quinta-feira, 8 de novembro de 2007



O VALOR DA RELIGIÃO

Intelectuais existem para provocar crises. Só no Brasil não é assim. Depois de Christopher Hitchens em Porto Alegre, com sua crítica radical da religião, Camille Paglia poderá, nesta noite, fazer um contraponto.

Em entrevista recente ao jornal Folha de S. Paulo, ela surpreendeu mais uma vez ao defender a importância do ensino religioso: 'Minha opinião é que a religião não deveria ter influência na política, mas ela é absolutamente central para a cultura e a experiência humana.

Ainda que eu não acredite em Deus, considero as grandes religiões do mundo sistemas que de fato ajudam a entender os mistérios do universo e da vida humana. Quando intelectuais tomam a posição de que as pessoas inteligentes não crêem em Deus e que apenas os fracos ou os tolos acreditam no que diz a religião, é um desastre para os mais jovens.

Não dá para entender o mundo e sua história sem conhecer as grandes religiões'.

Para ela, o cristianismo sempre paga o pato. É a religião que mais tolera críticas e que por isso sofre o maior número de caricaturas. Camille Paglia não está disposta a fazer concessões para o conservadorismo de certas religiões que condenam a mulher a um lugar secundário em nome de um texto sagrado ou de uma interpretação que esconde a historicidade dos fatos e das representações sociais.

Nada é definitivo. As culturas mudam para melhor e para pior. A crítica intercultural é possível e necessária, mesmo se pode chocar antropólogos: 'O feminismo, ao menos o americano, ficou paralisado por essa questão.

Como criticar o tratamento dado às mulheres em certos países sem automaticamente criticar aquela cultura particular? Ao defender os direitos das mulheres, fica implícita uma idéia de ‘superioridade americana’ em relação à cultura muçulmana'. Querem mais? Tem mais.

A capacidade de Camille Paglia de horrorizar as feministas é incomensurável. Ela parece estudar minuciosamente a forma de produzir o choque perfeito.

Quando atira, não pensa duas vezes, atira para matar. Não lhe passa pela cabeça contemporizar. Sabe que o público só entende o discurso direto, objetivo e frontal. Não dá mole.

Um exemplo: 'O movimento feminista tende a denegrir ou marginalizar a mulher que quer ficar em casa, amar seu marido e ter filhos, que valoriza dar à luz e criar um filho como missão central na vida. Está mais do que na hora de o feminismo ocidental conseguir lidar com a centralidade da maternidade para a maioria das mulheres no mundo'.

Não há como duvidar: Camille Paglia é fogo. Mas não de palha. Fogo cerrado. Fogo cruzado. Às vezes, bala perdida. Mesmo assim, passado o essencial do combate contra o politicamente correto, já não assusta muita gente. A sua munição está quase esgotada.

Os problemas, evidentemente, continuam os mesmos, mas os efeitos da sua retórica bélica já não produzem a mesma devastação encomendada. Afinal, na 'sociedade do espetáculo', tudo é reapropriado pelo sistema, toda moda passa e tudo é assimilado pela massa como mais um divertimento tranqüilo.

A polêmica não passa de mais um produto à venda. Apesar disso tudo, sem exagerar nem relativizar demais, dá para dizer que Camille Paglia ainda tem bons momentos como pistoleira de aluguel.

O Bope é fichinha perto do seu poder de fogo e da sua capacidade de torturar os adversários. Ela o faz com requinte, satisfação e sacadas intelectuais geniais.

juremir@correiodopovo.com.br

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