segunda-feira, 6 de abril de 2026

Estudo da CNI estima alta média de 6,2% nos preços com redução da jornada de trabalho para 40 horas

Indústria aparece como o segmento mais sensível à mudança

Indústria aparece como o segmento mais sensível à mudança

Bruno Peres/Agência Brasil/JC

Gabriel Margonar
Gabriel MargonarA possibilidade de reduzir a jornada semanal de trabalho de 44 para 40 horas, tema que ocupa o centro do debate político em Brasília, pode pesar diretamente no bolso do consumidor. Pelo menos é isso o que aponta uma nota técnica divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), segundo a qual os preços ao consumidor tenderiam a subir, em média, 6,2% caso a mudança fosse aprovada com manutenção dos salários atuais. 
O estudo foi apresentado no momento em que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva sinaliza avançar com um projeto de lei com urgência constitucional sobre o fim da escala 6x1 e a redução da jornada para 40 horas semanais. Pela avaliação do Planalto, a tramitação por meio de projeto de lei pode acelerar a discussão em relação à PEC que hoje concentra o debate no Congresso.
Na simulação da CNI, os impactos se espalhariam por diferentes segmentos da economia. As compras em supermercados poderiam ficar 5,7% mais caras; os preços de roupas e calçados, 6,6% maiores; serviços pessoais e domiciliares, como manicure, cabeleireiro e pintura residencial, teriam alta em torno de 6,5%; e a conta de internet poderia subir até 7,2%. 
Segundo Marcelo Azevedo, gerente de Análise Econômica da entidade, a estimativa leva em conta não apenas o aumento direto do custo do trabalho, mas também os efeitos indiretos ao longo da cadeia produtiva.
“Estimamos qual seria a perda de horas trabalhadas por setor com a medida. A partir daí, usamos um modelo econômico com diversas equações que mostram como os setores se relacionam. Aplicamos um choque para simular quanto cada setor precisaria gastar para repor as horas perdidas”, explica. “No fim, esse encadeamento leva a um aumento médio de preços de cerca de 6,2% para o consumidor”.
indústria aparece como o segmento mais sensível à mudança. Conforme a nota técnica, sem medidas de compensação, a queda nas horas trabalhadas seria de 4,34% no setor industrial, acima do comércio (-4,03%), dos serviços (-2,44%), da construção (-2,04%) e da agropecuária (-1,70%). 
Na leitura da entidade, isso ocorre porque a indústria reúne maior presença de emprego formal e tem forte encadeamento com outros ramos da economia, o que amplia o repasse de custos. “Quando um setor aumenta seus custos, isso afeta os preços dos insumos e serviços que ele compra de outros setores, que também terão ajustado seus próprios custos”, defende Azevedo.
A nota técnica informa que o exercício considera um cenário em que a redução das horas seja compensada apenas parcialmente por novas contratações. O modelo parte da premissa de que a produtividade por hora permanece constante e projeta os efeitos após um período de adaptação das empresas, e não de forma imediata. 
Esse ponto é ressaltado pela própria CNI. O percentual de 6,2%, segundo a entidade, representa um novo equilíbrio da economia depois que as empresas definirem como reorganizar turnos, contratar trabalhadores, recompor insumos e reajustar preços. Em outras palavras, trata-se de uma simulação de impacto consolidado, não de um reajuste automático de curto prazo.

Fiergs lança cartilha para 'traduzir' debate para empresas e trabalhadores

No Rio Grande do Sul, o Sistema Fiergs publicou, quarta-feira (1º), uma cartilha elaborada pelo Conselho de Relações do Trabalho (Contrab), apresentada como material de esclarecimento sobre os projetos que tratam da jornada e da escala de trabalho. O documento sustenta que a legislação atual já permite reduzir jornada por negociação coletiva, diferencia os conceitos de jornada e escala e alerta para risco de aumento abrupto do custo da mão de obra caso a carga semanal caia sem redução salarial. 
A cartilha afirma que, se uma empresa mantiver 100% do salário para uma jornada reduzida de 44 para 36 horas, o custo da mão de obra pode subir entre 12% e 15% “da noite para o dia”. O material também lista possíveis consequências como alta de preços, redução de contratações, corte de investimentos, avanço da automação e crescimento da informalidade. 
Coordenador do Contrab do Sistema Fiergs, Guilherme Scozziero argumenta que a iniciativa surgiu para tornar mais acessível um debate que, segundo ele, costuma ser simplificado em excesso. “O objetivo da cartilha é justamente traduzir esse debate para uma linguagem mais acessível, explicando o que está sendo discutido, o que está em jogo e, principalmente, quais podem ser as consequências”, afirmou.
Na avaliação dele, mudanças dessa natureza não deveriam ser impostas de forma uniforme por alteração constitucional. “Defendemos que qualquer redução de jornada seja feita por meio de negociação coletiva. Não existe um modelo único que atenda todos os setores e segmentos da economia”, finaliza.

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