sábado, 3 de julho de 2021


03 DE JULHO DE 2021
MONJA COEN

MEMÓRIAS ANCESTRAIS

O que é a mente humana? Você já parou para investigar como funciona a sua mente? É uma investigação interior, profunda, sutil, íntima.

Ensinamentos antigos afirmam que temos muitos níveis de consciência, que inclusive incluem o Inconsciente Coletivo ensinado e explicado por Carl Gustav Jung. Por exemplo, cada um dos nossos órgãos dos sentidos tem a sua consciência correspondente - logo cinco consciências, gerenciadas por uma sexta consciência.

Além dessas seis, há outras três: uma delas, a sétima, leva as informações que entram pelas cinco consciências e organizadas pela sexta até uma grande memória, chamada a oitava consciência. Esta é como um grande armazém de tudo que já passamos, bem como toda nossa ancestralidade. Temos memórias de medo, de repulsa, de atração, relacionadas a passado tão remoto que nem saberíamos explicar por que nos comportamos de determinadas maneiras. Talvez seja semelhante ao Inconsciente Coletivo de Jung, onde o inconsciente individual também atua anexando novas memórias e respondendo às situações atuais a partir de memórias anteriores. A sétima consciência, além de levar as informações das seis consciências para a grande memória, é quem traz informações que nos levam a responder ao mundo.

Na oitava consciência, carregamos a memória da espécie humana, com lutas, conquistas, sucessos e fracassos. Tudo nos habita e nos influencia. E há também a nona consciência, que talvez Jung chamasse de Self, que o Zen chama do nosso "Eu Verdadeiro" ou "Natureza Buda". Acessar essa natureza desperta, iluminada, de grande pureza, amorosidade, sabedoria, compaixão, ternura e harmonia é o Caminho Zen.

Há um sistema complexo que determina nossos julgamentos, sentimentos, atrações e aversões. Como perceber e nos libertar? Zazen é um dos portais. Para nós, o portal principal. A entrada da frente. Algumas pessoas chegam ao portal e não adentram. É preciso coragem e determinação. Vamos enfrentar nossos medos internos, nossas insuficiências, nossa sombra. Entretanto, lembre-se, se há sombra é por haver luz. Procuremos por essa luz. Esforço, determinação, resiliência, ética, entrega, doação, paciência, meditação e sabedoria são elementos necessários. E o não-medo.

Hoje há grupos de estudo sobre Consciência Sistêmica, uma prática, um estudo, uma meditação, uma terapia e uma forma de nos libertarmos do carma prejudicial desde o passado mais distante - para nos tornarmos mais leves, suaves, amorosos, compassivos e sábios. Carregamos nas células memórias belas e terríveis, quer como vítimas, quer como vitimadores. Reconhecê-las é nosso dever. Compreender as causas e condições do passado distante que ficou impresso na oitava consciência - esta que, como as outras, é tanto coletiva quando individual.

Quando acessamos essas memórias, podemos nos arrepender de faltas cometidas pelo nosso grupo e compreender até mesmo os abusos sofridos por nossos ancestrais, sem manter rancores, tristezas, raivas, vinganças. Sem repetir vícios, aversões e apegos. É possível voltar para o agora infinito, onde todo passado e todo futuro gira e se manifesta.

É nosso direito fazer escolhas. Estas podem ser diferentes da de nossos ancestrais. Cabe a nós abrir caminhos de encontro amoroso, de respeito terno, de compreensão clara, de solidariedade, de resgate e de restauração da tessitura social.

Mãos em prece

MONJA COEN

03 DE JULHO DE 2021
J.J.CAMARGO

QUE MÉDICO PRETENDEMOS FORMAR?

O caráter é o nosso destino. (Heráclito, 500 a.C.)

Que grande e difícil tarefa é formar um médico! Não porque não tenhamos o que ensinar. Pelo contrário, nunca dispusemos de tanta informação, mérito também dos nossos antecessores que abriram trilhas onde não havia nada, essas que o desavisado percorre agora com um ar de soberba de quem, por falta de noção, se comporta como se a chegada dele ao umbral da medicina fosse o marco zero dessa profissão ao mesmo tempo sofrida e maravilhosa.

Ensinar história da medicina aos mais jovens tem a função de alertar que a fortaleza de ciência que nos protege, sem todavia eliminar o medo atávico de errar, foi erigida - uma novidade de cada vez - com trabalho, incerteza, suor e culpa de muitas cabeças que desde sempre só queriam acertar.

Também por isso, quando vejo os médicos da modernidade dando aulas referendadas por protocolos de medicina baseada em evidências, não consigo deixar de pensar no quanto de esforço humano foi dispendido na construção dessas evidências, numa época em que cérebro, intuição, bom senso e zelo eram as únicas armas disponíveis.

Claro que tenho consciência do peso dessa observação e do risco que corro de ser transferido para a galeria dos jurássicos, aqueles cujas fotos são expostas na parede de museus médicos, a serem visitados por velhos saudosistas e jovens pesquisadores em preparação de alguma tese de doutorado. Então, preciso confessar que, tendo ultrapassado a fase da vida em que me esforçava em ser popular, estou só e genuinamente preocupado em oferecer aos jovens em formação a chance de errarem menos e, por consequência, de serem melhores do que nós. Ou pelo menos de não repetirem, por falta de aviso, os equívocos grosseiros que a nossa geração cometeu.

Por outro lado, estou convencido de que treinar um cirurgião é ainda mais difícil, porque o tratamento que ele oferece envolve uma agressão física como preço do resgate da vida que o paciente considerava normal. Se alguém ainda não se deu conta da importância disso, significa que, além de jamais ter sido operado (sorte dele), nunca se aproximou, de fato, dos sentimentos de quem está assombrado com a ideia da morte, rondando sempre por perto, enquanto uma equipe de estranhos mascarados se prepara para fatiá-lo com lâminas afiadas sob o comando de um desconhecido que pode estar de mau humor. Oferecer a melhor técnica possível, sem nenhuma preocupação com empatia e solidariedade, representa apenas uma das metades do melhor que podemos ser.

Na formação do cirurgião que pretenda ser completo, se exige muito mais do que isso. E três requisitos são indispensáveis para que se alcance a completude, que enobrece quem alcança e fascina quem dela se aproxima:

1) Que adore operar, porque só operando muito serão melhores técnicos, pois entre pessoas normais, as que fazem mais acabam fazendo melhor.

2) Que se mantenha atualizado e disfarce a irritação ao ouvir uma novidade que ele devia ter descoberto antes.

