segunda-feira, 3 de outubro de 2011



03 de outubro de 2011 | N° 16845
ARTIGOS - Cláudio Brito*

Luzes, câmeras, ação

Não se engane, o cinema não é meu tema.
Não está no título a frase de algum diretor ordenando o começo da tomada de uma cena. O trânsito na BR-116 é o assunto.

As boas luzes da fiscalização eficiente, as câmeras que funcionam 24 horas por dia e a ação dos policiais rodoviários preenchem este espaço como confirmação de que não importa o tamanho das penas, o que desencoraja qualquer transgressão é a certeza da punição.

O Código de Trânsito atual tem mais de uma década e a rodovia que liga Porto Alegre ao Vale do Rio dos Sinos tem sido um descalabro. As obras possíveis estão feitas ou em andamento, mas agora se vê que a conduta dos motoristas tem tanto ou mais a ver com os congestionamentos, colisões e outras ocorrências mais graves.

Nos últimos dias, com a fartura de notícias sobre a efetividade empregada na fiscalização, notei que todos dirigem com mais cautela sob o olhar eletrônico das câmeras de vigilância.

Os motoristas de caminhões pesados cumprem a regra que os coloca sempre à direita, permitidas as ultrapassagens e o retorno ao lugar que lhes está reservado.

Os motoristas de automóveis cumpriram o que a lei determina, pelo menos nos horários em que também passei por lá, indo ou vindo.

No movimento mais intenso, houve uma diferença, em relação ao passado recente: a muvuca diária aconteceu de modo mais organizado.

Não digo que tudo esteja resolvido, longe disso. A qualquer momento pode um engavetamento derrubar meu otimismo, mas, com certeza, a trégua havida se deve ao uso efetivo da lei, este é o ponto.

Mesmo todos sabendo que as câmeras não são instrumentos para medir-se a velocidade, a correria diminuiu. Cruzei a BR-116 à noite e vi motoristas comportadíssimos em lugares e circunstâncias que antes serviam de estímulo à imprudência.

Em Sapucaia do Sul, mais de meia-noite, de quinta para sexta-feira, seis ou sete carros parados ante o semáforo no vermelho. Antes, no mesmo lugar, a prática era uma piscada de farol e o avanço, alegadamente por questões de segurança. Vai ver que as câmeras também tornaram as pessoas mais confiantes. Afinal, nossa BR virou um Big Brother. Positivo olheiro eletrônico a fornecer à Polícia Rodoviária a identificação dos infratores e o flagrante que justificará a autuação.

Repito o companheiro Antônio Carlos Macedo, que, na Rádio Gaúcha, advertiu: “Tomara que não seja uma vassoura nova, apenas. Quando a mídia tirar das manchetes as câmeras e as multas, aí saberemos se a nova ordem pegou de verdade”.

Concordo, Macedão. Então, cumpro minha parte. Não deixo a peteca cair. Se percebermos algum arrefecimento, algum desânimo entre os que devem aplicar a lei, vamos lembrá-los da melhora sensível que todos notamos quando vimos luzes sobre a pista, câmeras que buscam e gravam imagens distantes e, a partir disso, a ação eficiente da Polícia Rodoviária Federal.
*Jornalista


03 de outubro de 2011 | N° 16845
PAULO SANT’ANA


Muita cura de câncer

Sábado foi dia de eu me dirigir até o Crematório São José para levar minha última homenagem à viúva de meu saudoso descobridor, Cândido Norberto.

Mulher heroica esta Oiara Pons Santos, que fomos cremar sábado. Companheira fiel e dedicada do Cândido, Oiara foi uma dessas pessoas que se aproximam da perfeição na cordialidade, no fino trato, no humanismo, no extraordinário devotamento que ofereceu em vida a seu marido. Uma mulher excepcional.

Pois ela não resistiu à quimioterapia que utilizou para um tratamento de câncer. Mas, também, ela tinha em torno de 80 anos de idade.

No crematório, ao lado de sua mãe singular, que estava sendo cremada, o Laurinho, aquele extremado filho que conhecemos quando o Cândido por vezes o punha, com 13 anos de idade, a dar-se a conhecer no Sala de Redação. Chegou a ficar conhecidíssimo do público o Laurinho, que agora está com 45 anos de idade e tem uma pequena empresa de vídeo e som com que vai ganhando a vida.

Pois o Laurinho também tem um câncer, felizmente em fase final de tratamento exitoso.

É impressionante o número de pacientes de câncer que conheço. Por todos os lados, surgem pessoas com câncer.

E vão se curando multidões de pacientes de câncer. O tratamento dessa doença ganhou no Rio Grande do Sul, nos últimos anos, um desenvolvimento descomunal.

E por toda parte me surgem na rua pessoas que me dizem que curaram seu câncer. E fico sabendo por outros de outras pessoas que curaram seu câncer.

É de se ressaltar o papel fundamental que o Hospital Santa Rita da Santa Casa vem desempenhando no tratamento do câncer, a iniciar-se com milhares de cirurgias que efetua.

E, depois das cirurgias, os pacientes vão se espalhando por inúmeras unidades dos nossos outros hospitais, todos na busca afanosa da cura, tantas e tantas vezes atingida.

Anos atrás, não era assim. A maioria dos pacientes sucumbia antes ou durante o tratamento.

Agora não, a vida é o valor destacado, pela cura e sobrevivência, desses tratamentos.

Vou agora bater na mesma tecla que tenho tocado nos últimos tempos: precisamos realizar campanhas de trânsito que visem a fazer com que os motoristas de Porto Alegre tenham paciência quando estão a trafegar nas faixas de nossas ruas e avenidas.

A maioria desses motoristas não conserva a sua faixa. E sai da sua faixa injustificadamente, na ânsia, muitas vezes maluca, de ultrapassar os outros.

Assim não dá. O trânsito fica selvagem e derruba um estresse sobre os outros motoristas. Por que não esperar na sua faixa? Por que se atravessar de modo indevido à frente dos outros carros, numa impaciência que beira a insânia?

Vamos parar com isso, pessoal. Esse quadro está enfeando de desumanidade a nossa querida Porto Alegre.


03 de outubro de 2011 | N° 16845
J. A. PINHEIRO MACHADO


Mário Fernandes e as touradas

Por toda parte, na semana passada, encontrei dois coros uniformes: condenação à atitude de Mário Fernandes, que se recusou a participar da Seleção Brasileira, e aplauso à insólita proibição das touradas na Catalunha. Essas reações diante de dois fatos tão diversos revelam a mesma tentação e o mesmo encantamento diante do pensamento único e do politicamente correto.

Contra Mário Fernandes, li e ouvi em mais de um lugar, além da censura, recomendações: “apoio psicológico”, como se estivesse cometendo uma insanidade. Quantos de nós já tivemos que tomar atitudes absolutamente incompreensíveis para os outros, e que nos pareciam as atitudes adequadas?

O fato de ser, como dizia o grande poeta, “restos de um menino que passou”, me faz lembrar, tempos atrás, a decisão do jovem jornalista, quando resolvi recusar o emprego que todos cobiçavam, simplesmente... porque quis! Fui salvo do afogamento diante do tsunami de opiniões alheias por um antigo colega de cabelos brancos que me sugeriu: “Esquece o que os outros acham. Ouve apenas o teu coração”. No outro dia, com o coração em festa, de certa forma fiz o mesmo gesto contracorrente do Mário Fernandes.

Não importa se Mário recusou a convocação pela humilhação de ser reserva na lateral de um centromédio improvisado, ou pelo constrangimento de ter que discursar no refeitório, ou pelo “estresse” que sentiu: o que importa é que, aparentemente, decidiu pela sua consciência. Ou pela sua conveniência.

