Setor de saúde entra em nova fase e se consolida na economia gaúcha
Carmen Carlet
Especial para o JC*
Quem observa os principais hospitais do Rio Grande do Sul percebe que algo mudou. Obras avançam, novas alas começam a operar, equipamentos chegam e serviços se ampliam. Aos poucos, o que antes parecia uma estrutura estável dá lugar a um ambiente em movimento, onde crescer deixou de ser exceção.
A mudança não se concentra em um único lugar. Ela se espalha pelo Rio Grande do Sul e alcança hospitais privados, instituições filantrópicas e a própria rede pública, ainda que em ritmos diferentes. A saúde começa a sair do campo exclusivo do atendimento e passa a atuar em outras frentes, acompanhando investimentos, tecnologias e novos serviços. Um exemplo é o robô Toumai, plataforma de cirurgia robótica de última geração adquirida no ano passado pelo Hospital Mãe de Deus, utilizada em diferentes especialidades, oferecendo procedimentos menos invasivos, mais precisos e com recuperação mais rápida.
Esse avanço também se reflete no volume de recursos direcionados ao setor. Nos últimos anos, investimentos públicos e privados passaram a sustentar essa modernização, reposicionando a saúde dentro da evolução econômica do Estado.
Nada disso, no entanto, reduz a tensão sobre o sistema. A demanda continua maior do que a capacidade instalada e a maior parte da população segue dependente do Sistema Único de Saúde (SUS), que sustenta a base da rede. É nesse cenário que convivem realidades distintas. De um lado está a saúde privada que amplia estrutura e avança em complexidade, de outro, uma malha que enfrenta falta de leitos, limites de financiamento e custos crescentes.
O resultado não é homogêneo nem democrático. O que se vê é uma área em transformação, que se reorganiza e passa a ocupar um espaço mais claro na economia sem deixar de carregar desafios que seguem no centro da sua operação.
O novo momento começa a ganhar visibilidade também fora das fronteiras. O Rio Grande do Sul possui hoje dois dos hospitais mais bem avaliados da América Latina, de acordo com ranking da Investigación de Mercados e Inteligencia de Negocios (IntelLat) - empresa especializada em análise de dados em saúde. Em um universo de 80 instituições de nove países, o Hospital Moinhos de Vento (HMV) aparece como o sexto colocado, enquanto o Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) figura na 15ª posição no ranking, sendo o hospital público mais bem posicionado da lista.
Rio Grande do Sul amplia investimentos em saúde com foco na eficiência do sistema
O avanço dos investimentos em saúde no Rio Grande do Sul não começa no hospital. Ele depende da capacidade do sistema de organizar uma demanda crescente e sustentar o atendimento ao longo da cadeia. Nos últimos anos, o governo do Estado passou a direcionar recursos com mais clareza para essa base. Desde 2019, mais de R$ 31 bilhões foram destinados à saúde, entre custeio, obras e qualificação dos serviços. A lógica é reduzir a pressão sobre a estrutura e evitar que o atendimento opere no limite.
Parte desse movimento se estrutura em programas que buscam dar previsibilidade à rede. Um exemplo é o Avançar na Saúde que, em suas diferentes fases, já mobilizou cerca de R$ 1,2 bilhão. Dentro dele, o Avançar Mais Hospitais concentrou R$ 1,08 bilhão até 2025, com recursos destinados à ampliação de unidades, melhorias estruturais e aquisição de equipamentos alcançando todas as macrorregiões do Estado. Ao levar estrutura para mais perto da população, reduz deslocamentos e reorganiza o fluxo de atendimento. Ainda assim, a mudança não começa no hospital.
É na atenção primária que a reordenação ganha consistência em 400 cidades. A Rede Bem Cuidar, criada em 2021, já soma R$ 427,4 milhões investidos e está presente nos 497 municípios gaúchos. São 707 equipes custeadas e obras realizadas em mais de, melhorando a capacidade de atendimento logo na entrada do sistema.
Mais do que folgar estrutura, o programa sustenta o funcionamento da malha. Desde a implantação, mais de R$ 206 milhões foram destinados ao custeio, com repasses anuais superiores a R$ 70 milhões. Na prática, isso mantém equipes em atividade e unidades operando de forma contínua.
"Quando fortalecemos a atenção primária, conseguimos organizar melhor o acesso e evitamos que demandas que poderiam ser resolvidas na base cheguem aos hospitais", afirma Arita Bergmann, titular da Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul (SES/RS).
E quando isso não acontece, o efeito é imediato. A pressão se desloca para o sistema hospitalar. Unidades passam a operar com gargalos mais frequentes, os custos aumentam e a necessidade de reorganização se torna constante. O tamanho dessa estrutura aparece nos números. O Estado conta com 323 hospitais e 33.995 leitos, a maior parte vinculada ao sistema público. E é essa rede que precisa absorver a demanda quando a base não responde.
Há períodos em que a pressão se intensifica. No outono e no inverno, o aumento de casos respiratórios exige respostas rápidas. O programa Inverno Gaúcho com Saúde prevê a abertura de mais de 1,4 mil leitos ao longo desses meses, com reforço de custeio e habilitação temporária de estruturas.
Ainda assim, desafogar a capacidade segue sendo um desafio permanente. Não apenas disponibilizar novos leitos, mas mantê-los em funcionamento, com equipe e financiamento adequados.
Ao mesmo tempo, a incorporação de tecnologia passa a integrar essa estratégia. No Grupo Hospitalar Conceição, em Porto Alegre, a plataforma cirúrgica robótica Versius amplia o tipo de procedimento realizado pelo SUS. A utilização será gradual, acompanhando a formação das equipes, com previsão de até 20 cirurgias mensais. Mais do que estender a capacidade cirúrgica, a tecnologia passa a integrar a formação de profissionais, criando um efeito que se prolonga no tempo.
Em paralelo, o Programa Assistir avança na tentativa de reduzir desigualdades regionais. Desde 2021, o número de ambulatórios incentivados passou de pouco mais de 100 para mais de 500, aumentando a oferta de consultas, exames e procedimentos em diferentes regiões.
A expansão ocorre em todas as regiões e aponta para uma redistribuição gradual da oferta. Mais serviços próximos da população, menor concentração de atendimentos.
Ao investir na base, reorganizar fluxos e ampliar a capacidade, o Estado tenta responder a uma pressão que não diminui. A demanda cresce, os custos acompanham e a necessidade de manter o sistema funcionando segue como o principal desafio.
