que você é ainda é o que você tem sido".

Do nascimento até a morte, parece que somos sempre novos demais ou velhos demais para alguma coisa. Sem perceber, vamos nos movendo lentamente entre o que já está ao nosso alcance e o que ainda não está (ou não está mais). Caetano está certo: por dentro, nunca ficamos mais velhos do que sempre fomos, mas aos poucos percebemos que o que esperam de nós vai se tornando uma identidade emitida sem a nossa autorização. 

Olhamos a senhorinha que caminha com dificuldade na rua carregando uma sacola de compras e lamentamos a melancolia lenta da velhice, enquanto ela, distraída, talvez esteja fazendo planos para as próximas férias ou pensando em voltar a estudar. Observamos o jovem adulto com certa nostalgia de uma felicidade despreocupada sem lembrar que ninguém tem a distância ou a tranquilidade necessárias para sentir-se privilegiado no placar cronológico em qualquer época da vida.

Cada geração e, no limite, cada indivíduo vai explorando seus limites, empurrando para mais longe ou mais perto a borda das possibilidades em aberto a cada momento. Quem decide que é tarde demais para mudar de profissão, começar (ou voltar) a estudar, sair de um casamento infeliz, aprender um novo idioma, dar a volta ao mundo, se apaixonar, dançar no sábado à noite, subir ao palco? A melhor idade, essa expressão que a maioria das pessoas com mais de 60 anos considera cínica e quase ofensiva, se existe, é aquela em que estamos presentes no presente. Sem pressa demais para chegar ao futuro ou apego excessivo ao que ficou no passado. Nosso mundo é hoje.



CLÁUDIA LAITANO