Em relação à proibição das touradas, fico com a mesma desconfiança diante do aplauso generalizado à suposta medida de proteção aos animais. No fundo, o decreto, antes de preservar os touros, parece querer amputar um traço marcante que une a Catalunha à Espanha.

As touradas estão na vida, na arte e na literatura espanholas, estão nas telas de Picasso, de Miró, de Goya. Por certo, os touros que vão à arena são criados nas melhores condições, com todos os cuidados, e talvez sofram menos do que a multidão de reses confinadas, torturadas e abatidas diariamente.

O escritor português Miguel de Sousa Tavares revelou uma desconfiança ainda mais grave, lembrando com amargura a frase de Macaulay: “Os puritanos detestavam os combates de ursos, não porque esses jogos causassem sofrimento aos ursos, mas porque davam prazer aos espectadores”.

Mesmo que se admita a sinceridade de propósitos da exígua maioria do parlamento catalão que virou a página da tradição, fica a dúvida invencível de ter escapado da proibição o “correbous”, ritual dos touros soltos nas ruas, tendo nos chifres dispositivos com material combustível, que queima o animal, deixando-o enlouquecido pelo calor, fazendo-o correr e investir em desespero para todo lado, tentando livrar-se da tortura.

Nas touradas, às vezes, a plaza lotada fica em silêncio: uma tarde, vi Paco Camino levado numa ambulância, depois de ser chifrado pelo touro.

Luis Fernando Verissimo encontra-se em férias até o dia 3 de novembro

domingo, 2 de outubro de 2011


FERREIRA GULLAR

À toa na tarde

Quando se depara com um sábado vazio, entra em depressão e tudo o que pode fazer é sair andando

Os sábados e os domingos são os seus piores dias, a não ser quando alguém o convida para um almoço ou uma visita a algum museu.

Ele mesmo não toma nunca a iniciativa; se não o convidam, fica só e deprimido. De ficar só, já se havia habituado, mas deprimido não; é novidade de uns tempos para cá.

Chegou a consultar um médico que, depois de ouvi-lo, o aconselhou a não tomar remédio nenhum, pois no seu caso de nada adiantaria e deixaria sequelas.

Assim que, quando se depara com um sábado vazio, entra em depressão e tudo o que pode fazer é sair andando pela rua, a passos lentos, sem rumo.

Desta vez escolheu o calçadão da avenida Atlântica, já que não fazia frio e a tarde estava iluminada. Foi até o escritório, pegou as chaves, calçou os sapatos e vestiu o casaco azul, leve, que costumava usar.

Ao vesti-lo, hesitou um instante, talvez fosse sentir calor. Ainda assim, friorento como era, vestiu o casaco, pôs o chaveiro no bolso e se encaminhou para a saída.

Mas, como o telefone soou na sala, voltou para atendê-lo, já tomado pela esperança de que alguém ia convidá-lo para ir a um bar talvez. Era engano. E já que pensava num passeio demorado que preenchesse boa parte daquela tarde vazia, decidiu ir ao banheiro fazer xixi. Urinou, lavou as mãos na pia e finalmente tomou o rumo da rua.

Apenas, antes de sair, certificou-se de que as chaves do apartamento estavam no bolso. Bateu a porta, tomou o elevador e finalmente chegou à rua. Tomou a direção da praia.

Mal atravessou a avenida Nossa Senhora de Copacabana, começou a soprar um vento que se foi intensificando à medida que andava. Ao descortinar a paisagem da praia, sentiu-se animado. E fez uma reflexão, especialmente ao reparar nas nuvens leves e brancas sobre o céu azul. "É tolice pensar que o mundo pode acabar de repente."

Nos últimos meses, sem nenhuma explicação, teme que uma catástrofe cósmica ponha fim a tudo. Então, se perguntava, que sentido tem a vida. Mas agora sorria reconciliado com a existência ao perceber que aquele céu azul e aquelas nuvens leves eram eternos.

Foi, portanto, sorrindo, que cruzou as pistas da avenida Atlântica e chegou ao calçadão, por onde iam e vinham banhistas de calção e biquínis, turistas de bermudas e bonés, idosos e idosas fazendo cooper.

O mar estava agitado e o vento era agora quase uma ventania, que fazia farfalhar os coqueiros, ali, junto ao calçadão. Abotoou o casaco para se proteger da ventania.

Na areia, grupos de rapazes jogavam futebol. Eram times, com técnico, torcida e camisa própria. Deteve-se um instante para apreciar o jogo, que foi interrompido por uma discussão. Parecia questão de vida e morte. Como não tinha nada a ver com aquilo, seguiu em frente, sem pressa nem ansiedade.

Daí a pouco estava à altura da avenida Prado Júnior, onde morou uma amiga, que costumava receber os amigos para jantar e bater papo. Como essa lembrança o entristeceu, tratou de livrar-se dela e voltou-se para o mar, cujas ondas furiosas avançavam sobre a areia, lá longe, sem barulho.

Logo chegou ao final do Leme e sentou-se num dos bancos da praça para descansar, antes de tomar o caminho de volta. Ali ficou por algum tempo, vendo as crianças que brincavam e os carros que passavam. Via e não pensava em nada.

No mesmo passo lento, fez o caminho de volta. O porteiro abriu-lhe a porta do prédio e ele tomou o elevador, mas, ao chegar à porta do apartamento, procurou o molho de chaves e não o encontrou.

E agora, como vou entrar em casa? Lembrou-se de que mantinha escondida uma chave junto à entrada de serviço, mas se lembrou de que a tirara de lá.

Voltou à portaria, o porteiro o aconselhou a ir até a esquina chamar o cara que faz cópias de chaves e conserta fechaduras. Ele correu até lá, mas sábado o homem não trabalha.

Teria então que arrombar a porta do apartamento. Mas como?

Foi aí que se perguntou onde teria perdido as chaves. No caminho não foi. Só pode ter sido quando sentara no banco da praça, o bolso do casaco era raso. Mas andar de novo até lá, isso nunca.

E se eu for em meu carro? Foi. Estacionou, caminhou até o banco e as chaves estavam lá, no chão de areia. Juntou-as, só faltou beijá-las.

E passou o resto do sábado, feliz como se alguém o tivesse chamado para um almoço ou algum passeio.

DANUZA LEÃO

A verdade de cada um

Uma pessoa não sabe o que se passa na cabeça de quem dorme com ela na mesma cama há 20 anos

Ninguém sabe o que o outro pensa, o que acha, o que quer, o que pretende fazer; sobretudo, o que é capaz de fazer. Uma pessoa não sabe o que se passa na cabeça de quem dorme com ela na mesma cama há 20 anos -e talvez seja melhor assim. E quem pode afirmar saber quem é seu pai, quem é sua mãe, quem são seus filhos?

Aconselho a quem estiver lendo a não responder a essa pergunta, para não dizer bobagem.

Existem homens que, depois de um longo casamento, saem de casa para comprar cigarros e nunca mais voltam. Segundo seus familiares, eles nunca tinham dado uma pista de que a vida não estava boa; que poderiam, de repente, tentar um outro rumo.

Sempre tive curiosidade de saber para onde vão esses homens que somem e nunca mais são encontrados. Será que planejaram o que iam fazer, ou foi um impulso da hora? E em sua nova vida, terá mudado de cidade, de profissão, de nome?

José Dirceu mudou até de cara, mas tratando-se de pessoas normais, nunca se vai ter essa resposta, pois os que fazem isso desaparecem, e para sempre. São muito estranhas, as pessoas. Esses pensamentos me perturbam desde que li sobre o caso do menino de dez anos que atirou na professora e depois se matou.

A polícia está investigando, interrogando os colegas, e os pais -pobres pais- não vão escapar de ter que responder a perguntas cruéis; existe também a suspeita de ele ter sofrido bullying, o que, para alguns, seria uma explicação. Aliás, para esses alguns, o bullying, tão na moda, pode explicar tudo.

