quarta-feira, 7 de julho de 2021


07 DE JULHO DE 2021
MÁRIO CORSO

Caipirinha de inverno

Antes do GPS, os aventureiros que se embretavam em lugares pouco habitados, usavam o Dry Martini para se orientar. Explico para quem não conhece o dispositivo. Os antigos perceberam que, sempre que se fazia esse coquetel, aparecia alguém para dizer que a receita estava errada.

Além das constatações óbvias, de que drinques não são uma ciência exata, e que palpiteiros são epidêmicos, perceberam que o efeito colateral poderia ser útil. Então, uma vez perdidos, os viajantes misturavam gin ao Martini até surgir alguém para opinar. Perguntavam ao crítico qual o caminho de volta. Ora, se ele tampouco soubesse, restava mandá-lo preparar sua versão. A segunda pessoa surgida, para também criticar, informaria sobre a geografia local.

Essa introdução lembra que os drinques são sempre polêmicos. Já vou me defendendo dos puristas, que creem que caipirinha é cachaça com limão e açúcar. Já os cientistas da Fundação Getulio Vargas a descrevem como infusão de cachaça com qualquer cítrico. Caipirinha, portanto, é um conceito aberto.

A melhor maneira de suportar nosso longo inverno, que nos distancia da praia, do chope e da caipirinha tradicional, é consumindo a caipirinha de inverno. Ela aquece a alma, protege o corpo e nos faz sonhar com climas melhores. Vamos à receita.

Você precisa de uma lima. Atenção, não é pomelo, toranja ou cidra. É lima mesmo. Usaremos o suco de uma fruta média. Acrescente raspas da casca, para usufruir do óleo que todos os cítricos possuem, e que dão um toque, uma nota acima, do sabor de seu suco.

Junte a um naco de gengibre do tamanho de um polegar. Corte em fatias finas para melhor esmagar. Deixe o suco da lima repousar dentro do gengibre moído. Depois verta duas doses de cachaça.

Sim, com vodca também funciona. Essa bebida é o único destilado nu. Não tem gosto. É água com álcool. Logo, não adiciona sabor. Mas esqueça, queremos algo brasileiro.

Coe e acrescente uma colher de açúcar, para a cachaça reencontrar a doçura perdida na destilação. Pode ser o mascavo, interfere positivamente no sabor, mas deixa a apresentação enferrujada. Decida você. Pode ser algum adoçante desses artificiais radioativos? Pode, mas não fica tão bom.

Em uma taça, acrescente gelo à mistura. Sim, eu sei que estamos no inverno, mas pede uma generosa pedrinha. Aceite e ponha.

Essa bebida traz de volta nossas melhores lembranças veranis e dispara aquela preguiça que amolece os ossos. Ela evoca o calor do sol, o cheiro salgado do mar, os corpos bronzeados do verão, a poesia da beira da praia. Tome ouvindo chorinho, samba ou bossa nova.

No embalo dessa mistura reconectamos um Brasil que está perdido na memória, mas que tem força para voltar. O longo inverno da pandemia, este tempo escuro, estúpido e triste vai passar.

MÁRIO CORSO

06 DE JULHO DE 2021
DAVID COIMBRA

A CPI da Covid e o sistema

Quando eu estava na faculdade de Jornalismo, a Famecos, da PUC, todo mundo falava no "sistema". O sistema tinha de ser derrubado, ele era a razão de todo o mal que nos acometia. Quando ocorria algo de ruim, alguém sempre deduzia: "Isso é culpa do sistema". Mas o sistema era muito forte, ninguém jamais o vencera. Como combater o sistema?

O sistema, no caso, eram os mecanismos políticos e econômicos que dominavam o Brasil desde que Cabral gritou "terra à vista" ao divisar, ao longe, o Monte Pascoal.

O sistema garantia a exploração dos mais fracos e a impunidade dos mais fortes. O sistema era flexível e sólido ao mesmo tempo. Era impossível se opor ao sistema impunemente.

O sistema, o sistema, só falávamos no sistema.

Hoje, tenho pensado muito no sistema, devido à CPI da Covid, que grassa no Senado. Porque me pergunto o seguinte: o que vai acontecer, depois de todas as apurações e revelações da CPI?

Para quem conhece o sistema, a resposta é óbvia:

Nada. Se alguém for punido por algum ilícito, do que duvido muito, será um assessor do segundo escalão ou um político obscuro.

No Brasil é assim. Mas houve um momento em que não foi assim: no período da Lava-Jato. A Lava-Jato denunciava, condenava e prendia, e fazia tudo publicamente, para não deixar dúvidas.

Durante anos, o sistema ficou perplexo. Eles não sabiam como reagir. Mas, aos poucos, foram se reorganizando, se readaptando e se fortalecendo. O mais interessante, nessa resposta, é que ela foi dada por personagens que não se encontravam diretamente envolvidos nas denúncias. Era uma parcela da sociedade que, mesmo sem se locupletar com o sistema, estava incomodada com a mudança.

Individualmente, a figura mais ativa da reação foi Gilmar Mendes. Sua atuação no desmonte da Lava-Jato foi precisa e eficaz. Claro que ele recebeu uma ajuda inesperada do seu principal alvo, Sergio Moro, que deixou a magistratura e aderiu ao governo Bolsonaro. Ou seja: inseriu-se no sistema. Foi um presente que Moro deu a Gilmar.

Nesse contexto, a redenção pública de Lula é um símbolo. Não que pessoalmente Lula seja importante para o sistema. Não é. Mas sua prisão foi o auge da Lava-Jato. Processá-lo e prendê-lo era como dizer: "Ninguém, nem o mais poderoso, está acima da lei". A anulação dos seus processos diz o contrário, diz que nada mudou, nem mudará.

Eu, iludido que sou, acreditei que a corrupção seria punida no Brasil pós-Lava-Jato. Acreditei que tudo ia ser diferente, que o cometimento de ilícitos teria consequências. Crime e castigo.

Qual o quê! A Lava-Jato não apenas foi dissolvida pelo sistema. Pior: seus promotores e seu juiz caíram em desgraça. Mais um pouco e eles viram réus.

O sistema venceu. Como sempre.

Então, como é que vou acreditar numa CPI comandada por velhos políticos?

Não, não se iluda: a CPI tem seus objetivos, mas eles são meramente políticos. Ela até poderá trazer verdades, mas nada do que fizer abalará o sistema.

DAVID COIMBRA

06 DE JULHO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

APROVEITADORES NA PANDEMIA

Os brasileiros foram surpreendidos nos últimos dias por uma série de revelações sobre pretensos representantes de empresas que supostamente estariam fazendo a intermediação da venda de vacinas contra a covid-19. Esses atravessadores diziam mediar negociações entre laboratórios e o poder público, algo completamente estranho à prática dos principais e mais reconhecidos fabricantes. 

