quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013



27 de fevereiro de 2013 | N° 17356
UMA RARA OCASIÃO

Vivendo a despedida de um papa

Enquanto outros pontífices saíram da Santa Sé apenas após deixar a vida, Bento XVI terá a oportunidade, hoje, de dar adeus
Despedida. Essa é a palavra que intriga católicos, jornalistas, padres, cardeais, fiéis e infiéis. Por quê? Porque papa não se despede.

– Papa apenas morre – disse ontem um padre brasileiro, em Roma.

Ou, no máximo, sofre um atentado, agoniza em público e... morre. Como João Paulo II. Mas não, papa não se despede.

É essa situação inusitada – a despedida de um papa vivo – que Roma e o mundo viverão hoje, a partir das 10h (6h em Brasília). Quando o pastor de branco, ungido para ser o 265º sucessor de Pedro, aparecer na praça do Vaticano, esse sopro de inquietação vai cortar, com o vento do inverno romano, centenas de milhares de pessoas ao longo da Via della Conciliazione. É uma inquietação travestida de espanto. Surpresa como a que tomou até o arcebispo emérito de Salvador, dom Geraldo Majella Agnelo, um dos cardeais que elegerão o sucessor de Bento XVI.

– O Papa está que não se aguenta fisicamente – confidenciou ontem, em entrevista a ZH, em seus aposentos no Colégio Pio-brasileiro, em Roma.

Na versão oficial, o Sumo Pontífice está o cansado – o peso dos 85 anos, a hipertensão, o marca-passo.

– Mas, da cruz, não se desce – alertou, com veemência, dias atrás, o cardeal polonês Stanislaw Dziwisz, secretário particular de João Paulo II.

Se o seu antecessor padeceu na cruz até o último suspiro, por que Joseph Raztinger descerá dela? Seriam motivos os escândalos que transformaram pastores de Cristo em lobos capazes de abusar de crianças? Ou a corrupção nas entranhas do clero? São perguntas que vão pairar nas mentes das 200 mil pessoas que deverão se despedir, na Praça de São Pedro, hoje, pela primeira vez em 598 anos, de seu papa.

O último que desceu da cruz foi Gregório XII, no século 15, para encerrar o cisma do Ocidente, quando a Igreja teve dois papas. Por iniciativa própria, livre de pressões, o mais recente foi Celestino V, em dezembro de 1294.

Desde que foi eleito, em 2005, Ratzinger se colocou como “um humilde operário da vinha do senhor”. Não foi peregrino como o antecessor. Fechou-se na Cúria Romana, acusam alguns. Mais cerebral do que espetaculoso.

O fato é que Bento XVI abre um precedente que põe em xeque o futuro da Igreja em questões como a infalibilidade do papa e até a própria sucessão .

RODRIGO LOPES | ENVIADO ESPECIAL/CIDADE DO VATICANO

Próximos passos

A um dia da renúncia, o Papa se prepara para se retirar em oração e estudos. Será “papa emérito”. Leia o que virá agora:
- Após duas semanas, o Vaticano indicou ontem o próximo título de Joseph Ratzinger: “Sua Santidade Bento XVI, Papa Emérito”.
- O Papa se prepara para a audiência-geral de hoje, seu último encontro com os fiéis. Também organizará seus papéis nos cômodos que irá deixar. Vai separar os documentos sobre o papado dos pessoais.
- Para a última audiência, 50 mil ingressos foram reservados, sem mencionar a multidão na Praça São Pedro.
- Ratzinger fará um passeio mais longo que o habitual no papamóvel.
- Seu secretário, Georg Gänswein, lerá mensagens de todo o mundo.
- Em seguida, haverá audiência na Sala Clementina para pessoas como o presidente eslovaco Ivan Gasparovic.
- O Papa concluirá suas tarefas amanhã às 19h locais (16h de Brasília).
- Bento XVI, após a renúncia, vestirá uma batina branca papal diferente da utilizada pelos papas. Não usará sapatos vermelhos, mas marrons.
- Na manhã seguinte, o decano do Colégio de Cardeais, Angelo Sodano, fará discurso de despedida, e cada cardeal se despedirá separadamente.
- No mesmo dia, Sodano enviará convites aos cardeais para as “congregações” prévias ao conclave. Devem começar depois de segunda-feira.
- O Papa irá para o heliporto do Vaticano às 16h. Viajará a Castel Gandolfo, 25 quilômetros ao sul de Roma, residência de verão do Papa, onde passará dois meses, antes de ir viver em um mosteiro no Monte do Vaticano.
- Chegará à residência de verão e, da varanda, saudará os fiéis: será sua última aparição como chefe da Igreja.
- Às 20h, a Guarda Suíça encerrará o serviço reservado ao Papa. A polícia fará a segurança do Papa Emérito.
- O conclave será iniciado a qualquer momento, antes do dia 15 de março.
- O novo papa será escolhido até a Páscoa, em 31 de março.


27 de fevereiro de 2013 | N° 17356
SANTA MARIA, 27/01/2013

A tragédia um mês depois

No dia 27 de janeiro, os brasileiros acordaram sob o impacto do incêndio que atingiu a boate Kiss, em Santa Maria, asfixiando dezenas de frequentadores. A contagem chegaria a 239 mortos.

Hoje se completa um mês, e continua difícil de acreditar.

A lembrança das vítimas ainda comove, os exemplos de abnegação e heroísmo seguem colhendo aplausos, os atos de negligência que levaram à tragédia chocam cada vez mais. Neste caderno, Zero Hora revisita essas experiências por meio de histórias, personagens e detalhes inéditos.

Se as emoções geradas pela tragédia persistem, há algo que começa a provocar uma mudança no país. A sociedade não aceita mais que a irresponsabilidade, o descaso e a improvisão ceifem vidas e fiquem impunes. E cobra uma investigação minuciosa sobre as causas e a responsabilização dos culpados. Ainda que a dor seja permanente, Santa Maria deixou esse legado.


27 de fevereiro de 2013 | N° 17356
BOLA DIVIDIDA | LUIZ ZINI PIRES

Um clube na contramão

Os jogadores do Atlético-PR não falam com a imprensa?

Isaias Bessa – Não, nada, nem uma palavra. A proibição partiu do presidente do clube, Mário Celso Petraglia. Os jogadores não dão mais entrevista antes ou depois dos jogos. Não existe mais coletivas. A imprensa nem entra mais no CT do clube.