Em números
| Investimentos em saúde no RS desde 2019 | R$ 31 bilhões |
| Aplicados pelo programa Avançar na Saúde | R$ 1,2 bilhão |
| Investimentos programados no Avançar Mais Hospitais até 2025 | R$ 1,08 bilhão |
| Investidos na Rede Bem Cuidar | R$ 427,4 milhões |
| Destinados ao custeio da atenção primária | R$ 206 milhões |
| Equipes custeadas pela Rede Bem Cuidar | 707 |
| Municípios com cobertura do programa no estado | 497 |
| Hospitais integrantes da rede de saúde no RS | 323 |
| Leitos disponíveis no sistema hospitalar | 33.995 |
| Leitos abertos no período de maior demanda | 1,4 mil |
Fonte: Secretaria da Saúde do RS
Hospitais filantrópicos sustentam 70% do atendimento
Grande parte da saúde no Rio Grande do Sul não passa diretamente pela estrutura do Estado. Está nas mãos de hospitais filantrópicos que, no dia a dia, absorvem a maior parte dos atendimentos e garantem que a rede funcione. Mais de 70% da assistência prestada pelo SUS ocorre nessas instituições, segundo estimativa da Federação das Santas Casas e Hospitais Sem Fins Lucrativos do Rio Grande do Sul, que reúne 251 hospitais de um total de 333 existentes no RS. É uma rede ampla, presente em diferentes regiões e responsável por sustentar o atendimento de forma contínua.
Os números ajudam a entender o peso dessa operação. Em 2025, foram quase 286 mil cirurgias, além de mais de 51 mil partos, 37 mil atendimentos em cardiologia e outros 52 mil na área oncológica. Um volume distribuído pelo território, sem depender de um único centro.
Mesmo com limitações conhecidas, a modernização segue acontecendo. Equipamentos são atualizados, áreas de diagnóstico ganham reforço e processos passam por digitalização. "Mesmo com o histórico déficit de financiamento do SUS, os hospitais continuam evoluindo, incorporando tecnologia, ampliando serviços e qualificando a assistência", afirma a presidente da federação, Vanderli de Barros.
O financiamento não vem de uma única fonte. Programas públicos, emendas parlamentares, crédito e recursos próprios compõem a base que viabiliza obras, compra de equipamentos e ampliação de serviços. Não há um valor consolidado para toda a rede, justamente pela autonomia de cada instituição.
Em Porto Alegre, os investimentos aparecem de forma mais visível. O complexo da Santa Casa projeta aplicar R$ 243,5 milhões até o primeiro semestre de 2028, com R$ 198,8 milhões já captados. Os valores estão direcionados à ampliação da capacidade assistencial, atualização tecnológica e qualificação de serviços especializados.
No Hospital Santa Rita, a previsão inclui a instalação de um acelerador linear para radioterapia, estimado em R$ 13 milhões, e de um PET-CT, que é a combinação de dois exames, o PET (tomografia por emissão de pósitrons) e o CT (tomografia computadorizada), com investimento de R$ 12,4 milhões. No Hospital Santa Clara, a modernização da UTI, entregue neste ano com aporte de R$ 14,8 milhões, integra um conjunto de melhorias que também contempla a nova Central de Material e Esterilização, prevista em R$ 32,5 milhões.
Fora da Capital, a mesma lógica se repete, com características próprias. Em Ijuí, o Hospital de Clínicas consolidou nos últimos anos um ciclo de qualificação que combina tecnologia, expansão e reorganização da estrutura. Referência para 283 municípios, o Clínicas opera com taxa de ocupação superior a 90% e expande gradualmente sua capacidade de atendimento.
Entre os principais projetos está a instalação de um novo acelerador linear para o serviço de radioterapia, com investimento total de R$ 13 milhões, sendo R$ 10 milhões provenientes do Ministério da Saúde e R$ 3 milhões de recursos próprios. A expectativa é dobrar a capacidade de atendimentos na área oncológica.
A instituição também recebeu um equipamento de braquiterapia, com valor superior a R$ 3 milhões por meio do Programa Nacional de Apoio à Atenção Oncológica, além de recursos captados para a aquisição de um PET-CT, em funcionamento desde fevereiro deste ano. Na área de hemodinâmica, a instalação de um novo angiógrafo, avaliado em R$ 3 milhões, reforça a estrutura assistencial.
Para acomodar os novos equipamentos, o hospital investiu cerca de R$ 3 milhões em adequações físicas com recursos próprios. Ao mesmo tempo, alarga a capacidade assistencial. Estão em andamento a construção de uma nova UTI adulto, com dez leitos adicionais e mais área para o centro cirúrgico - que passará a contar com oito salas e 19 leitos de recuperação pós-anestésica. As melhorias vêm com investimento de R$ 10,2 milhões oriundos programa Avançar Mais na Saúde.
O que se vê, tanto na Capital quanto no interior, é uma rede que sustenta o atendimento e, ao mesmo tempo, segue investindo para não perder capacidade de resposta. Entre custos elevados, necessidade permanente de custeio e pressão por atendimento, esses hospitais continuam sendo o ponto de equilíbrio de um sistema que depende deles para funcionar.
Mercado suplementar ganha espaço e reforça peso no cenário econômico
Conseguir atendimento com agilidade faz diferença. É esse aspecto que a saúde suplementar se posiciona e ganha espaço dentro da economia do Estado. Em períodos de crescimento, o número de beneficiários tende a avançar. Quando há retração, o movimento desacelera. "O mercado de saúde suplementar no Estado é condicionado ao ambiente econômico", afirma Geison da Silva Tremea, diretor executivo da Unimed Federação/RS.
A presença nas diferentes regiões ajuda a sustentar essa dinâmica. Com cooperativas distribuídas em todo o Estado, o sistema acompanha cadeias produtivas diversas, do agronegócio à indústria, passando por comércio e serviços. Quando um segmento perde força, outro mantém a demanda.
No RS, o Sistema Unimed reúne:
- 11 hospitais próprios
- Clínicas
- Laboratórios
- Rede credenciada composta por mais de dois mil prestadores
A estrutura permite acompanhar toda jornada do paciente.
O movimento também se traduz em investimento na rede própria. A Unimed Porto Alegre prepara a implantação de um novo complexo no Espaço Unisinos, com aporte estimado em R$ 200 milhões na primeira etapa e operação em 2027. A unidade terá pronto atendimento, serviços de oncologia e diagnóstico, além da integração com a regulação do SOS Unimed.
Segundo o presidente do Conselho de Administração, Márcio Pizzato, o projeto integra o planejamento estratégico da cooperativa e responde ao crescimento da demanda na Capital e na Região Metropolitana, ampliando a capacidade de atendimento e contribuindo para reduzir a pressão sobre os hospitais.
Há também um efeito que ultrapassa a assistência direta. A operação movimenta profissionais, fornecedores, serviços e tecnologia, formando uma cadeia que se distribui por diferentes áreas do mercado. Não se trata apenas de atendimento médico, mas de um conjunto de atividades que gera circulação de recursos e sustenta empregos.
Ao mesmo tempo, a expansão traz custos mais elevados. A incorporação de novas tecnologias, a ampliação de coberturas e o avanço de tratamentos mais complexos aumentam o gasto assistencial e exigem maior controle.
