Brasil pode ser líder na área ambiental, projeta Carlos Nobre
Marcus Meneghetti
Uma das referências mundiais na pesquisa das mudanças climáticas, o cientista Carlos Nobre acredita que o Brasil tem condições de ser um líder global na redução das emissões de gases do efeito estufa e na transição energética dos combustíveis fósseis para as energias renováveis.
“Se o País zerar o desmatamento – principalmente na Amazônia e no Cerrado –, isso deve diminuir até 45% das emissões do País”, projeta. Além disso, as fontes de energia limpa são abundantes no território brasileiro, com destaque à geração eólica e fotovoltaica. Segundo Nobre, o Brasil produz 70% dos materiais utilizados na energia eólica, mas importa praticamente todos os painéis fotovoltaicos para a energia solar. A solução seriam acordos comerciais com a China para trazer as fábricas ao Brasil, assim como o dragão asiático fez com a maior fábrica de carros elétricos, a BYD – que instalou uma planta na Bahia. Ele também comentou que a redução de emissões de gases poluentes na atmosfera deve aumentar de dois a quatro anos a expectativa de vida da população urbana no mundo. Além disso, pode evitar a morte de cerca de sete milhões de pessoas por ano no planeta.
Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, Nobre também avaliou que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao voltar a investir em combustíveis fósseis, deve gerar retrocessos no processo de transição energética em nível global. O cientista brasileiro também revelou que ficou decepcionado com a China na COP30 de Belém, porque os chineses apresentaram uma meta de apenas 10% de redução das emissões de gases do efeito estufa até 2035. Também comentou a nomeação para ser conselheiro do Papa Leão XIV em assuntos ambientais.
Jornal do Comércio - O senhor esteve na COP 30 realizada em Belém, que foi um momento importante para o Brasil e o mundo no quesito ambiental. Qual a sua avaliação?
Carlos Nobre - Houve alguns aspectos bem positivos. Simbolicamente, foi a primeira vez que a COP reconheceu e valorizou os povos quilombolas. Isso foi colocado na declaração final. Essa COP também avançou bastante na questão de adaptação, criando um setor no conselho (Conselho Científico sobre o Clima) para monitorar todas as necessidades de adaptação de todo mundo. Além disso, todos os países concordaram não só em formar um fundo para acelerar a adaptação (às mudanças climáticas), mas também concordaram que esse fundo tem que ser de, pelo menos, US$ 300 bilhões por ano. O problema é que, até agora, as doações foram pequenas.
JC – Apesar dos avanços, alguns ativistas ficaram frustrados com o resultado. A COP deixou a desejar em algum aspecto?
Nobre - Onde a COP30 não avançou? O Brasil levou duas coisas muito importantes ao evento, os chamados “mapas do caminho”. Um deles previa zerar o desmatamento de todos os biomas do mundo, principalmente das florestas tropicais, até 2030. Ao mesmo tempo, acelerar a regeneração dos biomas degradados. Como a COP precisa de consenso, essa medida não passou...
JC – E qual foi o segundo ponto sem encaminhamento?
Nobre – O mais preocupante foi que não houve consenso para a redução do uso de combustíveis fósseis. A meta era zerar rapidamente o uso de combustíveis fósseis, visto que representam 75% das emissões dos gases de efeito estufa. Só que, até 2025, houve aumento no uso dessa matriz energética. Então, a COP30 não teve avanços em pontos importantes, ainda que o embaixador André Corrêa do Lago tenha deixado muito claro que isso seria muito importante para avançar nos mapas do caminho.
JC - Uma das primeiras coisas que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fez, ao assumir a Casa Branca, foi revogar o pacote de transição energética aprovado durante a gestão do ex-presidente Joe Biden. Além de cortar os investimentos em energia limpa, o governo Trump tem investido nos combustíveis fósseis, com diversos projetos de extração de petróleo no Alasca e outros lugares. Na medida que a maior economia global volta a investir em combustível fóssil, isso gera um retrocesso no resto do mundo?
Nobre - É um retrocesso enorme, porque, historicamente, os Estados Unidos foram o país que mais emitiu gás de efeito estufa. De 1850 até o presente, 25% das emissões de gás de efeito estufa foram emitidas de lá. Na época do presidente Biden, e antes até, durante a gestão do presidente Barack Obama, os Estados Unidos tinham a meta de reduzir alguns pontos percentuais das emissões anuais. Isso aconteceria, principalmente, através da diminuição do uso de combustíveis fósseis. O presidente Obama, mas principalmente o presidente Biden, criou mecanismos para acelerar a transição energética. Eles criaram um fundo público de US$ 4 bilhões ou US$ 5 bilhões para acelerar a transição energética.