3) E, muito importante, que goste de gente, e sinta prazer de ajudar.

Faz enorme diferença perceber que, enquanto as duas primeiras exigências se pode satisfazer por qualificação e treinamento, gostar ou não de gente é um atributo do caráter das pessoas, e isso não se consegue ensinar.

Se um jovem tiver dúvida sobre a importância do último quesito, uma sugestão: pergunte a um clínico experiente como ele seleciona o cirurgião para quem encaminhar os seus pacientes. Como, invariavelmente entre cirurgiões tecnicamente qualificados, ele optará pelo mais carinhoso e empático, caberá ao principiante construir a sua imagem profissional de acordo com sua intenção de atrair mais ou menos pacientes. E, na contramão, não adiantará se queixar de azar profissional, essa herança amarga que é entregue como retribuição a essa triste mistura de impessoalidade e desatenção.

A proliferação de técnicos qualificados tornou o mercado mais competitivo, o que exige que o cirurgião seja mais do que um técnico que corta e costura, porque a sala de cirurgia é muito mais do que um ateliê; porque, ao contrário daquele, no nosso o manequim tem sentimentos, família, medo e esperança. Ou seja, é um de nós, que adoeceu.

J.J.CAMARGO

03 DE JULHO DE 2021
DAVID COIMBRA

É preciso dividir a vida

Já vi crepúsculos. Repare que sou de uma cidade que se orgulha do seu pôr do sol e, de fato, é bem bonito o entardecer às margens do Guaíba. Além disso, vi o sol se deitar atrás dos montes e em frente ao mar, o que também é belo. Mas houve um dia em que um crepúsculo me encantou mais do que todos. Eu estava em Brookline, onde morava, fazendo coisas na rua. Decidi, então, tomar um café em um lugar do qual gostava muito, chamado Allium. Tudo lá era bom, tudo, mas a mufaletta era imbatível.

Assim, pensando nas delícias da mufaletta, atravessei a primeira faixa da avenida e parei no canteiro, esperando que o sinal abrisse para mim. Aí, olhei para o lado, para o horizonte e lá estava ele: o sol. Imenso, cor de laranja, colorindo o mundo em diversos tons de púrpura e amarelo. "Oh!", exclamei, e prendi a respiração. Notei que, ao meu lado, no canteiro, as pessoas sacavam de seus celulares para filmar a cena. Peguei do meu também. Mas não para filmar. Liguei para a Marcinha:

- Tu estás na rua?

- Estou.

- Então vem aqui pra Beacon, na frente do Allium. Tu precisas ver esse pôr de sol!

- Mas eu acho que posso ver daqui.

- Não, não, onde estou é o melhor ângulo. Está incrível. Vem pra cá depressa!

E ela veio. Veio rápido, andava por perto. Parou na esquina e chamei:

- Aqui! Aqui!

O sinal estava fechado. Enquanto ela esperava abrir, o planeta continuou girando, como faz há 4 bilhões de anos, e o sol foi se escondendo na linha do horizonte. Quando ela enfim chegou, metade do corpo do sol já estava lá embaixo, iluminando o Japão.

- Que lindo! - ela disse.

- Mas estava muito mais lindo antes - respondi. - Pena que tu perdeu...

Lembro bem desse pôr do sol, mas não exatamente por causa da sua beleza, e sim porque chamei a Marcinha para vê-lo.

Por que fiz isso?

Porque precisava de uma testemunha daquele momento. Precisava compartilhar aquela beleza para que, mais tarde, alguém lembrasse dela junto comigo.

É o que torna a vida real. Se você vive algo maravilhoso e guarda só para si, se ninguém sabe daquela experiência, ela começa a desaparecer. Logo, até sua própria memória passa a duvidar de que aquilo foi real.

As redes sociais cumprem um pouco essa tarefa. Quando as pessoas postam fotos dos seus pratos de comida, elas estão, na verdade, buscando testemunhas: vejam como foi bom o meu almoço. Claro que o melhor seria partilhar a refeição com outras pessoas, para que, mais tarde, elas pudessem comentar não apenas a aparência do prato, mas o sabor. Em todo caso, as redes sociais conseguem atenuar um pouco a solidão.

Um pouco.

Porque o ideal é dividir a vida com outras pessoas. Veja como isso é bonito: quanto menos egoísta você for, mais verdadeira será a sua existência. Caso contrário, mesmo o mais belo pôr de sol vai se apagando, vai ficando sem sentido e sem cor. Até parecer que nunca aconteceu.

DAVID COIMBRA

03 DE JULHO DE 2021
FLÁVIO TAVARES

SURDEZ PERIGOSA

A surdez humana é um acidente fisiológico, tem causas diversas e pode afetar qualquer um, sem nada destruir. A surdez política, porém, é um crime histórico que permanece durante anos, afeta várias gerações e pode perpetuar-se, até.

Digo isto em função do crime histórico que, talvez sem perceber, cometeu a Assembleia Legislativa, dias atrás, ao aprovar o projeto de lei 260, que permite a venda e utilização de agrotóxicos proibidos nos próprios países de origem. Por 37 a 15 votos, a maioria de nossos deputados revelou surdez profunda e não ouviu as advertências de médicos, agrônomos e agricultores (feitas em audiência pública) sobre o perigo de liberar pesticidas proibidos até nos países onde se desenvolveram.

Tudo tem um começo e a surdez teve início no governador Eduardo Leite, autor do projeto de lei que a maioria do Legislativo aprovou. Na audiência pública, apenas um produtor rural manifestou-se pela liberação dos pesticidas proibidos, mesmo assim dizendo-se preocupado com seus efeitos. Outras duas dezenas (de especialistas em saúde até agrônomos) apontaram os malefícios e perigos, tanto na ingestão de alimentos quanto na lavoura em si.

Ouvir e cotejar argumentos em audiência pública é a forma profunda que leva a evitar erros e, assim, é o instrumento a guiar quem nos governa. Busca evitar que as leis futuras nos levem a um pântano sem fim, no qual nos afundemos por ignorar o perigo.

A lei gaúcha vedando o uso de agrotóxicos proibidos na própria origem é de 1982 e foi alterada, agora, sob o pretexto de nos equiparar aos demais Estados. Assim, deixamos de ser "modelo a toda terra", como diz o Hino Rio-Grandense e passamos a meros papagaios repetidores de perigosos sons alheios.

