segunda-feira, 4 de março de 2013



04 de março de 2013 | N° 17361
L. F. VERISSIMO

Dama de computador

Depois de saber que o Chico Buarque também fica jogando paciência no computador em vez de trabalhar, me senti desagravado. Eu não estou perdendo tempo ou protelando o momento de começar a escrever, quando jogo paciência. Estou, digamos assim, fazendo alongamento do músculo cerebral.

Ou distraindo o cérebro enquanto a verdadeira criação se dá em outro nível, no inconsciente. E se isso parecer conversa de vagabundo para se justificar, agora tenho um argumento irrespondível: o Chico Buarque faz a mesma coisa!

Há muitos jogos no meu computador, com vários graus de complexidade, mas até agora só aderi à paciência, o mais fácil. Um dia tentei jogar dama no computador. Eu fui bom em dama quando era garoto. Nunca progredi da dama para o xadrez, talvez pela mesma razão que me impediu de gostar de matemática, entrar em labirintos e pensar muito profundamente sobre os buracos negros.

(Dizem que dama é xadrez para as almas simples). Joga-se dama de computador não contra o computador, mas contra outro jogador que esteja na linha, movimentando-se uma peça no tabuleiro e esperando que o adversário, em alguma parte do mundo, movimente uma sua. Mas não consegui ir além de duas ou três peças movimentadas. Estava jogando bem, mas tive que parar.

Até agora não sei explicar minha sensação diante daquele adversário que eu não via, que não sabia onde estava ou que cara tinha, embora estivéssemos, para todos os efeitos, cara a cara. Era como jogar com um fantasma. Mais do que isto: era como ter minha casa invadida por um membro daquela estranha seita, talvez escrava, cuja única função na vida é ficar esperando desafios anônimos no jogo de dama. Era isto: a sensação de uma cidadela invadida e de uma intimidade indesejada cada vez que o outro movimentava uma peça.

Abandonei o dama no meio do jogo e cliquei no paciência. Jogando paciência você às vezes se sente sacaneado pelo computador, que geralmente permite uma vitória a cada cinco ou seis tentativas. Mas pode ao menos ter certeza de que não é nada pessoal.

Crônica-Vovô

A Lucinda, que tem quatro anos e meio, frequentemente nos premia com abraços e beijos extemporâneos. Mas também tem seus dias rebeldes, quando a qualquer aproximação de avô ou avó a fim de agarramento, ordena: “Me deixem em paz”

No outro dia, cheguei perto dela pensando num abraço e, se tivesse sorte, alguns beijos e ouvi seu aviso:

– Não se atreva.

Não se atreva! É claro que obedeci.

domingo, 3 de março de 2013


DANUZA LEÃO

Um homem fiel

Viver à beira do precipício é o maior combustível para uma paixão, e muitos confundem insegurança com sentimentos mais profundos

As mulheres são curiosas. Outro dia ouvi de uma amiga a seguinte pérola: "não é nem que eu esteja assim tão apaixonada, mas estou com XXX porque ele é incapaz de me trair".

A certeza com que ela disse isso -e a felicidade-, me levaram a pensar: será que essa é mesmo a maior qualidade que se pode querer de um homem? Que ele seja incapaz de nos trair? É um caso a pensar.

Naturalmente nenhuma mulher está querendo que o homem com quem pretende compartilhar a vida saia atrás da primeira mulher que passar pela frente; mas é preciso que o homem que se ama seja capaz de quase tudo, e nesse quase tudo está incluída a capacidade de achar graça em muitas mulheres; aliás, em quase todas. E é essa capacidade que põe a mulher louca -por ele.

Está-se falando de amor, claro, e qual a mulher que consegue amar sabendo que o homem que ama é incapaz de traí-la, que ela pode passar a vida fazendo qualquer coisa -ou nada- que vai ser amada da mesma maneira?

O que conserva o amor em altíssima temperatura é a incerteza, é a dúvida. Será que ele foi mesmo a um jantar de trabalho? Será que foi mesmo ao futebol? E quando o celular tocou e ele disse que não podia falar, que ligava depois, não seria uma mulher?

Claro que era, ela vai pensar. E vai viver no fio da navalha, sem certeza alguma do que está se passando, razão mais do que suficiente para não conseguir dormir, para viver atenta, prestando atenção a tudo, sobretudo aos silêncios.

Viver à beira do precipício é o maior combustível para uma paixão, e muitos confundem insegurança com sentimentos mais profundos.

Uma mulher que não tem muita certeza da fidelidade do seu parceiro nunca será vista precisando pintar a raiz dos cabelos ou sem pelo menos um pouquinho de maquiagem. Ela sabe que vive sempre por um fio, e nada melhor para alguém se sentir viva do que saber que a qualquer momento pode ganhar -ou perder- a vida, o dinheiro, o homem amado.

Estabilidade? E alguém tem estabilidade em alguma coisa? Se alguém achar que tem, além de ser um ingênuo, vai perceber que é a morte em vida.

Que você seja a pessoa mais rica do mundo, mais bonita, mais poderosa, pode acontecer de um dia, em um minuto, perder tudo.

Se houver uma revolução, o mais rico de todos pode ficar pobre -e até ser preso; se a mais linda tiver a pouca sorte de passar num desses bueiros que no Rio às vezes explodem, corre o risco de ir para o hospital para cuidar de suas queimaduras, e dizem que dor maior não há; e o poder- bem, basta ler os jornais, qualquer um, de qualquer país, para ver que se trata de uma gangorra.

Faça um exercício de memória e lembre dos nossos governantes do passado, que saíram debaixo de escândalos, e onde eles estão agora, poderosíssimos de novo; nesse ramo, mais do que em qualquer outro, tudo acontece, inclusive o impossível.

É essa certeza de não poder saber nada sobre o futuro que pode, às vezes, trazer uma notícia maravilhosa -embora seja raro-, ou acabar com suas ilusões e até com seu mundo.

Complicado, mas esse talvez seja o sal da vida.


FERREIRA GULLAR

De volta à avenida

O desfile é um acontecimento único no mundo, demonstração da criatividade do brasileiro

Depois de vários anos, voltei, no domingo de Carnaval, à passarela do samba, para assistir ao desfile das escolas, a convite do amigo Eduardo Paes, prefeito do Rio. O que me afastara desse desfile foi, entre muitas outras coisas, o som altíssimo dos alto-falantes, que não apenas me deixava atordoado como me impedia de ouvir a escola cantar.

Isso não mudou, até piorou.

A impressão que tive, desta vez, foi que o som estava mais alto do que antes. Já temendo isso, levei algodão para tapar os ouvidos e o fiz, mas não adiantou muito. Devo, porém, admitir que, não os houvesse tapado, não teria ficado muito tempo ali.

Entendo que, dado o tamanho da passarela, com vastas e altas arquibancadas, os alto-falantes tornam-se necessários, uma vez que, sem eles, uma boa parte dos espectadores não seria tocado mais intensamente pelo espetáculo.

Isso pode, porém, ser resolvido sem ampliar o som de modo insuportável, com acontece agora. Bastaria erguer, naquelas arquibancadas, postes com alto-falantes. Desse modo, creio, teríamos um espetáculo menos estressante e mais fiel à natureza mesma do desfile que, no passado, não contava com esse sistema de som.

O resultado é que, naquela época, se ouvia os foliões cantando o samba, no momento mesmo em que passavam diante de nós. Hoje, não se ouve voz alguma, a não ser a do puxador do samba, num berreiro atordoante.

Neste domingo, houve um momento em que o som dos alto-falantes falhou e foi uma maravilha: não durou dois minutos, mas foi o suficiente para ouvirmos a escola cantando e, num impulso, o público inteiro aplaudiu.

