sábado, 6 de abril de 2024



06 DE ABRIL DE 2024
LEANDRO KARNAL

Tocou o celular. Seis da manhã, como sempre. O som selecionado era de harpa. Parecia menos estridente do que os outros. Ele abriu os olhos e fechou novamente. Já havia luz que invadia, pelas frestas, o quarto. Pressionou a tela para adiar o alarme.

Fazia frio; o trabalho estressante. O dinheiro não era ruim; sentia apenas o tédio de quase 20 anos no mesmo escritório. Até as novidades... repetitivas. Meio da semana, longe da sexta redentora e dos feriados para respirar. Era um dia comum, e ele pensou em não ir. Sim, poderia alegar doença, mas queimaria um bônus de confiança. E se ficasse doente de verdade na semana seguinte? O trabalho não parecia ruim, unicamente necessário. E se pedisse demissão e fosse empreender? Sabia dos riscos. Isso injetaria o ânimo que não mais sentia. Mas... e se desse errado? Ele nunca empreendeu e já tinha 45 anos.

Recomeçar? Os livros diziam que isso seria ótimo. A vida real desafiava o entusiasmo dos textos. E se jogasse tudo para o alto? Os filhos já maiores e encaminhados. Havia riscos de ficar avô nos próximos anos. Venderia o apartamento, um dos dois carros e sairia com a esposa em uma viagem de volta ao mundo? Mas... a Terra era redonda. Toda "volta ao mundo" acabaria retornando. Viajaria com sua mulher?

A esposa estava despertando também. Vivia esse casamento há 24 anos. Ela havia informado que fariam bodas de opala dali a três semanas. O que será uma opala? Lembrava-se do carro do pai, porém a pedra? O que seria da vida dele se não tivesse pedido Ana em casamento? E... se ele se separasse? Não estavam mal, apenas... era como o emprego: uma sucessão de dias repetitivos. Imagine se os colegas de faculdade tivessem feito a bizarra profecia: "Você vai casar-se com ela. Farão bodas de opala!". Que cor era o carro do pai mesmo? E se ele se separasse? Não havia ninguém. Em toda crise matrimonial, pensava na Clarinha, do Ensino Médio. Namoraram dois anos. Ele foi completamente apaixonado. E se tivesse casado com a Clarinha? Teria chegado a bodas de opala?

Tocou o segundo alarme. 6h05min. O limite! Tinha de levantar-se, tomar banho, passear com o labrador, beber café e sair. Ana acordou e, com um sorriso, beijou-o. Havia no zap uma mensagem de trabalho. A rotina seguia. Tudo era funcional. Ele levava uma vida boa. O mundo só pode ser refeito entre dois toques de despertar. As coisas só pesavam entre 6h e 6h05min, porque era a fronteira da decisão do dia à frente. O resto era fumaça e esperança.

LEANDRO KARNAL

Nenhum comentário: