domingo, 10 de março de 2013


ELIANE CANTANHÊDE

Olha o diabo aí!

BRASÍLIA - Na sexta-feira, dias depois de dizer que "a gente faz o diabo na eleição", a presidente Dilma interpretou a candidata na TV e anunciou um saco de bondades que ela mesma vetara seis meses antes.

O DNA da proposta de acabar com os impostos federais da cesta básica é curioso: foi gerada no PT, abortada por conveniência do governo e reencarnada, graças ao PSDB, no corpo de uma medida provisória. Aprovada no Congresso, foi vetada por Dilma e agora anunciada como se fosse novinha em folha.

Para chegar a tanto, Dilma e sua equipe de marketing devem ter concluído que o bônus do anúncio para milhões pela TV abafaria o ônus do grito da oposição e das crítica dos chatos de três ou quatro jornais.

A questão da oportunidade foi decisiva. Em setembro, época do veto, Dilma ainda dava de ombros para o risco de inflação e ainda não tinha sido tão ostensivamente empurrada para a campanha por Lula.

Agora, a coisa mudou. Na sexta-feira, saiu o índice de inflação de fevereiro, maior do que o mercado esperava, e era justamente o Dia da Mulher, que é mais da metade do eleitorado. Perfeito para o conteúdo e o tom do pronunciamento.

Dilma desonerou a cesta básica, incluiu novos produtos e conta com a redução do preço de carnes, café, manteiga, óleo, sabonete e pasta de dente. Também prometeu uma política de defesa do consumidor e um centro integrado de proteção à mulher em cada Estado. Uma beleza!

Encerrou incluindo um autoelogio típico de candidatos num recado aos agressores de mulheres: "Não esqueçam jamais que a maior autoridade desse país é uma mulher, uma mulher que não tem medo de enfrentar os injustos nem a injustiça, estejam onde estiverem". Só faltou o "votem em mim!".

O impacto popular é óbvio, mas isso tudo deixa dúvidas: por que fazer o diabo a tanto tempo da eleição? Afinal, o que -ou quem- Dilma, Lula e João Santana tanto temem?

sábado, 9 de março de 2013



10 de março de 2013 | N° 17367
MARTHA MEDEIROS

Diga-me o que veneras

Talvez isso diga tudo sobre aquela incômoda sensação de inferioridade que ainda não conseguimos vencer

Venerar: prestar culto, adorar. Respeitar ou admirar muito. Reverenciar. Isso segundo os dicionários, pois eu ainda acrescentaria: ficar com os quatro pneus arriados, perder o senso, surtar. Pois é, tenho pensado nesse verbo venerar e descoberto coisas.

O que você venera? Refiro-me a algo que você idolatra íntima e secretamente, algo que lhe parece inatingível – ao menos você supõe que é inatingível. Não estou falando de se aproximar de ídolos ou visitar lugares paradisíacos, e sim das suas carências de infância: o que você venera e que nunca possuiu, e, por não possuir, acabou tornando-se refém?

O que você venera é seu ponto fraco.

Digamos que você venere a inteligência e a cultura. Foi criado sem acesso a cursos, livros e cinema, e acabou desenvolvendo uma fissura por tudo o que pareça intelectualizado num grau acadêmico que você nunca sonhou roçar.

Fica pasmo diante de qualquer pessoa que fale sobre o que você não conhece, extasia-se diante de tanta erudição, que talvez nem seja tanta assim, mas que você vê como imensa. Olhe para si mesmo: tão aparentemente seguro, mas embasbacado diante de qualquer um que saiba meia-dúzia de palavras em latim ou que lembre quem ganhou o Oscar em 1972.

Digamos que você venere a beleza. Foi o patinho feio da escola, desde cedo compreendeu que não ganharia nem o título de miss simpatia, e foi o que bastou para dar pane no cérebro: diante de um belo espécime, cai de joelhos. De que adianta tanta leitura, tanto estudo, tamanho acervo de conhecimento? Basta um par de olhos verdes piscantes em sua direção e seu QI cai a níveis subterrâneos.

Digamos que você venere a segurança, já que nunca teve certeza de que seu pai voltaria para casa ao fim do dia e de que sua mãe não fugiria com o vizinho. Basta que alguém tenha um cargo de poder, opiniões bem sedimentadas e um endereço fixo para que você o adote como pai ou mãe substitutos. Enfim, uma muleta que o sustente. A pessoa eleita sabe como conduzir o dia, articula claramente as ideias, reage bem a imprevistos. Você funda uma religião: ele ou ela é agora seu Deus, e você será um eterno discípulo.

Digamos que você venere o dinheiro: sempre teve que implorar por trocados, nunca teve o suficiente para seus sonhos, considerava-se o mais pobre da turma, aquele que os professores, insensíveis, delatavam na frente da classe como o aluno com a mensalidade da escola atrasada. Basta saber que a parceira de escritório passa as férias em Fort Lauderdale ou que o companheiro de bar tem um carro que vale um iate, e seu conceito de “amizade de infância” se expande a uma velocidade surpreendente.

O que você venera? Seja o que for, preste atenção. Talvez diga tudo sobre aquela incômoda sensação de inferioridade que cada um de nós, disfarçadamente, ainda não conseguiu vencer.



10 de março de 2013 | N° 17367
QUASE PERFEITO | Fabrício Carpinejar

Superpoder feminino

Só a mulher tem a liberdade de se sentir ofendida e se retirar a qualquer momento de qualquer local. Ela tem um passe-livre da mágoa. Uma pulseira vip do camarote da tristeza. O homem não. O homem nem pensar.

Eu invejo esse superpoder. É uma habilidade sobrenatural, muito melhor do que os dois braceletes indestrutíveis da Mulher-Maravilha, que repele balas e raios, ou de sua tiara que funciona como bumerangue. Sua namorada pode estar conversando com você num bar, de uma hora para outra fechar a cara e deixá-lo plantado na cadeira.

Ela evaporará da multidão sem explicar nada. Você herdará a caipirinha de morango ainda cheia. Terá que ir atrás dela. Pagar a conta e ir atrás dela. Pagar a conta, retirar seu carro do estacionamento e ir atrás dela.

