sábado, 3 de maio de 2025


 
03 de Maio de 2025
ANDRESSA XAVIER

O país dos resignados

Pessoas que passam por situações difíceis vão criando o que chamamos de casca. É um anticorpo para não serem tão afetadas ou pelo menos reagirem diferente na próxima vez que a vida lhes der uma rasteira. Quando o inesperado vem, já estão preparadas. Nada mais surpreende. É assim que sinto o brasileiro hoje. Calejado com Mensalão, Petrolão, Lava-Jato e afins, o cidadão já não espera mais nada. Quando deposita a confiança em um político que promete o mundo, invariavelmente vai quebrar a cara. Nem sempre nota na hora, mas o arrependimento vem. Sabe que não pode colocar a mão no fogo por ninguém. Às vezes o faz, pois é um otimista por natureza, mas não é o recomendado.

O brasileiro é resignado. Além da corrupção, ainda lida com a impunidade. Não só nos roubos descarados, mas até em mortes provocadas por motoristas bêbados, que dificilmente seguem presos, para dar um exemplo. Ou ainda os mil recursos de um condenado e dribles dentro das brechas que as leis proporcionam.

Enquanto o cidadão comum enfrenta o ônibus lotado, a fila do SUS e rebola para se sustentar com um salário que não cobre as despesas básicas da casa, o grupo dos que se acham espertos cria quadrilhas institucionalizadas, como foi o que aconteceu no INSS e descobrimos recentemente, embora o tenha sangrado por anos a fio. Uma operação que não para de dar frutos podres. Seis bilhões de reais descontados indevidamente e sem autorização entre o governo anterior e o atual. Em português bem claro, roubo direto da fonte.

De novo, os mais vulneráveis são vítimas de um sistema que usa e abusa das falhas para colocar a mão no dinheiro dos outros. Se achávamos que a histórica fila de espera do INSS era problemática, seja por falta de gestão ou por incompetência e má vontade, agora descobrimos que esse era o menor dos problemas.

É de um cansaço tremendo ver os mesmos erros se repetindo. Temos a sensação de abandono e de não poder fazer nada para mudar os rumos de um país que tem a corrupção entranhada em sua história. O Brasil precisa de um Estado que respeite seu povo, que proteja seus mais frágeis, que puna os culpados sem medo ou conivência. Quando o ministro responsável pela indicação no INSS e pela pasta, que também foi alertado sobre o golpe que havia lá dentro e ignorou o aviso, continuou por semanas no cargo, se estende um sangramento desnecessário. Em nome da governabilidade, o governo Lula errou mais uma vez ao manter Carlos Lupi, o omisso, no cargo. Somente na sexta-feira, depois de todo o desgaste, é que o ministro, enfim, caiu.

Enquanto isso, seguimos como os resignados e determinados fazem, trabalhando e nadando contra a maré. A indignação das pessoas já não constrange mais Brasília. _

ANDRESSA XAVIER

03 de Maio de 2025
MARCELO RECH

Cumpra-se a Constituição

Neste 3 de maio, quando se celebra o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, é bom lembrar que toda essa discussão no STF e alhures sobre regulação das mídias sociais poderia ser tratada, sem censura ou tortuosas ameaças de controle estatal, com uma medida prática e um conceito básico.

A medida: as plataformas, como qualquer empresa que faz negócios no Brasil, passam a cumprir a Constituição brasileira. O Artigo 5º, inciso IV, que é a síntese da defesa da liberdade de expressão, diz textualmente: "É livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato". Por conveniência, as big techs só levam em consideração a primeira parte da frase, mas é depois da vírgula que está a chave para se aplacar as aberrações das redes sociais.

Ao proibir o anonimato, os constituintes fixaram sabiamente que somos livres para nos expressarmos, mas não pode haver - salvo exceções em lei, como paródias - manifestações anônimas, exatamente porque, em caso de abuso, todos podemos ser responsabilizados. E que restrições são essas? Nada de novo. Eu as aprendi nos primeiros anos de faculdade de Jornalismo, e lá se vão uns 45 anos, quando nem se cogitava de internet. São os Artigos 138, 139 e 140 do Código Penal, os conhecidos calúnia, difamação e injúria, que valem para qualquer cidadão e abarcam a maioria das baixarias das redes sociais.

Aplique-se a Constituição às plataformas, pois, e elas terão de limpar a sujeira dos robôs e de suas contas falsas e anônimas, por onde verte boa parte do esgoto digital. De quebra, teremos uma sanitização adicional nas fraudes dos cliques artificiais em anúncios e dos seguidores de mentirinha. Todo mundo, menos quem fatura com as contas fakes, naturalmente, sairá ganhando.

Agora ao conceito. Um supermercado que vende alimento vencido e intoxica seus consumidores não pode alegar que não tem responsabilidade porque é apenas um intermediário - como, aliás, fazem algumas big techs quando lavam as mãos sobre fraudes e abusos em conteúdos impulsionados, ou seja, sobre como acumulam fortunas.

A responsabilização das plataformas pela forma como fazem dinheiro poderia se chamar Lei Drauzio Varella. Há alguns dias, o respeitado e popular médico desabafou em artigo na Folha de S. Paulo que a Meta, dona do Facebook e do Instagram, se omite descaradamente sobre as quadrilhas que usam sua imagem e voz recriada com inteligência artificial para enganar incautos com propagandas de tratamentos tão miraculosos quanto inúteis.

Em qualquer atividade, o ideal seria a autorregulação, mas quando empresas se negam a cumprir preceitos éticos mínimos, é hora de, em benefício final dos usuários e consumidores enganados, retirar o certificado de isenção concedido ingenuamente às big techs. _

MARCELO RECH

03 de Maio de 2025
CONSELHO EDITORIAL

Pois nessa semana que passou, completamente desavisada, vivi um turbilhão de emoções despertado por reportagens históricas do Brasil e do mundo, pelas grandes coberturas das últimas décadas, pelos personagens de novelas, trilhas sonoras, artistas, comediantes, apresentadores, pelas cenas do esporte e nossos atletas de todos os tempos.

O show dos 60 anos da TV Globo, que espetáculo! O Jornal Nacional ao vivo dentro da casa dos brasileiros, quanta competência e sensibilidade. As homenagens aos que tornaram tudo isso possível com o seu empreendedorismo, talento, criatividade, determinação e muito trabalho, todas merecidas.

Aprendi com meu pai e com a cultura nipônica a atenção aos detalhes, o valor do trabalho (muito) bem-feito e a busca pela excelência. Com a minha mãe, entendi o impacto que a beleza e a ordem trazem para a vida da gente. Assim, impossível não reconhecer que a Globo carrega em seu DNA o compromisso com a estética, com o cuidado artístico, com o desejo de entregar algo impecável ao público.

Sejamos justos: essa busca incessante por excelência, somada ao amor pelo Brasil e pelos brasileiros, foi decisiva para promover neste nosso país gigante, de tantos sotaques, desafios e divergências, uma identidade única, visual e cultural, a nossa brasilidade. A Globo construiu um modelo de televisão, da qual a RBS TV faz parte desde o princípio, que soube valorizar as regionalidades e, ao mesmo tempo, conectar esse país continental consigo mesmo, ajudando-nos a construir nossa autoestima, a sentir orgulho de quem somos.

Quanto a gente dá conta de ver, aprender, sentir e viver em 20, 40 ou 60 anos? Muito, mas infinitamente menos, se o fizermos sozinhos. Por isso, ao passar a limpo esses 60 anos da TV Globo, com seus erros e acertos como qualquer pessoa, empresa ou instituição, enxerguei minha própria história e senti gratidão. 

