sábado, 28 de setembro de 2019


28 DE SETEMBRO DE 2019
FRANCISCO MARSHALL

A CIDADE IDEAL

No século XV, apogeu do Renascimento italiano, teóricos e pintores imaginaram como seria a nova cidade, animada pela ciência greco-romana, então reconquistada com entusiasmo. Sobreviveram daquele movimento três quadros, de autoria disputada, hoje exibidos em Baltimore (EUA), Berlim (Alemanha) e Urbino (Itália). Cognominados La Città Ideale, apresentam a imagem do centro de cidades racionais, clássicas, bem iluminadas e ventiladas, com pavimentos geométricos, ampla área pública, prédios belos simetricamente dispostos e eixos do espaço, que conferem perspectiva e ordem à urbe idealizada. 

Nas imagens, há pouca circulação humana, mas vê-se ambiente que convida a uma vida urbana sofisticada. No núcleo cultural desta imaginação da cidade temos o icônico Homem Vitruviano, desenho de Leonardo da Vinci (1452-1519) que representa o sistema de proporções e medidas que une o corpo humano ao espaço edificado, a partir do umbigo que é também centro da habitação, dos templos, da cidade e do cosmos.

É na nave cidade que nos movemos neste ciclo cultural em que estamos há 5 mil anos. No ciclo anterior, período Neolítico, houve cidades na Anatólia (interior da Turquia), como Çatal Hüyük e Göbekli Tepe, que colapsaram após cinco milênios, por razões que são hoje investigadas também com interesse em nosso mundo, gravemente ameaçado. A partir de c. 3100 a.C., as cidades mesopotâmicas evoluíram entre muralhas, com plano geométrico e hidráulico, e se tornaram a matriz do urbanismo antigo. 

Em Creta, no segundo milênio a.C., houve palácios como Knossos, com vários pavimentos, sistemas de água potável e servida e corredores, como se fossem condomínios compactos. Foi com o grego Hipódamos de Mileto (498-408 a.C.) que o urbanismo tornou-se teoria moderna, para planejarem-se cidades saudáveis, aeradas e ensolaradas, com quarteirões proporcionais, origem do plano urbano que hoje predomina. O arquiteto latino Vitrúvio (morto em 15 a.C.) herdou aquela teoria e acrescentou-lhe elementos romanos, descritos na obra De Architectura, relida na renascença. Desde então, desenvolvem-se várias ciências para dar forma a um produto máximo do espírito humano, a cidade.

Entregar o destino da cidade ao acaso, a demagogos ambiciosos ou à voracidade sem limites de especuladores imobiliários é o mesmo que entregar uma orquestra sinfônica para que um símio a reja, com a ressalva de que um macaco pode fazer mais regendo do que um despreparado governando. 

É preciso que se aplique em grau contemporâneo e com unidade o conjunto de ciências da cidade, do fundamento arquitetônico à vida democrática, dos serviços públicos de educação, cultura e saúde à circulação viária, da infraestrutura ao planejamento de longo prazo. É arte complexa, política, e sua finalidade é promover o espaço público, hoje degradado por gestores incapazes.

Nós, brasileiros, estamos nos acostumando a sofrer sob o jugo de governantes péssimos, como se fosse destino imperativo. Talvez seja a hora de começarmos a imaginar com cultura o que é a cidade ideal, antídoto aos males do Estado, jardim em que realizamos nossas travessias.

FRANCISCO MARSHALL

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