
07 de novembro de 2007
N° 15411 - David Coimbra
Minha fraqueza
Queria ter essa qualidade do Diogo Mainardi: a certeza avassaladora. Queria sentar para escrever um artigo sobre um biltre qualquer, estalar os dedos das mãos, e pensar: agora vou acabar com uma reputação.
Sim, porque há uns sujeitos por aí que tenho vontade de lhes dizer o que é que tu estás pensando, seu escroto, seu analfabeto, seu ignorante, sua besta sem mãe, seu idiota, quem tu pensas que tu és, seu burrão, seu mané, seu otário, seu juca??? Ah, como gostaria de dizer isso para uns e outros...
Mas não consigo. Por vários motivos. Em primeiro lugar, porque sinto pena. Se critico alguém, e essa pessoa se entristece, entristeço-me também.
Arrependo-me na hora. Ainda mais se descubro que essa pessoa gosta de mim ou me elogiou algum dia, algo do gênero. Aí, sim, aí fico virado num mondongo emocional.
Agora tem o seguinte: só me comovo se o cara fica triste; se ele fica brabo, dá-me ainda mais gana de criticá-lo e chamá-lo de pústula, beleguim, sacripanta, pulha, essas coisas.
Mas o que me torna melancolicamente diferente do Mainardi não é a fraqueza da piedade. É que eu, realmente, nunca tenho certeza de que alguém merece crítica tão feroz.
Não conheço ninguém completamente mau-caráter ou não consigo distinguir o mau-caratismo quando o vejo, algo muito frustrante. Gostaria de poder apontar para um pelintra desses e acusar:
- Eis aí um canalha consumado.
Mas não tenho a capacidade de identificar canalhas consumados, lamentável. Nem a perspectiva histórica me ajuda. Aquele filme do Hitler, "A Queda".
O Hitler aparece afagando a cadela dele, uma pastora-alemã que lhe abana o rabinho alegremente, aparece acariciando o rosto da secretária, aparece sendo amigo de seus amigos, merecedor de afeto e lealdade. E era o Hitler!
O Nero. Certa vez, o Nero foi assinar uma sentença de morte e suspirou:
- Quisera Deus que eu não soubesse escrever...
Porque lhe era custoso executar um ser humano. Nero! Que matou a própria mãe, Agripina, uma das mulheres mais ardilosas da História, a ponto de cometer incesto com o filho a fim de dominar o Império.
Nero, que mandou incendiar Roma! Que se divertia vendo cristãos sendo devorados por leões e que, dizem, mandou crucificar São Pedro de cabeça para baixo. Para ver...
Outro surpreendente foi Alexandre Magno. Li uma biografia de Alexandre que lhe definia com uma frase preciosa: "Ele jamais rejeitava o amor". Isso diz muito da personalidade de um homem.
Significa que não apenas os sentimentos de brio são capazes de comovê-lo. Que ele, inclusive, é suscetível à compaixão. De fato, a história de Alexandre apresenta-o inúmeras vezes perdoando, se desculpando, sentindo remorsos.
No entanto, há uma passagem dissonante na biografia de Alexandre. Depois de demorado cerco à cidade de Gaza, ele finalmente a conquistou.
Encontrou o comandante inimigo, Bétis, de armas partidas, sangrando, cercado por macedônios, e ainda assim resistindo. Alexandre ordenou que se rendesse. Bétis nem sequer respondeu.
- Não dobra o joelho, não faz um pedido - rosnou Alexandre, acrescentando: - Se não lhe arranco uma palavra, vou arrancar-lhe um gemido.
E mandou que lhe furassem os calcanhares, amarrando-o através deles a um carro, com o qual arrastou-o pela cidade, reduzindo o bravo inimigo a retalhos de carne sanguinolenta.
Por que um homem nobre como Alexandre teria se portado dessa forma exatamente quando diante do destemor que ele tanto prezava? Mistérios da alma humana.
Mas aí é que está: nenhuma pessoa é totalmente boa ou totalmente má, ninguém é sempre corajoso ou sempre covarde, não existe nem jamais existiu uma pessoa que fosse só trevas ou só luz.
Por isso não consigo ser definitivo a respeito de ninguém. Não consigo, por exemplo, sentenciar: esse jogador é perna-de-pau, esse não presta, esse tinha que abrir uma fruteira ou trabalhar numa pizzaria.
Porque o jogador, no momento em que se torna profissional, alcança um nível de excelência que lhe dá alguns predicados suficientes para jogar futebol com alguma eficiência.
Claro que, certos jogadores, olho e concluo: não podem jogar na dupla Gre-Nal. Não é difícil de saber quem são. Jogadores já de alguma idade, que só passaram por times medianos, que giraram e giraram sem jamais fazer bom sucesso.
Esses não podem vir para a Dupla. Sei quem são esses, todo mundo sabe. Mas não vou citar-lhes os nomes. Não consigo, já disse. Não sou um Mainardi. Não tenho certezas. Tenho pena.
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