Mas por mais que todos -a polícia, os colegas, as professoras, a família, os psicólogos- se esforcem, esse caso não será, jamais, esclarecido. Ninguém nunca soube, e nunca saberá, o que se passou na cabeça desse pobre menino. As hipóteses podem ser muitas, e o que todos procuram é a verdade, essa coisa abstrata que pode ser várias, dependendo de cada um.

Como o pensamento é livre, tenho uma opinião: o menino levou o revólver para a escola talvez para mostrar aos colegas, de pura traquinagem infantil; apontou a arma, ela disparou, e o tiro acertou a professora.

Tratando-se de um garoto tranquilo, bom aluno, sem nenhum indício de ser violento, ele teria se desesperado ao ver o que aconteceu, daí o suicídio. Posso estar totalmente errada, mas como cada um tem o direito de imaginar qualquer coisa, foi o que me ocorreu.

Alguns coleguinhas estão contando que ouviram do menino que ele estaria falando em matar a professora. Mas crianças, além de terem uma imaginação fértil, também mentem muito; talvez por não saberem das consequências de suas palavras, talvez por se sentirem importantes e adultas, por estarem sendo ouvidas por policiais, a verdade é que não se pode confiar muito no que elas dizem.

E nem sempre as coisas têm uma lógica. Será que pessoas perfeitamente normais podem ter um momento de loucura, e nesse momento fazer coisas em que nunca tinham pensado?

Será que um revólver na mão dá uma sensação tão grande de poder que leva alguém a cometer um ato de total desvario? Pode ser que não, mas também pode ser que sim. Já lemos muito sobre isso.

Mas o caso do menino que atirou na professora e que depois se matou -disso eu tenho certeza- está condenado a não ser, jamais, esclarecido.

danuza.leao@uol.com.br

ELIANE CANTANHÊDE

O petróleo é de quem mesmo?

BRASÍLIA - Os Estados produtores e não produtores vivem uma guerra pelos royalties do petróleo que o Planalto cansou de mediar e que deverá ser decidida no Senado nesta semana. Mas e o povo com isso?

Tudo indica que a guerra é pela quantidade, não pela qualidade dos recursos, não exatamente pelo bem-estar que podem levar às populações mais pobres de uns e de outros.

Senão, vejamos o que a consultoria Macroplan apurou num passeio pelos dados e pelas ruas de cidades que foram beneficiadas diretamente com o petróleo jorrando em forma de reais e dólares.

Macaé, conhecida como a capital do petróleo brasileiro, de fato cresceu e apareceu, com um pulo populacional de 65 mil para 200 mil habitantes desde os anos 1970 até agora e com um PIB per capita de R$ 42 mil, em valores de 2008, que corresponde ao dobro da média do Estado do Rio e o triplo da nacional. Mas só 17% dos domicílios têm saneamento básico, os índices de educação são baixos e os de homicídios, muito altos.

Presidente Kennedy (ES) também recebe grande volume de royalties, com o segundo maior PIB per capita do Estado e uma das maiores taxas de crescimento do país. Mas... tem resultados do Ideb muito inferiores à média estadual, 17% de analfabetos e só 38% dos domicílios com saneamento básico.

Está na 62ª posição entre 78 municípios pelo Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal e no 2.688º lugar no ranking nacional.

A conclusão é que royalties são bons e todo mundo gosta -especialmente governadores e prefeitos, sobretudo em ano eleitoral-, mas não garantem em si distribuição de renda, educação, saúde, saneamento, bem-estar e segurança.

Logo, a guerra "de cima" para atrair os recursos deveria ser acompanhada de uma outra guerra, "de baixo", para garantir a aplicação devida e a distribuição necessária. Do contrário, o petróleo é nosso, mas não chega a quem mais precisa.

elianec@uol.com.br

CARLOS HEITOR CONY

Retrato 3x4

RIO DE JANEIRO - Um instituto de pesquisa, não me lembro se britânico ou americano, divulgou na semana passada um ranking de países cuja imagem, para efeito cultural e turístico, interessa ao homem comum de todas as partes do mundo.

Não pesquisou a economia nem o comércio, apenas as condições que possam atrair o interesse daqueles que desejam conhecer melhor este mundo, antes de partirem para conhecer o outro.

Desde os oito anos do governo Lula e nove meses do atual, as autoridades brasileiras vêm arrotando ser uma das maiores economias mundiais. Reconheço que as coisas mudaram, subimos de patamar, mas não tanto.

Ativando o consumo e executando programas assistenciais (como o Bolsa Família), milhões de brasileiros ascenderam a uma classe superior, mas não o bastante.

A imagem do país melhorou lá fora em termos de investimentos, mas não em condições de vida. Na pesquisa divulgada ficamos em 62º lugar.

Ainda há gente que acredita piamente que as cobras passeiam pela avenida Rio Branco, que em São Paulo os trombadinhas matam os turistas, que a madeira da Amazônia só serve para fabricar palitos, que aos 13 anos as meninas se prostituem, que o policiamento das ruas é feito por traficantes.

Exagero à parte, o fato é que em termos de infraestrutura merecemos o vergonhoso lugar no ranking mundial. Os três pontos fundamentais de uma sociedade adiantada -saúde, educação e segurança- não acompanharam o desenvolvimento industrial e comercial dos últimos anos. Doentes morrem nos corredores dos hospitais, a educação é precária e a segurança, hipotética.

Compreende-se a preocupação da Fifa e do Comitê Olímpico Internacional. A taxa de corrupção e o atraso nas obras necessárias para os dois eventos podem resultar num vexame nacional.

CARLOS HEITOR CONY

Retrato 3x4

RIO DE JANEIRO - Um instituto de pesquisa, não me lembro se britânico ou americano, divulgou na semana passada um ranking de países cuja imagem, para efeito cultural e turístico, interessa ao homem comum de todas as partes do mundo.

Não pesquisou a economia nem o comércio, apenas as condições que possam atrair o interesse daqueles que desejam conhecer melhor este mundo, antes de partirem para conhecer o outro.

Desde os oito anos do governo Lula e nove meses do atual, as autoridades brasileiras vêm arrotando ser uma das maiores economias mundiais. Reconheço que as coisas mudaram, subimos de patamar, mas não tanto.

Ativando o consumo e executando programas assistenciais (como o Bolsa Família), milhões de brasileiros ascenderam a uma classe superior, mas não o bastante.

A imagem do país melhorou lá fora em termos de investimentos, mas não em condições de vida. Na pesquisa divulgada ficamos em 62º lugar.

Ainda há gente que acredita piamente que as cobras passeiam pela avenida Rio Branco, que em São Paulo os trombadinhas matam os turistas, que a madeira da Amazônia só serve para fabricar palitos, que aos 13 anos as meninas se prostituem, que o policiamento das ruas é feito por traficantes.

Exagero à parte, o fato é que em termos de infraestrutura merecemos o vergonhoso lugar no ranking mundial. Os três pontos fundamentais de uma sociedade adiantada -saúde, educação e segurança- não acompanharam o desenvolvimento industrial e comercial dos últimos anos. Doentes morrem nos corredores dos hospitais, a educação é precária e a segurança, hipotética.

Compreende-se a preocupação da Fifa e do Comitê Olímpico Internacional. A taxa de corrupção e o atraso nas obras necessárias para os dois eventos podem resultar num vexame nacional.

FERNANDO DE BARROS E SILVA

O dever de atazanar

SÃO PAULO - Fazemos, os jornalistas, uma espécie de rascunho instantâneo da história. Imersos no tumulto do mundo, submetidos às pressões do registro taquigráfico dos fatos, falta-nos a compreensão das coisas em perspectiva, o tempo necessário à reflexão.

Encarregados de informar, incorremos com frequência em erros, exageros, omissões. As colunas de opinião não estão imunes a esses riscos. Quem, além disso, entra na casa do leitor cinco vezes por semana nunca estará livre de dizer bobagens ou de cair em repetições.

