quinta-feira, 21 de março de 2013



21 de março de 2013 | N° 17378
PAULO SANT’ANA

Emílio Santiago

O Ricardo Chaves, inquilino da página anterior à minha em ZH, veio me perguntar anteontem sobre a página que publicou ontem, em que elegeu o cantor Gasolina como seu personagem.

O Kadão queria subsídios sobre o Gasolina. Dei-lhe-os.

O Gasolina, um gaúcho pretinho simpático de sorriso aberto, fez sucesso nacional em filmes e emissoras de rádio na década de 50, depois de ter sido varredor na Rádio Gaúcha.

Foi então que o Kadão me perguntou se o Gasolina já tinha morrido, ele queria anotar esse detalhe em sua página.

E eu respondi: “Mas é claro que o Gasolina já morreu. Eu, que sou eu, já morri, imagina o Gasolina...”.

Quando tive o câncer na rinofaringe há dois anos, fui submetido a 35 sessões de radioterapia no Mãe de Deus (que saudade da equipe que me atendeu lá durante aquele período preocupante).

A radioterapia me tirou a saliva, o paladar e o apetite e isso fez com que eu emagrecesse 24 quilos.

Então, as pessoas me encontram na rua e dizem que estou esbelto, magro, elegante. E me perguntam como devem fazer para ficarem elegantes e magros assim.

E eu lhes respondo rapidamente: “Peguem um câncer!”.

Faleceu agora no Rio de Janeiro o maior cantor brasileiro. Emílio Santiago era grande sambista, grande jazista de estilo inconfundível, tinha uma bossa e uma voz incomparáveis.

Quando, ontem, soube de sua morte, senti-me órfão de seu talento. Vou tentar me consolar e para isso já mandei comprar todos os seus discos.

Que saudade, Emílio.

Estamos acompanhando aqui em Zero Hora com interesse e atenção o tratamento de saúde do nosso colega David Coimbra.

O que posso dizer é que torcemos avidamente para que o David saia íntegro desse impasse e volte inteirinho novamente para seus leitores e para nós.

Tenho experiência com esse tipo de doença e digo ao David que o maior fator de sucesso para dar a volta por cima é a pertinácia, a insistência em curar-se e voltar à vida normal, e a observação de todas as prescrições médicas.

Mas é absolutamente inequívoco que cedo, logo em seguida, o David voltará a trabalhar.

No lançamento do site de venda de vinhos do Vanderlei Luxemburgo, encontrei-me com ele e o treinador Dunga, numa roda.

Foi então que desafiei Dunga na frente do Luxemburgo: “Agora, na Taça Farroupilha, segundo turno do Gauchão, tu vais ver a força do carvão de pedra: o Luxemburgo vai escalar titulares e não reservas contra o Inter, acabou a tua moleza”.

E o Dunga respondeu: “Mas nós vamos jogar com 11 homens”.

Dunga se referia ao Gre-Nal em que o Inter jogou apenas com nove homens durante quase todo o segundo tempo, e o Grêmio, mesmo assim, empatou em 0 a 0.

Dunga nocauteou a mim e ao Luxemburgo de corpos presentes.

Jorge Polydoro, presidente do Grupo Amanhã, mandou-me ontem comunicar oficialmente que fui agraciado pelo 23º ano consecutivo como o colunista de jornal mais lembrado no RS.

A entrega das láureas será na noite do próximo dia 13 de maio.

Este reconhecimento da Revista Amanhã, pela seriedade da pesquisa popular, é o meu maior orgulho profissional.

Vinte e três anos seguidos e encarreirados! Graças a Deus.


21 de março de 2013 | N° 17378
L. F. VERISSIMO

Os coniventes

O ex-deputado estadual e ex-marido da Dilma, Carlos Araújo, não é um ex-ativista político, pois recentemente voltou à militância partidária no PDT apesar de limitado pela saúde. Quando militava na resistência à ditadura, foi preso, junto com a Dilma, e os dois foram torturados.

Depondo diante da Comissão Nacional da Verdade, esta semana, sobre sua experiência, Araújo lembrou a participação de empresários na repressão, muitas vezes assistindo à ou incentivando a tortura. Que eu saiba, foi a primeira vez que um depoente tocou no assunto nebuloso da cumplicidade do empresariado, através da famigerada Operação Bandeirantes, em São Paulo, ou da iniciativa individual, no terrorismo de Estado.

O assunto é nebuloso porque desapareceu no mesmo silêncio conveniente que se seguiu à queda do Collor e a revelação do esquema montado pelo P. C. Farias para canalizar todos os negócios com o governo através da sua firma, à qual alguns dos maiores empresários do país recorreram sem fazer muitas perguntas.

A analogia só é falha porque não há comparação entre o empresário que goza vendo tortura ou julga estar salvando a pátria com sua cumplicidade na repressão selvagem e o empresário que quer apenas fazer bons negócios e se submete ao esquema de corrupção vigente. Mas a impunidade é comparável: o Collor foi derrubado, o P. C. Farias foi assassinado, mas nunca se ficou sabendo o nome dos empresários que participaram do esquema. Nunca se fez a CPI, não dos corruptos, mas dos corruptores, como cansou, literalmente, de pedir o senador Pedro Simon.

No caso da repressão, talvez se chegue à punição ou, no mínimo, à identificação, de militares torturadores, mas o papel da Oban e da Fiesp e de outros civis coniventes permanecerá esquecido nas brumas do passado, a não ser que a tal Comissão da Verdade siga a sugestão do Araújo e jogue um pouco de luz nessa direção também.

A comparação nossa com a Argentina é quase uma fatalidade geográfica, somos os dois maiores países da América do Sul com pretensões e vaidades parecidas. Lá, o terrorismo de Estado foi mais terrível do que aqui, e sua expiação – com a condenação dos generais da repressão – está sendo mais rápida. Mas a rede de cumplicidade com a ditadura foi maior, incluindo a da Igreja, e dificilmente será julgada. Olha aí, pelo menos nessa podemos ganhar deles.

quarta-feira, 20 de março de 2013



20 de março de 2013 | N° 17377
MARTHA MEDEIROS

Uma papa singelo

É cedo para saber como será a atuação política do papa Francisco. Porém, assim que foi anunciado, ele não precisou nem de cinco minutos diante da multidão que lotava a Praça de São Pedro para angariar uma simpatia praticamente unânime.

A minha, ao menos, foi instantânea, bastou para isso a descontração do comentário de que o haviam achado quase no fim do mundo – nada como o bom humor para congregar, aproximar, romper carrancas e barreiras. A despeito da sua eleição para uma função de tamanha relevância, estava ali, diante de todos, um homem, um semelhante. Alguém familiar.