Mas nada tira o brilho desse espetáculo único no mundo, que é o desfile das escolas de samba. Falo de cadeira, porque comecei a assisti-lo em 1956, quando me enamorei da carioca Thereza Aragão. O desfile ainda era na avenida Presidente Vargas, depois passou para a Rio Branco e, finalmente, para a Marquês de Sapucaí, ainda com arquibancadas desmontáveis, de madeira.

A passarela atual -mal apelidada de sambódromo- foi invenção de Darcy Ribeiro, que convidou

Oscar Niemeyer para projetá-la. Nenhum dos dois nunca havia assistido a um desfile.

A praça da Apoteose foi imaginada por Darcy como o lugar onde o desfile de cada escola se encerraria como apoteótico espetáculo de dança. Disse a ele que isso jamais aconteceria e não aconteceu: a praça da Apoteose, apesar do nome pomposo, tornou-se o lugar de dispersão, como tinha que ser.

O que piorou muito, nestes últimos anos, foi a letra dos sambas-enredo. Isso já vinha ocorrendo e se acentuou a partir do momento em que os traficantes de drogas passaram a mandar nas escolas de samba e a impor seus comparsas como autores dos sambas. O principal sintoma disso foi o aumento do número de parceiros: de um ou dois compositores passaram a cinco, seis, sete.

Outro fator foi a necessidade de desfilar com tempo determinado, o que provocou a aceleração do ritmo, e o samba virou marcha. Este ano, à exceção talvez do samba da Vila Isabel, que teve Martinho da Vila como um de seus autores, os outros são péssimos.

As letras, além de banais, são desconexas, frases soltas, incongruentes, sem sentido algum. A melodia às vezes escapa, mas nada que se compare aos sambas-enredo do passado. Tanto que ninguém os decora nem os canta durante o desfile, como antigamente. O que salva o desfile hoje em dia são as baterias que, quando passam, empolgam o público e o fazem sambar.

De qualquer modo, o desfile das escolas de samba é um acontecimento único no mundo, demonstração da criatividade do povo brasileiro. Um espetáculo belo e empolgante, a que nenhum outro se compara, realizado a céu aberto com a participação apaixonada da plateia.

E há mais: a criatividade dos carnavalescos que inventam alegorias belíssimas, em que a inventividade plástica e cromática se soma muitas vezes à poesia e ao humor.

Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues, nos anos 1960, revolucionaram as alegorias e as fantasias, abrindo caminho para as inovações de um Paulo Barros, que hoje encanta o público com suas invenções surpreendentes. Neste ano não deixou a desejar e, sim, pelo contrário, arrebatou a plateia com um extraordinário navio fantasma, que me pareceu alcançar o nível da melhor arte contemporânea.


JOSÉ SIMÃO

Ueba! Nação corintiana é surreal!

E o partido da Marina?

O Brasil tem pouquísssimos partidos, tava precisando de mais um mesmo!

Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Pensamento do dia: eleição no Vaticano é conclave e eleição no Congresso é conchavo!

E o Papa diz que cardeais envolvidos em escândalos sexuais não devem participar do conclave. Lei do Pinto Limpo! No Brasil, Lei da Ficha Limpa. Na Itália, Lei das Mãos Limpas. No Vaticano, Lei do Pinto Limpo. Sendo que nenhuma funciona.

Continua a SACRANAGEM! E o surreal da semana: embate dos advogados do caso Corinthians-Bolívia. O advogado do "de menor" da Gaviões: "Vou provar que meu cliente é culpado". E o advogado de acusação boliviano: "Vou provar que o corintiano acusado é inocente".

Só a nação corintiana para provocar esse surrealismo: advogado de defesa condena e advogado de acusação, inocenta! E esta notícia: "Cirurgia plástica pode deduzir do Imposto de Renda".

Oba! A Marta, o Amaury Jr. e o Silvio Santos vão ter isenção vitalícia. E a Ângela Bismarchi, isenção para as próximas oito encarnações! Então eu também vou fazer uma plástica: desentortar o pingolim! E tenho uma amiga que fez tanta plástica que, quando breca, a boca abre! Uma freada, uma risada! Aí o povo pergunta: "Do que essa motorista tanto ri?". E ela: "Não tô rindo! Tô brecando!".

E o que vou declarar no IR? Declaro que o Crocs da Dilma é cafona, que o Aécio é baladeiro e que a minha vizinha tá dando pro porteiro. E eu já disse: os impostos no Brasil não são altos, nós é que somos baixos. Rarará!

E esta piada pronta: "Time peruano vai usar Viagra para reduzir efeitos da altitude em Cusco". Peru, Viagra e Cusco. Isso não é um jogo, é uma suruba! Uma hora o Viagra vai bater. E eles vão estar em campo! E carrinho por trás vira estupro e marcação homem a homem é assédio sexual.

E o partido da Marina? O Brasil tem pouquísssimos partidos, tava precisando de mais um mesmo! Adorei o nome do partido: Rede! Um partido que não é posição nem oposição. Então não é rede, é muro! Rede porque ficam todos deitados balançando, ora pro governo, ora pra oposição! Nhenc, nhenc!

Barulho de rede com gancho enferrujado! E como disse um amigo: o partido da Marina é um PSD que não come carne! Rarará! E o programa do partido: desodorante de andiroba, xampu de cupuaçu e camisinha de polpa de buriti. E a Marina tá a cara da Mãe do Macunaíma. Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza!

Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

simao@uol.com.br

ELIANE CANTANHÊDE

Coincidência ou teto?

BRASÍLIA - Lula, em 2002 e 2006, e Dilma, em 2010, tiveram no primeiro turno o mesmo índice de votação: em torno de 43% dos votos totais, contando nulos e brancos. O que variou foi o percentual dos adversários tucanos. Serra teve 21% em 2002 e 30% em 2010. Alckmin atingiu 37% em 2006, no rastro do mensalão.

A lembrança, que assanhou oposicionistas na semana passada, foi lançada pelo "ex-blog" do ex-prefeito, ex-governador e bom analista de pesquisas Cesar Maia, do DEM, junto com uma provocação: "Coincidentemente, nas três eleições de Lula, Lula e Dilma obtiveram no primeiro turno 43% dos votos totais. Coincidência? Ou teto para 2014?".

Se for teto, isso sugere que o resultado deverá, ou poderá, se repetir no ano que vem. Há, porém, dois fatores a serem considerados, até porque, em política e em eleições, tudo pode, menos certezas de véspera.

Um dos fatores é que Lula foi "o cara" em 2002, 2006 e 2010, como candidato ou como carregador de Dilma. Na próxima eleição, ele continuará protagonista, mas já não estará sozinho. Aos 43% que ele teve e que carregou para sua candidata, acrescente-se o que a própria Dilma amealhou por méritos próprios ou mesmo pela força do cargo. Em 2014, poderá haver uma soma: Lula mais Dilma.

O outro fator é a economia. Nas festas de 33 anos do PT, 10 no Planalto, os aplausos vão para o governo Lula, como se ninguém se lembrasse do governo Dilma ou não quisesse azedar o bolo com o "pibinho" de menos de 1% de 2012, a inflação dando as caras, o fiasco da Petrobras, a maquiagem de dados... Não é o que se projeta, mas, em tese, pode haver uma diminuição: Lula menos Dilma.

E os demais candidatos são determinantes. Nas contas de Maia, Heloísa Helena só teve 6% dos votos totais em 2006, mas os evangélicos fizeram a diferença nas outras eleições. Garotinho chegou a 16% em 2002, e Marina, a 18% em 2010. Lula e Dilma venceram no final. Mas tiveram de enfrentar a pedreira do segundo turno.

sábado, 2 de março de 2013



03 de março de 2013 | N° 17360
MARTHA MEDEIROS

Entreouvidos por aí

“De todas as pessoas que eu conhecia, ela era a candidata menos provável de eu vir a ter uma história. Extremamente carola, cheia de nove horas, o oposto do meu estilo. Sou um cara moderno, livre, desimpedido em todos os sentidos.

