sexta-feira, 23 de setembro de 2022


23 DE SETEMBRO DE 2022
CARPINEJAR

A gavetinha dos utensílios

A cozinha é o eixo do mundo para o gaúcho. Se precisasse escolher um único aposento de toda a casa para ficar trancado no Apocalipse, seria a cozinha. É onde conversa relaxado, prepara o mate, toma o café da manhã com a família, recebe os amigos mais assíduos para confidências.

Tanto que ele só dá por encerrada a faxina quando baixa o tampo de vidro do fogão, coloca uma toalhinha de crochê e a chaleira por cima. Significa que a residência está limpa. É o último ato da organização.

O fogão é uma segunda mesa, a chaleira é a nossa cristaleira. Na última semana, meu melhor amigo me visitou para preparar um risoto para minha família. Ele assumiu a cozinha. Não há prova maior de amizade, mais do que emprestar dinheiro, mais do que emprestar carro. Deixar que alguém mexa naquele ambiente íntimo é total confiança, porque vai alterar o esconderijo de cada pertence, de escoador a pegadores e colheres de pau.

Em certo momento da sua movimentação com as panelas, ele me perguntou onde estava o chinois - pronunciou "chinoá". Dei de ombros. Minha esposa tampouco conhecia o que era aquilo. Zé não desistiu e procurou na terceira gaveta. Todo mundo tem uma gaveta em que coloca tudo o que é não talher. Lá, encontrou o funil de metal. Eu não tinha ideia de como a estranha peça cônica chegou até ali. Se veio como presente de casamento ou já se encontrava no lugar como herança do antigo morador. Não nos lembrávamos de ter comprado.

Recordamos os itens mais frequentes de nossa rotina - o ralador de queijo, a espátula, o abridor de lata, o saca-rolhas, o cortador de pizza, o cutelo -, mas desconhecemos a existência de metade dos acessórios domésticos disponíveis em nossos armários - o almofariz, a chaira, o mandolim, o zester, o descaroçador. Cada um tem uma função, um propósito para facilitar a sua vida. Você pode possuir um utensílio e jurar que nunca o viu.

Nosso coração é como essa gaveta de mistérios, cheia de emoções que não usamos. Nem sabemos da sua presença. Em nossa alma, habitam finalidades e forças inexploradas. Desprezamos grande parte de nossos dons pela comodidade de repetir o básico, pelo medo da criatividade, pelo receio de errar ao tentar novas receitas de comportamento e de felicidade.

Quantas virtudes seguem intocadas dentro de nós pela pressa ou pela indiferença doméstica?

Recorremos aos grandes sentimentos, como o Respeito, e esquecemos que há a Decência e a Honra depositadas em seu fundo, instrumentos importantes para a preservação da nossa coerência. São princípios que deveríamos empregar com mais frequência para garantir a fidelidade aos nossos sonhos.

Você tem utilizado a sua doçura, o fouet do seu espírito, para fazer a clara em neve?

Uma visita me apresentou a minha própria casa, devolveu o potencial de meu lugar e de minha personalidade, despertou a gratidão pelo patrimônio que já possuo, mostrou a exuberância das ferramentas que estão à minha disposição.

CARPINEJAR

23 DE SETEMBRO DE 2022
OPINIÃO DA RBS

PRUDÊNCIA ANTE AS INCERTEZAS

Foi prudente e responsável o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) em sua decisão anunciada na quarta-feira. O colegiado interrompeu o longo período de alta do juro, mantido em 13,75% ao ano, mas não fechou a porta para uma nova elevação da Selic, se necessária. Ressaltou que "não hesitará em retomar o ciclo de ajuste, caso o processo de desinflação não transcorra como o esperado".

Ocorre que a complexidade do cenário à frente, de fato, dificulta uma leitura segura dos próximos meses. Há inúmeras incertezas internas e externas. No front doméstico, teme-se um rombo orçamentário significativo para 2023 devido a uma série de benesses concedidas nos últimos meses, muitas de cunho eleitoreiro. A edição de agosto do Boletim Macro do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas (FGV) aponta a possibilidade de um desajuste fiscal de R$ 430 bilhões. Um dos exemplos é o que envolve o Auxílio Brasil. Os principais candidatos à Presidência da República prometem não apenas manter os R$ 600, como assegurar adicionais para certas condições. Isso sem serem claros sobre qual será a fonte dos recursos.

Outro ponto relevante está nas desonerações que garantiram a queda dos custos de combustíveis e energia. São válidas até o final do ano. Ou seja, devem voltar a pressionar a inflação em 2023. O próprio Copom, em seu comunicado divulgado ontem, mostra que projeções para os preços administrados são de uma deflação de 4% em 2022, mas alta de 9,3% no próximo ano. Por outro lado, a atividade econômica doméstica se mostra resiliente ao aperto monetário até aqui, embora se espere uma acomodação do ritmo de crescimento da atividade econômica do país em 2023.

O panorama externo também é desafiador. Os principais bancos centrais do mundo, tentando conter a inflação global, seguem o ciclo de alta do juro. O andamento da guerra na Ucrânia, sem sinais de um fim do conflito, não permite vislumbrar com segurança a variação dos custos de commodities energéticas, fertilizantes e alimentos. Teme-se recessão nos Estados Unidos e na Europa e desaceleração da economia chinesa.

A dificuldade para fazer projeções com alta probabilidade de confirmação reside na constatação de que existem múltiplos sinais em sentidos divergentes quanto à inflação. Na quarta-feira, pela primeira vez em seis anos, a decisão do Copom não foi unânime. Dois diretores votaram por uma alta residual de 0,25 ponto percentual na Selic. É uma prova do cenário intrincado.

Juro alto é péssimo para a atividade econômica e para o custo do crédito. Mas, no momento, não há nada a sinalizar que será possível, nos próximos meses, dar início a um ciclo de corte. Não ao menos até meados de 2023, pela visão do mercado. A cautela, portanto, é o mais adequado para o momento. Assim, o BC, por ora, espera que o patamar atual seja suficiente para domar a inflação e ancorar as expectativas. Mas ressalta que permanece vigilante. Resta aguardar que o governo que assumir no próximo ano, seja o atual, o reconduzido, ou um novo, consiga conciliar compromissos com responsabilidade fiscal e, no ambiente externo, caminhe-se para a solução de conflitos e a redução de incertezas.


23 DE SETEMBRO DE 2022
+ ECONOMIA

O "avião gaúcho"

O investimento de R$ 300 milhões da Aeromot em uma unidade de montagem de aeronaves no Distrito Industrial de Guaíba terá como primeiro modelo produzido no Rio Grande do Sul o bimotor DA62, que tem valor de mercado estimado em US$ 2 milhões. Sim, de dólares.

A aeronave tem a marca da Diamond Aircraft, com sede na Áustria, da qual a Aeromot é distribuidora exclusiva no Brasil. Ou "era", porque passará a montar, além de distribuir os demais modelos. O objetivo da empresa é começar as obras do centro de montagem e tecnologia em Guaíba no próximo ano. Antes, precisa garantir o licenciamento ambiental e as chancelas necessárias dos órgãos de regulação da aviação civil. Serão gerados 500 empregos diretos e há estimativa de mais 800 indiretos. A expectativa é de começar a entregar os primeiros modelos do DA62 produzidos no CTAero a partir de 2025.