Um aspecto destacado por Tremea é a judicialização que impõe coberturas não previstas no cálculo das mensalidades. Elas pressionam o equilíbrio do sistema e dificultam o planejamento.
Diante desse cenário, a busca por eficiência ganha espaço. A estratégia passa por ampliar ações de prevenção, organizar melhor o cuidado e ajustar a oferta de serviços, a fim de reduzir a necessidade de intervenções mais complexas.
Expansão leva em conta oferta de novos serviços
A expansão da saúde no Rio Grande do Sul passa obrigatoriamente pelos hospitais. Não apenas na abertura de novos serviços, mas na forma como essas instituições reorganizam suas estruturas para responder a uma demanda mais complexa, mais exigente e com custo crescente.
Esse movimento não segue um único padrão. Cada hospital avança a partir da sua capacidade de investimento, do perfil de atendimento e do espaço que ocupa dentro do sistema. Ainda assim, há um ponto que se repete. Ampliar a estrutura deixou de ser escolha e passou a ser condição para sustentar a operação em um ambiente de pressão constante.
Nos últimos anos, o aumento de procedimentos de maior complexidade, associado à incorporação de tecnologia e ao maior tempo de permanência dos pacientes, elevou o custo operacional das instituições. Esse cenário impõe um novo ritmo de investimento. Crescer exige não apenas expansão física, mas reorganização interna, qualificação de equipes e maior controle sobre custos e eficiência. Esse equilíbrio entre expansão e sustentabilidade passa a orientar as decisões das instituições de saúde.
Em Porto Alegre, o Hospital Moinhos de Vento mantém um dos ciclos mais consistentes de investimento do Estado. Foram R$ 220 milhões aplicados em 2025, dentro de um plano que soma R$ 530 milhões no biênio 2024-2025. A entrega do Hospital do Coração concentra parte desse avanço. Com R$ 190 milhões investidos, a nova estrutura amplia a atuação em cardiologia e cirurgia cardiovascular, com 33 leitos de terapia intensiva, 20 leitos de internação e quatro salas de hemodinâmica.
A expansão não se encerra nesse ciclo. Para 2026, estão previstos R$ 210 milhões em novos aportes. O planejamento até 2029 inclui mais R$ 250 milhões destinados à construção de uma torre educacional. A combinação entre assistência e formação indica uma estratégia de longo prazo, voltada à sustentabilidade do avanço em áreas de alta complexidade. "Nosso foco é crescer com responsabilidade e visão de longo prazo. Cada investimento está ligado à ampliação do acesso à alta complexidade e à formação de profissionais preparados", afirma o CEO do hospital, Mohamed Parrini.
Na mesma direção, o Hospital Mãe de Deus avança pela incorporação de tecnologia como eixo estruturante. A utilização de robôs cirúrgicos, como o Toumai e o Mazor, amplia a realização de procedimentos minimamente invasivos, com impacto direto na recuperação dos pacientes e no tempo de permanência hospitalar. Ao mesmo tempo, a Inteligência Artificial passa a integrar a rotina em exames, laudos e acompanhamento clínico.
Esse movimento não ocorre de forma isolada. A instituição prepara a abertura de um Centro de Pesquisa Clínica, prevista para 2026, com estrutura voltada a estudos, processamento de amostras e atendimento de pacientes participantes. A iniciativa amplia o acesso a novos tratamentos e insere o hospital em redes internacionais, ampliando sua capacidade de inovação e sua inserção em um ambiente mais competitivo.
Interior adota diferentes formatos e investe em mudanças no modelo de cuidado
Fora de Porto Alegre, a expansão assume outros formatos e revela mudanças no modelo de cuidado. No Grupo São Pietro, a estratégia combina ampliação de serviços com a incorporação de novas formas de atendimento. O avanço passa pela entrada no senior living, voltado a pessoas com mais de 60 anos, que integra moradia, assistência e serviços de saúde em um mesmo espaço.
A primeira unidade, em Porto Alegre, opera com cerca de 80% de ocupação das 114 suítes disponíveis. A expansão já está em curso, com uma segunda unidade prevista para 143 suítes e uma terceira, em Canela, com 171. O modelo aponta para uma reorganização do cuidado, que deixa de estar concentrado exclusivamente no hospital e passa a se distribuir ao longo da jornada do paciente.
Ao mesmo tempo, o grupo mantém investimentos na estrutura assistencial. O Hospital Banco de Olhos São Pietro recebeu R$ 20 milhões em duas fases de revitalização, com nova etapa prevista para 2026. Na Região Metropolitana, a inauguração de um hospital de oftalmologia em Gravataí amplia a capacidade de atendimento fora de Porto Alegre, com potencial para até oito mil consultas e 400 cirurgias por mês.
Na Serra Gaúcha, o crescimento se conecta diretamente ao desenvolvimento regional. O projeto do Hospital Pompéia, em Canela, alia expansão da rede assistencial com o avanço do turismo de saúde. Com 16,2 mil metros quadrados, a estrutura contará com 45 leitos privativos, 30 semi-privativos, 10 leitos de UTI e seis salas cirúrgicas, além de áreas voltadas à oncologia e diagnóstico por imagem.
A entrega dos pavimentos para testes técnicos está prevista para o início de 2027. A CEO Lara Vieira afirma que o Pompéia Ecossistema de Saúde atende hoje 48 municípios da Serra e destaca que o turismo de saúde deve movimentar US$ 3 bilhões no Brasil até 2027. Sete em cada 10 pacientes atendidos na unidade de Caxias do Sul vêm de outros estados. "Queremos ser, também, o suporte da hotelaria de Canela e Gramado", afirma.
Com 112 anos de atuação, a instituição foi incluída na lista dos melhores hospitais do mundo, segundo a revista Newsweek, ocupando a terceira posição no Rio Grande do Sul e a primeira na Serra Gaúcha. O reconhecimento reforça o posicionamento da região como polo de atração de pacientes e serviços especializados.
Entre instituições privadas e projetos regionais, a expansão não segue uma única lógica. No Hospital de Clínicas de Porto Alegre, esse movimento ocorre dentro de uma estrutura pública. Vinculado à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) e ao Ministério da Educação (MEC), o hospital avança na reorganização de áreas e na ampliação de serviços de alta complexidade.
A consolidação do Bloco B concentra emergência, centro cirúrgico e unidades de terapia intensiva. O Centro Integrado de Oncologia deve entrar em operação ainda neste ano. Há também planos de expansão da hemodiálise, com duplicação da área destinada ao serviço, além do aumento gradual da capacidade cirúrgica e das áreas pediátricas, acompanhando o crescimento da demanda.
Ao mesmo tempo em que amplia serviços, o hospital enfrenta um desafio que acompanha toda a rede pública. Sustentar o crescimento e manter a qualidade do atendimento em um ambiente de pressão financeira permanente.