Não entenderá o que aconteceu para gerar a atitude intempestiva. Mas ela é que tem razão. Foi você que disse algo que a desagradou profundamente. Uma palavra áspera, uma grosseria involuntária, uma falta de gentileza são suficientes para abandoná-lo.

Por se ver sempre culpado, o homem corre igual a uma ovelha no encalço de sua pastora. Como não compreende o desaparecimento, conclui que é um idiota. Além de ferir, tampouco percebeu que feriu. Duplamente consternado por não conter a agressividade e não se dar conta dela.

Todo sujeito se desespera. Não tem tempo de pensar e voa em direção ao pedido de desculpa. Ela não facilitará as pazes: em prantos, desligará o celular, não permitirá que entre em casa e dirá que não quer mais falar com você.

Nenhum marmanjo resiste a ser esquecido em público: é a flechada derradeira do cupido.

Já fui largado em cinema, teatro, balada, pub, shopping, boliche. E nunca permaneci parado, atirei-me à rua para reavê-la. Bate um medo da fúria feminina, do que ela pode cometer quando consternada. Responsabilizo-me por eventual fatalidade. Esquecerei pudores e cuidados com a reputação. Gritarei “me espera!” na Padre Chagas lotada, vou subir o velocímetro na Ipiranga (não há maior perseguição policial do que entre dois motoristas apaixonados e brigados).

Já o homem não desfruta desse direito. Se abandonar sua companhia no meio de um compromisso, mesmo com a realidade a seu favor, ele é um estúpido, um mau caráter, um boçal.

Será visto como um covarde pelo resto do relacionamento. Como que ele leva uma convidada para um lugar e não sai do estabelecimento acompanhado dela?

O sofrimento masculino tem a obrigação de ser educado.


10 de março de 2013 | N° 17367
VERISSIMO

Uma ciência

Decidiram fazer um churrasco para as famílias se conhecerem. Do lado da Bea havia seu pai, sua mãe, um irmão mais moço e uma tia solteira. Do lado do noivo, Carlos Alberto, mãe viúva, duas irmãs mais velhas, sendo uma com uma namorada, e um irmão com a mulher e dois filhos menores. O churrasco seria na casa da Bea, que tinha um pátio grande com churrasqueira, e o Carlos Alberto se prontificou: seria o assador.

Acertaram a logística do encontro. Os donos da casa forneceriam as saladas e a cerveja, os visitantes trariam a carne, a sobremesa e os refrigerantes, inclusive zeros para quem estivesse controlando a glicose. E o assador. Tudo transcorreu bem.

Uma das crianças ralou o joelho e, segundo o consenso geral, exagerou um pouco nos gritos para chamar atenção, a tia solteira da Bea bebeu demais e caiu da cadeira, mas fora isso, tudo bem. Todos se entenderam, se divertiram – a namorada da irmã mais velha do Carlos Alberto tinha um repertório inesgotável de anedotas – e conversaram bastante. Menos o pai da Bea, o seu Vicente, que passou todo o churrasco emburrado. Sem dizer uma palavra.

Naquela noite, Bea perguntou aos pais se tinham gostado do Carlos Alberto. Seu Vicente e dona Nininha se entreolharam.

– Sei não... – disse o seu Vicente.

Bea se surpreendeu.

– Sei não por quê?

– Para começar – disse seu Vicente – ele botou a carne em espeto baixo com o fogo ainda alto. Não esperou o carvão virar brasa. Vi que ia ser um desastre quando os salsichões vieram queimados.

– Ora, papai. O...

– Outra coisa. Ele usou salmoura na carne, em vez de sal grosso. Ninguém mais usa salmoura. A salmoura foi usada em churrasco no Brasil pela ultima vez na administração do Washington Luiz.

– Papai, você está dando importância demais ao...

– Tem mais! Ele botou a picanha com a gordura para cima. O certo, o clássico, é com a gordura para baixo. E a costela ele botou com o osso pra cima!

– Está bem, papai. Eu prometo que o Carlos Alberto nunca mais fará um churrasco para vocês.

– Não se trata disso, minha filha.

Não se tratava só daquilo. O importante era o que aquilo revelava sobre o caráter do assador.

Alguém que se apresenta como assador sem ter a mínima ideia de como se assa não é apenas pretensioso e irresponsável. É um estelionatário. Demonstra desonestidade, arrogância e descaso pelos outros.

– O churrasco é uma ciência, minha filha. Não é para qualquer impostor.

– Mas papai...

– E o que ele inventou? Corações de galinha num espeto intercalados com pedaços de abacaxi. Não há hipótese de eu deixar minha filha casar com alguém que intercala corações de galinha com pedaços de abacaxi!

– E as sobremesas não estavam grande coisa – acrescentou dona Nininha.

O casamento foi adiado. Bea disse ao Carlos Alberto que precisava pensar.


10 de março de 2013 | N° 17367
PAULO SANT’ANA

Portões fechados

Esse conclave que se realiza no Vaticano, em que mais de cem cardeais ficam reunidos num salão durante 20 dias para escolher o novo papa, está me parecendo igual aos jogos do Corinthians no Pacaembu: sem torcida, com os portões fechados.

Já escrevi várias vezes e vou repetir: leio todos os e-mails que me mandam, até mesmo os que me ofendem com palavras de baixo calão, autoria de cafajestes.

Mas não leio, ninguém vai me obrigar a isso, e-mails que tenham mais de 15 linhas, é preciso que considerem que não disponho de tempo para tal.

E há pessoas que cometem o desaforo de me enviar e-mails que são verdadeiros tratados, dossiês, ora, não há como perder dias inteiros para lê-los: é preciso que tenham em mente que recebo milhares de e-mails.

Então, eu seleciono. Com mais de 15 linhas, não leio. Pode ser o assunto mais importante do mundo. Não leio.

Leio todos os e-mails, repito. É de minha obrigação profissional.

Mas, com mais de 15 linhas, enviem esses e-mails para o novo papa.

Minha mesa e minhas gavetas estão atulhadas de e-mails de gremistas reclamando para mim das dificuldades intransponíveis que têm para ingressar na Arena, seja pagando, seja obtendo vantagens por serem sócios, proprietários de cadeiras e boxes etc.