Sempre gostei de mulheres bem resolvidas, e ela me parecia uma menininha à espera de um anjo salvador. No entanto, quando dei por mim, ela estava sob as minhas asas. Não era o que eu buscava na vida, não era mesmo. Não sei como chamar isso”.

“Se cruzassem nossos perfis em qualquer rede social, daria um curto-circuito. Ele não gosta de nada do que eu gosto, e eu tenho aversão ao jeito que ele se comporta. Mas, desavisados, numa festa trocamos um beijo que fez alguma coisa acender, e desde então é briga atrás de briga. Ambos se perguntam: o que justifica essa nossa insistência?”

“O Caetano tem uma música que diz: mexe qualquer coisa dentro doida. É bem assim que me sinto. É do departamento das loucuras inexplicáveis. Sou bonita, inteligente, bem educada. Sei que agrado, não ficaria sozinha jamais, a não ser que quisesse.

No entanto, estou há dois anos namorando um colega de faculdade que me esnoba, mas não me deixa, e eu vou arrastando esse relacionamento na esperança de que ele amadureça. Tem nome um troço desses? Carência, doença, masoquismo?”

“Namoro uma mulher bem mais velha que eu. Minha mãe torce o nariz. Meus amigos me chamam para a balada a fim de que eu conheça umas garotas da minha idade. Ela própria acredita estar empatando a minha vida. Meu terapeuta acha que está tudo bem do jeito que está, e eu também acho, mas ninguém a minha volta parece compreender. Às vezes nem eu compreendo”.

“Meu casamento durou apenas quatro anos. Não conseguíamos viver bem, era um desgaste emocional que fazia ambos sofrerem. Decidimos terminar de comum acordo e nós dois estamos agora respirando melhor, com a vida mais destravada. Até já estou saindo com outro cara, mas quando toca o celular, fico torcendo para que seja meu ex. Queria entender o que se passa comigo”.

“Já fui casado e sei bem o que é uma relação saudável, bacana, estruturada. Estaria com ela até hoje se não tivesse enviuvado. Achei que nunca iria me recuperar do baque, mas anos depois comecei outra relação séria, só que era o oposto do primeiro casamento: um tumulto, parecia que falávamos idiomas diferentes, ninguém se entendia, mas a atração era incontrolável e estamos juntos até hoje, nem eu nem ela temos coragem de sair fora, mesmo sem entender o que nos faz ficar”.

“Sabe relação ioiô? Vai e volta, vai e volta? Nenhum dos dois têm mais paciência pra isso, é ridículo. Se não conseguimos nos acertar até aqui, qual a esperança de um milagre acontecer? Teimosia, é o nome disso. Se não é teimosia, não sei o que é”.

Quando a gente não sabe o que é, é amor.


03 de março de 2013 | N° 17360
VERISSIMO

Bolero

“Dormir avec vous madame
Dormir avec vous
C´est um merveilleux programe
Demandant surtout
Um endroit discret madame”

Charles Aznavour

Enfim um bolero, nest pas madame? Fui eu que subornei a orquestra. Agora podemos dançar juntos, eu sentindo os seus seios contra o meu peito, você sentindo as minhas medalhas. O bolero favorece a minha perna mecânica, ao contrário do tango, que também cultivo, mas só em teoria, senão eu caio na primeira rabanada.

O bolero também nos permite falar um no ouvido do outro, ao contrário dessas danças modernas, nas quais a única comunicação possível entre os pares é o sinal metafórico. Nenhuma conversa é tão privada e discreta quanto a de um homem e uma mulher dançando um bolero, o homem cuidando para não engatar os lábios num brinco ao mordiscar o lóbulo, onde a mulher é mais tenra, a mulher se permitindo dizer baixinho tudo que jamais diria em público, principalmente ao alcance dos ouvidos do marido. Existe um marido, pois não, madame?

Deve haver um marido, senão nada disto este salão, este bolero, seus seios contra o meu peito e a minha ereção tem sentido. O essencial numa sedução não é o sedutor nem a seduzida, é o marido. Todo o drama, toda a aventura, toda a glória e o prazer de uma sedução está centralizada no marido enganado.

Um caso sem marido é como um merengue sem recheio, uma casca farofenta encobrindo o nada. Seu marido está nos vendo? Está seguindo nossos passos, salivando como um cão raivoso? Sinto seus olhos na minha nuca, talvez medindo-a para um golpe de cutelo, como o que mata os touros que se recusam a morrer pela espada. Sim, também já fui toureiro.

O que a gente não faz para impressioná-las, hein madame? Posso desafiar o marido para um duelo, se lhe convier. Sim, sou do tempo dos duelos, quando a honra se lavava com sangue, nem que fosse apenas o sangue de um arranhão. Madame já adivinhou que sou um homem antigo.

Para mim, nada é mais apropriado do que um bolero acabar num duelo. Posso mandar seu marido para um hospital. Assim nem ele ficaria sem sua honra nem nós ficaríamos sem um marido enganado vivo para apimentar nossa união.

Como eu perdi minha perna? Foi numa dessas guerras, não me lembro mais qual. Foi em Waterloo, foi no Somme, foi no desembarque em Omaha Beach, quem se lembra? E tudo para impressioná-la, madame. Eu ainda não a conhecia, nem sentira os seus seios contra o meu peito, e já estava matando e morrendo e construindo civilizações para impressioná-la. Esta sedução não começa aqui, madame, começou há milhares de anos, quando nós descemos das árvores para a savana e passamos a andar de pé, com a genitália exposta.

Como isto não as impressionou muito, recorremos a outros meios de sedução. Brigas, guerras, atos de bravura e audácia intelectual, boleros. Tudo para dormir com você, madame. Dormir com você. Fazermos um programa maravilhoso num lugar discreto.

Champanhe, alguns canapês, cortinas de veludo cerradas, um disco de vinil na vitrola (sou um homem antigo). Não queremos outra coisa além de dormir com você. Nunca quisemos. E... glubz! Desculpe madame. Acho que engoli o seu brinco.


03 de março de 2013 | N° 17360
O CÓDIGO DAVID | DAVID COIMBRA

O QUE REALMENTE UNE OS SERES HUMANOS

Os Beatles e a batata frita unificam a humanidade. Porque todo mundo gosta de Beatles e de batata frita, todo mundo!, o que os torna, uns e outra, casos únicos. Alguém pode lembrar do sexo.

Verdade, o sexo é muito popular, ou não seríamos sete bilhões de bípedes respirantes sobre a superfície do planeta, uma vez que há infartos, dengues, vírus insidiosos, bactérias nefandas, infecções generalizadas, acidentes de carro, de moto, de navio e de avião, afogamentos, pianos que caem do oitavo andar e, principalmente, outras pessoas conspirando contra a nossa vida.

Há tudo isso, e continuamos nos reproduzindo. Por quê? Por causa da boa imagem de que desfruta o sexo. No entanto, afirmo: algumas pessoas NÃO GOSTAM de sexo. Ou não se importam com. Mas todas, todas as pessoas gostam de Beatles e batata frita, até os esquimós, os pigmeus e os norte-coreanos, se por ventura ouvirem os Beatles e trincharem uma batatinha frita.

Pois nesse março que se inicia o primeiro álbum dos Beatles, “Please Please Me”, completará meio século. São 50 anos redondos, mas o meu filho de cinco, quando coloco algo dos Beatles na radio eletrola, ele cessa tudo o que está fazendo, estica o pescoço, ouve em silêncio e depois comenta:

– Música bonita, papai. Bota de novo?

