sábado, 24 de setembro de 2011



24 de setembro de 2011 | N° 16835
ANTONIO AUGUSTO FAGUNDES


Um poeta. E que poeta!

Eu leio muita poesia. Em português e em castelhano. E não só poesia gauchesca. Os meus autores castelhanos são Jose Hernandez, Federico Garcia Lorca, Pablo Neruda, Nicolás Guillén e, claro, Osíris Rodríguez Castillos – “de tan oriental medio brasileño”.

E leio muito, claro, os poetas do Rio Grande do Sul. Leio e releio constantemente Vargas Neto, Amaro Juvenal e Glaucus Saraiva, o mais surpreendente de todos (apesar de sua genialidade, a sua extensa obra é quase desconhecida, com exceção de três poemas). A sua lírica, por exemplo, é maravilhosa e totalmente desconhecida.

Pelo muito que leio e releio não esperava surpresa em matéria de poesia gaúcha. Estou dizendo gaúcha, não apenas gauchesca.

Mas fui surpreendido. Nos velhos tempos da Estância da Poesia Crioula, sob o comando de Hugo Ramirez, havia um moço entre nós, jovem e advogado de São Gabriel, alto e magro, muito cordial e simpático. Não lhe dei então muita atenção, pensando que se tratava apenas de mais um dos muitos fazedores de versos comuns no tradicionalismo, via de regra bons declamadores e poetas medíocres.

Passou-se o tempo e agora, surpreso e maravilhado, tenho em mãos um manojo de poesia puro sangue. Meu amigo José Antonio Macedo amadureceu como poeta e não tenho dúvida em apontá-lo entre os maiores da nossa terra.

O homem faz da poesia o que quer. Ora é um guri brincando com um caramelo na boca, ora é um moço apaixonado com uma rosa na mão, ora é um homem maduro que olha o passado sem se envergonhar dele.

E não gasta muito tempo alongando inutilmente o verso. Barquinho de Papel é uma maravilha. Sonho Louco é o sonho de todo o enamorado. Mas se eu pudesse escolher um poema para mim eu escolheria Se Jesus Fosse Negro, onde o poeta retoma a temática que Ariano Suassuna já havia abordado em O Auto da Compadecida. Agora, quem quiser babar de gozo que se perca nas Trovas...

O poeta reinventa o mundo. Parece que o faz para os outros. Mas, não: é para si mesmo. Generosamente o que ele faz é repartir conosco uns pedaços de seu mundo mágico de fadas e de duendes.

Mil gracias, meu amigo José Antonio Macedo, Dr. e poeta, pós-graduado em poesia, pelos momentos mágicos que me proporcionaste, pelos pedaços do teu belo mundo que repartiste comigo.

Porto Alegre, fim do inverno de 2011.


24 de setembro de 2011 | N° 16835
PAULO SANT’ANA


Vem aí verão rigoroso

O dólar deu um salto espetacular neste mês de setembro. Já bateu em quase 17% de valorização, fato jamais visto. Nesses últimos anos, chegou a ser surpreendente que o dólar só caía de valor, foi perdendo aquela aura de moeda forte e dominante.

De repente, neste mês, o dólar enlouqueceu e foi subindo numa disparada louca, que assusta os governantes e os analistas financeiros.

Se alguém tivesse tido o topete de investir em dólar neste mês de setembro, amealharia fortunas.

Este aumento súbito e violento do dólar traz grandes preocupações à economia. Muito do que consumimos contém insumos em dólar, fatalmente essa alta do dólar acarretará inflação.

Um outro detalhe não passou despercebido nem por mim, que entendo patavinas de mercado financeiro. É que sou muito antigo, sendo assim adquiri experiência: através dos tempos, nas últimas décadas, observei que, sempre que havia queda nas bolsas, isso era acompanhado de alta do dólar.

Ora, as bolsas andaram despencando fragorosamente nos últimos meses, mas o dólar permanecia estável.

Até que agora veio a lógica antiga: o tombo sensacional das bolsas é acompanhado hoje da alta súbita e violenta do dólar.

Ou seja, teria bastado a um especulador financeiro que fosse observar a queda das bolsas e tratasse de comprar dólares, se a tradição se confirmasse, os lucros seriam óbvios e compensadores.

Não deu outra, bolsa em baixa, dólar em alta: não há nada de novo no horizonte do mercado financeiro.

Na meteorologia, se dá o mesmo. Ela também guarda dogmas, como o mercado financeiro.

Agora mesmo, tivemos o inverno mais rigoroso dos últimos tempos. Isso para a meteorologista Estael Sias e seu colega Cléo Kuhn, nossos guias da RBS. Porque, para mim, foi o inverno mais rigoroso dos últimos 72 anos, prazo em que sobrevivo sobre a Terra.

Pois bem, tivemos sete dias em julho de temperatura abaixo de zero, tivemos até nesse inverno inesquecível três dias de neve, o que não acontecia havia 17 anos.

Era frio e chuva todos os dias.

E onde o dogma? É que eu, que não sou mais sábio nem mais inteligente que ninguém, sou, no entanto, mais velho.

E sempre notei em minha vida que, quando se tinha um inverno rigoroso, ele era seguido de um verão também rigoroso.

Portanto, saiam da frente, vem aí um verão senegalesco. Nem sei como a gente tem de se preparar para um verão africano, mas aviso: vamos suar em bicas, vai ser difícil andar nas ruas, sem ar condicionado, no verão que se aproxima.

Ainda mais que há vestígios de que a chuva não cessou, vai invadir a primavera. Nunca mais os habitantes de Bagé irão se queixar de seca e de torneiras sem água.

Quem sobreviveu a esse inverno é um herói, capaz até de não ser rebaixado para a segunda divisão.


24 de setembro de 2011 | N° 16835
CLÁUDIA LAITANO


Branco como a asa da graúna

Salvo esforço de superação nos próximos meses, o mico do ano na categoria publicidade já tem um vencedor. Penhorada de constrangimento, a Caixa Econômica Federal foi obrigada a suspender esta semana a veiculação da campanha em que o escritor Machado de Assis (1839 –1908) aparece branco como a asa da graúna albina.

“O banco pede desculpas a toda a população e, em especial, aos movimentos ligados às causas raciais, por não ter caracterizado o escritor, que era afro-brasileiro, com a sua origem racial”, disse o presidente da Caixa, Jorge Hereda, em nota redigida no mais castiço politicamente correto. (Não pude deixar de imaginar como um “R” no meio do “banco” deixaria a nota, se não mais honesta, pelo menos mais engraçada.)