Para um jornalista, no entanto, pior do que isso é não ter a capacidade de incomodar. Se ninguém reclama, há algo de errado.

Quando entrei na Folha, há mais de 23 anos, vivíamos os estertores do governo Sarney. O Brasil era uma espécie de chanchada. Hoje, é um país bem melhor. Mas não nos tornamos, nem de longe, uma sociedade decente.

Convivemos ainda com taxas intoleráveis de desigualdade, a saúde pública é desumana, as escolas públicas são muito ruins, a vida nas cidades é violenta e insegura. O patrimonialismo, tantas vezes reciclado, persiste como traço definidor da política em todos os níveis.

Seria tolo, ao mesmo tempo, não reconhecer que os governos de FHC e Lula -o professor e o líder operário- representaram, somados, um grande avanço histórico, ainda em curso.

Perceber isso não significa abrir mão da convicção de que o jornalismo só vale a pena se for exercido com disposição crítica e independência, que só se aproxima de seu melhor papel se interpelar os poderes, em qualquer circunstância, sem nunca deixar de questionar a si próprio. Tenho em Otavio Frias Filho o maior exemplo de que isso é possível.

Ao longo dos últimos dois anos, escrevi 484 vezes neste espaço. Foi, talvez, a experiência intelectual mais prazerosa da minha trajetória na Folha. Mas chegou o momento profissional de me despedir. A quem me acompanhou, muito obrigado.

sábado, 1 de outubro de 2011



02 de outubro de 2011 | N° 16844
MARTHA MEDEIROS


Carla bruni e o rock’n’roll

Carla Bruni, ex-top model, cantora, compositora e atual primeira dama da França, declarou em entrevista, dia desses, que seu casamento com o presidente Nicolas Sarkozy foi muito rocknroll, usando uma expressão pouco usual para definir um relacionamento. Geralmente, as relações amorosas estão mais para tango argentino.

A comparação com o rock veio do fato de ela, que sempre teve uma vida agitada, independente e fora dos padrões, ter se atrevido a um envolvimento formal com um chefe de Estado, cuja convivência exige o cumprimento de protocolos bem convencionais.

E a recíproca é verdadeira, pois não são muitos os mandatários de uma nação que se divorciam e depois se casam com uma artista que já é mãe e que tem no currículo namorados como Eric Clapton e Mick Jagger. Às favas com o bom-mocismo, o casal bancou o arranjo inusitado e parece levar muito bem sua relação.

O conceito “rock’n’roll”, ao menos da forma como foi utilizado por Carla Bruni, nada tem a ver com noitadas, bebedeiras e drogas. Diz ela que sua rotina com o marido é bastante tranquila e discreta, e o que a fez se apaixonar por Sarkozy foi a descoberta de que ele, um dos homens mais poderosos do mundo, era um dedicado amante da jardinagem. Como se explica esse bolero em lugar do heavy metal?

Por muito tempo, o rock sobreviveu de sua má fama. O músico Frank Zappa certa vez disse que um repórter de rock é um jornalista que não sabe escrever, entrevistando gente que não sabe falar, para pessoas que não sabem ler. Ajudou a colocar uma laje sobre qualquer sofisticação que o rock viesse a almejar – ainda bem que o rock nunca teve essa pretensão, mas teve outras e parece que as realizou.

O rock’n’roll deixou de ser apenas um gênero de música. Dizer que ele simboliza atitude virou um clichê intragável, mas foi o que Carla Bruni tentou exprimir com sua declaração, só que sob um enfoque ampliado.

A rebeldia do rock nada mais tem a ver com cortes de cabelo, modos de vestir ou hábitos ilícitos, e sim com o que lhe amparou os primeiros passos, lá atrás, nos tempos de Chuck Berry e Elvis Presley: a liberdade de fazer o que se quer, a despeito do que os outros vão pensar. Criar música não só para a alma, mas para o corpo. Provocar reações físicas, despertar os ânimos, desafiar o silêncio. Acordar.

Não é preciso guitarras para fazer barulho. As pessoas mais roqueiras que conheço são apreciadoras de jazz, bossa nova e música clássica. Um casamento rock’n’roll nada mais é do que um compromisso entre um homem e uma mulher com facilidade em aceitar mudanças, coragem para sair das zonas de conforto, capacidade de surpreender e autoconfiança para ser quem verdadeiramente são, estejam no palco em que estiverem.

É por isso que o rock, até então um substantivo que designava um estilo musical, expandiu-se. Analisado como postura de vida, foi promovido a adjetivo.


02 de outubro de 2011 | N° 16844
ARTIGOS - Sebastião Ventura Pereira da Paixão Jr.*


Permitindo o proibido

Em que pese aos notáveis avanços científicos e tecnológicos, a inteligência humana ainda não conseguiu desenvolver um instrumento perfeito para controlar o andar da vida. O destino parece ser um touro indomável que muda de direção sem prévio aviso; os fatos simplesmente acontecem; as mudanças ocorrem; o teatro da vida faz seu show, gostemos ou não.

Os racionalistas bem que tentaram explicar tudo em seus mínimos detalhes; esqueceram, todavia, que a linearidade das explicações é insuficiente para aplacar a sinuosidade dos acontecimentos.

E, mais, embora a importância inquestionável do racionalismo, quem só assim o é não deixa de ser um prepotente que pensa que a razão é a resposta para todas as interrogações do cotidiano. Se você é assim, me responda o seguinte: qual a definição do amor?

Olha que teve muita gente boa tentando decifrar, sem sucesso, o enigma sentimental dos românticos. Se queres seguir tentando encontrar a equação matemática do amor, vá lá e tente; talvez um dia você consiga.

Mas não se esqueça de que há o risco de a vida passar e você não sentir; o tempo tem esse talento de iludir a realidade com fantasias e purpurina e, quando a festa acaba, o que fica é o pó. Nada é tão certo quanto a transitoriedade da vida.

O importante é vivê-la sem medo e com a pretensão de fazer a diferença, de construir algo novo, de marcar positivamente o coração das pessoas. Precisamos resgatar os grandes valores da humanidade. A relatividade do tempo presente e a sensação de que tudo é possível traduzem apenas um movimento que, sob as vestes do vanguardismo, quer instalar a anarquia do atraso.

Não há dúvida de que a sociedade evoluiu, trazendo consigo novos hábitos e possibilidades. Todavia, desde que o mundo é mundo, a honestidade e a decência de procedimentos sempre foram valores obrigatórios dos homens dignos. Poderá ser dito que, tal como o amor, a decência e a honestidade possuem conceitos subjetivos.

Ora, ser decente e honesto é um padrão objetivo que não se presta às subjetividades do sentimento; é um dever de conduta inalienável aos acenos promíscuos da corrupção dos costumes; é um lema de vida; é um causa para viver; é um hino de moralidade, e não uma música para dançar.

É impressionante como nos faltam convicções firmes nos dias atuais. O acintoso processo de relativização moral e afrouxamento ético tem empobrecido o espírito crítico coletivo, condenando os que não se curvam ao banco dos conservadores e rea-cionários. Vivemos um perigoso tempo de permissividade excessiva. O problema é que, quando tudo passa a ser permitido, nada passa a ser proibido.

E, assim, a lei, seja ela moral ou institucionalizada, passa a ser um mero ornamento de decoração que pode, inclusive, ser comprada ou vendida. E isso notadamente não é bom nem promissor. Não sei por que o Brasil me veio à cabeça. Você sabe me explicar o motivo?
*Advogado


02 de outubro de 2011 | N° 16844
VERISSIMO


A ponta do queixo

– Ju é incapaz de matar uma mosca – dizia a Marinei sobre seu marido Juvenal.