Na área federal, o perigo se transforma em absurdo ético-moral, como mostra a CPI do Senado em torno do desdém no combate à covid-19. Surge agora um fato novo e aterrador - a pandemia serviu à corrupção, mostrando que o presidente Bolsonaro nada fez para impedir um suborno bilionário na compra da vacina indiana, sobre o qual conheceu as suspeitas por antecipação.

O presidente não utiliza máscara protetora em aglomeração pública (e já disse que ela "irrita e inibe o usuário") mas, agora, terá caído a máscara de honestidade usada na campanha eleitoral?

Assim disse o deputado federal Luis Miranda, um ex-bolsonarista, hoje decepcionado com o antigo líder, que nada fez em torno da suspeita que levou ao presidente. Aí, a surdez não triunfou.

FLÁVIO TAVARES

03 DE JULHO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

VOTO DE CONFIANÇA

Foi adiada para os próximos dias a apreciação da proposta de emenda à Constituição (PEC) que prevê o voto eletrônico com recibo impresso no país. Mesmo que a ideia passe na comissão especial da Câmara em que é analisada, tende a ser enterrada pelos deputados, após acordo fechado entre líderes de 11 partidos para que as siglas, que representam cerca de dois terços do Congresso, se posicionem contrariamente à ideia. Trata-se de uma postura sensata dos parlamentares por uma série de motivos. Entre eles, o tempo exíguo para cumprir todas as etapas que exigiria a implementação do chamado voto impresso até a eleição de 2022, a insegurança jurídica que criaria e os altos custos.

Mas a principal razão é que seria uma iniciativa que viria para supostamente prevenir um problema que, na realidade, inexiste. O país usa as urnas eletrônicas desde 1996 e, nesse período, jamais surgiu uma denúncia consistente de fraude. Nesses últimos anos, o resultado sempre expressou, de forma cristalina, a livre vontade do eleitor e permitiu a alternância no poder. Pelo contrário, a adoção da urna eletrônica tornou o Brasil referência no mundo em lisura dos pleitos, segurança e agilidade das apurações. Foi uma inovação concebida exatamente para encerrar de vez episódios de irregularidades, como os que existiam com o voto impresso. Tanto o equipamento quanto o software passam por uma série de testes de segurança, há processos auditáveis que inclusive podem ser conferidos pelos partidos a cada eleição e não existe conexão da máquina com a internet, o que evita a ação de hackers.

Também há, neste momento, uma contaminação do debate pela polarização política e ideológica que desgraça o país. Essa discussão açodada apenas cria uma armadilha que busca causar desconfiança e tumulto. Transparece existir uma intenção maior de procurar uma desculpa para contestar um possível revés e gerar confusão do que um interesse verdadeiro em aperfeiçoar o processo.

Não há razão para se deixar de debater e, no futuro, se necessário, incorporar novidades ou alterações que reforcem a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro e aprimorem os meios de auditagem. Inclusive com alguma forma de impressão, se preciso. Mas tem de ser, necessariamente, uma discussão racional e baseada em fatos, e não em fantasias. O custo para implantar o voto impresso é calculado em cerca de R$ 2 bilhões. É alto e, neste momento, existem várias outras prioridades nas quais esses recursos seriam melhor alocados. Teria de ser feita uma licitação para a aquisição de equipamentos, que devem ser customizados. Uma corrida contra o tempo. 

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) alerta que, ao mínimo boato, haveria um incentivo a pedidos de recontagem, com o risco de uma enxurrada de ações judiciais, causando uma balbúrdia desnecessária, movida apenas pela motivação de questionar uma derrota. A contagem manual, pelo contrário, é historicamente mais sujeita a manipulações do que o sistema eletrônico. A palavra final, de maneira democrática, será do Congresso. Mas a forma como essa alteração é proposta mais cria estorvos e riscos do que possíveis benefícios.

OPINIÃO DA RBS

03 DE JULHO DE 2021
+ ECONOMIA

Venda de combustíveis por delivery inquieta postos

Uma cena do futuro próximo pode ser mais ou menos assim: os vizinhos se cotizam e pedem abastecimento dos carros do condomínio por delivery. Hoje inimaginável, a venda de combustíveis em telentrega proposta pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), terá audiência pública na próxima quarta-feira, depois de um mês e meio de consultas. É mais uma das mudanças profundas pelas quais passa esse mercado, que acabou de se tornar 100% privado.

- Há uma ânsia de disrupção, de romper com tudo, mas algumas propostas que envolvem segurança deveriam ser mais debatidas, com propostas mais organizadas - reclama João Carlos Dal?Aqua, presidente do Sulpetro, o sindicato estadual dos postos de combustíveis.

A proposta da ANP prevê que a telentrega tenha de ser atrelada a um posto, para ter a quem responsabilizar em caso de qualquer problema. Além dos aspectos relacionados à segurança - o armazenamento de combustíveis é superregulado nos postos por envolver líquidos altamente inflamáveis -, Dal?Aqua pondera que esse tipo de venda estará muito exposto a falsificação e sonegação:

- Vai acabar podendo desovar produto roubado ou com algum outro problema com mais facilidade. A ANP já não consegue fiscalizar os pontos fixos, imagina os móveis. Em um país com fiscalização estruturada, até poderia funcionar, mas aqui vai virar gandaia.

As bases para a proposta da ANP, que inclui outras mudanças, são a Lei da Liberdade Econômica, sancionada pelo presidente Jair Bolsonaro em setembro de 2019, e a resolução do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) de dezembro do mesmo ano. A audiência pública será realizada das 10h às 14h da próxima quarta-feira e pode ser acompanhada.

foi o total da entrada líquida (ingressos menos saídas) de recursos estrangeiros no mercado financeiro no primeiro semestre. É um valor recorde para o período, obtido com ajuda da elevação do juro básico pelo Banco Central, que garante maiores ganhos para os investidores que trocam dólares por reais.

MARTA SFREDO

03 DE JULHO DE 2021
MARCELO RECH

Contra a desinformação pandêmica

Como nunca antes, jornalismo e ciência médica estiveram tão entrelaçados. Não é coincidência que jornalismo e medicina - duas atividades tão distintas - tenham reforçado na pandemia seus laços de dependência em favor da informação correta, da prevenção e da busca de menor sofrimento para a sociedade.

Além da falta de horário e da pressão constante, as profissões de jornalistas e de médicos compartilham uma série de similaridades, entre elas o fato de que navegam por mares de incógnitas mas têm por finalidade o acerto. Nem sempre diagnósticos de jornalistas e médicos estão corretos. Só que nenhum deles vive do erro. A reputação de jornalistas e médicos é o divisor de águas no sucesso das carreiras. Assim como na medicina, no jornalismo há centros de referência e outros nem tanto. Até o fato de se considerar boa prática se recorrer a outras opiniões é mais uma semelhança entre a turma de jaleco com a do bloco e da caneta.