Conforme o Registro Aeronáutico Brasileiro (RAB), o DA62 responde por 66% das entregas de aeronaves a pistão fabricadas desde 2018 no país. Conforme os dados disponíveis em catálogos, o modelo tem alta tecnologia embarcada. O motor Austro Engine AE330 tem 180 HP turbo de potência alimentado por combustível de jato (JetA-1), também conhecido como querosene de aviação. Como acessórios, oferece alerta de tráfego, radar meteorológico, sistema de oxigênio auxiliar e sistema de degelo (em altitude, as temperaturas podem ser negativas mesmo no verão).

A Aeromot Aeronaves e Motores S/A é uma empresa de tecnologia aeronáutica com 54 anos de atuação. Fornece soluções adaptadas para necessidades específicas ao mercado aeronáutico militar e de segurança pública, com destaque para o fornecimento de aeronaves e sistemas multimissão, além de atuar no setor privado. Desenvolve projetos de integração de sistemas, fabricação de peças e manutenção aeronáutica. Sua matriz fica em um hangar do aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, e ainda tem sede administrativa e industrial na Avenida Sertório, na capital gaúcha, e um hangar em Belo Horizonte (MG), no aeroporto da Pampulha.

Sete investidas na RBS Ventures

No lançamento oficial da RBS Ventures, ontem, os sócios-fundadores Fernando Tornaim e Mauricio Sirotsky Neto anunciaram que, até o final do ano, já terão sete empresas investidas. A empresa já tem parceria com Globo Ventures na Player 1, focada na cultura de jogos eletrônicos, e exclusividade na publicidade dos estádios Beira-Rio e Arena do Grêmio. A empresa se define como "media capital", ou seja, usa seus espaços de divulgação como forma de se associar a negócios que considere estratégicos. Embora tenha como referência empresas como Google Ventures, Sirotsky Neto destacou que o modelo é inédito no Estado e, até onde se sabe, no Brasil. Também vai estudar aportes financeiros em negócios e parcerias com fundos e escritórios de gestão de patrimônio.

é o valor máximo do faturamento de empresas de energia solar para ter o Selo + energia sustentável, resultado de parceria entre Banrisul, UFRGS, Sebrae RS e Senai-RS. A iniciativa vai destacar até 30 negócios considerados integradores.

MARTA SFREDO

Lanceiros Negros

Os dias 15 e 20 de novembro já fazem parte do calendário oficial do Brasil, o primeiro há mais de um século; o segundo, aos trancos e barrancos, desde 2011. O dia 15 remete ao golpe militar concretizado com base numa fake news (a de que Dom Pedro II iria nomear o gaúcho Silveira Martins para o lugar do Visconde de Ouro Preto, derrubado por Deodoro na confusa quartelada que passou à história com o nome de Proclamação da República). Já o dia 20, data da morte de Zumbi, virou, por sugestão do militante negro gaúcho Oliveira Silveira, o Dia da Consciência Negra. É feriado em mais de mil municípios de 19 dos 28 Estados do Brasil.

O Rio Grande do Sul é uma das nove unidades da federação que não acolheu o projeto do senador Randolfe Rodrigues, estimulado pelo senador gaúcho Paulo Paim, para que a data virasse feriado. Por isso, embora esse país já tenha feriados o bastante, fica a singela sugestão de que, em vez do dia 20, vire feriado por aqui o 14 de novembro. Seria tipo o Dia da Má Consciência Branca. Pois a 14 de novembro de 1844 se deu o massacre de Porongos, quando cerca de cem Lanceiros Negros foram mortos no combate que virtualmente marcou o fim da Guerra dos Farrapos, aquela que ainda chamam de Revolução Farroupilha.

Pairam dúvidas, falácias, lacunas, acusações vis, reticências e mentiras deslavadas em torno do infame episódio. Que os lanceiros eram negros, que tinham sido escravos, que a liberdade lhes fora prometida, que inúmeras vezes demonstraram bravura em combate e que foram mortos na calada daquela madrugada, são fatos indiscutíveis. Agora, que tenham sido desarmados e então foram traídos é algo jamais comprovado - e cuja história se baseia noutra fake news: uma carta forjada na qual o então Barão de Caxias teria combinado o desarme e o massacre dos lanceiros com o general farroupilha David Canabarro.

Há muito mais a falar sobre o tema, amplo, intenso, dramático, revelador. Bom saber, por exemplo, que embora em geral representados montados a cavalo, eles lutavam a pé: eram peões de infantaria, e, ainda assim, às vezes enviados à frente da cavalaria. Mas o tempo urge e o espaço é curto. Então, por ora, basta dizer: visite a exposição Lanceiros Negros, fotos de Márcio Pimenta com intervenções artísticas de Paula Taitelbaum, em cartaz na Procuradoria-Geral da República em Porto Alegre, e veja como os Lanceiros Negros seguem bem vivos em nossos dias.

EDUARDO BUENO 



23 DE SETEMBRO DE 2022
INFORME ESPECIAL

Um presente para Porto Alegre

Erguido em 1923 nos altos do bairro Rio Branco, em Porto Alegre, o edifício Pia Chaves Barcellos está oficialmente tombado. Ao som da Orquestra Jovem do Rio Grande do Sul, a cerimônia foi realizada na noite de quarta-feira (foto), na pequena capela do prédio, uma verdadeira relíquia "secreta", já retratada aqui na coluna.

Fruto de iniciativa da prefeitura, o tombamento reconhece a importância histórica, arquitetônica e cultural do local e garante que a construção seja preservada. É um presente para a cidade.

O espaço foi idealizado pelo casal Pedro e Ilza Chaves Barcellos e, durante décadas, acolheu meninas órfãs. Neste ano, voltou aos holofotes ao receber a CasaCor RS e, a partir de 2023, dará espaço, outra vez, à educação, como sede da Escola Pampeano.

Baita apoio

Empresas ligadas ao transporte de passageiros em Porto Alegre decidiram apoiar a campanha do Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RS) para divulgar a ordem de votação dos candidatos na urna - um serviço público de grande relevância. Carris, Catsul, Fraport,Trensurb, Veppo e ATP vão exibir um vídeo sobre o tema em telas instaladas em estações e veículos.

JULIANA BUBLITZ

quinta-feira, 22 de setembro de 2022



22 DE SETEMBRO DE 2022
CARPINEJAR

Nossos pés na caixinha de sapatos

Você só depende de uma caixinha de sapatos para renascer, para voltar a firmar os pés no chão. Quando você estiver triste ou desmotivado, sem sentido algum na vida, cansado do trabalho, estressado no relacionamento, com a fé já sem elástico, vá atrás da caixinha de papelão escondida no alto dos armários, onde você guarda medalhas da juventude, fotos, agendas, correspondências, cartões-postais e DVDs de suas apresentações escolares.