Com todo o respeito aos movimentos que defendem a causa da igualdade racial, suspeito que o fiasco que acabou indo ar – depois de passar, imagino, pelo crivo de redatores, equipe de produção e funcionários da área de marketing da Caixa – tem menos a ver com qualquer tipo de discriminação do que com a democraticamente disseminada irrelevância da literatura no país – ou alguém imagina um comercial argentino mostrando Borges fazendo tricô?

O Machado branquela não é uma aberração racista, mas a consequência natural do analfabetismo literário da classe média – a extração social mais comum de publicitários, bancários, jornalistas, administradores e diretores de marketing.

Fato: a maioria dos que frequentaram boas escolas no Brasil nunca leu um livro de Machado por gosto e mal entende por que ele costuma ser acompanhado do epíteto de “maior escritor brasileiro”. Muitos leram Dom Casmurro ou Memórias Póstumas para preencher as questões da prova do vestibular, mas até esses leitores compulsórios correm o risco de desaparecer em breve, uma vez que as questões sobre literatura estão desaparecendo do Enem, conforme estudo sobre o assunto que está sendo coordenado pelo professor Luís Augusto Fischer na Pós-Graduação em Letras da UFRGS.

“O Enem tende a tratar o texto literário como um texto qualquer. Forçando um pouco, dá para dizer que o Enem tende a tratar um poema de Drummond ou um conto de Machado de Assis no mesmo nível de uma reportagem de jornal, uma tira em quadrinhos ou um anúncio publicitário”, afirma o professor em artigo publicado em agosto no jornal O Globo.

Além de branco, o Machado da Caixa é parnasiano nos modos e na pose – o bancário dirige-se a ele chamando-o de “doutor”, o que é muito sintomático da forma como o Brasil encara o mundo letrado: muito distinto e importante, mas ele lá, e eu aqui.

O verdadeiro Machado, o gênio em nada aborrecido, permanece à espera dos leitores brasileiros. São bem-vindos não apenas aqueles da nova classe média, que apenas agora podem começar a sonhar com a educação formal e a possibilidade de comprar livros, mas também os prósperos alunos de cursos de MBA mundo afora.

Dinheiro é bom e vai ajudar nosso país a crescer, mas só a cultura civiliza – e permanece.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011



Parabéns pra mim!!!

É que todo dia 23 de Setembro mais uma primavera chega na dádiva que é minha vida. Hoje quero agradecer profundamente a Deus, ao Universo e ao meu primeiro amor (mamãe) enfim... Agradecer e agradecer e agradecer infinitamente porque estou aqui.

E no decorrer de meus 33 aninhos, devo dizer que sou uma super estrela de grandes espetáculos, tudo até aqui foi e continua sendo muito intenso, lágrimas e risos, perdas e ganhos.

Passei por desertos que chegavam com a sede de boas notícias e com a sede de um tempo feliz com presenças importantes, mas não posso negar, muitos foram os momentos em que pisei na terra molhada e dancei com a chuva ao som da felicidade.

Os caminhos nem sempre foram tão lindos, as pedras e os espinhos machucavam, mas o perfume das rosas me acalmavam a alma, o vento me transportava a liberdade de sentimentos.

Alegrias e tristezas, comédias e tragédias... Tudo muito intenso e mágico. A vida é realmente um espetáculo, e a minha sempre foi dirigida pelo mais criativo dos diretores (DEUS), definitivamente hoje me sinto plena, radiante e grata.

Keyla Iara


23 de setembro de 2011 | N° 16834
ARTIGOS - Jocelin Azambuja*


Bolsa-Família é solução?

O governo brasileiro se coloca na contramão da História, estimulando a ampliação do Bolsa-Família, um programa que, se por um lado ajudou famílias pobres a terem um benefício para saírem da linha de miséria, por outro não deu nem uma perspectiva de programas paralelos educacionais, de preparação e formação para o trabalho, a fim de que essas famílias possam um dia se libertar do programa e passar a serem produtivas para o seu país. Ao contrário, criou a possibilidade de retorno de ex-beneficiários ao mesmo.

Com surpresa, vimos a notícia de que mais 1,2 milhão de brasileiros se tornaram dependentes do Bolsa-Família. Somados aos 12 milhões, teremos mais de 13 milhões de famílias, benefícios distribuídos a 22,6 milhões de pessoas que atingirão cerca de 40 milhões de brasileiros ou cerca de 20% da população.

O programa também amplia a faixa etária, atingindo jovens de 16 e 17 anos, possibilitando às famílias receber até R$ 306. Você já se deu conta disso? Você sabe o que isso representa para o futuro do país?

Os países europeus, como pude verificar em viagem recente que fiz a Inglaterra, Portugal, França e Itália, trabalham para diminuir os programas sociais a fim de recuperar suas economias ou fortalecê-las para o momento de crise mundial.

Nós, ao contrário, em vez de aproveitarmos o momento positivo de geração de empregos no país, capitaneados pela indústria, pela prestação de serviços, construção civil etc., em vez de investirmos maciçamente na educação do povo, no fortalecimento de programas de formação para o trabalho, fazemos exatamente o contrário, investindo em manter uma grande parcela da população, mais de 20%, totalmente dependentes do governo, sem produzir e sem preparar essa juventude para enfrentar o futuro.

A sociedade está se omitindo em analisar com mais profundidade esse programa, que, paradoxalmente, enquanto vemos as autoridades dizerem que a miséria está diminuindo no país, as mesmas autoridades o ampliam, ou nós não entendemos de estatísticas ou não entendemos de nada!

Precisamos nos posicionar de fato em relação a esta situação, que é responsabilidade de todos. É chegada a hora de a sociedade civil analisar esse paternalismo desenfreado, que está tirando a perspectiva de futuro de milhões de crianças e adolescentes, que estão sendo estimulados a não produzir, a não trabalhar, a não gerar renda e riqueza para si e para o país.

Que futuro está se dando às nossas crianças e adolescentes das camadas mais pobres? Bolsa-Família sem educação é a solução?

*Advogado


23 de setembro de 2011 | N° 16834
PAULO SANT’ANA


A engrenagem

O que vem a ser uma engrenagem? O que vêm a ser nossas engrenagens?

Eu penso que, quando, por exemplo, suas decisões não influem nada sobre a existência de sua família, sobre a organização da sua família, sobre a desorganização da sua família, você está sendo apenas um joguete na sua família, nesta sua engrenagem.

O mesmo com seu emprego. Quando, em seu emprego, você só obedece às ordens superiores, quando você não contribui em nada para a alteração, a ampliação, a organização dos objetivos de seu emprego, você está sendo apenas um joguete na sua empresa ou repartição.

Ou seja, para que você não se submeta à sua engrenagem, é preciso que participe ativamente da movimentação de conteúdo dela.