Cá para nós, que tenho a ver com isso? Não sou ouvidor do Grêmio, não sou dirigente, que tenho a ver com isso? Eu sou surdo, assim não posso ser ouvidor do Grêmio.

Mas se não fosse por isso, entendem os reclamantes que teria tempo para solucionar o problema de centenas ou milhares de gremistas.

Olhem, eu tenho tempo só de desempenhar minha profissão, não sou despachante.

Escrevo isso para apenas desencorajar os que reclamam para mim. Dirijam suas reclamações ao próprio Grêmio. Ou se queixem para a mãe Joana, o que tem de parar são esses calhamaços que me mandam e infernizam a minha vida.

Eu só tenho uma razão para que se manifestem, numa encheção de saco ilimitada, aqueles que afirmam que Maradona foi melhor do que Pelé.

A razão é a seguinte: Pelé tinha cinco ferramentas para se tornar o gênio que foi, dois calcanhares, a cabeça e os dois pés, era ambidestro.

E Maradona tinha só uma ferramentazinha para enfrentar Pelé: o pezinho esquerdo.

Já pensaram se Maradona dispusesse das cinco ferramentas de Pelé?

Se dispusesse delas, talvez pudesse ter feito os 1,3 mil gols de Pelé (contra menos de 300 de Maradona), talvez ganhasse as três Copas do Mundo que Pelé ganhou.

Ah, ia me esquecendo: uma vez Maradona usou de uma segunda ferramenta além do pezinho esquerdo: fez um gol com a mão.

Ponham na cabeça uma coisa, de uma vez por todas: quem trouxe Barcos para o Grêmio fui eu. Não adianta ficarem achando outros autores que não seja o Fábio Koff.

Quem trouxe Dario para o Internacional fui eu, implorei publicamente para o Grêmio trazê-lo, o Inter foi lá e o trouxe.

Eu é que trago os grandes centroavantes para o RS.

Se eu fosse jornalista no tempo do Di Stefano, eu o teria trazido para o Grêmio.


10 de março de 2013 | N° 17367
O CÓDIGO DAVID | DAVID COIMBRA

O QUE O HOMEM GOSTA NA MULHER

Resolvi escrever sobre as mulheres durante toda a Semana da Mulher. Mas não por causa delas e, sim, por nossa causa, nós, homens. Porque o centro da nossa vida é a mulher, e o centro da vida delas não, não é o homem – é outra coisa sobre a qual um dia vou escrever.

Assim, não sendo o centro de nada, nós homens estamos na periferia de tudo, somos coadjuvantes. Precisamos, pois, ser acarinhados e homenageados como compensação por tamanha insignificância, e a Semana da Mulher cumpre esse papel ao festejar o caule da nossa existência, aquilo de que mais gostamos e que mais nos atormenta, a razão das nossas alegrias e aflições, a costela que nos foi arrancada e da qual sentimos falta a cada respiração.

A mulher.

1 Beleza e espírito

Tenho que dizer, a despeito dos narizes torcidos das feministas, que nós homens preferimos as mulheres belas. Sim, a beleza nos comove, somos todos olhos nos primeiros contatos.

Nos primeiros.

Depois, muda, vai mudando. Porque a mulher precisa ter espírito, também. Senão, o que sustenta a conversa e o feitiço entre a taça de champanhe de abertura e o cálice de conhaque de encerramento de um longo e dispendioso jantar em um restaurante francês?

Espírito. Sim, senhor.

E que gênero de mulheres têm beleza e espírito?

Direi logo ali.

2 Lindas e mudas

Não procure mulheres de beleza e espírito entre as modelos. As modelos são lindas, óbvio, ou não seriam modelos “de beleza”. A profissão de uma modelo é ser bonita. Mas uma modelo, o que uma modelo faz? Ela caminha pela passarela colocando um pé diante do outro, faz cara de braba, para, estica o pescoço, gira e vai embora. No fim do desfile, ela aparece sorrindo e batendo palmas atrás do costureiro, hoje promovido a estilista.

E só.

Uma modelo é muda. Não está acostumada às palavras. Logo, não está acostumada a raciocinar. Quando ouço a Gisele Bündchen falando, estremeço. Sinto que há alguma coisa errada ali. A voz dela não passa confiança, sei que ela não está pensando no que fala, que é tudo ensaiado. Muito esquisito. Não, não procure mulheres de espírito entre as modelos.

3 Lindas, mas às vezes brabas

As atrizes, sim. As atrizes têm de ler e compreender textos. Ou seja: elas precisam pensar. Então, você pode encontrar mulheres belas e de espírito entre as atrizes.

Pegue uma Ava Gardner, aquela que o escritor Jean Cocteau definiu como “o mais belo animal do mundo”. Ava Gardner hipnotizava os homens com sua beleza, sim, mas os escravizava com seu espírito. Foi casada umas quatro ou cinco vezes, uma delas com Frank Sinatra. O bilionário maluquete Howard Hughes era apaixonado por ela.

Ela, não. Ava gostava de Hughes, mas não a ponto de entregar-lhe a alma. Desesperado de ciúmes, o ricaço contratava detetives para vigiá-la. Uma noite, Ava se preparava para sair com outro homem e bateram-lhe à porta. Eram os capangas de Hughes, que lhe informaram que o patrão a esperava. Ava respondeu que ele podia ficar esperando o quanto quisesse, porque ela sairia com outro.

– Ele não vai gostar nada disso – observou um dos brutamontes.

Ava deu de ombros e saiu. Voltou tarde da noite, recolheu-se, adormeceu e, alta madrugada, acordou com a sensação de que havia alguém no seu quarto. Havia mesmo. Era Hughes, possesso. Começaram a discutir. Ele desferiu um soco no olho dela, que inchou instantaneamente. Ava, mesmo caolha, armou-se de um sino de bronze e desceu-o na cara do bilionário, que saiu cambaleando, sangrando e cuspindo dentes no tapete. Foi direto para o hospital.

