sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021


26 DE FEVEREIRO DE 2021
+ ECONOMIA

"Cuidado com o buraco", diz demitido

Foi com uma camiseta com a inscrição "Mind the gap" (alerta do metrô de Londres sobre o espaço entre a plataforma e o trem, "cuidado com o buraco" em tradução informal) que o presidente demitido da Petrobras, Roberto Castello Branco, fez ontem a apresentação do resultado da estatal em 2020. "Gap" é uma expressão usada para se referir à diferenças entre preços.

- Fugir da regra de paridade internacional foi desastroso, a Petrobras perdeu US$ 40 bilhões (R$ 218 bilhões). Nos últimos dois anos, reduzimos a dívida em quase US$ 36 bilhões, mas a empresa ainda é muito endividada, são US$ 75,5 bilhões, a maior parte em dólares. Como vai conciliar as obrigações em dólares com receita em reais? É surpreendente, em pleno século 21, dedicarmos tanta atenção a isso - afirmou, sem fugir do tema já no início da teleconferência, sem esperar perguntas.

No mercado, havia expecta­tiva de bons resultados, mas o lucro de R$ 59 bilhões entre outubro e dezembro de 2020 surpreendeu: foi o maior em um trimestre na história corporativa do Brasil. Um resultado desse tamanho não veio apenas da operação usual, mas da reestimativa de perdas bilionárias.

Foram R$ 31 bilhões de revisão de queda em valor de ativos e investimentos (chamados "impairments" por contenção de repasses aos combustíveis e corrupção exposta pela Lava-Jato) e R$ 13,1 bilhões em revisão de despesas com o plano de assistência médica.

Mesmo sendo excepcional, o lucro do último trimestre ainda é menor do que a perda de valor de mercado provocada pela intervenção de Bolsonaro, que ontem se aprofundou para R$ 87 bilhões. Também fez questão de destacar seus maiores objetivos: reduzir a pesada dívida da estatal e voltar a distribuir dividendos (parcela do lucro dividida entre os acionistas). Como a União detém a maior fatia na estatal, será o maior beneficiado. Serão pagos R$ 10,3 bilhões em 29 de abril.

Na teleconferência em que apresentou o lucro histórico da Petrobras, o presidente da estatal, Roberto Castello Branco, afirmou que a gasolina no Brasil não é cara. Parece um despropósito, mas a coluna aceitou a sugestão e foi verificar a comparação internacional do site globalpetrolprices.com (gráfico).

Pelo levantamento, o preço médio em 150 países no dia 22 era US$ 1,09 por litro. No Brasil, a média fica em US$ 0,884 (R$ 5,25 pelo câmbio atual). Com esse critério, o Brasil é o 55º colocado na lista de 150 que vai dos mais baixos aos mais altos. Está no começo do grupo intermediário.

O próprio site observa que existem "diferenças substanciais" nos valores que, como regra geral, costumam ser elevados em países ricos e reduzidos nos pobres e nos que produzem e exportam petróleo - caso do Brasil. Aponta que os Estados Unidos são uma "notável exceção", que é rico mas tem baixos preços, especialmente no gás de xisto. Também observa que diferenças tão grandes são decorrentes de impostos ou subsídios.

O site é comandado por Neven Valev, professor da Georgia State University, e costuma ser referência para publicações como The Wall Street Journal, Bloomblerg e Reuters, e até para o Fundo Monetário Internacional (FMI).

No ranking, o preço mais baixo é o da Venezuela, o que dispensa comentários. Os quatro seguintes são grandes produtores de petróleo e, embora não possam ser considerados "países pobres", têm população com renda muito baixa. No topo da lista, há quatro países ricos e um pobre (República Centro Africana). E três produtores de petróleo: a nossa já conhecida Dinamarca, que apesar do mecanismo para amortecer reajuste, cobra o dobro da média do Brasil, Noruega e Holanda.

3,53%

foi a queda das ações da Petrobras ontem, depois de abertura positiva. A composição do lucro e a incerteza sobre o futuro da estatal azedaram o clima.

MARTA SFREDO


26 DE FEVEREIRO DE 2021
INFORME ESPECIAL

Não é hora de ser simpático, mas de salvar vidas

Prevaleceu o bom senso. O governador Eduardo Leite tomou para si a responsabilidade pelas decisões graves que precisam ser tomadas para evitar que o caos e a dor se instalem de vez nos lares e nos hospitais gaúchos.

A elogiável mudança de rumos ocorreu depois de Leite ceder às pressões de um Frankstein chamado "cogestão" e de divulgar um apelo furado aos prefeitos. Leite pediu a eles que fossem rígidos na fiscalização das medidas de prevenção à covid-19. Não iria funcionar. Se em Porto Alegre Sebastião Melo dá nó em pingo d?água para equilibrar os pratos da sua base de apoio, imagine em uma cidade menor, onde o dono do mercado joga bocha com o prefeito, que é padrinho do filho do caixa desse mesmo mercado, amigo do pai da professora e vizinho do delegado.

É justamente por isso que as medidas mais duras têm que ser tomadas - e cobradas - em níveis elevados da administração pública. Também é esse o sentido dessa estrutura gigantesca, financiada por nossos impostos: dividir o poder e as responsabilidades em camadas, com atribuições diferentes e complementares. O perfil conciliador de Eduardo Leite traz mais vantagens do que prejuízos ao Estado. Mas existe a hora de bater na mesa e assumir na plenitude o ônus de ser governador. Foi o que ele fez ontem, depois de patinar por alguns dias.

Agora é esperar que Eduardo Leite exerça na plenitude o poder a ele conferido pelo voto. Não é hora de ser simpático. É hora de salvar vidas.

Síntese perfeita

A frase é monumental: "A estabilidade atrapalha Brasília". O autor é Renê Ferreira, presidente da Associação dos Dirigentes Cristãos de Empresas. A ideia expressa com exatidão a lógica que move o tabuleiro do poder no Brasil. Foi dita durante uma conversa informal. Depois, pedi ao Renê autorização para publicá-la.

É bem assim que funciona. As crises, os sustos e as urgências abrem brechas para negociar sob pressão. E, nesse contexto, as margens são mais elásticas e os protagonistas se banham com as luzes dos holofotes, invariavelmente divididos em mocinhos e vilões. Mas, de fato, os sobressaltos que estimulam os intestinos do poder no Planalto Central impedem que o cérebro e o coração conversem, decretando a falência do bom senso. Inventar problemas para vender soluções. Assim funciona o mundo dos espertos.