Você só não será joguete de sua engrenagem se ela permitir que você afirme a sua soberania.

Em suma, quando sua família passa por cima de sua soberania pessoal como um trator, não se importando com suas opiniões ou ideias ou despreza com método a sua capacidade de decisão ou influência, você acaba de ser um mero joguete da engrenagem.

Você tem o direito de manter e modificar a engrenagem, quando ela o imobiliza à inércia e à desimportância, aí é que se verifica a sua escravidão à engrenagem.

Já fui e sou submetido – e também não o sou – a várias engrenagens, uma roda de amigos, um clube, entidades de comércio e de lazer das quais sou usuário.

Mas, quando tentam me submeter ou conseguem me submeter, precisam ver como eu esperneio. Porque uma mania que eu tenho é a de fazer parte ativa da engrenagem, principalmente pelas minhas ideias. Eu estou sempre dando ideias a respeito de tudo o que me cerca. Em suma, eu sou um reformador.

A minha engrenagem tem de ter, se não meu rosto, pelos menos algumas das minhas feições.

Nada que venha de cima ou de baixo nas minhas engrenagens deixa de receber a minha concordância ou o meu protesto. Procuro ser cordial nesse relacionamento, mas sou muito atento.

Porque eu sempre reservei para mim o direito de decidir sobre o metabolismo das minhas engrenagens.

E confesso que, em matéria de minha família, eu nada mais sou do que um mero joguete dessa minha engrenagem. Essa minha engrenagem passou por cima de mim como um trator, fez o que quis de mim, me despersonalizou, acabou comigo.

Mas o que é que eu vou fazer? As engrenagens têm poder destrutivo.

Mudando de assunto, saúdo efusivamente o lançamento ontem da Ciclovia da Avenida Ipiranga, que terá um percurso de 9,4 quilômetros, da Edvaldo Pereira Paiva até a Antônio de Carvalho.

É um velho sonho dos ambientalistas, dos melhores urbanistas, enfim, dos munícipes.

Saúdo também a parceria entre a prefeitura, o Shopping Praia de Belas e a Companhia Zaffari, estas duas empresas custearão com seus recursos próprios a construção da ciclovia de duas mãos, no valor de R$ 2,5 milhões.

Sonho que essa ciclovia seja inspiradora da construção de inúmeras outras ciclovias em nossa cidade, lógicas soluções urbanas para o lazer, o esporte e a economia de custos individuais dos cidadãos no que se refere ao preço dos transportes.

Ave, Ciclovia da Ipiranga!


23 de setembro de 2011 | N° 16834
DAVID COIMBRA


Uma bandeira fincada no morro

Lembro daquela bandeira do Brasil hasteada bem alto em um morro do Rio no ano passado. Os brasileiros olhavam para aquela bandeira e se emocionavam. Ali tremulava o símbolo do Estado que retomava o território outrora ocupado pela bandidagem. O povo simples e ordeiro enfim podia andar em paz pelas favelas, livre do exército do tráfico que o oprimia diariamente.

Lembro do país em uníssono festejando as ações das forças de segurança, as cenas que deixaram o mundo perplexo: bandidos aos milhares esgueirando-se feito baratas pelos caminhos de terra dos morros, fugindo sem camisa, mas com fuzis nos ombros nus, embretando-se nos matagais, empoleirando-se em camionetes, sumindo. Houve quem proclamasse a “vitória do Bem sobre o Mal”.

Não sou mais esperto do que ninguém. No entanto, sobre esse assunto específico, tinha lá outra opinião. Uma opinião pessimista, cética, francamente desmancha-prazeres. Na época escrevi:

“Se todos aqueles milhares de bandidos forem mortos ou presos, todos eles sem exceção, se TODOS forem eliminados, nada mudará. Em seis meses, os níveis de criminalidade retornarão aos atuais patamares. Porque o fornecimento de material humano para a bandidagem não foi interrompido”.

O fornecimento de material humano não foi interrompido, como se sabe e, como se sabe, dias atrás os bandidos reagiram, travaram combate com a polícia no Morro do Alemão supostamente pacificado e mostraram que continuam fortes e ativos. Desta vez, não se fez tanto alarde. A notícia foi tratada como corriqueira. Pelo seguinte motivo: trata-se mesmo de uma notícia corriqueira.

A ação do Estado, no ano passado, foi elogiável, sim, porque cabe ao Estado a repressão. Mas a repressão incide só sobre a consequência, não sobre a causa. E a causa está, exatamente, no corriqueiro da vida, no que se repete lentamente, inexoravelmente.

O Brasil é um país de famílias desintegradas, de escolas mal geridas e de um Estado sem plano a longo prazo. Parece heroico mandar tropas morro acima para enfrentar o tráfico. Não é. É fácil. Assim como é fácil distribuir o dinheiro como doação em forma de bolsas.

A República romana já fazia isso 2 mil anos atrás. O difícil é traçar projetos claros de infraestrutura; é tirar as crianças da rua para colocá-las em escolas sólidas que não sejam conduzidas pelo democratismo; é transformar o problema das drogas em caso de saúde, não de polícia.

O Brasil está sempre combatendo a febre, jamais a infecção. Nunca na história deste país, se prendeu tanto, e a criminalidade continua firme. Nunca na história deste país, o Estado distribuiu tanto dinheiro aos pobres, e a pobreza continua firme.

Nunca na história deste país, se protestou tanto contra a corrupção, e a corrupção continua firme. As causas continuam lá, impávidas, mesmo que as consequências desapareçam por algum momento. Um breve momento. Tudo voltará a ser como sempre foi, no Brasil, porque, na essência, o Brasil continua o mesmo.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011


JOSÉ SIMÃO

Ueba! Dilma é a Fiona Shrek!

Adorei a Dilma na capa da "Newsweek": "Dilma Dinamite". Vão usar ela pra estourar caixa eletrônico?

Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O Esculhambador Geral da República! Voltei! O tempo passa, o tempo voa e as pessoas continuam falando de dois assuntos: Sarney e Corinthians.

E a manchete do Piauí Herald: "Na ONU, Dilma assegurará ao mundo que Sarney não é imortal". E o mundo não acreditará! E a Dilma vai criar com o Obama um novo PAC: Program to Avoid Corrupção. E o mundo não acreditará! Rarará!

E a Dilma tá muito digna, muito inteligente, mas tá a cara da Fiona Shrek! E a estilista dela deve ser a decoradora do Center Norte. Forro de sofá! E a ONU é muito chique, mas só serve pruma coisa: amarrar a bandeirinha na antena do carro e estacionar em qualquer lugar em Nova York.

A ONU só serve pra estacionar. Rarará! E, ONU por ONU, prefiro Honolulu! E o Corinthians? Eu falei que o Timão na liderança era uma vaca em cima da árvore: ninguém sabe como ela foi parar lá, mas todo mundo sabe que vai cair.