Mais tarde, eles fizeram as pazes. Ava perdoou, mas Hughes teve de colocar pivô.

Belas frases de belas

Vou citar algumas frases de lindas atrizes, para você constatar o que elas tinham além da beleza. Primeiro, da nossa fera Ava Gardner, e a primeira frase que destaco foi comprovada por Hughes:

AVA GARDNER

Quando eu perco a calma, queridos, vocês não encontram em lugar nenhum.

No fundo, eu sou muito superficial.

Quero viver até os 150 anos, mas no dia em que eu morrer, desejo que seja com um cigarro em uma mão e um copo de uísque na outra.

O que eu realmente gostaria de dizer sobre o estrelato é que ele me deu tudo o que eu nunca quis.

MAE WEST

A atriz frasista campeã é Mae West, sem dúvida. Beba de algumas:

Ama teu próximo. Mas, se ele for alto, moreno e bonitão, será bem mais fácil.

A melhor forma de se comportar é comportar-se mal.

A virtude tem suas vantagens,

mas não dá bilheteria.

SHARON STONE

A nossa loira Sharon Stone foi quem disse exata e precisamente o que eu disse nesse texto. A frase imortal de Sharon, tão imortal quanto sua cruzada de pernas, é a seguinte, em palavras publicáveis em um jornal de família como esse:

A união da inteligência com a (nome chulo do órgão sexual feminino) é invencível.

E é.

Outra boa da Sharon:

O humor é uma forma de ser valente.

E é.

RUTH DE AQUINO

Em memória de Eliza

É um tapa na cara das mulheres a punição de mentirinha imposta ao goleiro Bruno. Antes capitão adorado do Flamengo, hoje Bruno é mais um ídolo dos assassinos covardes e cínicos. A condenação esperada para o homicídio, sequestro e cárcere privado de Eliza Samudio era de 28 a 30 anos de prisão. A sentença final, de 22 anos e três meses, seria condizente com o crime hediondo se fosse toda cumprida. Mas a lei brasileira – ah, a lei... – pode deixar Bruno livre, leve e solto para churrascos e peladas daqui a menos de três anos. Quem sabe um contrato com um clube?

A confissão tardia reduziu a pena. O trabalho e o bom comportamento na cela livrarão Bruno do cárcere com pouco mais de 30 anos de idade. Ele, que deu festão no dia seguinte ao homicídio, posou de triste e acabrunhado para o país no julgamento desta semana. Durante anos, repetiu que não havia crime: “Torço para que ela possa aparecer viva”. Agora, orientado pela defesa, confirmou que sabia de tudo: “Eu sabia e imaginava”. Bruno “imaginava” que a ex-amante e mãe de seu filho Bruninho seria sequestrada, enforcada, esquartejada e jogada aos cães?

A sentença foi proferida na madrugada do Dia Internacional da Mulher. Não sou fã de datas especiais para “minorias” – ainda mais porque somos maioria. Mas admito que o 8 de março seja um bom pretexto para examinar estatísticas globais de emprego, salário, jornada dupla e violência contra a mulher, como agressões, espancamentos, estupros e assassinatos.

Segundo a ONU, sete em cada dez mulheres no mundo sofrerão algum tipo de violência física ou sexual ao longo da vida. É um número espantoso, amedrontador. Eliza, ao engravidar de Bruno e exigir reconhecimento e pensão, candidatou-se a engrossar as estatísticas da ONU. O Brasil é, no ranking mundial, o sétimo país em assassinatos de mulheres. E ainda há quem ache que garota de programa merece castigos assim: “Ela estava pedindo”.

Bruno, hoje com 28 anos, tem uma conexão estranha com o Dia Internacional da Mulher. Na véspera do 8 de março de 2010, o então supergoleiro do Flamengo, ídolo do time com 33 milhões de torcedores, cotado para a Seleção, defendeu desastradamente seu colega Adriano, que batera na namorada: “Qual de vocês nunca saiu na mão com a mulher?

Não tem jeito: em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”. Depois, pressionado pela família e pelo clube, voltou atrás: “Peço desculpas a todos pelo que foi dito. Tenho filhas e as amo muito. Todas as mulheres merecem carinho”.
Aos 31 anos, Bruno poderá estar livre. Sua punição de mentirinha é um tapa na cara das mulheres

O “carinho” que o goleiro de 1,91 metro dispensou a Eliza teve vários capítulos. Primeiro, ele tentou obrigá-la a abortar. Ameaçou-a. Eliza, grávida de cinco meses, foi à Delegacia Especial de Atendimento à Mulher no Rio, denunciou Bruno, pediu proteção e foi gravada pelo jornal carioca Extra. “Ele me deu dois bofetões... Enfiou uma arma na minha cabeça... E me disse: ‘Sou frio e calculista. Vou deixar a poeira baixar e vou atrás de você. Se eu te matar e te jogar em qualquer lugar, as pessoas nunca vão descobrir que fui eu’.”

Quase um ano depois, Eliza foi levada para o sítio de Bruno, ficou em cativeiro e foi morta com requintes de crueldade – o bebê escapou do mesmo fim por sorte ou compaixão. Bruno foi para o campo do clube treinar e deu entrevista, riu. Disse que Eliza sumira “para resolver questões pessoais”. Ainda se mostrou religioso: “Deixei nas mãos de Deus, Deus sabe o que faz”.

Bruno tinha certeza da impunidade. Estava errado. Não contava que seria traído por primos e pelo amigo e cúmplice Macarrão. O comentário nas ruas era: “Como um cara pode ser tão burro como o Bruno e jogar a vida no lixo?”. Burro é pouco, muito pouco, para defini-lo. A juíza Marixa Fabiane Lopes Rodrigues considera Bruno “frio, violento e dissimulado”. Para ela, o crime foi “uma trama diabólica meticulosamente calculada”. O maior exemplo disso foi o sumiço do corpo: “A supressão do corpo humano é a verdadeira violência (...), um ato de desprezo e vilipêndio”.