Dom Quixote e 50 tons

Há quem diga que a chamada “Grande Arte” não existe. Que é impossível fazer essa classificação. Uma das provas seriam os romances noir, aquelas obras imortais de Raymond Chandler, David Goodis, Ed McBain, Michael Connelly e Ross MacDonald, esses mestres, entre outros. Pois os romances noir, logo que surgiram, eram considerados subliteratura. Só que hoje foram promovidos à Grande Literatura, com G e L maiúsculos. Assim, a classificação de algo como Grande Arte ou subarte, ou seja o que for, seria impossível. Depende de gosto, do momento, da interpretação do crítico.

Não concordo.

Tenho um critério para definir o que se enquadra em Grande Arte: é o que fica. Quer dizer: independe do contexto. Você pode se emocionar com a leitura de Dom Quixote agora, num domingo ameno de março de 2013, e esse foi o primeiro romance escrito no Ocidente, há mais de quatro séculos. Mas duvido que os 50 Tons de Cinza arrepiem os cabelinhos das nucas das meninas de 2023, duvido mesmo.

Não se mede o que é Grande Arte pelo sucesso, mas por sua universalidade e atemporalidade.

Meu filho adora os Beatles e os filhos dele também vão adorar. Porém, na época, no começo, os contemporâneos tinham dificuldades em ver a grandeza do que testemunhavam. A revista Newsweek escreveu o seguinte sobre John, Paul, Ringo e George em 1964:

“Visualmente, são um pesadelo. Ternos eduardianos apertados e cabelos em forma de tigela. Musicalmente, um desastre: guitarras e bateria detonando uma batida impiedosa, que afugenta ritmo, melodia e harmonia. As letras (pontuadas por gritos de ‘yeah, yeah, yeah’) são uma catástrofe, um amontoado de sentimentos baseados em cartões do dia dos namorados”.

Não é uma preciosidade de crítica bem fundamentada? Estaria pronto a concordar com o jornalista, se não estivesse a uma distância de cinco décadas, olhando tudo do alto e de longe.

Já o New York Daily News meteu-se a fazer uma previsão:

“Bombardeada com problemas ao redor do mundo, a população voltou seus olhos para quatro jovens britânicos com cabelos ridículos. Em um mês, a América os terá esquecido e vai ter que se preocupar novamente com Fidel Castro e Nikita Krushev”.

É difícil enxergar a Grande Arte enquanto ela está acontecendo.

O QUE LER: Beatles - A Biografia

Gostar dos Beatles todos mundo gosta, mas se você AMA os Beatles, leia “Beatles - A Biografia”, de Bob Spitz. O cara escreveu o que se chama de cartapácio sobre os rapazes de Liverpool: quase um milheiro de páginas.

Bob Spitz é um jornalista americano. Pesquisou a história dos Beatles por dois anos e meio e levou outros cinco anos e meio para escrevê-la. Se você for bom em matemática, já calculou que o livro levou oito anos para ficar pronto. Entre as mais de 500 obras sobre o Fab Four, certamente é a mais completa. E bem escrita. Vale o esforço.

Como alcançar o crime zero

Quando os Beatles se apresentaram no programa de Ed Sulivan, em fevereiro de 1964, nenhum único crime foi registrado nos Estados Unidos.

Nenhum!

Pelo menos é o que os americanos divulgaram, na época. Será verdade? Será que todos os criminosos do Grande Irmão do Norte estavam hipnotizados pelos Beatles durante aquele naco de tempo? Acredito. Porque, afinal, todo mundo gosta dos Beatles, inclusive os fora-da-lei.

Imagino que os americanos estivessem comendo batata frita durante o programa do Ed Sulivan, eles adoram french fries. Que momento da Humanidade. As duas preferências universais do homem sendo exercidas ao mesmo tempo. Foram felizes os americanos daqueles dias. Vou agora mesmo pegar umas fritas e ouvir Beatles.

O QUE OUVIR: Rua Ramalhete

Não serei óbvio de indicar um disco dos Beatles, mas vou sugerir que você ouça uma música que os cita: “Rua Ramalhete”, do Tavito, cujo refrão pergunta: “Será que algum dia eles vêm aqui cantar as canções que a gente quer ouvir?” Eles são os Beatles, claro, que embalavam “os bailes no Clube da Esquina”, como diz a canção.

O curioso é que não havia bailes no Clube da Esquina, já que o Clube da Esquina não era clube coisa nenhuma. Era uma reunião de compositores e músicos mineiros, entre eles Milton Nascimento, Beto Guedes, Lô Borges e Fernando Brant. As mães deles perguntavam por onde os meninos andavam e a resposta era sempre a mesma: “Estão lá na esquina, cantando e tocando violão”. Virou Clube da Esquina, disco e movimento musical. Bons tempos da MPB.



03 de março de 2013 | N° 17360
PAULO SANT’ANA

Cristo e Tiradentes

O mundo está dominado por laranjas.

O papa Bento XVI deixou o cargo na quinta-feira, mas teve o cuidado de recomendar ao conclave que eleja um laranja seu para o trono pontifício.

Dilma é laranja do Lula. Aécio Neves tenta ser laranja de Tancredo Neves.

A Arena é laranja do Olímpico. O Grêmio joga os Gre-Nais com laranjas.

Quando Fábio Koff vê se tornar maçante a sua tarefa de dirigir o Grêmio, ele designa Luxemburgo como seu laranja por dois dias.

Há um princípio do Direito Penal que é uma das pedras angulares daquela ciência: “O pensamento não delinque”.

Esse princípio consagra outro subprincípio: “Ninguém pode ser punido pelas suas ideias”.

Temos dois grandes exemplos de homens que foram condenados à morte por suas ideias: Cristo e Tiradentes.

Cristo não cometeu nenhum delito contra os romanos e mesmo contra a cúpula judia que era títere dos romanos. Foi invenção pura dos compatriotas de Cristo que ele “profanou o dia sagrado dos judeus”. Por esse delito inventado é que Cristo foi julgado e condenado à cruz.

Ou seja, não houve nenhuma ação de Cristo contra Roma, tanto que quando deram uma moeda romana a Cristo para que ele opinasse sobre ela, ele sentenciou: “Dai a César o que é de César”.

E erradamente condenaram Cristo por sua ideia e, muito pior, pela sua fé.

Com Tiradentes foi o mesmo. Ele era só contra o domínio da coroa portuguesa sobre os brasileiros.

Cristo e Tiradentes pagaram com suas vidas por suas ideias.

Por isso é que o Direito Penal tenta se redimir ao afirmar que “o pensamento não delinque”.

O que quer dizer o seguinte: só pode ser responsabilizado alguém penalmente se cometer uma ação delituosa.

Nunca por pensar, tão somente.

Se fosse por outra forma, se eu concluir que devo matar alguém, fico convicto de que devo matar certa pessoa. No entanto não poderei ser punido se não der início à tarefa de matar.

Só ter a intenção de matar não pode constituir acusação contra ninguém. Ter a intenção de matar só pode agravar meu crime se eu vier a cometer o assassinato.

Imaginar que vai matar alguém, por si só, não é delito.

Por sinal, tentaram impingir sobre Tiradentes a acusação de conspiração.

Eu até vou mais longe nesse meu devaneio sobre Direito Penal: simplesmente a conspiração não constitui delito. Conspiração para matar alguém é querer matar alguém.

Mas se não for deflagrada a mínima ação material para matar aquele alguém, não há delito. Nem tentativa há.

Um delito, em outras palavras, tem de sair da cabeça do autor e desatar-se sobre as mãos dele, para a ação.

Se ficar só na cabeça, não há crime.


02 de março de 2013 | N° 17359
TEMPO REDESCOBERTO

1 – O Autor Sempre é cedo

Conheci Antônio Carlos Resende no melhor lugar: seus livros. Eu já garimpava em livrarias, ainda na adolescência. Foi na Sulina da Borges, atraído pelos títulos. O Rapaz que Suava Só do Lado Direito. Magra, mas não Muito, as Pernas Sólidas: Morena. O Louva-a-Deus. Por que me Olhas, Maria Carolina?.

