sexta-feira, 12 de abril de 2024


12 DE ABRIL DE 2024
CARPINEJAR

Síndrome de Saturno

Tenho visto com frequência crianças assassinadas porque "atrapalham" o romance. Crianças com as suas infâncias roubadas por omissão da mãe ou do pai, que deixam o parceiro ou a parceira agirem com extrema violência, castigando meninos e meninas indefesos e vulneráveis sem piedade. Crianças com seu futuro subtraído de repente, espancadas, vilipendiadas e torturadas pela madrasta ou pelo padrasto, em crimes acobertados pelos parceiros para manter a fachada do casamento.

Amor ao filho está acima do amor conjugal. O filho é para toda a vida, a relação é até onde existir felicidade. O que vem ocorrendo é uma perigosa inversão: a criação dos filhos tem sido refém dos caprichos sádicos do relacionamento.

São casos e casos de pessoas que não nasceram para a maternidade ou a paternidade e querem se livrar da responsabilidade tutelar - como se fosse um estorvo, um incômodo - para desfrutar da desobrigação do namoro.

Uma série de homicídios no Estado se enquadra naquilo que chamo de síndrome de Saturno. De acordo com a mitologia romana, Saturno devorou os filhos que teve com a esposa Reia por medo de que um deles o destronasse. Ou seja, o filho surge como uma ameaça para o reinado do marido ou da esposa, tirando o tempo da convivência a dois. Ele sobra na dinâmica familiar.

O julgamento da morte de Anthony, que começou ontem, no Tribunal de Tramandaí, no Litoral Norte, é uma ilustração dos efeitos nocivos de um casal que privilegiou o egoísmo fatal.

O curioso é que o júri sucede em uma semana à condenação de Yasmin Vaz dos Santos Rodrigues, 28 anos, e Bruna Nathiele Porto da Rosa, 26, por torturar, matar e arremessar Miguel, de sete, respectivamente filho e enteado, no Rio Tramandaí, em julho de 2021.

Os eventos são parecidos pela motivação torpe e ambos transcorreram no Litoral Norte (o do Miguel, em Imbé, e o de Anthony, em Cidreira). Em outubro de 2022, Anthony, de dois anos, chegou inconsciente ao posto de saúde, onde se constatou que ele havia sofrido múltiplas lesões. O menino não resistiu aos ferimentos e faleceu no local.

O que ele fez de errado? Chorou! Estava chorando, como faria qualquer garoto em pânico, encurralado com gritos e ameaças. O padrasto, que tinha 21 anos na época do ocorrido, é acusado de agredir a criança com socos, tapas, puxões e empurrões, com tal agressividade que ela desmaiou. Responde por tortura e homicídio qualificado por motivo fútil, cruel, recurso que dificultou a defesa da vítima e cometido contra menor de 14 anos.

Não se tratou de uma palmada corretiva, o que tampouco seria certo, mas de uma sequência aterrorizante de murros, acarretando politraumatismo contuso (traumas de diversas naturezas comprometendo órgãos essenciais).

O bebê acabou literalmente demolido.

Agora, mentalize o que significa a desproporção de um adulto bater num serzinho incapaz de se defender, de apenas 12 quilos. É o equivalente a um atropelamento de uma jamanta sobre um triciclo. Não há tolerância aceitável. A pequena vítima não conseguiu relacionar o que fez para provocar aquilo.

Qual foi a reação da mãe, da qual esperaríamos que protegesse o seu filho acima de tudo? Ela é acusada de cumplicidade, apontada como conivente com as agressões do seu companheiro.

O par não deve ser julgado unicamente pelo fim trágico de Anthony, mas pela vida miserável e dolorida que infligiu a ele. Na sua breve existência, teve que arcar com sofrimentos tão longos e inexplicáveis. Talvez tenha partido sem conhecer sequer um dia feliz, um dia de paz.

CARPINEJAR

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