CEO da ANK Reputation e membro do Conselho Editorial da RBS contatoconselhoeditorial@gruporbs.com.br


OPINIÃO RBS

Um ano depois do momento mais agudo da pior enchente de todos os tempos no Rio Grande do Sul - que deixou 183 mortos, 27 desaparecidos e milhares de desabrigados em quase todos os municípios do Estado -, percebe-se que a população gaúcha se divide entre dois sentimentos antagônicos: o orgulho de sua própria resiliência e uma grande preocupação em relação às promessas públicas de reconstrução.

No entanto, muito já foi feito nesse sentido. Desde o primeiro momento, governantes, autoridades e lideranças comunitárias se mobilizaram no socorro e no atendimento básico às famílias desalojadas. Em poucos meses, pontes e ligações asfálticas foram recuperadas e as principais atividades econômicas já podem ser consideradas praticamente normalizadas. Com raras exceções, as cidades atingidas se sentem mais preparadas para enfrentar calamidades.

Em âmbito estadual, o Plano Rio Grande - o programa de recuperação e resiliência climática apresentado pelo governo do Estado - contempla aspectos importantes para o enfrentamento de futuros desafios climáticos. Porém, como a destruição foi rápida e a reconstrução depende de trabalho, recursos e superação de barreiras burocráticas, é natural que alguns setores da sociedade cobrem medidas mais efetivas.

Além disso, algumas comunidades ainda se sentem expostas aos riscos provocados por eventos climáticos extremos que, segundo os especialistas, tendem a se repetir com maior frequência no futuro. É compreensível: mesmo quando existem vontade política e recursos públicos disponíveis para a execução de obras recomendadas, como é o caso do dique localizado na zona norte da Capital, a dificuldade em remover moradores da área de risco para habitações dignas acaba entravando todo o processo.

Enquanto o setor privado trabalha em ritmo alucinante para normalizar a atividade produtiva, como acaba de constatar o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em relação ao crescimento da produção agropecuária do Estado, o setor público esbarra em trâmites burocráticos. Estudos e projetos necessários à liberação de recursos demoram a ser concluídos, obras públicas sofrem interrupções injustificadas por qualquer motivo e até mesmo providências aparentemente simples, como limpeza de bueiros e recomposição de barreiras de proteção, esbarram nas limitações do poder público.

Ainda assim, é impositivo reconhecer que o Rio Grande avançou muito neste ano de convalescença. Considerando-se as dimensões da catástrofe, o povo reagiu com coragem insuspeitada e nunca faltou empenho às nossas lideranças políticas para buscar soluções, tanto no âmbito federal quanto no estadual e nos municípios.

Só que a corrida contra o tempo continua. Enquanto as populações vulneráveis não forem retiradas das áreas de risco, a infraestrutura de transporte e serviços essenciais não for totalmente reparada, os sistemas de proteção e contenção de rios não estiverem concluídos, a drenagem dos grandes centros urbanos não for melhorada e a população não for adequadamente educada para reagir a situações extremas, o trabalho de reconstrução de um Rio Grande melhor não estará concluído.  


Saída de Lupi não reduz erros do governo no INSS

Era tão insustentável a permanência de Carlos Lupi no Ministério da Previdência que ele comunicou sua saída no final da tarde de sexta-feira. A substituição foi feita às pressas - o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem viagem a Rússia e China - e não deixou no comando do maior orçamento da União alguém blindado a qualquer suspeita. A indicação do número 2 da Previdência, Wolney Queiroz, dá sinal de... continuidade. É o oposto do que deveria ser o objetivo de uma mudança.

A lista atualizada dos sete erros

1. Falta de reconhecimento da dimensão e da gravidade: o relatório da Controladoria-Geral da União (CGU) estima que a fraude alcançaria R$ 6,3 bilhões. Só a escala deveria ter derrubado todo e qualquer responsável pelo malfeito e pela falta de vigilância que permitiu chegar a esse valor. É mais grave por atingir pessoas vulneráveis, com renda mais baixa e menor letramento digital.

2. Desarticulação na entrevista que detalhou a operação: causaram perplexidade a defesa feita pelo ministro da Previdência, Carlos Lupi, do presidente do INSS já afastado, e o aceno distraído do ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, que previu ressarcimento dos beneficiários pelos danos para "um dia".

3. Demora na demissão do presidente do INSS: com Alessandro Stefanutto afastado, não havia motivo para hesitar. O vaivém custou quase um dia de desgaste, até que a decisão fosse enfim tomada. Esse já foi corrigido, mas deixou de herança a corrosão de credibilidade.

4. Hesitação na substituição no Ministério da Previdência: afastar não é pré-julgar que Carlos Lupi tem envolvimento na fraude. Mas o ministro é o responsável pela gestão do maior orçamento da União. Sua manutenção reforçava as acusações de leniência do governo com corrupção. O problema é que a substituição, feita às pressas e sem que o indicado seja blindado a qualquer suspeita, prorroga o equívoco.

5. Atraso na suspensão dos acordos suspeitos: só na tarde do dia seguinte ao da operação. O mecanismo da fraude era conhecido muito antes. A comunicação deveria ter ocorrido no dia anterior. Gerou indignação dos possíveis afetados, dos mais vulneráveis aos com maior poder de pressão.

6. Conta-gotas na apresentação de dados: só dias depois da operação foram expostos detalhes como o que envolve Virgílio Oliveira Filho, ex-procurador do INSS. Conforme a PF, teria recebido R$ 11.997.602,70 e um carro de luxo avaliado em R$ 500 mil, transferido à esposa do ex-diretor. Uma transferência de R$ 11 milhões é muito, mas o prejuízo estimado é 572 vezes maior.

7. Bate-cabeça na definição do ressarcimento: desde o "um dia" do ministro da Justiça até a ordem de Lula para que seja feito pelas associações fraudulentas, ainda não houve sinal concreto sobre como fazer a compensação devida com a rapidez e a eficiência que faltaram na detecção da fraude. _

Gaúcha em Jurerê

Foi batido o martelo de um residencial à beira-mar com infraestrutura durante todo o ano e apartamentos de até 600 m2 em Jurerê entre a gaúcha Melnick e a catarinense Dimas Construções. O plano é dotar de atrativos que vão além da temporada de verão, para atender os moradores nas quatro estações.

Está prevista área de até 5 mil m2 de comércio e serviços de alto padrão. O projeto tem um terceiro parceiro, a dona do terreno HSH Empreendimentos. As empresas estudam outros quatro projetos. _

Conversa de EUA e China dá alívio

Foi uma sexta-feira com muitas emoções no mercado, sem que isso provocasse fortes variações em câmbio e bolsa. No Brasil, o dólar recuou 0,41%, para R$ 5,653 e a bolsa fechou praticamente estável, mas com sinal positivo (0,05%) depois de um dia inteiro no vermelho.

Os sinais refletem projeção mista. Uma é favorável, aos sinais - sem confirmação - de início da negociação de tarifas entre Estados Unidos e China. Isso fez quase todos os pregões subirem, da Ásia aos EUA.

Outra avaliação foi desfavorável do ponto de vista nacional: os dados do mercado de trabalho nos EUA vieram mais fortes do que se esperava, reduzindo a chance de corte de juro por lá. Se houvesse redução, ajudaria o Brasil a atrair capital.

As duas interpretações estarão na mesa do Comitê de Política Monetária (Copom) na próxima semana. Está contratada uma alta de juro, mas há suspense: as apostas vão de 0,75 ponto percentual até 0,25 ponto.

O sinal de possíveis tratativas veio de um comunicado do Ministério do Comércio chinês, afirmando que "os EUA enviaram mensagens, por meio de partes relevantes, na esperança de iniciar conversas". O presidente Xi Jinping tentará ser o adulto na sala. _

Os EUA precisam mostrar sinceridade, corrigir suas práticas e cancelar tarifas unilaterais.

Ministério do Comércio da China

Em comunicado que informou sobre iniciativa americana para abrir negociações tarifárias.