TULIO MILMAN

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021


Sem Tirar o Pé do Estribo

 

Una vecchia canzone italiana-Cara Italia - Orchestra Italiana Bagutti

   

 mari e monti - daniele - orchestra italiana bagutti

 

Laura Pausini - Eu Sim (Io Sì) (Official Visual Art Video)

25 DE FEVEREIRO DE 2021
DAVID COIMBRA

O lado bom da velhice

Nós chamamos o Fernando Gabeira de "senhor". Ele ficou meio incomodado. Nós, que digo, somos eu, a Kelly e o Potter, no Timeline, da Gaúcha. O curioso é que o entrevistávamos a propósito dos 80 anos que completou dias atrás. Ou seja: um octogenário não gostou de ser chamado de senhor. Ele não se irritou, não foi nada grave, apenas reclamou com jeito: "É por isso que vocês estão me chamando de senhor?"

Entendo a queixa do Gabeira. Eu mesmo, admito, sinto certa dificuldade em pensar nele como um "senhor", porque o Gabeira foi uma espécie de símbolo da juventude nos anos 70 e 80. Foi o nosso Dany Le Rouge. Menos rebelde do que Dany Le Rouge, é claro, mas igualmente libertário. Não por acaso, ambos entraram no Partido Verde, bem como outro guerrilheiro urbano da época, Alfredo Sirkis.

Esses dois, Gabeira e Sirkis, escreveram clássicos sobre a guerrilha. Se você não leu, corra agora atrás de O Que É Isso, Companheiro? e Os Carbonários. São livros de um trecho da história do Brasil que se lê com a fluidez de um romance.

Isso, de ser chamado de senhor, não faz muito aconteceu comigo. Eu dava uma palestra virtual para uma faculdade de Jornalismo de Criciúma, e uma aluna começou uma pergunta assim: "O senhor acha que..."

Não prestei mais atenção ao que ela falava. Senhor. Senhor! Ela me chamou de senhor! Olhei bem para a aluna. O frescor da juventude rebrilhava na lisura da sua pele, na rigidez dos seus músculos, na inocência do seu olhar. Uma menina questionando um velho que ingressava já na reta final da sua trajetória. Oh, Deus!

Senhor. Compreendo que, em determinadas circunstâncias, é preciso haver formalidade. Nos Estados Unidos, nenhuma professora é chamada de "tia" ou de "profe". É senhora, é senhor. Acostumado com isso, meu filho, quando foi ter aula aqui, no Brasil, ia chamar os professores de "senhor", mas viu que ninguém fazia assim e desistiu, embora se sentisse um pouco desconfortável com a intimidade, no início. Dany Le Rouge, inclusive, causou escândalo ao tratar os professores por "tu" e não pelo convencional "vous".

Tempos atrás, o ministro Marco Aurélio, do STF, repreendeu uma advogada que se dirigia aos juízes usando "vocês". Tinha de ser Vossas Excelências, conforme recomenda a liturgia.

Tudo bem, "senhor" é sinal de respeito. Até de alguma reverência. Mas também de antiguidade. Era no que pensava, quando se encerrou a palestra com os estudantes de Criciúma. "Sou um senhor", murmurei para mim mesmo, erguendo-me penosamente da cadeira em que estava sentado. "Sou um macróbio".

Arrastei-me para o primeiro espelho que havia na casa e me pus diante dele. Encarei-me com espírito crítico. Compreendi que a moça de Criciúma tem razão: tornei-me um senhor. Quando, exatamente, aconteceu isso, meu Deus? O que devo fazer?

Preciso me adaptar à realidade. É a atitude mais saudável, mais correta e mais honesta. Aceitação, esse é o segredo. Aceitação. Só assim para encontrar também o lado bom da situação, que tudo tem um lado bom.

Qual será a parte boa da vetustez? Fiquei me imaginando nessa nova (na verdade, velha) fase: eu de suspensórios, cachimbo e boina. Pois foi aí, precisamente aí, que vi o que há de positivo na velhice: o cardigã. Senhores usam cardigã. E eu sempre quis usar cardigã, mas tinha vergonha. Agora usarei sem medo ou pejo. Vestirei meu cardigã quentinho e aconchegante, sairei a passos lentos por aí e ouvirei dos jovens: "Lá vai um respeitável senhor dentro do seu belo cardigã".

DAVID COIMBRA

25 DE FEVEREIRO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

ESTADO ACERTA AO NEGOCIAR VACINAS

O governo federal deu, nos últimos meses, provas suficientes de desdém e incompetência para negociar a compra das vacinas contra a covid-19 de que o Brasil precisa. Como persiste a lentidão nas tratativas com outros laboratórios, é inevitável que os demais entes federados partam para a aquisição direta, sem passar por Brasília. Essa possibilidade foi autorizada na terça-feira pelo Supremo Tribunal Federal (STF). No Estado, a Assembleia agiu no mesmo sentido e aprovou a permissão para o Piratini remanejar o orçamento de 2021 para a compra de imunizantes. O projeto de lei foi sancionado ainda ontem pelo governador Eduardo Leite, que mantém conversas com fornecedores.

Não se deve criar ilusões de que o governo gaúcho terá condições de conseguir doses suficientes para vacinar todos os gaúchos elegíveis. Tampouco será algo imediato. As aquisições tendem a ser complementares às já feitas pela União e com entrega prevista para os próximos meses. Mas, ao observar o histórico recente de inabilidade do Ministério da Saúde, fica nítido que o Estado não pode ficar de braços cruzados e precisa pensar em alternativas. Eduardo Leite informou ontem que, além da União Química, responsável no Brasil pela Sputnik V, negocia com a Pfizer, a única com um produto com registro definitivo no país - e desprezada no ano passado pelo governo federal, por rejeitar termos aceitos pela maioria absoluta das nações com que a empresa tratou. Enquanto isso, o Planalto mostra a intenção de comprar a Sputnik V e a indiana Covaxin e começar a recebê-las já a partir de março, mas ambas sequer têm análise de uso emergencial iniciado na Anvisa.

O entendimento do STF é de que governadores e prefeitos possam ir às compras se o Ministério da Saúde falhar ou se omitir para cumprir o Plano Nacional de Imunizações (PNI) ou caso o planejamento não se mostre suficiente para necessidades locais. Diante da profusão de falhas constatadas até agora e da marcha lenta da vacinação no país, com diversas cidades tendo de paralisar a campanha em um momento crítico da pandemia, não é hipótese a ser desprezada. Pelo contrário. Apenas com a vacinação massiva será possível debelar a pandemia, como indicam os países mais adiantados no processo.