O autor adiantava-se a García Márquez, no cuidado da primeira frase. A força vinha estampada na capa. Um achado para um jovem que tentava contos, poemas e empacava até no nome para dar a eles. Depois, virava desculpa de não ir adiante. Eu aprendia que é difícil viver e escrever. Mas fui adiante nos romances do Resende e pensei deles o que sentia na vida:

1. Não convém evitar os amores.

2. Os amores são meio loucos.

3. Amores e livros precisam de ritmo.

No ritmo da vida, conheci o Resende pessoalmente bem depois. Fomos apresentados pelo Paulo Hecker Filho, que o conhecia desde muito antes. Inevitável aquele frenesi que a Cláudia Laitano descreve de quem depara com um escritor, fora das páginas.

Eu esperava um homem tímido e encontrei um grande locutor. O Resende fala como se estivesse narrando uma partida de futebol. Pode ser num bar, pedindo o adoçante.

Até hoje, costuma deixar mensagem no meu aniversário. Sinto uma dor enorme quando tenho de apagá-la. É voz no auge. Ele foi também um exímio narrador de futebol, dono de um dos “gooools” mais longos da história do rádio. Narrador do som em si à letra impressa. Completo.

Dos amigos, fica o amor das histórias. A mais marcante até agora foi quando ele completou setenta anos. Eu morava em Paris, e o Resende mandou uma carta. Há quinze anos, escrevia-se carta. Ele contava que tinha se organizado para morar lá, durante seis meses. Queria sentir o clima e escrever um novo livro. Sonhara a cidade, nas leituras da juventude, mas a vida corrida só lhe concedera agora a oportunidade. “Estou pronto”, escreveu, ao final do texto.

Não o assustavam um princípio de enfisema e as sequelas de um antigo infarto. Seguia em busca da grande pegada. Por seis meses, Paris tornava-se uma festa de amizade e letras. Mas, quando me lembrei das agruras de estrangeiro, pensei que ele não fosse resistir. Legalizar papéis, achar apartamento, lavar roupa, falar francês, fazer conexões no metrô. Levar esporro em guichê. Contar francos. Propus-me a ajudá-lo, mas o Resende recusou e se virou sozinho. Nem apelou para o Dionísio Toledo, seu velho amigo, exilado na França desde o final dos anos 1960.

Não, não quis ajuda. Disse que amigos servem para encontrar. Com a mulher, alugou um studio, em Saint-Denis, perto dos drogados e das prostitutas. Quando ia visitá-lo, sentia-me em dívida por não ter avisado. Ele nem aí, observava tudo, agradecido ao destino e anotando cada detalhe para pôr no livro.

O Resende viveu e escreveu. Seis meses, como um guri, maravilhado a cada descoberta da língua e dos costumes. Ouviu música, viu museu, varou parques, leu originais. Não se encolheu ao exílio e nem aos franceses. Com ele, vi um garçom baixar a cabeça pela primeira vez. A Revolução Francesa os havia tornado confiantes com qualquer cliente; ninguém era superior a ninguém por causa de dinheiro ou profissão.

O recente socialismo, dos anos Miterrand, reativara a consciência do valor real de cada um. Mas o Resende não se conformava com chope sem espuma. No café Zimmer, da Praça Chatelet, passou a receita aos profissionais. O conceito teve mesmo de ser revisto. Depois, viajou para Marselha, queria ver o porto. Na volta, maldisse o porto, mas elogiou o progresso da turma. O Dionísio nem acreditava.

Amigo está junto, mesmo quando distante. Não precisa ensinar, mas aprendi com ele que os amores podem ser vividos. Podem também ser escritos, apesar de serem meio loucos. E não carece muito pulmão ou pouca idade para realizar um sonho.

Graças ao Resende, fumo de vez em quando. E tenho muitos planos para quando chegar aos setenta. 


02 de março de 2013 | N° 17359
CLÁUDIA LAITANO

O direito de escolher

Se o destino dela dependesse unicamente do quesito simpatia e da boa impressão causada na opinião pública, a médica Virgínia Helena Soares de Souza já estaria condenada.

Nas fotos que têm ilustrado as reportagens sobre as mortes na UTI do Hospital Evangélico de Curitiba, a médica não parece exatamente a encarnação daquele tipo de pessoa que gostaríamos de ver rondando a nossa cama no hospital – ou mesmo o nosso guarda-sol na beira da praia.

O cabelo muito curto, a maquiagem pesada nos olhos, a boca apertada e o olhar congelado de psicopata de novela das oito contrastam notavelmente com as roupas joviais e coloridas (blusa azul, saia laranja) – compondo a bizarra figura de uma madrasta má fantasiada de Branca de Neve.

Para piorar, Virgínia tem sido descrita como uma profissional detestada pelos colegas, e mesmo a família admite que ela tem “personalidade forte”. Entre as acusações que pesam sobre a médica, já apelidada de Doutora Morte, há monstruosidades como a interrupção do tratamento de um paciente do SUS para permitir que um paciente de convênio ocupasse o mesmo leito e a “precipitação” da morte do próprio marido – a quem ela sucedeu na chefia da UTI do hospital.

Se tudo der certo, e a cota de trapalhadas da investigação tiver se encerrado com a constrangedora transcrição equivocada de um grampo telefônico (a polícia foi obrigada a reconhecer que confundiu a palavra “raciocinar” com “assassinar” em uma gravação divulgada para a imprensa), o destino da doutora Virgínia será definido pela Justiça e não pelas aparências.

Seja ela culpada ou inocente, vampira de Curitiba ou vítima da própria impopularidade, o certo é que o episódio pode ter ajudado a confundir ainda mais o debate a respeito do direito a uma morte digna.

Quem assistiu ao filme Amor, de Michael Haneke, Oscar de filme estrangeiro deste ano, deve ter saído do cinema se perguntando como agiria no lugar daquele homem que vê a mulher agonizando ao seu lado. Até onde cada um de nós seria capaz de ir para poupar alguém do sofrimento? E que tipo de comprometimento é legítimo exigir de alguém que esteja ao nosso lado nesse tipo de situação?

A eutanásia é um tema talvez ainda mais difícil de discutir do que o aborto. Se há apenas dois caminhos para a vida, ser ou não ser, a jornada que se encerra com a morte em um hospital pode ser assustadoramente rápida ou dolorosamente lenta. Pode depender da disposição do paciente para testar até o último recurso médico e do tipo de informação que se tem sobre a doença e os tratamentos.

Está circunscrita a condições financeiras, apoio da família, empenho da equipe médica, convicções morais e religiosas e mesmo traços de personalidade do paciente e dos seus familiares.

Fala-se em “eutanásia”, crime previsto no Código Penal, quando a morte de um paciente terminal é provocada por um determinado procedimento, com ou sem consentimento da família, em “distanásia” quando a vida (e o sofrimento) são prolongados artificialmente mesmo sem perspectiva de recuperação e em “ortotanásia” (a morte correta) quando a doença fatal segue seu curso, sem intervenções inúteis.

Não é fácil determinar esses limites e muito menos transformar em lei o direito que cada um deveria ter de escolher as circunstâncias da própria despedida, mas essa é uma discussão que ainda precisa ser feita no Brasil – com bom senso e sem prejulgamentos.


02 de março de 2013 | N° 17359
CAPA

A garota é TOP

Além de valorizar a beleza gaúcha, o Garota Verão aposta no perfil de modelos para o mercado

O manequim 36 e os mais de 1m75cm de altura da maioria das candidatas do Garota Verão 2013 entregam: o perfil do concurso, um dos mais tradicionais do país, mudou. Se nas edições anteriores o objetivo era valorizar a beleza feminina do Estado, neste ano vai além e busca revelar uma top nacional ou até mesmo internacional para o mercado.