A mãe de Eliza, dona Sônia, que hoje cuida do neto Bruninho, teme por sua vida e pela do garoto, quando Bruno sair da prisão. Insiste em perguntar algo que ninguém respondeu: “Onde está o que restou do corpo da minha filha? Meu neto vai crescer e também vai querer saber”. Ela não acredita que os pedaços do corpo de Eliza tenham sido consumidos por cães sem deixar vestígios. Ela quer ver e enterrar o que sobrou da filha. Dona Sônia e Bruninho têm o direito de saber.

A sociedade tem o direito de não gostar de que Bruno seja solto após sete anos de prisão, como aconteceu com o ator Guilherme de Pádua. Ele matou a golpes de tesoura a atriz Daniella Perez, filha de Gloria Perez, em 1992. Consolou a família no enterro, mas saiu livre em 1999. Tudo de acordo com a nossa branda lei para crimes tão perversos.



09 de março de 2013 | N° 17366
NILSON SOUZA

Exclamações

Ganhei de presente de um generoso integrante do nosso Conselho de Leitores um marcador de páginas, objeto tão singelo quanto pouco utilizado no mundo digital em que vivemos. Para quem lê apenas na tela luminosa do computador ou nos chamados smartphones, esses aparelhos portáteis que nos permitem falar com amigos distantes (e ignorar os que estão nas proximidades), trocar mensagens e consultar qualquer coisa na internet, o pedacinho de papel tem pouco significado.

Para um velho rato de biblioteca como eu, porém, é um objeto precioso. Especialmente este, que ostenta como ilustração um grande ponto de exclamação acompanhado de mensagem pra lá de significativa: “A exclamação é como uma roupa especial: é só colocar para deixar tudo mais vibrante”.

Propaganda de uma livraria, o papelucho tem ainda uma frase exclamativa apropriada para a ocasião:

– Transforme períodos simples do dia em exclamações!

Comecei a praticar no mesmo instante:

– Obrigado! – disse ao homem, forçando um pouco a tonalidade da última sílaba, para que ele percebesse a pontuação. Em seguida, a pedido de outras pessoas que estavam na mesa, li em voz alta o conteúdo da mensagem. Uma senhora presente exclamou sem qualquer intenção de fazer graça:

– Que lindo!

E dizer que o ponto de exclamação já esteve praticamente abolido nas Redações de jornais! Em mais de um manual de redação jornalística constam advertências desse tipo: “Por ser um sinal de pontuação que veicula ordens ou uma forte carga emotiva, nunca deve ser utilizado pelos jornalistas em textos noticiosos, e muito menos em títulos.

A força de um acontecimento jornalístico deve ser decorrência da própria dramaticidade e não de recursos de estilo”. Trabalhei certa vez numa publicação em que o referido sinal gráfico só podia ser utilizado com autorização expressa do diretor. Haja autoritarismo!

Como expressar surpresa, indignação, admiração, entusiasmo, súplica ou ordem sem grafar o simpático ponto exclamativo que, segundo o poeta João Cabral de Melo Neto, tem alma dionisíaca? E olhem que não me considero um exclamador habitual. Sou bastante contido quanto a manifestar emoções e detesto dar ordens. Economizo até mesmo interjeições.

No máximo, deixo escapar um “Ufa!” quando estou muito cansado. E guardo sempre no fundo da alma uma outra, já meio antiga, para manifestar alegria e gratidão pelo carinho dos meus leitores.

Maravilha!


9 de março de 2013 | N° 17366
PAULO SANT’ANA

Sarças de Fogo

Ando preocupado com minhas interlocuções, isto é, com as minhas conversas com outras pessoas. Ou melhor, diálogos.

É que tenho notado um grave defeito entre algumas pessoas que falam comigo: enquanto eu estou falando, a outra pessoa não presta atenção no que digo porque fica concentrada no que ela vai dizer a seguir.

Se não presta atenção no que digo, a interlocução resta prejudicada.

Mas é um defeito grave que algumas pessoas têm.

Vou ser sincero, eu também posso ter defeitos, só que me cabe notar os defeitos dos outros. Os meus, cabe a eles censurar.

Não é muito fácil se portar bem num diálogo ou interlocução. O egocentrismo é o ponto central nas pessoas que não sabem se portar bem num diálogo.

Essa de não prestar atenção no que o outro está dizendo por estar engatilhando o assunto que vai introduzir a seguir é o mais frequente defeito na interlocução.

Em suma, estou falando de uma coisa que sempre foi abordada por todo mundo: é necessário ouvir numa conversa, só falar é intempestivo e também pode ser falta de educação.

A esse respeito, tenho repetido muito, nos debates de que participo, uma frase célebre do grande Winston Churchill: “Não me interrompe enquanto eu estiver te interrompendo”.

Churchill, por egocentrismo ou por brilhantismo adequado, devia pertencer a uma classe muito frequente de pessoas que tomam conta da conversa e não deixam os outros falar.

Cá para nós, se tivesse o destino me dado a ventura de ter conversado um dia com Churchill, faria de tudo para que só ele falasse na conversa comigo, eu me encantaria em ficar calado a escutar aquele gênio da raça anglo-saxã.

Esse fenômeno que estou abordando se multiplica por 1 milhão quando acontece nos programas de entrevistas no rádio e na televisão em que determinados apresentadores falam sempre mais que os entrevistados.

A impressão que deixam os entrevistadores é de que os entrevistados foram convidados ao programa apenas para servir de bonecos inertes para permitir o brilho dos entrevistadores.

E até mesmo quando os entrevistadores são brilhantes, o que não é lá muito comum, o programa se torna maçante para os ouvintes e às vezes até revoltante. Tudo por culpa, como sempre, do egocentrismo.

O Cândido Norberto, saudoso companheiro e amigo, que por sinal foi quem cometeu o pecado de me descobrir para o jornalismo, era daqueles que falava mais do que os entrevistados.

Um dia, Cândido convidou para ser entrevistado por ele no Sala de Redação, programa de que foi o criador, o escritor Josué Guimarães, com a finalidade de lançar seu novo livro.

O Josué entrou no estúdio e ficou esperando a sua vez. Mas esperou quase uma hora, não disse uma palavra, só escutava o Cândido. Até que por fim o Cândido lascou no microfone: “Josué, estamos chegando ao final do programa, mas, afinal, qual é o nome do teu novo livro?”.