Mesmo que ainda exista muito por esclarecer, alguns detalhes dessa rede intricada de difícil compreensão foram revelados pelo depoimento na CPI da Pandemia do cabo da Polícia Militar mineira Luiz Paulo Dominghetti Pereira, ouvido como representante da Davati Medical Supply, empresa norte-americana que dizia revender doses do imunizante da AstraZeneca. Dominghetti, que acusou um agora ex-diretor do Ministério da Saúde de pedir propina, citou ainda uma série de nomes que tomariam parte dessas hipotéticas negociações e indicações de contatos. Entre eles, empresários, militares e até um reverendo.

Em meio a uma pandemia de gravidade ímpar, não é nada crível que tratativas que deveriam ser de alto nível hierárquico, tanto dos laboratórios quanto do governo federal, fossem conduzidas por pessoas com essas ocupações. Tudo indica que as doses envolvidas, na verdade, não existiam. E os personagens desse enredo rocambolesco, dos dois lados do balcão, estavam à procura de dinheiro fácil, a ser obtido de forma escusa.

Os indícios de que o desespero dos gestores públicos por vacinas, após vacilação inicial do governo federal, serviu para pessoas pouco honestas tentarem tirar alguma vantagem foram confirmados pelo relato do presidente da Federação das Associações de Municípios do Rio Grande do Sul (Famurs), Maneco Hassen, que revelou ontem em entrevista à Rádio Gaúcha uma série de contatos de golpistas com propostas mirabolantes de vacinas para prefeitos do Estado. Fez certo Hassen ao passar as informações ao Ministério Público, para uma apuração sobre as supostas ofertas que, ao que se conclui, não passavam de tentativas de estelionato, explorando a angústia da população por vacinas.

Todos esses casos, inclusive a inusual negociação envolvendo a vacina indiana Covaxin, exigem uma profunda investigação para que fatos e condutas sejam esclarecidos e os envolvidos em golpes, atos de corrupção e eventuais omissões sejam responsabilizados. Todo malfeito deve ser combatido, mas os que agora envolvem falsas esperanças de aquisição de vacinas ou mesmo possíveis subornos nas negociações existentes merecem uma atenção especial das autoridades pela sordidez e, ao fim, punições exemplares, caso sejam provadas as culpas. 


06 DE JULHO DE 2021
NÍLSON SOUZA

Terceira dose

Às vezes penso que somos mesmo um país de Dicks Vigaristas, se me permitem pluralizar aquele personagem trapaceiro do desenho animado.

Quando começou a corrida pela vacina, já em muito causada pela falta de humanidade dos negacionistas da imunidade, logo surgiram os fura-filas. Apareceu de tudo, da falsificação de identidade ao apadrinhamento por autoridades interessadas em proteger parentes e amigos.

Registraram-se, também, alguns casos do que se poderia chamar de vigarice hedionda - vacinadores que aplicavam vento no braço de idosos, supostamente para lucrar com o precioso líquido ou para destiná-lo a outras pessoas do seu círculo. Nesse festival de fraudes e espertezas, um dos episódios mais rumorosos foi aquele da falsa enfermeira de Belo Horizonte que aplicou soro fisiológico nos familiares e amigos de um empresário do ramo de transportes. O homem comprou gato por lebre, pagou caro e ainda ficou com o rótulo de otário.

Pois agora que a vacinação se encaminha para uma certa normalidade, inclusive com um ministro da Saúde comprometido com a ciência, começam a aparecer os espertalhões da terceira dose - pessoas que fraudam o controle do SUS para receber uma vacina que julgam mais eficiente, mesmo tendo completado as duas doses de outra marca. Ô gente egoísta! Como leigo, até admito que uma vacina pode ser melhor do que outra, mas as pessoas têm que ter direitos iguais. Ao entrar na fila novamente já estando imunizado, o Dick Vigarista está tirando o lugar de alguém que deveria receber aquela dose num momento em que ainda não existe imunização para todos.

Outro dia uma criatura dessas fez a maracutaia e ainda foi se exibir nas redes sociais, como se tivesse logrado o Sistema Único de Saúde. Denunciou-se. O Ministério Público já está cuidando dela. Em algum lugar do nosso inconsciente coletivo, o Muttley deve estar rindo.

A vida não é um desenho animado, mas, ainda assim, prefiro pensar que os trapaceiros sempre acabarão "dando com os burros n?água", como se dizia muito antigamente. Além disso, nem é preciso ser demasiado otimista para se constatar que, para cada Dick Vigarista, temos centenas, talvez milhares ou milhões, de outros brasileiros e brasileiras honestos, que competem lealmente e aguardam sua vez na fila da esperança.


06 DE JULHO DE 2021
INFORME ESPECIAL

O profeta esquecido do impeachment

Em meio ao circo em que se transformou a sessão do impeachment de Dilma Rousseff, um parlamentar gaúcho se dirigiu, circunspecto, ao microfone para anunciar seu voto "sim". "Que Deus nos dê serenidade para encarar tudo o que virá pela frente", emendou, em tom grave, naquele 17 de abril de 2016. A frieza preocupada e profética contrastava com o alarido absurdamente festivo do Congresso. A frase de José Fogaça, que não é petista e votou a favor do afastamento da presidente, acabou ofuscada diante de tantos "abraços aos meus filhos e ao povo de Cafundó ". O termo "família", aliás, foi usado mais de 110 vezes no plenário.

Passados mais de cinco anos, me pergunto se o desejo de Fogaça foi atendido. A resposta que me ocorre é o mesmo "sim" ouvido 367 vezes naquele dia, mas com uma ressalva. Deus até pode ter nos dado a serenidade e o equilíbrio, mas não soubemos o que fazer com os presentes. Em vez de buscar a construção e o diálogo, aprofundamos o radicalismo e as mágoas. 

Emocionalizamos a política de um jeito perigoso. E, agora, mais uma vez, cresce o coro dos que pedem impeachment. Só que, conforme previa Fogaça, se Bolsonaro for realmente retirado do poder, mais uma vez haverá o depois. Ser "contra" é pouco, é menos que nada se não vier acompanhado de uma perspectiva segura de normalidade democrática. Não vislumbro isso no Brasil de hoje e, se há uma forma de chegar lá, é pelo voto.

Corre-se o risco, alimentando o burburinho sobre impeachment tão perto de uma nova eleição, de o país desviar energias dos dois únicos focos realmente importantes. O primeiro é combater a pandemia. O segundo é construir candidaturas democráticas e que conversem com um futuro mais luminoso para o país.

TULIO MILMAN

segunda-feira, 5 de julho de 2021


05 DE JULHO DE 2021
DAVID COIMBRA

Quem estava certo: Jango ou Brizola?