A negociação direta é uma medida previdente e deve ser apoiada, mas neste momento há uma árdua batalha em curso para deter a rápida proliferação do vírus no Estado. A estrutura de saúde de vários municípios está perigosamente perto do colapso, se é que essa não é a situação atual de cidades como Porto Alegre. Especialistas alertam que o quadro tende a piorar nas próximas semanas. O efeito das aglomerações e festas clandestinas do Carnaval, por exemplo, ainda não começou a aparecer. Médicos na linha de frente observam que parece existir uma mudança no comportamento do vírus, com maior proporção de pacientes de faixas etárias mais baixas e agravamento rápido do quadro clínico. À população resta reiterar os apelos para manter o distanciamento social, o uso de máscara e a higiene das mãos. Gestores, como prefeitos recém eleitos, precisam refletir sobre quais medidas poderão ser necessárias para frear os contágios. A realidade é dura e exige ações apropriadas, mesmo que se sobreponham a promessas de campanha. Fechar os olhos para a seriedade da situação pode ter um preço muito alto.

 


25 DE FEVEREIRO DE 2021
L.F.VERISSIMO

Olés

O compositor e crítico de música Virgil Thomson (americano, 1896-1989) se divertia com o fato de que, na Espanha, as crianças brincavam de tourada sempre em três: um fazendo o papel do touro, outro o do toureiro e um terceiro gritando "Olé!". Os papéis podiam ser trocados, claro, mas as funções não mudavam: um touro, um toureiro e um espectador, que Thomson preferia ver como um representante do público - ou da crítica.

Para Thomson, nenhuma obra de arte era completa se não incluísse sua repercussão no público e sua avaliação pela crítica. Uma apresentação musical, como a tourada dos meninos, também requeria um trio - o compositor, o intérprete e a reação do ouvinte - sem o qual, nas palavras do Thomson, não passaria de um ensaio.

Isso não significava que a obra deveria ser sempre acessível a um gosto comum e buscar a popularidade. Composições "difíceis" também dependiam, para existir, da sua aceitação, no caso de um público mais sofisticado. Também se completariam com um "olé".

Thomson foi o autor de óperas de vanguarda como a que fez em parceria com a Gertrude Stein em 1934 (quando lhe perguntaram como tinha sido a convivência com Stein, respondeu: "Como a de dois homens de Harvard") e outras coisas "difíceis". Ouviu muitos olés na sua vida, mas também muitos "buus". É o risco que correm os artistas e os toureiros, se bem que não há notícia de nenhum artista corneado por alguém da plateia durante uma performance.

Como os toureiros, compositores e escritores também sonham, em segredo, com a glória, com "olés" consagradores. Também se imaginam recebendo as orelhas e o rabo do touro, dando voltas triunfais na arena e atirando flores para a Ava Gardner, ou um sucedâneo razoável, na plateia. Mas, infelizmente, não temos "olés" assegurados, obrigatórios, como nas touradas de brincadeira. Nosso consolo, quando os "olés" não vêm, é pensar: "Não me entenderam".

A verdade é que o comportamento do público diante da arte mudou muito desde o tempo em que um balé do Stravinsky terminava em motim, com o público atirando as poltronas no palco, ou, antes, o Liszt era carregado pelas ruas nos ombros de admiradores depois de um recital. O modernismo meio que anestesiou a turma, ninguém se escandaliza ou se entusiasma muito depois que o Schoenberg inventou a música atonal e o Picasso botou os dois olhos da moça no mesmo lado da cara. O resultado é que não se ouvem mais "buuus" indignados ou "olés" sinceros.

L.F. VERISSIMO

25 DE FEVEREIRO DE 2021
INFORME ESPECIAL

O problema que Melo tenta vender como solução

Porto Alegre e outras cidades brasileiras registram recordes de internações hospitalares. Diante da iminência do caos, o prefeito da Capital, Sebastião Melo, repete insistentemente que está abrindo novos leitos de UTI. Trata-se de uma medida elogiável, mas é o sintoma de um problema e não uma solução. Quando o poder público é compelido a criar novas vagas em hospitais, é porque alguma coisa está dando errado antes. Por dever de justiça, é importante ressaltar que a responsabilidade pela explosão de casos de covid-19 não pode ser jogada nas costas do prefeito. Se o Brasil tivesse levado a sério a pandemia, poderíamos, a essa hora, ter muitos milhões de vacinados e não os números pífios que ostentamos diante do mundo.

Enquanto a imunização não chega, o jeito mais eficaz de não contrair a covid-19 é não se expor a ela. Cuidar, circular apenas o necessário, usar máscara, limpar as mãos. Todo mundo sabe, mas nem todos praticam. Não se trata aqui, por enquanto, da defesa de um lockdown radical, o que nunca aconteceu, nem em Porto Alegre, nem no Brasil. Talvez cheguemos ao ponto em que seja necessário, se continuarmos achando que abrir vagas em UTIs é uma solução. Mesmo que se mantenha coerente com as ideias que garantiram a sua eleição, principalmente com a promessa de "não fechar a cidade", Melo ajudaria a salvar vidas se fosse mais incisivo na recomendação para que os porto-alegrenses - inclusive ele próprio - só circulem, por algum tempo, o mínimo necessário, antes que o remédio fique mais amargo ainda.

DO BEM

A União Vila Jardim voltou a distribuir cestas básicas a famílias da comunidade. O repasse dos itens foi realizado pela Legião da Boa Vontade. Em março, a União irá voltar a distribuir cestas que serão compradas a partir da venda de rifas com obras de arte doadas por artistas gaúchos. Já estão sendo vendidos números para o sorteio de uma serigrafia de Erico Santos. Quem quiser adquirir, pode contatar a página da União Vila Jardim no Facebook.

Vereador quer tabelar preço dos sepultamentos na Capital

Preocupado com as inúmeras reclamações de cobranças abusivas, o vereador Alexandre Bobadra, do PSL, protocolou um pedido para que a prefeitura de Porto Alegre padronize os preços dos sepultamentos e das cremações na Capital.

A procura por esses serviços cresceu muito em função da pandemia e, quando a demanda pressiona, em geral, os preços sobem. Bobadra sugere que as taxas para sepultamento, aluguel de capela, abertura de jazigo e serviço de exumação sejam balizados pelo Índice Geral de Preços (IGPM), o que já ocorre, de acordo com o vereador, nos translados, fornecimento de urnas e preparos prestados no escopo do Serviço Funerário Padronizado de Porto Alegre, instituído pela resolução municipal 001/2019.

TULIO MILMAN

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021


24 DE FEVEREIRO DE 2021
DAVID COIMBRA

A separação de Gabriela Pugliesi

A Gabriela Pugliesi se separou do Erasmo. Não estou fazendo fofoca, foi ela quem disse, num vídeo assistido por mais de 2 milhões de brasileiros.