Visitará cenas de sua trajetória contidas num pequeno esconderijo, em cofre absolutamente frágil. Ninguém dará nada por aquilo, parece tão pouco, mas ali você preservou a sua essência.

Assim como prisioneiros têm os seus pertences recolhidos quando são encaminhados para as celas, separamos os nossos objetos do passado para seguir em frente, para olhar para frente. Sempre que somos pressionados pelas dúvidas de nossos caminhos, é a hora de voltar a eles, para redimensionar a nossa liberdade e a evolução de nossas escolhas.

Você não jogou fora os documentos por um propósito, para que chegasse esse momento de reabastecimento interior, para que pudesse se motivar recobrando quem você é.

Ao levantar a tampa de papel, erguerá a sua cabeça outra vez, lembrará o quanto já foi amado, festejado, desejado. Vai rir de suas danças em família, de suas coreografias dentro de casa. Na época, pedia para não ser filmado pelo pai ou pela mãe, hoje estranhamente percebe um fio de gratidão passando pelas veias, agradecendo que eles deixaram registros de sua infância.

Haverá agendas e diários com letras de músicas traduzidas, fotos de bandas de que gostava, ingressos colados de shows, viagens marcantes, corações flechados com nomes de colegas, desenhos góticos.

Puxará do fundo do recipiente um envelope perfumado, escrito por quem namorava na adolescência. Você jurava que morreria com o fim do relacionamento, que nunca amaria de novo. E sobreviveu, e recuperou a autoestima, e amou em tantas e tantas oportunidades depois.

Achamos que não vamos aguentar, e aguentamos. É bom testemunhar as nossas promessas de desespero sendo quebradas, os nossos gostos se transformando, as circunstâncias negativas se moldando para as responsabilidades.

Quando você perde a confiança, é que simplesmente está com saudade de si. Reparamos com facilidade quando sentimos saudade dos outros, e tão pouco prestamos atenção quando sentimos saudade de nós mesmos.

Releia as suas experiências e veja o quanto mudou ao longo do tempo, o quanto cresceu, o quanto jamais se entregou para as adversidades. Nenhum sofrimento é definitivo. Basta uma caixinha de sapatos para calçarmos a esperança.

CARPINEJAR

22 DE SETEMBRO DE 2022
OPINIÃO DA RBS

HIGIENE E DIGNIDADE

Nenhum cidadão consciente das mazelas do país pode ser indiferente às condições indignas de vida de milhões de brasileiros. Felizmente, também parece existir cada vez mais indivíduos e entidades que vão além da justa cobrança de soluções pelo poder público e, abnegados, empenham-se em colaborar de alguma forma para aplacar o sofrimento de outras pessoas. Um belo exemplo de altruísmo foi apresentado na reportagem "Projetos construirão banheiros para 1,8 mil famílias no Estado", publicada ontem em Zero Hora e na terça-feira no Pioneiro.

O texto, assinado pelos repórteres Tiago Boff e Aline Ecker, mostra iniciativa criada pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio Grande do Sul (CAU-RS) no final do ano passado para, sem custos aos beneficiados, erguer em residências de famílias carentes uma estrutura adequada para que possam fazer a sua higiene de forma satisfatória. Assim, têm uma parte de sua cidadania restabelecida. É tocante especialmente o depoimento da pensionista Patrícia Reis Machado, 50 anos, moradora do bairro Guajuviras, em Canoas. Ela conta que desde a perda do apartamento onde vivia, há duas décadas, não sabe o que é um banho de chuveiro.

Merece amplo reconhecimento, portanto, o programa do CAU, batizado de Nenhuma Casa Sem Banheiro. As residências escolhidas têm um projeto completo elaborado por um arquiteto - que se dedica voluntariamente à tarefa -, com todas as instalações próprias para higiene pessoal e necessidades fisiológicas. Os recursos para a construção são repassados pelo poder público. Há, atualmente, 426 estruturas em execução, com verbas oriundas de convênios com prefeituras ou com o Estado. No momento, os municípios contemplados são Canoas, Charqueadas, Caxias do Sul, Santa Cruz do Sul e Lajeado. Em Caxias do Sul, também são parceiros o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB/RS) e o Ministério Público, que repassa verbas de condenações judiciais e de acordos extrajudiciais.

É alentador saber ainda que, em paralelo, a Secretaria Estadual de Obras e Habitação colocou em pé outro projeto de natureza semelhante e com o mesmo nome para a construção ou reforma de outros 1,4 mil banheiros em 42 cidades gaúchas. Os números quanto à carência de estruturas adequadas são estarrecedores. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 1,6 milhão de pessoas não contam com unidades sanitárias em seus domicílios no país. Na região metropolitana de Porto Alegre, seriam ao menos 30 mil. Mas o próprio CAU avalia que os dados estão desatualizados. E muitas vezes, em casas onde moram pessoas com necessidades especiais, é preciso elaborar projetos que contemplem as limitações.

Em breve, Patrícia e alguns milhares de gaúchos poderão tomar um banho quente e manter hábitos de asseio em estruturas salubres e dignas. É uma mostra de que é possível, por meio do voluntariado e em articulação com o poder público, ajudar a oferecer condições decentes de vida e de moradia para os cidadãos mais necessitados.



22 DE SETEMBRO DE 2022
ACERTO DE CONTAS

Rede gaúcha compra lojas do Carrefour

Após aval do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e transcorrido o prazo de recurso, a rede gaúcha de supermercados Asun comprou quatro lojas do Carrefour (as quais pertenciam ao Grupo BIG). Três delas ficam na região metropolitana de Porto Alegre e uma no interior gaúcho. Somadas, elas empregam cerca de 500 pessoas.

As quatro unidades fazem parte das 14 que o Cade determinou que o grupo francês vendesse para que fosse aprovada a compra do Grupo Big - dono dos hipermercados BIG e supermercados Nacional - por R$ 7,5 bilhões. Durante a análise da venda, o Cade informou que teriam de ser vendidas lojas em Gravataí, Viamão e Santa Maria. As duas empresas, por enquanto, não confirmam nem dão detalhes.

Em documento protocolado no Cade, o Asun informou que a operação representa uma oportunidade de expandir a presença no Estado. Em um enxugamento feito pelo Walmart, quando ainda era dono do Nacional, o Asun chegou a comprar lojas da bandeira. Na ocasião, recontratou muitos dos funcionários, que seguiram trabalhando nas operações.

Usuários contam como tem sido a experiência com o 5G

Quase dois meses após a liberação da rede 5G em Porto Alegre - que está em funcionamento desde 29 de julho - muitos já percebem mudanças na velocidade de conexão nos bairros onde a tecnologia chegou. ZH voltou a ouvir, na terça-feira, dois moradores da Capital que haviam sido entrevistados no primeiro dia de experiência com a nova rede.

O professor da ESPM Roberto Uebel, que no primeiro dia do 5G na Capital enfrentou problemas com falta do sinal no bairro Santo Antônio - que estaria no mapa de cobertura da TIM - agora sente a mudança em seu Iphone 12.