Não era elogio. Não era atestado da boa índole do Juvenal. Era crítica. Na última vez que tentara matar uma mosca com um jornal enrolado, o Juvenal quebrara um vaso que ela amava. E a mosca sobrevivera.

– Esse daí é uma plasta – dizia a Marinei, indicando o Juvenal com a ponta do queixo.

O que mais magoava o Juvenal era a ponta do queixo. O “esse daí” ele ainda aguentava. Depois de 15 anos de casamento, o “esse daí” era inevitável. O que doía mesmo era a ponta do queixo. Ele não merecia mais nem ser apontado com um dedo.

Ele pedia:

– Pare de me criticar em público, Marinei.

– Por quê? Nossos amigos todos sabem que você é uma plasta mesmo.

– Você não imagina do que eu sou capaz, Marinei.

– Imagino sim, Ju. Você é capaz de nada. Na-da.

Aquilo também magoava. “Nada” com as sílabas separadas. Aquilo doía. A Marinei ia ver.

Um dia, num bar, os dois numa mesa de quatro, veio um moço e sentou-se numa das cadeiras livres. E perguntou se a Marinei estava com alguém.

– Estou com ele – disse a Marinei, indicando o Juvenal com a ponta do queixo.

– Eu falei “alguém” – disse o moço.

O Juvenal pulou do seu lugar, pegou o moço pela frente da camisa e o arrastou até a entrada do bar, sob tabefes. Atirou-o na calçada e ainda o despachou com um pontapé na bunda. (Depois, quando Juvenal e o moço se encontraram para acertar as contas, o moço se queixou.

O pontapé na bunda não tinha sido combinado. O pontapé na bunda era desnecessário). De volta à mesa, Juvenal encontrou a Marinei de olhos arregalados.

– Ju!

Ela não disse “meu herói!”. Mas seus olhos disseram.

Mas 15 anos de desdém são 15 anos de desdém, e os velhos hábitos morrem devagar, e bastou o Juvenal errar outra mosca com o jornal enrolado e quebrar o vidro da cristaleira para a Marinei chamá-lo de pamonha, paspalhão, imprestável, desastrado e, na frente dos amigos, apontá-lo com o queixo e dizer “Sabem o que esse daí andou aprontando desta vez?”

– Eu faço uma loucura, Marinei.

– Faz nada. Na-da.

– Olha que eu faço uma loucura!

– Que loucura? Que loucura?

Juvenal pensou na coisa mais louca que poderia fazer para impressionar a Marinei. Incapaz de matar uma mosca? Uma plasta? Ela ia ver do que ele era capaz. Iria matá-la. Era isso! A perseguiria como a uma mosca, com um ferro dentro de um jornal enrolado, e a mataria. Tudo para ver de novo a admiração em seus olhos.

Em tempo: Juvenal não conseguiu matar a Marinei, mas demoliu a casa tentando.


02 de outubro de 2011 | N° 16844
PAULO SANT’ANA


Loucos de todo gênero

Por iniciativa da Associação dos Cronistas Esportivos, fui entrevistado demoradamente por 15 jovens jornalistas que se preparam para exercitar sua profissão no setor de esportes.

Em determinado momento, um dos jovens profissionais me perguntou se eu julgava que ainda iria surgir algum jornalista melhor do que eu.

Minha resposta: “Creio que possa surgir ainda algum jornalista superior a mim. Mas nestes 40 anos em que trabalho, não surgiu”.

Ainda dentro da minha megalomania, fui ao psiquiatra para a primeira consulta. O psiquiatra me disse: “Vamos começar nossa relação pelo princípio. Dize-me tudo o que aconteceu, desde o princípio”.

E eu: “Bem, no princípio, eu criei o Céu e a Terra...”.

O Código Civil usa uma expressão: “Os loucos de todo gênero”.

Porque existem os loucos folclóricos, os loucos que riem, os loucos que falam alto, que têm gestos burlescos ou teatrais, esses loucos até divertem a periferia e o derredor.

Mas eu me preocupo com os loucos que causam danos aos outros e andam soltos.

Esses loucos não chegam a ser perigosos, mas são danosos. Eles convivem nas famílias, no trabalho e vivem agredindo os outros com palavras e com atitudes.

Existe até uma frase que diz que o hospício é o quartel-general dos loucos. Ou seja, no hospício se localizam os loucos de atar. Mas e os outros milhares de loucos que estão espalhados pela cidade? Que é feito deles, qual é a sua sorte?

Pois eles estão por aí infernizando a vida das outras pessoas.

Já pensou o que é estar casado com uma mulher louca? Ou estar casado com um marido louco?

Ou ser empregado de um patrão louco? Ou ser patrão de um empregado louco?

Porque esses loucos de que eu falo – e até por certa medida o Código Civil contempla – fazem parte de nossas vidas.

Eles estão aí, vivos e atuantes, produzindo males e atrapalhações para os outros.

Esses loucos, por vezes, se acalmam, mas muitas vezes são tomados por surtos de loucura devastadores.

Há uns que tornam a vida dos outros insuportável. Grudam nos seus familiares ou em quaisquer circunstantes e os infernizam.

E, no entanto, continuam transitando e impunes, seja pelas convenções, seja pelos cânones de tolerância social, seja até mesmo porque há uma certa dificuldade em diagnosticar a loucura e seus graus de incidência sobre as mentes transtornadas.

Nada contra o louco inofensivo, como já disse, nada contra o louco pitoresco.

Mas tudo contra o louco que se insinua no meio social e começa a distribuir agressões e maus humores entre os outros.

O louco parcialmente agressivo e mal-humorado é um foco de irradiação de infelicidade na convivência.

Um dia ainda haverá uma ordem social que consiga diagnosticar esse tipo de loucura secundária e destine recursos para seu tratamento.

Enquanto não há, todos somos vítimas dessa séria incomodação.

Revista Veja

Conar investigará comercial com Gisele Bündchen

Órgão recebeu 20 denúncias, tanto de homens quanto de mulheres

Gisele Bündchen: campanha para a Hope foi interpretada como discriminatória por alguns consumidores


Gisele Bündchen: campanha para a Hope foi interpretada como discriminatória por alguns consumidores (Divulgação)

Logotipo Exame.com O Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária - Conar - abriu um processo para investigar a campanha publicitária "Hope Ensina", da Hope, protagonizada pela modelo Gisele Bündchen.

A representação foi aberta depois que o órgão recebeu 20 protestos enviados por e-mail por consumidores, tanto homens quanto mulheres, que reclamaram do suposto teor discriminatório mostrado pela propaganda. Hoje, o Conar deve fazer a nomeação de um relator para cuidar do caso. O julgamento deve ocorrer daqui a cerca de um mês.

No filme, criado pela Giovanni+Draftfcb e lançado pela marca de lingeries no dia 20 deste mês, Gisele Bündchen aparece usando roupas íntimas para sugerir às mulheres brasileiras que usem a sensualidade na hora de dar uma notícia desagradável ao marido.

Na última quarta-feira (28), a Hope enviou uma carta à Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM), órgão de onde partiram os protestos iniciais, em que se defende das acusações dizendo que os exemplos citados nos filmes "nunca tiveram a intenção de parecer sexistas, mas sim, cotidianos de um casal".

"Bater o carro, extrapolar nas compras ou ter que receber uma nova pessoa em sua casa por tempo indeterminado são fatos desagradáveis que podem acontecer na vida de qualquer casal, seja o agente da ação homem ou mulher", diz a nota.

O órgão, no entanto, já havia encaminhado ofícios ao Conar, pedindo a suspensão da propaganda.

Hoje, o diretor de criação da campanha, Adilson Xavier, tentou explicar o que está acontecendo, e chegou a classificar como "ridícula" a polêmica gerada em torno das peças. O publicitário enfatizou que os comerciais foram criados para uma marca que vende lingeries, o que torna, no mínimo, estranho, mostrar a modelo de roupa. "Temos que entender qual o produto que estamos mostrando", disse Xavier.