03 de Maio de 2025
REPORTAGEM -Bruna Oliveira - Kathlyn Moreira

REPORTAGEM

ZH encontrou algumas das pessoas chamadas de refugiadas climáticas e mostra como está o reinício de laços afetivos, as lembranças do que ficou para trás e o que elas esperam do futuro. Estudo aponta que cerca de 1 milhão teve de se deslocar de suas casas, de forma permanente ou temporária

Migrantes da cheia

Esperança de dias melhores e vontade de recomeçar

Em questão de horas, milhares de gaúchos mudaram drasticamente as suas vidas. Em maio do ano passado, muitos foram obrigados, para evitar serem levados pela água que avançava pelas ruas, invadia casas, derrubava grades e portões de fábricas e subia ferozmente, a deixar suas casas.

Um ano depois, os chamados refugiados climáticos recomeçam as suas vidas em novos locais, fugindo da força da natureza e buscando novos horizontes. A reportagem de ZH encontrou algumas dessas pessoas e mostra como está o recomeço em distâncias que chegam a centenas de quilômetros das antigas moradias.

Fernanda Paula Silva teve a casa, comprada meses antes da enxurrada e o comércio, inundados pela força do Jacuí em Eldorado do Sul, na Região Metropolitana. A decisão foi recomeçar em Porto Alegre. O casal Paulo Roberta Silva e Chaiane Nunes dos Santos saíram às pressas, com a água já no tornozelo, para viver em Quintão. Alessandra, que cresceu na região da Ilhas se viu obrigada a deixar a moradia que podia desabar, carregando apenas as lembranças para uma nova vida na zona norte da Capital. _

Uma saída para não voltar mais

Na madrugada de 2 de maio de 2024, Fernanda Paula Silva, 39 anos, e dois filhos, de 13 e cinco anos, saíram às pressas da residência no bairro Centro Novo, em Eldorado do Sul, enquanto a água tomava praticamente por completo a moradia. E o comércio de venda de frango assado de Fernanda, que ficava no bairro Chacará, foi castigado de forma severa pela enxurrada.

Com o pouco que deu para salvar, eles deixaram Eldorado do Sul em direção a Porto Alegre. E nunca mais voltaram. Fernanda conta que a decisão foi baseada no medo de reviver tudo de novo:

- Desde aquela madrugada em que eu fechei a minha casa não voltei mais. Acabei ficando em Porto Alegre por medo mesmo, porque a qualquer chuva que dá, a gente já fica desesperada.

A altura da água chegou a 1,5 metro na residência e atingiu o teto do estabelecimento comercial. Poucas peças e equipamentos puderam ser recuperados do local.

A morada deixada para trás, agora alugada por outra família depois da limpeza, foi entregue à Fernanda meses antes da tragédia climática. O lugar que concretizava a realização de um sonho mal teve tempo de abrigar outras memórias.

- A Caixa me entregou a chave, a casa novinha, recém-financiada, tudo lindo, tudo branquinho. Sabe? As minhas tomadas, as minhas janelas. Não passei um Natal e um Ano-Novo na minha casa - conta Fernanda.

O recomeço na Capital tem sido "a passos de formiguinha" e conta com o suporte de amigos e familiares. O endereço fica no bairro São José, na zona leste da Capital, distante de inundações, e recebe casa e comércio lado a lado.

- Ainda estou começando a existir aqui em Porto Alegre. Sei que, de repente, não vou acessar o centro da cidade, mas não preciso, porque tenho o mercado e a escola dos meus filhos perto. Então, as coisas estão, sim, caminhando para o melhor - celebra a empreendedora, embora relata que sente muita saudade do pôr do sol visto da janela de sua antiga casa em Eldorado do Sul. _

Mudança para um local provisório

Alessandra Lacerda, 25 anos, cresceu na Ilha Grande dos Marinheiros, em Porto Alegre. Percorrendo as ruas vazias, a líder comunitária recorda os jogos de taco e as correrias de quando era criança. A casa, repleta de memórias, se tornou inabitável e com risco de desabamento. A água, além de levar embora os materiais que ela utilizava para vender açaí, arrastou a vontade de voltar a viver na região das Ilhas, apesar do amor que ela demonstra pelo local.

- Por um lado, me parte ter que estar saindo daqui, mas, por outro, não dá para ficar. A ilha não é mais segura por conta da enchente - resume.

Alessandra diz que ainda paga contas de móveis que nem tem mais. O sentimento de abandono carregado pela comunidade fez com que Alessandra decidisse ir embora.

Vivendo provisoriamente em estadia solidária no bairro Vila Farrapos, em Porto Alegre, Alessandra aguarda o processo do Compra Assistida, da Caixa Econômica Federal, para morar em um imóvel escolhido em Alvorada, com o filho de cinco anos.

- Fui para a casa do meu irmão em Eldorado do Sul. A gente não sabia que a enchente ia ser tão grande. De lá, fomos para a Mathias (bairro Mathias Velho, em Canoas), com água no peito. Depois, a gente foi para Guajuviras (em Canoas), na minha irmã. Nisso, fui para Alvorada e depois aluguei na Vila Farrapos - diz Alessandra.

Mesmo trocando de município, Alessandra afirma que não deixará de atuar como líder comunitária para ajudar seus vizinhos e a mãe, que ainda mora no mesmo terreno e também aguarda o processo para adquirir uma nova casa.

- Ela não está aceitando muito bem sair da ilha, mas falei para ela que não tem como ficar, não tem mais posto de saúde. Hoje tem uma carreta com atendimento maravilhoso, mas a gente não sabe até quando - desabafa Alessandra, relatando que, a cada nova chuva, o coração ainda fica aflito pensando na mãe e nos moradores que seguem na ilha. _

O que são refugiados climáticos?

Junto à escalada dos desastres ambientais, popularizou-se expressão para designar os que deixam as suas casas, de forma permanente ou temporária, para escapar da força da natureza. São os refugiados climáticos.

Mas, ao contrário de outros conceitos como migrante, refugiado ou asilado político, não há definição legal no Brasil ou de organismos internacionais sobre refugiados climáticos. O que existe é uma interpretação muito ampla sobre o que se enquadraria neste grupo de pessoas, explica o professor de Relações Internacionais da ESPM-SP, Roberto Uebel.

A falta de definição legal sobre o conceito, diz, resulta em uma série de entraves, seja para a elaboração de políticas públicas, seja para a obtenção de auxílios por parte dos atingidos.

"Isso dificulta a obtenção de auxílio financeiro, por exemplo, ou leva ao caso que vimos de cidadãos sem nenhum documento tendo que lidar com a burocracia", afirma o pesquisador.

Estudo conduzido pelo pesquisador mostrou que mais de 2 milhões de pessoas foram diretamente afetadas pela cheia no Rio Grande do Sul. Metade delas precisou se deslocar de suas casas, de forma permanente ou temporária.

No Litoral, com uma nova vida chegando

Berço montado, enxoval encaminhado, ansiedade e planos pela frente. Completando sete meses de gravidez, a autônoma Chaiane Nunes dos Santos, 34 anos, prepara a chegada de Lorenzo, ao lado do marido, Paulo Roberto Silva, 64 anos. O casal deixou Eldorado do Sul no dia 2 de maio de 2024 e decidiu ficar na casa de praia da família, em Quintão, acompanhados da cadelinha e da gatinha de estimação.

Aposentado, Paulo conta que viveu no município da Região Metropolitana desde 2000 e já havia enfrentado outras inundações, mas nada comparado ao que aconteceu no ano passado, quando os dois saíram já com a água batendo no tornozelo dentro de casa.

- Na de 2024, perdi tudo. Tem roupas aqui que estou usando até hoje que ganhamos de doação. A gente foi levantando tudo, achando que não ia ser tão alto. A água chegou em cima do telhado, quebrou telha, quebrou tudo - lembra Paulo.