Dependendo da cultura local, médicos e jornalistas têm formações e hábitos peculiares, mas são universais alguns conceitos de ética, como a regra primária de que não se pode mentir ou enganar pacientes e público. Há diferenças marcantes, contudo. Nem sempre é cristalino se identificar quem exerce jornalismo profissional daqueles que, na realidade, atuam no ramo da propaganda e das relações públicas - duas nobres atividades, mas que exigem transparência absoluta no propósito de suas mensagens. No Brasil, há um método simples para saber se um veículo ou jornalista faz jornalismo independente: se ele foi atacado durante anos pela esquerda no poder e hoje é hostilizado pela extrema-direita no governo, muito provavelmente ele se encaixa na definição de independência.

Embora trabalhem sem tréguas para que vidas sejam salvas, médicos e jornalistas também estão no centro de controvérsias nesta era de desinformação pandêmica. Muito justificadamente, os brasileiros aplaudem a dedicação dos profissionais de saúde, mas agora a 10ª edição da pesquisa de confiança na imprensa do Reuters Institute, ligado à Universidade de Oxford, também reconheceu o papel crucial do jornalismo. Realizada com 92 mil usuários de notícias online em 44 países, a pesquisa apurou que 44% dos entrevistados confiam na imprensa, seis pontos a mais do que na edição anterior, contra 24% dos que acreditam em notícias nas redes sociais. O Reuters Institute apontou ainda que o Brasil é o sétimo país em que mais se confia na imprensa - 54% de confiança, 14 pontos percentuais acima da Colômbia, segundo lugar na América Latina.

No fim, a pandemia acabou destapando o que devia ser uma obviedade. Na hora da doença, procure um médico para se tratar. E um veículo de comunicação profissional para se informar.

MARCELO RECH

03 DE JULHO DE 2021
J.R.GUZZO

STF e a (in) justiça

A empreiteira de obras públicas Odebrecht - a empresa que revelou ao mundo o "amigo do amigo do meu pai" - assinou um notável acordo com a Justiça brasileira, através do qual confessa a prática de crimes de corrupção durante o governo Lula, promete devolver ao erário público uma parte do que roubou e, em troca desse seu misto de colaboração-delação-confissão, recebe do Estado um tratamento mais suave na punição dos seus delitos.

Ninguém forçou a Odebrecht a fazer nada. Foi o seu próprio presidente, com a assistência plena de toda uma equipe milionária de advogados, quem concordou em fazer "delação premiada" a respeito dos crimes cometidos na esfera de atuação da empresa - especialmente na ladroagem monumental da Petrobras lulista. Também foi a construtora, por sua livre e espontânea vontade, que devolveu R$ 8,6 bilhões aos cofres públicos. Em função do acordo, o presidente Marcelo Odebrecht foi solto da cadeia em dezembro de 2017, após dois anos e meio de xadrez em Curitiba.

Qual é a dúvida em relação a isso tudo? Existe no mundo alguém que aceita devolver dinheiro se não roubou nada? Há alguém que invente crimes para delatar a si mesmo? Não há nada de errado com nenhuma dessas coisas. Ao contrário, trata-se de um momento histórico: foi feita justiça neste Brasil onde sempre reinou, durante séculos, a impunidade para os ricos e poderosos.

Não, não há mesmo nada de errado - salvo para o ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal. Em compensação, para ele, está tudo absolutamente errado. O ministro acha que esse exemplo de justiça é tão ruim, mas tão ruim, que tem de ser anulado da primeira à última letra. Isso mesmo: nada do que Odebrecht confessou, delatou e pagou vale mais coisíssima nenhuma. Só está faltando dizer, agora, que o pagador de impostos tem de devolver à empresa os bilhões que ela pagou para fechar o seu acordo.

Lewandowski quer, acima de qualquer outra coisa na vida, eliminar até o último fiapo qualquer culpa que existe contra Lula - condenado, como se sabe, pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro. Atuando em conjunto, e em perfeita harmonia, com os ministros Gilmar Mendes e Edson Fachin, ele atua como se operasse na equipe de advogados que trabalham em tempo integral para Lula.

Lewandowski, Gilmar, Fachin e os demais decidiram não apenas anular todas as ações penais contra Lula, mas apontar como único culpado por tudo o juiz Sergio Moro - e, agora, declarar inválidas todas as provas reunidas contra ele, para que nunca mais possam ser utilizadas em qualquer processo que se tente fazer para retomar os que foram anulados. Esse é o retrato acabado do tipo de justiça que se pratica no Brasil de hoje - dentro das "instituições", da pregação diária da "democracia" e dos alertas diários sobre a "ditadura" que virá se Lula perder a eleição de 2022.

J.R. GUZZO


03 DE JULHO DE 2021
INFORME ESPECIAL

O anúncio de Eduardo Leite e a verdadeira integridade

Antes de entrar na argumentação central do texto, importante deixar claro que só comento esse assunto porque o governador Eduardo Leite trouxe-o à tona, em rede nacional. Eu e boa parte dos gaúchos já sabíamos que ele é gay. E respeitamos a sua decisão de, até agora, não falar sobre isso publicamente. Quando se elegeu prefeito de Pelotas, entrevistei-o no programa Mãos & Mentes, da TVCOM. Perguntei qual era sua opinião sobre direitos das minorias. Ele deu um sorriso irônico, de quem entendeu a oportunidade para falar, mas optou por ser genérico. Fui para a próxima pauta. Até porque ser homo, hétero ou qualquer outra coisa nada diz sobre caráter e honestidade. Ou mesmo sobre integridade, palavra repetida por Eduardo Leite em todas as entrevistas que deu até agora sobre sua orientação sexual e afetiva.

Gays que falam não são mais íntegros do que os silenciosos. Até porque, muitas vezes, não se assumir publicamente vai muito além de uma simples opção racional. Passa por uma série de limitações que independem da vontade do indivíduo. São processos longos e, frequentemente, pontuados por dor e sofrimento.

Nós, aqui no Brasil, temos um jeito próprio de lidar com as questões privadas dos políticos. Somos respeitosos e não invasivos. Nos Estados Unidos, por exemplo, considera-se que todos os comportamentos e características de uma pessoa pública são importantes para que o eleitor possa avaliar e decidir. Quando alguém decide ser um personagem exposto, sabe que isso ocorrerá.