Startups transformam pesquisas em negócios concretos para o Estado
Nem todo investimento em saúde aparece em obras, equipamentos ou novos leitos. Parte dele acontece antes, em um espaço menos visível, onde pesquisa, tecnologia e mercado passam a caminhar juntos — e onde começa a surgir uma nova frente de desenvolvimento.
No Rio Grande do Sul, essa articulação ganha forma dentro de um conjunto que reúne universidades, hospitais, startups e investidores. Mais do que inovação, trata-se de um ambiente que transforma conhecimento em atividade econômica e amplia o papel da saúde para além do atendimento.
No Tecnopuc - um dos principais parques científicos do País - essa dinâmica se materializa em números. São mais de 300 organizações instaladas, com cerca de 6,5 mil pessoas circulando semanalmente em uma área de 90 mil metros quadrados. Desse total, 120 são startups — e uma parte significativa atua na área da saúde, sinalizando onde está parte do crescimento.
"Quando se observa esse conjunto de atores, fica evidente que há uma estrutura organizada de inovação em saúde no Estado", afirma o professor Rafael Baptista, coordenador do Biohub no Tecnopuc. Para ele, o diferencial está na forma como esses agentes se conectam.
Essa aproximação não acontece de forma espontânea. O Biohub atua justamente na ligação entre pesquisa, hospitais e empresas, criando condições para que ideias saiam do laboratório e encontrem aplicação prática. "Quando pesquisam, hospitais e empresas se conectam e o resultado é a geração efetiva de negócios", afirma o professor.
Hoje, quatro instituições de saúde integram diretamente essa estrutura: Hospital São Lucas da Pucrs, Rede de Saúde da Divina Providência, Hospital Ernesto Dornelles e Casa Menino Jesus de Praga. A presença desses parceiros permite testar soluções dentro da rotina hospitalar, encurtando o caminho entre desenvolvimento e uso.
Um dos mecanismos utilizados são os programas de prova de conceito. Neles, hospitais apresentam problemas reais e as startups desenvolvem soluções a partir dos desafios. As iniciativas passam por testes e, quando funcionam, são incorporadas à operação. Em alguns casos, mais de uma instituição adota a mesma solução, o que confere maior alcance e viabilidade comercial.
Esse processo também reduz riscos. Antes de investir em larga escala, hospitais conseguem testar tecnologias em ambiente real, enquanto as startups validam seus produtos e aumentam as chances de inserção no mercado. O resultado aparece na velocidade com que soluções deixam de ser apenas projetos e passam a integrar a rotina dos serviços.
Há exemplos concretos desse movimento. A SysQualis - startup membro do Biohub - desenvolveu um sistema que integra dados de pacientes entre diferentes hospitais, conectando exames, consultas e histórico clínico. O resultado, segundo Baptista, aparece na prática. São menos repetição de exames, mais precisão na tomada de decisão e redução de gastos desnecessários.
Em outra frente, a TWD Medical estruturou um modelo de telemedicina voltado a exames cardiológicos em municípios do interior. Os dados são coletados localmente e enviados para análise em Porto Alegre, ampliando o acesso a diagnósticos especializados sem exigir deslocamento — o que melhora a organização da rede e reduz custos.
Além do impacto assistencial, há um efeito econômico direto, conforme analisa Baptista. Soluções que ganham escala deixam de ser iniciativas pontuais e passam a gerar receita, atrair investimento e abrir espaço para novos modelos de negócios dentro da saúde, um setor que historicamente operava com menor integração entre pesquisa e mercado.
No entanto, mesmo com avanços, ainda há limites. "Outros estados contam com maior volume de recursos e incentivos. O Rio Grande do Sul perde nesses aspectos, mas se destaca pela organização", afirma Baptista.
Nesse cenário, as universidades seguem como base. É nelas que estão os pesquisadores, os laboratórios e o conhecimento que sustenta as chamadas deep techs - empresas que operam na fronteira científica e exigem mais tempo e investimento até chegar ao mercado. Na saúde, isso envolve desde novos medicamentos até pesquisas com células-tronco, processos que dependem de validação rigorosa.
Esse tipo de iniciativa exige capital e paciência. Diferentemente de soluções mais rápidas, que chegam ao mercado em ciclos curtos, projetos baseados em pesquisa avançada percorrem etapas mais longas até se consolidar. Quando avançam, no entanto, tendem a ocupar posições estratégicas e a gerar maior valor agregado. Aos poucos, o que se consolida no Estado é uma nova dimensão dentro da saúde.
Equilíbrio financeiro desafia expansão dos serviços no Rio Grande do Sul
A saúde movimenta cifras altas, mas o que sustenta esse volume nem sempre aparece. Por trás dos investimentos, existe um sistema que precisa se equilibrar todos os dias para continuar funcionando.
Desde 2019, o governo do Rio Grande do Sul destinou mais de R$ 31 bilhões à área. Parte desse valor mantém a rede em operação, parte amplia serviços e atualiza estruturas. O número é expressivo, mas não resolve a equação.
E o limite aparece quando a conta não fecha. Em 2023, o Estado registrou déficit superior a R$ 330 milhões no financiamento de procedimentos de média e alta complexidade do SUS. Na prática, isso significa que uma parcela dos custos fica fora do repasse federal e precisa ser absorvida dentro da própria rede.
O descompasso não fica restrito ao orçamento. Ele chega à operação. Hospitais reorganizam serviços, ajustam estruturas e passam a decidir não apenas com base nas demandas, mas também na capacidade de financiar cada atendimento.
Essa dinâmica ajuda a entender por que a saúde deixou de ser observada apenas pelo que entrega na ponta. Em artigo publicado, o economista Giácomo Balbinotto Neto, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), aponta que o setor opera sob uma restrição permanente de recursos, em que cada escolha carrega um custo.
Quando se amplia o olhar, o peso do segmento ganha outra dimensão. No Brasil, os bens e serviços ligados à saúde representam cerca de 9,6% do Produto Interno Bruto (PIB) segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ainda que não exista um recorte consolidado específico para o Estado, a estrutura gaúcha — com rede hospitalar ampla, presença da iniciativa privada, investimento público contínuo e um ambiente ativo de inovação — indica uma participação relevante dentro desse conjunto.
Mais do que o volume investido, o ponto está na sustentação. A saúde cresce, incorpora tecnologia e novos serviços, mas carrega um desafio constante: financiar esse avanço sem comprometer o próprio funcionamento. No fim, não é apenas uma questão de expansão. É uma conta que precisa fechar todos os dias.
*Carmen Carlet é jornalista formada pela Famecos, Pucrs. Atuou como colunista, repórter e correspondente de veículos especializados em propaganda e marketing. Atualmente, trabalha com assessoria de comunicação, produção de conteúdo e conexões criativas.