A vencedora da final de hoje ganhará R$ 50 mil em trabalhos e passará a integrar o casting da agência Joy Models, de São Paulo. Para Liliana Gomes, diretora-presidente do Grupo Joy no Brasil e jurada do evento, o país só tem a ganhar com o novo formato:

– O Rio Grande do Sul é um grande exportador de modelos para o mundo, muitos nomes saem daqui. E um concurso como esse, que tem o respeito da sociedade, é muito importante, pois dá segurança às meninas que, muitas vezes, são exploradas no início da carreira ao caírem nas mãos de aventureiros.

Às 14h45min de hoje, as 30 finalistas levarão para a beira-mar de Capão da Canoa noções de passarela e beleza. As lições vieram de bookers da agência, que acompanharam as meninas desde as etapas regionais, dando dicas de comportamento, alimentação, cuidados básicos e informações sobre a vida de modelo.

Outra novidade é que o biquíni deixou de ser o traje exclusivo da grande final. As gurias protagonizarão três desfiles de moda, com figurinos casuais, e experimentarão um pouquinho da emoção da correria de um backstage com trocas de roupa e tempo cronometrado.

– O Garota Verão é um concurso clássico. E é muito motivador saber que posso seguir a carreira de modelo depois – disse a representante de Pelotas, Katherine Silveira, no teste de vídeo, a uma banca de jurados composta por importantes nomes da moda nacional e internacional, como Lanny Zenga, diretor da agência One Management New York.

Analisando que as concorrentes têm idade média de 15 a 20 anos, Liliana faz uma comparação do concurso com o vestibular e acrescenta:

– Esta é a chance das meninas serem descobertas e se projetarem. Há 40 anos, as mulheres queriam ser misses. Atualmente, querem produzir mais. E a carreira de modelo é para pessoas inteligentes, independentes e que gostam de viajar pelo mundo.

É exatamente essa proposta que fará as moças tremerem os joelhos e brilharem os olhos, quando a primeira candidata for chamada à arena de 1,6 mil metros quadrados instalada na beira da praia. E a dica para acalmar os ânimos no grande dia vem de uma veterana, Marceli Almeida, que passará a faixa de Garota Verão neste ano:

– Tem que preparar o corpo e a mente. É preciso saber perder.

fernanda.pandolfi@zerohora.com.br


02 de março de 2013 | N° 17359
NILSON SOUZA

Dentuça cinquentona

Mônica faz 50 anos neste domingo. A garotinha dentuça criada por Mauricio de Sousa é uma espécie de Mafalda brasileira, embora lidere a sua turma de meninos e meninas mais pela força bruta do que pelos argumentos e pelo posicionamento político, que eram a característica da genial criação do argentino Quino.

Com Mônica não tem muito diálogo: escreveu, não leu, o coelho de pelúcia canta na orelha do insolente. Mas ela também sabe ser divertida e terna. Por isso conquistou o coração de milhares de leitores infantis – e também de muitos adultos.

A turma da Mônica é um achado, pois reproduz jeitos e trejeitos das crianças e adolescentes brasileiros de todas as classes sociais. Ainda que sejam inspirados nos próprios filhos do autor (e ele tem 10), os personagens transitam por todos os setores da sociedade. Quem nunca falou “elado” como o Cebolinha?

Quem não conhece uma Magali comilona? Quem não convive com um Cascão na escola? Quem nunca identificou um amigo com cara de Anjinho ou Franjinha? E quem não gostaria de ter à mão um Sansão, o coelho azul, para castigar os abusados sem causar-lhes ferimentos?

As histórias de Mauricio de Sousa são quase sempre ingênuas e até um tanto moralistas, mas encantam exatamente pela semelhança com a vida real.

Mônica, apesar do seu temperamento explosivo, é totalmente do bem – tanto que já recebeu o título de embaixadora do Unicef por transmitir valores essenciais de convivência, como a amizade, a solidariedade, o apreço pela educação e pela família. O Fundo das Nações Unidas para a Infância a reconhece como defensora dos direitos das crianças.

Ela e os demais personagens de Mauricio saltaram das tirinhas dos jornais para as revistinhas e agora espalham-se por diversas plataformas, incluindo televisão, cinema, internet, videogames e até mesmo um parque temático que o desenhista mantém em São Paulo.

As histórias em quadrinhos foram – e ainda são – a cartilha de alfabetização de muitas gerações. Este escriba, por exemplo, aprendeu a ler por conta própria, antes de entrar na escola, motivado pela curiosidade de ler os balõezinhos dos gibis que circulavam pela casa paterna.

E que trocávamos na porta do cinema. Os garotos de hoje custam a acreditar que íamos para a matinê (que era como se chamavam as sessões da tarde) com pilhas de gibis debaixo do braço, para trocá-los com outras crianças. Pode parecer meio ridículo, mas garanto que era muito mais saudável do que entrar no cinema com um pacotão de pipocas e um litro de refrigerante. Essa, infelizmente, a Magali venceu.

Bom, mas voltando à aniversariante: Mônica e sua turma de amigos – graças ao talento de Mauricio de Sousa – são dignos representantes da alegria e da irreverência do moleque brasileiro.


02 de março de 2013 | N° 17359
CAPA

Leveza e bem-estar

Há cerca de seis meses, a repórter Lara Ely fez uma sessão demonstrativa de Watsu. Confira o relato:

A sensação é de estar flu­tuando. A música de fundo tranquiliza, a luz fraca e o corpo submerso na água aquecida ajudam a aquietar a mente e fazem as tensões físicas, aos poucos, irem embora.

Porém, na primeira vez, isso não acontece assim tão rápido. Ao entrar na piscina e deixar os movimentos do corpo serem guiados pelo profissional com quem fiz a sessão, fui acometida por uma estranha sensação... a dificuldade de desligar do mundo lá fora.

Pensava no dia de trabalho, na tarefas que ainda tinha para cumprir, nas notícias das últimas horas. Mas a terapia requer entrega. Por isso, percebi que precisava intensificar os esforços para resgatar a mente meditativa e deixar o corpo relaxado para melhor usufruir da sessão. Se a pessoa não desliga, dificilmente sente todos os benefícios da terapia.

Quando falo isso, digo que é necessário fechar os olhos e confiar nos movimentos executados levemente dentro da água. Relaxe, você não irá se afogar nem será surpreendido com posições doloridas ou desconfortáveis. Pelo contrário, a proximidade com o profissional traz uma sensação de confiança, leveza e bem-estar que permanecem com você mesmo horas depois de sair da piscina.

sexta-feira, 1 de março de 2013



RUTH DE AQUINO

Bando de loucos

O fanatismo assusta. No futebol, na religião ou na política, os fanáticos arremessam sinalizadores para intimidar o outro, o adversário, o oponente. Às vezes, os sinalizadores calam, às vezes matam. Quando o fanatismo chega ao poder, quando se confunde com um governo, quando é legitimado por um regime, de direita ou de esquerda, chegamos ao perigoso fanatismo de Estado. Esse fanatismo oficial maquia números e fatos, censura, encarcera, tortura, exila e executa.

Quando “a opinião é traição” – e assim é na Cuba de Yoani Sánchez e dos irmãos Castro, um país que não confia em sua própria população para votar –, o medo de pensar diferente se instala em cada criança, cada jovem, cada adulto. Há mais de meio século, o castrismo não dá aos cubanos o direito de se expressar livremente nas urnas, nas ruas ou na mídia.

Seria absurdo supor que, no Brasil, a democracia esteja ameaçada por esses grupelhos com nariz de palhaço que jogaram na blogueira Yoani notas falsas de dólar, xingando e vaiando a moça em vários Estados. Melhor enxergá-los como protestos de jovens desinformados, que nunca foram a Havana, jamais viram documentários com as mazelas da vida cubana, desconhecem o que é viver num lugar onde o Estado determina o que você pode ou não ler e consumir.