"O Erasmo, ele errou comigo", justificou.  Lembro do Erasmo. Um cara sem camisa. Parecido com outros namorados e maridos de blogueiras fitness, eles aparecem sempre fazendo exercício ou brincando com algum cachorro.

A Pugli filma a vida dela inteira, e ela nunca se aborrece por nenhum motivo. Desta vez, admitiu ter ficado mal DOIS DIAS por causa do fim do casamento. Dois dias! Erasmo, meu velho, talvez você não tenha errado tanto.

Mas agora me ocorre que talvez você não saiba quem é a Gabriela Pugliesi. Como já observei acima, ela é uma blogueira fitness, e também youtuber e outras coisas do mundo virtual. Ou seja: ganha dinheiro (bastante) mostrando ao mundo suas atividades comezinhas. As pessoas olham vídeos dela fazendo ginástica. Será que alguém olharia um vídeo em que eu fizesse ginástica? Polichinelo! Pique no lugar! Polichinelo! Pique no lugar! Talvez tente, mas suspeito que eu seria um fracasso como blogueiro fitness.

Já gostei mais de Pugli, confesso. Agora, sei lá, ela está muito tatuada. Por que as pessoas se tatuam tanto? Não é apenas vontade de se enfeitar, é uma profunda ânsia de expressão. As pessoas querem passar mensagens com suas tatuagens. O Twitter e o Facebook não lhes bastam, elas têm de usar o corpo como veículo de informação.

Sei que os tatuados podem embrabecer comigo, mas, entenda, leitor tatuado, não sou contra a tatuagem em si, sou a favor da boa edição. O excesso de informação numa página dispersa o leitor. Assim, se você quiser fazer tatuagem, faça, mas com critério. Não pense só em você, que está emitindo a mensagem, pense no receptor da mensagem.

Mas não é só isso que me incomoda em Pugli, não sou tão frívolo. O que mais me irrita é sua positividade militante. A vida de Gabriela Pugliesi é um livro de autoajuda aberto. Então, ela termina um casamento e o máximo de tristeza que lhe acomete se esvai em dois dias. E, no vídeo, ela declara a filosofia que rege sua existência:

"Nada acontece por acaso, e tudo que acontece é uma bênção".

Aí é que está. A experiência demonstra que muitas coisas acontecem por acaso. Às vezes, a pessoa recebe algo de bom sem merecimento. Ou algo de ruim sem culpa. Porém, ah, porém, a segunda parte do sistema filosófico pugliesiano, "tudo que acontece é uma bênção", bem, isso pode se transformar em verdade. Porque o supostamente bom ou o supostamente ruim acontecem de forma inevitável, e cada pessoa reage à sua maneira. Uns fazem do bom o ótimo. Outros o transformam em péssimo. E há quem vire o ruim do avesso e dali saiam maravilhas. Ou quem consiga piorar tudo ainda mais.

Isso significa que Pugli não está de todo errada. Sua máxima precisa apenas de uma melhorada. Assim: "Tudo que acontece pode ser transformado em uma bênção". Pronto. Ficou bom. Vou tatuar essa frase no meu abdome de tanquinho.

DAVID COIMBRA

24 DE FEVEREIRO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

NECESSIDADE DE AUTODEPURAÇÃO

O episódio envolvendo o deputado federal bolsonarista Daniel Silveira (PSL-RJ), preso desde a semana passada por ataques a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), à própria instituição e à democracia, fez a Câmara reinstalar às pressas ontem o seu Conselho de Ética, desativado desde o início da pandemia. Aguarda-se que, com a iniciativa, a Casa dê uma reviravolta na omissão dos últimos meses em analisar e julgar comportamentos, atitudes e até eventuais crimes de parlamentares. O caso mais escandaloso no momento é o da deputada Flordelis (PSD-RJ), ré por supostamente ser a mandante do assassinato de seu marido. De tornozeleira, Flordelis seguia circulando pelo Congresso, apta a formular leis e a votar matérias importantes para o país por ter imunidade parlamentar. Ontem, a Justiça do Rio decidiu pelo afastamento da deputada do cargo, mas a determinação ainda terá de passar pelo plenário da Câmara.

Outra situação constrangedora que precisa de uma pronta resposta de seus pares é a do senador Chico Rodrigues (DEM-RR), flagrado em outubro do ano passado com R$ 33 mil escondidos na cueca. O dinheiro, segundo a Polícia Federal, teria sido desviado do combate à pandemia. Rodrigues tirou licença logo após o episódio, mas voltou a Brasília na semana passada. Reassumiu naturalmente suas funções, sem dar formalmente qualquer explicação aos colegas, que também não fizeram grande esforço para avaliar sua conduta. O Conselho de Ética do Senado se reuniu pela última vez em setembro de 2019 e, até agora, não há nenhum procedimento instalado para apurar as acusações contra o senador. Se a Casa zela por sua imagem, deve imediatamente dar início ao devido processo interno para averiguar o caso e, se for comprovado o desvio, até cassar o mandato de Rodrigues.

O espírito de corpo muitas vezes injustificável é uma das razões de o Congresso, instituição basilar da democracia, seguidamente ser visto com certa desconfiança pela população. Em relação à Câmara, desde 2002 foram quase duas centenas de representações avaliadas pelo Conselho de Ética, as quais em apenas sete oportunidades levaram à perda de mandato. Além de em regra as penas serem brandas, os casos costumam se desenrolar com extrema lentidão, como se o tempo e o surgimento de novos escândalos fossem aliados para esfriar a pressão da opinião pública. Acusado do desvio de recurso de obras para mitigar efeitos da seca, o deputado Wilson Santiago (PTB-PB) tem, por exemplo, o seu processo há mais de um ano dormitando.

As omissões e a resistência à essencial tarefa da autodepuração no Congresso levam a situações que forçam a interferência de outros poderes, principalmente do Supremo Tribunal Federal (STF). São atritos que seriam dispensáveis se deputados e senadores agissem conforme o esperado pela sociedade, de acordo com os seus deveres, com o regimento e em nome da moralidade. Se fossem céleres e não demonstrassem condescendência demasiada com seus iguais, deputados e senadores reforçariam a independência do Congresso e melhorariam a imagem do parlamento. Espera-se que agora os membros do Conselho de Ética da Câmara examinem de maneira rigorosa e diligente os casos de Flordelis e Silveira e, após amplo espaço para a defesa, decidam de acordo com as evidências existentes e, sem acomodações ou conchavos, apliquem as devidas punições.