O anúncio de Eduardo Leite, embora pessoal, está inserido em um contexto político, quando ele se lança em uma candidatura com visibilidade nacional. De qualquer forma, só há motivos para reconhecer méritos no gesto. A busca de felicidade é um direito. Se Eduardo Leite ajudar, pela força do exemplo, pessoas que sofrem pela opressão e pelo medo, já terá sido suficiente. A visibilidade de políticos, artistas, empresários, jornalistas e atletas impõe um compromisso ainda maior com a naturalização das questões de gênero, de cor da pele e de tantas outras que ainda são alvo de preconceito.

O Rio Grande do Sul já teve um governador negro - Alceu Collares - uma mulher - Yeda Crusius - e agora, um gay. O bom disso tudo é que os segundos não serão mais notícia por esse motivo. E essa é a maior conquista, da qual devemos nos orgulhar

TULIO MILMAN

03 DE JULHO DE 2021
CHAMOU ATENÇÃO

Mais flores e menos fome

Luís Carlos Corrêa, 33 anos, natural de Dom Pedrito, deixou a esposa e os quatro filhos em Osório, para buscar trabalho. Acabou na rua, tendo as sinaleiras como principal fonte de renda. E foi em uma delas, enquanto segurava uma placa com os dizeres "Estou com fome, me ajude", que conheceu o estudante Lorenzo Dovera, 24 anos, do bairro Medianeira. Desse encontro, em 8 de maio, teve início o projeto Troque a Fome por Flor.

O estudante é formando no curso de Administração Pública e Social pela UFRGS.

- Eu queria sair da teoria e ver na prática como tudo acontecia. Foi quando eu e minha mãe vimos as placas "Estou com fome". Então, um dia antes do Dia das Mães, nós tivemos a ideia. Por que não trocar essa placa por outra que dê mais dignidade? - conta Lorenzo.

A escolha das mudas foi para aproveitar a data, quando é comum as pessoas presentearem suas mães com flores. E deu certo. Aos, agora floristas, que participam do projeto foram entregues plantas e outra placa, desta vez, com os dizeres: "Troque a Fome por Flor".

A prioridade é atender pessoas em situação de rua que estão acessando algum tipo de política pública do município.

Em dois meses, criou-se uma rede de colaboração. Na Ceasa, a cada sete caixas com oito mudas, o local dá mais três caixas para o projeto. Pessoas doam caixas de leite higienizadas, materiais escolares e revistas usadas para fazer o acabamento dos cachepôs.

Produção: Émerson Santos

Apoio

O projeto busca o patrocínio de floriculturas que queiram doar as mudas. Para fazer contato, acesse a páginas do Instagram e do Facebook @troqueafomeporflor ou ainda o WhatsApp (51) 98160-6528

Também é possível ajudar com materiais escolares ou doações financeiras. Para colaborar, envie qualquer valor para a chave PIX troqueafomeporflor@ gmail.com

sexta-feira, 2 de julho de 2021


02 DE JULHO DE 2021
DAVID COIMBRA

As vantagens de sentir dor

A dor é um aviso. Ela grita que há algo errado com o seu corpo. Então, você ouve o alerta, investiga o problema e tenta resolvê-lo. Essa é a atitude certa a tomar. A errada é não ligar para o aviso ou tentar apenas corrigir o sintoma, sem corrigir a causa.

Se a ameaça é externa, o aviso não vem com a dor; vem com uma série de percepções, sinais que a sua inteligência e a sua sensibilidade enviam para o seu consciente: "Cuidado! Perigo adiante!"

Júlio César, por exemplo, foi assassinado pelos senadores de Roma nos Idos de Março de 44 a.C. Ou seja: em 15 de março. No dia 14, ele fez um jantar em sua casa e propôs a seguinte questão para os convidados: "Qual é a melhor morte". Cada um respondeu como gostaria de morrer. César disse:

- A melhor é a repentina!

Na manhã seguinte, a mulher de César, Calpúrnia, pediu-lhe que não saísse de casa naquele dia, porque na madrugada ela tivera um pesadelo muito assustador com ele. César saiu mesmo assim para ir ao Senado, onde encontraria seus verdugos.

No caminho, entregaram-lhe um bilhete advertindo-o sobre a conspiração dos senadores - ele guardou o papel num bolso da toga para lê-lo mais tarde.

Pouco depois, César caiu aos pés da estátua de Pompeu, vitimado por 23 punhaladas, uma delas de seu próprio filho adotivo, Bruto.

Por que César recebeu tantos avisos? Por que os deuses queriam salvá-lo? Não: porque a rebelião dos senadores era bastante óbvia. Quando ele fez a pergunta acerca da melhor forma de morrer, seu subconsciente já devia estar em estado de alerta devido aos sinais que vinham sendo emitidos por todos os lados.

O pesadelo de Calpúrnia teve a mesma causa - ela também estava percebendo a animosidade do Senado. Assim ocorreu com o autor do bilhete que revelava o complô. Quer dizer: era público, em Roma, que o Senado estava insatisfeito com Júlio César e que iria agir.

Os sinais estavam todos lá, mas Júlio César os desprezou. Excesso de confiança, talvez. Os grandes homens têm disso - sua fé na própria sorte é tão sólida que eles se tornam temerários. Mas, como diria a Bíblia, "a soberba precede a ruína e a altivez do espírito precede a queda".

Fosse mais humilde e mais cuidadoso, Júlio César teria sobrevivido àquela rebelião do Senado.

Por que conto essas histórias antigas?

Por causa do Grêmio.

Os avisos são muitos, os sinais estão todos aí, mas ninguém toma as precauções que deveria tomar. É preciso agir. Porque a dor da Segunda Divisão até passa, mas a cicatriz fica para sempre.

DAVID COIMBRA

02 DE JULHO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

DESEMPREGO ESTRUTURAL

Crises não são novidade no Brasil. Há, ao longo da história do país, diversos momentos de turbulência e queda da atividade econômica, com forte impacto no emprego. Mas a atribulação agora atravessada pelo Brasil tem um reflexo inédito no mercado de trabalho, não apenas pelo número recorde de pessoas que buscam colocação e não encontram, mas pela elevada quantidade de brasileiros que estão há muito tempo nessa condição. São 14,7 milhões de cidadãos atrás de um sustento para si e para sua família e, destes, cerca de 3,5 milhões estão nessa batalha há pelo menos dois anos, sem sucesso.