- Como é uma rede que carrega mais rápido os dados, há tendência de consumir mais dados. O meu plano controle da Tim foi muito rápido usando a conexão 5G - comentou Uebel.

Apesar disso, não viu grandes diferenças na prática:

- O que percebi é que a rede se expandiu nas últimas semanas. Num trajeto do meu trabalho, no bairro Santo Antônio, até o Centro, já consigo a cobertura completa. A revolução tecnológica do 5G virá com a implementação total na Capital e nas outras cidades e adoção disso pelo sistema de transporte público, da cidade conectada e do sistema de monitoramento. Mas não será da noite para o dia.

Cliente da Vivo e moradora da Vila Ipiranga, na Zona Norte, onde o 5G ainda não chegou, Daiana Fagundes da Silva usa a nova tecnologia no celular Samsung M52 no trajeto para o trabalho. Daiana percebeu redução na velocidade do 5G no Centro Histórico, onde nos primeiros dias sentia que a conexão havia ficado mais veloz.

- Nos primeiros dias, o 5G funcionava muito bem nos bairros que já tinha chegado e eu passava. Depois de uns dias, não foi igual. Mas no bairro em que eu trabalho, no Menino Deus, funciona muito bem - diz Daiana.

GIANE GUERRA

22 DE SETEMBRO DE 2022
ELEIÇÕES 2022

Leite e Onyx polarizam debate

O penúltimo debate do primeiro turno entre candidatos ao governo do RS realçou o antagonismo entre Eduardo Leite (PSDB) e Onyx Lorenzoni (PL). Nas mais de duas horas do embate promovido ontem pela Rádio Guaíba, Correio do Povo e Associação Médica do RS (Amrigs), Leite e Onyx trocaram farpas e acusações.

Além da presença dos dois candidatos que lideram as pesquisas de intenção de voto, também participaram os demais aspirantes ao Piratini cujos partidos têm representação no Congresso: Argenta (PSC), Edegar Pretto (PT), Luis Carlos Heinze (PP), Ricardo Jobim (Novo), Vicente Bogo (PSB) e Vieira da Cunha (PDT). Na plateia, cada campanha pôde contar com até 50 apoiadores, o que rendeu vaias e aplausos nas manifestações.

Logo no começo, todos responderam pergunta formulada pelo sistema Guaíba/Correio do Povo, negando com firmeza qualquer intenção de aumentar impostos em eventual gestão. No segundo bloco, quando candidatos fizeram perguntas entre si, tiveram início as altercações entre Leite e Onyx. Ao escolher Vieira para falar sobre educação, Onyx citou representação popular feita ao Ministério Público Federal sobre suposta pedalada fiscal que teria sido cometida por Leite com recursos do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb).

- Dos R$ 11,2 bilhões para educação, o então governador desviou R$ 4,3 bilhões em 2021. De que forma: R$ 1,2 bilhão foi desviado do pagamento dos profissionais de educação básica. Os outros R$ 3,1 bilhões foram para equilibrar o déficit previdenciário, retirados de crianças e jovens do Estado.

O tucano imediatamente pediu direito de resposta, negado pela comissão julgadora do debate. Na sequência, Leite usou o tempo de pergunta que faria a Bogo para reagir à acusação de Onyx. Segundo o ex-governador, a representação encaminhada ao MPF é de autoria de aliado político do candidato do PL que trabalhou como assessor do presidente Jair Bolsonaro no Palácio do Planalto.

- Foi sonegada informação importante. O cidadão é candidato a deputado na coligação do candidato Onyx e foi assessor do Bolsonaro. Isso não pode ser sonegado. Aliás, sonegou de onde vinham recursos para a campanha, não seria essa informação que prestaria - respondeu o tucano, em referência ao uso confesso de caixa 2 por Onyx nas campanhas de 2012 e 2014.

Ataques

Como não houve confronto direto entre os dois, a troca de farpas era sempre lateral. Onyx disse que o fato de o denunciante ser bolsonarista não o desacreditava e que Leite "usou o bolsonarismo para se eleger em 2018, depois traiu". Já Leite afirmou que obteve diversos direitos de resposta na Justiça Eleitoral por causa "das mentiras dos adversários", mas que prefere atacar problemas e não pessoas.

Na discussão de programas, Leite salientou a organização das finanças públicas em sua gestão, afirmando que busca novo mandato para ampliar investimentos em saúde, educação e segurança. Já Onyx reforçou o alinhamento com Bolsonaro e prometeu facilitar o empreendedorismo e socorrer os mais necessitados.

Descolados da dupla nas pesquisas, os demais concorrentes apresentaram propostas tentando quebrar a dualidade da campanha. Mesclando críticas a Leite e Onyx, Edegar destacou a necessidade de combater o avanço da fome:

- Vamos voltar a investir nos setores produtivos. Quem quiser produzir terá o apoio do Estado, financiamento subsidiado, juro zero. Vamos aumentar a produção de comida e baixaremos o preço na prateleira do supermercado.

Heinze citou a necessidade de investimentos em infraestrutura, como portos, hidrovias e ferrovias, mas defendeu a educação como prioridade, com ensino técnico: - É compromisso que estamos assumindo. Todas as escolas de segundo grau do Estado terão essa oportunidade. Vamos implementar o contraturno escolar. Alunos que quiserem profissão, vão ter.

Defensor histórico da educação, Vieira exibiu preocupação com a segurança pública, prometendo recompor os efetivos da Brigada Militar e da Polícia Civil: - Não se faz segurança sem profissionais nas ruas. Então, o ponto número 1 é concurso público para que tenhamos policiais condizentes com a escalada da violência.

Com carreira no setor empresarial, Argenta citou a geração de empregos como fator de desenvolvimento e defendeu a desburocratização dos licenciamentos ambientais.

- Estive em Caxias do Sul, onde uma empresa demorou seis anos para obter licença ambiental. Parece que emprego não é prioridade. Como aumentar a arrecadação sem aumento de empregos? - questionou.

Jobim enfatizou a necessidade de o Estado adotar medidas que aumentem a competividade das empresas e mais uma vez pregou a venda do Banrisul: - Temos R$ 1,6 bilhão em ações trabalhistas a pagar. Olha o tamanho do buraco que esse banco vai virar.

Dizendo ser contra privatizações, Bogo ressaltou que o Estado precisa apoiar potenciais regionais para gerar riqueza e desenvolvimento:

- Criei programa de reconversão da matriz produtiva da Metade Sul. Quero conversar com cada região para construir projeto de futuro. O derradeiro debate no primeiro turno ocorre na próxima terça- feira, na RBS TV.