Um ano depois, ele conta que é difícil lidar com o psicológico e com a saudade dos filhos do primeiro casamento, que ficaram em Eldorado do Sul. O contato é mantido pelo celular.

- Não consigo dormir direito desde a enchente. Começo a pensar na minha casa lá. A minha filha morando lá. A minha cabeça está sempre voando, não consigo descansar - relata.

Chaiane diz que a chegada do bebê despertou mais insegurança e pavor de ter que lidar com os alagamentos outra vez:

- Não quero voltar para lá, porque tenho medo de pegar mais uma enchente. E se vier mais uma até que venha um dique novo?

Sentado no gramado da frente da nova casa, Paulo comenta o adesivo que fez questão de manter na traseira do carro com a frase "Eu amo Eldorado do Sul".

- Vou uma vez por mês lá rever os amigos e depois retorno. A saudade é muito grande. Vou continuar amando Eldorado. É a minha segunda cidade. Nasci em Porto Alegre, me criei em Viamão, mas hoje eu sou eldoradense de coração - confessa ele, ainda alimentando a esperança de um dia poder retornar ao município pelo qual nutre tanto carinho. 

sexta-feira, 2 de maio de 2025



02 de Maio de 2025
EDITORIAL

Símbolo de afeto

Em 2020, quando o mundo enfrentava a crise sanitária da pandemia de covid-19, fiquei doente. Na época, a orientação era de procurar ajuda médica somente em quadro avançado de sintomas. Como tudo era novidade e não julguei ser necessário, me mantive em casa, respeitando a quarentena. Minha mãe, contudo, veio cuidar de mim. Na ocasião, trouxe consigo um kit salva-vidas: caldo de batata, remédios e amor - este último essencial.

Embora o relato expresse a gentileza e a coragem do gesto da visita, outro merece destaque, principalmente, porque escrevo sobre gastronomia: o preparo da refeição. Estamos acostumados a limitar este tipo de prato a momentos de saúde fraca. Mas, é possível ampliar o imaginário. Cremes e sopas, para além da expressão de zelo, são uma oportunidade de aproveitar as estações amenas e explorar o paladar por meio de ingredientes versáteis. Significa afeto, conforto e nutrição.

Nas próximas páginas, a Lela Zaniol sugere receitas que vão aquecer a rotina durante as baixas temperaturas do outono. Aproveite para se inspirar na cozinha e, quem sabe, contribuir com o bem-estar de alguém que lhe seja caro. Ainda, na coluna Porta-Copos, a enóloga Natália Frighetto detalha sobre os processos que resultaram no vinho IA, criado com uso de inteligência artificial. O rótulo da Casa Tertúlia, da serra gaúcha, foi elaborado com as variedades Marselan, Merlot, Teroldego e Cabernet Sauvignon. Abaixo, confira eventos, concursos e destaques da gastronomia. Sirva uma taça e faça boa leitura por aí! _

Daiani Aguiar - Analista de Conteúdo

EDITORIAL

Novelão

Noveleiros do Brasil estão enlouquecidos. Pela primeira vez um remake tem despertado um desejo coletivo de assistir a obra original e comparar com a nova versão. Vale Tudo é considerada por muita gente a novela das novelas! Eu não tinha assistido - quando passou na TV pela primeira vez, no fim dos anos 1980, eu nem era nascido.

Fui fisgado por esse enredo. Já no primeiro capítulo passei a querer acompanhar a saga da Maria de Fátima querendo subir na vida no Rio de Janeiro e saber os detalhes da família Roitman. Capítulo após capítulo a história fica ainda mais interessante.

Na semana da estreia, lembro que chegaram a falar na internet que essa comparação entre as versões poderia prejudicar o desempenho, que a comparação iria atrapalhar o andamento dessa nova roupagem e que vários dos atores da nova versão não chegariam aos pés dos originais.

Baita engano!

As versões têm muitas coisas parecidas e, ao mesmo tempo, bem autênticas. O roteiro segue a linha da obra original, mas os personagens trazem o mundo atual. A Maria de Fátima quer ser influencer, coisa que nem existia lá atrás.

Eu adoro ver as novas cenas e comparar com as antigas. Acho divertido. A internet toda, na verdade, vai ao delírio com essas comparações. A recaída da Heleninha foi fenomenal! A Paolla Olivera está entregando muito!!!

Fato é que quem gosta de novela está consumindo Vale Tudo de uma maneira inovadora. Embora os últimos anos tenham tido outros remakes como Renascer e Pantanal, dessa vez é diferente. Em Pantanal até fizeram algumas comparações da Juma antiga e da nova, mas não da maneira como estão fazendo agora.

Estou tão encantado com isso. É apenas uma das possibilidades que o streaming trouxe pra gente hoje em dia. Para quem achava que as novelas não impactavam mais a massa, Vale Tudo prova que um bom texto, boas interpretações e uma direção afinada são capazes de virar o jogo.

As minhas noites estão muito mais felizes desde a estreia de Vale Tudo! Estou até pensando em criar um grupo pra assistir os capítulos com outros viciados nessa história. Não vale tudo para subir na vida, mas no país do jeitinho o que não vale, mesmo, é perder essa trama que vai marcar, mais uma vez, a história da televisão brasileira. 

MARCO MATOS 



02 de Maio de 2025
ARTIGOS

A democracia da toga

Eduardo Uhlein - Desembargador do TJRS

Envergar a toga, símbolo de integridade e circunspecção na atividade da Justiça, nunca foi ceder ao clamor das multidões ou às vozes que buscam se impor pela força. É, por essência, um exercício contramajoritário, que desafia pressões em nome da concretização dos direitos fundamentais, observadas as linhas traçadas pela Constituição Federal e pela lei.

A cena pública das sustentações orais e dos debates em plenário pode sugerir o ápice da argumentação jurídica, marcada por retórica intensa, emoção e parcialidade. Mas é no silêncio dos gabinetes, longe dos holofotes, que o magistrado analisa provas, refina alegações, interpreta os fatos à luz do ordenamento jurídico e, com serenidade, decide.

A sentença não busca aplausos nem adesões fáceis. Sua função é resistir ao arbítrio, coibir abusos, garantir direitos e preservar a ordem jurídica como fundamento da vida em sociedade. Afirma que há regras, que a lei vigora, e que o Estado democrático de direito permanece sendo o pilar da convivência civilizada.

Por isso, soa grave - e injusta - a retórica que acusa o Poder Judiciário de instalar uma "ditadura da toga". Ao contrário da força bruta, da exceção e da mordaça a calar as liberdades de expressão em suas diferentes naturezas, marcas dos regimes autoritários, o Judiciário opera dentro dos limites legais, com motivação pública, transparência, controle recursal e obediência à Constituição. É esse compromisso que sustenta o equilíbrio institucional e protege a sociedade das tentações autoritárias, quaisquer que sejam suas origens.

O debate sobre os limites da atuação judicial é sempre legítimo, mas não deve redundar em equiparações indevidas e que depreciam a importância fundamental do Judiciário como guardião da Constituição e do regime democrático.

Em tempos de incerteza como os que vivemos, exige-se que se escolha entre o que é certo e o que é fácil. Que todos os que integram as instituições democráticas, inclusive as que representam a cidadania e a advocacia, saibam reconhecer essa escolha - e o valor de defendê-la. _

Atentado à Constituição - Jair Soares - Ex-governador do RS

Tramita no Senado Federal o Projeto de Lei Complementar nº 108/2024, aprovado pela Câmara dos Deputados no final de 2024. O projeto de lei disciplina a institucionalização e o funcionamento do Comitê Gestor do Imposto sobre Bens e Serviços, à luz da Emenda Constitucional nº 132/2023, reforma tributária do consumo. A competência para a instituição do imposto foi deferida à União, em caráter privativo, quanto aos seus aspectos substantivos, prevendo-se a implantação gradativa até o final desta década. Isso está definido na Lei Complementar nº 214/2025.