O desemprego no trimestre encerrado em abril, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ficou em 14,7%. Estável em relação à divulgação anterior. É positivo, ao menos, que a escalada da falta de trabalho tenha sido interrompida. Foi um problema agravado pela pandemia, que, neste momento, parece começar a ser estancado. Mas é preciso lembrar que, há uma década, o país vivia o pleno emprego e, a partir de 2014, a taxa dobrou, mostrando o grau de degradação da economia, causada por sucessivas conflagrações políticas que acabaram abalando a confiança dos agentes da economia, dos consumidores aos empresários.

O noticiário do dia a dia mostra que o país está longe de um momento tranquilo. Espera-se que a estabilidade, pela via democrática, seja alcançada a partir das eleições de 2022, visando a um período mais longo que não apenas recupere as perdas dos últimos anos, mas permita ao Brasil crescer, de fato, acompanhando o mundo. No curto prazo, cria-se a expectativa de que o avanço da vacinação permita um retorno de mais atividades, abrindo mais vagas, especialmente nos serviços. 

Mas é preciso ser realista. Um dos reflexos da pandemia foi um ganho brutal de produtividade das empresas, que buscaram fazer mais com menos. Assim, torna-se mais difícil recuperar celeremente os níveis de emprego observados no início da década passada. Ao mesmo tempo, o controle da epidemia vai significar mais pessoas voltando a procurar trabalho, pressionando a taxa de desemprego. Esta, aliás, poder ser a explicação para o fato de o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) continuar registrando resultado líquido positivo de vagas com carteira assinada, enquanto o desemprego não cede. Com os resultados de maio, o país soma 1,2 milhão de postos abertos e, o Estado, 82,1 mil.

Não há passe de mágica ou bala de prata. Mesmo que o PIB do país cresça 5% neste ano, será apenas uma recuperação do recuo do ano passado. E o avanço da economia, até agora, está mais ligado ao mercado externo do que à situação doméstica e ao consumo das famílias. Crescem mais os setores intensivos em capital e não em mão de obra. Há muitos trabalhadores desempregados por um longo período que estão desatualizados em relação às exigências atuais do mercado, principalmente em questões ligadas à tecnologia e à transformação de modelos de negócio. Há receio, portanto, de que o desemprego brasileiro seja estrutural. 

A estas pessoas será preciso, de alguma forma, oferecer programas de qualificação, para que fiquem aptas a buscar uma vaga. Assim como será imprescindível uma atenção especial à educação, após os graves prejuí- zos ao aprendizado legados pelas escolas fechadas ao longo da crise sanitária. Ao lado das reformas estruturais que melhorem o ambiente de negócios e assegurem sustentabilidade fiscal, é de conciliação que o país precisa para voltar ao trilho do progresso e da conquista de um crescimento que beneficie todos os brasileiros.


02 DE JULHO DE 2021
POLÍTICA +

Leite assume que é gay e diz que não tem nada a esconder

Alvo de ataques homofóbicos nas campanhas eleitorais de que participou desde a eleição para prefeito de Pelotas e de insinuações grosseiras por adversários políticos, o governador Eduardo Leite, 36 anos, decidiu assumir publicamente que é homossexual e disse que não tem nada a esconder. A revelação foi feita em entrevista ao jornalista Pedro Bial, gravada durante o dia para exibição do programa Conversa com Bial no início da madrugada.

À coluna, Leite contou por que decidiu tornar público o que antes dizia que era um "não assunto":

- Não tenho nada a esconder. Apenas achava que minha orientação sexual era uma questão privada, mas, com a exposição nacional, a partir do momento em que assumi a pré-candidatura a presidente, entendi que era importante falar, até para calar as pessoas que fazem insinuações maldosas e piadas desrespeitosas. Tenho orgulho da minha integridade. Vergonha eu teria se tivesse de explicar corrupção, mensalão ou qualquer crime.

A Bial, Leite afirmou:

- Eu sou gay. E sou um governador gay, e não um gay governador, tanto quanto Obama nos Estados Unidos não foi um negro presidente, foi um presidente negro. E tenho orgulho disso.

Na campanha de 2018, adversários publicaram insinuações na internet e chegaram a usar uma foto de Leite e dos irmãos segurando a mãe na praia, em Punta del Este, como se um dos rapazes fosse seu companheiro.

Recentemente, Leite foi insultado pelo presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson, e encaminhou representação ao Ministério Público por homofobia. O MP denunciou Jefferson à Justiça. Outro deputado que fez ataques homofóbicos foi Marcelo Brum, do PSL.

ROSANE DE OLIVEIRA


02 DE JULHO DE 2021
EDUARDO BUENO

Inverno

Quase todos os dias assisto ao programa Brasil Visto de Cima - nem que seja para flanar acima das baixezas e baixarias que nos cercam. Noite dessas (ontem, pra dizer a verdade), enquanto tiritava de frio e pensava em queimar os móveis, sobrevoei o litoral pernambucano, com suas praias de areias faiscantes, águas translúcidas, barreiras de corais e palmeiras dançando ao vento cálido. Aí lembrei o que um arqueólogo certa vez me falou, meio sério, meio jocoso: "A prova de que o Novo Mundo já estava todo ocupado há 9 mil anos é que havia povos habitando a Patagônia. Eles não estariam vivendo lá se tivesse vaga na Bahia...".

Depois de pousar, acomodei-me (ainda incomodado) na cadeira do papai, ao lado da lareira crepitante, sob a luminária art déco e, buscando na prateleira de mogno o opúsculo encadernado em couro, pus-me a compulsar esse meu exemplar raro sobre os índios charruas. Sempre venerei os charruas - até fiz um vídeo sobre eles no YouTube e deu quase 1 milhão de views. Os charruas eram irredutíveis, cabeludos e bravios. E sempre enfrentavam os minuanos: tanto seus parentes e fidalgais inimigos quanto os ventos uivantes batizados com esse nome. 

Ventos que, como ambas as tribos, vêm lá da Patagônia. Sim, amigos, em verdade vos digo: charruas e minuanos - os indígenas que com seus ponchos, chiripás, boleadeiras e o chimarrão inventaram os gaúchos - eram oriundos da Patagônia. Mas aposto que se Porto de Galinhas estivesse disponível, eles teriam ficado lá, se refestelando nas piscinas naturais, comendo caju e abacaxi - e não sorvendo o amargo na cuia em terras geladas.

Inverno é palavra latina. Vem de "hibernus" e quer dizer "entrar em estado de inatividade, reduzindo as funções vitais ao mínimo necessário à sobrevivência". Portanto, está associada ao ciclo biológico dos animais que entram em hibernação durante períodos de frio intenso. Ou seja: é palavra estrangeira, pois os animais daqui não hibernam como os de lá. Mas o termo já está incorporado ao léxico e não sou eu quem vai sugerir que mudemos para "friaca".