Qual a razão?

Bessa – Não sei, ninguém sabe ao certo. O Petraglia se julga maior do que Deus. Ele deseja controlar tudo. A TV não exibe os jogos disputados em Curitiba, mas as rádios podem transmitir nos estádios. Só que não há entrevistas. Ninguém fala. A torcida está revoltada. Não sabe mais o que acontece no Atlético-PR. O Paulo Baier pediu desculpas por não ter falado com os repórteres em uma festa beneficente na nossa capital. Imagina, nem nas festas os jogadores podem falar livremente.

O que a ACEP pretende fazer?

Bessa – Agora, vamos entrar na Justiça. Eu sei que o Petraglia liberou os jogadores para dar entrevistas em uma rádio comunitária local. Mas não está certo usar apenas um microfone. Ela já havia criado uma rádio do clube, que funciona na internet. Vamos buscar nossos direitos.

Radicalizou?

Bessa – Ele (Petraglia) proibiu um repórter de uma rádio paranaense de entrar nos estádios em jogos do Atlético-PR. Fomos à Justiça. Ganhamos. Caso o clube impeça a sua presença, deverá pagar uma multa de R$ 50 mil. Só que o profissional, que era setorista do Atlético-PR, hoje cobre o Coritiba. Ficou uma situação desconfortável para todos.

Mas a construção da Arena da Baixada (foto acima) vai bem?

Bessa – Vai mal, muito mal. Dos 12 estádios da Copa de 2014, é o mais atrasado. O clube se endividou. Guindastes foram retirados do estádio por falta de pagamento. Olha, Curitiba pode perder as partidas do Mundial. O risco é sério.

Visita oficial

Francisco Novelletto e Luciano Hocsman, da FGF, foram recebidos pelo vice-presidente da CBF, Marco Polo Del Nero, no Rio. Os dois dirigentes gaúchos queriam saber mais detalhes sobre a partida entre Brasil e França, dia 9 de junho, na Arena.

Ouviram que tudo será definido no mês que vem, mas o amistoso está confirmado. Agora aguardam uma visita do presidente José Maria Marin a Porto Alegre.

Novelletto e Hoscsman voltaram impressionados com a confiança que a dupla Marin e Del Nero deposita no trabalho de Luiz Felipe Scolari na Seleção.

Sorteio duplo
A FGF define amanhã os nomes dos árbitros que atuarão nos dois jogos das semifinais da Taça Piratini, o primeiro turno do Gauchão. O departamento de arbitragem deseja ver os mais experientes em ação. Pensa sortear ao mesmo tempo o juiz da final, dia 10. Um dos nomes certos é Leandro Vuaden (Fifa), que dirige hoje, no Equador, Barcelona, de Guayaquil, e Boca Juniors, pela Libertadores.

Espionagem
Quando era técnico do Barcelona (2008/2012), Pep Guardiola contratou uma agência de detetives para seguir jogadores fãs de festas noturnas, como Piqué (com Shakira), Ronaldinho, Deco e Eto’o.


27 de fevereiro de 2013 | N° 17356
PAULO SANT’ANA

Um arranjo primário

O caso da morte de um menino de 14 anos no jogo do Corinthians na Bolívia continua dando pano para manga.

Estão presos na Bolívia 12 torcedores do Corinthians, as autoridades bolivianas supõem que entre eles esteja quem disparou o sinalizador que causou a morte do garoto.

Nunca pensei que um sinalizador luminoso desses pudesse ter tal ação mortífera. Mas teve.

A questão é que agora um menor brasileiro, com 17 anos, se apresenta como autor do disparo. E se apresenta aqui no Brasil, confessando que foi ele quem atirou o sinalizador assassino.

As autoridades bolivianas, penso, não vão cair nessa balela. Mesmo que esse menor confesso esteja falando a verdade, todas as tintas dessa confissão parecem ter cores falsas.

A começar pelo fato de que o menor confesso é inimputável, isto é, não pode ser atingido pela lei penal, que aqui no Brasil só pune quem for maior de 18 anos.

Ora, seria muito fácil para qualquer advogado arranjar uma pessoa que se autoacusasse, ainda mais uma pessoa inimputável. Muito fácil, visando inocentar os 12 presos corintianos que mofam por enquanto nos xadrezes bolivianos.

Tudo tem a aparência de uma esparrela. Talvez quem arranjou esse novo culpado não tenha calculado que na Bolívia a maioridade penal começa aos 16 anos, o que viria a atingir o autor confesso arranjado.

Ainda assim, é de todo impensável que o Brasil extraditasse o menor para responder a processo na Bolívia. O Corinthians já foi punido pelo fato, jogará todas as partidas pela Libertadores, no Brasil, com os portões fechados, isso no campo esportivo.

Mas quem pagará pela morte lamentável da criança boliviana? Como sempre, é muito difícil elaborar a Justiça.

Os métodos de Justiça empregados pelos humanos muitas vezes são precários. Nesse caso, tudo se encaminha para a não solução.

Ou para a injustiça.

Tudo porque engendraram uma maneira de libertar os corintianos que estão presos lá, mas não dão nada, nada, em troca.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013



26 de fevereiro de 2013 | N° 17355
FABRÍCIO CARPINEJAR

Bendita

Palavra tem sentimento, muda o destino do casal. Um termo errado nos precipita ao desterro, o termo certo nos conduz ao paraíso. Falar não é um detalhe para as mulheres que nasceram para ouvir. É trocar um adjetivo, que renovamos o alvará do amor. Não podemos, homens, nos dar ao luxo da preguiça. A sedução é trabalho diário e incansável. Cultive o dicionário, colecione vocábulos, sente na gramática.

Não diga que ela é autoritária, diga que ela é uma liderança.

Não diga que ela é indiscreta, diga que ela é curiosa.

Não diga que ela mente, diga que ela possui uma imaginação poderosa.

Não diga que ela é estourada, diga que ela é corajosa.

Não diga que ela é atrapalhada, diga que ela é perfeccionista.

Não diga que ela é irritante, diga que ela é persistente.

Não diga que ela é consumista, diga que ela sabe escolher.

Não diga que ela é manipuladora, diga que ela é decidida.

Não diga que ela é dramática, diga que ela é emotiva.

Não diga que ela é vulgar, diga que ela ama a simplicidade.

Não diga que ela é imprudente, diga que ela é ousada.