Não acredito que, a partir de agora, os fiéis deixarão seus automóveis na garagem para andar de ônibus (ainda que o trânsito e a poluição das cidades se beneficiariam muito), ou que trocarão o uso do ouro pela prata, ou que reprisarão qualquer outro gesto humilde já tornado público pelo Papa. No entanto, é preciso, com urgência, captar o espírito dessa nova forma de exercer liderança.

Liderar não tem nada a ver com arrogância e empáfia, mas muitos ainda acreditam que sem pose e ostentação não se conquista o respeito dos outros. Um engano lastimável. Pode-se no máximo conseguir subserviência através de atitudes arrogantes, mas respeito é um valor muito mais profundo e que só se cativa com honestidade – e se formos honestos, de fato honestos, teremos que admitir que nossa importância é a mesma que a de qualquer outra pessoa.

Podemos ter lido mais, vivido experiências diversas, apreendido ensinamentos a que alguns não tiveram acesso, mas de forma nenhuma isso justifica uma hierarquia dominadora. Aliás, hierarquia é um conceito que me parece cada vez mais obsoleto.

Numa relação vertical, o “superior” ordena e os “inferiores” cumprem, e assim elimina-se a troca, que é o elemento mais necessário para a evolução dos costumes, das nações e dos relacionamentos. Trocar é horizontal. É o que possibilita o olhar, o diálogo e a identificação.

No instante em que eu contribuo para a sociedade com o que sei, e aceito que colaborem comigo na mesma medida, me ensinando o que não sei, estabelece-se uma relação producente e o respeito mais absoluto, aquele que não é fruto de imposição, mas de admiração sincera.

Então, mesmo sem poder adivinhar como será o pontificado desse nosso hermano, desde já me sinto otimista por ele trazer em seu semblante a doçura dos que não se deixam levar pela vaidade e dos que não consideram a modéstia uma fraqueza, e sim resultado de uma consciente avaliação de si mesmo: somos todos iguais. Frágeis, é verdade, porém todos capazes de doar-se a fim de tornar a vida mais fácil para aqueles que nos cercam. Essa é a corrente universal que nunca deveria se romper, e que nos une (ou deveria nos unir) inclusive para além das religiões.



20 de março de 2013 | N° 17377
CRÍTICAS DO MINISTRO

Barbosa vê conluio de juízes e advogados

Joaquim Barbosa, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), fez duras críticas ontem ao que chamou de “conluio” entre juízes e advogados. Segundo ele, essa situação revela o que existe de mais “pernicioso” na Justiça.

As declarações foram feitas em um julgamento no Conselho Nacional de Justiça (CNJ), colegiado que Barbosa também preside. Ao debater com o desembargador Tourinho Neto, relator do processo que determinou a aposentadoria compulsória de um magistrado do Piauí acusado de beneficiar advogados, o ministro do Supremo disse que muitos juízes devem ser colocados para fora da carreira.

– Há muitos (juízes) para colocar para fora. Esse conluio entre juízes e advogados é o que há de mais pernicioso. Nós sabemos que há decisões graciosas, condescendentes, absolutamente fora das regras – criticou Barbosa.

Tourinho Neto, então, rebateu:

– Tem juiz que viaja para o Exterior para festa de casamento de advogado e não acontece nada.

O desembargador afirmou que tem amizade com advogados, mas que isso nunca influenciou suas decisões. Ele contou que foi juiz no interior da Bahia e que “tomava uísque na casa de um, tomava cerveja na casa de outro”.

Barbosa argumentou que é preciso transparência nas relações:

– Não há nada demais juiz receber advogado, mas o que custa trazer a parte contrária ao advogado? É a recusa, a falta dessa notificação, da transparência que faz o mal-estar.

Nos debates, Tourinho chegou a comentar, sem resposta, a possibilidade de Joaquim Barbosa se candidatar à Presidência da República:

– O juiz, na maioria dos casos, é um acovardado. Vossa Excelência foi endeusado. Quem sabe não será o próximo presidente da República?


20 de março de 2013 | N° 17377
EDITORIAIS

A BATALHA DOS ROYALTIES

A decisão da ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), de suspender liminarmente o novo sistema de distribuição dos royalties do petróleo mantém a indefinição até o julgamento, pelo plenário da Corte, de uma questão essencial para o país.

Enquanto durar o efeito da liminar, alguns Estados privilegiados conti- nuarão com a maior fatia, contrariando o que decidira o Congresso ao aprovar um projeto de árdua tramitação. Embora a decisão da ministra pareça representar uma interferência no Legislativo, é imperativo reconhecer que se trata de um procedimento constitucional.

Mas, ainda que seja difícil obter consenso num debate destinado a rever a distribuição de elevados volumes de recursos que hoje privilegiam apenas três Estados, é lamentável a dificuldade dos legisladores de assegurar uma saída política menos sujeita a contestações.

O que se constatou até agora é que o Congresso cumpriu com suas atribuições ao aprovar a nova Lei dos Royalties e analisar os vetos presidenciais, derrubando-os. O mesmo ocorreu no caso do Supremo ao examinar o pleito do Rio de Janeiro – Estado que, juntamente com Espírito Santo e São Paulo, não se conformou com uma definição mais equânime dos valores pagos em dinheiro pelas empresas produtoras para ter direito à exploração do petróleo.

A particularidade de os recursos em disputa na área do petróleo serem tão elevados e terem ficado concentrados historicamente em poucos Estados não deveria servir para a distorção de argumentos de quem está de um lado e de outro. Infelizmente, é o que vem ocorrendo e que se acirrou nos últimos dias.

O clima beligerante dá uma ideia clara das razões que levaram às deformações do pacto federativo e à dificuldade de redefini-lo com base em soluções negociadas politicamente, mesmo num momento em que Estados e municípios enfrentam dificuldades generalizadas para financiar suas despesas.

Obviamente, os governantes que se consideram mais prejudicados com a redistribuição têm suas razões para reclamar das perdas, até mesmo pelo fato de terem feito previsão de gastos com base na expectativa de receitas.

Nada, porém, justifica decisões como a do governo fluminense de suspender os pagamentos até uma decisão sobre o tema por parte do STF. Da mesma forma, não podem ser simplesmente ignoradas alegações como a de que não há Estados e municípios produtores, pois quem tem competência para explorar é a União, ou de que os royalties são compensatórios. Com raras exceções, as responsabilidades por eventuais prejuízos competem às empresas petrolíferas.