 FABIO SCHAFFNER


22 DE SETEMBRO DE 2022
TULIO MILMAN

O primeiro churras

Tinha que ser no 20 de Setembro. Rolou aquele almoço familiar de feriado na casa dos meus pais. Éramos 15. Adoro fazer churrasco. Não significa que eu faça bem, mas não falta esforço. Curto muito escolher as carnes, o carvão, a lenha e fazer o fogo. Aprendi que cozinhar requer disciplina e método. Organizo tudo antes. Chego a cronometrar o assado de tiras. Quatro minutos para cada lado na grelha, fogo bem alto. Sou automotivado. Anos atrás, quando eu ainda fazia comentários no Gaúcha Hoje, o querido Antônio Carlos Macedo, esse baita comunicador com quem tanto aprendi, pegou no meu pé quando eu disse, no ar, que usava acendedor de álcool gel. Rimos os dois. Mas confesso: ainda uso. Acho que Macedão concorda: a essência do churrasco diz respeito à carne, ao fogo e ao afeto.

Nem me importo quando o primeiro comentário na mesa é: "Bah, mas essa salada de batatas está demais".

Para mim, fazer churrasco é uma terapia e uma demonstração de carinho pelos convidados. Justiça seja feita, na terça-feira até ganhei um aplauso coletivo da família. Mas a melhor recompensa foi outra.

Dias atrás, a pediatra liberou o "churrasco sem sal" para a Maya, minha filhinha de 11 meses. Tipo um pedaço de carne que não tranque na garganta e que ela possa segurar.

Na terça, depois de servir a família esfomeada, escolhi um pedaço de vazio com todo o amor do mundo. Dei aquela selada extra na grelha, esperei esfriar um pouco e levei à boca da Maya. Ela deu uma lambidinha, desconfiada. Ato contínuo, puxou da minha mão. Foi aí que tudo valeu a pena. Todos os pães com alho queimados, os entrecots fora do ponto, as costelas cruas. Maya se atracou no "churras do papai" e só largou o naco de carne, seco e retorcido, depois de uns quarenta minutos. Largou não. Deu na boca do Palito, o simpático Fox que rondava a mesa à espera das tradicionais rebarbas clandestinas, geralmente fornecidas pelo meu pai, por baixo da mesa, sem que ninguém note.

Vendo a alegria da Maya ao segurar o pedaço de carne como quem empunha um bilhete premiado da Mega-Sena, me senti o melhor churrasqueiro do mundo. Vocês que são pais e assadores me entenderão. Quando um filho pede "pai, faz churrasco?", algo ancestral, instintivo e belo se acende dentro de nós. Somos ao mesmo tempo provedores, carinhosos, caçadores, acolhedores, fortes e sensíveis. Maya ainda não fala. Mas seus olhinhos e sua voracidade, atracada no vazio que preparei, encheram meu 20 de Setembro de bons sentimentos. Espera, Maya, pra provar sal grosso e o pavê de sobremesa.

TULIO MILMAN

quarta-feira, 21 de setembro de 2022


21 DE SETEMBRO DE 2022
EM CASA

Em "Star Wars: Andor", o nascimento da rebelião

Novo capítulo da guerra nas estrelas, série estreia hoje no streaming

A versão original dos créditos de abertura de Star Wars: Uma Nova Esperança (1977) não avisavam que se tratava do Episódio IV de uma saga interestelar. Como vários outros detalhes, o subtítulo foi adicionado mais tarde por George Lucas, que, graças ao sucesso de sua trilogia original, acabou podendo contar as origens de Darth Vader, da República e do maligno Império Galáctico em uma outra trilogia, lançada entre 1999 e 2005, com os Episódios I, II e III, que ficou conhecida como "as prequels".

Mesmo que sempre tenha sido contraintuitivo que os filmes mais novos de Star Wars contassem uma história mais antiga que os originais, era relativamente simples compreender a cronologia da série de seis filmes. Desde a aquisição da Lucasfilm pela Disney em 2012, contudo, e a profusão de novos projetos na franquia, os jedis não vivem apenas em uma galáxia muito, muito distante, mas também em uma linha temporal muito, muito confusa.

A nova trilogia criada pelo estúdio de Mickey em 2015, por exemplo, que segue os passos de Rey e Kylo Ren, se passa anos após a vitória de Luke, Leia e Han sobre o Império Galáctico no Episódio VI; enquanto os filmes Rogue One (2016) e Solo (2018) se passam no período anterior ao Episódio IV.

Mais uma era foi contemplada nas telas com Mandalorian, a série com o "Baby Yoda", que é ambientada entre as sagas de Luke (Episódios IV, V e VI) e Rey (Episódios VII, VIII e IX). The Book of Boba Fett também se passa nessas décadas de conflitos na galáxia.

E toda essa confusão de idas e vindas na linha do tempo nem leva em consideração as séries animadas da franquia, como The Clone Wars, Star Wars Rebels e The Bad Batch, que expandem ainda mais o universo dos jedis e dos lordes sith.

É bem no meio deste caos temporal que se encaixa o novo capítulo de Star Wars, que estreia hoje no Disney+. Com 12 episódios, que serão lançados semanalmente na plataforma de streaming, sempre às quartas, Andor promete mostrar como, afinal, nasceu e se desenvolveu a Aliança Rebelde. (Uma segunda temporada, também de 12 episódios, já está confirmada.)

Rebeldes

Ou seja, aqui o estúdio retorna ao sombrio universo pós-A Vingança dos Sith (2005), no intervalo entre a queda da Ordem Jedi/ascensão do Imperador Palpatine ao poder e a primeira grande vitória dos rebeldes ao roubar os planos da Estrela da Morte (foco de Rogue One, cujo final corresponde diretamente ao início do Episódio IV).

Assim, de certa forma, a produção se desenrola na sequência da série Obi-Wan Kenobi, lançada em maio deste ano também no Disney+, ambientada logo após o fim da República.

Como destaca a sinopse oficial, esta é "uma era repleta de perigos, enganos e intrigas", mas que testemunha o nascimento de um grupo de rebeldes capazes de mudar a história da galáxia.

O responsável por conduzir a trama do novo título é o velho conhecido do público Cassian Andor (Diego Luna), introduzido justamente em Rogue One.

Também retornam à produção Alan Tudyk, que dá a voz ao robô K-2SO, e Genevieve O?Reilly, que reprisa o papel de Mon Mothma, a quem ele também deu vida no Episódio III.

Memória

Mesmo que Andor, tal como outras produções de Star Wars lançadas pela Disney+ nos últimos anos, ainda deva funcionar para aqueles que não se recordam de detalhes do restante da franquia, a plataforma de streaming oferece todos os outros títulos da saga para quem quiser refrescar a memória antes de pular na nova jornada pelo espaço.

Para quem quiser uma visão cronológica dos eventos que levam até a Aliança Rebelde, é recomendável assistir a Episódio I: A Ameaça Fantasma (1999), Episódio II: O Ataque dos Clones (2002) e Episódio III: A Vingança dos Sith, que cobrem o fim da República, assim como a série de Obi-Wan (2022), sobre os eventos logo após a trilogia, e a série animada Rebels (2014-2018), sobre os rebeldes. Especificamente para quem não se importar com spoilers, Rogue One também é recomendado, visto que mostra o final da história de Andor.