Não diga que ela é ciumenta, diga que ela é interessada.

Não diga que ela é medrosa, diga que ela é sensível.

Não diga que ela cozinha mal, diga que sua comida é rústica.

Não diga que ela exagerou ao cortar o cabelo, diga que ela transpira independência.

Não diga que ela grita, diga que todos precisam ouvi-la.

Não diga que ela é agressiva, diga que ela é lutadora.

Não diga que ela é orgulhosa, diga que ela tem personalidade.

Não diga que ela é possessiva, diga que ela é cuidadosa.

Não diga que ela é mimada, diga que ela é uma princesa.

Não diga que ela não tem razão, diga que sua opinião é importante.

Não diga que ela sempre se atrasa, diga que admira sua calma.

Não diga que ela é confusa, diga que ela é misteriosa.

Não diga que ela é ambiciosa, diga que ela é sonhadora.

Não diga que ela entendeu errado, diga que você explicou muito rápido.

Não diga que ela é fofoqueira, diga que ela é bem informada.

Não diga que ela é obcecada, diga que ela não desiste.

Não diga que ela é maníaca, diga que ela é organizada.

Não diga que ela é gorda, nem tente encontrar um sinônimo, apenas não diga.


26 de fevereiro de 2013 | N° 17355
LUÍS AUGUSTO FISCHER

A causa do blogueira

Não tenho muito a acrescentar ao debate sobre a visita de Yoani Sánchez ao Brasil: sou cem por cento a favor de ela viajar, se manifestar, dar entrevista, escrever o que bem lhe parecer, direitos que eu exerço com gosto e que desejo seja partilhado por toda a humanidade; sou também a favor do direito de expressão dos que não vão com a cara dela, seja por que motivo for, mas é claro que não subscrevo a visão antidemocrática que preferiria que ela não pudesse dizer o que diz sobre o regime cubano, que cerceia liberdades fundamentais. Igualmente, lamento muito que Cuba não tenha sabido combinar avanços sociais importantes (saúde, esporte, educação) com liberdades democráticas.

Yoani nasceu em 1975 e ganhou este nome começado por “y”, como milhares, talvez milhões em sua geração; daí o blog chamar-se “Geração Y”. Fiquei pensando que o equivalente brasileiro seria talvez “Geração Éli”, ou “L”, tantas são as micheli, gabrieli, adrieli, francieli e similares, algumas dobrando o “l” e metendo também um “y” quando dá, tudo para tornar elegante e futuroso o nome, na opinião de quem acha isso elegante e futuroso, é claro.

Estatística que li certa vez dá conta de que o nome que mais aparece para homens no Rio Grande do Sul, para os nascidos nos anos 50 e 60, é Luís – o que poderia ter dado um “geração Luís”, se houvesse blogue naqueles tempos. Vindo ao mundo no auspicioso ano de 1958 (bossa nova e primeira Copa do Mundo para o Brasil, por exemplo), eu era menino quando a ditadura se instalou; cresci e comecei a me dar conta do mundo na virada dos anos 60 para os 70, e na adolescência tive minha chance histórica de militar contra a opressão política e as extremas desigualdades sociais brasileiras. E foi legal, pode crer.

O que é que foi legal? Algo parecido, em escala diversa, ao que acontece com Yoani e com os jovens brasileiros que a apuparam: a escolha de um inimigo para combater. Para a blogueira, é o regime de seu país; para os vaiadores, é ela, que expõe as fragilidades de sua utopia política, que prevê censura, ao que se percebe; para mim era a ditadura militar.

Ter o que atacar, nos ardores da juventude, é ter ar para os pulmões; ter um inimigo nítido ajuda muito mais. Como é isso para os atuais adolescentes? E como será a coisa para a geração da minha Dora, com seus três anos recém-feitos, e do meu Benjamim, que começou ontem seu primeiro ano escolar?


26 de fevereiro de 2013 | N° 17355
PAULO SANT’ANA

Flutuando no paraíso

Continuo em Jurerê, norte da ilha de Florianópolis, centro paradisíaco do mundo.

Pois, como já disse, estive certas vezes no Havaí e nas Bahamas e senti inacreditavelmente que a água do mar era fria, enquanto que aqui a água do mar de Jurerê é quente como chimarrão.

Vale a pena percorrer de carro 900 quilômetros, ida e volta de Porto Alegre, para vir recostar-se numa cadeira preguiçosa na beira do mar.

Antes de entrar na água, umas espigas de milho verde cozido caem bem, depois de comprar quinquilharias dos vendedores da praia.

E um sol benfazejo, com vitamina D, cai sobre o corpo da gente.

Caminho na praia, às vezes de bengala, as solas dos pés batendo na areia. Para alguma coisa, deve servir esse exercício.

Inspirado num filme que estava anteontem concorrendo ao Oscar, aproveito aqui o lado bom da vida.

A vida tem um lado bom e um lado torto. Atravessar o curso da vida nada mais é do que conciliar o lado bom com o lado torto. A banca paga e recebe, há que saber curtir as alegrias e suportar as tristezas.

Para se chegar à felicidade é sempre preciso ter de se defrontar com infortúnios.

Eu sinto assim que não fui posto na vida só para ser alegre, há momentos em que cumpre ser triste. Quem tiver essa noção filosófica possui melhores chances de ter uma boa vida.

O diabo é que, do veraneio do ano passado para cá, os preços aqui em Jurerê aumentaram em 30% contra uma inflação de apenas 6%.

Você vai a um restaurante ou quiosque e sente pesado o preço das delícias que eles oferecem.

Mas também há lugar em que se come comida a quilo e uma refeição normal custa R$ 18, com direito a carne da melhor qualidade, espaguete, feijão e salada variada.

Não dá para só comer camarão. De tão bom, enjoa. É preciso fazer um lastro com comida caseira.

Gozado, na vida a gente tem de comer todos os dias para manter o esqueleto de pé.


26 de fevereiro de 2013 | N° 17355
DAVID COIMBRA

O homem que não ri

Dida não ria. Lembro-me dele na Seleção Brasileira. O ambiente da Seleção em geral é uma festa. Todos ali estão felizes com a convocação. Naquele momento, encontram-se juntos os profissionais reconhecidos como os melhores do país em sua atividade. Então, essa reunião de talentos é uma alegria, é o rejúbilo da consagração.