Assim como a redefinição do pacto federativo, uma questão tão relevante como a redistribuição dos royalties deveria ter sido feita com base em negociação política. Fica o desafio para os parlamentares, de quem se espera que se mostrem capazes de assegurar um tratamento mais igualitário para as unidades da federação.


20 de março de 2013 | N° 17377
PAULO SANT’ANA

Algodão entre cristais

Excelente a investigação realizada pela equipe do delegado de polícia Omar Sena Abud (11ª DP) na solução sobre a autoria do assassinato da jovem Lauane Custódio Lucas, de 22 anos de idade, ocorrido na segunda-feira da semana passada, no bairro Partenon.

A jovem estudante de Odontologia da UFRGS estava acompanhada de seu namorado quando foram ambos assaltados. Um dos larápios disparou um tiro que atravessou o ombro do namorado, indo a bala alojar-se no pescoço da universitária, que por isso morreu.

Os policiais civis passaram três dias investigando casa por casa, reduto por reduto, da Vila Maria da Conceição e elucidaram a intrincada autoria do homicídio, praticado por três bandidos que foram imediatamente presos.

Belo tento lavrado pela Polícia Civil ao solucionar esse estúpido e lamentável assassinato.

Fui ao lançamento do site de venda de vinhos que pertence ao treinador Vanderlei Luxemburgo, uma bela noite de grandes e notáveis encontros, quando destacados colorados e gremistas confraternizaram com o preparador tricolor.

Avistei o presidente da Arena e sentamo-nos a uma mesa, estabelecendo uma demorada e cordial conversa.

Propus a Eduardo Pinto o seguinte acordo: só o Grêmio ficará doravante com o encargo de executar o trabalho de bilheteria, filas e ingressos nos jogos da Arena, enquanto a esta caberá designar vários fiscais que terão amplo e profundo acesso ao funcionamento administrativo dos eventos.

Sendo assim, não se tocará em nenhum centavo que pertença à Arena, enquanto o Grêmio entrará com seu know-how de administração dos jogos, que a Arena não possui e com isso vêm sendo acarretados mil protestos dos torcedores, que se veem frequentemente lesados e molestados pelas confusões.

Imediatamente, Eduardo Pinto declarou que está levando à OAS a minha sugestão, que pretende ser atendida em face de que considerou proveniente meu arrazoado.

No mesmo coquetel, comuniquei ao presidente Fábio Koff o avanço que obtive naquela negociação, que pode ter exagerado quando me disse: “Sant’Ana, se conseguires isso, serás considerado como um herói gremista”. Uma das grandes dores de cabeça de Koff com a Arena é essa questão que evidentemente a mim e a todos preocupa.

Falta agora só o aval e aceite da OAS para a aprovação da minha proposta.

O fato é que o Grêmio, a Arena e a OAS vêm sentindo imenso desgaste junto à opinião pública pela balbúrdia que se verifica no ingresso dos torcedores nos dias de jogo na Arena.

E, na minha ótica, só existe uma maneira de solucionar o impasse: é preciso que haja talento para realizar um encontro de vontades entre Grêmio, Arena e OAS, terminando assim com as alaúzas protestativas dos torcedores em dias de jogo e tirando da imprensa a obrigação de registrar as milhares de reclamações dos associados e torcedores.

Tenho fundadas esperanças de que minha proposta seja aceita pela OAS e se ponha um fim à problemática. Sendo assim, esta coluna cumpre mais uma das suas tarefas tradicionais: agora estou servindo, na relação Grêmio-OAS, de algodão entre cristais.

terça-feira, 19 de março de 2013



19 de março de 2013 | N° 17376
FABRÍCIO CARPINEJAR

Não tire seus lindos sapatos

É uma agressão exigir que a mulher tire os sapatos para entrar em sua casa.

Você pode ser oriental, budista, maníaco por limpeza, não peça.

Sei que é higiênico, livra a residência de sujeira e contaminações, e também é um modo de erradicar as energias negativas do vaivém da rua, e ainda de poupar o piso de madeira dos arranhões.

Mas não peça. É um crime estético obrigar a mulher a tirar o sapato.

Ela somente deve renunciar esse direito ao baixar a hospital. Em nenhum outro lugar. E no hospital, tanto faz o que calça, irá se desvencilhar da vaidade de qualquer jeito com a deprimente camisola aberta nas costas e aqueles detestáveis chinelos descartáveis.

Afora as emergências, é um vexame se despedir subitamente dos sapatos.

Em festa ou encontro com amigos, ela se verá altamente constrangida. Não se trata de vergonha dos pés ou do joanete, não é um recalque e problema psicológico, não é receio de chulé.

Ao tirar os calçados, ela desmancha sua roupa. Acaba com seu traje. Liquida com sua produção. Ela definiu a combinação inteira das peças a partir deles: a cor, o tecido, o humor. Toda mulher é uma cinderela adormecida, não pise em seus calos.

Obrigá-la a permanecer descalça é o equivalente a ordenar que ela fique nua. O sapato é tão íntimo quanto a lingerie. Escolhido com esmero para repercutir as virtudes do corpo.

Forçar sua dispensa é um estupro social. Sem o cobiçado par, a visitante não encontrará sentido e posição relaxante. O temperamento murcha, o tom sobre tom perde o brilho. Mais drástico que receber chuvarada, mais agressivo que estragar um zíper.

Se ela está com vestido negro curto e abdica das botas altas, trocará o clima de totalmente selvagem pelo desamparo de alma penada.

Para a mulher, até o sofrimento precisa ser ensaiado. Odeia ser pega desprevenida, desprovida de plano alternativo.

O acessório determina o estilo, nunca será um detalhe insignificante. Influencia, inclusive, seu penteado. Põe altura e equilibra o conjunto. Dois centímetros a menos podem destruir um figurino. Deixar de lado o salto no momento de reencontrar o ex é chamar a morte, é anular alguma chance de superioridade.

O homem dificilmente entenderá. Sem sapato, a meia-calça vai desfiar, não tem como andar. Ou, pior, a meia-calça com um furinho estratégico nos dedos acabará sendo revelada.

O sapato não faz parte do vestuário, está muito além disso, representa um fígado para a ala feminina, de transplante difícil e delicado.

Não ouse humilhá-la com normas e restrições.

A mulher ama mesmo um capacho.



19 de março de 2013 | N° 17376
CLÁUDIO MORENO

Para louco, loucura e meia

Além da extensa obra com que Jorge Luis Borges felizmente nos brindou, jornalistas, namoradas, amigos e até inimigos vêm publicando um verdadeiro tesouro de reportagens, memórias e entrevistas em que o grande escritor aparece em mangas de camisa, mais à vontade para dizer coisas que jamais escreveria.