Aos Estados, Distrito Federal e municípios, ficou reservada a "competência compartilhada" - melhor seria: "mitigada" -, via exercício pelas respectivas administrações tributárias das funções que lhes são inerentes, a partir das normas exaradas pelo comitê. A função de arrecadação do novel imposto, por exemplo, será centralizada no âmbito do comitê em tela, que fará a distribuição do que vier a ser arrecadado, tendo como destinatários os entes subnacionais. A operacionalização será realizada via split payment, sofisticada ferramenta tecnológica ideada para agilizar o compartilhamento da receita do IBS, a par reduzir, por suposto, fraudes e sonegação.

A leitura das atribuições do comitê gestor permite inferir: terá que ser organizada complexa estrutura para seu funcionamento, comandada pelo Ministério da Fazenda, do ponto de vista normativo e no plano tecnológico. Demais disso, os futuros contribuintes do IBS terão que concentrar suas atenções em pelo menos dois pontos fundamentais, no que respeita ao split payment: conformidade tributária e fluxo de caixa, face à dinâmica do tributo. Afora a incógnita quanto ao aumento da carga tributária, inevitável. As respostas às indagações supra estão com as senadoras e os senadores, bem assim as correções de rumo. Ainda há tempo. 


02 de Maio de 2025
OPINIÃO RBS

OPINIÃO RBS

A fila do sofrimento

São dramáticos e revoltantes os depoimentos colhidos pelo Grupo de Investigação da RBS com pacientes do Sistema Único de Saúde que aguardam por uma cirurgia para implantação de prótese no Estado. Entre mais de 11 mil rio-grandenses nesta triste condição, os repórteres identificaram pessoas que estão na fila da espera e do sofrimento há nove anos - a maioria impossibilitada de se locomover sem o apoio de muletas, andadores ou cadeiras de rodas. A pior condição é a dos doentes com dores crônicas, alguns dos quais dependentes de sedativos para descansar e dormir.

Durante as duas semanas em que acompanhou e ouviu esses cidadãos negligenciados pelo poder público, a reportagem de GZH constatou um outro componente que agrava ainda mais o martírio dos pacientes: a falta de perspectivas. Poucos sabem quando terão o alívio da cirurgia reparadora recomendada pelos médicos. A maior demanda é por prótese de quadril, indicação para 52,3% dos registros da Secretaria Estadual da Saúde. Outros 45%, quase 5 mil pessoas, esperam por uma prótese de joelho. Significa que o Rio Grande do Sul tem um contingente de mutilados sem ter passado recentemente por uma guerra.

Como isso pôde acontecer? Em notas oficiais, as Secretarias de Saúde do Estado e do município de Porto Alegre, que concentra parcela expressiva de pretendentes às cirurgias ortopédicas, explicam que o fenômeno é resultado da demanda reprimida durante a pandemia, conjugada com outros fatores como o envelhecimento da população, o aumento de acidentes e lesões e o subfinanciamento crônico do Sistema Único de Saúde. 

Os órgãos públicos locais também assumem o compromisso de acelerar programas em andamento e promover mutirões cirúrgicos para priorizar casos mais graves e fazer a fila andar mais depressa. Já o Ministério da Saúde se propõe a intensificar o controle e o monitoramento dos procedimentos do SUS para reduzir o tempo de espera por consultas, exames e cirurgias - com a ressalva de que a regulação e o agendamento das cirurgias são de responsabilidade de Estados e municípios.

Ainda que as justificativas sejam razoáveis, os pacientes precisam muito mais de ações do que de explicações. Trata-se de uma emergência, quase uma calamidade pública. As pessoas estão sofrendo e muitas delas, devido à longa espera, terão suas situações agravadas se não forem atendidas logo. O mínimo que se pode esperar é que os agentes de saúde saiam a campo, como fizeram os repórteres do GDI, para localizar os casos mais urgentes e reorganizar as prioridades.

Ao contrário do que ocorre com a fila de transplante de órgãos, que depende de doadores e de compatibilidade para andar, os pacientes com indicação médica para prótese dependem apenas de recursos materiais e de atendimento profissional eficiente para terem seu sofrimento abreviado. O desespero dessas pessoas, revelado sem retoques nas histórias relatadas pelos próprios pacientes e por seus familiares, é um atestado de fracasso do poder público na sua principal atribuição constitucional - que tem a saúde como um direito de todos e um dever do Estado. 



02 de Maio de 2025
FRAUDE NO INSS

FRAUDE NO INSS

Pressão sobre Carlos Lupi aumenta e ameaça relação de Lula com PDT - Fraude no INSS

Presidente resiste em afastar ministro, mas condução da crise pelo Planalto é alvo de crítica por parte do líder da sigla na Câmara. Além de protocolar um pedido de CPI, oposição apresentou representação criminal na PGR. Pesquisa indica que maioria dos brasileiros é favorável à demissão

A pressão crescente sobre o ministro da Previdência, Carlos Lupi, desde a revelação dos desvios bilionários em aposentadorias e pensões do INSS, tensiona a relação entre o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o PDT.Ontem, em meio à incerteza sobre a permanência de Lupi na Esplanada, o líder da sigla

na Câmara dos Deputados, Mário Heringer (MG), criticou a condução da crise pelo Planalto e reiterou que uma eventual demissão levaria ao rompimento do partido com a gestão.

Na quarta-feira, a ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, defendeu a permanência de Lupi, mas afirmou que, se for comprovada alguma irregularidade, ele será afastado. No mesmo dia, Lula nomeou o procurador federal Gilberto Waller Junior como novo presidente do INSS, sem consultar Lupi.

- A entrevista da Gleisi foi salomônica. Ela fala que o governo vai manter o ministro e logo embaixo o presidente desqualifica o ministro fazendo a indicação do presidente do INSS sem ter conversado com Lupi antes. Se ele acreditasse na nossa posição, chamaria o Lupi e indicariam juntos - disse o deputado.

Lupi foi quem indicou, para a presidência do INSS, Alessandro Stefanutto, que pediu demissão após a deflagração da operação da Polícia Federal (PF) e da Controladoria-Geral da União (CGU) na semana passada. A investigação apontou que até R$ 6,3 bilhões podem ter sido desviados entre 2019 e 2024 por meio de descontos não autorizados em contracheques de beneficiários a título de mensalidades associativas.

Conforme Henringer, porém, o governo deveria assumir parte da responsabilidade, e não jogá- la apenas a Lupi.

- Na verdade, quem indica é o ministro, mas quem aprova é a Casa Civil. Lupi indicou, mas vocês (governo) assinaram embaixo. Essa responsabilidade é que o governo deveria entender que tem - cobrou.

Pesquisa

Esta semana, um pedido de instalação de comissão parlamentar de inquérito (CPI) para investigar as irregularidades no INSS foi protocolado na Câmara. Lupi também é alvo de uma representação criminal apresentada pelo líder da oposição na Câmara, Luciano Zucco (PL- RS), na Procuradoria-Geral da República (PGR).

Apesar da resistência de Lula em afastar Lupi até agora, uma pesquisa AtlasIntel divulgada ontem mostra que 85,3% dos brasileiros entendem que ele deveria ser demitido em função da crise no INSS.

Também ontem, o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, disse que a permanência de Lupi dependerá da "condição política".

- O que o governo está fazendo é dar instrumento ao ministro Lupi para, primeiro, mostrar capacidade de resolver os problemas. Hoje, tem um novo presidente do INSS, que é a instituição principal para solucionar esses problemas. Então, o ministro tem em mãos todas as ferramentas para virar essa chave. Vai depender agora da funcionalidade, da velocidade dessas soluções - disse.