21 DE SETEMBRO DE 2022
JEFERSON TENÓRIO

Repensar o hino é só o começo

O hino do Rio Grande do Sul, como já se sabe, carrega conotações racistas em sua letra. Muito tem se discutido sobre o teor dessas representações que emulam e celebram as práticas escravagistas. Dias atrás, a ministra Rosa Weber evocou um trecho do hino ao tomar posse como presidenta do Supremo Tribunal Federal: "Mas não basta, para ser livre, ser forte, aguerrido e bravo. Povo que não tem virtude acaba por ser escravo". O trecho em questão permite interpretar que povos escravizados não têm virtudes.

Um hino é, sobretudo, um dos elementos que dão unidade ao povo. Geralmente, o hino narra os grandes feitos heroicos e históricos. No caso do Rio Grande do Sul, esses grandes feitos mascaram, na verdade, ações violentas como o terrível episódio do Massacre dos Porongos, em que os chamados "farroupilhas" faziam promessas de dar alforria aos negros ao final da guerra, mas que acabaram sendo brutalmente assassinados. Portanto, outra contradição se apresenta no hino que tanto orgulha os gaúchos: "Foi o 20 de setembro o precursor da liberdade". Mas liberdade para quem?

Questionar o hino é só o começo. É preciso questionar que cultura é essa que celebra o "de modelo a toda terra" e mantém em suas tradições práticas racistas. Entendam que a questão que se coloca não é uma constatação de racismo sem contexto. Estamos falando aqui de práticas sistemáticas de apagamento da contribuição e identidade negra.

Práticas que vão desde o não reconhecimento de intelectuais negros, como o poeta Oliveira Silveira, até a vergonha social de admitir que a cidade mantém incontáveis casas de religião de matriz africana, como candomblé e umbanda. Além da perda progressiva dos espaços centrais ocupados antes por comunidades quilombolas. E ainda não esqueçamos que a data 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, criada no Rio Grande do Sul, nunca foi reconhecida como feriado no Estado.

Portanto, repensar o hino é só o começo. É nos atos simbólicos que também se escondem as violências. Não se trata apenas de mudar uma letra musical, mas ter uma postura ética diante de um passado que produziu atrocidades. Atrocidades essas que ainda reverberam na população negra gaúcha. Ou seja, precisamos olhar com mais honestidade para a história e para as tradições, reconhecendo seus erros e acertos. É preciso um olhar crítico que diminua a arrogância do "modelo a toda terra" e nos faça não apenas "celebrar", mas "rever" nossas façanhas, pois povo que não tem virtude acaba por escravizar.

JEFERSON TENÓRIO

21 DE SETEMBRO DE 2022
NÚMEROS DO RS

Total de armas registradas mais do que dobra em quatro anos

Dados obtidos por institutos junto ao Exército dizem respeito às aquisições por caçadores, atiradores e colecionadores (CACs)

O número de armas nas mãos de caçadores, atiradores e colecionadores (CACs) mais do que dobrou nos últimos quatro anos no Rio Grande do Sul. Saltou de 65.578 em dezembro de 2018 para 148.526 até julho de 2022. No país, a quantidade de armamentos registrados ultrapassou a marca de 1 milhão: foi de 350.683 em dezembro de 2018 para 1.006.725 armas em acervo até o mês de julho, aumento de 187%. Os dados foram solicitados ao Exército pelos institutos Igarapé e Sou da Paz, e obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação.

Conforme o levantamento, que divide o país em regiões militares (RMs, veja mais detalhes no quadro abaixo), o RS aparece em terceiro em número de armas de CACs no país até julho deste ano. No topo do ranking, está São Paulo, que soma 279.507, seguido pela região formada por Santa Catarina e Paraná, com 171.907. Depois, está a 11ª RM (formada por DF, GO, TO e triângulo mineiro), com 122.648, e a 4ª RM (MG, exceto o Triângulo), com 57.945.

Em julho, levantamento divulgado pelo jornal O Estado de S. Paulo mostrou ainda que o número de pessoas registradas como CAC cresceu na gestão do presidente Jair Bolsonaro. Em quatro anos, o número de cidadãos com esse título cresceu 474%: passou de 117.467, em 2018, para 673.818 este ano (até 1º de julho).

As pessoas cadastradas como CACs já são mais do que os 406 mil policiais militares da ativa no país. O número também é maior do que do efetivo de 360 mil das Forças Armadas.

Flexibilizações

A pauta armamentista voltou com força aos holofotes em 2018, sendo uma das bandeiras da campanha de Bolsonaro. Nos últimos anos, a gestão do presidente flexibilizou o acesso ao armamento, e o STF analisa restrições a essa liberação (leia mais na página 7).

Uma das mudanças foi a ampliação do limite de unidades adquiridas tanto pelo cidadão comum quanto por CACs. Para os institutos responsáveis pelo levantamento, o volume de armas em circulação no país preocupa. Conforme a gerente de projetos do Sou da Paz, Natália Pollachi, mesmo as legalizadas podem acabar gerando mais violência.

- Muitas vezes, a pessoa que tem a arma acredita que está menos vulnerável em um assalto, uma abordagem. Só que, no fator surpresa, ao sacar a arma na intenção de se defender, pode acabar levando um tiro, causando um tiroteio, atingindo terceiros ou até tê-la roubada na ação - opina Natália.

- Além disso, existem os casos em que a pessoa que possui a arma acaba a utilizando em um momento de descontrole - acrescenta.

 BRUNA VIESSERI


21 DE SETEMBRO DE 2022
CAMPO E LAVOURA

O que fez a indústria de máquinas agrícolas desafiar a queda do PIB Lado a lado

Diretamente ligadas à produção agropecuária, as fabricantes de máquinas e implementos do Rio Grande do Sul foram uma exceção aos rastros de perdas deixadas pela quebra de safra. No 2º trimestre, o segmento registrou alta de 15,6% na produção industrial em relação a igual período de 2021, apontam os dados do Departamento de Economia e Estatística (DEE) da Secretaria de Planejamento. Com um detalhe importante: a base de comparação elevada.

- É um crescimento em cima de um crescimento grande - reforça Claudio Bier, presidente do Sindicato das Indústrias de Máquinas e Implementos Agrícolas do Estado (Simers).

No 2º trimestre de 2021, o segmento deu um salto de 51% sobre igual período do ano anterior. A supersafra então colhida foi um dos ingredientes dessa expansão. Em 2022, o avanço veio apesar da quebra de safra. O motivo?

- Essa seca foi diferente das outras, pegou nosso produtor capitalizado. Outra coisa foi o crescimento da agricultura no Brasil. São novas fronteiras, que precisam de máquinas - pontua o dirigente.

A desconcentração geográfica das compras é pontuada também pelo Painel do Agronegócio, análise conjuntural do DEE. "Se fortalece a percepção de que o avanço da indústria gaúcha de máquinas e equipamentos está cada vez mais atrelado ao desempenho da agricultura nacional", destaca a avaliação.

No documento, pondera-se ainda que "o aumento da distância em relação aos consumidores finais não implicou redução da importância do Estado na produção nacional de máquinas agrícolas".