No gigantesco diário de seu parceiro literário, Adolfo Bioy Casares, Borges lembra uma página sombria da vida política de nossos vizinhos argentinos: no dia 16 de junho de 1955, por volta do meio-dia, aviões da Marinha sobrevoaram o centro de Buenos Aires e despejaram dez toneladas de bombas na Praça de Maio e imediações, numa tentativa de golpe contra Perón, presidente constitucionalmente eleito.

O bombardeio causou grandes danos nos edifícios públicos e matou mais de quatrocentas pessoas – em sua quase totalidade, civis –, mas não alcançou o presidente. A rebelião terminou sendo abafada pelas forças legalistas, que protagonizaram, inclusive, uma batalha aérea sobre o Rio da Prata.

Ao cair da noite, quando na praça e nas avenidas ainda ardiam os fogos provocados pelas bombas dos rebeldes, dezenas de extremistas, em protesto contra o golpe, incendiaram várias igrejas históricas do centro da cidade, bem como a Cúria Metropolitana, destruindo completamente sua biblioteca e seus arquivos seculares.

Foi então – é Borges quem conta – que um jornalista espanhol que fazia a cobertura do tumulto deixou escapar em voz alta uma pergunta nada prudente: “Mas por que vocês estão queimando as igrejas?”.

Foi uma frase espontânea, ditada por curiosidade profissional, mas certamente devia haver em sua voz alguma coisa de surpresa e censura por aquela selvageria gratuita, pois logo começou a ouvir à sua volta frases cheias de rancor que sugeriam que fosse ele o próximo a ser incendiado. Vendo-se cercado por rostos cheios de fúria, teve uma daquelas inspirações ditadas pelo medo e pelo desespero, e acrescentou, aparentando indignação: “Mas por que as igrejas? Por que não logo os padres?”.

Como por encanto, os incendiários imediatamente trocaram suas ameaças por um rosário de escusas e explicações: “Ah, senhor, é que chegamos tarde e não estavam mais aqui!”. Pronto! Aliviado por pisar em terra firme, o jornalista, em tom compenetrado, ainda deu a seus novos amigos alguns conselhos para aumentar a eficácia dos incêndios e tratou de se pôr em segurança bem longe dali.

Sem querer, havia posto em prática a receita que Bernard Shaw usava para se ver livre dos loucos: diante de uma proposta insana, propunha uma ainda maior, ainda mais absurda, que evidentemente era levada a sério pelo maluco e o reduzia ao silêncio.


19 de março de 2013 | N° 17376
PAULO SANT’ANA

Papa Chico

Tenho certeza de que a imprensa e o povo brasileiros vão tratar o papa eleito como “Papa Chico”. Está na cara que essa denominação será adotada por todo o Brasil, até mesmo como manifestação carinhosa dirigida ao argentino.

Depois que o chamarem assim, lembrem desta coluna. Eu sei, porque me chamo Francisco antes do Paulo e muita gente me trata por Chico.

O leitor Paulo Tietê (tiete37@brturbo.com.br) manda a interessantíssima colaboração a esta coluna. Vejam-na: “Dicas de comportamento sexual para quem já está na terceira idade ou vai na velhice ingressar:

1) use seus óculos;

2) certifique-se de que sua companhia está realmente na cama;

3) ajuste o despertador para tocar em três minutos para o caso de você adormecer durante a performance;

4) acerte a iluminação: apague todas as luzes;

5) deixe o celular preparado para o número da EMERGÊNCIA MÉDICA;

6) escreva em sua mão o nome da pessoa que está na cama, no caso de você não se lembrar;

7) tenha DORFLEX à mão, no caso de você cumprir a performance;

8) não faça muito barulho, nem todos os vizinhos são surdos como você;

9) se tudo der certo, telefone para seus amigos e conte as boas novas; 10) nunca, jamais, pense em repetir a dose, mesmo sob efeito de Viagra ou Cialis;

11) não esqueça de levar dois travesseiros para colocar sob os joelhos, para não forçar a artrose;

12) se for usar camisinha, avise antes ao piupiu que não se trata de touca para dormir, se não ele pode se confundir;

13) não se esqueça de tirar a parte de baixo do pijama, mas fique com uma camiseta para não pegar gripe; 14) não tome nenhum tipo de laxante nos dias anteriores, nunca se sabe quando se terá um acesso de tosse”.

Sensacional, não acharam? Eu, que vivencio quase todas essas situações, atesto que são reais.

Caminho pela cidade e piso por estes dias, nas calçadas e nos parques, nas primeiras folhas secas que prenunciam o outono.

Meu ato de caminhar vem sendo substituído, creio que com eficácia, pela natação. Dizem que o esporte mais completo é a natação, o único que desenvolve todos os músculos do corpo. Todos? Mas será que a natação desenvolve os músculos que acionam os maxilares, como o ato de mastigar por exemplo?

Não sei, mas sinto melhor as minhas pernas depois que nado. Interessante, ao movimentar as pernas e os braços durante a natação, noto um dia depois que eles se parecem mais lépidos.

Evidentemente, utilizo piscina térmica para exercitar-me.

Quando criança e adolescente, eu fui ótimo nadador: percorria nadando cerca de 800 metros sem encostar os pés no fundo. E conseguia, ao mergulhar, ficar cerca de dois minutos debaixo d’água.

Por sinal, apesar de ter nadado muito em águas profundas, constato aqui que nunca morri afogado, interessante isso.

E só digo essa bobagem porque sempre me intrigou qual seja a aflição de uma pessoa quando está se afogando, bebe muita água, deixa de respirar e a vida está indo embora...

Sempre quis saber qual a sensação dos afogados.

Mas, por óbvio, nenhum me pôde narrá-la.

19 de março de 2013 | N° 17376

TOQUE ARGENTINO

A primeira vez com Cristina

ANTES DA MISSA. Pontífice recebeu presidente argentina na véspera da cerimônia que marcará o começo do seu papado. Com sinais de que primará pela informalidade, Francisco será prestigiado por 31 chefes de Estado

Na véspera da cerimônia que marca o início do 266º pontificado, o argentino Jorge Mario Bergoglio – agora, oficialmente o papa Francisco – deu novas demonstrações de informalidade no mais alto posto da Igreja.

Em um gesto que indica espírito de reconciliação, simplicidade no trato com as pessoas e abertura ao diálogo, o papa argentino, notório crítico ao governo da presidente Cristina Kirchner quando era arcebispo de Buenos Aires, recebeu Cristina no Vaticano com uma rosa branca. Foi o primeiro encontro com um chefe de Estado desde que foi escolhido para substituir Bento XVI.