E olha o que corre na internet: se você receber um e-mail sem título, favor enviar pro Corinthians. Rarará! E adorei a Dilma na capa da "Newsweek": "Dilma Dinamite". Vão usar ela pra estourar caixa eletrônico? Rarará!

Dilma Dinamite, demite, demite. E claro que, enquanto eu estava fora, caiu mais um ministro. E assumiu um ministro piada pronta: Gastão Vieira. Gastão o outro também era. Por isso que o dólar tá subindo, é o gastão!

E achei três predestinados na Espanha. Em Sevilha: "Implantes Dentales Jesus de Las Três Caídas". Você implanta oito e caem três! Dentadura com três caídas! E essa: "Viajes Encarnación". É pra viajar pra outra encarnação. A vida tá ruim? Viaja pra outra encarnação.

E, em Valência, encontrei a formação da torcida são-paulina: "Centro de Educación Infantil BAMBY". E só duas nacionalidades estão comprando: brasileiros e chineses. Só que brasileiro entra nas lojas em dois ou quatro. E os chineses entram em 20. Se jogar água, viram 200. Como os gremlins. Rarará!

E eu tava no Museu dos Toros quando a guia falou: "Esta cabeza non es la cabeza dun toro, es la cabeza duna vaca. Es la cabeza de la madre del toro que mató Manolete". De vingança, eles mataram o touro e a mãe do touro: a vaca. Coitada. Mataram la madre. Viva Almodóvar. Rarará! Nóis sofre mas nóis goza.

Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

simao@uol.com.br

ELIANE CANTANHÊDE

CPMF insepulta

BRASÍLIA - O líder do DEM, deputado ACM Neto (BA), estufou o peito para dizer que "o fantasma foi enterrado", logo depois da votação da regulamentação da emenda 29, sobre recursos da saúde, na Câmara. Foi um exagero. O fantasma da recriação da CPMF com um novo nome continua assustando por aí.

O governo perdeu a batalha para desenterrar a contribuição já, mas está longe de perder a guerra. O DEM, que capitaneou o fim da CPMF ainda na gestão Lula, machucando o ego do então presidente, também liderou o movimento que resultou nessa meia vitória da oposição e meia vitória do governo.

Conseguiu tirar a base de cálculo e a alíquota de 0,1% da Contribuição Social para a Saúde (vulgo CSS, reencarnação da CPMF), que, assim, não vai valer de nada agora. Mas vira uma alma penada.

A guerra continua no Senado, que não vai poder refazer o texto com o tal 0,1%, como estava, mas cria a chance de o governo recolocar a discussão do aumento das "fontes de financiamento da saúde"-eufemismo para recriar a CPMF. Decantada a ideia, pode enviar um novo projeto com a base de cálculo e a alíquota.

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, já deu o primeiro grito de guerra, na véspera da votação na Câmara, ao dizer que o setor precisa de mais R$ 45 bilhões por ano para o Brasil se equiparar ao Chile e à Argentina, por exemplo.

Como fazer isso? Só com novo imposto. Por isso, o fantasma não está nada enterrado. Está aí, insepulto, na espreita, pronto para se materializar. Só não dá para saber quando. Afinal, 2012 é ano de eleição municipal. Eleição e novo imposto definitivamente não combinam. Aí, nem Lula vai insistir nisso.

O discurso de Dilma na ONU foi menos o comportado que o Itamaraty gostaria e mais o que ela quis, como já previsto aqui. Além de firme na forma, ela foi incisiva no conteúdo ao cobrar os pais da crise.

elianec@uol.com.br

CARLOS HEITOR CONY

Palavras, palavras, palavras

RIO DE JANEIRO - Houve época em que me espantava com a história da humanidade, cheia de sangue, guerras por causa de um deus ou de uma mulher, como a de Troia.

Estou mais resignado e jogo a culpa de tudo na incapacidade humana de entender justamente aquilo que foi criado para o entendimento, a palavra. Por sinal, o único animal que dispõe desta faculdade é o homem.

Para não ir muito longe, em busca de razões históricas ou científicas, fico em dois exemplos prosaicos, além daquele a que me referi em crônica anterior, o de Gulliver, sobre a guerra de 800 anos entre anões que cortavam os ovos de maneiras diferentes, uns pela parte de cima, outros pela parte de baixo, quando a lei estabelecia que os ovos deviam ser cortados pelo lado certo.

Os livros fundamentais da civilização, a Bíblia e o Alcorão, estão cheios de palavras e conceitos contraditórios que dependem da interpretação circunstancial de quem os lê. No primeiro caso, temos as afirmações categóricas de Cristo, que disse textualmente "Eu vim trazer o fogo", e mais tarde, generosamente, garantiu a todos: "Eu vos dou a minha paz".

No Alcorão, fiquei sabendo por entendidos que o livro ditado por Alá a Maomé condena veementemente o suicídio, mas em outros versículos exalta aqueles que se matam pela causa do mesmo Alá, prometendo o paraíso e o uso de não sei quantas virgens, embora alguns comentaristas discordem: não são virgens, são cachos de uva.

Contam que na Revolução Cubana, tomando o poder, Fidel Castro perguntou a seu Estado-Maior se havia algum economista entre eles. Che Guevara apresentou-se.

Espantado, Fidel comentou: "Eu sabia que você era médico, mas não economista!". Guevara explicou-se: "Desculpe, eu entendi que você precisava de um comunista".


22 de setembro de 2011 | N° 16833
ARTIGOS - Stella Galbinski Breitman*


Sobre Melancholia e contemporaneidade

O artigo reflete sobre o filme Melancholia e faz uma comparação com fatos e sentimentos da realidade, no seu caráter de finitude e da inexorabilidade da vida. O filme, de Lars von Trier, traz a história do planeta Melancholia, que, segundo descobertas científicas, estava em rota de colisão com a Terra. A divulgação disso gerou reações em cadeia, alterando a vida de muitas pessoas. Os cientistas acreditavam que não haveria uma colisão, que, no último instante, o planeta voltaria, mas, coletivamente, não se tinha certeza disso. Daí resultam dramas diversos.

No filme, o mais dramático da condição do medo é a sensação de catástrofe, que acaba paralisando as pessoas ou levando a decisões impulsivas, como o caso do personagem que se suicidou. Ele era bem-sucedido na vida e demonstrava acreditar na versão dos cientistas de que não havia risco de colisão. Ficou evidente, contudo, que o medo leva ao desespero, e o desespero, às vezes, a ações dramáticas.