Meu filho fez uma pergunta que me deixou pensativo:

- Quem estava certo: Jango ou Brizola?

É que estava lhe contando sobre o golpe de 1964, em que Jango aceitou ser removido da Presidência sem nenhuma reação, enquanto seu cunhado Brizola queria resistir até o fim.

Brizola, na certa, lembrava de suas façanhas de três anos antes, quando liderara a Campanha da Legalidade, impedira o golpe militar e garantira a posse de Jango na Presidência. Quer dizer: Brizola tinha certeza de que bastaria se levantar de um salto e bater o pé no chão para afugentar os golpistas, que sairiam correndo para suas tocas feito ratazanas.

Jango, ao contrário, levava a conspiração mais a sério e temia que, se ele resolvesse enfrentá-la, o Brasil afundaria numa longa e sangrenta guerra civil.

Sempre tive a convicção de que o Brasil jamais passaria por uma guerra civil. Um conflito fratricida seria contra o espírito pacífico do povo brasileiro. No Brasil, venceria o lado que gritasse mais alto, porque ninguém, no fundo da alma, queria ver sangue derramado.

Assim havia sido exatamente na Campanha da Legalidade, quando os militares se impressionaram com a teimosia e a determinação de Brizola. Como perceberam que ele iria mesmo para o confronto, decidiram recuar e esperar um momento mais propício para agir.

O momento propício chegara em 1964, e agora eram as forças legalistas que pareciam menos resolutas, e se comportavam dessa forma precisamente devido ao desânimo de Jango.

Logo, Brizola estava correto em propor a resistência. Se Jango tivesse sido mais decidido, os militares que o apoiavam se ergueriam ao seu lado e o golpe teria sido evitado. Melhor: teria sido evitado sem derramamento de sangue, como ocorrera em 1961.

Era o que pensava até ouvir a pergunta do meu filho. Então, fiquei ponderando sobre o tal espírito pacífico do povo brasileiro, no qual sempre acreditei. Será que o brasileiro é assim tão pacífico? Tentei contextualizar. Imaginei o impasse de 64 dando-se na atualidade, no século 21.

Como reagiriam os personagens de hoje diante daquela situação?

Minha conclusão foi de que ninguém recuaria. Ao contrário, eles adorariam finalmente ter razões para atacar o inimigo, a fim de eliminá-lo. O Brasil seria devastado por uma guerra civil tão feroz quanto a que dilacerou os Estados Unidos nos anos 1860, com a diferença de que não haveria limites geográficos para a luta. Nos Estados Unidos, era o Norte contra o Sul. No momento em que o Norte invadiu e conquistou o Sul, a guerra acabou. No Brasil não seria assim. No Brasil, a divisão estaria em cada Estado, em cada cidade, às vezes em cada casa.

Ou seja: Jango estava certo. Ele impediu a tragédia da guerra entre irmãos. E hoje? Se um conflito parecido estourasse, como escaparíamos da guerra? Haveria um Jango para nos salvar?

DAVID COIMBRA

05 DE JULHO DE 2021
PREÇO DA LANTERNA

DERROTA E ADEUS

Segue a sequência de fracassos do Grêmio no Brasileirão. Apesar de atuar na Arena, o Tricolor perdeu por 1 a 0 para o Atlético-GO na noite de ontem e continua sem vencer na competição que era sua prioridade após o fracasso na Libertadores. Além de fazer com que a equipe gremista se mantenha na lanterna, com míseros dois pontos, o resultado causou a queda do treinador depois de 10 semanas. Após o vice de futebol, Marcos Herrmann, informar sua saída em comum acordo, Tiago Nunes falou:

- Venho neste momento me manifestar em forma de agradecimento à diretoria e aos atletas, pelo carinho e lealdade desde o primeiro dia. O Grêmio é muito grande e vai ultrapassar esse momento difícil. Infelizmente, os resultados não vieram mais e, mesmo a distância, sigo na torcida.

O nome mais forte que surge é o de Felipão.

- Não sei se ele tem o interesse, vamos perguntar a ele. É um nome muito identificado - afirmou Herrmann, dizendo que já há um perfil traçado.

O ultimato estava dado pela diretoria desde a última quarta-feira: em caso de novo insucesso, Tiago Nunes poderia perder o cargo. Pressionado, o treinador fez uma alteração, devolvendo o meia Jean Pyerre ao time titular. Também promoveu os retornos do goleiro Brenno, recuperado da covid-19, e do zagueiro Kannemann, que cumpriu suspensão automática.

O cenário do jogo esteve muito bem definido desde os minutos iniciais. A bola permanecia por mais tempo em pés tricolores, enquanto os visitantes combatiam para escapar em contra-ataques. Assim, inclusive, quase abriram o placar. Porém, ao empurrar para as redes, o volante Marlon Freitas estava impedido.

O susto serviu de aviso ao Grêmio. Douglas Costa e Ferreira passaram a inverter os lados do campo e foi assim que o camisa 10, aberto pela esquerda, cruzou para a área, onde Bobsin desviou de cabeça. Na segunda trave, Geromel surgiu como elemento surpresa e, de bate-pronto, obrigou Fernando Miguel a espalmar por cima. No mais, o Tricolor rondava sem conseguir infiltrar, limitando-se a chutes de longa distância.

A posse da bola gerou a falsa impressão de que o Atlético-GO estava dominado. Em um momento de desatenção, o centroavante Lucão foi acionado às costas da defesa e mergulhou de peixinho. Graças a uma defesa de puro reflexo de Brenno, embaixo das traves, os gremistas respiraram aliviados.

O primeiro tempo ainda terminaria com o Tricolor pressionando, mas com bolas alçadas sem destino certo ou finalizações muito longe da baliza goiana.

Apesar do placar zerado, Tiago Nunes apostou na manutenção do time para a volta do intervalo. A resposta teria de vir de outra forma e, assim que o jogo reiniciou, Jean Pyerre teve a chance de dar tranquilidade ao Tricolor. Entretanto, lançado por Rafinha, o meia não teve força para deslocar Fernando Miguel. O gol perdido seria mais do que lamentado instantes depois.

Aos nove minutos, o lateral Dudu deu drible desconcertante em Diogo Barbosa e encontrou Lucão entrando livre entre os zagueiros para, sem grandes esforços, tocar na saída de Brenno: 1 a 0.

Desesperado, o Grêmio passou a se jogar de qualquer jeito ao ataque, deixando espaços generosos ao Atlético-GO, que só não ampliou pelas intervenções do goleiro gremista. A situação, enfim, fez o técnico mexer no time, chamando Alisson e Ricardinho do banco de reservas, que pouco agregaram. Em seguida, viriam Léo Chú, Darlan e Vanderson.