Os dois almoçaram juntos na Casa de Santa Marta, onde o Pontífice está hospedado temporariamente. Adepto da quebra de protocolos e avesso a formalidades, Francisco também surpreendeu a presidente dando-lhe um beijo no rosto. Ela, depois, brincou dizendo que nunca havia sido beijada por um papa. Na conversa, Cristina aproveitou para pedir que o religioso intervenha na disputa entre o seu país e a Grã-Bretanha pela soberania das Ilhas Malvinas.

– Pedi sua mediação para iniciar um diálogo entre as duas partes – disse Cristina, que lembrou a mediação do papa João Paulo II, em 1978, entre Chile e a Argentina, para resolver a demarcação das ilhas no Canal de Beagle, em 1978.

Em grego para unir Ocidente e Oriente

Depois do encontro entre os compatriotas, novos gestos que geram a expectativa de que surgirá uma nova Igreja foram anunciados pelo Vaticano. Francisco determinou que a missa inaugural de seu pontificado, que estava marcada para as 9h (5h, no horário de Brasília), seria simplificada e encurtada.

Também escolheu usar um anel de prata, em vez de ouro, e trocou o latim por outros idiomas na leitura do Evangelho – hoje, a leitura seria em grego, que simboliza a “unidade das igrejas do ocidente e do oriente” (as igrejas estão separadas desde o cisma de 1054). O turco Bartolomeu I, o “papa” dos cristãos ortodoxos, participaria da posse pela primeira vez desde a ruptura.

Desde que foi eleito na quarta-feira, Francisco indicou que fará um papado com menos pompa em relação ao de Bento XVI. A começar pelas roupas, predominantemente brancas e sem adornos. Hoje, a caminho da cerimônia, passearia a bordo do papamóvel – também usado por Bento XVI.

Ontem, estava prevista a presença de 31 de chefes de Estado, entre eles figuras controversas como o ditador do Zimbábue, Robert Mugabe. Várias religiões cristãs enviaram representantes, além de muçulmanos, judeus e budistas.

A presidente Dilma Rousseff estará presente.

segunda-feira, 18 de março de 2013



18 de março de 2013 | N° 17375
ARTIGOS - Paulo Brossard*

A múmia que fugiu

A guerra de 1914-18, ainda hoje denominada a “grande guerra”, sepultou monarquias centenárias, apagou e riscou fronteiras, gerando efeitos múltiplos precipuamente no mundo econômico e social, abrindo caminho à instalação de três mais do que formidáveis ditaduras, de três Estados totalitários, de proporções inauditas, o fascista, o comunista e o nazista.

O de mais longa duração foi o comunista, que dominou um pedaço do velho continente em mais de um terço de século, praticamente dominado pela individualidade de Joseph Stalin. Dia 5 do corrente transcorreram 60 anos de sua morte e era natural se recordasse o que decorreu a partir de então.

Vítima de dois acidentes circulatórios em 1923, um terceiro matou Lenin em janeiro do ano seguinte. Parece desnecessário dizer que com a doença da principal figura da revolução de 1917, o poder começava a escapar de suas mãos para passar às de Stalin, praticamente junto ao leito do moribundo.

A sucessão, como acontece muitas vezes, ensejou luta feroz nas trevas e à luz do sol e Stalin foi implacável na disputa do poder; recorro a um fato que me parece ilustrativo, ninguém ignora que, desde o início da revolução, Trotsky firmara-se como uma das figuras mais expressivas do partido e do governo bolchevista; era natural, para não dizer inevitável, que Stalin não visse em Trotsky apenas um companheiro de ideias e de propósitos, mas um rival nada desprezível; pois bem, depois de um período que não foi de paz, em outubro de 1926 ele foi expelido do Politburo, para em novembro de 1927 ser expulso do Partido e, como se não bastasse, banido e expulso da URSS em 29 de janeiro de 1929.

Mas não foi só, durante anos, mesmo exilado, ele foi alvo de constante perseguição; vivendo no México, lá chegou a sombra de Stalin, e Trotsky foi brutalmente assassinado em 1940.

Confesso ter sido uma temeridade pretender escrever sobre os 60 anos decorridos desde a morte de Stalin, razão por que sou obrigado a riscar dois ou três traços que, a meu juízo, indicam o sentido dos acontecimentos, pois era imperioso recordar alguns episódios esquecidos se não ignorados pelas gerações que se seguiram.

Morto em 5 de março de 1953, os restos de Stalin foram levados ao mausoléu onde repousava Lenin. Em setembro daquele ano, Nikita Khrushchev assumiu a função exercida por Stalin. Em fevereiro de 1956, realizou-se o 20º Congresso do Partido Comunista e nele o sucessor de Stalin fez arrasadora denúncia dos crimes do stalinismo. 

Pode-se imaginar o estupor causado pela terrível acusação feita não por um inimigo, mas por seu sucessor e colaborador de longos anos. Não faltou sequer o requinte, os restos mumificados de Stalin, o “Guia Genial dos Povos”, foram retirados do mausoléu onde fazia companhia a Lenin, ao ensejo do 22º Congresso Partidário.

Esquecia-me de lembrar que Leningrado voltou a chamar-se São Petersburgo e Stalingrado a denominar-se Volgogrado.

Como é notório, sempre foi conhecida a rigidez da disciplina existente no Partido Comunista, contudo, a partir do 20º Congresso do PC, operou-se um racha em seu seio, com reflexos inclusive no Brasil. Uma ala continuou fiel ao stalinismo sob a direção do legendário “Cavaleiro da Esperança”, a outra se divorciava da antiga relação alegando ignorar os crimes denunciados... ainda que muitos deles fossem notórios.

A história do comunismo foi escrita por Stalin com o sangue de milhões de suas vítimas. Passados 60 anos, é inacreditável que ainda há os que queiram negar as atrocidades cometidas e mundialmente reconhecidas.

Isso nos obriga a refletir que todo totalitarismo começa com a supressão da liberdade de imprensa, e a partir dela não tem limite.

*JURISTA, MINISTRO APOSENTADO DO STF



18 de março de 2013 | N° 17375
KLEDIR RAMIL

Ubuntu

Recebi pelo Facebook uma foto linda com um texto que conta uma história de solidariedade entre crianças de uma tribo africana e, ao final, ensina que a palavra Ubuntu quer dizer “eu sou porque nós somos”.

Aquilo mexeu comigo, emocionalmente, e resolvi fazer o que nunca faço: compartilhei na rede. Assim como eu, muitos de meus amigos virtuais ficaram sensibilizados e começaram a comentar, curtir e compartilhar o post.