Interessante que a única personagem que não entrou em pânico é a que sofria de depressão. Ela aceitava a fatalidade, sentindo-se, aparentemente, aliviada pela confirmação do seu sentimento de desesperança.

Ela é quem acaba cuidando das pessoas a sua volta, criando um sistema de proteção, com o qual pôde consolar o sobrinho e a irmã. Estabeleceu, desse modo, uma espécie de “território mágico”, onde não haveria sofrimento. Na sua aparente fragilidade, foi a pessoa que se mostrou mais forte, aceitando o que estava para acontecer. Com seu traço psicológico, a aproximação do Melancholia era uma “libertação” das exigências da vida.

Para a maioria dos personagens, no entanto, o medo é avassalador. A melancolia sentida por todos, quanto mais se aproxima do fim, é algo muito triste, pois a família de protagonistas sabe qual será o desfecho: a destruição total. Seja isso justo ou não, será o fim! Esta é a lógica do filme, mas, na vida, embora existam riscos reais, há muitas situações em que se tem possibilidades, mesmo diante de acontecimentos trágicos.

O mais dramático do filme resulta da sensação do medo, já que o drama todo se passa diante da “espera” da catástrofe. Assim como na vida, o difícil é enfrentar a espera, a constatação prévia da fatalidade. Diante disso, as pessoas devem acionar recursos internos para sentir menos medo, mesmo em situações difíceis e dramáticas.

Há ações a serem empreendidas, estratégias de sobrevivência a serem desenvolvidas para lidar com as mudanças involuntárias, quase que resultado do movimento cósmico, que altera, no micro e macroambiente, o rumo das nossas existências. De modo análogo, enquanto o “planeta” não chega, o mesmo medo que pode paralisar a iniciativa tem força suficiente para acionar novas perspectivas e estratégias de vida.

*Mestre em Psicologia Social


22 de setembro de 2011 | N° 16833
ARTIGOS - Antônio Mesquita Galvão*


Sofismas

Obra de uma escola de filósofos gregos, o sofisma aponta para a produção de uma ideia que mistura realidade e fantasia, ou verdade e mentira, com o fito de enganar o ouvinte ou leitor. Trata-se de um argumento ou raciocínio concebido com o objetivo de produzir a ilusão da verdade, que, embora simule um acordo com as regras da lógica, apresenta, na realidade, uma estrutura interna inconsistente, incorreta e deliberadamente enganosa.

No conjunto das premissas, uma delas é falsa, comprometendo a conclusão. O sofisma é uma argumentação capciosa, concebida com a intenção de induzir em erro, o que supõe má-fé por parte daquele que a apresenta. Aparece como sinônimo de cavilação.

Na sociopolítica do Brasil, se constata a existência de muitos sofismas, com a intenção de levar o povo a pensar de um jeito, quando a realidade é outra. Como primeiro exemplo, eu apontaria a notícia de mais uma safra recorde de grãos, da qual a agricultura gaúcha forneceu uma tonelagem significativa.

Eu considero a informação dos órgãos oficiais e também da mídia como um sofisma, uma vez que se trata de uma notícia incompleta, já que safra de grãos faz crer se tratar de uma gigantesca safra de alimentos, o que não é verdade. Quem ouve falar em safra recorde fica pensando “agora sim... vamos ter trigo, arroz, feijão e milho para suprir a mesa dos brasileiros, a preços moralmente aceitáveis”.

Olhando a fundo, veremos que não é nada disto! Do recorde apregoado à boca cheia, apenas 21% é de alimentos, enquanto o resto se refere à soja que é exportada; não serve para comer. Vai engordar o gado do gringo lá fora, gerando divisas para a farra financeira dos salários e demais custos dos três poderes da República.

Outro sofisma é a “lei do desarmamento”. Quando o nosso suspeito Congresso resolveu votar essa lei, a população pensou que, sem armas, a sociedade viveria em paz. Os assassinatos à mão armada aumentam assustadoramente. Foi um sofisma para domesticar os ingênuos. Os bandidos andam armados, o que ao cidadão de bem é proibido. O preço de um porte de arma (é um mistério para conseguir um) é inacessível a um assalariado. Sócrates (469-399 a.C.), depois secundado por Montesquieu (1689-1755), disse que “leis imbecis não se cumprem...”.

Igual sofisma aponta para a tal de “lei seca”. Nunca tantos motoristas beberam tanto, gerando mortes em profusão. Quem vigia? Quem pune? São leis para “inglês ver”. Existem, mas não funcionam. Infelizmente, mais um sofisma...

*Filósofo, escritor e doutor em Teologia Moral


22 de setembro de 2011 | N° 16833
CLAUDIA TAJES


A vida na tela

Daqui a pouco o Emmy, grande prêmio americano da televisão, vai ser tão popular quanto o Oscar, e com a vantagem de só apresentar as categorias quentes. Nada contra os prêmios técnicos do Oscar, mas quando enfim chega a parte boa da transmissão, eu sou uma que já dormiu há horas.

A verdade é que a televisão tem hoje um lugar tão importante quanto o cinema no mercado do entretenimento. Os canais de TV por assinatura investem pesado nas suas séries. E a TV aberta, no Brasil e aqui mesmo, em Porto Alegre, mostra que ninguém está nessa para brincar.

Há duas semanas, uma turma considerável de aprendizes participou, em São Paulo, do curso do americano (melhor chamar de estadunidense, senão vai ter leitor reclamando) Robert Mckee, professor de roteiro de muita gente boa em Hollywood. Aos 70 anos, o seu Mckee sabe tanto de técnica quanto da humanidade, e foi um prazer passar 12 horas seguidas, durante quatro dias, com as costas doendo nas desconfortáveis cadeiras de um teatro para ouvi-lo.

Entre muitas outras curiosidades que valeria contar, o professor mapeou os personagens que sempre aparecem nos filmes de amor. A constatação é que são os mesmos personagens que aparecem nas histórias de amor da vida. E onde mais os roteiristas encontrariam material para os seus enredos?

Abaixo, seguem os tipos. E se alguém se reconhecer ou ao seu parceiro, já sabe. Não é coincidência.

Poderosos: se comportam como ditadores na relação amorosa. Só vale o que eles querem; Detetive X Suspeito: um sempre desconfia do outro, até que o suspeito acaba pulando a cerca; Pornógrafos: é preciso uma certa perversão para manter a excitação; Professor(a) x Aluna(o): um educa o outro, seja de que jeito for; Sacrificados: de tanto fazer sacrifícios, e deixar isso claro, destroem o amor e o amado; Objeto: aquele amado que é tratado como um troféu pelo outro que, não raro, adora colecionar diferentes troféus;

Jogadores: os que competem entre si, esquecendo que isso não é amor; Dueto: os amantes viram um só, geralmente com um objetivo a ser alcançado, como se o amor fosse um negócio; Viciados: os dependentes do próprio amor; Diferentes: é como se um fosse humano e o outro alien, dois estranhos no jeito de sentir e de parecer; Cientistas: vivem dissecando exaustivamente o relacionamento.