Setor de saúde entra em nova fase e se consolida na economia gaúcha
Carmen Carlet
Especial para o JC*
Quem observa os principais hospitais do Rio Grande do Sul percebe que algo mudou. Obras avançam, novas alas começam a operar, equipamentos chegam e serviços se ampliam. Aos poucos, o que antes parecia uma estrutura estável dá lugar a um ambiente em movimento, onde crescer deixou de ser exceção.
A mudança não se concentra em um único lugar. Ela se espalha pelo Rio Grande do Sul e alcança hospitais privados, instituições filantrópicas e a própria rede pública, ainda que em ritmos diferentes. A saúde começa a sair do campo exclusivo do atendimento e passa a atuar em outras frentes, acompanhando investimentos, tecnologias e novos serviços. Um exemplo é o robô Toumai, plataforma de cirurgia robótica de última geração adquirida no ano passado pelo Hospital Mãe de Deus, utilizada em diferentes especialidades, oferecendo procedimentos menos invasivos, mais precisos e com recuperação mais rápida.
Esse avanço também se reflete no volume de recursos direcionados ao setor. Nos últimos anos, investimentos públicos e privados passaram a sustentar essa modernização, reposicionando a saúde dentro da evolução econômica do Estado.
Nada disso, no entanto, reduz a tensão sobre o sistema. A demanda continua maior do que a capacidade instalada e a maior parte da população segue dependente do Sistema Único de Saúde (SUS), que sustenta a base da rede. É nesse cenário que convivem realidades distintas. De um lado está a saúde privada que amplia estrutura e avança em complexidade, de outro, uma malha que enfrenta falta de leitos, limites de financiamento e custos crescentes.
O resultado não é homogêneo nem democrático. O que se vê é uma área em transformação, que se reorganiza e passa a ocupar um espaço mais claro na economia sem deixar de carregar desafios que seguem no centro da sua operação.
O novo momento começa a ganhar visibilidade também fora das fronteiras. O Rio Grande do Sul possui hoje dois dos hospitais mais bem avaliados da América Latina, de acordo com ranking da Investigación de Mercados e Inteligencia de Negocios (IntelLat) - empresa especializada em análise de dados em saúde. Em um universo de 80 instituições de nove países, o Hospital Moinhos de Vento (HMV) aparece como o sexto colocado, enquanto o Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) figura na 15ª posição no ranking, sendo o hospital público mais bem posicionado da lista.
Rio Grande do Sul amplia investimentos em saúde com foco na eficiência do sistema
O avanço dos investimentos em saúde no Rio Grande do Sul não começa no hospital. Ele depende da capacidade do sistema de organizar uma demanda crescente e sustentar o atendimento ao longo da cadeia. Nos últimos anos, o governo do Estado passou a direcionar recursos com mais clareza para essa base. Desde 2019, mais de R$ 31 bilhões foram destinados à saúde, entre custeio, obras e qualificação dos serviços. A lógica é reduzir a pressão sobre a estrutura e evitar que o atendimento opere no limite.
Parte desse movimento se estrutura em programas que buscam dar previsibilidade à rede. Um exemplo é o Avançar na Saúde que, em suas diferentes fases, já mobilizou cerca de R$ 1,2 bilhão. Dentro dele, o Avançar Mais Hospitais concentrou R$ 1,08 bilhão até 2025, com recursos destinados à ampliação de unidades, melhorias estruturais e aquisição de equipamentos alcançando todas as macrorregiões do Estado. Ao levar estrutura para mais perto da população, reduz deslocamentos e reorganiza o fluxo de atendimento. Ainda assim, a mudança não começa no hospital.
É na atenção primária que a reordenação ganha consistência em 400 cidades. A Rede Bem Cuidar, criada em 2021, já soma R$ 427,4 milhões investidos e está presente nos 497 municípios gaúchos. São 707 equipes custeadas e obras realizadas em mais de, melhorando a capacidade de atendimento logo na entrada do sistema.
Mais do que folgar estrutura, o programa sustenta o funcionamento da malha. Desde a implantação, mais de R$ 206 milhões foram destinados ao custeio, com repasses anuais superiores a R$ 70 milhões. Na prática, isso mantém equipes em atividade e unidades operando de forma contínua.
"Quando fortalecemos a atenção primária, conseguimos organizar melhor o acesso e evitamos que demandas que poderiam ser resolvidas na base cheguem aos hospitais", afirma Arita Bergmann, titular da Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul (SES/RS).
E quando isso não acontece, o efeito é imediato. A pressão se desloca para o sistema hospitalar. Unidades passam a operar com gargalos mais frequentes, os custos aumentam e a necessidade de reorganização se torna constante. O tamanho dessa estrutura aparece nos números. O Estado conta com 323 hospitais e 33.995 leitos, a maior parte vinculada ao sistema público. E é essa rede que precisa absorver a demanda quando a base não responde.
Há períodos em que a pressão se intensifica. No outono e no inverno, o aumento de casos respiratórios exige respostas rápidas. O programa Inverno Gaúcho com Saúde prevê a abertura de mais de 1,4 mil leitos ao longo desses meses, com reforço de custeio e habilitação temporária de estruturas.
Ainda assim, desafogar a capacidade segue sendo um desafio permanente. Não apenas disponibilizar novos leitos, mas mantê-los em funcionamento, com equipe e financiamento adequados.
Ao mesmo tempo, a incorporação de tecnologia passa a integrar essa estratégia. No Grupo Hospitalar Conceição, em Porto Alegre, a plataforma cirúrgica robótica Versius amplia o tipo de procedimento realizado pelo SUS. A utilização será gradual, acompanhando a formação das equipes, com previsão de até 20 cirurgias mensais. Mais do que estender a capacidade cirúrgica, a tecnologia passa a integrar a formação de profissionais, criando um efeito que se prolonga no tempo.
Em paralelo, o Programa Assistir avança na tentativa de reduzir desigualdades regionais. Desde 2021, o número de ambulatórios incentivados passou de pouco mais de 100 para mais de 500, aumentando a oferta de consultas, exames e procedimentos em diferentes regiões.
A expansão ocorre em todas as regiões e aponta para uma redistribuição gradual da oferta. Mais serviços próximos da população, menor concentração de atendimentos.
Ao investir na base, reorganizar fluxos e ampliar a capacidade, o Estado tenta responder a uma pressão que não diminui. A demanda cresce, os custos acompanham e a necessidade de manter o sistema funcionando segue como o principal desafio.