Em um determinado momento, meu amigo Zeca Petry publicou um comentário informando que aquela história era uma farsa, esclarecendo que muitas publicações desse tipo são usadas para a promoção de sites e páginas com interesses escusos. O assunto virou polêmica. A questão é que não há na internet garantia de veracidade. Posso estar sendo enrolado e até mesmo, com minha ingenuidade, estar contribuindo para promover uma atividade criminosa.

Essa foto dos meninos africanos não me parece um caso para o FBI. De qualquer forma, o debate online esquentou, com opiniões variadas. O que mais me deixou interessado nessa mobilização toda foi um detalhe, um assunto que me fascina: a natureza do processo criativo e a zona nebulosa que existe entre ficção e realidade. Qual a importância de uma história ser ou não verdadeira? Que fique bem claro, estou falando aqui de criação artística. Canções, romances, filmes...

Por isso, fiz um comentário citando John Lennon, que canta em Julia “metade do que eu digo não faz sentido”. Que, aliás, é um texto que ele pegou de um poema de Kalil Gibran. Eu também poderia ter citado “o poeta é um fingidor” de Fernando Pessoa, mas iria acabar repetindo o que Kleiton e eu já fizemos no DVD Autorretrato.

A internet é um prato cheio para mentiras. Como a vida real. Temos que entrar de cabeça, com um pé atrás. A prudência é a primeira das virtudes. Ao mesmo tempo, não dá pra viver na paranoia de que tudo é uma ameaça.

Eu sou fã de ilusionismo. Outro dia escrevi que “mágica é a trapaça elevada a categoria de arte”. Meu coração se alegra com ilusões e fantasias. Desde que não seja um crime, um pecado, um deboche.

Enfim, com tudo isso aprendi mais um pouco e já decidi: vou continuar postando apenas as coisas que escrevo. Essas, sim, tenho certeza que são verdadeiras. Ou não. Como dizia Tim Maia, “meu único vício é a mentira”.


18 de março de 2013 | N° 17375
PAULO SANT’ANA

Extorsão na Arena

Desculpem os leitores que não gostam de ler sobre futebol, desvio assim do fulcro essencial desta coluna para tratar de um assunto urgente: o caos que se instala na Arena do Grêmio quando dos vários jogos que já houve lá.

Sábado, na partida contra o Lajeadense, assisti com meus olhos à balbúrdia administrativa que se estabeleceu antes e durante a partida.

Milhares de torcedores esperaram por duas horas em longa fila para entrar no estádio.

Além disso, depois dessa torturante demora, culpa do Grêmio, havia torcedores que chegavam finalmente na bilheteria e ouviam a voz extorsiva dos raros bilheteiros: “Desculpe, mas já não há ingressos mais baratos, só temos ingressos caros para vender”.

Mentira e extorsão. Chantagem. Mentira, porque o estádio estava vazio, como podia não haver mais ingressos baratos?

A fila de torcedores era imensa, mas é lógico que o fosse: havia três bilheterias abertas, tão somente.

Resultado do caos: uma multidão de torcedores só pôde assistir ao segundo tempo, uma absurdo gigantesco.

Ontem, no Sala de Domingo, a que compareci, o setorista do Grêmio para ZH, Henrique Benfica, para meu espanto, disse duas vezes que a organização da Arena na hora do jogo não está a cargo do Grêmio. Mas a cargo de quem estará? Se o Grêmio não pode administrar a Arena na hora do jogo, é melhor romper o contrato e voltar para o velho e querido Olímpico. Lá havia ordem.

Faço um desesperado apelo ao presidente Fábio Koff: intervenha imediatamente, presidente, nesta balbúrdia.

Pode ser que a Arena não seja do Grêmio, como o próprio Koff declarou. A Arena não é do Grêmio, mas a vergonha é do Grêmio, diante dessa confusão em que se tornou o estádio desde a inauguração.

Intervenha, presidente Koff. Esfregue esta coluna nas caras dos seus interlocutores. É a hora de virar a mesa com a OAS e estabelecer um fim a essa desordem.

E essa tal de OAS que fique de uma vez por todas sabendo: ela pode lucrar uma fortuna com esse contrato, pode nos arrancar o Olímpico na marra ou na escrita, mas deixe o Grêmio administrar os jogos nos dias das partidas. Ovelha não é para mato.

Parem com essa esculhambação!

O comentarista Wianey Carlet e o narrador Marco Antônio Pereira disseram no microfone da Gaúcha, ao fim do jogo contra o Lajeadense, que não era o dia de Barcos, o centroavante não estava bem.

Ora, se os dois escolheram com justiça Zé Roberto como a maior figura da partida, se Barcos foi o construtor, idealizador e costurador dos dois gols de autoria de Zé Roberto, como é que Barcos não estava bem? Se as duas jogadas mais eficazes do jogo, as que redundaram nos dois únicos gols, foram de autoria prodigiosa de Barcos, como ele poderia estar mal na partida?

Marco Antônio e Wianey viram outro jogo, que eu não vi. Barcos não jogou bem em Caracas, mas no sábado esteve estupendo.

Como eu escrevi há dias, lembrando o que disse o genial Nelson Rodrigues a respeito disso, a maioria dos jornalistas esportivos é constituída de pessoas não afeitas ao futebol e meros palpiteiros.

Foi o Nelson Rodrigues que escreveu, não fui eu. Mas estava ele com a razão, declaro.


18 de março de 2013 | N° 17375
L. F. VERISSIMO

Papa inesperado

Eu sei que ninguém mais diz coisas como “pelas barbas do profeta!”, mas acho que deveríamos ter uma expressão parecida pronta para os casos de grandes surpresas (minha sugestão: “Pelas coxas da Beyoncé!”) como a eleição de um papa inesperado.

Guardadas as óbvias diferenças, a escolha do argentino Jorge Mario Bergoglio equivale a um daqueles prêmios Nobel de Literatura dado a um autor que só 17 pessoas no mundo conhecem, e 10 estão mentindo.

Na Venezuela corre a versão de que a escolha de Bergoglio foi resultado de um pedido feito pessoalmente a Deus pelo Hugo Chávez. Pode ser verdade, mas o que não contam é que a primeira reação do Senhor ao ouvir o nome do argentino foi “Quién?”

As piadas proliferam. Já ouvi que, junto com a euforia, nota-se um certo desapontamento na Argentina pelo fato de o novo papa ter preferido se chamar Francisco e não Diego Armando. A eleição do Jorge Mario, junto com os gols do Messi, espalham um certo temor pelo mundo: o de que a certeza argentina da sua superioridade sobre todos nós pode não ser megalomania!