Fui a Cuba em janeiro de 1983, há 30 anos portanto. Brasil e Cuba ainda não tinham relações diplomáticas. Nosso passaporte não podia ser carimbado, íamos por Bogotá e voltávamos pela Cidade do México. Achava absurdo esse isolamento. Admirava o esforço da ilha para dar educação e saúde à população. Adorei o povo cubano e suas festas, o sorvete na Coppelia, o mojito na Bodeguita del Medio, a praia de Varadero, as escolas para jovens no campo. Encontrei Fidel no Palácio, com sua farda, o charuto, o rum e o carisma.

Mas o mito acabou ali. Ficou claro para mim o medo dos cubanos na rua. Diziam ser espionados. Ansiavam comprar dólares, escapar ao racionamento, consumir nas “tiendas” reservadas aos estrangeiros. Queriam viajar, prosperar.

Yoani escreveu: “Eles queriam me linchar. Eu queria conversar”. Essa reação me faz temer pelo futuro do Brasil

Quando visitei Cuba, Yoani tinha 7 anos. Hoje, tem 37. Em seu blog, escreveu no último dia 19: “Vivi muitos atos de repúdio (...). Lembro um especialmente violento junto às Mulheres de Branco, quando as hordas da intolerância nos empurraram e até puxaram nossos cabelos. Mas este (na Bahia) foi inédito para mim.

O piquete de extremistas que impediu a projeção do filme de Dado Galvão em Feira de Santana era mais que uma soma de adeptos incondicionais do governo cubano. Todos brandiam o mesmo documento com um monte de mentiras sobre mim, tão fáceis de rebater em uma simples conversa.

Repetiam um roteiro idêntico sem a menor intenção de escutar uma réplica minha. Gritavam, interrompiam, num certo momento ficaram violentos e entoavam slogans que já não são usados nem mesmo em Cuba”. Eram, segundo ela, “robôs programados”, “com as veias do pescoço inchadas”. Yoani escreveu: “Eles queriam me linchar, eu queria conversar”.

O problema não foram as manifestações nem as vaias. Elas fazem parte da democracia. Mas a agressividade planejada para silenciar Yoani. Impedir que alguém fale é coisa de fanático com medo de ouvir, debater, argumentar. Deu vergonha a falta de educação e civilidade.

Os manifestantes transformaram uma pequena notícia – a visita de uma cronista cubana dissidente – em manchete. A blogueira da Geração Y, que condena o bloqueio americano a Cuba, virou meteoro da CIA.

Foi parar na Câmara. O que vimos? Uma mulher magra, de camiseta, com os cabelos enormes jogados para o lado, sem um pingo de maquiagem, um sorriso calmo, cercada por políticos engravatados, seguranças e manifestantes enfurecidos. A reação a Yoani foi de uma desproporção tal que aí, sim, me fez temer pela polarização futura do Brasil.

“Vai embora, vai embora, blogueira imperialista. A América Latina vai ser toda comunista.” Quem gritava essas palavras de ordem na Livraria Cultura de São Paulo eram “umas belezinhas de tênis Nike e camiseta Gap”, disse a jornalista Mona Dorf no Facebook. “Uns 20 delinquentes começaram a gritar e apitar. Uivavam como bichos. Yoani mal balbuciou a resposta sobre o Wikileaks.” Debate interrompido, Mona saiu triste com “o comportamento vergonhoso e fascista dos manifestantes”. Um bando de fanáticos.

O cartaz comemorativo dos dez anos do PT no poder dá um arrepio na espinha por sua estética totalitária. Qualquer um, mesmo simpatizante de Lula e Dilma, percebe a semelhança com peças de propaganda soviética e chinesa. O cartaz estimula a idolatria, apela ao nacionalismo e ao populismo extremados. Não faz jus ao Brasil de hoje nem, espero, ao de 2014.


01 de março de 2013 | N° 17358
EDITORIAIS

O PODER DA PRESSÃO

Sob o protesto isolado do deputado mineiro Newton Cardoso (PMDB), a Câmara Federal aprovou na última quarta-feira projeto do Senado que retira o 14º e o 15º salários dos parlamentares. Na ocasião, o ex-governador de Minas discursou enfurecido contra seus pares: “Estão votando com medo da imprensa, é uma deslealdade com deputados que precisam (dos valores). Eu não falo aqui pelo PMDB, eu não falo aqui em nome de nenhum partido, eu falo aqui em nome daqueles que não têm coragem de falar. Estou nesta Casa há três mandatos, e não recebo nada. Agora, essa verborragia, essa lenga-lenga, isso de dizer que os deputados não precisam de 14º salário é errado”.

Talvez até precisem, mas certamente a maioria dos trabalhadores brasileiros precisa muito mais. Como o país não pode proporcionar tal regalia a todos, não há por que favorecer apenas os parlamentares. Simples assim. Ao alinhar-se pelo fim desse privilégio, a imprensa apenas refletiu o pensamento do público, que também vem sendo manifestado inequivocamente nas redes sociais. Pode parecer uma lenga-lenga para o deputado mineiro, mas é, na verdade, uma forma de pressão legítima e democrática sobre governantes, homens públicos e autoridades.

Mobilização virtual semelhante levou o contestado presidente do Senado, Renan Calheiros, a se comprometer com medidas de austeridade e transparência no início de seu mandato. Pressionado pelo abaixo-assinado online que pede seu impeachment, o senador alagoano procurou reconquistar a simpatia do eleitorado, anunciando medidas administrativas de enxugamento de custos, que já foram inclusive aprovadas pela mesa do Senado.

Entre as principais mudanças, estão a extinção de funções de chefia e assessoramento, a ampliação da jornada de trabalho dos servidores, o corte de regalias para atendimento médico e laboratorial, criação de conselhos de transparência e controle social, divulgação de proventos e pensões de ex-servidores e várias outras destinadas a reduzir gastos desnecessários e a manter os cidadãos informados. A providência é mais do que oportuna, considerando-se que os parlamentares brasileiros são os segundos mais caros do mundo entre 110 países pesquisados pela ONU.

Diante de tais fatos, parece não haver dúvida de que a liberdade de expressão, potencializada pelo acesso das pessoas às novas tecnologias de comunicação, fortalece a cidadania. Certamente merece ressalva o fato de o Legislativo ser o poder mais exposto à fiscalização dos cidadãos e também o mais suscetível a pressões, uma vez que os parlamentares dependem da reiterada aprovação dos eleitores para se manter em seus cargos.

Mas também os demais poderes, assim como autoridades, servidores públicos e mesmo setores privados, têm demonstrado sensibilidade em relação a mobilizações populares e campanhas articuladas pelas redes sociais. Até mesmo ditaduras cedem diante desta nova força de comunicação, como se viu recentemente na chamada Primavera Árabe, que derrubou déspotas encastelados no poder há décadas.

Então, por que não usá-la para aperfeiçoar a democracia e combater a corrupção?


01 de março de 2013 | N° 17358
PAULO SANT’ANA

Obrigado, Rolim

Como já escrevi, recebi mais de uma centena de manifestações de solidariedade, pelas agressões que uma patrulha da BM cometeu contra familiares meus.

O companheiro e bacharel em Direito Marcos Rolim, que escreve neste jornal com rara acuidade sobre conduta policial, direitos humanos e penitenciarismo, mandou-me uma mensagem percuciente:

“Escrevo para manifestar minha solidariedade diante do abuso de autoridade, violência e racismo que atingiram teus familiares. Infelizmente, situações como essas integram o cotidiano das abordagens realizadas pelos policiais brasileiros. Não por todos, mas por um número expressivo deles. O fato não diz respeito, portanto, a ‘ocorrência isolada’, como se costuma dizer quando eles são tornados públicos. Não. O que ocorreu com teus familiares diz respeito a um padrão que tem, inclusive, se firmado nos últimos anos.