Em números
| Investimentos em saúde no RS desde 2019 | R$ 31 bilhões |
| Aplicados pelo programa Avançar na Saúde | R$ 1,2 bilhão |
| Investimentos programados no Avançar Mais Hospitais até 2025 | R$ 1,08 bilhão |
| Investidos na Rede Bem Cuidar | R$ 427,4 milhões |
| Destinados ao custeio da atenção primária | R$ 206 milhões |
| Equipes custeadas pela Rede Bem Cuidar | 707 |
| Municípios com cobertura do programa no estado | 497 |
| Hospitais integrantes da rede de saúde no RS | 323 |
| Leitos disponíveis no sistema hospitalar | 33.995 |
| Leitos abertos no período de maior demanda | 1,4 mil |
Fonte: Secretaria da Saúde do RS
Hospitais filantrópicos sustentam 70% do atendimento
Grande parte da saúde no Rio Grande do Sul não passa diretamente pela estrutura do Estado. Está nas mãos de hospitais filantrópicos que, no dia a dia, absorvem a maior parte dos atendimentos e garantem que a rede funcione. Mais de 70% da assistência prestada pelo SUS ocorre nessas instituições, segundo estimativa da Federação das Santas Casas e Hospitais Sem Fins Lucrativos do Rio Grande do Sul, que reúne 251 hospitais de um total de 333 existentes no RS. É uma rede ampla, presente em diferentes regiões e responsável por sustentar o atendimento de forma contínua.
Os números ajudam a entender o peso dessa operação. Em 2025, foram quase 286 mil cirurgias, além de mais de 51 mil partos, 37 mil atendimentos em cardiologia e outros 52 mil na área oncológica. Um volume distribuído pelo território, sem depender de um único centro.
Mesmo com limitações conhecidas, a modernização segue acontecendo. Equipamentos são atualizados, áreas de diagnóstico ganham reforço e processos passam por digitalização. "Mesmo com o histórico déficit de financiamento do SUS, os hospitais continuam evoluindo, incorporando tecnologia, ampliando serviços e qualificando a assistência", afirma a presidente da federação, Vanderli de Barros.
O financiamento não vem de uma única fonte. Programas públicos, emendas parlamentares, crédito e recursos próprios compõem a base que viabiliza obras, compra de equipamentos e ampliação de serviços. Não há um valor consolidado para toda a rede, justamente pela autonomia de cada instituição.
Em Porto Alegre, os investimentos aparecem de forma mais visível. O complexo da Santa Casa projeta aplicar R$ 243,5 milhões até o primeiro semestre de 2028, com R$ 198,8 milhões já captados. Os valores estão direcionados à ampliação da capacidade assistencial, atualização tecnológica e qualificação de serviços especializados.
No Hospital Santa Rita, a previsão inclui a instalação de um acelerador linear para radioterapia, estimado em R$ 13 milhões, e de um PET-CT, que é a combinação de dois exames, o PET (tomografia por emissão de pósitrons) e o CT (tomografia computadorizada), com investimento de R$ 12,4 milhões. No Hospital Santa Clara, a modernização da UTI, entregue neste ano com aporte de R$ 14,8 milhões, integra um conjunto de melhorias que também contempla a nova Central de Material e Esterilização, prevista em R$ 32,5 milhões.
Fora da Capital, a mesma lógica se repete, com características próprias. Em Ijuí, o Hospital de Clínicas consolidou nos últimos anos um ciclo de qualificação que combina tecnologia, expansão e reorganização da estrutura. Referência para 283 municípios, o Clínicas opera com taxa de ocupação superior a 90% e expande gradualmente sua capacidade de atendimento.
Entre os principais projetos está a instalação de um novo acelerador linear para o serviço de radioterapia, com investimento total de R$ 13 milhões, sendo R$ 10 milhões provenientes do Ministério da Saúde e R$ 3 milhões de recursos próprios. A expectativa é dobrar a capacidade de atendimentos na área oncológica.
A instituição também recebeu um equipamento de braquiterapia, com valor superior a R$ 3 milhões por meio do Programa Nacional de Apoio à Atenção Oncológica, além de recursos captados para a aquisição de um PET-CT, em funcionamento desde fevereiro deste ano. Na área de hemodinâmica, a instalação de um novo angiógrafo, avaliado em R$ 3 milhões, reforça a estrutura assistencial.
Para acomodar os novos equipamentos, o hospital investiu cerca de R$ 3 milhões em adequações físicas com recursos próprios. Ao mesmo tempo, alarga a capacidade assistencial. Estão em andamento a construção de uma nova UTI adulto, com dez leitos adicionais e mais área para o centro cirúrgico - que passará a contar com oito salas e 19 leitos de recuperação pós-anestésica. As melhorias vêm com investimento de R$ 10,2 milhões oriundos programa Avançar Mais na Saúde.
O que se vê, tanto na Capital quanto no interior, é uma rede que sustenta o atendimento e, ao mesmo tempo, segue investindo para não perder capacidade de resposta. Entre custos elevados, necessidade permanente de custeio e pressão por atendimento, esses hospitais continuam sendo o ponto de equilíbrio de um sistema que depende deles para funcionar.
Mercado suplementar ganha espaço e reforça peso no cenário econômico
Conseguir atendimento com agilidade faz diferença. É esse aspecto que a saúde suplementar se posiciona e ganha espaço dentro da economia do Estado. Em períodos de crescimento, o número de beneficiários tende a avançar. Quando há retração, o movimento desacelera. "O mercado de saúde suplementar no Estado é condicionado ao ambiente econômico", afirma Geison da Silva Tremea, diretor executivo da Unimed Federação/RS.
A presença nas diferentes regiões ajuda a sustentar essa dinâmica. Com cooperativas distribuídas em todo o Estado, o sistema acompanha cadeias produtivas diversas, do agronegócio à indústria, passando por comércio e serviços. Quando um segmento perde força, outro mantém a demanda.
No RS, o Sistema Unimed reúne:
- 11 hospitais próprios
- Clínicas
- Laboratórios
- Rede credenciada composta por mais de dois mil prestadores
A estrutura permite acompanhar toda jornada do paciente.
O movimento também se traduz em investimento na rede própria. A Unimed Porto Alegre prepara a implantação de um novo complexo no Espaço Unisinos, com aporte estimado em R$ 200 milhões na primeira etapa e operação em 2027. A unidade terá pronto atendimento, serviços de oncologia e diagnóstico, além da integração com a regulação do SOS Unimed.
Segundo o presidente do Conselho de Administração, Márcio Pizzato, o projeto integra o planejamento estratégico da cooperativa e responde ao crescimento da demanda na Capital e na Região Metropolitana, ampliando a capacidade de atendimento e contribuindo para reduzir a pressão sobre os hospitais.
Há também um efeito que ultrapassa a assistência direta. A operação movimenta profissionais, fornecedores, serviços e tecnologia, formando uma cadeia que se distribui por diferentes áreas do mercado. Não se trata apenas de atendimento médico, mas de um conjunto de atividades que gera circulação de recursos e sustenta empregos.
Ao mesmo tempo, a expansão traz custos mais elevados. A incorporação de novas tecnologias, a ampliação de coberturas e o avanço de tratamentos mais complexos aumentam o gasto assistencial e exigem maior controle.