JC – Isso foi revogado pelo presidente Trump...
Nobre - No seu primeiro mandato (2017-2021), esse novo presidente já tinha sido negacionista, já tinha saído do Acordo de Paris. Agora ele fez de novo. E as emissões aumentaram 2,5% nos Estados Unidos em 2025 em relação a 2024. Em um discurso no Fórum Econômico Mundial na cidade de Davos, ele falou com todo orgulho que tinha aumentado o consumo de petróleo em 830 mil barris por dia nos Estados Unidos. E também falou dos planos de aumentar a produção de gás natural, a reativação de minas de carvão que estavam paradas há muito tempo. Isso é um enorme risco, porque, se os Estados Unidos não acelerarem a redução (das emissões de gases do efeito estufa), será muito difícil zerar as emissões no prazo necessário. Além disso, também tem o risco de outros países desacelerarem a transição por causa disso. Então, é um retrocesso gigantesco.
JC – Apesar disso, a União Europeia continua com o plano de transição energética para fontes renováveis. A China também tem investido bastante nisso. A posição dos Estados Unidos ela vai atrasar a transição energética ou pode cancelar esse plano?
Nobre - É difícil prever. Mas sabe uma coisa que eu não esperava na COP30? Foi a posição da China...
JC – Eles decepcionaram ou surpreenderam positivamente?
Nobre – Veja, por coincidência, eu passei oito dias em setembro (de 2025) na China. Fui dar seis palestras lá. Em todas as palestras, eu falava: “Olha, os Estados Unidos está fora do Acordo de Paris e não vai estar na COP30. Desde 2000, vocês passaram os Estados Unidos nas emissões (de gases do efeito estufa). Mas vocês também são o país que mais tem energia renovável, solar, eólica. Tem mais de 800 mil ônibus elétricos, 140 milhões de motocicletas elétricas. É o país que mais exporta material (para fontes de energia limpa). Ainda assim, vocês são o país que mais emite, 23% a 24% das emissões hoje.” Aí eu sugeri: “Cheguem na COP30 e liderem tudo. Vocês serão um grande líder.”
JC – E como a sugestão foi recebida?
Nobre - Todo mundo concordou. Aí o que que aconteceu na COP30 foi um enorme desapontamento. Todos os países tinham que colocar suas metas voluntárias para redução das emissões. E tinham que colocar, no mínimo, 50% de redução das emissões até 2035 em relação às emissões de 2019. A União Europeia colocou metas até mais ambiciosas: reduzir 67%. O Brasil colocou a sua em 50%. Mas a China definiu que ela vai reduzir apenas 10% das emissões até 2035. Isso dá uma média de 1% ao ano. E outros países também fizeram isso.
JC - O Brasil sempre teve um papel de liderança nas questões ambientais. Se perdeu um pouco desse protagonismo durante o governo Jair Bolsonaro (PL), porque diversos membros da administração negavam as mudanças climáticas publicamente. Como o senhor enxerga o papel do Brasil hoje no cenário global?
Nobre - O Brasil tem toda a condição de liderar globalmente a busca por soluções na questão das emissões de gases do efeito estufa. O Brasil tem sido, na média, o sexto maior emissor. No Brasil - diferente da China, Europa e Estados Unidos - 70% das emissões são oriundas dos usos da terra. Entre 40% e 45 vêm do desmatamento, principalmente da Amazônia e do Cerrado. Algo entre 22% e 23%, são emitidos pela agropecuária, principalmente a pecuária. E de 20% a 23%, são emissões dos combustíveis fósseis. Então, é muito importante zerar o desmatamento no Brasil.
JC - Com isso, a gente já reduziria quase metade das emissões de gases do efeito estufa no Brasil...
Nobre - Em 2025, o País teve uma grande redução do desmatamento, quando todos os biomas registraram queda no desmatamento, principalmente os dois mais atingidos: o amazônico e o Cerrado. Além disso, o Brasil tem a meta de zerar o desmatamento até 2030. Então, até 2030, a gente já reduziria até 45% das emissões.
JC - Mas, ao lado disso, o Brasil precisaria tomar outras medidas para zerar as emissões...