Com muito rebolado, Shakira fecha a 5ª noite do Rock in Rio
Exímia na arte de requebrar o quadril, cantora arranca algum estusiamo dos fãs
Rodrigo Levino, da Cidade do Rock
Skakira durante o show no palco Mundo, no quinto dia do Rock in Rio, em 30/09/2011

Skakira durante o show no palco Mundo, no quinto dia do Rock in Rio, em 30/09/2011 (Wagner Meier/Fotoarena)

A colombiana Shakira encerrou o quinto dia de shows do Rock in Rio IV arrancando algum entusiasmo da plateia. Com cerca de uma hora de atraso (ela deveria subir ao palco às 00h50), a cantora iniciou a sua apresentação com o sucesso Estoy Aqui, do disco Pies Descalzos, de 1996.

Realizando três trocas de roupas, que variaram de calça colada, blusa dourada até uma saia longa escarlate, Shakira apresentou por cerca de uma hora e meia um repertório que mapeou sua carreira, iniciada no começo dos anos 1990, e que se internacionalizou mais fortemente na década passada quando despontou no mercado anglófono.

Si Te Vas, Inevitable, Tortura, Loca, Ciega e Gipsy (quando ela executa um número de dança flamenca bem pendido para o cafona) dividiram lugar no repertório com Whenever, Whatever, She Wolf e uma dispensável versão de Nothing Else Matters, canção do Metallica que recebeu com a cantora a vestimenta de uma novela mexicana.

Simpática, Shakira interagiu com a plateia, levou fãs ao palco, com quem dividiu o microfone, caminhou entre a plateia e cumprimentou o público diversas vezes em português. Em uma delas anunciando: “Eu sou toda de vocês e estou aqui para satisfazê-los”.

Musicalmente o leque de Shakira é amplo. Há ritmos latinos, pitadas de música árabe (um número inteiro de dança do ventre a caráter em Ojos Así) e pop melódico pontuado por percussão e batidas eletrônicas. Um excesso de informações que não raro torna a execução das músicas confusa e enfadonha.

De timbre marcante e cantando bem na medida do possível, assim como recorrendo às backing vocals e ao playback em certos trechos, a cantora se destacou mesmo pela desenvoltura na arte do rebolado. Pode ser considerada exímia nesse quesito a ponto de em alguns momentos do show a música ser o menos importante ou fazer nenhum sentido.

Wagner Meier/Fotoarena

Skakira durante o show no palco Mundo, no quinto dia do Rock in Rio, em 30/09/2011

Skakira durante o show no palco Mundo, no quinto dia do Rock in Rio, em 30/09/2011

Antes de fechar o concerto com Waka, Waka, música tema da Copa do Mundo de 2010, Shakira recebeu no palco a cantora brasileira Ivete Sangalo, com quem cantou uma versão de País Tropical, do cantor e compositor Jorge Ben Jor.

O encontro rendeu o momento mais interessante da noite que, para alguns fãs, teria sido perfeita caso Shakira não tivesse se abstido de cantar Rabiosa, seu sucesso mais recente.

RUTH DE AQUINO

A lingerie de Gisele

A ameaça de censura ao comercial com ela rodou o mundo. Só que, no anúncio, o objeto é o homem...

Certo ou errado? Gisele Bündchen, de lingerie e salto alto, seduz seu homem (e os nossos também) no comercial de TV. A modelo dá más notícias para o marido. “Amor, mamãe vem morar com a gente.” “Estourei seu cartão de crédito.” “Bati com seu carro.” Gisele séria, de vestido comportado.

E sensual, de calcinha e sutiã. “Você é brasileira, use seu charme”, diz a publicidade. A Secretaria de Políticas para Mulheres (SPM) do governo Dilma achou a mensagem “preconceituosa e discriminatória” e quer tirar Gisele do ar.

Desconfio que a Hope, marca da lingerie, tenha contratado as mulheres de Dilma para bombar a campanha. O anúncio com a modelo mais bem paga do planeta virou uma sensação. Em inglês, francês, italiano, espanhol. A ameaça de censura do governo rodou o mundo. Vídeos legendados em diversos idiomas mostram Gisele no duplo papel. A esposa recatada. E a gata provocante. Tudo para vender lingerie... para as mulheres.

Acho o anúncio divertido, leve, maroto. Não me senti ofendida. E olha que sou chefe de família, como 30% das brasileiras. Fico boba com a falta de humor e rebolado da tal secretaria do governo. A nota de repúdio ao Conar, conselho que regulamenta a publicidade, usa uma linguagem pesada como a burca. Inspire.

“O anúncio reforça o estereótipo equivocado da mulher como objeto sexual e ignora os grandes avanços alcançados para desconstruir práticas e pensamentos sexistas.” Expire. Conseguiu ler até o fim? Ah, falta explicar que o governo recebeu 15 – quinze! – queixas de telespectadores indignados com a publicidade. Uma multidão. Por isso, a ministra Iriny Lopes foi à luta contra a lingerie incorreta.

Que tal uma teoria inversa? O anúncio na verdade mostraria o homem como objeto de manipulação das mulheres e não o contrário. O homem é um tolo que cai de quatro para o poder da sedução feminina. Em vez de macho fulo de raiva com o cartão de crédito estourado, o carro batido e a vinda da sogra, o marido invisível se submete, dócil, ao charme de sua mulher.

Quem achou Gisele apelativa? Luana Piovani! A atriz, que vive semipelada no cinema, na televisão e no teatro, disse: “Sei lá, sou meio feminista”. “Não curto mulher de fio dental vendendo cerveja.” Depois de processar Dado Bolabella (ops, Dolabella) por ter levado uns tapas dele na boate, Luana vai ser mãe e acha que “representa as mulheres brasileiras”.

Diz que só usa lingerie em festinhas para o marido e que “faz mulher-objeto, mas só na dramaturgia”. Senti uma pontinha de inveja da mulher invisível pela diva brejeira e simpática.

Fui saber a opinião do publicitário Armando Strozemberg, presidente da 3ª Câmara do Conar, do Rio de Janeiro. “Quando vi o comercial, fiz o seguinte exercício: eu colocaria um homem no lugar da Gisele? Nas mesmas duas situações? Claro que colocaria”, diz ele. “A sedução, no Brasil, é mútua. É coisa nossa. E o comercial é uma brincadeira que lida com esse universo. Não desmerece a mulher.”

A ameaça de censura ao comercial com ela rodou o mundo. Só que, no anúncio, o objeto é o homem...

Penso nas cenas de novela com atores sem camisa, mostrando o peitoral, de sunga, de cueca, tomando banhos demorados, ou mesmo de bundinha de fora. Uma exibição deliberada de músculos, barriga tanquinho e testosterona. As mulheres gostam e suspiram. E ninguém reclama que os homens sejam objetos sexuais – eles até gostam. Não gostam?

Não somos Giseles. Estamos longe disso. Mas cada uma de nós tem algo especial para seu homem – nem que seja o sorriso aberto, o olhar sugestivo, um colo ou... E vice-versa. Há 16 anos, eu fazia mestrado em Londres, não havia internet e, em vez de gastar palavreado em cartas para o namorado artista plástico no Brasil, eu mesma fiz uma série de fotos minhas de lingerie e salto alto.

Enviava a ele pelo correio uma vez por semana, toda segunda-feira. Eram cartões-postais personalizados. Um “teaser”, na linguagem publicitária. Ele se dizia ansioso a cada novidade semanal do correio.

Quando contei isso a algumas amigas, me olharam incrédulas. E como ficava a imagem de jornalista séria e “meio feminista”? Por que fez isso, Ruth ? Para brincar, seduzir, surpreender e agradar ao namorado. Estamos juntos até hoje.