Mas Dida nunca dava mostras de estar contente, mesmo sendo titular, mesmo sendo reconhecido como um dos melhores do mundo. Passava o dia sério, quase não falava. Muitos jornalistas o julgavam antipático. Eu, não. Sempre respeitei sua reserva como um traço de personalidade. Alguns são mais calados, pronto. Isso não significa que sejam hostis.

Uma vez, já contei isso, mas vou contar de novo, porque cabe o exemplo, pois uma vez fui fazer uma matéria com o Olívio Dutra, quando ele era prefeito de Porto Alegre. Eu o acompanharia o dia inteiro. Olívio morava, e mora ainda, na Assis Brasil procelosa, num prédio modesto, moradia de trabalhadores, bancários como ele é, distante em tudo dos bairros elegantes da Capital. Ia todos os dias para a prefeitura de ônibus (hoje ele pedala uma bicicleta). O prefeito pingente de uma barra de metal do ônibus, aí estava um excelente mote para a reportagem.

De manhã cedinho, saí com o prefeito de seu prédio, entrei com ele no ônibus, seguimos impávidos até a Praça XV e saltamos no fim da linha. Enquanto ele caminhava, célere, em direção à prefeitura, o fotógrafo veio falar comigo:

– David, pede para ele sorrir, para sair bem na foto.

Fui lá falar com o Olívio, informei-lhe da solicitação do fotógrafo. Então, o prefeito olhou para mim e respondeu detrás do seu bigode, não sem candura:

– Mas eu não estou com vontade de sorrir...

Cara, adorei aquilo. Ali estava um homem autêntico. Ele sorria quando sentia vontade de sorrir e não por concessões à imagem exterior. Também não vejo mal em quem é de mais sorrisos, até prefiro, mas, se o homem não quer sorrir, que não sorria. Que não faça nada forçado.

Dida, suponho, não sorria por ser de fato uma pessoa grave. Talvez isso até o ajudasse na profissão de goleiro, sobretudo na hora de defender pênaltis, uma de suas especialidades. Imagino o atacante prestes a bater na bola, olhando para aquele gigante compenetrado, cenho fechado, até um pouco ameaçador. No momento do chute, o batedor tremia. E Dida fazia a defesa.

Cheguei a imaginar que a seriedade de Dida se devia às agruras do ofício. Porque o goleiro é o antifutebol, é o homem que luta para que não aconteça o que todos querem que aconteça: o gol. O goleiro, em essência, é a nêmesis da sua própria profissão. Então, a sisudez de Dida poderia ser filosófica. Ele não se iludia, por isso sofria em silêncio.

Tudo elucubração minha, claro. Mas o fato é que eu admirava a figura enigmática do Dida, por isso asseguro que não estou, agora, me posicionando atrás de uma das trincheiras erguidas ultimamente no Estado: a de Dida ou a de Marcelo Grohe. Nada disso, não estou alistado. Até porque esse confronto só existe na cabeça dos eventuais correligionários de um e outro.

E, é evidente, por causa do conjunto de opiniões do Sant’Ana, que é visceralmente contra a titularidade do Grohe, tanto que indicou Dida ao clube. Reafirmo, pois: não estou contra o Dida, nem contra o Sant’Ana. No entanto, a atuação de Dida no Gre-Nal me faz pensar se ele não estaria mal preparado.

Era um grande goleiro, nos tempos de Seleção, mas hoje passa insegurança. Errou em quatro escanteios, num deles saiu o gol do Inter, noutro a bola se chocou com o travessão. Não se portou como o velho Dida. Talvez precise de algum trabalho especial para se recuperar. E ele é capaz de conseguir tal recuperação. Um homem com sua seriedade é capaz de muito.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013



25 de fevereiro de 2013 | N° 17354
EDITORIAIS ZH

CHEIRO DE AUTORITARISMO

As manifestações agressivas contra a presença da blogueira cubana Yoani Sánchez no país, a intromissão dos embaixadores da Venezuela e de Cuba em assuntos estritamente brasileiros e o virulento ataque de lideranças do PT à imprensa no recente encontro do partido são sinais claros, evidentes e preocupantes da reativação de um radicalismo autoritário que parecia fazer parte do passado no Brasil.

Pelo jeito, estava apenas adormecido. Por conta da visão exacerbada desta militância anacrônica e de seus representantes no parlamento, até mesmo uma entrevista da dissidente cubana esteve para ser censurada na TV Senado, só indo ao ar por interferência direta do senador Eduardo Suplicy, que vem dando exemplos de sensatez e moderação em meio ao comportamento extremista de seus correligionários.

Se a iniciativa de impor ideias e ideo- logias no grito e no constrangimento partisse apenas de ativistas políticos, poderia ser creditada à normalidade democrática. Num regime de liberdades, todos têm o direito de se manifestar.

O preocupante é a constatação de que lideranças políticas do partido que está no poder também comungam desse pensamento único, discricionário e excludente. Foi o que se viu na reunião da cúpula petista na semana passada, em São Paulo, para celebrar o aniversário da sigla e os 10 anos no comando do país.

O evento marcou o lançamento da candidatura da presidente Dilma Rousseff à reeleição, mas também foi utilizado pelas principais lideranças da sigla para fustigar a oposição e para ataques à imprensa, especialmente aos veículos de comunicação que atuam com independência e criticam o governo.

Ao eleger a “grande imprensa” como inimigo, a direção do Partido dos Trabalhadores, respaldada pelo ex-presidente Lula, mostra dificuldade em aceitar o pluralismo e a liberdade de expressão como elementos intrínsecos da democracia.

No ambiente de corporativismo partidário do encontro da última quarta-feira, que contou inclusive com a presença de petistas condenados no processo do mensalão, até mesmo a presidente Dilma Rousseff deixou de lado sua histórica posição de apoio à liberdade de imprensa (“O único controle da mídia que eu proponho é o controle remoto na mão do telespectador”) para se alinhar ao coro dos insatisfeitos.

Esse clima de patrulhamento, conjugado ao início antecipado da campanha eleitoral para 2014, gera uma situação preocupante para o país, pois tende a legitimar as ações de grupos radicais que não respeitam quem pensa diferente. No momento em que o Brasil registra significativos avanços sociais e se prepara para encarar os desafios do desenvolvimento, seria de todo indesejável um retrocesso nas liberdades democráticas duramente conquistadas e defendidas pela maioria dos brasileiros.