Conforme Bier, o Estado responde por 65% do volume total do país. Há de ser considerado ainda no desempenho do setor o dinamismo da inovação tecnológica. Com produtos mais eficientes, a troca de um equipamento pode levar a outras necessidades. O presidente do Simers explica:

- Há 10 anos, uma colheitadeira colhia mil sacas por dia. Hoje, são seis mil sacas. Tem de ter uma estrutura de apoio por trás. Precisa de mais carretas, mais silos.

São fatores que ajudam a entender números como os da Expointer, com R$ 6,6 bilhões em propostas encaminhadas. E que faz a maioria das indústrias do setor estar com a carteira de pedidos lotada até o final do ano, segundo o dirigente.

O município gaúcho de São Gabriel, na Fronteira Oeste, é um dos três selecionados para colocar em campo um conjunto de boas práticas agrícolas que permitam uma convivência harmoniosa entre áreas de produção de soja e de mel. O projeto que será testado também em Maringá, no Paraná, e em Dourados, no Mato Grosso do Sul, é uma iniciativa de Embrapa e Basf. A escolha dos municípios foi feita com base na representatividade da produção do grão.

A ideia é testar - e encontrar - até 2025 o manejo mais adequado para que se evite a repetição de casos de mortandade de abelhas. Nos registros do Rio Grande do Sul, boa parte das ocorrências está associada ao uso incorreto do inseticida fipronil. As práticas validadas farão parte de uma cartilha para ser distribuída em todo o Brasil.

- A fronteira agrícola da soja seguirá avançando. Precisávamos achar um meio termo para que todos possam sair ganhando - justifica Décio Gazzoni, pesquisador da Embrapa Soja, de Bagé.

Para ele, a iniciativa tem tudo para dar certo:

- A soja é uma fonte de néctar muito importante e floresce em uma época em que há poucas plantas florindo. Próximo de uma lavoura do grão, o apicultor poupa alimento artificial e ganha muito mel. E o produtor de soja pode aumentar de 10% a 18% a produtividade só pela polinização dos insetos.

Para validar as práticas, serão selecionados grupos de produtores com até cinco apiários e sojicultores em áreas próximas. Haverá reuniões de acompanhamento das ações, monitoramento da aplicação de pesticida e treinamento. O acordo de cooperação técnica foi assinado em agosto. A iniciativa partiu da Embrapa, e a Basf é a principal financiadora do projeto.

CAMPO E LAVOURA

terça-feira, 20 de setembro de 2022


20 DE SETEMBRO DE 2022
CARPINEJAR

Mega-Sena maldita

A cobiça é criminosa. Se eu ganhasse na Mega-Sena, não contaria para ninguém, a não ser para o meu círculo familiar mais próximo. Nem é por senso de humildade ou para evitar a ostentação, mas por uma necessidade de proteção da própria vida e dos filhos.

Tenho a crença de que, se você não impõe à bonança o silêncio de túmulo, é você que terminará ocupando a lápide. Eu não faria nenhuma extravagância, nenhuma compra absurda, não daria nenhuma amostra das facilidades de consumo. Talvez desaparecesse por um tempo, escondido num lugar remoto.

A inveja atrai oportunistas, charlatões e vigaristas. Se as pessoas souberem que você está nadando no dinheiro, vão afogá-lo. Todos irão se aproximar de você para tentar obter benefícios. Não existirá uma única relação sincera e ingênua depois da fortuna. O amor genuíno é impossível após a conta transbordar.

Vejo com imensa perplexidade o que aconteceu com Jonas Lucas Alves Dias, de 55 anos, encontrado com sinais de espancamento às margens de uma rodovia em Hortolândia (SP), há uma semana.

Tudo porque não escondeu que arrebatou R$ 47,1 milhões da Mega-Sena, em setembro de 2020. Não se manteve discreto e anônimo diante do milagre financeiro. E acabou pagando a visibilidade pública com a sua vida.

Virou um personagem famoso na região por ter vazado a notícia do prêmio. Ele se referia ao bilhete como "uma aposentadoria gorda".

Apesar de conservar a sua simplicidade, morando na mesma casa com uma irmã e um irmão, apesar de frequentar o mesmo boteco da esquina onde tomava a sua cervejinha, apesar de sair de casa com bermuda, camiseta e chinelo, foi alvo da maldade. O fato de permanecer com a personalidade e a rotina iguais às de antes da bolada não garantiu a sua sobrevivência, pelo contrário, facilitou a emboscada.

A ausência de malícia e a crença na bondade das pessoas fez com que se tornasse uma presa fácil de sequestro, com horários definidos de passeio. Ele não achava perigoso andar sozinho, sem seguranças, pelo bairro. Não morria de medo, não sofria de paranoia, não suspeitava de qualquer bajulação.

Sequer a generosidade o protegeu. Ele tinha empregado a quantia polpuda do sorteio da Caixa Econômica Federal mais com outros do que consigo. Montou uma empresa de ferramentas com ex-colegas de trabalho, comprou medicamentos para um vizinho que se encontrava em tratamento de câncer e presenteou um amigo da infância com um caminhão no valor de R$ 450 mil.

No Brasil, no ambiente tóxico de insegurança e violência que experimentamos, a felicidade caminha sempre em direção ao latrocínio. Mata-se para roubá-la.

CARPINEJAR

20 DE SETEMBRO DE 2022
ARTIGOS

O EXEMPLO JAPONÊS

Fui um dos primeiros a pegar a covid-19, lá em março de 2020. Naquela época, pouco se sabia sobre a doença. Palavras e expressões como teste RT-PCR, antígeno, oxímetro, distanciamento social, Coronavac, entre tantas outras, eram consideradas grego para os leigos como eu. Fiquei uma semana hospitalizado, mas, felizmente, consegui me curar sem nenhuma sequela.

Passados 30 meses da minha temporada hospitalar e já tendo tomado três doses da vacina (por descuido, atrasei a quarta dose), me contaminei pela segunda vez. Fiz o PCR assim que comecei a sentir alguns sintomas suspeitos e positivei. Agora, aqui estou eu, desta vez em casa, escrevendo este texto, recluso e em total isolamento.

Naturalmente que o assunto virou pauta de todas as minhas conversas no atual confinamento, sejam em videoconferências profissionais ou bate-papo com os amigos. Embora algumas pessoas ainda fiquem impactadas e preocupadas com o vírus, ouvi muitas frases do tipo: eu peguei algumas gripes ultimamente e não fiz o teste; agora vai ser assim mesmo, temos que conviver com o vírus; vai ser como uma gripe?

Porém, acredito que valem algumas reflexões. Será que realmente estamos no apagar das luzes da pandemia? Será que não corremos ainda o risco de uma nova e avassaladora cepa? Podemos realmente baixar a guarda e não nos cuidar mais? E quais são todas as consequências da "covid longa", que pode se manifestar mesmo em casos leves? Evidente que não tenho as respostas para essas perguntas. Provavelmente, ninguém as tem.