E o Josué respondeu: “Cândido, muito obrigado por teres permitido que eu pelo menos dissesse aqui o nome do meu livro, é Sarças de Fogo”.

Ato contínuo, o Cândido encerrou o programa.


09 de março de 2013 | N° 17366
CAPA ZH

O que o olhos não veem, o corpo sente

Diferentemente da intolerância à lactose, que é mais fácil de identificar pela presença de leite nos alimentos, o glúten é invisível. O arroz branco, por exemplo, não contém a proteína. Contudo, se a pessoa que prepara decidir temperá-lo com o acréscimo de um tablete de caldo industrializado, a chance de apresentar glúten é enorme, pois grande parte desses produtos contém tal proteína. Esse é um desafio de muitas pessoas que têm a doença.

Presidente da Associação dos Celíacos do Brasil (Acelbra-RS ), Ana Paula Carneiro Monteiro diz que falta atenção aos intolerantes, tanto nas opções de restaurantes, na venda dos produtos e na compreen­são das pessoas em relação à doença.

Segundo ela, a legislação obriga os fabricantes de alimentos a informarem na embalagem se o produto contém glúten ou não. Mas, em relação ao leite, não há nenhum tipo de regulamentação. Outra questão que costuma pegar muitas pessoas com intolerância desprevenidas são os remédios contendo lactose.

– É um direito do consumidor receber informações sobre medicamentos – afirma.

Para evitar problemas, sempre que vai jantar fora, Ana Paula telefona para o restaurante para se assegurar de que haverá opções para celíacos. Outra situação que requer cuidados básicos são os hotéis. Quando viaja, ela manda e-mail para garantir o café da manhã.

Os riscos de uma intoxicação estão em todo o lugar. Católica praticante, Ana Paula enfrenta problemas até na missa, já que a hóstia leva trigo. Na hora da Santa Ceia, ela se limita ao vinho.


09 de março de 2013 | N° 17366
CAPA ZH

O que o olhos não veem, o corpo sente

Diferentemente da intolerância à lactose, que é mais fácil de identificar pela presença de leite nos alimentos, o glúten é invisível. O arroz branco, por exemplo, não contém a proteína. Contudo, se a pessoa que prepara decidir temperá-lo com o acréscimo de um tablete de caldo industrializado, a chance de apresentar glúten é enorme, pois grande parte desses produtos contém tal proteína. Esse é um desafio de muitas pessoas que têm a doença.

Presidente da Associação dos Celíacos do Brasil (Acelbra-RS ), Ana Paula Carneiro Monteiro diz que falta atenção aos intolerantes, tanto nas opções de restaurantes, na venda dos produtos e na compreen­são das pessoas em relação à doença.

Segundo ela, a legislação obriga os fabricantes de alimentos a informarem na embalagem se o produto contém glúten ou não. Mas, em relação ao leite, não há nenhum tipo de regulamentação. Outra questão que costuma pegar muitas pessoas com intolerância desprevenidas são os remédios contendo lactose.

– É um direito do consumidor receber informações sobre medicamentos – afirma.

Para evitar problemas, sempre que vai jantar fora, Ana Paula telefona para o restaurante para se assegurar de que haverá opções para celíacos. Outra situação que requer cuidados básicos são os hotéis. Quando viaja, ela manda e-mail para garantir o café da manhã.

Os riscos de uma intoxicação estão em todo o lugar. Católica praticante, Ana Paula enfrenta problemas até na missa, já que a hóstia leva trigo. Na hora da Santa Ceia, ela se limita ao vinho.


09 de março de 2013 | N° 17366
CLÁUDIA LAITANO

Um homem fora do lugar

Somos o país da gambiarra ideológica. Quem sacou a inclinação brasileira para o “gato” de ideias foi o crítico literário Roberto Schwarz. Escrevendo sobre o Brasil do século 19, Schwarz mostrou como o país da escravidão e da desigualdade extrema estava aquém das elegantes ideologias liberais que, assim como os vestidos das senhoras mais exigentes da época, costumavam ser importadas da Europa.

O crítico chega a usar a expressão “comédia ideológica” para descrever a tentativa de enfiar um Brasil atrasado, analfabeto e escravagista na fatiota desconfortável do liberalismo político e econômico – que, obviamente, pressupunha conquistas básicas como liberdade de trabalho, igualdade perante a lei e universalismo.

O teste da realidade e da coerência, escreve Schwarz, não parecia necessário para os senhores que defendiam a liberdade em praça pública e os escravos dentro de casa. Eram ideias fora do lugar. Por fora bela viola, por dentro pão bolorento.

Quase 40 anos depois da publicação do livro Ao Vencedor as Batatas (1977), que inclui o clássico ensaio Ideias Fora do Lugar, e mais de 120 depois da abolição da escravatura, o Brasil continua ensinando ao mundo como adaptar o céu das boas intenções ao pedregoso purgatório da realidade.

Pega-se uma ideia lustrosa como a defesa dos direitos humanos, baseada no princípio de que todos os homens nascem iguais em dignidade e em direitos e devem agir uns para os outros em espírito de fraternidade, e cria-se para ela uma comissão no Congresso Nacional – o que, imagina-se, deve fazer bonito em relatórios internacionais e em discursos de campanha nos rincões mais civilizados.

Criada a comissão, algum espírito suíno-pragmático percebe que, por mais que a ideia lustrosa pegue bem em determinados ambientes, não é tão relevante assim como moeda política. Abandona-se a comissão, então, não apenas à própria irrelevância, o que já seria ruim o suficiente, mas à porta daqueles a quem, desde o princípio, a comissão contradiz em essência.

Como se a Princesa Isabel entregasse a redação da Lei Áurea a um senhor de escravos. Ou o próximo conclave chegasse à conclusão de que Richard Dawkins, afinal, até que daria um bom papa.

Graças ao YouTube, qualquer um pode iniciar-se na vida e na obra do deputado Marco Feliciano (PSC-SP), novo presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, que responde a processos por estelionato e homofobia. Aviso, porém, que as pregações do pastor presidente da Igreja Catedral do Avivamento não são recomendadas para os fracos de estômago.