25 de fevereiro de 2013 | N° 17354
LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL

Três livros

Passam os anos, passam as preferências do leitor. Um livro que nos encantou no passado hoje é relegado a um canto da estante, perigosamente próximo do descarte. Como dizia Terenciano, pro captu lectores habent sua fata libelli, isto é: segundo o gosto do leitor, cada livro tem seu destino. Até aqui, nada de original.

O que intriga é a persistência de alguns títulos. Teimam em perseguir nosso sono e nossas lembranças e atravessam incólumes as décadas. Não apenas os preservamos, como os promovemos a um lugar central da estante. Gostamos de saber que estão lá. Mesmo que não os frequentemos, é confortador saber que existem e que nos pertencem. Um desses é o clássico A Sangue Frio, de Truman Capote. Há pessoas que os leram várias vezes, e a cada leitura descobrem coisas novas.

Não tinha nada de especial para eternizar-se, pois é, na essência, a narração de quatro assassinatos cometidos na mesma ocasião por uma dupla de jovens. Enfim, seria algo para ler e dizer ao final: está lido. Eis uma sentença fatal, pois quando um livro não merece ser lido três vezes, não merece ser lido nenhuma vez. Isso vale também para um filme. A questão está no gênio de Capote, que transformou a história policial numa verdadeira tragédia grega.

Outro livro que fica para sempre na estante é A Senhora Beate e seu Filho, de Arthur Schnitzler, uma trama de amor e platônico incesto que termina de maneira inesperada. É impossível não ser tocado pela obsessão de uma jovem mãe por seu filho adolescente, capaz de fazê-la afrontar suas rivais até o ponto do desespero e do embuste. Poucas novelas encontram essa força.

E nesse caminho, ombreando com Schnitzler, está a pequena obra-prima A Fera na Selva, de Henry James, talvez uma das mais perfeitas obras publicadas no Ocidente. Nela, tudo faz sentido, tudo arrebata e apaixona. John Marcher e May Bartram vivem um amor que não querem reconhecer que existe. Quando John se dá conta de que esse amor sempre existiu, já é tarde, e a morte já dá seus primeiros passos.

Eis então três livros, três histórias que não saem da estante e de nossa alma. Por si sós, justificam a existência da arte, e mais ainda: da literatura e da vida.


25 de fevereiro de 2013 | N° 17354
PAULO SANT’ANA

Camarão ao molho de reservas

Estou em Florianópolis e vim assistir ao Gre-Nal aqui na Redação do Diário Catarinense. Estou escrevendo esta coluna tanto para Zero Hora quanto para o Diário Catarinense. Serei publicado hoje pelos dois jornais, pelo que pela primeira vez em minha vida esta coluna tem um caráter hermafrodita.

Faz três dias que flutuo entre delícias dos frutos do mar. Ontem comi um pastel de camarão divino na Praia do Forte, no quiosque do Lobo, o pescador.

Eu disse ao Lobo anteontem que o camarão estava muito pequeno. Ele me disse que eu esperasse, que no dia seguinte ele traria um camarão grande. E como veio grande ontem! Quase sempre, camarão grande é menos delicioso, pois esse tinha melhor sabor do que o pequeno.

O mar é azul e chega a ser maçante de tão quente a água lá em Jurerê. No Havaí e nas Bahamas, onde estive, a água do mar, creiam, estava muito fria. Pois aqui nas praias do norte da ilha catarinense a água é cálida como se fosse o molho da moqueca magistral que me servem à beira-mar.

Ora, este era o cenário propício para eu ver o Grêmio ter uma atuação no Gre-Nal que fosse compatível com sua auréola de grande vencedor do Fluminense.

Mas aí, entre tanto esplendor, culinário e de paisagem e meio ambiente, sobreveio-me a grande decepção: o Grêmio entrava em campo em Caxias com seu time reserva. Que decepção! Não dá para entender essa orientação esdrúxula do Grêmio.

Quase que Dida chegou na bola chutada de pênalti por Forlán: ele chegou a ir na direção do canto desejado pelo uruguaio, por centímetros Dida não atacou.

Não dá para entender por que o Grêmio jogou com os reservas. Nós, torcedores, mergulhamos num tremendo baixo-astral. O Luxemburgo não sente isso, conhece o Grêmio há pouco tempo. Então, ele nem liga para reservas ou titulares, mas nós sofremos na carne a impotência de jogar com os reservas e ver, por exemplo, o Welliton errar aquele gol feito de cabeça, com o goleiro Muriel já batido. Aquele é o tipo de gol errado por um reserva.

Mas o Luxemburgo não sofre nada com a derrota do Grêmio em Gre-Nal. Ele não é gremista, apesar de ser um grande treinador.

Então, Luxemburgo põe reservas num clássico e pouco se lhe dá o sofrimento da torcida tricolor.

Acho que sei por que duas cabeças privilegiadas como as de Fábio Koff e Vanderlei Luxemburgo chegam à conclusão de que o Grêmio tem de jogar dois, não é um só, já são dois Gre-Nais com os reservas.

É a forma que os dois encontram para deixar bem claro ao Inter e aos colorados que o Grêmio está vivendo um clima de ano superior ao do Internacional, participando da Libertadores, enquanto o rival vive apenas o mero Gauchão.

É uma espécie de flauta diretiva subjetiva, só queria que os dois pensassem na torcida, que é obrigada, literalmente obrigada, a torcer por um time reserva. Isso é desumano com a torcida.

E o Internacional, neste momento em que escrevo, fez o segundo gol por Moledo.

Falo por mim: considero um desaforo que me fizeram obrigar-me a trafegar 45 quilômetros para torcer por um Grêmio de reservas. Desaforo.

Se o Luxemburgo fosse gremista, é que ele ia ver o quanto dói qualquer derrota, embora nenhuma análise técnica, nenhuma, se possa fazer e ter alguma permanência ideológica em cima de um jogo de gato contra rato, titulares contra reservas.

Eu considero essa atitude do Grêmio um desvario. Já agora são dois os Gre-Nais perdidos pelo Grêmio este ano, ambos pelo escore de 2 a 1 e ambos jogados por reservas do Grêmio e titulares do Internacional.

Justo é que se conclua que, tivesse jogado com os titulares, o Grêmio teria muito melhor sorte nesses dois clássicos.

Mas, enfim, duas cabeças, duas sentenças, o Grêmio entende que deve jogar com os reservas e isso para mim é um absurdo, ainda mais que há folga ampla até o reinício da Libertadores.