01 de outubro de 2011 | N° 16843
NILSON SOUZA


O primeiro voo

Os sabiás fizeram ninho novamente na entrada da minha garagem. Tem lá uma planta, tipo trepadeira, que oculta bem o refúgio dos pássaros e o mantém protegido da chuva. Outro dia, disfarçadamente, dei uma espiada e vi que tem três ovinhos.

Não é a primeira vez que sou contemplado, na porta de casa, com esse doce espetáculo da vida. Em outra primavera, dois ou três anos atrás, um desses casais alados já fez o mesmo e no mesmo lugar. Só falta serem os mesmos.

Na época, acompanhei tudo com encanto e decepção. Sim, no final, fiquei um tanto decepcionado. Já explico por quê. Pulo aquela parte da cantoria, que começa às 4 da manhã e, segundo li, indica o ritual do noivado. Sei que tem gente que se incomoda, mas – assim como o meu amigo Moisés Mendes, que todo ano aguarda ansioso a primeira sinfonia da família dos laranjeiras – gosto de acordar com a melodia arrastada dos cantadores da zona sul da Capital.

Depois do acasalamento, eles trabalham muito, passam o dia inteiro levando galhinhos e folhinhas no bico até o local escolhido para a morada. Aí, a fêmea faz a sua parte e, cerca de duas semanas depois, os bichinhos já estão de bico aberto, exigindo mais uma vez intensa atividade dos pais atrás de minhocas e frutinhas. Mais um mês e, ponto culminante do show, os pássaros adultos estimulam os filhotes ao primeiro voo.

É muito interessante de se ver. Os bichos hesitam em deixar o ninho, mas os pais procuram atraí-los para fora, gritam com eles na língua dos pássaros amorosos, voam nas proximidades, fazem um verdadeiro escarcéu até que o primeiro se atira, todo descoordenado, estatelando-se nas proximidades.

Em seguida, tenta alçar voo novamente, cai, vai de novo, até que consegue ficar no ar alguns segundos. Logo saem o segundo e o terceiro, na mesma balada destrambelhada, até que todos começam a dar voos mais longos e mais seguros.

E ninguém volta mais para o ninho.

Fiquei decepcionado ao constatar isso. Como assim? Passam tanto trabalho construindo um ninho seguro, confortável, e já na primeira saída vão passar a noite fora, provavelmente expostos aos perigos da rua? Minha mulher, que é de origem interiorana, riu da minha ingenuidade.

Agora já sei como será. Ainda assim, estou curioso para acompanhar o primeiro voo da minha segunda ninhada. Como observador distante e discreto, ficarei atento para que não se metam em alguma encrenca, do tipo aterrissar no meio de uma pilha de tijolos.

Depois, como ocorre com os nossos adolescentes quando saem de casa sozinhos, só resta rezar para que o Anjo da Guarda dos Sabiás os proteja até a próxima primavera.


01 de outubro de 2011 | N° 16843
PAULO SANT’ANA


O papel de Deus

Ouvi na televisão, num desses programas religiosos, um fiel fazer a seguinte prece: “Deus, sei que és o criador do Céu e da Terra. Sei que és a síntese de todas as compreensões e que deténs todas as misericórdias. Sei que é de ti que provêm toda a luz, toda a sabedoria. Mas, cá para nós, Deus, tu não estás me atendendo, tu estás me sacaneando.

Há tempo que venho te pedindo para solucionar a minha grande aflição e tu te finges de desentendido, Deus. Pô, Deus, te flagra que eu estou necessitado de ti!”.

Já ouvi outras preces iguais a esta. Há pessoas que acham que Deus foi feito para servi-las e solucionar todos os seus problemas.

E, assim, se frustram com Deus.

Por sinal, o mesmo aconteceu exatamente com Jesus Cristo, filho de Deus, filho único de Deus, unigênito, também Jesus Cristo se decepcionou com Deus. Quando estava pregado ao lenho e antes de desfalecer diante da crucificação, disse, segundo consta na Bíblia: “Pai, por que me abandonaste?”.

Ocorre-me que, fosse tarefa precípua de Deus socorrer os homens quando estes estivessem em dificuldade, o mundo seria um campo maravilhoso de lazer, ninguém mais teria qualquer problema.

A qualquer dificuldade, o fiel oraria a Deus e este viria em seu socorro, acabando com o problema.

Evidentemente que não é assim, e as pessoas não podem colocar na conta de Deus as suas frustrações.

A relação entre os homens e Deus tem de ser colocada noutro plano.

Não pode ser vista como imediatista, quando Deus estaria de plantão para socorrer todas as emergências dos homens.

Melhor que se tenha Deus como fonte de meditação sobre a nossa condição filosófica perante a vida, o passado, o futuro do que como quebra-galho eventual das nossas dificuldades.

Da minha parte, erigi Deus como reserva nas minhas meditações. Ele está lá, distante, remoto, como um ímã oculto no infinito e eu estou aqui na luta da vida, me virando para sobreviver.

Envio-lhe minhas orações para que me auxilie na façanha de viver, mas não sou direto com ele, cobrando-lhe sobre determinados problemas.

A relação que tenho com Deus, em quem creio, é, digamos assim, institucional. Ele lá no infinito, eu aqui na Terra. Ele como espírito supremo, eu como mero terráqueo sujeito a todas as intranquilidades da vida.

O caso daquele fiel que diz que Deus o está sacaneando ao não atender o seu pedido é literalmente o da pessoa que elegeu Deus como parceiro: a cada tropeção seu, ele pede que Deus interceda e normalize o seu caminho.

Será que pode ser assim? Será que Deus é um pronto-socorro? Será que Deus é como uma emergência de hospital, capaz de nos curar de todas as doenças, males, infortúnios, de todas as urgências danosas que nos atacam?

Se fosse assim, seria uma barbada viver: toda vez que tivéssemos qualquer contrariedade, fosse ela suave ou de vulto, chamaríamos por Deus, que viria nos socorrer e nos livraria de todos os contratempos, desde os menores até as desgraças.

Não é assim.

Deus é um grande reforço. Mas não é remédio pronto para todos os males.

Tem de haver uma melhor conscientização do papel de Deus.


01 de outubro de 2011 | N° 16843
DAVID COIMBRA


O idiota da família

Durante toda a década de 60 Sartre dedicou-se a escrever a biografia definitiva de Flaubert. Redigiu mais de duas mil páginas, mas não chegou a concluir a obra. Ainda assim, no começo dos anos 70, lançou o livro dividido em três robustos tomos sob o título “O idiota da família”. Tentei encontrar esse livro traduzido para o português e não consegui.

Não existe nem em português de Portugal, pelo que apurei, e a única pessoa que conheço que o tenha lido parcialmente é o meu amigo José Antônio Pinheiro Machado, e o fez no original, em francês.

O idiota da família, no caso, é o próprio Flaubert. Quando menino, seus pais o tratavam com um imbecil. Faziam-no acreditar que era um imbecil. Na biografia, Sartre teria deduzido que muitas das características da personalidade de Flaubert se deviam ao desamor que a mãe nutria por ele, o que não é de se surpreender.

Outro que sofreu com a falta de afeto da mãe foi o filósofo alemão Arthur Schopenhauer. Não que Johanna, a mãe dele, o desprezasse, como desprezado era Flaubert. Não chegava a tanto. Mas Johanna tratava o filho como se ela fosse um pai de então, o começo do século 19.

Quer dizer: não lhe tinha condescendência. Dava-lhe liberdade, criticava-o e até o orientava, mas jamais o consolava. E é isso que mais toca um filho na figura da mãe: ela o consola sempre, em qualquer situação, com seu amor incondicional.