Um aspecto destacado por Tremea é a judicialização que impõe coberturas não previstas no cálculo das mensalidades. Elas pressionam o equilíbrio do sistema e dificultam o planejamento.
Diante desse cenário, a busca por eficiência ganha espaço. A estratégia passa por ampliar ações de prevenção, organizar melhor o cuidado e ajustar a oferta de serviços, a fim de reduzir a necessidade de intervenções mais complexas.
Expansão leva em conta oferta de novos serviços
A expansão da saúde no Rio Grande do Sul passa obrigatoriamente pelos hospitais. Não apenas na abertura de novos serviços, mas na forma como essas instituições reorganizam suas estruturas para responder a uma demanda mais complexa, mais exigente e com custo crescente.
Esse movimento não segue um único padrão. Cada hospital avança a partir da sua capacidade de investimento, do perfil de atendimento e do espaço que ocupa dentro do sistema. Ainda assim, há um ponto que se repete. Ampliar a estrutura deixou de ser escolha e passou a ser condição para sustentar a operação em um ambiente de pressão constante.
Nos últimos anos, o aumento de procedimentos de maior complexidade, associado à incorporação de tecnologia e ao maior tempo de permanência dos pacientes, elevou o custo operacional das instituições. Esse cenário impõe um novo ritmo de investimento. Crescer exige não apenas expansão física, mas reorganização interna, qualificação de equipes e maior controle sobre custos e eficiência. Esse equilíbrio entre expansão e sustentabilidade passa a orientar as decisões das instituições de saúde.
Em Porto Alegre, o Hospital Moinhos de Vento mantém um dos ciclos mais consistentes de investimento do Estado. Foram R$ 220 milhões aplicados em 2025, dentro de um plano que soma R$ 530 milhões no biênio 2024-2025. A entrega do Hospital do Coração concentra parte desse avanço. Com R$ 190 milhões investidos, a nova estrutura amplia a atuação em cardiologia e cirurgia cardiovascular, com 33 leitos de terapia intensiva, 20 leitos de internação e quatro salas de hemodinâmica.
A expansão não se encerra nesse ciclo. Para 2026, estão previstos R$ 210 milhões em novos aportes. O planejamento até 2029 inclui mais R$ 250 milhões destinados à construção de uma torre educacional. A combinação entre assistência e formação indica uma estratégia de longo prazo, voltada à sustentabilidade do avanço em áreas de alta complexidade. "Nosso foco é crescer com responsabilidade e visão de longo prazo. Cada investimento está ligado à ampliação do acesso à alta complexidade e à formação de profissionais preparados", afirma o CEO do hospital, Mohamed Parrini.
Na mesma direção, o Hospital Mãe de Deus avança pela incorporação de tecnologia como eixo estruturante. A utilização de robôs cirúrgicos, como o Toumai e o Mazor, amplia a realização de procedimentos minimamente invasivos, com impacto direto na recuperação dos pacientes e no tempo de permanência hospitalar. Ao mesmo tempo, a Inteligência Artificial passa a integrar a rotina em exames, laudos e acompanhamento clínico.
Esse movimento não ocorre de forma isolada. A instituição prepara a abertura de um Centro de Pesquisa Clínica, prevista para 2026, com estrutura voltada a estudos, processamento de amostras e atendimento de pacientes participantes. A iniciativa amplia o acesso a novos tratamentos e insere o hospital em redes internacionais, ampliando sua capacidade de inovação e sua inserção em um ambiente mais competitivo.
Interior adota diferentes formatos e investe em mudanças no modelo de cuidado
Fora de Porto Alegre, a expansão assume outros formatos e revela mudanças no modelo de cuidado. No Grupo São Pietro, a estratégia combina ampliação de serviços com a incorporação de novas formas de atendimento. O avanço passa pela entrada no senior living, voltado a pessoas com mais de 60 anos, que integra moradia, assistência e serviços de saúde em um mesmo espaço.
A primeira unidade, em Porto Alegre, opera com cerca de 80% de ocupação das 114 suítes disponíveis. A expansão já está em curso, com uma segunda unidade prevista para 143 suítes e uma terceira, em Canela, com 171. O modelo aponta para uma reorganização do cuidado, que deixa de estar concentrado exclusivamente no hospital e passa a se distribuir ao longo da jornada do paciente.
Ao mesmo tempo, o grupo mantém investimentos na estrutura assistencial. O Hospital Banco de Olhos São Pietro recebeu R$ 20 milhões em duas fases de revitalização, com nova etapa prevista para 2026. Na Região Metropolitana, a inauguração de um hospital de oftalmologia em Gravataí amplia a capacidade de atendimento fora de Porto Alegre, com potencial para até oito mil consultas e 400 cirurgias por mês.
Na Serra Gaúcha, o crescimento se conecta diretamente ao desenvolvimento regional. O projeto do Hospital Pompéia, em Canela, alia expansão da rede assistencial com o avanço do turismo de saúde. Com 16,2 mil metros quadrados, a estrutura contará com 45 leitos privativos, 30 semi-privativos, 10 leitos de UTI e seis salas cirúrgicas, além de áreas voltadas à oncologia e diagnóstico por imagem.
A entrega dos pavimentos para testes técnicos está prevista para o início de 2027. A CEO Lara Vieira afirma que o Pompéia Ecossistema de Saúde atende hoje 48 municípios da Serra e destaca que o turismo de saúde deve movimentar US$ 3 bilhões no Brasil até 2027. Sete em cada 10 pacientes atendidos na unidade de Caxias do Sul vêm de outros estados. "Queremos ser, também, o suporte da hotelaria de Canela e Gramado", afirma.
Com 112 anos de atuação, a instituição foi incluída na lista dos melhores hospitais do mundo, segundo a revista Newsweek, ocupando a terceira posição no Rio Grande do Sul e a primeira na Serra Gaúcha. O reconhecimento reforça o posicionamento da região como polo de atração de pacientes e serviços especializados.
Entre instituições privadas e projetos regionais, a expansão não segue uma única lógica. No Hospital de Clínicas de Porto Alegre, esse movimento ocorre dentro de uma estrutura pública. Vinculado à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) e ao Ministério da Educação (MEC), o hospital avança na reorganização de áreas e na ampliação de serviços de alta complexidade.
A consolidação do Bloco B concentra emergência, centro cirúrgico e unidades de terapia intensiva. O Centro Integrado de Oncologia deve entrar em operação ainda neste ano. Há também planos de expansão da hemodiálise, com duplicação da área destinada ao serviço, além do aumento gradual da capacidade cirúrgica e das áreas pediátricas, acompanhando o crescimento da demanda.
Ao mesmo tempo em que amplia serviços, o hospital enfrenta um desafio que acompanha toda a rede pública. Sustentar o crescimento e manter a qualidade do atendimento em um ambiente de pressão financeira permanente.