O fato é que há quem goste do inverno. Minha mulher, batendo queixo aqui ao lado, é uma delas. Meu amigo Vitor Ramil teceu loas e boas à dita estação e formulou a Estética do Frio. Eu também gostava do inverno, mas isso quando era irredutível, cabeludo e bravio feito um charrua. Agora, só gosto se for entre paredes grossas e vidros duplos, como na casa de David Coimbra em Boston. Mas, quando eu estava na merdon e o visitei lá, ele me negou teto e sugeriu que eu procurasse um albergue. Ainda bem que era verão - essa estação que dura 12 meses em Pernambuco e que os charruas e eu só conhecemos por cima, sob o uivo do minuano.

EDUARDO BUENO

quinta-feira, 1 de julho de 2021


01 DE JULHO DE 2021
DAVID COIMBRA

Como o corona atingiu o coração do Rio Grande

Estou com a impressão de que esse bicho nunca mais vai nos deixar em paz. Outras doenças, como a varíola e a pólio, foram erradicadas pela vacinação, mas o corona é solerte, ele se transforma, ele vai procurando frestas nas nossas defesas e se infiltrando. Antes, atacava pessoas mais velhas, ou que tivessem comorbidades, ou que estivessem acima do peso. Agora, descobriu que há uma massa de jovens incautos para se alojar e incomodar.

Países em que tudo parecia sob controle, como Israel, Inglaterra e Alemanha, já estão impondo novas restrições à população devido às variantes que surgem a todo momento. Malditas variantes!

Durante muito tempo ainda nós teremos de tomar cuidados. Talvez para sempre.

A propósito: não consigo mais premer os botões de um porteiro eletrônico ou de uma maquininha de cartão de crédito sem sentir um estremecimento interior. Fico pensando em quantos dedos apertaram aqueles botões, fico imaginando os locais pelos quais chafurdaram aqueles dedos, fico calculando a quantidade de vírus, bactérias e micróbios vulgares que estão acumulados naquelas pequenas superfícies e tenho vontade de gritar:

- Álcool gel! Preciso de álcool gel purificador agora!

Isso, bem sei, vai continuar comigo. Levarei tubos de álcool gel nos bolsos pelo resto da vida. Sabe por quê? Por causa de vocês! Porque sei como vocês carregam imundícies!

Sim, vocês espalham germes por toda parte com seus dedos, com sua tosse, com seus espirros, com sua mera respiração! Howard Hughes, quem diria, estava certo.

Agora me diga, seja sincero: como será encarado o gaudério hábito da roda de chimarrão, depois dessa nossa longa e infausta experiência com o corona? Aí é que está. A roda de chimarrão acabou, meu amigo! Acabou! Você só dividirá sua cuia com quem tem muita intimidade. Não tem mais essa de chegar no galpão e ser recebido com um mate quente, nem de dar uma bicada no chima que circula entre os colegas da firma, nem de ficar passando a cuia de mão em mão na areia da praia.

Isso acabou.

Bem sei que, neste momento, há gaúchos bradando que nossas tradições são mais fortes do que o vírus, sei que o Neto Fagundes, em protesto, deve estar gritando:

"Eu sei que não vou morreeeeeer!"

Mas não adianta. O vírus é mais poderoso. O vírus venceu.

Uma vez, criticaram a Globo por ter colocado uma cuia na mão de cada gaúcho na roda de chimarrão de um seriado, acho que foi O Tempo e o Vento. Pois bem. A Globo foi visionária. Nunca mais nos arriscaremos a compartilhar salivas em uma amigável roda de chimarrão. O gaúcho se tornará mais solitário, mais individualista, menos gaúcho, porque a roda de chimarrão é um símbolo de congraçamento, de parceria e de irmandade. A roda de chimarrão diz que todos somos iguais. E agora ela não será mais possível. O corona, esse bicho malévolo, atingiu o coração do Rio Grande do Sul.

DAVID COIMBRA

01 DE JULHO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

CHOQUE DE REALIDADE

Vinte anos depois da crise hídrica que causou apagões e jogou o país no racionamento forçado, o Brasil volta a enfrentar um grave problema de escassez de energia. É lamentável que, basicamente, as mesmas razões que causaram a falta de eletricidade em 2001 se repitam agora. As lições, ao que parece, não foram totalmente aprendidas. Outra vez é um longo período de falta de chuva nas bacias dos rios onde estão as principais hidrelétricas brasileiras que cria o problema capaz de dificultar a recuperação da economia e, com faturas de luz mais caras, acaba corroendo ainda mais a renda dos brasileiros, em um momento de inflação alta e desemprego também elevado.

É fato que, nas últimas duas décadas, o Brasil diminuiu parte da dependência das hidrelétricas, que entretanto ainda são responsáveis por cerca de dois terços da matriz energética nacional. Na virada do século, o percentual era de aproximadamente 90%. Mas, agora, muito além de fenômenos corriqueiros, como o La Niña, também entra no contexto a ameaça causada pelas mudanças climáticas. Uma das consequências conhecidas, especialmente no caso do Brasil, pelo desmatamento na Amazônia, afeta os chamados rios voadores, que levam precipitações para boa parte do mapa nacional. Assim, crescem os riscos de secas severas serem mais recorrentes.

É inevitável, portanto, partir para opções mais firmes de energia. As fontes eólica e solar ganharam relevante espaço no Brasil nos últimos anos e ainda vão crescer mais, mas também são intermitentes. Ou seja, dependem de condições naturais e provavelmente seriam insuficientes para atender a toda a demanda nacional no futuro. Usinas movidas a biomassa e biogás, da mesma forma, são alternativas possíveis e ainda têm a vantagem de ser ambientalmente mais limpas. Mas será difícil o país conseguir escapar de ter de construir e acionar mais térmicas a gás natural - que ao menos emitem quantidades menores de poluentes e são mais baratas em relação ao parque movido a óleo diesel. É a hora, portanto, de começar a planificar as próximas décadas, diversificando e fortalecendo o sistema energético nacional, mas levando em consideração a transição para uma matriz de baixo carbono, para que esse contratempo não volte a se repetir. Enfrentar a mesma escassez nos próximos anos seria um atestado inconteste de incompetência e imprevidência.