Aquela singela canção que Roberto Carlos compôs para sua mãe, em sua candura, aquela canção diz precisamente isso. De nada mais fala a letra da música a não ser do consolo que a mãe presta ao filho. Roberto diz que na hora do desespero queria gritar pela mãe, como gritam os soldados feridos no campo de batalha.

Diz que queria ouvi-la a aconselhá-lo: “Aproveite o seu tempo, você ainda é um menino”. E, finalmente, implora, comoventemente: “Me leve pra casa! Me abrace forte! Me conte uma história! Me faça dormir!”

Tão simples e tão verdadeiro. Ali está expresso o principal sentimento que um filho tem por uma mãe. Ali está expressa a necessidade que tem uma pessoa, qualquer pessoa, de saber que em algum lugar do mundo existe alguém que a acalenta sem nunca nada questionar.

O mesmo Schopenhauer, a quem me referi, escreveu que um dia se espantou ao descobrir que as pessoas acreditam que exista, fora delas, um ser que as ama e que cuida delas. Este “ser”, evidentemente, é um deus. Mas o deus só existe se, primordialmente, na infância, a criança se sentiu amada e protegida. Eis o papel da mãe tradicional.

É claro que o pai tradicional tem um papel semelhante, embora um pouco diferente. É dele o papel da proteção, sim, mas também o da orientação e da disciplina. Eventualmente, o da punição. E aí, unindo-se as duas figuras, a consoladora e a punidora, está pronta a imagem do deus.

O deus, qualquer deus, não está fora das pessoas. Está dentro delas. A autoconfiança e a segurança com que uma pessoa encara a vida, a consciência, ainda que ilógica, de que algo fora dela passa os dias velando por ela, isso tudo vem da infância, da forma como o pai e a mãe trataram a pessoa na infância.

Estou, é claro, generalizando e reduzindo as figuras do pai e da mãe às figuras tradicionais do pai e da mãe, como já disse. Essa segurança e essa confiança podem ser dadas por um deles apenas, ou por um tio, um avô, uma madrasta. Tanto faz, desde que a criança receba essa dádiva.

É o que falta a muitos desses meninos de rua brasileiros. Não existe para eles o consolo amoroso da mãe ou a proteção enérgica do pai. Eles crescem tortos, como cresceram Flaubert e Schopenhauer. O problema é que nem todo mundo é um Flaubert ou um Schopenhauer. Nem todo mundo pode ser poeta ou filósofo.

Nem todo mundo pode ser, da mesma forma, jogador de futebol profissional. Não é fácil ser jogador de futebol profissional. Menos fácil ainda é ser jogador da Seleção Brasileira. Mário Fernandes, mal saído da meninice, conseguiu essas façanhas. Quase abdicou de uma no início da carreira, ao fugir do Grêmio. Abdicou de outra agora, ao pedir para ser desconvocado da Seleção. Arrisco a dizer que lhe faltou a figura do pai nesse momento.

Alguém acima e fora dele, que lhe servisse de consciência, que lhe desse orientação. Uma voz forte que lhe dissesse, como um deus, o que é certo e, sobretudo, o que é errado. Porque às vezes um homem só precisa disso: que alguém lhe diga o que fazer.


01 de outubro de 2011 | N° 16843
CLÁUDIA LAITANO


Sagração da primavera

O cercado cheio de brinquedos foi instalado no meio da sala de estar, estrategicamente posicionado para que o vô e a vó possam espiar o sono do neto enquanto se ocupam dos afazeres do dia. Eduardo tem um ano e está dormindo a sesta alheio ao movimento da casa. Ao seu lado, o avô assiste a seu sono como quem contempla uma obra de arte: silencioso, absorvido e, por hábito do ofício, ensaiando a tradução em palavras da sensação que aquela imagem provoca.

O avô de Eduardo foi professor de história da arte a vida toda e está acostumado a ajudar seus alunos a ver o que um olhar destreinado não percebe. Mas para descrever o sono de uma criança, daquela criança, pensa o avô, seria preciso um poema.

Já no escritório, preparando-se para a entrevista que me daria em seguida, o escritor Armindo Trevisan, avô de Eduardo, conta que ainda não conseguiu traduzir poeticamente o que, sem qualquer esforço, consegue me explicar em sua prosa elegante e afetuosa: “O sono de uma criança é o contrário da morte, não é?

A vida em estado de plenitude e renovação”. Trevisan tem 78 anos e uma impressionante capacidade de trabalho – atualiza um blog sobre literatura e arte, escreve poemas, dá palestras.

Saí da casa dele pensando que um dos segredos para se envelhecer com lucidez e energia, além de alguma sorte, é dispor de um certo talento para permanecer “sagrando a primavera”: esse esforço cotidiano, de certa forma contraintuitivo, de enfrentar a passagem do tempo celebrando o que renasce e não apenas lamentando o que se perde.

Filhos e netos são um projeto possível de continuidade, uma chance de “estarmos lá” mesmo quando não estivermos mais – uma fração de eternidade a que quase todos os mortais têm acesso. O mesmo acontece com a arte, que nos coloca em contato com a sensibilidade de pessoas que viveram muito antes de nós. Diante de um quadro, de um livro ou de uma música, vivemos todos no mesmo tempo contínuo: o tempo do artista, o dos espectadores de outras épocas, o nosso.

Os artistas da nossa geração, porém, entram em uma dimensão de tempo à parte. É mais difícil vê-los envelhecer e nos dói mais quando eles morrem, porque são um espelho da nossa própria finitude. Por outro lado, quando o que eles fazem permanece, parece que parte de nós sobrevive e continua com eles, atravessando gerações e renascendo.

Em um dos momentos mais emocionantes do Rock In Rio até agora, músicos e uma plateia de quase 100 mil pessoas se uniram esta semana para homenagear o legado da banda Legião Urbana. Renato Russo, que morreu há 15 anos, estava presente não apenas nas músicas que toda a jovem plateia parecia saber de cor, mas na voz que a imaginação, na ausência de um substituto possível no palco, tratava de recriar internamente para dar corpo às canções.

Se existe uma juventude eterna possível, é essa de ver uma plateia de adolescentes cantar as canções da nossa adolescência. Eis uma exuberante sagração da primavera: a eterna primavera da música.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011



30 de setembro de 2011 | N° 16842
LIVRE CONCORRÊNCIA


Infraero muda regras para lojas em aeroportos

Objetivo é impedir a concentração de mercado

A Infraero decidiu mudar as regras de concessão de áreas comerciais nos aeroportos brasileiros com o objetivo de impedir concentração de mercado e preços abusivos.

A prática vinha sendo observada em vários terminais desde 2009, quando a estatal alterou a forma de concessão levando em consideração o maior preço para o metro quadrado.

A Infraero publicou ontem um ato administrativo com as mudanças. A primeira resolução determina que os licitantes que já tiverem áreas comerciais no aeroporto optem entre uma ou outra caso vençam a disputa. A portaria veda a acumulação de área e obriga a devolução na assinatura de qualquer novo contrato de locação.

Em outro artigo da mesma portaria, a estatal determina que as superintendências regionais controlem os preços cobrados pelas concessionárias e a oferta de produtos de qualidade com a cobrança de preços compatíveis ao mercado local. Para isso, os comerciantes deverão apresentar à Infraero uma vez por ano pesquisa de compatibilidade de preço em relação à concorrência.

As decisões foram tomadas pela diretoria comercial da Infraero depois de o Ministério Público Federal recomendar, em agosto, que empresas do mesmo grupo econômico tenham mais de um contrato por aeroporto. Segundo o diretor comercial Geraldo Moreira Neves, as decisões garantem a preservação do interesse público nas concessões e a livre concorrência com foco na qualidade dos produtos.

A Infraero convocou para as 9h de hoje reunião pública para dar continuidade à licitação do edifício-garagem do Salgado Filho. A empresa que venceu a concorrência para exploração das 2,4 mil vagas não apresentou garantias para a assinatura do contrato.