Assim como os relatórios da ONG Todos pela Educação divulgados esta semana, que revelaram quedas em índices de aprendizado já suficientemente vergonhosos, a escolha para um fórum de direitos humanos de um homem que não apenas pensa torto, mas tem coragem de defender ideias discriminatórias em público mostra que, no Brasil, o que está ruim sempre pode tornar-se infame.

sexta-feira, 8 de março de 2013



08 de março de 2013 | N° 17365
ARTIGOS - Lícia Peres*

Acerto de contas

Às vésperas da comemoração do 8 de março – Dia Internacional da Mulher –, uma importante e inédita sentença da Justiça Federal contribuiu para o combate à violência doméstica, uma vergonha nacional, a desafiar governo e sociedade.

Trata-se da decisão do juiz federal Rafael Wolf, de Lajea-do, que responsabilizou financeiramente o assassino da ex-mulher, condenando-o a devolver o valor das pensões pagas pelo INSS aos filhos da vítima.

Enquadrado pela Lei Maria da Penha – considerada, no gênero, uma das três mais importantes do mundo –, Hélio Beckmann, que matou a facadas Marta Iraci Rezende da Silva, em Teutônia, Vale do Taquari, condenado em 2012 a 22 anos de prisão, agora também será obrigado a arcar com parte do custo financeiro do seu crime, até que os dois filhos da vítima completem 21 anos. Nada mais justo: pagar com o cumprimento da pena e ser compelido à reparação pessoal das vítimas, no caso, seus dependentes.

Em entrevista concedida ao jornal Zero Hora (27/02), Maria da Penha, inspiradora da lei que leva seu nome e que transformou seu sofrimento em incansável energia para o enfrentamento da violência contra todas as mulheres, considerou importante a iniciativa judicial, pelo seu conteúdo educacional e pedagógico.

A magnitude do problema é divulgada por inúmeras estatísticas.

Números do Anuário das Mulheres Brasileiras 2011, divulgado pela Secretaria de Políticas para as Mulheres e pelo Dieese, mostram que quatro entre cada 10 mulheres brasileiras já foram vítimas de violência doméstica.

Dados da Central de Atendimento à Mulher (Ligue 180) revelam aumento da formalização das denúncias. Os atendimentos da central subiram de 43.423 em 2006 para 734 mil em 2010, quase 16 vezes mais.

O Mapa da Violência 2012 mostra mais de 43 mil mulheres assassinadas em 10 anos no país. No RS, dados oficiais apontam que 1.223 mulheres foram estupradas em 2012.

A agenda do movimento feminista inclui um chamamento permanente à indignação, denunciando os agravos perpetrados e pressionando pela condenação dos agressores de mulheres.

Constatamos, porém, a escassez de recursos para a implementação dos programas de combate à violência de gênero que possam garantir o cumprimento efetivo da Lei Maria da Penha, que tipifica e define a violência doméstica e suas diversas formas: física, psicológica, sexual, patrimonial e moral. Em meio a tantas dificuldades, é preciso saudar a decisão pioneira do juiz de Lajeado.

E que esse acerto de contas, além de contribuir para inibir os agressores, auxilie na conscientização da sociedade em relação a valores de respeito à vida e à dignidade das mulheres.

*SOCIÓLOGA



08 de março de 2013 | N° 17365
ARTIGOS - Ari Riboldi*

Por uma mulher cidadã

A luta da mulher por autonomia é antiga. Em muitas culturas, continua sendo escrava, submissa ao homem. Na Idade Média, era apenas um animal doméstico, reprodutora. A que ousasse ter orgasmos era considerada pecadora, com o diabo no corpo. Ainda hoje sofre preconceitos, discriminações. Precisa provar diariamente a competência profissional.

Exerce funções subalternas, tem salários inferiores ao homem. Responde pela alcunha de “sexo frágil”. A linguagem reflete essa condição feminina, pois é fruto da visão machista, dominadora. As palavras dizem tudo: a cultura, o modo de pensar e agir. Acompanhe essa realidade em algumas expressões sobre a mulher, com a respectiva definição e origem.

Ver passarinho verde é frase antiga que denota a total submissão feminina. Na tradição popular, quem viu passarinho verde não consegue esconder o grande contentamento, fruto de mensagem amorosa. Na literatura antiga, há relatos em que pássaros verdes, como os periquitos, eram usados para levar bilhetes entre os noivos.

Somente os moços podiam mandar recados. Jamais a iniciativa podia partir da moça. Seria leviana, oferecida. Cabia-lhe apenas esperar o bilhete, mesmo que o coração ardesse em paixão. Em nosso meio, ante o sorriso largo até as orelhas de uma mocinha faceira que, repentinamente, denuncia grande contentamento, os mais velhos lhe dirigem a pergunta que traz consigo quase uma exclamação: “Viu passarinho verde?!”.

Idade da loba corresponde à mulher de 40 anos, quando, supostamente, atingiria a maturidade e tornar-se-ia dona de seu nariz. Há, todavia, certa confusão nesse conceito. Idade da loba significa, na prática, um novo modo de ser da mulher, um novo estilo de vida, um novo conceito de mundo, decorrente dos movimentos feministas e da liberação sexual, a partir da década de 1960.

Até então, somente o homem exercia o papel de lobo, de “caçador”, ficando a mulher numa situação passiva, à espera da investida masculina. Mais que ter 40 anos, reflete o comportamento de uma nova geração do sexo feminino, em função da mudança de costumes, do ingresso no mercado de trabalho, da conquista de direitos iguais aos homens e da busca de independência.

Chauvinista é o que demonstra cego entusiasmo pelas glórias militares e patriotismo ou grande devoção a uma pessoa ou causa. O termo vem de Nicholas Chauvin, soldado francês que exaltava as façanhas de Napoleão e, na sua fanática dedicação, acabou todo mutilado após vários combates.

A partir da década de 1970, com os movimentos feministas e a consequente liberação sexual da mulher, o adjetivo chauvinista assumiu sentido pejorativo, como sinônimo de machista. A expressão lavava a alma das feministas, pois denominavam os reacionários e incorrigíveis machistas com o título de porcos chauvinistas.