A declaração ocorreu durante o ato de 1º de Maio promovido por centrais sindicais na zona norte de São Paulo, no qual Lula não compareceu. _

"A condição política pode determinar a continuidade (de Lupi) ou não."

Luiz Marinho - Ministro do Trabalho, durante o ato de 1o de Maio em SP

quinta-feira, 1 de maio de 2025


01 de Maio de 2025
CARPINEJAR

Sentinelas da Casa

Não tenho nada contra o Legendários. Só o fato de reunir homens abraçados e de mãos dadas para oração já é uma proeza.

Fundado em 2015 na Guatemala pelo pastor Chepe Putzu, chegou ao Brasil em 2017. Mais de 14 mil brasileiros se alistaram na jornada. É uma febre entre marmanjos, com o propósito de resgatar a identidade, fortalecer os laços familiares e inspirar ações sociais e engajamento nas comunidades locais.

O recrutamento quase militar pode gerar desconfiança ideológica da esquerda: um movimento da direita? Pode ser estereotipado: um movimento hétero? Mas sempre pesará mais o que você carrega da experiência do que a experiência em si. Se você não tem valores sólidos, será arrebanhado, hipnotizado, arrastado para uma lavagem cerebral.

Homens fracos acreditam em tudo. Homens fortes escolhem no que acreditar. Percebo, no entanto, que estamos precisando mais de algo como Sentinelas da Casa.

Se o Legendários é voltado para o reforço da masculinidade por meio de desafios ao ar livre, vejo que nossa principal carência é o contrário: o cuidado com os filhos e com a relação amorosa, a manutenção da vida cotidiana com a disciplina e a constância do afeto.

Dependemos mais do nascimento de uma mentalidade e menos da restauração de uma crença.

Em vez de caminhadas, trilhas, caças e provas de resistência que testam os limites do corpo, queria ver o quanto os homens aguentariam ficar dentro de casa: cozinhando, limpando o que está na pia, lavando, estendendo e passando a roupa, alimentando e arrumando os filhos, realizando os deveres escolares com eles, faxinando os banheiros.

Em vez de acampar e acender fogueira com o atrito das pedras, teriam que aprender a permanecer mais na própria residência, a ser mais presentes e disponíveis, a se preocupar com o que falta na geladeira e no coração dos mais próximos.

Seria interessante inventar uma corrente para assumir as responsabilidades domésticas, muito além de matar baratas, abrir potes de conserva e consertar chuveiro. Os homens fariam os ranchos, acompanhariam as crianças ao médico, compareceriam às reuniões com os professores, buscariam e levariam os pequenos à escola, verificariam seus boletins, regrariam seus horários de sono e de banho, leriam histórias na cama.

Gostaria de uma imersão que mudasse a entrega da alma, com gincana mental para reaver a concentração e o foco nas conversas. Ouviriam suas esposas até o fim, sem interromper, sem ocupar o centro das atenções, sem distorcer, sem andar de um lado para o outro: parados, olhando nos olhos, não se mostrando distraídos com o celular e tarefas secundárias.

Entenderiam o que é igualdade entre os gêneros na prática, numa desintoxicação do ciúme e da possessividade, incentivando as carreiras das parceiras, seus cursos, suas interações sociais. Não mais desejariam que fossem uma segunda mãe, aquela exclusiva e incondicional companhia para seu benefício. Parariam de dizer que elas são seu braço direito, um modo eufemístico de disfarçar a exploração.

Não perguntariam aonde elas vão e com quem, não interfeririam em suas roupas e amizades, respeitariam suas decisões. Não agrediriam, não falariam alto. Não usariam palavrões e grosserias para impor suas opiniões. Não coagiriam ninguém, não bloqueariam a saída com a truculência dos cotovelos, não bateriam portas.

Abandonariam todas as piadas preconceituosas e homofóbicas, exercitando a empatia, aceitando as diferenças, criando um vínculo com a humildade. Demonstrariam bravura ao cumprir suas palavras e promessas - jamais delegando a ordem da casa às suas companheiras.

O banal se transformaria numa epopeia do autoconhecimento. A verdade é que os homens ainda são ausentes e omissos. Mais de 172 mil crianças foram registradas sem a identificação paterna, representando aproximadamente 6,9% dos nascimentos no país. Atualmente, cerca de 11 milhões de mulheres no Brasil criam seus filhos sozinhas.

E isso existe desde sempre. Então, não é o caso de recuperar a masculinidade, mas de finalmente começá-la. 

CARPINEJAR

01 de Maio de 2025
GPS DA ECONOMIA - Marta Sfredo

PIB dos EUA cai e espalha temor

A surpresa negativa com o Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos no primeiro trimestre, que recuou 0,3%, interrompeu uma sequência de oito baixas no câmbio, e o dólar fechou em alta firme de 0,82%, para R$ 5,676. A bolsa murchou, embora com discrição (0,1%). O preço do petróleo tipo brent, principal referência mundial, para julho caiu 3,51%, a US$ 61,06 por barril.

O desempenho do PIB americano veio bem pior do que o esperado, ao redor de 0,4% positivos. Embora seja do período de janeiro a março, antes do famigerado Dia da Libertação, o 2 de abril, já foi impactado por tarifas anunciadas e em vigor antes dessa data. Conforme o Escritório de Análise Econômica dos EUA (BEA, em inglês, que divulgou o resultado), um dos indicadores que puxou o resultado para baixo foi o aumento de importações, que contam negativamente para o PIB.

E as compras no Exterior, como se sabe, aumentaram por tentativa de antecipar os pedidos antes que as novas alíquotas entrassem em vigor. Outro elemento de baixa, mas que o BEA considerou "imensurável", foi a série de incêndios na Califórnia, um dos Estados mais ricos dos EUA. Para configurar o temido cenário de estagflação, a inflação atingiu 3,4% no primeiro trimestre, muito acima dos 2,2% dos três últimos meses de 2024.

Sob forte pressão de montadoras, fornecedores de autopeças e concessionárias, Donald Trump decidiu atenuar a alíquota de 25% sobre carros importados na noite de terça-feira, véspera do anúncio do PIB encolhido. As empresas alertaram para o risco de aumento de preços, fechamento de fábricas e até perda de empregos - supostamente, o objetivo era o inverso.

Se queda se repetir, é recessão

Um trimestre de recuo no PIB é ruim, mas ainda não configura a "recessão técnica", determinada por dois períodos seguidos de três meses com baixa na atividade.

O risco de que isso ocorra depois de junho é alto, como advertiram vários economistas, de bancos a universidades. Os EUA não tinham resultado negativo no PIB desde o quarto trimestre de 2022, ainda influenciado pela pandemia. No evento em comemoração aos primeiros cem dias de governo, Trump usou a expressão "100 dias de grandeza". A truculência, de fato, foi grandiosa. O efeito econômico foi o oposto. _

Lula desconfia, mas mantém Lupi no cargo

Ao puxar para si a indicação do novo presidente do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva expõe sua desconfiança na atual estrutura do Ministério da Previdência - leia-se o ministro Carlos Lupi. A informação foi dada ontem pela ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann.

Ao ser perguntada sobre por que o presidente da República assumiria essa responsabilidade, Gleisi nem se preocupou em dourar a pílula:

Porque ele acha importante.

É, de fato, extremamente importante. A Previdência tem o maior orçamento da República e o INSS é seu braço operacional. Merece que o presidente escolha o ocupante do cargo. A dúvida que essa decisão de agora provoca é por que antes não foi tão importante, deixada a livre escolha de um ministro que, no dia da descoberta de uma das maiores e mais graves fraudes do INSS, foi complacente e elogiou seu indicado.