Aos trancos e barrancos, o Tricolor tentava evitar mais um vexame. No entanto, o time parecia não ter cabeça e nem mira para empatar. Ao menos, esta foi a mensagem passada quando Diego Souza dominou a bola na entrada da área, enquadrou o corpo e bateu rasteiro e sem força contra Fernando Miguel. Pelo contrário, eram os visitantes que seguiam gerando perigo, seja em contragolpes ou cavando escanteios. Conforme o tempo transcorria, estrondos eram ouvidos do lado de fora da Arena. Era o sinal de que a torcida, que antes da partida foi ao hotel apoiar, havia perdido a paciência. ultimato da direção não dá resultado, grêmio perde mais uma e o técnico tiago nunes deixa o clube

FILIPE DUARTE


05 DE JULHO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

A RECUPERAÇÃO DO FUTURO

Quem circula pelas ruas de Porto Alegre e por outras cidades mais populosas do Estado depara com um número crescente de crianças e adolescentes nos cruzamentos, pedindo trocados ou vendendo produtos para se alimentar ou ajudar de alguma forma suas famílias. O quadro, especialmente preocupante na Capital, foi esmiuçado nos relatos colhidos na reportagem "O fim da infância", de Vitor Rosa, com fotografias de André Ávila, publicada na superedição de ZH. Trata-se de uma chaga resultado de um quadro complexo, sem solução fácil, mas que não pode ser naturalizada pelo poder público e pela sociedade mais ampla.

A percepção é confirmada pelos números. No ano passado, a Fundação de Assistência Social e Cidadania (Fasc) contabilizou, em Porto Alegre, 334 crianças e adolescentes encontrados pela primeira vez em situação de trabalho infantil. É uma quantidade 178,3% superior à de 2019. E não há razão para acreditar que em 2021 o panorama tenha sido mitigado. Pelo contrário.

O desemprego dos pais, escolas fechadas e a inexistência de uma rede de proteção para amparar os menores de idade que buscam o básico da sobrevivência nas ruas, onde estão sujeitos a uma série de perigos, são as causas mais evidentes desse problema, agravado em grande medida pela pandemia. Essas crianças e adolescentes, em primeiro lugar, deveriam estar nas salas de aula ou recebendo educação qualificada online, porta de entrada para a oportunidade de almejar um futuro digno, com maiores chances de encontrar crescimento pessoal e profissional. Mantida a situação atual, eles estarão condenados ao subemprego e à mercê de serem cooptados pelo crime.

Qualquer país que pretende se desenvolver precisa encontrar meios de incluir os desvalidos. Crianças merecem atenção especial. É preciso, portanto, que todas as esferas, órgãos públicos, ONGs e entidades privadas, muitas já envolvidas em ações concretas, se mobilizem ainda mais e cooperem para acolher e encontrar saídas para fazer esses jovens recuperarem as esperanças. Ao longo da pandemia, o Rio Grande do Sul assistiu a uma onda de solidariedade materializada na preparação de refeições e doações de alimentos, EPIs e agasalhos para as populações mais desprotegidas. Mas, no caso dos menores que têm a infância roubada em nome da urgência de suprir as necessidades mais básicas da subsistência, é preciso uma ação estruturada que produza não apenas resultados imediatos.

Ou seja, além de eventuais programas de transferência de renda ou acolhimento, vencer esse desafio no médio e longo prazos só será possível se a educação estiver no centro da estratégia. Ao mesmo tempo, espera-se que o país ingresse em uma era de recuperação da economia e mais geração de postos de trabalho, para conseguir absorver a mão de obra ociosa. O avanço da vacinação contra a covid-19 torna esse cenário mais palpável. Com adultos empregados, as crianças tendem a poder se dedicar mais aos estudos, reunindo condições de sonhar com um futuro de dignidade.

 


05 DE JULHO DE 2021
CLÁUDIA LAITANO

H maiúsculo

Qual foi a última vez que um político lhe deu uma alegria? Não falo de "schadenfreude" (aquela satisfação que nos transfixa a alma quando uma figura que desprezamos se afunda lentamente na lama dos próprios crimes e ardis), mas de genuína e desarmada alegria, livre da razão cínica que reduz todas as atitudes a meios para atingir determinados fins.

Quando trechos da entrevista de Eduardo Leite ao jornalista Pedro Bial começaram a circular nas redes sociais, na noite de quinta-feira, fiquei eufórica e comovida com a notícia de que o governador gaúcho havia decidido assumir publicamente sua orientação sexual. Por vários motivos. Pela coragem, pela transparência (melhor antídoto contra fofocas e piadas de borracharia) e principalmente pela inspiração para pessoas que ainda vivem situações dolorosas de não aceitação. Quanto mais se fala no assunto, mais difícil fica sustentar o discurso de que pessoas gays levam uma vida infeliz ou de pecado ou fora da norma - e mais intoleráveis se tornam os gestos de homofobia. Parece óbvio, e é, mas não para todo mundo. Não no Brasil de 2021.

Algumas vezes, nos últimos anos, acompanhei momentos que inauguraram uma nova etapa no debate público ou anunciaram os primeiros sinais de uma mudança de cultura que começava a se desenhar no horizonte. Era criança quando a Lei do Divórcio foi aprovada, em 1977, mas consegui entender que alguma coisa importante acontecia ali. Lembro da primeira vez que vi uma mulher na bancada do Jornal Nacional (Valéria Monteiro, em 1992), da primeira protagonista negra de uma novela da Globo (Taís Araújo, em 2004), da legalização da união civil entre pessoas do mesmo sexo no Brasil (2011), do dia em que Fernando Henrique passou a defender a legalização das drogas como nova estratégia para combater o tráfico (2011) e, mais perto de mim, da primeira mulher que assumiu a direção de redação da Zero Hora (Marta Gleich, em 2012) e da legalização do aborto no Uruguai (2012) e na Argentina (2020).

Pode parecer que essas mudanças se restringem a um ambiente limitado ou à vida de uma única pessoa, mas, na prática, esses marcos exercem uma influência enorme na maneira como determinados assuntos passam a ser vistos pela maioria mais resistente a transformações. Nos Estados Unidos, a aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo, reconhecido pela Suprema Corte em 2015, cresceu de 35%, em 1999, para 70%, em 2021. Abram alas para a História colorindo o futuro com novos matizes de pensamento.

A corajosa decisão de Eduardo Leite foi recebida com entusiasmo por boa parte da centro-esquerda e pela direita de vocação democrática e liberal. Mas não demorou muito para surgirem os "sommelier de intenções" - gente que se apressou a apontar o "cálculo político" do gesto. Ficaria admirada se um político jovem e ambicioso não planejasse estrategicamente cada movimento da sua carreira. Não existe homem público que não pense em termos de ganhos e perdas do seu capital eleitoral. É do jogo. Se essa estratégia vier acompanhada de uma quebra de paradigmas positiva, ganhamos todos - os que votam e os que não votam nele.