Não é bom esse Robert Mckee?


22 de setembro de 2011 | N° 16833
PAULO SANT’ANA


Um leitor sábio

O leitor André Kessler acertou na mosca na mensagem que me mandou: “A concorrência no trabalho, para tantos, é algo que assusta, para outros, nem tanto, e para uns é o que os move. Às vezes, me pergunto, lendo a tua coluna, se tens um concorrente, alguém que ameaça tomar o teu lugar. Penso também que podes não ter um. Talvez ele não exista hoje, mas como seria o perfil dele?”.

Acertou na mosca o leitor. Na mosca!

É que eu sou inseguro. Então, me impus um mecanismo mental perante o qual imagino que há sempre alguém querendo o meu lugar aqui nesta coluna.

E, nesses 40 anos em que escrevo aqui, sempre caprichei de forma a que ninguém cogitasse de me substituir neste meu lugar.

Agarrei-me firmemente à hipótese de que por qualquer motivo pudessem me substituir.

Por isso é que me esmero, chego a pensar que, não fosse eu tão inseguro, então minhas colunas não teriam a qualidade que, modéstia à parte, têm.

Temos então que a insegurança, que se pensava fosse negativa para as pessoas que a possuem, no meu caso é positiva, como disse o leitor que me provocou a esse assunto, é essa insegurança que se torna responsável pela qualidade do meu trabalho.

Chego a pensar delirantemente que os seguros escrevem mal, que precisa ser inseguro para escrever bem.

Como posso ser inseguro? – hão de perguntar. Sei lá, devo ter nascido inseguro.

A minha competição, pois, consiste nesse fantasma ameaçador que criei mentalmente. Estou sempre achando que, se eu não me superar, o meu cachimbo cai.

Deve ser por isso que os meus superiores aqui em ZH colocam para me substituir, quando não posso escrever, pessoas de grande talento, os chamados interinos.

E, quando eles escrevem em meu lugar, como são seguros do que fazem! Vêm com uma segurança que parece até que querem tomar o meu lugar.

Por isso é que sempre disse que minha profissão é competitiva. Tem muita gente querendo um lugar melhor do que ocupa. Como tornei este espaço em ZH um lugar invejável do jornal, quem é que não estaria disposto a ocupá-lo quando for chamado?

E por isso é que criei um dia um tipo inesquecível: o interino priápico, é o que vem com tudo. Quando é chamado, entra no palco com um afã e uma ambição invencíveis.

E eu tenho de ficar me cuidando dessas investidas.

Na vida, tudo também é assim. Um amante capricha com sua amante porque não quer perder o lugar no seu coração.

O lema dos que substituem ou têm desejo de substituir é o de que ninguém é insubstituível.

E o meu lema é o de que, quanto mais talento e trabalho eu mostrar, só assim eu não serei substituído.

Esse meu medo, confessem, foi uma coisa absolutamente certa e imprescindível.


22 de setembro de 2011 | N° 16833
L. F. VERISSIMO


Para não esquecer

Imagino que a escrita nasceu da necessidade de não esquecer. O primeiro pré-homem que pensou “preciso me lembrar disto” deve ter olhado em volta procurando alguma coisa que ele ainda não sabia o que era. Era um pedaço de papel e uma Bic. Claro que para chegar ao papel e à esferográfica tivemos que passar antes pelo risco com vara no chão, o rabisco com carvão na parede da caverna, o hieróglifo no tablete de barro etc.

Mas a angústia primordial foi a de perder o pensamento fugidio ou a cena insólita. Pense em quantas ideias não desapareceram para sempre por falta de algo que as retivesse na memória e no mundo. A história da civilização teria sido outra se, antes de inventar a roda, o homem tivesse inventado o bloco de notas.

As espécies que não desenvolveram a escrita valem-se da memória intuitiva. O salmão sabe, não sabendo, o caminho certo para o lugar onde nasceu e onde deve depositar seus ovos. Dizem que o elefante guarda na memória tudo que lhe acontece na vida, principalmente as desfeitas, mas vá pedir que ele bote seu ressentimento no papel.

Já o homem pode ser definido como o animal que precisa consultar as suas notas. Nas sociedades não letradas, as lembranças sobrevivem na recitação reiterada e no mito tribal, que é a memória ritualizada. As outras dependem do memorando.

E mesmo com todas as formas de anotação inventadas pelo homem desde as primeiras cavernas, inclusive o notebook eletrônico, a angústia persiste. Estou escrevendo isto porque acordei com uma boa ideia para uma crônica e botei a ideia num papel. Normalmente não faço isto, porque sempre esqueço de ter um bloco de notas à mão para não esquecer a eventual ideia e porque sei, intuitivamente, que se tivesse o bloco de notas à mão a ideia viria no chuveiro.

Mas desta vez a ideia coincidiu com a proximidade de um pedaço de papel e um lápis e anotei-a assim que acordei. Não exatamente a ideia, mas uma frase que me faria lembrar da ideia. Estou com ela aqui. “Conhece-te a ti mesmo mas não fique íntimo”.

E não consigo me lembrar de qual era a ideia que a frase me faria lembrar.

Algo sobre os perigos da autoanálise muito aprofundada? Sobre o pensamento socrático? Ou o quê? Não consigo me lembrar. Um consolo, numa situação destas, é pensar que se a ideia não é lembrada, é porque não era tão boa assim. Mas geralmente se pensa o contrário: as melhores ideias são as que a gente esqueceu. O que é terrível.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011



21 de setembro de 2011 | N° 16832
MARTHA MEDEIROS


Pareço, logo existo

Foi-se o tempo em que a disputa se resumia ao clássico Ser x Ter. Dizem que ninguém mais dá a mínima para o que é, só para o que tem. Exagero. As pessoas ainda se preocupam com o que são. O problema é que não gostam do que são. Gostariam de ser outra coisa. E aí entra o verbo que está no topo das paradas hoje em dia: parecer.

Tem gente que quer parecer rica, e adota um padrão de vida que não condiz com a sua realidade. Pra manter a fachada de bem-nascida, acaba colecionando dívidas e queimando seu nome na praça. Nos eventos sociais, pode até ser a mais fotografada, mas para os comerciantes é bola preta na certa. A rica mais sem crédito das colunas.

Tem aqueles que querem parecer mais bem relacionados do que são, e se enturmam, forçam intimidade e grudam feito chiclete em pessoas que mal conhecem, só para descolar um convite para uma festa, um show, uma estreia, qualquer lugar que projete.