Esses indivíduos ainda existem em todas as camadas sociais. Alguns de gravata, disfarçados de cavalheiros. Há muito caminho a ser trilhado para a igualdade, de fato e de direito. Enquanto houver o dia da mulher, do índio, da consciência negra, Lei Maria da Penha, é sinal de que alguns podem mais e outros são esmagados. Sociedade injusta, hipócrita.

Quando a primeira mulher alcançou, pelo voto popular, a presidência da República, quis ela ser chamada “presidenta”, o que provocou reação de setores da mídia. Por que não “a presidente”, se é um substantivo comum de dois gêneros? – argumentaram. Até a gramática é machista, pois diz que o masculino sempre prevalece sobre o feminino. Abaixo a gramática, abaixo os machistas, abaixo os preconceitos. Por uma mulher emancipada, cidadã.

*PROFESSOR E ESCRITOR


08 de março de 2013 | N° 17365
PAULO SANT’ANA

Mulheres

Nada mais apropriado que, sendo hoje o Dia Internacional da Mulher, eu arrole nesta coluna todas as mulheres que foram nesta vida significantes para mim.

A começar por minha mãe, que morreu quando eu tinha apenas dois anos de idade, daí que carrego um estigma terrível: não me lembro da figura da minha mãe.

Mas em breve não há dúvida de que me encontrarei com ela, no céu, lugar merecido, é certo, por minha mãe.

A seguir apareceram em minha vida de criança as minhas duas tias, irmãs de meu pai, Nila e Lita, que me criaram até os nove anos. Foram elas que embalaram o meu destino.

Depois, meu pai casou-se de novo e surgiu minha madrasta, dona Zica, a minha primeira cozinheira, que lavava minha roupa e engraxava os meus sapatos com aqueles cuidados de uma verdadeira mãe.

Bem mais tarde, apareceu em minha vida minha ex-mulher, Ieda, com ela tive dois filhos mimosos, entre eles uma mulher importante em minha vida, minha filha Fernanda. Ieda foi também importantíssima em minha vida.

Depois, surgiu minha segunda e atual mulher, creio que última: Inajara. A esta mulher coube o papel mais espinhoso: cuida da minha velhice, administra as minhas manias, vela os meus desmazelos e serve, nas noites e nas madrugadas, de minha enfermeira. Com ela, tive e tenho uma filha, Ana Paula, hoje com 25 anos, filhinha querida do papai.

Essas foram as mulheres centrais da minha vida. Mas há tantas outras mulheres fulcrais em minha vida, como as minhas dentistas, as minhas médicas, as minhas enfermeiras, que me assistiram em mais de uma dezena de cirurgias que sofri. Todas elas foram devotadas comigo, nunca jamais as esquecerei.

E nesse intermezzo surgiram algumas namoradas minhas, que não foram inúmeras, mas também não foram poucas.

A mais ilustre de todas, conheci-a em Tapes, no período mais feliz da minha vida, como esquecer aqueles olhos grandes e azuis que me pareciam as janelas do céu?

E tantas e tantas outras mulheres passaram pela minha vida, sendo para mim tocantes ou até mesmo as que não me tocaram.

Você, que é meu leitor ou minha leitora, quantas mulheres já foram importantes na vida de vocês? Não tem conta.

A mulher foi criada por Deus para sublimar a vida. Tanto que a mãe de Deus, a Virgem Santíssima, Maria, a advogada nossa junto a Deus, foi escolhida para se emparceirar com a Santíssima Trindade e inocular fé e esperança nos corações da humanidade.

Portanto, no Dia Internacional da Mulher, mando um abraço a todas as mulheres e lembro que escrevi dias atrás que dia haverá em que o Vaticano escolherá uma papisa.


08 de março de 2013 | N° 17365
DAVID COIMBRA

O que o homem busca na mulher

Há algo que busco nas mulheres, e que todos os homens buscam, mesmo que não saibam. É um sentimento que as exalta.

Não, não me refiro ao desejo carnal, embora, claro, uma mulher possa ser objeto de desejo, e isso não a diminui; ao contrário, também a exalta.

É lindo ver uma mulher exercendo o seu fascínio sobre os homens. Queria ter testemunhado os momentos em que Cleópatra enfeitiçou os dois estadistas mais poderosos do seu tempo, dando um filho a um e a morte a outro; ou a dança de uma Salomé, tão sedutora, que valia a cabeça de um santo; ou até as orgias da loira Messalina, que à noite metia-se debaixo de uma peruca morena e ia se oferecer por poucos sestércios sobre um tamborete na Suburra, o bairro do pecado de Roma.

Mas não são os poderes do sexo que mais elevam a mulher para os homens. Tampouco é a atualmente tão celebrada capacidade que a mulher tem de ser múltipla – mãe, esposa, profissional, aquela conversa de comercial de TV.

E, ainda que as valorizem, os homens não distinguem em especial as sólidas mulheres que conquistaram o poder, uma Dilma, uma Angela Merkel, uma Tatcher, ou uma das antigas soberanas, como Elizabeth I, que se proclamava a Rainha Virgem não porque não levasse homens para a cama, mas porque os quisesse longe do trono.

Não.

O sentimento que define a mulher é a compaixão. É o sentimento estrutural da maternidade. Não que a mulher precise ser mãe para sentir compaixão. Não precisa ter sido mãe, nem nunca ter sido tocada por homem, não precisa sequer ser mulher ainda, pode ser uma menina, em qualquer caso, o que um homem anseia que uma mulher tenha a lhe cimentar a alma é a compaixão.

Um pai pode inspirar coragem, pode dizer qual é a verdade da vida; a mãe, o que se espera dela é o consolo, e o consolo é mais importante do que a verdade da vida. Não é por outra razão que o soldado agonizante no campo de batalha grita pela mãe.

A mãe é a Pietà que Michelangelo eternizou no mármore mole de Carrara, é a Lacrimosa que Mozart eternizou nas cordas dos violinos e das gargantas dos corais de Viena. É a compaixão. O que eu quero, o que todo homem quer de uma mulher, é compaixão.