Desejo sorte para o governador Eduardo Leite em seus projetos políticos (e que se arrependa até o fim dos seus dias pelo decepcionante flerte com o bolsonarismo), mas, no momento, o que importa é que ele fez História. Com H maiúsculo.

CLÁUDIA LAITANO

05 DE JULHO DE 2021
INFORME ESPECIAL

O desafio nacional de consertar o transporte público

A crise no sistema de transporte público urbano não é uma exclusividade de Porto Alegre. Atinge todo o país, pelas mesmas razões. O quadro foi agravado pela pandemia, que levou a uma queda ainda mais acentuada da demanda. Entidades do setor calculam que, nos 12 meses subsequentes ao início da emergência sanitária, o déficit das empresas chegou a R$ 13 bilhões. O entendimento é de que o impasse não será solucionado apenas por movimentos das prefeituras, como tenta fazer neste momento a Capital, mas passa necessariamente por uma mudança que deverá ser enfrentada pelo Congresso, alterando de forma mais abrangente uma série de pontos. Do modelo de contratação ao custeio. Este é um dos pontos mais controversos. O serviço, caro para a qualidade que oferece, é hoje majoritariamente pago pelo usuário.

O superintendente da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), Luiz Carlos Néspoli, avalia que será preciso um novo marco legal para o segmento, como teve o setor do saneamento, com mudanças aprovadas neste ano. A intenção da entidade é que o tema comece a ser discutido ainda em 2021 no Congresso, para se transformar em projeto de lei. As saídas propostas em um documento já concluído incluem subsídios de fontes extratarifárias, algo que, de alguma forma, já não foi bem recebido em propostas discutidas inclusive na Capital.

- Se não existirem subsídios, receitas não tarifarias adicionais, continuaremos no círculo vicioso - diz Néspoli, acrescentando que as propostas já foram apresentadas ao governo federal.

Hoje, com exceções raras, a maior parte das gratuidades não prevê fontes de recursos para custeá-las. Recai sobre os passageiros pagantes. Em todo o país, impacto médio das gratuidades e descontos seria de 21% da tarifa. As propostas passam por rediscutir os benefícios ou o financiamento das gratuidades para idosos, asseguradas pela Constituição, e de estudantes, em regra estabelecidas por Estados e municípios.

Mas existem mais sugestões que englobam de maneira mais ampla usuários de outros tipos de transporte e mesmo os beneficiados por melhorias na infraestrutura. Entre elas, uma taxação dos aplicativos de viagens, pedágios urbanos, contribuição embutida no valor dos estacionamentos, alterações no vale-transporte, captação de parte dos recursos do IPVA e taxas de licenciamento de automóveis e até cobrança de fração do IPTU para imóveis valorizados por investimentos públicos viários. Ou seja, uma solução estrutural, pelas resistências que enfrentará, não será nada fácil. Mas é uma discussão que não pode mais ser adiada.

Apoio psicológico para os 60+

Mesmos os vacinados da população 60+ seguem tomando uma série de cuidados. Entre eles, a manutenção do distanciamento, que resulta em menor interação social. O isolamento, necessário para evitar o contágio pela covid-19, também fez aparecer sequelas emocionais. A percepção deste problema levou à criação do projeto Acolhendo Idosos na Pandemia, oferecido pela Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), em parceria com a Santa Casa. O amparo psicológico gratuito está à disposição desde o início da abril, mas agora a divulgação da iniciativa é ampliada.

O apoio está aberto para pessoas acima de 60 anos que estiverem se sentido sozinhas, tristes, ansiosas ou passaram a ter problemas com o álcool. O serviço é gratuito, nos sete dias da semana, das 8h às 19h. Para ser atendido, basta ligar para o número 0800 760 5151. Quem procurar ajuda, de qualquer parte do país, será avaliado e poderá receber intervenções psicoterápicas durante um mês, com um atendimento por semana.

Até agora, cem idosos passaram pelo projeto e 25 seguem em acompanhamento. Dos que buscaram apoio, 77% apresentaram sintomas de ansiedade e 73% de depressão.

Vacunas

Um dos países sul-americanos mais adiantados na vacinação contra a covid-19, o Uruguai publicou novos números sofre os benefícios da imunização. No caso do produto da Pfizer, a eficácia para evitar a doença está em 78%, segundo o Ministério da Saúde Pública. Também reduz em 97,8% o risco de precisar de uma UTI e de 96,2% o de morte.

Para a Sinovac, a prevenção das infecções ficou em 59,9%, a de ingresso em UTI em 90,9% e, para casos fatais, a taxa está em 94,6%.

Os efeitos da vacinação têm sido bastante percebidos nos lares de idosos, onde se concentra um importante grupo de risco. Até o final do ano passado, uma a cada seis mortes pela covid-19 no país vizinho era de moradores deste locais. Agora, é de menos de um a cada 10.

VASOS COMUNICANTES

Natalidade

O Rio Grande do Sul encerrou o primeiro semestre com o registro de 65.881 nascimentos. É 3,7% inferior ao mesmo período do ano passado. A diferença é de 2.521 nascimentos.

A quantidade de mortes, por sua vez, foi de 66.724, superando o número de gaúchos que vieram ao mundo de janeiro a junho deste ano.

Os dados são do Portal da Transparência do Registro Civil.

CAIO CIGANA | INTERINO

sábado, 3 de julho de 2021


Outros tempos

Depois de três colunas escolhidas a meu pedido pela Redação enquanto eu estava hospitalizada, operada, cuidada e mimada no Moinhos de Vento, consigo hoje voltar a escrever.

Me ocorreu algo real, entre cômico e espantoso aos olhos modernos: certos procedimentos "médicos" de quando existiam poucas vacinas, nada de antibiótico, e psicologia era meio afeto, meio chinelo e muita ameaça.

Lembro de certa vez em que minhas lindas e cheirosas três crianças pegaram piolho na escola, onde mais da metade dos alunos trouxe esse brinde para casa, em quase todas as escolas da cidade.

Só me ocorreu o que minha mãe fez comigo e meu irmão muito tempo atrás: Neocid em pó nas cabecinhas, touca de banho, uma hora brincando por aí, depois banho e várias vezes xampu.

Muitos anos depois, já adultos e pais, num tempo de perfumados xampus antipiolho, meus filhos davam grandes risadas sobre esse assunto dizendo-se sobreviventes.

Fui criança num tempo pré-antibiótico. Febre alta, tomávamos ou mastigávamos uns tabletes rosa grandes, cujo nome esqueci. Se nada melhorava... injeção.

Tínhamos medo atroz de médico, que significava agulha e dor. A maior ameaça: "Olha que vou chamar o doutor Arthur, e ele vem com uma injeção deeesse tamanho".