Com o choque de realidade, resta aos consumidores procurar economizar energia. Cabe ao governo federal promover uma campanha informativa de conscientização. As tarifas, conforme o sistema de bandeiras, ficaram mais caras. O melhor planejamento de tarefas domésticas e o uso adequado de aparelhos, de geladeiras ao ar-condicionado, podem ajudar o país a não passar por momentos de corte de fornecimento pela insuficiência de carga e, ao mesmo tempo, é capaz de evitar um susto na fatura da luz em uma época de orçamento apertado para a maior parte das famílias. 


01 DE JULHO DE 2021
+ ECONOMIA

Zaffari confirma investimento de R$ 6 bi

Durante muitos anos, o esquilo da foto, instalado às margens da BR-116, em Novo Hamburgo, era só uma lembrança de um projeto empacado. Na terça-feira, desempacou. A entrega da licença para início das obras do Boulevard Germânia abre caminho para um investimento de R$ 6 bilhões. Embora a coluna já tenha registrado a cifra, fez questão de confirmar o valor com Claudio Luiz Zaffari, diretor de expansão da rede de supermercados, já que se trata de algo totalmente fora da curva no mercado gaúcho.

- Com o tempo e parceiros, sim - foi a resposta lacônica, mas tranquilizadora.

Para ter ideia, o Golden Lake, do Grupo Multiplan, outro megaempreendimento, tem valor total estimado de R$ 2,5 bilhões. Claudio Luiz faz questão de deixar claro que se trata de um projeto de longo prazo, ou seja, será implantado em várias fases. Mas também confirmou à coluna que a primeira fase representa 33% do loteamento, o que já significa cerca de R$ 1,8 bilhão.

A coluna apurou que há pelo menos mais quatro empresas que devem participar do Boulevard Germânia. Embora Claudio Luiz também confirme que o "planejamento conceitual" do bairro-cidade teve a coordenação do Escritório b720, do arquiteto catalão Fermin Vázquez e da equipe do escritório do arquiteto Jaime Lerner, os parceiros preferem esperar o detalhamento do projeto para definir o tamanho da participação de cada um na "Zaffari City". Entre os conceitos a serem afinados estão as características dos condomínios, se serão abertos ou fechados, por exemplo.

- Um dos destaques será um parque de mais de 230 mil metros quadrados, permitindo qualificação em toda a extensão do empreendimento - acrescentou Claudio Luiz.

A coluna tentou saber mais sobre o cronograma das demais fases e recebeu uma resposta cautelosa do empresário:

- Vamos à primeira. As outras são respostas naturais.

MARTA SFREDO

01 DE JULHO DE 2021
MERCADO DE TRABALHO

Desemprego nacional é de 14,7%

O mercado de trabalho brasileiro contabilizou 14,761 milhões de desempregados no trimestre encerrado em abril, segundo os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) iniciada em 2012 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A taxa de desemprego passou de 14,2% no trimestre encerrado em janeiro para 14,7% no trimestre terminado em abril. No mesmo período do ano passado, era de 12,6%.

O total de desocupados cresceu 3,4% em relação a janeiro, 489 mil pessoas a mais em busca de uma vaga. Em relação a abril de 2020, o número de desempregados aumentou 15,2%, 1,95 milhão de pessoas a mais procurando trabalho.

A população ocupada somou 85,940 milhões de pessoas, 85 mil trabalhadores a menos em um trimestre. Em relação a um ano antes, 3,302 milhões de pessoas perderam seus empregos. A população inativa somou 76,383 milhões no trimestre encerrado em abril, seis mil a mais do que no trimestre anterior. Em relação ao mesmo período de 2020, a população inativa cresceu em 5,457 milhões.

O nível da ocupação - percentual de pessoas ocupadas na população em idade de trabalhar - caiu de 51,6% no trimestre encerrado em abril de 2020 para 48,5% no trimestre até abril de 2021. No trimestre terminado em janeiro, o nível da ocupação era de 48,7%.

Previsão

Enquanto a economia brasileira teve retração de 4,1% no ano passado, em 2021, deverá crescer cerca de 5%, segundo projeções oficiais e do mercado, que melhoraram nas últimas semanas principalmente em razão do setor agroexportador.

Se a dinâmica de recuperação e o avanço da vacinação se confirmarem, o número de pessoas que voltariam a procurar trabalho deve aumentar, segundo analistas.

Mas, nesse caso, "mesmo diante de expansão da ocupação, esta não deverá ser suficientemente forte para reduzir a taxa de desemprego", informou o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).


01 DE JULHO DE 2021
L.F. VERISSIMO

Nostalgia

As utopias morreram, as ideologias agonizam, e eu também não ando me sentindo muito bem. "Esquerda" e "direita" são termos obsoletos. Vêm da divisão física entre os progressistas e os conservadores nas assembleias legislativas francesas depois da Revolução. Quer dizer, têm mais de 200 anos. Não significam mais nada. Ou significam? Mesmo com outros nomes, como centro A e centro B, esquerdistas e direitistas ainda pensariam de modos diferentes e entenderiam e desejariam coisas opostas. Mas há um sentimento que une direita e esquerda. Uma nostalgia comum que nenhum lado confessa, e da qual talvez nem se dê conta. É a saudade do século 19.

Ah, o século 19. Foi quando a História, por assim dizer, entrou na história, e tudo recebeu seus nomes verdadeiros. Uma segunda Criação. Hegel ainda quente, Marx pondo seus ovos explosivos, o passado e o futuro sendo redefinidos com rigor científico, e a modernidade tecnológica e a modernidade social (ou, simplificando, a máquina a vapor e a nova consciência proletária) prestes a se fundir para transformar o mundo. 

"Bliss it was in that dawn to be alive" (Êxtase era estar vivo naquela aurora), escreveu o poeta Wordsworth sobre a Revolução Francesa. A esquerda poderia dizer o mesmo do século 19. Naquela aurora, não havia dúvida sobre a inevitabilidade histórica do socialismo. Mas êxtase também espera a direita numa volta idílica ao século 19. Foi o século de reação à Revolução Francesa, da restauração conservadora na Europa depois do terremoto republicano e do nascente capitalismo industrial sem remorso. 

Os que propõem a "flexibilização" dos direitos dos trabalhadores conquistados em anos de luta, como a que pretendem hoje em Brasília, babariam com o que veriam no velho século: homens, mulheres e crianças trabalhando 15 horas por dia, sem qualquer amparo, e sem qualquer direito legal ou moral, fora seus magros salários. A perfeição. Antes que a pregação socialista a estragasse.

Século 19, terra de sonhos. Para a esquerda e a direita, juntas.

L.F. VERISSIMO