Os que querem parecer mais cultos do que são, você sabe, são aqueles que nunca foram além do prólogo do livro e é o que basta para olharem a ralé de cima para baixo, como se fossem portadores da sabedoria universal.

Há os que querem parecer mais jovens do que são: bom, quem não gostaria? É uma dádiva parecer ter cinco anos menos, sem esforço. A genética é mais generosa com uns do que com outros. Há muito tempo que eu não tento mais adivinhar a idade de ninguém: sempre erro, já que todo mundo parece ter bem menos. Mas se você tem 56 e parece ter 56, não é caso para enfiar a cabeça dentro do forno.

Os casos mais patéticos, no entanto, são os daquelas pessoas que querem parecer mais felizes do que são. O recurso adotado: mentem.

O casamento delas está uma lua de mel, os filhos só dão alegrias, são muito requisitadas no trabalho, os amigos não param de telefonar, a vida tem sido um passeio num campo florido, e fica sem explicação aquele olhar melancólico, o sorriso forçado, a exaustão de ter que passar o falso entusiasmo adiante, como se não tivéssemos condições de perceber seu verdadeiro estado de ânimo, que é coisa que se transmite sem palavras. Ver alguém se esforçando para parecer feliz é das situações mais constrangedoras que se pode testemunhar.

Está triste? Esteja! Não é rico, nem jovem, nem belo? Nem por isso ficará sozinho. Pessoas não se apaixonam por estereótipos, mas pela singularidade de cada um, pela capacidade de ser surpreendido, pela sedução que o inusitado provoca. Uma pessoa que se preocupa em “parecer” já está derrotada no primeiro minuto de jogo.

Dá valor demais à opinião dos outros, não age conforme a própria vontade, não se assume do jeito que é, inventa personagens para si mesmo e acaba se perdendo justamente deste “si mesmo”, que fica órfão. Quer parecer mais inteligente? Comece admitindo que não sabe nada sobre nada e toque aqui: ninguém sabe.


21 de setembro de 2011 | N° 16832
ARTIGOS - Marcos Fagundes Salomão*


A polêmica da reposição do Judiciário

Sempre que a remuneração no Judiciário, em especial dos magistrados, precisa sofrer algum tipo de reposição, há uma farta divulgação “alertando” a população para seus “altos salários”.

A todo dia, somos informados de que categorias de profissionais vêm conseguindo em negociações reposição salarial, até mesmo acima da inflação. Isso é perfeitamente normal e é digno de registro positivo.

Mas quando a reposição é no subsídio de magistrados, tudo é alarmante e o que é direito assegurado transforma-se automaticamente em aumento descabido. A reposição pretendida de 14,7% diz respeito ao realinhamento do período de cinco anos de instituição do subsídio, de 2004 a 2010, quando o IPCA, que é o parâmetro para esta avaliação, teve um acumulado de 23,72%. Portanto, diferente do que se diz, é reposição, sim, e não reajuste.

Se o Judiciário federal foi quem mais contratou e aumentou a folha de pessoal durante o governo anterior, não foi para criar cargos em comissão e aumentar o valor das funções gratificadas, mas para atender uma demanda crescente de processos, em grande parte figurando a União como ré e o cidadão como autor.

Esses dados podem ser acessados pela última pesquisa do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Impressionam os números que apontam o volume de ações que um juiz atende sozinho no ano e sabemos que essa demanda, se não atendida, reflete diretamente no cidadão.

O Executivo diz que os R$ 7,7 bilhões necessários para contemplar o Judiciário (aqui fala-se da reposição para juízes e servidores) representam quase a metade do gasto com o Bolsa-Família previsto para 2012.

É claro que não queremos que o Bolsa-Família seja prejudicado. E se os R$ 7,7 bilhões vão fazer tanta falta assim, que o governo abra mão da anistia de R$ 18,6 bilhões que o Banco Central pretende dar a quatro bancos que quebraram nos anos 90 e atenda a seus agentes que honram seus postos e pagam seus tributos.

O Bolsa-Família, o Judiciário e o cidadão brasileiro agradecem.

*Presidente da Associação dos Magistrados da Justiça do Trabalho (Amatra IV)


21 de setembro de 2011 | N° 16832
ARTIGOS - Julio Dornelles de Matos*


S.O.S. hospitais filantrópicos

Há três meses, as entidades que integram o movimento S.O.S. Hospitais Filantrópicos entregaram ao governo do Estado um diagnóstico da realidade das 239 instituições desse tipo do Rio Grande do Sul. O documento retrata, com clareza, a implacável agonia a que estão submetidos os hospitais filantrópicos, que respondem por mais de 70% do total da assistência hospitalar aos pacientes do SUS em nosso Estado e são responsáveis por 519 mil internações das 730 mil feitas a pacientes do SUS no Rio Grande do Sul em 2010.

As razões da situação crítica dos filantrópicos são igualmente claras: em 2010, para cada R$ 100 de custo com assistência a pacientes do SUS, os hospitais receberam apenas R$ 64,50. Essa defasagem representou para os 239 filantrópicos um déficit de R$ 310 milhões. Esse ônus e a crescente defasagem entre custos e remuneração da assistência ao SUS nos anos precedentes empurraram os filantrópicos gaúchos a um endividamento de R$ 1,057 bilhão.

Endividados, exauridos em créditos e com as prefeituras – que, heroicamente, os sustentam – já ultrapassando o limite de suas condições, os filantrópicos marcham rumo à falência. Esse contexto insustentável levou à criação do movimento S.O.S. Hospitais Filantrópicos e, através dele, à busca do apoio do governo do Estado com a dotação emergencial de uma verba de R$ 100 milhões a ser aplicada unicamente no custeio da assistência dessas instituições.

Considerando que o Estado do Rio Grande do Sul é o que menos investe em saúde no Brasil, deixando de aplicar no setor em torno de R$ 1,2 bilhão por ano, os R$ 100 milhões do socorro solicitado se revestem de um modesto, porém vital, alento para a sobrevivência. Sem eles – e repassados já –, muitos hospitais serão obrigados a reduzir ainda mais seus serviços e uma boa parte deles fechará as portas, deixando sem assistência 7 milhões de gaúchos que só têm o SUS para manter a saúde e curar as doenças.

Três meses depois de ter entregue o diagnóstico e o pedido de R$ 100 milhões, o S.O.S. Hospitais Filantrópicos ainda espera ações efetivas do Estado e, sobretudo, que elas tenham a dimensão e a celeridade digna de um governo como o de Tarso Genro, que tem na vocação social seu lema e seu compromisso.