 


Quarentena

O leitor Vitor S. tem uma dúvida que certamente não será só dele: "Vemos todos os dias o jornal falar em quarentena de duas semanas, quarentena de sete dias. Sempre entendi que quarentena era o período de 40 dias durante os quais os passageiros dos navios tinham que ficar isolados durante a peste negra. Professor, quando foi que quarentena passou a ser sinônimo de isolamento?"

Caro Vitor, tecnicamente quarentena não é sinônimo de isolamento porque este se aplica apenas a pessoas sabidamente doentes, enquanto aquela inclui também os indivíduos que poderiam estar infectados. Como eu disse, tecnicamente; na língua de nós outros, simples mortais, no entanto, os dois conceitos se misturam, exatamente como ocorre com furto e roubo, que são idênticos para o meu vizinho que teve seu carro levado por ladrões, mas totalmente diversos para um juiz ou um advogado. Por isso, entendo que, no fundo, queres saber quando foi que o termo quarentena se desvinculou da ideia de quarenta.

A bem dizer, nunca houve uma correspondência exata. A ideia foi desenvolvida inicialmente nos portos italianos, no séc. 17 - de onde, aliás, a palavra se espalhou por várias línguas -, mas Rousseau, no séc. 18, relata nas Confissões que seu navio teve de fazer "uma quarentena de vinte e um dias" (a metade, portanto, dos quarenta e dois dias recomendados, em muitos portos, nos períodos de maior crise). Nosso Morais, em seu Dicionário (1789) registra: "Fazer quarentena - estar quarenta ou menos dias sem entrar no porto ou na cidade para evitar a comunicação da peste ou de outra epidemia que possa trazer". Como vês, a duração sempre foi variável, dependendo, principalmente, do que as autoridades sanitárias da época conheciam (ou supunham conhecer) da enfermidade que estavam tentando controlar.

Algo similar ocorreu com quadrilha. No Portugal do séc. 15, era um grupo de quatro cavaleiros que participavam das cavalhadas, uma versão muito popular - e mais branda - dos antigos torneios medievais. Daí, por extensão, o termo passou a designar qualquer agrupamento de pessoas envolvidas numa mesma atividade, até chegar ao sentido exclusivamente criminoso que o vocábulo tem atualmente. Nossos fora-da- lei hoje podem formar, alegremente, quadrilhas de número ilimitado - ou seja, na linguagem usual, tanto quadrilha quanto sua irmã quarentena perderam sua associação com o quatro, que é a mãe de ambas.

Escreva com a Cíntia Moscovich - Ah, e um aviso oportuníssimo para todos aqueles que, como eu, acham que escrever a torto e a direito é uma das ocupações mais prazerosas que existem: a Cíntia abriu uma nova turma de sua preciosa Oficina de Subtexto, um curso on-line para estimular a criatividade literária, com ênfase na narrativa curta. O primeiro módulo, com doze encontros semanais, começa agora, dia 15 de março. Mais informações no endereço oficinasubtexto@gmail.com.

CLÁUDIO MORENO 

24 DE FEVEREIRO DE 2021
DIÁRIOS DO MUNDO

Mais vacinas = Menos restrições

Os cenários em alguns países começam a mostrar como o avanço da vacinação contra a covid-19 se reflete na redução dos casos de hospitalização - e, consequentemente, na flexibilização gradual das regras de confinamento. Em terceiro lugar no ranking da Universidade de Oxford e primeira nação do Ocidente a começar a imunizar a população, o Reino Unido administrou até agora 27 doses a cada cem habitantes. O governo planeja reabrir as escolas no próximo dia 8. Estéticas, cabelereiros e lojas não essenciais, além de lugares que vendem refeições ao ar livre, devem retomar as atividades em 12 de abril. Restaurantes e pubs poderão atender a partir de 17 de maio.

O país vive o terceiro lockdown - mas o primeiro acompanhado de vacinação em massa. A combinação das duas estratégias levou ao declínio da curva de infecções. Só na Escócia, uma das regiões que com Inglaterra, Pais de Gales e Irlanda do Norte formam o Reino Unido, o risco de hospitalização caiu 85% entre a população com mais de 85 anos após a primeira dose da vacina da Pfizer, segundo um consórcio do sistema de saúde britânico com cinco universidades.

Portugal, país que no ano passado foi exemplo de contenção do coronavírus e, em janeiro, viveu um pico da doença, agora, volta a observar dados positivos. Segundo a Direção Geral de Saúde, houve queda muito significativa de novas infecções. O país registra o índice de transmissibilidade mais baixo desde o início da pandemia - e o menor em toda a União Europeia (UE). Conforme o governo, no entanto, ainda é cedo para aliviar o lockdown. A população está confinada desde 15 de janeiro. O país administrou até agora 6,67 doses por 100 habitantes.

A Espanha saiu esta semana da situação de risco extremo - e a incidência acumulada de 14 dias está situada em 235 casos por 100 mil habitantes, abaixo dos 250 no momento de alerta máximo no início do ano.

Os números positivos devem-se à combinação da vacinação com confinamentos em maior ou menor graus - variando em cada uma das comunidades autônomas. Em algumas regiões, as medidas de restrição já foram flexibilizadas. A partir de sexta-feira, na Galícia, reuniões com até quatro pessoas serão permitidas. A rede hoteleira será reaberta. A comunidade de Valência também pensa em relaxar as restrições aos finais de semana a partir de março. Conforme o governo central, a expectativa é de que 70% da população do país esteja vacinada até o verão (junho e julho, no hemisfério norte). O país imunizou até agora 6,61% da população.

Em Israel, nação que se aproxima de vacinar 90% de sua população com ao menos uma dose (leia abaixo), a taxa de infecções por covid-19 caiu 95,8% entre as pessoas que receberam as duas doses. Aos poucos, o país do Oriente Médio também amenizará as medidas de restrição, permitindo que escolas e lojas reabram a partir do próximo domingo.

Nos Estados Unidos, apesar do número trágico de 500 mil mortos ao qual o país chegou na segunda-feira, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) informou que os óbitos estão em seu nível mais baixo desde dezembro, com queda de 39% na média dos últimos sete dias de novos casos diários. A imunização foi acelerada no país - 19,39% da população recebeu ao menos uma dose.

Israel está perto de vacinar 90% da população

País que lidera a vacinação contra a covid-19, Israel está perto de imunizar 90% da população com ao menos uma dose. Ontem, o ranking da Universidade de Oxford, utilizado pela coluna para comparações entre países, a nação do Oriente Médio registrava acumulado de 87,06 doses para cem habitantes.