Nobre - Lógico, o país também precisa acelerar a transição energética. O Brasil tem toda a condição para isso, porque é um país tropical, tem muito sol. O Nordeste tem uma gigantesca quantidade de energia eólica, do vento. Tem várias formas de energia renovável que vem dos oceanos também. O Brasil tem um enorme potencial para acelerar muito rapidamente a transição energética. Inclusive, lançamos na Academia Brasileira de Ciência, depois relançamos na COP 30, um estudo que mostra como o Brasil pode zerar as emissões de gases do efeito estufa até 2040. Podemos ser um grande líder mundial nesse setor.
JC – Como é a indústria brasileira dos insumos para a transição energética? O País produz, por exemplo, os painéis fotovoltaicos e outras tecnologias para as energias limpas?
Nobre – Todos os painéis fotovoltaicos são importados da China, que é o maior produtor. A China, nos últimos anos, fez o custo do painel solar cair bastante. Um país desenvolvido é um país industrializado. Acredito que o Brasil tem que buscar fazer negociações com a China. Por exemplo, tem um bom exemplo dos carros elétricos dessa empresa chinesa BYD, que é a maior produtora de carros elétricos. Inclusive, ela tem um acordo com o Brasil para produzir os veículos na Bahia, onde a planta já está montando um grande número de carros elétricos em território brasileiro. Julgo que o Brasil deve buscar esse tipo de parcerias e trazer para cá as empresas de painéis solares.
JC – Essa indústria de materiais para as fontes de energia renováveis pode garantir viabilidade econômica para a transição energética?
Nobre - Hoje, o custo da energia renovável eólica e solar caiu tanto que, aqui no Brasil, elas custam um terço e um quarto da geração em termelétricas e gás natural (respectivamente). Isso traz uma enorme economia ao País, porque a energia é importante em todos os setores. Então, isso melhora demais a economia do País. Isso é importantíssimo. Mas tem uma coisa que me chama atenção, que é o impacto na saúde...
JC – Muitas pessoas não percebem isso claramente...
Nobre – As pessoas não prestam atenção nisso. Veja, a maior fonte de emissões globais no mundo vem da queima de combustíveis fósseis. Petróleo, carvão, diesel e outros geram micropartículas, sulfatos (na atmosfera). Essa é a maior fonte de poluição urbana do mundo. E a poluição urbana leva à morte sete milhões de pessoas por ano. Além disso, reduz de dois a quatro anos a expectativa de vida das populações das cidades. Então, além de combater a emergência climática, hoje as energias renováveis salvam milhões de vidas ao melhorar a qualidade do ar. E são economicamente mais baratas.
JC – O senhor foi nomeado como um dos conselheiros do Papa Leão XIV para assuntos ambientais. Como recebeu a notícia?
Nobre - Foi uma surpresa No dia 30 de março, o setor de comunicações (da Igreja Católica) entrou em contato comigo pelo WhatsApp, para avisar que o Papa tinha criado esse novo conselho para discutir o desenvolvimento humano. Constavam 11 nomes e o meu nome estava lá. Sou o único cientista ambiental da Amazônia. Alguém me falou que o Vaticano me escolheu, porque, em 2019, eu fui pro Sínodo da Amazônia, que foi um belíssimo projeto do Papa Francisco. Estive lá durante três dias maravilhosos, participando de uma discussão muito boa. Em 2018, o Papa Francisco esteve na Amazônia e no Peru, onde se reuniu com um gigantesco número de líderes, povos indígenas. Na ocasião, levei ao Papa Francisco a urgência de salvar a Amazônia. Agora vou levar ao Papa Leão os temas relacionados à Amazônia e aos biomas brasileiros e, claro, o combate à emergência climática.
Perfil
Carlos Afonso Nobre nasceu na cidade de São Paulo em 27 de março de 1951. Graduou-se em Engenharia Eletrônica pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica em 1974. No seguinte, mudou-se para Manaus para trabalhar no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Fez o doutorado em Meteorologia no Massachusetts Institute of Technology, onde permaneceu até concluir os estudos em 1982. Foi pesquisador visitante na Universidade de Maryland em 1988, tornando-se um dos pioneiros na análise dos impactos do desmatamento no clima. Coordenou diversos projetos científicos na Amazônia, como o Experimento Anglo-Brasileiro de Observações do Clima Amazônico de 1990 a 1996, e o Experimento de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia de 1993 a 2000. É membro do conselho científico da Secretaria-Geral da ONU, da Academia Brasileira de Ciência e da Academia de Ciências dos Países em Desenvolvimento. Foi eleito membro da Royal Society britânica em maio de 2022. Em 2026, foi nomeado pelo Papa Leão XIV membro do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral.

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