Startups transformam pesquisas em negócios concretos para o Estado
Nem todo investimento em saúde aparece em obras, equipamentos ou novos leitos. Parte dele acontece antes, em um espaço menos visível, onde pesquisa, tecnologia e mercado passam a caminhar juntos — e onde começa a surgir uma nova frente de desenvolvimento.
No Rio Grande do Sul, essa articulação ganha forma dentro de um conjunto que reúne universidades, hospitais, startups e investidores. Mais do que inovação, trata-se de um ambiente que transforma conhecimento em atividade econômica e amplia o papel da saúde para além do atendimento.
No Tecnopuc - um dos principais parques científicos do País - essa dinâmica se materializa em números. São mais de 300 organizações instaladas, com cerca de 6,5 mil pessoas circulando semanalmente em uma área de 90 mil metros quadrados. Desse total, 120 são startups — e uma parte significativa atua na área da saúde, sinalizando onde está parte do crescimento.
"Quando se observa esse conjunto de atores, fica evidente que há uma estrutura organizada de inovação em saúde no Estado", afirma o professor Rafael Baptista, coordenador do Biohub no Tecnopuc. Para ele, o diferencial está na forma como esses agentes se conectam.
Essa aproximação não acontece de forma espontânea. O Biohub atua justamente na ligação entre pesquisa, hospitais e empresas, criando condições para que ideias saiam do laboratório e encontrem aplicação prática. "Quando pesquisam, hospitais e empresas se conectam e o resultado é a geração efetiva de negócios", afirma o professor.
Hoje, quatro instituições de saúde integram diretamente essa estrutura: Hospital São Lucas da Pucrs, Rede de Saúde da Divina Providência, Hospital Ernesto Dornelles e Casa Menino Jesus de Praga. A presença desses parceiros permite testar soluções dentro da rotina hospitalar, encurtando o caminho entre desenvolvimento e uso.
Um dos mecanismos utilizados são os programas de prova de conceito. Neles, hospitais apresentam problemas reais e as startups desenvolvem soluções a partir dos desafios. As iniciativas passam por testes e, quando funcionam, são incorporadas à operação. Em alguns casos, mais de uma instituição adota a mesma solução, o que confere maior alcance e viabilidade comercial.
Esse processo também reduz riscos. Antes de investir em larga escala, hospitais conseguem testar tecnologias em ambiente real, enquanto as startups validam seus produtos e aumentam as chances de inserção no mercado. O resultado aparece na velocidade com que soluções deixam de ser apenas projetos e passam a integrar a rotina dos serviços.
Há exemplos concretos desse movimento. A SysQualis - startup membro do Biohub - desenvolveu um sistema que integra dados de pacientes entre diferentes hospitais, conectando exames, consultas e histórico clínico. O resultado, segundo Baptista, aparece na prática. São menos repetição de exames, mais precisão na tomada de decisão e redução de gastos desnecessários.
Em outra frente, a TWD Medical estruturou um modelo de telemedicina voltado a exames cardiológicos em municípios do interior. Os dados são coletados localmente e enviados para análise em Porto Alegre, ampliando o acesso a diagnósticos especializados sem exigir deslocamento — o que melhora a organização da rede e reduz custos.
Além do impacto assistencial, há um efeito econômico direto, conforme analisa Baptista. Soluções que ganham escala deixam de ser iniciativas pontuais e passam a gerar receita, atrair investimento e abrir espaço para novos modelos de negócios dentro da saúde, um setor que historicamente operava com menor integração entre pesquisa e mercado.
No entanto, mesmo com avanços, ainda há limites. "Outros estados contam com maior volume de recursos e incentivos. O Rio Grande do Sul perde nesses aspectos, mas se destaca pela organização", afirma Baptista.
Nesse cenário, as universidades seguem como base. É nelas que estão os pesquisadores, os laboratórios e o conhecimento que sustenta as chamadas deep techs - empresas que operam na fronteira científica e exigem mais tempo e investimento até chegar ao mercado. Na saúde, isso envolve desde novos medicamentos até pesquisas com células-tronco, processos que dependem de validação rigorosa.
Esse tipo de iniciativa exige capital e paciência. Diferentemente de soluções mais rápidas, que chegam ao mercado em ciclos curtos, projetos baseados em pesquisa avançada percorrem etapas mais longas até se consolidar. Quando avançam, no entanto, tendem a ocupar posições estratégicas e a gerar maior valor agregado. Aos poucos, o que se consolida no Estado é uma nova dimensão dentro da saúde.
Equilíbrio financeiro desafia expansão dos serviços no Rio Grande do Sul
A saúde movimenta cifras altas, mas o que sustenta esse volume nem sempre aparece. Por trás dos investimentos, existe um sistema que precisa se equilibrar todos os dias para continuar funcionando.
Desde 2019, o governo do Rio Grande do Sul destinou mais de R$ 31 bilhões à área. Parte desse valor mantém a rede em operação, parte amplia serviços e atualiza estruturas. O número é expressivo, mas não resolve a equação.
E o limite aparece quando a conta não fecha. Em 2023, o Estado registrou déficit superior a R$ 330 milhões no financiamento de procedimentos de média e alta complexidade do SUS. Na prática, isso significa que uma parcela dos custos fica fora do repasse federal e precisa ser absorvida dentro da própria rede.
O descompasso não fica restrito ao orçamento. Ele chega à operação. Hospitais reorganizam serviços, ajustam estruturas e passam a decidir não apenas com base nas demandas, mas também na capacidade de financiar cada atendimento.
Essa dinâmica ajuda a entender por que a saúde deixou de ser observada apenas pelo que entrega na ponta. Em artigo publicado, o economista Giácomo Balbinotto Neto, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), aponta que o setor opera sob uma restrição permanente de recursos, em que cada escolha carrega um custo.
Quando se amplia o olhar, o peso do segmento ganha outra dimensão. No Brasil, os bens e serviços ligados à saúde representam cerca de 9,6% do Produto Interno Bruto (PIB) segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ainda que não exista um recorte consolidado específico para o Estado, a estrutura gaúcha — com rede hospitalar ampla, presença da iniciativa privada, investimento público contínuo e um ambiente ativo de inovação — indica uma participação relevante dentro desse conjunto.
Mais do que o volume investido, o ponto está na sustentação. A saúde cresce, incorpora tecnologia e novos serviços, mas carrega um desafio constante: financiar esse avanço sem comprometer o próprio funcionamento. No fim, não é apenas uma questão de expansão. É uma conta que precisa fechar todos os dias.
*Carmen Carlet é jornalista formada pela Famecos, Pucrs. Atuou como colunista, repórter e correspondente de veículos especializados em propaganda e marketing. Atualmente, trabalha com assessoria de comunicação, produção de conteúdo e conexões criativas.








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