As razões são muitas. Elas começam no perfil de recrutamento, nos baixos salários e na formação deficiente; se desenvolvem com as violações dos direitos dos próprios policiais dentro de suas corporações. Muito frequentemente, eles são tratados de forma desrespeitosa e mesmo humilhante e terminam reproduzindo esse tipo de comportamento no tratamento dos cidadãos.

Por outro lado, a atividade desses policiais não é efetivamente fiscalizada por um órgão de controle externo e as corporações tendem a responder de forma a consagrar a impunidade das condutas violentas (em geral também aplaudidas pelo senso comum). O Ministério Público, a quem compete esse tipo de controle, possui outras prioridades e, na prática, pouco incide sobre as corporações policiais.

Nas democracias avançadas, existem inspetorias especializadas dedicadas exclusivamente a essa função. Elas regulam fortemente o cotidiano da atividade policial. Só para dar um exemplo, Nova York possui o Civilian Complaint Review Board (CCRB), com 170 funcionários, dos quais 110 são inspetores. Essa estrutura recebe 8 mil queixas por ano relativas a uma força policial de 40 mil servidores numa cidade com 8 milhões de habitantes.

Não só assegura uma resposta efetiva a todos os casos – incluindo punições e desligamentos –, como vai determinando alterações no cotidiano da atividade policial de tal forma que se evite a reprodução de práticas violentas e desrespeitosas. O Brasil precisa avançar para a formação de estruturas do tipo, totalmente autônomas, capazes de qualificar nossas polícias. Enquanto não tivermos algo assim, o corporativismo será dominante e casos como o que relataste continuarão vitimando a cidadania, especialmente as pessoas mais humildes e as minorias.

O que deveriam perceber é que cada vez que um policial trata mal uma pessoa ou viola seus direitos, é a confiança nas polícias que é abalada. O problema é que, quando o povo não confia em suas polícias, também não as informa. Ora, a principal ferramenta para o trabalho policial é a informação.

Um policial sem informações trabalha às cegas. A maior e a mais eficiente fonte de informação para as polícias é a população. Por isso, as polícias mais eficientes do mundo são aquelas que aprenderam a tratar bem as pessoas e a manter com elas relações tão próximas quanto possível. Aqui, ainda levaremos muito tempo para compreender coisas tão elementares como essas. Um forte abraço do (ass.) Marcos Rolim”.


01 de março de 2013 | N° 17358
DAVID COIMBRA

O discurso do papa

Não sei ao certo se as pessoas dão muita importância à Igreja Católica ou se as pessoas não dão nenhuma importância à Igreja Católica. Essa dúvida me dilacera.

A cobertura alentada e emotiva que a imprensa ocidental faz acerca da renúncia do papa leva a pensar que, sim, as pessoas dão importância à Igreja Católica. Não dessem, os veículos não gastariam tanta tinta e papel em artigos sobre os cardeais e tantos euros em diárias de seus correspondentes em Roma. Mas será que essa mesma imprensa e seu pio público consumidor sentem diferença entre a gestão de um papa e outro? Suspeito que não.

Baseio minha suspeita na maneira como as diretrizes papais são recebidas pelos fiéis e pelos infiéis. Por exemplo: quando o papa fala que as pessoas não devem usar camisinha nas relações sexuais, ocorre um fenômeno interessante: só quem se importa com o discurso do papa são as pessoas que não se importam com o papa. Quer dizer: os que não são católicos, nem são religiosos, talvez sejam até ateus, são esses que vão protestar no Vaticano.

Aquelas mulheres seminuas que mostram os seios balouçantes na Praça de São Pedro e gritam contra o reacionarismo da Igreja, elas não vão à Igreja, nem seguem os preceitos da Igreja e estão pouco se lixando para as leis da Igreja. Mas reclamam da Igreja.

No entanto, aquelas outras mulheres, as carolas que se postam devotamente na mesma Praça de São Pedro, olhando esperançosas para a sacada dos aposentos do papa, só que com os seios pudicamente cobertos e os pulsos enrolados por contas de rosários, essas mulheres que vão à missa, rezam para seus santos protetores e veneram o pontífice, essas ouvem o discurso do papa contra o uso da camisinha, balançam a cabeça afirmativamente e, à noite, na alcova, fazem sexo usando camisinha.

Dá para entender? Isso acicata ainda mais a minha dúvida: as pessoas se importam ou não com o papa e a Igreja, afinal?

Eu, francamente, gostaria de me importar. Gostaria que o papa, como indica o nome, fosse um pai universal a quem ouvisse com devota atenção a fim de beber de sua sabedoria. Um pai. Sim, gostaria que ele fosse de fato um pai que me dissesse o que fazer, que separasse o certo do errado. Queria muito isso e acho que o mundo precisa disso. O mundo precisa de um pai. Mas como acreditar em um pai que manda fazer sexo sem camisinha?


01 de março de 2013 | N° 17358
ARTIGOS - Vinicius Wu*

Internet e cidadania

A internet e as demais Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) estão promovendo uma profunda alteração na forma como as pessoas se relacionam com a política e a administração pública. Governos e governantes, partidos e dirigentes políticos, movimentos sociais e seus ativistas, em todo o mundo, procuram compreender e incidir sobre essa nova realidade.

A busca por novas linguagens, capazes de difundir valores e ideias, mobilizar e criar novas identidades através da web, aproxima Hugo Chávez de Yoani Sánchez, Barack Obama de Bento XVI. E, acredite, o Rio Grande começa a ocupar uma posição de destaque nesse contexto.

Importantes cidades brasileiras, dentre as quais São Paulo – a maior do país –, iniciam a implantação de experiências de participação cidadã através da internet inspiradas no Gabinete Digital do Governo do Estado do Rio Grande do Sul. A experiência gaúcha, que já recebeu quatro prêmios nacionais e um prêmio especial do Banco Mundial, serve de referência para novas administrações municipais empenhadas em promover a aproximação entre Estado e sociedade civil.

Trata-se do retorno do Rio Grande do Sul a uma posição de destaque no terreno da governança democrática, a exemplo do ocorrido na década de 90, quando o Orçamento Participativo se tornou referência mundial, inspirando expe- riências semelhantes em diversas partes do mundo. Ao iniciarmos a implantação do Sistema de Participação Popular, no ano de 2011, definimos – como um de seus objetivos – recuperar a posição de vanguarda do Estado em termos de participação cidadã.

Além de São Paulo, importantes cidades, como Niterói (RJ), Caruaru (PE) e Ribeirão Preto (SP) estão a firmar parcerias com o governo gaúcho visando ao intercâmbio de experiências de participação apoiadas em tecnologias da informação e comunicação. São iniciativas em gestação, que poderão observar os limites e avanços que conquistamos e, da mesma forma, teremos muito a aprender com cada uma delas.

Trata-se de um importante reconhecimento que estimula o aperfeiçoamento da experiência gaúcha. Recentemente, o Estado do Rio Grande promoveu a maior consulta pública digital já realizada no país. Pretendemos, agora, avançar na abertura de dados e informações públicas, colocando o debate sobre transparência em outro patamar. Mas os resultados ainda são tímidos se considerarmos o enorme déficit de legitimidade que paira sobre a política e o Estado contemporâneos.

A internet possibilita transferir a qualquer terminal de computador o debate acerca dos principais temas da gestão pública. Realizar as possibilidades decorrentes dessa mudança tão expressiva é o desafio que se abre para os governos deste início de século.

*SECRETÁRIO-GERAL DE GOVERNO E COORDENADOR DO GABINETE DIGITAL