Esta é a situação dos hospitais filantrópicos de nosso Estado: por mais absurdo que seja, nas condições atuais, cada dia de atendimento aos pacientes do SUS representa um passo na direção da insolvência.

Basta de espera!

*Presidente do Sindicato dos Hospitais Beneficentes, Religiosos e Filantrópicos do RS


21 de setembro de 2011 | N° 16832
PAULO SANT’ANA


Uma vertigem do mal

Como por um milagre, começou a surgir dinheiro para todos os lados, dinheiro do PAC, verbas para aeroportos e estádios com vistas à Copa do Mundo, uma gastança incomparável.

Isto prova que há dinheiro, há verbas, quando o que se dizia anteriormente é que faltavam recursos.

Tem dinheiro pra tudo, até para a corrupção. Sendo assim, o que se faz com a Saúde é um crime ao manter-se arrocho nas verbas, sempre reduzindo o número de leitos e de consultas, sempre acionando o torniquete das verbas, que acaba ocasionando mortes e mutilações entre os pacientes.

O que se faz com a Saúde, vê-se agora nessa farra de recursos para Copa do Mundo e Olimpíada, é um crime.

A reportagem da revista Veja desta semana é estarrecedora: o advogado Márcio Thomaz Bastos, sem dúvida o maior e mais competente advogado do país, já indicou à Presidência da República seis dos atuais 11 ministros do Supremo Tribunal Federal.

E já se prepara, MTB, para indicar o sétimo ministro do Supremo.

Incrivelmente, Márcio Thomaz Bastos vê assim o Supremo julgar frequentemente ações em que ele é o advogado constituído.

Em outras palavras, o advogado é quem escolhe os juízes supremos dos seus pleitos profissionais no tribunal máximo.

A Veja escreveu assim, exatamente assim: “Márcio Thomaz Bastos, ou MTB, como preferem os antigos, participou da escolha de pelo menos seis ministros que julgarão o mensalão, definiu a estratégia como advogado do caso e continua a influir na composição da corte constitucional”.

Foi a Veja que afirmou.

São tantos os ministros que caem por corrupção denunciada pela imprensa – e reprimida prontamente pela presidente Dilma Rousseff –, há outros tantos que começam a balançar em seus cargos pelos mesmos motivos, que esse espetáculo horrendo transmite-nos por vezes a delirante impressão de que o atual tipo de governo brasileiro não passa de uma organização criminosa destinada a transferir recursos públicos para bolsos particulares.

E inacreditavelmente esse sistema espúrio de raspagem volumosa dos cofres públicos pela voracidade corruptiva, entre nós, é erigido pelos cidadãos, na forma de eleições que são convocadas para legitimar o status quo vigorante e perpetuador.

Tal fato aterroriza tanto os espíritos, que muitos deles passam a duvidar da eficácia da democracia, que no nosso caso derivou para a criação de uma classe especial dominante: a dos que metem a mão na coisa pública, locupletando-se.

Só um movimento popular maciço e transbordante pode pôr fim a essa distorção desse regime de libertinagem financeira.

Mudando de assunto e passando das dificuldades da nação para as minhas dificuldades íntimas. Escrevo à noite esta coluna e, nos intervalos do meu texto, sou jungido a recolher-me ao fumódromo, para fumar.

Ocorre que há obras nas proximidades do fumódromo e por isso ele fica às escuras.

Vejam a minha situação. O fumódromo é por essência um lugar ermo, esfumaçado, portanto sujo.

E, além disso, se torna, portanto, entre lúgubre e sinistro. E vá fumaça na escuridão.

Só um safado fumante como eu pode se sujeitar a essas pérfidas humilhações.

terça-feira, 20 de setembro de 2011



20 de setembro de 2011 | N° 16831
CLÁUDIO MORENO


Razão e sensibilidade

Uma das primeiras feministas do Ocidente foi Mary Wollstonecraft, escritora inglesa do séc. 18. Combativa desde a adolescência, publicou em 1792 a famosa Defesa dos Direitos da Mulher, título que lhe serviria de mote para a vida toda. Segundo ela, a mulher era submissa por dar valor demais à sensibilidade; prisioneira de seus sentimentos, não conseguia exercer plenamente sua racionalidade, a única força capaz de libertar os povos e os indivíduos.

“A razão não tem sexo!”, dizia – e só utilizando esse poderoso a mulher poderia lutar por privilégios e direitos iguais, incluindo, é óbvio, o de decidir sobre a própria vida sexual. Considerava o casamento uma instituição ultrapassada e defendia a livre união entre as pessoas; para ela, os membros do casal deviam preservar o direito de se relacionar com outros parceiros.

Em Paris, conheceu o atraente Gilbert Imlay, jovem escritor americano que também acreditava no mágico poder da razão. Um ficou fascinado com o outro, e resolveram viver juntos o sonho de uma união livre, sem o controle sufocante da sociedade. Quando ela deu à luz uma menina, consta que Imlay, compenetrando-se na posição de pai, teve uma recaída conservadora e sugeriu que casassem, mas Mary, firme em seus princípios, não aceitou a proposta.

Contudo, como ninguém controla o amor, bicho perigoso e incontrolável, a dura realidade se encarregou de derrubar com um simples sopro o que parecia ser uma teoria perfeita: um dia, Mary, desconfiada de certas ausências de Imlay, mandou às favas sua retórica libertária, ignorou a luta de classes e submeteu a cozinheira a um interrogatório feroz e policialesco – quando então ficou sabendo que o marido visitava regularmente a cama de uma jovem artista conhecida.

Ao que parece, ele estava apenas fazendo o que tinham combinado; ela, porém, com a alma dilacerada, escreveu-lhe uma patética carta de despedida, banhada em lágrimas, em que a defensora da racionalidade aparecia, finalmente, humanizada pelo sofrimento: “Escrevo-te de joelhos, implorando”... “só minha extrema estupidez pôde me manter cega por tanto tempo”... “preferia morrer mil vezes a reviver a noite passada”... “jogaste minha alma no caos”.

Partiu então para a Inglaterra, decidida a morrer nas águas escuras do Tâmisa. Aproveitando a chuva que se abatia sobre Londres, caminhou por um hora pelas ruas, a fim de que o vestido, completamente encharcado, ajudasse a puxá-la para o fundo; depois, em silêncio, mergulhou num dos pontos mais profundos do rio. Alguém que passava por ali, contudo, jogou-se às águas e a salvou.

Mais uma vez a sorte zombava de seus desígnios, e Mary entendeu o recado: refez sua vida, amou mais uma vez e teve outra filhinha, a quem deu o seu nome. Morreu pouco depois do parto, sem poder imaginar que ali nascia outra escritora, Mary Shelley, a criadora de Frankenstein.