Israel utiliza os produtos da Moderna e da Pfizer/BioNTech, e aplicou até agora 7.535.543 de doses.

Três lições que ficam: planejamento, o país assinou seu primeiro acordo de compra, com a Moderna, em junho de 2020, o que ajudou a garantir vacinas mais rapidamente. Além disso, Israel também concordou em pagar mais caro para receber uma leva antecipada dos imunizantes - um preço considerado premium, de US$ 47 por duas doses, mais do que União Europeia (UE) e EUA, por exemplo, que pagaram cerca de US$ 38 por duas ampolas.

A segunda lição: o país apostou em mais de um fornecedor. Não esperou apenas pela Moderna, chegando a fazer acordo de compra também com a Pfizer, enquanto buscava desenvolver um imunizante próprio.

O terceiro ponto é a qualidade do serviço público de saúde, dividido em quatro instituições diferentes. São muito eficientes, e o financiamento varia conforme a quantidade de clientes - por isso, há competição saudável entre elas para oferecer serviços de qualidade. O sistema é informatizado - os cidadãos recebem mensagens no celular avisando a data e local da vacinação, o que serve para dar celeridade ao processo de imunização.

Um aspecto curioso: Israel conseguiu chegar a esse nível de imunização, mesmo em um ambiente político tumultuado no qual o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu é réu em processo de corrupção. O país se encaminha para a quarta eleição em menos de dois anos.

Por quem os sinos dobram

Josef Stalin verbalizou a infeliz frase: "A morte de uma pessoa é uma tragédia; a de milhões, uma estatística". Não se podia esperar algo pior de um dos maiores carniceiros da história. Diariamente, nós, jornalistas, buscamos mostrar que NÃO, a morte de uma, duas, três pessoas ou mais NÃO são estatísticas. Em reportagens, colunas, fotografias, revelamos que por trás de números há rostos, histórias, nomes e sobrenomes.

Na segunda-feira, os Estados Unidos atingiram a marca de 500 mil mortos pela covid-19, momento lamentado em evento na Casa Branca (foto). Precisamente 500.071 mortes até aquela noite.

Isso significa:

Mais do que os EUA perderam na II Guerra Mundial (405.399).

Mais de oito vezes o número de soldados mortos na Guerra do Vietnã (58.220).

Quase seis vezes o que os EUA perderam em batalhas em todos os conflitos em que já estiveram envolvidos desde 1945 (87 mil), que inclui, além do Vietnã, o Afeganistão e o Iraque.

Está perto de superar as perdas na Guerra Civil (620 mil).

Em outubro de 2018, um Boeing 737 Max caiu na Indonésia, matando 189 pessoas a bordo. A tragédia da covid-19 nos EUA é como se ocorressem mais de 2,6 mil acidentes aéreos como aquele.

É como se o país vivesse 167 vezes os atentados de 11 de setembro de 2001.

Não são apenas estatísticas. Mas elas são necessárias para a compreensão do drama humano. Em oposição a Stalin, prefiro John Donne, para quem "a morte de um único homem me diminui, porque eu pertenço à humanidade. Portanto, nunca procures saber por quem o sinos dobram. Eles dobram por ti".

Uruguai 1

Último país do Mercosul a iniciar a vacinação, o Uruguai planeja administrar as primeiras ampolas de imunizantes contra a covid-19 a partir de segunda-feira. Na prática, a campanha começa no final de semana, quando os profissionais de saúde que irão aplicar as doses serão vacinados. A partir de segunda, serão imunizados professores, militares, policiais, bombeiros e funcionários do Instituto del Niño y Adolescente del Uruguay (Inau, órgão responsável por crianças e adolescentes em situação de risco).

Uruguai 2

Durante reunião com ministros, na segunda-feira, o presidente Luis Lacalle Pou tratou de um tema que interessa aos brasileiros e, em especial, aos gaúchos: a implementação de um plano para permitir o ingresso no Uruguai de turistas que já tiveram coronavírus e que estejam recuperados - uma vez que desenvolveram anticorpos.

Para ingressar no país, a pessoa só precisaria apresentar teste negativo de PCR e um exame sorológico - sem necessidade de quarentena.

O turismo é um dos setores mais atingidos pela pandemia.

RODRIGO LOPES

24 DE FEVEREIRO DE 2021
TICIANO OSÓRIO

O verão do #TBT

As crianças que estão voltando às aulas poderão experimentar uma espécie de bloqueio criativo se os professores solicitarem a tradicional redação sobre como foram suas férias. Algumas não terão muito a dizer: fiquei em casa, jogando videogame, brincando de maquiagem, vendo filmes e séries com meu pai e minha mãe, cada dia igual ao outro. Outras talvez barrem suas próprias memórias - estarão, como de hábito, imitando os adultos.

É que viajar nas férias tornou-se um constrangimento na era da pandemia. Uma reportagem do jornal The New York Times do ano passado, publicada também em Zero Hora e GZH, constatou entre os norte-americanos um comportamento repetido por brasileiros neste verão. Às vésperas de o coronavírus completar um ano no país sem demonstrar recuo no seu poder de devastação - vide a inédita situação de 11 bandeiras pretas no Rio Grande do Sul -, o silêncio foi a principal companhia de quem resolveu passar uns dias fora de casa. Não de todos, é claro, como evidenciam os barulhentos vídeos de aglomeração na praia ou de festas clandestinas na Serra. Mas houve uma turma que sim, saiu de férias, mas, diferentemente do que sempre fez, escondeu seus rastros. Principalmente os digitais.

Antes que este texto soe como lição de moral, deixe eu confessar que me incluo nesse grupo. Ficamos uma semana em Bento Gonçalves, em janeiro. Cansamos o corpo na piscina, recarregamos nossas baterias espirituais e tiramos fotos que só foram enviadas para as vovós e o avô das gurias, além de um ou dois amigos mais próximos. Zero registro no Facebook ou no Instagram.

Estávamos imbuídos pelo que dissera uma entrevistada da tal matéria do New York Times: "Estamos vivendo um momento em que as desigualdades que existem há tempos estão mais explícitas do que nunca. Viagens são a linha que separa aqueles cuja rotina continua relativamente normal dos que viram a vida virar de cabeça para baixo. Para mim, as fotos de férias dizem ao mundo algo do tipo ?ei, até que não está tão ruim!?, quando na verdade tem sido um horror absoluto para muita gente".

Tivemos medo de contágio nos ambientes físicos? Obviamente, por isso tomamos todos os cuidados possíveis. Tivemos medo de reprovação no ambiente virtual? Obviamente, por isso tomamos todos os cuidados possíveis.