Foi claro, pelo menos pela televisão, o pênalti cometido por Josimar em Douglas Grolli. Não menos claro foi o pênalti de Biteco sobre Forlán na primeira etapa. O juiz, portanto, não teve qualquer influência no marcador.

Continuarei mandando aqui de Florianópolis, esta terra de natureza abençoada por Deus, as minhas próximas colunas, até 1º de março. E vá camarão. E vá siri. E vá moqueca. E vá pastéis com todos os tipos de recheios marítimos.

Que vida! Mas tenho de fazer a coluna. É uma ciência viver bem sem deixar de trabalhar.


25 de fevereiro de 2013 | N° 17354
L. F. VERISSIMO

Brigadeiros

Cena: festa de aniversário de criança. Dois pais lado a lado.

– Você é o pai da...

– Da Laura. Você?

– Do Miguel. Aquele ali com a espada, batendo na... Miguel! Não se bate assim nas pessoas. Pede desculpa!

– Nós não nos vimos no...?

– No aniversário da Luiza.

– Certo. Estou me lembrando. Bolo de chocolate com amêndoas.

– Isso. E sorvete de creme.

– Sou eu que sempre trago a Laurinha nos aniversários.

– Sua mulher já desistiu...

– Não. É que eu gosto.

– Sabe que eu também?

– São um inferno, claro. É preciso ter paciência. Mas tem seu lado bom.

– Exatamente. Eu... Miguel! Me dá aqui essa espada! Você ainda vai quebrar alguma coisa!

– Eu sou tarado por brigadeiro de aniversário.

– Eu também! Brigadeiro e guaraná morno, tem coisa melhor?

– Notei que você pega dois brigadeiros cada vez que passa a bandeja mas não come. Põe de lado.

– Para comer depois dos cachorrinhos-quentes. De tanto vir a festas de aniversário com o Miguel, desenvolvi uma técnica. Primeiro como os cachorrinhos-quentes...

– Ou as empadinhas.

– Ou as empadinhas, ou os croquetes, e depois os brigadeiros.

Primeiro o salgado, depois o doce.

– O problema é que essas festas geralmente são desorganizadas. Servem os doces antes dos salgados. Não há nenhum critério. As crianças não ligam. A Laurinha não parou de comer brigadeiro desde que chegou. Ela é aquela ali, com o vestido marrom. Era branco quando ela saiu de casa, agora é marrom.

– Outra coisa. Só servem o bolo depois de cantarem o “parabéns a você” e assoprarem as velinhas.

– E nós aqui, namorando o bolo de longe. Do que você acha que esse é?

– Meu palpite é morangos com nata batida.

– Mmmmm...

– Mas vamos ter que esperar.

– Paciência...

– Olha, acho que estão vindo as empadinhas. E croquetes!

– Até que enfim...

– Miguel, desce daí!


25 de fevereiro de 2013 | N° 17354
DAVID COIMBRA

Coerência e autoridade

O Grêmio teve medo de perder com os titulares o Gre-Nal decisivo de Caxias do Sul. Perdeu com os reservas. Os ingressos estavam caros, entre R$ 70 e R$ 100. Resultado: imensos nacos de arquibancada vazios e gente assistindo ao clássico pendurada em telhados, no alto de ladeiras, de janelas de prédios e no cimo dos morros, ação facilitada pela situação geográfica do Estádio Centenário, incrustado no fundo de um vale da cidade. Não importa. Mesmo de longe, os caxienses puderam ver um jogo movimentado, atraente sobretudo para os que torciam para o Inter, que venceu por 2 a 1 com autoridade.

Essa autoridade o Inter demonstrou desde que seus jogadores fincaram as chuteiras na baixada do Centenário. Tratava-se de um time mais coerente. Não apenas porque estava com seus titulares, mas porque seu esquema era equilibrado. Havia ali um meio-campo com dois volantes atentos na marcação, Josimar e Ygor, um meia de muita movimentação, Fred, e outro posicionado para armar as jogadas para o ataque, D’Alessandro. Isso, esse meio-campo, foi a força do Inter no primeiro tempo.

Do outro lado, o Grêmio até tinha organização, no seu esquema com três zagueiros, o que não tinha era material para fazer o time funcionar. Em tese, o 3-5-2 é um sistema que libera os laterais. Bem, os laterais do Grêmio até que foram liberados, só que os laterais do Grêmio eram... Tony e Alex Telles.

Muitas vezes eles receberam a bola em condições de ir à linha de fundo e cruzar, ou de entrar na área e chutar, ou de driblar, ou de tabelar com os meias, sabe-se lá, mas não conseguiram – simplesmente porque não conseguem. Tony volta e meia chegou a pegar a bola e fazer menção de que partiria para o drible, mas entre a intenção e a execução havia sempre o pé do adversário. Alex Telles precisou se conter um pouco mais, porque o Inter vez em quando avançava pelo seu lado com Gabriel, mas, quando teve chance no ataque, tremeu. O velho medo de ser feliz.

Para fechar a roda de incapacidades do esquema gremista, os dois zagueiros que ladeavam Werley, Bressan e Grolli, são da estirpe de beques bem conhecidos da Serra Gaúcha. Não só pelos nomes de origem italiana, mas porque a jogada preferencial deles é o chutão para o alto. Nada contra a virilidade tradicional dos jogadores de defesa da Serra, mas, num 3-5-2, os zagueiros têm que saber jogar, e Bressan e Grolli não sabem.

Assim, o Grêmio dependia de algum lance fortuito, uma escapada, um contragolpe, uma bola parada. O Inter, não. O Inter pressionou com organização e, logo no começo, quase marcou. Aos quatro minutos, num escanteio da direita bem cobrado por Forlán, Dida escorregou e Juan cabeceou por cima. Três minutos depois, Dida falhou de novo, em novo escanteio, e Moledo, de puxeta, acertou a bola no travessão.

O Inter seguiu rondando a área do Grêmio, mas sem nela entrar. Adriano e Biteco faziam boa partida em frente à defesa, davam saída competente de jogo e, desta forma, aos poucos, o Grêmio foi equilibrando o jogo. Tanto que, aos 20 minutos, perdeu a melhor chance do primeiro tempo. Tony levantou a bola da direita e Welliton, sozinho, mas sozinho mesmo, abaixou-se para cabecear e colocou para fora. Um minuto depois, o mesmo Welliton vacilou diante da defesa do Inter e desperdiçou outra boa oportunidade.