É um pouco injusto evocar agora o suposto apoio ao regime, ou a suposta omissão, do novo papa durante a ditadura militar no seu país. A igreja argentina sempre teve um poder junto à classe conservadora e ao pensamento dos seus líderes muito maior do que a igreja brasileira junto a nossa elite, por exemplo.

O que de certa forma a exime, se não a redime. É compreensível que ela tenha sido cautelosa na preservação do seu poder em meio à selvageria, e que hoje se confunda isto com colaboração. Mas também é verdade que um regime repressor tão extraordinariamente brutal como foi o argentino deveria ter excluído qualquer prurido ou desculpa.

Mas, enfim, os generais da repressão estão sendo responsabilizados e os torturadores estão indo para a cadeia (na Argentina, pelo menos) e o papa Francisco tem acesso direto ao ouvido de Deus, se sentir a necessidade de contrição. E se conseguir que o Hugo Chávez se cale.

Crônica vovô

Nossa neta Lucinda tem quatro anos e meio e sabe tudo. Há dias, ela me mostrava a maneira correta de comer uvas. Meu argumento, de que já comia uvas 70 anos antes de ela nascer, não convenceu. Eu comia errado.

domingo, 17 de março de 2013


FERREIRA GULLAR

A revolução que não houve

Chávez intitulou seu regime de "revolução bolivariana", embora não tivesse feito qualquer revolução

Hugo Chávez foi, sem qualquer dúvida, um líder carismático que aliava, em sua atuação, a audácia e a esperteza política. Desde cedo, a ambição de poder determinou suas ações, que o levaram da conspiração nos quartéis às manobras populistas características de seu projeto de governo.

Sempre soube o que deveria fazer. Compreendeu, desde logo, que teria de atender às necessidades de grande parte da população que, ignorada pela oligarquia venezuelana, vivia na miséria.

Ganhar a confiança dessa gente, atendê-la em suas carências, era a providência eticamente correta e, ao mesmo tempo, o caminho certo para tornar-se um líder de imbatível popularidade. Mas, para isso, teria que enfrentar os poderosos e obter o respaldo das forças armadas, às quais, aliás, pertencia. Foi o que fez e ganhou a parada.

Outro traço característico de Hugo Chávez era o pouco respeito às normas democráticas. Se é verdade que ele chegou ao poder pelo voto e pelo voto nele se manteve, é certo também que se valeu do prestígio popular e de alguns erros dos opositores para controlar os diferentes poderes da nação venezuelana, impor sua vontade e consolidar o poder discricionário.

Nesse sentido, o que ocorreu na Venezuela é um exemplo de como o regime democrático, dependendo do nível econômico e cultural da população de um país, pode abrir caminho para um governo autoritário que, dependendo da vontade do líder, anulará a ação política dos adversários, como o fez Hugo Chávez.

Ele não só fechou emissoras de televisão como criou as Milícias Bolivarianas, que, a exemplo da conhecida juventude nazista, inviabilizava pela força as manifestações políticas dos adversários do governo.

Para culminar, fez mudarem a Constituição para tornar possível sua reeleição sem limites. Aliás, é uma característica dos regimes ditos revolucionários não admitir a alternância no poder. Está subentendido que sua presença no governo garante a justiça social com a simples exclusão da classe exploradora e, portanto, como são o povo no poder, não há por que sair dele.

Chávez intitulou seu regime de "revolução bolivariana", embora não tivesse feito qualquer revolução. O que fez, na verdade, foi dar comida e casa aos mais necessitados, o que, ao contrário de levar à revolução, leva à aceitação do regime pelos que poderiam se revoltar. Daí a necessidade de haver um inimigo, que ameace tomar o que eles ganharam. E o líder -Chávez- está ali para defendê-los.

O azar dele foi o câncer que o acometeu e que ele tentou encobrir. Quando já não pôde mais, lançou mão da teoria conspiratória, segundo a qual seu câncer foi obra dos norte-americanos. Como isso ocorreu, nem Nicolás Maduro nem Evo Morales se atrevem a explicar.

De qualquer modo, tinha que se curar e foi tratar-se em Cuba, claro, para que ninguém soubesse da gravidade da doença, que o obrigaria a deixar o governo. Sucede que o câncer não cedeu à onipotência do líder, obrigando-o a ausentar-se da Venezuela e da chefia do governo, por meses seguidos. O povo venezuelano, naturalmente, desejava saber o que se passava com o seu presidente, mas nada lhe era dito.

No entanto, Chávez deveria disputar eleições em 2012 para manter-se no governo e, por isso, voltou à Venezuela dizendo-se curado. Foi reeleito, mas teve que voltar às pressas à UTI em Havana. Daí em diante, mais do que nunca, o sigilo foi total: está vivo? Está morto? Vai voltar? Não vai voltar? Pela primeira vez, alguém governou um país de dentro de uma UTI.

Chega a data em que teria que tomar posse, mas continuava em Cuba. Contra a Constituição, Nicolás Maduro, que ele nomeara seu vice-presidente, assume o governo, embora já não gozasse, de fato, da condição de vice-presidente, já que o mandato do próprio Chávez terminara.

Mas, na Venezuela de hoje, a lei e a lógica não valem. Por isso mesmo, o próprio Tribunal Supremo de Justiça -de maioria chavista, claro- legitimou a fraude, e a farsa prosseguiu até a morte de Chávez; morte essa que ninguém sabe quando, de fato, ocorreu.

Durante o enterro, Nicolás Maduro anunciou que Chávez seria embalsamado e exposto para sempre à visitação pública, como Lênin e Mao Tse-tung. Um líder revolucionário de uma revolução que não houve. Não resta dúvida, estamos em Macondo.

DANUZA LEÃO

Os preconceitos

Em 10 anos de PT, existe uma minoria que não foi contemplada com nenhum cargo importante: a gay

Vamos falar a verdade: o governo de Fernando Henrique fez muito pela queda dos preconceitos e a valorização das minorias em geral. Mas devemos reconhecer que o PT fez muito mais: deu voz forte às mulheres e aos afrodescendentes, voz que eles talvez nunca tenham tido antes.

Desde que d. Dilma assumiu o cargo, sempre que houve uma brecha ela colocou uma mulher, e nem sei quantas existem em cargos importantes (nem se estão dando conta do que fazem), mas sei que são muitas. Talvez até mais do que seria preciso, para que o universo se convença da igualdade entre homens e mulheres.

Mas em 10 anos de PT, existe uma minoria que não foi contemplada com nenhum cargo importante: a minoria gay, que nem é tão minoria assim.