Outros turistas da era covid-19 foram mais responsáveis e até inspiradores. Enfurnaram-se em lugares remotos, vazios, isolados. Didaticamente, seus posts explicavam e enalteciam essas virtudes geográficas.

Mas, em resumo, pelo menos a minha timeline mostrou-se um deserto de imagens do verão de 2021. O que se viu foi uma inundação de #TBTs (a legenda que o pessoal das redes sociais usa quando publica fotos em que se recordam bons tempos, eventos passados ou a própria infância). Por motivos variados - da saudade genuína à urgência exibicionista -, amigos e conhecidos sacaram de seu baú digital cliques de férias anteriores à pandemia. Podiam ser bem antigas ou recém do ano passado, na beira-mar ou até na neve, a sós ou em bando. Assim como aconteceu com as novelas da ficção, adotaram as reprises para manter no ar as novelas da vida real.

Com as devidas adaptações e precauções, as novelas da Globo estão para voltar - os últimos capítulos de Amor de Mãe, por exemplo, estreiam em 15 de março. Será que nas nossas novelinhas particulares também faremos modificações? Deixaremos para trás os check-ins e os instantâneos de todos os passos que damos? Vamos nos tornar menos dependentes das redes sociais? Pense aí enquanto dá uma curtida neste texto.

TICIANO OSÓRIO - INTERINO

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021


23 DE FEVEREIRO DE 2021
DAVID COIMBRA

Uma senhora chora diante do posto de saúde

O Macedo começou a semana ilustrando o seu programa com músicas italianas. Fico sempre na expectativa para saber que tipo de música o Macedo vai rodar - é preciso criatividade para encontrar um tema diferente a cada manhã. Outro dia, ele colocou só canções com grandes solos de sax. Há que se ter conhecimento para fazer uma seleção dessas.

Então, nesta segunda, lá estava eu, ouvindo o Eros Ramazzotti e degustando meus ovos cozidos, quando entrou o repórter Vitor Rosa. Ele estava em frente a uma UPA de Porto Alegre onde os pacientes com sintomas de covid se aglomeravam debaixo de um toldo, à espera de atendimento.

Havia dezenas de pessoas, relatou o Vitor Rosa, mas a maioria não seria atendida, porque não há vagas. Aí ele foi entrevistar uma senhora que ali estava. Maria Teresa Bezerra, o nome dela. É atendente do Zaffari, tem 66 anos e descobriu que contraiu covid há 10 dias, mas agora os sintomas estão mais graves.

Comecei a ouvir a entrevista distraidamente, ainda pensando sobre a música italiana. Porém, à medida que a senhora foi falando, parei o que fazia, aumentei o volume do rádio e prestei atenção. Sua voz estava embargada de emoção e dor. "Eu tô mal", gemia, "eu tô muito mal... Do que adianta? A gente trabalha, trabalha, pra ser assim escorraçada: ?Vai embora, vai embora?. Não deixam nem entrar ali pra ser atendida, nada, nada... Meu Deus, é um sentimento de revolta. Eu não aguento mais".

Essa última frase de Dona Maria Teresa, "eu não aguento mais", ficou pairando diante de mim o dia inteiro. Vivendo uma idade em que as pessoas, em geral, estão aposentadas, Dona Maria Teresa ainda trabalha como atendente de supermercado e, quando necessitou de socorro médico, não conseguiu. Mandaram-na para casa.

Ou seja: é o desamparo absoluto, o oposto de como deveria funcionar uma sociedade. Porque a sociedade só existe para que o todo proteja o indivíduo. As pessoas, reunidas em comunidade, amparam umas às outras, cuidam umas das outras, de maneira que o mais fraco usufrua das mesmas condições de sobrevivência do mais forte.

Quando uma pessoa sofre e a sociedade não ajuda, a sociedade falha no essencial. Na própria razão de sua existência.

Dona Maria Teresa passou a vida contribuindo para a sociedade. Ela é uma trabalhadora, ela faz a sua parte. Mas está sozinha. Sente dores, sente-se mal, muito mal, e ninguém é capaz de acudi-la, medicá-la ou simplesmente confortá-la. Uma senhora de 66 anos de idade chora em frente a um posto de saúde e proclama, desesperada: "Eu não aguento mais!" E fica tudo por isso mesmo, fica tudo como está. Nós aceitamos, nós tocamos as nossas vidas, e talvez até cantarolemos a música do Eros Ramazzotti durante a manhã. É assim mesmo. Mas não pode ser assim. Porque é um fracasso. O nosso fracasso. A nossa vergonha.

DAVID COIMBRA

23 DE FEVEREIRO DE 2021
ARTIGOS

RECURSOS E PANDEMIA

O enfrentamento da crise provocada pela covid-19 demandou expressivos gastos dos governos centrais para apoiar empresas, indivíduos e governos locais. No Brasil não foi diferente e os dados mostram que tal suporte foi fundamental para amenizar os efeitos da crise. No Rio Grande do Sul, os recursos federais recebidos em 2020, rigorosamente aplicados nas áreas relacionadas em cada legislação, impediram o colapso das finanças públicas e garantiram recursos indispensáveis para a saúde.

Ciente das suas fragilidades, o governo do Estado engajou-se nas discussões federativas sobre o auxílio em defesa dos interesses gaúchos, tendo recebido três modalidades de suporte.

No caso das reposições de receitas de ICMS (com perdas de R$ 1,91 bilhão quando comparadas ao mesmo período em 2019), o Estado recebeu da União, em quatro parcelas, o valor de R$ 1,95 bilhão. Foi suficiente? Depende da estimativa de perdas. Para demonstrar a severidade da crise, se o ICMS em 2020 tivesse crescido de acordo com as previsões de mercado feitas para o PIB ao final de 2019, a perda teria sido de R$ 2,39 bilhões, sendo 75% da fatia estadual.

A cobertura das perdas do FPE foi mais substancial no Norte e Nordeste e seguiu o formato de uma espécie de seguro com parcelas variáveis até dezembro. No caso gaúcho, os meses com queda geraram reposição federal de R$ 126 milhões.

Na segunda modalidade, a suspensão das dívidas com a União e bancos públicos também teve impacto menor para o RS, dado que as parcelas com a União não são pagas por liminar desde 2017. A medida gerou economia de R$ 78,4 milhões suspensos junto ao BNDES.

Por fim, em relação aos repasses vinculados (recursos do SUS, emendas parlamentares estaduais e federais), os valores foram rigorosamente aplicados no combate ao coronavírus, como se comprova pelo aumento de R$ 1,1 bilhão nas despesas com a função saúde em 2020, que contou também com esforço próprio do Estado. O mesmo se deu com outros repasses vinculados, como a Lei Aldir Blanc, que se refletiram num aumento de R$ 71 milhões de gastos na cultura no ano.