A torcida do Inter começou a se enervar. Fred errou um passe e foi vaiado, os murmúrios se espalhavam pela arquibancada. Aí o árbitro interrompeu a partida para que os jogadores bebessem água. O Grêmio demorou um pouco mais, Luxemburgo aproveitou para dar instruções. Na retomada do jogo, a bola de repente surgiu na área do Grêmio, Forlán correu paralelo à linha da grande área e Matheus Biteco, na tentativa de pará-lo, o derrubou. Pênalti. Forlán cobrou aos 28 minutos e marcou 1 a 0.

Talvez o Grêmio tenha se perturbado um tanto com o revés, porque aquele entusiasmo com que o time se comportava nos últimos 10 minutos pareceu arrefecido. O Inter voltou a dominar o jogo e aos 31 minutos D’Alessandro quase marcou, chutando forte de direita, a palmo e meio do travessão.

No intervalo, Luxemburgo mudou o time: Bertoglio entrou no lugar de Bressan e Willian José no de Moreno. Era o fim do esquema com três zagueiros. O problema é que, logo no primeiro minuto, Dida falhou em outra cobrança de escanteio de Forlán, e o Inter por pouco não ampliou o marcador. Aos 12, mais uma cobrança de escanteio em que Dida ficou assistindo e então Moledo tocou de cabeça: 2 a 0.

Luxemburgo, na premência de buscar resultado, colocou em campo o outro Biteco, Guilherme, e tirou Welliton. O time ficou mais animado. Mas a superioridade era do Inter, que tocava a bola, enquanto a torcida gritava olé das arquibancadas de pedra do Centenário. Então, numa cobrança de escanteio, ocorreu o lance fortuito que o Grêmio esperava: Josimar empurrou Douglas Grolli e o árbitro marcou pênalti. Willian José converteu: 2 a 1.

Com Guilherme Biteco e Bertoglio o Grêmio estava mais agressivo, mas o jogo ainda era do Inter, sobretudo graças à movimentação inteligente de Forlán, sempre um perigo à defesa gremista, insinuando-se principalmente pelo lado direito. Ironicamente, o Grêmio também tinha um jogador livre pelo lado direito, só que não devido à sua inteligência, e sim porque ele foi, na prática, esquecido pelos demais jogadores.

Era Tony, que se posicionava na intermediária dentro das suas chuteiras amarelas sem que ninguém estivesse por perto. No entanto, ninguém lhe passava a bola. Quando passavam, ele não sabia o que fazer com ela.

O Grêmio dos Bitecos era mais valente, mas valentia não ganha jogo. O que ganha jogo é futebol. O Inter teve mais futebol. Ganhou. Mereceu ganhar.

domingo, 24 de fevereiro de 2013



Amor que se compra

Serviços de paquera atraem empresários, que ainda buscam modelos de negócios eficientes

Com a ajuda das redes sociais e da geolocalização, empresários estão tentando mudar a forma como as pessoas, muitas vezes de nichos específicos, encontram amor, sexo casual ou relacionamentos "de fachada" pela internet. Os desafios, entretanto, são atrair mulheres e achar modelos de negócio eficientes.

Em menos de um mês, o aplicativo Pegava Fácil, que permite que usuários do Facebook indiquem com quais amigos virtuais gostariam de "ficar" e avisa aos internautas quando o interesse é mútuo, atraiu 28 mil usuários, sendo 65% homens -mais de 2.000 potenciais casais foram formados no período.

O sistema é uma versão nacional mais comportada do aplicativo americano Bang with Friends (gíria em inglês para "faça sexo com amigos"). Josemando Sobral, 29, fundador da empresa 30ideas, responsável pelo aplicativo brasileiro, diz que algo tão "descarado" quanto o sistema americano não funcionaria no país. "Os brasileiros querem algo mais discreto. Um aplicativo para sexo não funcionaria bem, mas, sim, algo para a 'pegação'."

Sobral destaca que o objetivo é aumentar a base de usuários e faturar com campanhas patrocinadas. Mas, de acordo com Felipe Wasserman, professor do Centro de Inovação e Criatividade da ESPM, há modelos mais promissores.

"A oferta de serviços extras é que pode ser o diferencial para faturar com esse tipo de negócio", argumenta.

Ele diz que o desafio é atrair uma grande quantidade de usuários, para fazer com que o serviço se torne interessante, e tentar convencer uma parcela deles a pagar por certas ferramentas do sistema.

No caso do empresário Airton Gontow, 51, entre 8.500 internautas cadastrados em seu site, 1.700 aceitaram pagar R$ 37,90 por um pacote mensal para usar o serviço Coroa Metade.

O portal, lançado há dois meses, é voltado a mulheres a partir dos 40 anos e a homens a partir dos 45 anos.

"A proporção de assinantes foi menor do que eu imaginava. É que, no começo, o site parecia aquele barzinho lindo que acabou de ser aberto, mas estava sem mulher [frequentando], então as pessoas resolveram voltar depois."

Ele diz que teve a ideia de criar o serviço depois de conversas com amigos de sua faixa etária, que, mesmo sendo extrovertidos, tinham dificuldades para começar relacionamentos.

Uma das tendências dos negócios de relacionamento on-line é o uso da geolocalização, com aplicativos que usam o GPS de smartphones para fazer com que pessoas que estão próximas se encontrem. Um exemplo bem-sucedido desse tipo de aplicação, inclusive do ponto de vista do faturamento, é o Grindr, voltado ao público gay, que permite conversar com usuários que estão nas redondezas.

O sistema, lançado em 2009, tem 4,5 milhões de usuários -131,2 mil no Brasil (o oitavo país com mais cadastrados no aplicativo).

Cerca de 70% da receita do sistema vem da ferramenta paga, com mais recursos. O restante é produto da venda de publicidade, que também pode ser relacionada à localização do usuário.

"Queremos mostrar anúncios que sejam relevantes para as pessoas. Não faz sentido mostrar a propaganda de uma festa em Miami para alguém que está em São Paulo", diz Joel Simkhai, 36, presidente-executivo do Grindr.

ATENÇÃO FEMININA

Um levantamento feito neste ano pela empresa de pesquisas Flurry com 17 milhões de usuários desse tipo de ferramenta, inclusive no Brasil, mostrou que apenas 36% deles são mulheres.