Na parada gay de São Paulo eles conseguem lotar a av. Paulista com centenas de milhares de pessoas entre gays e simpatizantes da causa.

Eles existem -e eu conheço muitos; são médicos, advogados, arquitetos, engenheiros, enfim, estão em todos os setores, para não falar na vida artística. Mas nos ministérios, na presidência, nas diretorias das grandes Estatais, nunca se ouviu falar de nenhum; porque será?

A ministra da Cultura sempre prestigiou a parada Gay, mas nem agora, com o poder na mão, convidou algum -ou alguma- representante da classe para colaborar com ela.

Pode ser até que exista um ou uma homossexual, em algum cargo modesto, mas que ainda não saiu do armário. Aliás, não sejamos ingênuos: é claro que em postos altíssimos da República devem existir muitos gays, só que ainda enrustidos, e não é desses que estamos falando. Mas daqueles sobre os quais não existe a menor dúvida, e que se assumem como tal.

Se os prefeito de Nova York, Paris e Berlim -e excelentes prefeitos, tanto que foram reeleitos são gays, porque o Brasil não pode ter um ministro assumido? E por falar na ministra, acho que ela só existe para fazer a ponte entre os héteros e os gays, para que não pensem que o PT não gosta dos gays.

Voltando: o PT está no poder há 10 anos e não me recordo de ter ouvido falar de ninguém do partido que seja assumidamente gay, então vamos combinar: para acreditar que o PT quer mesmo acabar com os preconceitos e é mesmo contra a intolerância e a favor da aceitação da pluralidade e das diversidades -todas-, é preciso que algum figurão petista, gay, seja candidato ou assuma um posto importante no governo.

Seria bacana, ver o ex-presidente Lula num palanque, pedindo votos para um candidato gay assumido. Vamos lá, Lula? A reforma ministerial está por pouco e a campanha já começou, dois bons momentos que não podem ser desperdiçados, a não ser que o PT seja preconceituoso em relação aos homossexuais.

Será que ele é?

P.S.: Todos estamos cansados de saber que as mulheres são capazes de tudo, e está aí d. Dilma provando que são mesmo; mas vamos admitir que mesmo as pessoas mais liberais têm, lá no fundo, um ranço preconceituoso, e às vezes ele se revela, inconscientemente. Aconteceu, no Dia Internacional da Mulher.

Foi exatamente este o dia que d. Dilma escolheu para desovar mais uma de suas bondades: a desoneração da cesta básica. Cesta básica é coisa de cozinha, e quem fala em cozinha pensa em mulher; ato mais do que falho da presidente.

ELIANE CANTANHÊDE

Voltas que o mundo político dá

BRASÍLIA - Dilma fechou, nestes dois anos, um círculo nada virtuoso no Ministério do Trabalho. Rodou, rodou e voltou para o mesmo lugar.

Ao assumir o governo, nomeou para o Trabalho o chefão do PDT, Carlos Lupi. Quando umas histórias do ministro com ONGs vieram à tona, ela já surfava na onda da "faxina" e despachou Lupi de volta para a praia.

Depois de meses de interinidade, quando ninguém dava mais bola para o ministério, Dilma decidiu conter preventivamente protestos de sindicalistas contra a falta de ministro e anunciou o sucessor, Brizola Neto, na véspera do Dia do Trabalho de 2012.

Agora, menos de um ano depois, lá se vai Brizola Neto e Dilma volta à estaca zero, nomeando mi-nistro o secretário-geral do PDT, Manoel Dias, que é ligado a... Carlos Lupi, o "faxinado".

Há duas questões aí. A mais evidente é que Dilma quer o apoio do PDT -aliás, seu velho partido- em 2014. E quem manda no PDT é Lupi, não Brizola. Outra é que, cá pra nós, Brizola Neto não foi nenhuma maravilha como ministro.

Seria uma indelicadeza dizer que já vai tarde, mas não é exagero reconhecer que chegou cedo demais.

Ao ser nomeado, era o mais novo dos então 38 ministros, não tinha uma formação excepcional, não unia o próprio PDT e enfrentava resistências nas centrais sindicais.

Então, por que foi escolhido? E eu é que sei? Só sei que as duas credenciais do moço eram o sobrenome famoso, identificado com o trabalhismo muito antes do surgimento do Partido dos Trabalhadores, e um blog apropriadamente chamado de "Tijolaço", pelo qual ele xingava tudo, todos e todas que ousassem criticar o governo -sobretudo o de Lula.

Sai Brizola Neto, chega Manoel Dias (ou volta Lupi), mas nada, de fato, muda. O Ministério do Trabalho, coitado, anda tão ou quase tão desprestigiado quanto a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara. Qualquer um serve.

CARLOS HEITOR CONY

'A igreja está caindo!'

RIO DE JANEIRO - O jovem Francisco pertencia a uma família nobre e rica de Assis, uma cidadezinha na Úmbria, paraíso verde da Itália. Não dava muita bola para a sua classe, gostava de passarinhos, flores, chamava o Sol de "Irmão Sol" e a Lua de "Irmã Lua". Era poeta e místico, gostava de rezar.

Faz parte de sua história e de sua lenda. Estava na pequenina igreja próxima de sua casa quando ouviu a voz do Senhor: "Francisco, a igreja está caindo!". Apavorado, ele parou de rezar e deu o fora, ficou a certa distância, esperando a capelinha desabar.

Foi preciso que o Senhor se explicasse melhor. Nada contra a capela, Francisco entendera mal o aviso, a igreja que estava caindo não era aquela capelinha, era a igreja mesmo, como um todo, que mais uma vez atravessava uma crise daquelas.

Era necessário que alguém consertasse as coisas, fazendo a igreja voltar a seus valores essenciais de amor, humildade e pobreza. E não havia ninguém mais capaz do que o jovem Francisco, que já renunciara às pompas do mundo, para recuperar a mensagem fundamental do cristianismo.

Francisco criou uma ordem. Para não concorrer com outras, chamou-a de Ordem dos Frades Menores. Não quis se ordenar padre, não se julgava digno do ofício divino. Pouco depois surgiu um companheiro, por sinal um português que se chamava Fernando, mas mudou o nome para Antônio, que foi missionário e ficou famoso pelos milagres que fazia -dizem que faz milagres até hoje. É doutor da igreja, pregava aos peixes.

Francisco nada tinha de espetacular. Era, pura e simplesmente, um santo, irmão do Sol e da Lua. Nunca houve um papa que deu a si mesmo o nome de Francisco. O recado que o último conclave recebeu foi bastante claro: a igreja está precisando de alguém para consertar as coisas.