sexta-feira, 23 de junho de 2017


23 de junho de 2017 | N° 18879 
CLÁUDIA LAITANO


Todo mundo mente

Além de responder a quase tudo o que a gente pergunta, o Google costuma apresentar respostas para questões que nem sequer formulamos. Antes de começar este texto, por exemplo, pesquisei o termo “dataísmo”, e a primeira palavra que apareceu ao lado foi “religião”. Ou seja: sem querer, fiquei sabendo que a maioria das pessoas que pesquisam no Google sobre a crescente importância da coleta e análise dos dados que produzimos, aos magotes, no mundo digital relaciona o assunto a uma espécie de nova religião – da qual, sem perceber, estamos todos nos tornando devotos. 

O tema é explorado em detalhes saborosos (e assustadores) no livro Homo Deus, do historiador israelense Yuval Harari. Entre outras previsões para um futuro nem tão longínquo, Harari sugere que estamos caminhando para um mundo em que a tecnologia ficará tão avançada, que os dados serão mais importantes do que os deuses e as pessoas.

Enquanto os humanos ainda despertam certo interesse, outro livro, este ainda não traduzido no Brasil, propõe que nunca antes na história da nossa espécie tivemos uma ferramenta tão precisa e abrangente para investigar nossos pensamentos e desejos mais profundos do que – adivinhem – o Google. Everybody Lies: What the Internet can tell us about who we really are (“Todo mundo mente: o que a internet pode nos dizer sobre quem realmente somos”), publicado no início de maio nos Estados Unidos, parte do princípio de que as pessoas são muito mais francas e diretas com a ferramenta de busca da internet do que com qualquer interlocutor de carne e osso – inclusive psicólogos, pesquisadores, políticos e qualquer um que ganhe a vida tentando descobrir como os outros pensam, sentem, compram ou votam.

Com um PhD em Economia em Harvard, Seth Stephens-Davidowitz extraiu dos assuntos mais pesquisados no Google insights sobre preferências sexuais e políticas, preconceitos, angústias e hábitos de consumo que muitas vezes contrariam o senso comum e as pesquisas convencionais. Isso porque as pessoas não apenas perguntam coisas ao Google (“como fazer mais sexo?”, “como fritar um ovo?”), mas fazem confidências, digitando frases como “odeio meu chefe”, “meu pai me bate” ou “me arrependi de ter tido filhos”. 

O autor do livro acredita que, assim como o microscópio e o telescópio transformaram as ciências naturais, a análise e o cruzamento de dados produzidos por milhões de pessoas vão revolucionar as ciências sociais, revelando quem as pessoas realmente são quando (acham que) ninguém está olhando.

Lançado poucos meses após a posse de Trump, o livro ajuda a entender por que tanta gente errou os prognósticos a respeito das eleições americanas. Em linhas gerais, porque as pessoas mentem e são muito mais racistas, cruéis e amedrontadas do que seriam capazes de admitir até mesmo para um questionário anônimo na internet. Resta aprender como usar essa tempestade de dados não apenas para idolatrar o senso comum – este banana – mas para imaginar uma versão melhor da nossa espécie enquanto ainda mandamos alguma coisa no pedaço.

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