Depois de dizer outras barbaridades - como que o INSS não é o "botequim da esquina", quando estava sendo gerido como se fosse -, Lupi mudou radicalmente de discurso ao depor na Comissão de Previdência da Câmara. Defendeu que os saqueadores de aposentados e pensionistas têm de ir para a cadeia. Mas a condescendência voltou a aparecer quando disse:

- A gente sabia que tinha algum descontrole, que tinha denúncia, é claro que todo mundo sabia. E não é de hoje.

Se "todo mundo sabia", por que nada foi feito antes que a Controladoria-Geral da União investigasse? Lupi age como se a fraude fosse uma espécie de efeito colateral da gestão. Não surpreende que tenha perdido a confiança presidencial. Ao assumir a responsabilidade pela indicação do novo presidente do INSS, Lula tenta aplainar o futuro, mas ainda precisa prestar contas do passado. E um governo que mantém alguém que aparenta ser leniente com corrupção fica condicionado a ser julgado pelo conjunto. 

Eletrobras segue privada, mas com mais governo

A Eletrobras, desestatizada em 2022, segue privada, mas o governo federal vai aumentar seu poder na companhia. É uma nova versão da máxima de que, no Brasil, até o passado é incerto. Nesta semana, os atuais acionistas e a União fizeram acordo que dá ao governo federal três vagas no conselho de administração. É a mais alta instância de decisão: define estratégias e aprova investimentos relevantes.

Em março de 2023, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva caracterizou a privatização da Eletrobras como "crime de lesa- pátria" e disse que o governo voltaria a ser "dono" da companhia. Chegou perto.

A contrapartida para os acionistas privados é se livrar da Eletronuclear. Na privatização, essa parte da estatal foi separada, mas a Eletrobras manteve fatia de 33%. Terá de arrumar mais três cadeiras na sala de reuniões, mas sai do grupo de controle da nuclear e não terá de fazer aportes, por exemplo, na eventual retomada das obras de Angra 3. _

Entrevista - Gustavo Gonzaga - Professor titular do Departamento de Economia da PUC-Rio

"É natural que as sociedades migrem para jornada menor"

Quais os efeitos da mudança de jornada de 48 para 44 horas semanais em 1988?

O contexto era diferente, a inflação era muito alta. Mesmo com aumento do custo de mão de obra por redução de jornada, era fácil repassar aos preços. Não encontramos efeito positivo nem negativo sobre o emprego. Evidências empíricas em várias reformas semelhantes obtiveram resultados parecidos.

Como está o debate agora?

Mais maduro. Antes, a discussão era baseada em que a redução de jornada aumentaria o nível de emprego, porque seria possível partilhar um trabalho que seria feito com mais pessoas trabalhando menos horas. Não é o que ocorre, porque redução de jornada vem acompanhada de manutenção do salário mensal, aumentando o salário por hora. As pessoas discutem efeitos negativos no emprego, mas a sociedade tem de pensar o que os economistas chamam de externalidade. Se as pessoas só têm um dia por semana para cuidar das outras tarefas da rotina, com mais tempo, pode beneficiar a sociedade como um todo. Ao longo da evolução, é natural que as sociedades migrem para jornada de trabalho menor, com uma escala mais razoável.

A proposta é factível?

Sou otimista. É essencial reconhecer que envolve aumento de custo para empresas. Como toda proposta tem ganhadores e perdedores, empresas que contratam por 44 horas serão negativamente afetadas. Podem repassar o impacto para o preço ou para o emprego. O efeito pode ser compensado, como um todo, por outras empresas ou por externalidades, mas, tipicamente, não ocorre aumento de emprego. O que se espera é redução.

O que poderia viabilizar?

Mudanças de jornada vêm com uma grande negociação da sociedade. É uma oportunidade de mudar vários outros parâmetros que são prejudiciais aos empregadores e acabam sendo prejudiciais aos empregados também.

Quais?

Com a nova Constituição, houve redução da jornada de 48 para 44 horas, mas também aumento do adicional de hora extra, que era 20% e passou a ser 50%. Dá para fazer o contrário agora, reduzir de 50% para 20%. Outra compensação seria flexibilizar o período em que se conta a jornada de trabalho. Na França, quando houve redução de 39 para 35 horas, as empresas puderam implementar banco de horas mais longo, sem contabilizar a jornada toda semana. Outro exemplo é o adicional de férias de um terço, que só existe no Brasil. E mais, o pagamento das férias é antecipado. Quando o trabalhador tira férias, representa um custo enorme para empresa.

É real a alegação de que acabar com a escala 6x1 gera aumento da produtividade?

Esse argumento, em geral, não é defensável, a não ser por externalidades, do ponto de vista de que a sociedade ganha. Se fosse um fato, as empresas já teriam feito redução de jornada.

De que outra forma seria possível elevar a produtividade?

Ter relação capital-trabalho mais baseada em premiar quem está há mais tempo de serviço na mesma empresa, diminuir a desconfiança entre empresários e empregados. Há excesso de legislação. Temos muito ainda a aperfeiçoar na legislação trabalhista. _

GPS DA ECONOMIA

SISTEMA FINANCEIRO

Sicredi projeta expansão no Estado e lança campanha

Após um 2024 de expansão no Brasil, o Sicredi planeja seguir no mesmo ritmo este ano, apostando no fortalecimento das economias locais. Na terça-feira, a instituição financeira apresentou a projeção de abrir mais de 230 agências em todo o país, sendo 25 delas no Rio Grande do Sul.

E lançou uma nova campanha de comunicação, reforçando os laços com o Estado no tema: "Somos do Sul, somos do Brasil". Segundo a gerente de Comunicação e Marketing da Central Sicredi Sul/Sudeste, Anna Quadros, a voz escolhida para "resgatar o orgulho do povo gaúcho" foi Lucas Lima, com uma releitura do Canto Alegretense.

Conhecido pela atuação forte junto ao setor primário (é o principal financiador da agricultura familiar no país e o segundo maior operador do Plano Safra), o Sicredi vem tendo expansão acelerada no varejo. Nos últimos 10 anos, foram abertas mais de 1,5 mil agências no país, crescimento de 110% em operações, que levou à sexta posição entre as instituições financeiras de varejo no Brasil.

Proximidade

A estratégia, explica o presidente da Central Sicredi Sul/Sudeste, Márcio Port, é apostar na proximidade com os 9 milhões de associados.

- Apenas no Rio Grande do Sul, mais de 30 cidades contam com o Sicredi como única instituição financeira. Isso mostra nosso interesse em estarmos próximos aos associados independentemente do tamanho do município, fomentando a melhoria da qualidade de vida e a geração de emprego e renda - diz.

No Rio Grande do Sul, o Sicredi tem 2,7 milhões de associados e 680 agências físicas, presentes em 484 cidades - 97% do território gaúcho. Além de superar os 700 pontos de atendimento até o fim do ano, a empresa também atua no fortalecimento da atuação no digital. _ 


01 de Maio de 2025
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Como Cruzeiro do Sul lida com a tragédia

As cicatrizes deixadas pela enchente do Taquari ainda estão visíveis em Cruzeiro do Sul, a cidade que teve mais vidas tragadas pelo rio em maio de 2024 (13, sem contar os corpos nunca localizados). Em alguns pontos, as margens arrombadas pela fúria das águas são feridas abertas.

No trecho que margeia a cidade, o leito do rio foi alargado, quase emendando a barranca com o asfalto da RS-129. Vista do alto do morro que abriga o casarão branco de janelas azuis, sede da Secretaria Municipal de Educação, a cidade vive uma normalidade aparente, mas o prefeito Cézar Leandro Marmitt, o Dingola, conhece bem a realidade dos moradores e sabe o quanto falta fazer no processo de reconstrução.

Vítima da enchente, o prefeito teve a casa destruída e hoje mora de aluguel em um imóvel que não está imune a futuros alagamentos. Dingola estava ajudando a salvar moradores da cidade quando viu a água invadir sua própria casa - a família tinha saído horas antes, temendo pelo pior.