O bondoso e paciente médico que fizera os partos de nossa mãe e me tratou até meu casamento levava culpa de mau...

Hoje os consultórios de pediatras são claros, alegres, decorados, nada de ameaças com injeções "desse tamanho".

Proximidade de Natal era em parte alegria, em parte, para as arteiras como eu, ameaça de que o Papai Noel traria um grande feixe de varas que minha mãe saberia manejar.

Nenhum de nós ficou louco ou morreu por essas loucuras, mas que não era fácil, não era.

LYA LUFT 


03 DE JULHO DE 2021
MARTHA MEDEIROS

Modernidade de ocasião

Eu devia ter uns 14 anos e estava numa festa em que meus pais também estavam. Até que tocou uma música. Percebi que era da banda preferida deles. Então olhei para o meio do salão e, ato contínuo, tapei os olhos, abrindo uma fresta entre os dedos para ter certeza: eles estavam dançando. Meu pai, minha mãe. Dois matusaléns beirando os 40 anos, parecendo um casal de travoltas. Que mico. 

Aliás, naquela época não se dizia "que mico". Não lembro a expressão que se usava para a sensação de querer cavar um buraco e sumir. Será que minhas amigas estavam percebendo o "tio" e a "tia" jogando a cabeça para trás e os braços para o alto? Acho que não, elas deviam estar chocadas com os próprios pais, que também combatiam a morte ao som dos Bee Gees. Hoje esse constrangimento adolescente tem nome: cringe.

É uma gíria americana que está sendo utilizada para determinar algo que nos faz sentir vergonha alheia. Crítica sumária aos mais velhos, tipo ver a prima de 26 anos postando uma dancinha do Tik Tok ou sua mãe escrevendo "tipo" em vez de "como".

Mais essa para o museu de grandes novidades. Se avexar com o comportamento de quem nos antecedeu é um costume clássico. O tribunal do mundo e seu júri impiedoso: olha a coitada que ainda mantém um perfil no Face, olha a calça skinny daquela bunduda, olha essa gente que ainda é fã do Harry Potter, olha a millennial viciada em café. Cringe.

Minha filha considera vergonhoso à beça usar palavras em inglês que possuem alternativas em português. E a outra filha desmaia cada vez que retiro um "à beça" do baú. As duas ficaram um tanto preocupadas quando comentei que estava pensando em escrever sobre este assunto.

Ninguém escapa. Você também será cringe por usar a roupa errada, assistir à série errada, defender a causa errada, nascer no ano errado. Refleti cinco minutos sobre a questão e cheguei à conclusão óbvia: na dificuldade de serem menos mordazes, os jovens renovam o vocabulário, reforçam sua superioridade sobre os caquéticos e mantêm a classificação de certo e errado sob seu domínio. Quem for diferente da sua tribo lhes parecerá sem noção e os envergonhará, e suas próprias manias e esquisitices envergonharão os que vierem logo depois. E assim caminha a humanidade, com as gerações indefinidamente ruborizando umas às outras.

Nós, os maduros de 50 e tantos, os coroas de 60+, observamos, a uma distância segura, esses recursos linguísticos pretensamente modernos, porém fadados ao desgaste e à substituição, e às vezes até adotamos a mesma linguagem, pegando uma carona no frescor juvenil. Mas nada como a atemporal liberdade de expressão em suas variadas formas: se a música é boa e o amanhã não existe, é nós na pista, jogando a cabeça para trás e os braços para o alto, pensem o que quiserem.

MARTHA MEDEIROS

03 DE JULHO DE 2021
CLAUDIA TAJES

O adulto

Um dia você entra em casa e dá de cara com um adulto sentado na sala. Sentado, não: esparramado no sofá. Jogando videogame enquanto assiste à Eurocopa, mexe no computador e manda uma mensagem pelo celular, tudo ao mesmo tempo.

Você se assusta e sai procurando pela casa o menininho que mora com você, o seu filho pequeno. Onde, diabos, a criança se meteu? Foi ele quem deixou o adulto entrar? Pior ainda: o que aquele adulto fez com o seu filho?

Você tenta atrair a atenção do desconhecido para tomar satisfações, e fracassa diante da quantidade de telas abertas diante dele. Já vai chamar a polícia quando percebe, no jeitão do adulto, uma certa semelhança com alguém. E só então cai a ficha - ou chega o Whats, para usar uma expressão mais atual.

O adulto é o seu filho.

O seu bebê. O seu pitoco. O seu gurizinho que, agora mesmo, batia pé e abria a boca quando você combinava uma rara saída na semana. Passou o dia fora e já vai me deixar sozinho de novo?

Nas vezes em que os argumentos da sua mãe venceram (tu sabe que ele fica bem comigo - daqui a pouco nem lembra - vai viver, criatura), você foi e passou a noite se sentindo culpada, um olho nas amigas e outro no celular, só esperando uma desculpa para ligar e ouvir que sim, a criança estava inconsolável, esperneando pela mãe.

Na verdade, ele estava vendo O Clone com a avó, ou comendo o miojo proibidão nos outros dias, ou jogando o Atari herdado do tio. Estava, inclusive, melhor do que você, que a essa altura contava os minutos para buscar seu pequeno, as amigas com cara de quem te viu, quem te vê. Nem de longe lembra aquela sirigaita que, não faz muito, descia até o chão.

À medida que ele crescia, vocês ficaram ainda mais ligados. Fazer o que se a criança era mesmo uma ótima companhia para ir ao cinema, ao shopping, para andar de bicicleta e rir das bobagens que vocês inventavam - algumas delas tão sem graça que irritavam quem estava por perto? Depois, quando ele descobriu o prazer de sair de noite, coube a você a tarefa de ir buscá-lo nas madrugadas. Não que fosse fácil, ainda mais no inverno. Os pais que terceirizam essa tarefa perdem a chance de se divertir com as histórias meio secretas e os comentários mais ou menos velados que os amigos e as amigas vão fazendo, às gargalhadas, enquanto você deixa um por um em casa. Desânimo mesmo, só quando ele pedia para dar uma carona para o Fulano, que morava um pouco mais longe. Em Gravataí.

Você volta para o presente, puxa o celular, senta na poltrona e finge procurar alguma coisa enquanto tenta entender como aquela transformação aconteceu tão rápido. Se você deixou uma criança quando saiu de casa, que tipo de viagem no tempo a transformou em um adulto quase desconhecido? Só então ele percebe a sua presença, dá um oi protocolar e volta para suas telas e vidas. Para uma intimidade que já não lhe pertence.

Ainda bem. Se você chegasse em casa e encontrasse um crianção ranhento, alguma coisa teria dado muito errado nessa história. É nisso que você está pensando quando ele faz um comentário:

- Sabe o menino Neymar? A internet, de zoeira, agora fala adulto Neymar.