É evidente que estamos todos cansados e queremos viver uma vida normal e sem restrições. Mas, por outro lado, mesmo se não houver novas mutações significativas nesse vírus, uma coisa é certa: ele continuará entre nós. Portanto, nunca é demais lembrar que é muito importante estar sempre em dia com a vacinação.

Além disso, bem que poderíamos seguir o bom exemplo dos orientais. Em países como o Japão, há muitas décadas, portanto muito antes da covid-19, quem está com sintomas gripais usa máscaras. Isso para evitar a transmissão de patógenos às pessoas que estão à volta. Lição que foi aprendida em pandemias anteriores, mantida através de gerações e extremamente importante na realidade atual. Torço para que essa moda pegue por aqui também. Afinal, coletivismo e respeito ao próximo, atributos tão raros nos dias de hoje, fazem muito bem à saúde. 

Empresário - FERNANDO GOLDSZTEIN

20 DE SETEMBRO DE 2022
OPINIÃO DA RBS

SAEB REFORÇA ALERTAS

Não se pode dizer que os resultados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), divulgados na sexta-feira pelo Ministério da Educação, foram surpreendentes. Mesmo assim, pelo caráter oficial e a ampla cobertura da aferição, em escolas públicas e privadas de todo o país, devem servir para que Estado e sociedade despertem para o tamanho do desafio de se buscar de forma acelerada a recuperação da aprendizagem de crianças e adolescentes.

O resumo da constatação do Saeb é preocupante. Os conhecimentos de português e matemática caíram em todas as séries analisadas na aplicação das provas, que testaram 5,3 milhões de estudantes brasileiros. O público-alvo é formado especialmente por alunos do quinto ao nono ano do Ensino Fundamental e terceira e quarta séries do Ensino Médio. O Saeb, de periodicidade bienal, foi aplicado no final do ano passado, quando era mais consistente o movimento de reabertura das escolas, após o período de maior apreensão com a pandemia.

Nesta edição, também foi averiguada a situação das crianças do segundo ano do Ensino Fundamental. Constataram-se, especialmente, retrocessos gravíssimos na alfabetização em uma fase decisiva para uma continuidade satisfatória do processo de aprendizagem. A trajetória escolar pressupõe o acúmulo paulatino de camadas de conhecimento ao longo dos anos, e alunos em apuros com o básico, ler e escrever, certamente terão obstáculos ainda maiores para assimilar mais conteúdos à frente. Melhorar a proficiência nesse quesito, portanto, deve ser uma prioridade. Caso contrário, ficará ainda mais distante também solucionar a deficiência adicional do analfabetismo funcional.

Estados e municípios, na linha de frente, têm feito avaliações para medir o déficit de aprendizagem. Com os resultados, começaram a colocar em prática planos para reverter as sequelas, com mais aulas extras, atenção às disciplinas em que há maiores dificuldades, combate à evasão e, em alguns locais, aposta em escolas de turno integral. Seria desejável, no entanto, uma efetiva coordenação do Ministério da Educação, para apoiar os entes federados. O Brasil foi um dos países do mundo que ficou mais tempo com as salas de aula fechadas e a pasta foi omissa, sem oferecer orientação e supervisão para uma reabertura gradual e segura das escolas, especialmente da rede pública. Apenas em maio, o governo federal lançou o Plano Nacional para Recuperação das Aprendizagens na Educação Básica. Estados e municípios, no entanto, desde o final do ano passado, já implantavam programas próprios, com diagnósticos e ações.

Mesmo em patamar e velocidade distantes do ideal, os alunos brasileiros vinham melhorando o desempenho medido nas avaliações nacionais. O resultado do Saeb mostrou que o país voltou algumas casas, revertendo o seu progresso lento. Escolas e municípios que participaram podem ter acesso às suas pontuações. Assim, é possível conhecer suas particularidades, inclusive com comparações. É um instrumento a mais para se avançar de forma segura, por mostrar em que estágio cada um está.


20 DE SETEMBRO DE 2022
VAREJO NO RS

Carrefour começa a incorporação das lojas do Grupo BIG

Depois de concluir as primeiras conversões de lojas BIG, em São Paulo (uma das etapas da negociação que movimentou o varejo nacional e envolve R$ 7,5 bilhões em recursos para a fusão), o Carrefour deu largada para o início da incorporação dos pontos de venda da rede adquirida em território gaúcho.

Somando 150 mil funcionários (com cerca de 10%, ou 14,6 mil colaboradores, no RS), a varejista francesa é, agora, a maior empregadora do setor privado no Brasil e conta, para isso, com um ponto estratégico, já existente no Estado, para centralizar o processamento de toda a folha de pagamento no país e servir de retaguarda nas operações administrativas.

Trata-se do Centro de Serviços Compartilhados (CSC), criado pelo BIG, na Avenida Sertório, em Porto Alegre. A estrutura possui, atualmente, 400 funcionários e deverá ser ampliada pela nova gestão do Carrefour para contemplar todas as operações de backoffice (retaguarda).

Em Porto Alegre, para um evento de lideranças, realizado ontem, o CEO do Carrefour no Brasil, Stéphane Maquaire, considerou o CSC um "presente" do BIG. A ideia, explica Maquaire, é que o espaço funcione de maneira estratégica para atingir parte das "sinergias necessárias" no processo de integração com o BIG. Por isso, já nos próximos meses, o objetivo é fortalecer a central, inclusive com contratações.

Além de aumentar a sua relevância administrativa no Carrefour, o Rio Grande do Sul passará a contar, até 2023, com 118 unidades com alguma das bandeiras do grupo, além de 14,6 mil funcionários, de imediato. Antes da fusão, eram apenas 19, com 4,8 mil colaboradores gaúchos.

Isso porque, até 2023 - de acordo com os prazos definidos pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) para avalizar a aquisição - as atuais 13 unidades do Atacadão e as seis do Carrefour Hiper serão acrescidas de: 45 lojas do Nacional, 23 do BIG Hipermercados, duas do Sam?s Club, 13 do Maxxi Atacado, 13 do Todo Dia e outras três operações em postos de gasolina, drogarias, supply, transporte e centro de distribuição.

Segundo Maquaire, em Porto Alegre, os dois Hipermercados BIG serão convertidos em Atacadão, assim como o que ocorrerá com a bandeira Maxxi. Os demais hipermercados funcionarão como Carrefour. As marcas Nacional e Sam?s Club serão mantidas.

Empregos

Alguns modelos, antecipa ele, implicam no aumento do quadro de funcionários. É o caso dos Atacadões. Sem projetar quantas vagas poderão ser abertas por aqui, o CEO do Carrefour comenta que, antes, é necessário entender bem os novos formatos que chegam na esteira de incorporação do BIG, bem como o maior apelo aos produtos regionais, presente em bandeiras como o Nacional.

- São adequações, em andamento, para depois otimizá-las, mas, já na integração haverá necessidade de contratações - afirma.

Para se ter uma ideia do potencial para a geração de empregos, em São Paulo, durante o processo de conversão das bandeiras Maxxi para Atacadão, a média de incremento em postos de trabalho ficou em 10%.

RAFAEL VIGNA