E por mais estranho que pareça, agradece a Deus pela enchente de setembro de 2023, que também afetou a cidade, mas serviu de alerta para as pessoas fugirem enquanto havia tempo.

No Passo de Estrela não houve tempo de todo mundo sair, porque a água não venceu a curva do Taquari e invadiu o bairro do qual só restaram ruínas e a imagem de Nossa Senhora de Fátima.

Parte do local que será transformado num parque já está limpa, mas em outra ainda restam entulhos. Os moradores estão espalhados, vivendo de aluguel social, abrigo de parentes, casas em áreas de risco, imóveis comprados pelo governo federal e, mais recentemente, em moradias provisórias montadas pelo governo do Estado onde será o bairro planejado.

Habitação é o maior desafio para Cruzeiro do Sul, que espera para o segundo semestre a entrega das primeiras casas definitivas no Novo Passo de Estrela. Foram 1.109 casas condenadas, que deveriam ter sido desocupadas. Nem todas foram. Por não terem para onde ir, ainda há famílias morando quase dentro do rio. Cedo ou tarde, todos terão de ser reassentados. _

Fé em Deus e confiança no futuro longe do rio

Na casa 10 do loteamento que abriga as moradias provisórias em Cruzeiro do Sul mora Maria Salete Farias, mais uma das vítimas da enchente que olha para o futuro com esperança depois de viver quase um ano em um alojamento.

Na parede, ela tem um quadro com uma foto dela e do governador Eduardo Leite e um terço branco sobre a moldura.

Evangélica, Maria Salete espera continuar morando no Novo Passo de Estrela e diz que tem muita fé em Deus:

Que não se repita na minha vida nem na de ninguém. _

Um canto para chamar de seu

Melo faz política de boas relações com ministro

Bento Gonçalves "retorna" ao plenário da Assembleia

Em abril de 1835, quando o Brasil ainda era império e nem a Revolução Farroupilha havia se iniciado, era instalada a Assembleia Legislativa Provincial do Rio Grande do Sul. Passados 190 anos, o parlamento promoveu uma sessão especial, com direito à "volta" de Bento Gonçalves, deputado da primeira legislatura, ao plenário.

A encenação ficou por conta do ator Werner Schünemann, que já havia interpretado o papel na minissérie A Casa das Sete Mulheres, da Rede Globo, em 2003.

Schünemann declamou trecho de Os Varões Assinalados, de Tabajara Ruas, que faz uma descrição histórica de Porto Alegre em 1835. _

POLÍTICA E PODER

01 de Maio de 2025

INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

A alfaiataria que há cem anos veste os papas

Alguma coisa está fora da ordem neste período pré-conclave em Roma. E olha que, a se confirmar, será uma ruptura de séculos. Eu explico: desde que foi fundada, em 1798, a alfaiataria Gammarelli, no centro histórico da capital italiana, atrás do Panteão, confecciona a primeira roupa que um papa eleito veste, tão logo a fumaça branca sai do alto da Capela Sistina, quando ele assoma ao balcão da Basílica de São Pedro para se apresentar, pela primeira vez, ao mundo.

São seis gerações da família Gammarelli, que recortaram o tecido e costuraram as vestes de Pio XI, Pio XII, João XXIII, Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II, Bento XVI e Francisco.

Eu disse: uma tradição secular. Tão logo um papa morre, o Vaticano telefona para a Gammarelli e encomenda três peças, tamanhos P, M e G. Em 2005, quando cobri o conclave que elegeu o cardeal Joseph Ratzinger como papa Bento XVI, as roupas que o futuro Pontífice vestiria ficaram, inclusive, na vitrine, naqueles dias pré-conclave.

A Gammarelli não atende só aos papas. É uma alfaiataria religiosa: tem obviamente as batinas, as casulas, estolas, túnicas, entre outros paramentos sacerdotais. Há também anéis muito bonitos, e os cálices para a transubstanciação do vinho em sangue de Cristo, segundo a tradição na Eucaristia.

Ontem, a uma semana do início do conclave, entretanto, alguma coisa estava diferente. Na vitrine, não estavam as roupas papais. Ok, até poderiam não estar prontas ainda - segundo os funcionários, são necessários dois dias e meio para cortar os tecidos e costurá-los a mão. No local, estava apenas um solidéu branco, encomendado pelo papa Francisco, e que não foi buscado. 

Mais: o gerente, Lorenzo Gammarelli, que administra a loja junto com três primos, estava precisando dar explicações a quem chegava perguntando sobre as roupas do sucessor do papa argentino. Ele não quis gravar entrevistas, mas tem informado que, dessa vez, não recebeu nenhum pedido do Vaticano. A única informação por parte da Santa Sé é que "estão cuidando disso".

Quebra de tradição

Discreto, Lorenzo acredita que essa pode ser mais uma quebra de tradição de Francisco, que não gostava de desperdício de dinheiro ou exibição de excessos. Como apenas um dos tamanhos é usado para o famoso "habemus papam" ("havemos papa"), é provável que ou o Vaticano reutilize a roupa de Francisco ou o novo pontífice vista aqueles números que foram dispensados em 2013. Oficialmente, entretanto, não se sabe o motivo de, pela primeira vez em 227 anos, a Gammarelli não ter recebido uma ligação do Vaticano para preparar as vestes papais. _

Lembrancinhas religiosas

Enquanto estava vivo ou mesmo agora, depois de morto, Francisco move o comércio de suvenires religiosos nos arredores do Vaticano. Sua imagem é, disparada, a mais procurada pelos peregrinos: em bótons, ímãs de geladeira e cruzes acompanhadas de uma foto. As lembrancinhas mais simples variam de 5 euros a unidade (cerca de R$ 32) pelos ímãs até 15 euros pela cruz com a foto (cerca de R$ 96). _

Entrevista - Júlio Lancellotti - Pároco da Paróquia São Miguel Arcanjo, no bairro da Mooca (SP)

"A questão não é ser progressista ou não. É ser fiel a Jesus"

Uma das vozes mais atuantes da Igreja Católica nas redes sociais e em iniciativas filantrópicas, Júlio Lancellotti concedeu entrevista para falar sobre o papa Francisco e as expectativas para o próximo pontificado.

Que legado Francisco deixa?

O legado ainda vai durar muito tempo, porque é uma verdadeira floresta. Ninguém consegue derrubar de repente. E é uma floresta de misericórdia, de compaixão, solidariedade e empatia. Os depoimentos que estamos ouvindo, até dos moradores de rua das imediações do Vaticano, são de que ele era um pai. E que ele os visitava: as pessoas transgênero, as pessoas detentas. O papa Francisco traz uma novidade tão grande, que, para entendê-la, vai levar tempo.

Quais as diferenças entre o papa Francisco e anteriores?

Eles continuaram fiéis à tradição milenar da igreja. O papa Francisco não rompe, ele inova. Aquilo que diz São Maximiliano Kolbe: "O amor é criativo". Então, Francisco não só manteve a tradição, como voltou à mais genuína tradição da Igreja, que é o amor fraterno, proposto pelo próprio Senhor.

O que esperar do próximo papa?

Vamos esperar que surja do discernimento dos eminentes senhores cardeais, que vão discernir, à luz do Espírito Santo, que Francisco não era um papa da Igreja Católica, era um papa para o mundo. Não podemos retroceder. Precisamos continuar a caminhar nessa senda.

O próximo papa seguirá progressista como o papado de Francisco?

A questão não é ser progressista ou não. É ser fiel a Jesus, ao Evangelho. Foi isso que o papa Francisco foi. Uma Igreja não autorreferencial, não voltada para si, não voltada para o luxo, mas falando e se abrindo para todos. _

INFORME ESPECIAL