Você ri e resolve resgatar a criança perdida, pergunta se o seu adulto quer jantar um miojo hoje. E ele: Deus me livre, prefiro um açaí.

O tempo é o tempo é o tempo.

CLAUDIA TAJES

03 DE JULHO DE 2021
LEANDRO

EU FAREI FALTA?

Historiador, professor da Unicamp, autor de, entre outros, "Todos Contra Todos: o Ódio Nosso de Cada Dia".

A frase do título é perigosa. Tenho inimigos e os mais empenhados no ódio chegam até a ler o título do que eu escrevo. Já imagino que responderiam com nenhuma ou outro dito irônico. Ficarão surpresos: a crônica, que será lida até o fim por olhares mais benevolentes, concorda com meus detratores.

A pergunta é existencial. Eu a fiz, uma vez, vendo uma excelente palestra do meu amigo Mario Sergio Cortella. Depois, li o livro dele: Viver em Paz para Morrer em Paz, se Você não Existisse, que Falta Faria? (ed. Planeta). Como sempre, o filósofo traz grandes ideias, citações e perguntas inquietantes. Aprendo muito.

Não sintetizarei o livro do londrinense. Pensarei em outra direção. Fernando Pessoa, tratando do tema do suicídio, fez o poema Se te Queres Matar. É um texto brilhante que procura estimular o amor pela vida com... diminuição da importância do viver. No fundo, ele quer diminuir o foco de importância que pode engatilhar desilusão. Em outras palavras: pode ser que, por vezes, a tristeza diante da avaliação da vida decorra de um sentido que deveríamos ser mais extraordinários, com feitos intensos e uma alegria quase de Instagram. O poema desarma, pela ironia, o sentido de importância que pode preexistir à decepção. Explico-me: eu me considero insubstituível? Minha morte lançaria o mundo no caos e na dor? Bem, isso nada diz do momento atual. O luto futuro por mim não me alegra hoje e nada explica do momento que vivo. O argumento é fraco para que eu me anime. Mais: se pessoas do porte de um Einstein ou de um Gandhi morreram e tudo seguiu normalmente, seria excessiva presunção imaginar que eu, menos do que eles (muito menos), provocaria uma comoção superior. Revisitemos Pessoa: "Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente! Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém... Sem ti correrá tudo sem ti. Talvez seja pior para outros existires que matares-te... Talvez peses mais durando, que deixando de durar...".

Já ouvi alguém irritado aí: "Leandro, eu sustento pessoas, faço coisas importantes, eu farei falta". Sim, minha querida leitora. Sim, meu estimado leitor. Como eu, seu passamento será sentido por aqueles que: a) dependem do seu trabalho; b) contam com sua proteção; c) têm alguma estima por você. No fim do mês, sua ausência será muito forte. Os boletos por vencer serão suas maiores carpideiras. Claro, se você pode, um bom seguro de vida vai diminuir a dor de todos. Um extraordinário seguro vai transformar lágrimas em sorrisos. E, mesmo se não houver heranças, as coisas se ajeitam em alguns meses. Chico foi mais direto e cantou que mesmo o malandro é substituível e morre sozinho: "Vai terminar moribundo/ Com um pouco de paciência/ No fim da fila do fundo/ Da previdência/ Parte tranquilo, ó irmão/ Descansa na paz de Deus/ Deixaste casa e pensão/ Só para os teus/ A criançada chorando/ Tua mulher vai suar/ Pra botar outro malandro / No teu lugar".

E a parte afetiva? O pior político que você possa imaginar, o mais execrável homem público do presente ou do passado, teve quem o amasse. Há uma mãe zelosa, uma esposa dedicada, filhos diletos: até os canalhas são pranteados por alguém. Lembre-se: antes de alguém ser filho da p... aquele ser foi filho. Sim, haverá pranto por algum tempo. Pessoas boas, porventura, despertem um sentimento intenso de falta por muitos anos, porém, fato óbvio: aquele que sente a dor continua vivendo, comendo, tomando banho e trabalhando. Nenhuma falta parece impedir a existência dos enlutados. Amei meu pai e minha mãe com zelo. Senti a morte deles como uma catástrofe. Continuei trabalhando, escrevendo, estudando, amando e me irritando com o mundo. O que isso quer dizer: minha vida seguiu, como a de milhões de órfãos. Não existem lágrimas pela sua trisavó. Desaparecerão por nós, igualmente.

Sim, eu faria falta e... ela seria superada. Minha ausência no futuro não responde à pergunta do momento em curso. Talvez o melhor seja pensar em que falta a vida me faria. Se eu conseguir responder a isso, posso pensar em como viver, como andar com protagonismo. No fundo, a questão principal é sobre a vida em mim agora, não o que eu provocarei quando ela tiver se esvaído. Como viver, como enfrentar problemas, como ser uma pessoa inteira vivo e não uma ausência pungente na morte. É a pergunta do príncipe Hamlet: "Será que é mais nobre sofrer na alma as pedradas e os flechaços da cruel fortuna ou pegar em armas e enfrentar este mar de sofrimentos e assim pôr-lhes um termo?" (Hamlet. Ato 3, cena 1. tradução de Elvio Funck. Movimento-Edunisc). Para quem se interessa pela dúvida do príncipe, ele também reclama na "morosidade da lei e a insolência dos que têm cargos".

Que intensidade darei a minha resposta ao Hamlet? Que vida plena tentarei levar, indiferente, como creio, a quaisquer faltas que eu possa despertar quando partir? Da minha parte, sinceramente, quero que me esqueçam por completo no futuro. Não me interessa o vazio futuro, apego-me à plenitude presente. Quero fazer falta hoje, no inverno da nossa desesperança, quero tomar a fundo a taça da vida e o afeto de quem é importante. Quero ler agora, ser agora, amar enquanto estou vivo. Depois? Irrelevante: não escutarei mais choros ou risadas.

Leiam o livro do Cortella, assistam às palestras dele sobre o tema, aprofundem o Hamlet e, entre uma coisa e outra, pensem em quanta vida existe hoje. É mais útil do que a falta futura. A vida de agora precisa de esperança.

LEANDRO KARNAL

03 DE JULHO DE 2021
MARSHALL

OS HIPÓCRITAS

Hypokrités junta o prefixo hypó (sob) com o substantivo krités (o que julga ou avalia) para formar a palavra que designava, na Grécia clássica, o ator, e, por vezes, o orador, que entrega orações; metaforicamente, poderia referir quem dissimula. Em Atenas, os atores se apresentavam em concursos, onde eram julgados por juízes, o que pode ter levado à formação de uma palavra nova para uma nova profissão, atores em tragédias e comédias, algo que surge ao final do século VI e se desenvolve ao longo do século V a.C.. Nem precisamos levantar interrogações para entender para onde essa palavra nos leva, no encontro entre semântica e história, significados passados e presentes nada dadivosos.