Isso se reflete no volume de tempo gasto nesses aplicativos: enquanto a média para todos os públicos é de oito acessos por semana, com 21 segundos gastos em cada um, os gays fazem 22 acessos semanais e ficam 96 segundos, diz a empresa.

Para Mary Ellen Gordon, diretora da Flurry, esse fenômeno pode estar relacionado ao uso da geolocalização. "As mulheres podem se sentir menos confortáveis com isso por razões de segurança", afirma. "Isso é algo que os desenvolvedores podem resolver, dando [a elas] mais opções sobre quando relevar informações sobre onde estão."

Por causa desse receio, mesmo serviços mais tradicionais de paquera resistem em usar esse tipo de tecnologia em seus aplicativos móveis. "Elas querem ver fotos, visitar perfis de pessoas, mas mostrar a localização é algo que as deixa inseguras", diz Navin Ramachandran, presidente do Match.com para América Latina, que no Brasil opera como ParPerfeito.

E, se buscar um parceiro pela internet ou pelo celular não funcionar, também há empreendedores interessados em ajudar quem pretende fingir um relacionamento.

Em janeiro, a MSsites, de Mato Grosso do Sul, lançou o serviço Namoro Fake, que oferece aos homens a possibilidade de contratar uma "ficante" falsa para exibi-la em seu perfil no Facebook -pagando R$ 99 por mês, é possível escolher uma moça real que vai aparecer como namorada na rede social. A "companheira" fica com metade desse valor.

Por questão de segurança, o cliente não pode entrar em contato diretamente com a mulher. As mensagens são moderadas pela empresa.

De acordo com Flavio Estevam, 32, idealizador do sistema, há atualmente 2.000 meninas cadastradas para servirem de namorada falsa e também uma fila de espera de 2.000 rapazes interessados no sistema.

Ele diz que pretende lançar em junho a versão "namorado fake".

FELIPE MAIA


FERREIRA GULLAR

E a banda passou

Por toda zona sul do Rio, são multidões que já não dançam nem cantam, puxadas por trios elétricos

Passado o Carnaval, me ponho a refletir. No final da década de 1950, o Carnaval de rua, no Rio, havia morrido. À exceção do Cordão da Bola Preta e de um ou outro bloco, quase nada havia. É certo que alguns foliões mascarados, vestidos de palhaço, de urso ou vestidos de mulher, vagavam pela Cinelândia, misturavam-se a um ou outro grupo de gente que brincava na avenida Rio Branco.

Bêbados desgarrados sempre houve e haverá, mas o Carnaval de rua, com banda de música tocando e muita gente sambando, como décadas atrás, isso não havia mais. Por que, não sei, mas lembro das conversas de foliões nostálgicos, lamentando o fim desse tipo de brincadeira carnavalesca.

Foi então que, em Ipanema, surgiu um pequeno grupo que decidiu sair para a rua, batucando e cantando. Parece que a primeira aparição desse grupo foi em 1964, pouco antes do golpe militar que viria instaurar uma ditadura no país. Não era muita gente, não, dez ou 20 pessoas e alguns músicos, creio eu.

Nascia a Banda de Ipanema, inventada por Albino Pinheiro e Ferdy Carneiro, a que aderiram Jaguar, Ziraldo, a turma do Pasquim e do Jangadeiro, mas também Sérgio Cabral e o grupo que militara no CPC da UNE e depois no Teatro Opinião, encabeçados por Thereza Aragão. Com o tempo, outros mais aderiram.

O pessoal se reunia na praça General Osório, a banda começava a tocar chamando gente, aumentando o bloco que seguia pela Prudente de Morais até a altura do Bar Vinte, se não me falha a memória. Ali dobrava e retornava pela Visconde de Pirajá de volta à praça de onde partira e onde se dispersava.

Àquela altura, já anoitecera e o pessoal bastante animado, especialmente porque, durante o percurso, parava nos bares para tomar cerveja e batidas de limão.

Era comum que, quando chegava à praça, já muita gente ficara pelo caminho, muitos pelos botecos onde enchiam a cara pelo resto da noite.

A Banda de Ipanema era, assim, uma exceção, mas, de certo modo, uma retomada do Carnaval de rua que, talvez pela importância que o bairro tomara, por nele residirem ou frequentarem seus restaurantes e bares, artistas e intelectuais de prestígio, despertava o interesse de gente de outros bairros -e a banda foi crescendo, de ano para ano.

Não demorou muito e aquele pequeno grupo inicial duplicara ou triplicara de tamanho, e com isso o entusiasmo dos carnavalescos crescia contaminando, claro, os moradores do bairro que, no começo, ficavam nas janelas vendo a banda passar.

E com isso ela também se tornou, de certo modo, manifestação política contra o regime militar. Não explicitamente e sim pelo fato mesmo de opor-se à hipócrita seriedade da ditadura: mostrar-se alegre e irreverente já era ser contra os milicos. Os anos se passaram e outras bandas começaram a surgir em diferentes bairros da zona sul do Rio: no Leme, em Copacabana, no Catete, no Jardim Botânico.

Tive que deixar o país e, assim que voltei, já estava eu lá na banda de Ipanema. Havia muita gente nova, mas os antigos companheiros continuavam lá. Em seguida, mudei-me para Copacabana e, com o tempo, deixei de desfilar. Quando voltei a participar, ela havia mudado muito. Fora alguns dos velhos participantes -Albino, Jaguar, Sérgio Cabral-, a banda tinha sido tomada por outra turma, e à frente dela iam alegríssimos travestis, vindos talvez de outros Estados.

A banda crescera bastante, não conhecia quase ninguém, ou não encontrava os amigos em meio a tanta gente. Foi a última vez que desfilei.

Pois bem, acabo de ver na televisão a banda de hoje desfilando pela Vieira Souto, tomada por uma multidão, que mal conseguia caminhar quanto mais sambar. Coisa semelhante ocorre, agora, por toda a zona sul do Rio, do Jardim Botânico a Santa Tereza, de Botafogo à Cinelândia. São multidões que já não dançam nem cantam, puxadas por trios elétricos.

No sábado de Carnaval, aquilo que foi outrora o Cordão da Bola Preta tornara-se uma multidão que encheu a avenida Rio Branco, criando um sufoco: gente apavorada não conseguia sair dali, algumas moças desmaiaram e foram, a muito custo, resgatadas por policiais.

É, a vida muda e, às vezes, para pior.