sexta-feira, 20 de setembro de 2019



20 DE SETEMBRO DE 2019
DAVID COIMBRA

"Amor, tem uma galinha em cima de uma árvore"

Olímpia é um bom nome de galinha. Nem terminei de fincar o ponto no fim dessa frase e já entendi que preciso explicá-la melhor. É o seguinte: desculpem-me as Olímpias pessoas, não quero ofendê-las, inclusive acho Olímpia um nome simpático, que remete à bela mitologia grega e tudo mais. Porém, e isso não é demérito, acho que combina com uma galinha. A ave, digo.

Estou me referindo a uma Olímpia específica, uma galinha que ganhou esse nome de seus donos humanos e que, hoje, mora feliz em um apartamento da zona norte de Porto Alegre. Quem me contou a história de Olímpia foi um leitor que pediu para não ser identificado, porque ele não sabe se os vizinhos de prédio aceitarão que uma galinha viva entre eles.

Ocorreu que, na quarta-feira, dia em que Porto Alegre só falava no jogo do Inter com o Athletico, meu leitor recebeu um WhatsApp da sua noiva precisamente às 9h19min da manhã, informando o seguinte:

"Amor, tem uma galinha em cima de uma árvore".

O leitor ficou pasmado. Porque, afinal, galinhas não habitam árvores, como os macacos e os esquilos, e nem voam, como os passarinhos e os aviões. De que forma aquela galinha teria subido na árvore? A noiva do leitor tinha uma suspeita: é que ali perto havia um despacho, com pipoca, vela, cachaça e? uma galinha (outra) morta. A galinha falecida, cogitou a noiva, devia ser parenta da sobrevivente, que, para fugir da execução, in extremis, reuniu forças extraordinárias e conseguiu voar até um galho alto da árvore.

Feita essa ponderação, a noiva decidiu, com muita sensatez, que deveria tirar a galinha de lá de cima. Mas como? Ligou para os bombeiros, que, atarefados com assuntos mais prementes, não compareceram. A noiva permaneceu ao pé da árvore, vigiando a galinha que, em meio ao folharedo, espiava para baixo com o olhar aflito, como se implorasse:

- Me tira daqui!

A noiva teve uma ideia. Sacou do celular e postou foto da galinha arbórea em um grupo do Facebook de defensores de animais, pedindo socorro para resgatá-la. O resultado foi que alguns internautas a acusaram de intolerância religiosa, outros concluíram que a galinha tinha sido salva pelo próprio Cristo, o que significaria que ela era uma ave sagrada, e muitos se puseram a imaginar como a galinha tinha parado naquelas alturas, mas ninguém deu solução para o caso. Terminou que o moderador do grupo considerou a postagem inapropriada e a apagou.

E agora?

Quando tudo parecia perdido, apareceu um funcionário da companhia de energia elétrica com uma escada. A noiva pediu, daquele jeito com que noivas sabem pedir:

- Moço, o senhor pode tirar aquela galinha de cima da árvore?

O moço a atendeu, ela finalmente botou a galinha debaixo do braço, chamou um Uber e voltou para casa, onde encontrou o noivo, meu leitor. Nesse momento de feliz reunião, os dois, noivo e noiva, resolveram ficar com a galinha e colocaram nela o apropriado nome de Olímpia. O casal, pelo que sei, está satisfeito com seu novo bichinho de estimação, que pode não ser tão companheiro como um cachorro, mas pelo menos bota ovos. Já eu fiquei satisfeito com o desfecho da história, tanto que quis partilhá-la com os leitores. Espero que, se Olímpia for descoberta pela vizinhança, que sejam tolerantes com ela e deixem-na morar no edifício. Ela merece. Ela é uma sobrevivente.

DAVID COIMBRA

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