É, todavia, injusto associarmos atores (e atrizes) ao cacoete da hipocrisia. Ao contrário, o teatro serve-se da representação (mimese) para analisar de modo inteligente, com imagens, falas e ações, o mundo em que vivemos, a condição humana, nossas encruzilhadas, opções e atitudes, e é, por isso mesmo, muito ético e bastante político, em sua origem grega e ao longo dos tempos. Ao contrário do que sugere a etimologia, precisamos de mais atores para combater a persistente e ora predominante hipocrisia. E precisamos que os hipócritas atuais se vejam em cena ou nas telas, investigados e desnudados, para que se perceba o imenso ridículo de suas ações, e para bem examinarmos a textura de farsas com que se forjam as falsidades do poder.

Os campeões da hipocrisia já ganharam o palco que merecem, manifestoches na Marquês do Sapucaí (2018). Mas onde estão, agora que o ex-juiz manipulador foi desmascarado, e passa merecida vergonha no Brasil e no Exterior? Como se olham no espelho, agora que o pretenso mito evidenciou-se não apenas como responsável pela maior catástrofe da história nacional, mas, ademais, preside a mais sórdida corrupção de que se tem notícia, em que se negocia a vida humana por US$ 1? Há ainda, e sempre haverá, muita farsa por desabar. Sobretudo, queremos saber: que tramas impuras mantêm no governo um malfeitor que há muito deveria estar deposto e preso? Que serão, senão hipócritas, as autoridades que prevaricam, e se omitem enquanto tombamos aos milhares, de Norte a Sul, por força da ignorância maligna de um líder insensato e odioso?

No canto 23 do Inferno, Dante põe-se com Virgílio diante de demônios e gentes hipócritas, que trajam "manto eterno, fatigante e rico", "chumbo dentro, ouro fora". Na via obscura, aparecem-lhe "frades Gaudentes", famosos por vestirem-se com fausto, procedentes de Bologna, onde já ouviram "os vícios decantar dos renegados/ impostores e maus, pais da mentira". As palavras dos hipócritas amam ornar-se com o nome deus e versículos bíblicos; não são religiosos, nem têm qualquer moralidade, são apenas oportunistas que se servem de farsas para camuflar sua ignorância e malícia, e saciar ambições iníquas, enquanto saqueiam e destroem a pátria.

O teatro e certas palavras são bons antídotos, mas urgem ações verdadeiras, pois estamos cansados de tanta hipocrisia, de tanto mal. E queremos que o Brasil renasça feliz e livre.

FRANCISCO MARSHALL

03 DE JULHO DE 2021
DRAUZIO VARELLA

REFLEXÕES SOBRE A SAÚDE

INFELIZMENTE, OS SISTEMAS ESTÃO MAIS PREPARADOS PARA AS DOENÇAS DO PASSADO, NÃO PARA LIDAR COM AQUELAS DO PRESENTE OU DO FUTURO

Saúde não é apenas a vida sem doença. O conceito de doença não é simples como parece, porque faz parte de um contexto social em que os médicos criam teorias, descrevem sinais e sintomas e métodos de tratamento; os pacientes procuram explicações e soluções para os males dos quais padecem; e as autoridades estudam políticas para reduzir o impacto na economia e na saúde pública.

A história da medicina mostra que a intersecção desses interesses tem-se alterado no decorrer dos séculos.

Numa análise das publicações dos primeiros números da revista The New England Journal of Medicine, um grupo de Harvard reuniu artigos publicados há 200 anos sobre entidades estranhas como apoplexia, neurastenia, cegueira e fraturas ósseas em pessoas que receberam o impacto do vento de balas de canhão que explodiram longe delas. Há descrições de morte por combustão espontânea em bebedores de conhaque, por ingestão de água gelada ou por febres de vários tipos em pessoas que nunca tiveram febre.

Em 1912, um editorial da revista defende a eugenia: "Talvez em 1993, quando todas as doenças passíveis de prevenção tiverem sido erradicadas, quando a natureza e a cura do câncer tiverem sido descobertas e quando medidas eugênicas tiverem colaborado com a evolução para eliminar os incapazes, nossos sucessores olharão para estas páginas com ar de superioridade".

Ainda em 1912, a revista publicou as primeiras preocupações com o surgimento de "pessoas com hábitos de vida extremamente indolentes, que não andam mais do que os passos necessários para ir do escritório ao elevador, do elevador para a sala de jantar ou para o quarto e de volta para o automóvel".

Durante o século 20, enfermidades cardiovasculares, câncer, diabetes e outras condições crônicas se tornaram prevalentes, embora ainda emergissem enfermidades infecciosas: encefalite equina, kuru, ebola, aids.

Em 2005, foi levantada a hipótese de que a epidemia de obesidade prevista em 1912 reduzirá a expectativa de vida da população americana, pela primeira vez, nos últimos 100 anos.

Qualquer tentativa de definir doença precisa levar em conta a complexidade.

Doenças afetam determinados grupos, estão associadas a fatores de risco e provocam sinais e sintomas característicos. Elas geram interesses que envolvem pacientes, profissionais de saúde e as instituições em que trabalham e as fontes pagadoras.

Mais do que um problema pessoal, doença é um processo antes de tudo social. Enfermidades novas estão associadas a causas novas (acidentes de moto, poluição), novos comportamentos (fumo, abuso de drogas) e mesmo à alteração da história natural por meio do tratamento (diabetes, aids, infarto).

Mudanças sociais e ambientais aumentaram a prevalência de enfermidades raras no passado: infarto do miocárdio, câncer de pulmão, obesidade grave.

Novos critérios e métodos de diagnóstico permitiram evidenciar outras, que não eram identificadas: depressão, síndrome metabólica.

Transformações na sociedade redefinem o que é doença. Homossexualidade e masturbação deixaram de sê-lo. Fibromialgia e síndrome da fadiga crônica passaram a ser consideradas, graças à pressão das associações de pacientes.

Apesar dessas modificações, uma característica se mantém desde os primórdios da humanidade: a influência nefasta das disparidades sociais no acesso aos serviços de saúde, fenômeno ubíquo em todas as sociedades.

Doenças são processos dinâmicos que coevoluem com a Medicina. Quando as vacinas e os antibióticos começaram a combater as infecções, aumentou a incidência de ataques cardíacos, derrames cerebrais e diabetes.

Assim que tivermos sucesso no controle dessas enfermidades, haverá aumento na prevalência dos transtornos neuropsiquiátricos, desafio que a medicina está despreparada para enfrentar.

Infelizmente, os sistemas de saúde estão mais preparados para as doenças do passado, não para lidar com aquelas do presente ou do futuro.

DRAUZIO VARELLA