O Estado aplicou recursos nas áreas relacionadas a cada fato gerador do suporte recebido, fosse ele vinculado ou de livre destinação. Ao preservar as receitas, o suporte federal somou-se ao controle das despesas feito pela gestão e à recuperação do ICMS a partir de setembro como os fatores para a melhoria do fluxo de caixa e para o aumento dos gastos nas áreas mais afetadas pela pandemia.

Secretário da Fazenda do RS - MARCO AURELIO CARDOSO

23 DE FEVEREIRO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

O ARROUBO POPULISTA DE BOLSONARO

São inquietantes as reiteradas demonstrações de incapacidade do presidente Jair Bolsonaro de compreender como funcionam os mercados e os riscos para o país de intervenções populistas em empresas estatais. Bolsonaro se elegeu admitindo ser um ignorante em temas econômicos, mas após dois anos de mandato já deveria ter aprendido que canetaços não resolvem problemas complexos. Pelo contrário, costumam agravá-los. A conta, como sempre, acaba apresentada a toda a população, como bem sabe Paulo Guedes, o ex-superministro da Economia que o presidente prometeu sempre ouvir, mas do qual hoje, na prática, desdenha.

A previsibilidade desejada por Bolsonaro, como no caso dos combustíveis, só é possível em ditaduras e, mesmo assim, os efeitos nefastos de tentativas de controlar preços, mais cedo ou mais tarde, se sobrepõem aos artificialismos. Nos mercados, a regra do jogo é formada por fatores como oferta e demanda. O petróleo, como commodity internacional, flutua ao sabor da economia. E, enquanto o mundo cresceu 30% na última década, o Brasil ficou estagnado (2%), mostram cálculos do FMI. A outra face dessa moeda é o dólar. Diante das ameaças de abandono da responsabilidade fiscal, das constantes crises políticas e institucionais, da hesitação em reformas, demora na aquisição de vacinas e de arroubos autoritários e populistas, não é surpresa que o real seja o campeão mundial de desvalorização. Nestes termos, não há como dar certo.

A intervenção de Bolsonaro na Petrobras, com a iminente saída de Roberto Castello Branco da presidência da estatal, começa a custar caro, como se imaginava. A tentativa desesperada de buscar recuperar popularidade e atender a categoria dos caminhoneiros, despindo-se dos últimos fiapos da fantasia liberal, já fez estragos profundos ontem, com alta do dólar, dos juros futuros e disparada do risco país, enquanto os papéis preferenciais da petroleira na B3 derreteram 21%. O mesmo aconteceu com o Banco do Brasil, com queda de 11%, pelas especulações de que o presidente da instituição pode ser a próxima vítima da degola. No fim de semana, Bolsonaro ameaçou ainda "meter o dedo na energia elétrica", lembrando outra vez a gestão Dilma Rousseff.

As atitudes intervencionistas do chefe do Executivo geraram novas rodadas de calafrios nos verdadeiros liberais que o apoiaram na campanha. Mas é difícil alegar espanto se o presidente só está agindo de acordo com as ideias que sempre expressou como deputado, abandonando-as parcialmente apenas no período eleitoral, quando era conveniente. As consequências do ressurgimento dos instintos do presidente não vão afetar apenas quem investe no mercado financeiro. O que nunca deu certo não dará de novo. Os resultados tendem a ser a contaminação da economia real, com atividade mais lenta, freio nos investimentos produtivos, maior desconfiança de empresários e consumidores, aumento de juros e da inflação e dificuldade de melhora dos indicadores de emprego. Com o sinal ideológico trocado, o Brasil cada vez mais se aproxima das práticas comuns em países odiados por Bolsonaro e pelo seu entorno.

OPINIÃO DA RBS

23 DE FEVEREIRO DE 2021
NÍLSON SOUZA

Os lobos da pandemia 

É quase inacreditável de tão repulsivo que alguns agentes de saúde tenham aplicado vacinas de vento em idosos ou espetado músculos atrofiados pelo tempo sem injetar o líquido da esperança nas vítimas preferenciais do vírus. Mas é crível, porque se pode facilmente comprovar, que milhares de vacinadoras e vacinadores vêm trabalhando exemplarmente para salvar vidas, muitos deles aplicando doses pessoais de estímulo e carinho juntamente com a imunização.

O que dizer dos furadores de fila que vestem a máscara da desfaçatez para surrupiar o direito alheio, sem considerar que a vacina roubada pode ser decisiva para a sobrevivência de outra pessoa? Melhor pensar nos bravos brasileiros que esperam pacientemente a sua vez, conscientes de que, na situação de imprevidência e escassez por que passa o país, a prioridade deve ser dispensada aos mais necessitados. Os solidários certamente são mais numerosos do que os malandros.

Motivos não nos faltam para lamentar o desconcertante negacionismo daqueles que se julgam imortais ou mais espertos do que seus semelhantes, se é que os reconhecem como tais. Não são poucos os arrogantes que se recusam a usar a cobertura protetiva no rosto, desdenham da vacina e desafiam o bom senso, fazendo tudo o que não se deve fazer num momento de elevado contágio. Em contraponto, podemos também concluir que é bem maior o contingente de homens e mulheres que se protegem e estendem esta proteção à coletividade, confiando na ciência e nas autoridades.

Autoridade, muitas vezes, rima com vaidade, com falsidade e até com perversidade, como se evidencia nestes tristes tempos de pandemia. Mas pode rimar igualmente com credibilidade, verdade, igualdade e humanidade. Basta observarmos com atenção como estão se comportando nossos governantes, parlamentares e juízes para que possamos fazer opções sensatas quando tivermos que escolher o nosso lado na batalha da vida.

Como ensina a fábula da luta interna entre o lobo mau e o lobo bom, vence aquele que a gente alimenta.

NÍLSON SOUZA

23 DE FEVEREIRO DE 2021
INFORME ESPECIAL

O avião que promete mudar uma das maiores cidades gaúchas

Um único avião tem o poder de transformar o que acontece no chão de uma das maiores cidades gaúchas. O projeto já está decolando e, quando ficar pronto, deve se transformar em polo cultural e cartão postal da Região Metropolitana.

A Aviãoteca de Canoas parte de uma ideia simples: aproveitar a sinergia do município com a aviação - é lá que fica uma das mais importantes bases aéreas militares do país - para transformar o Parque Eduardo Gomes em centro de atividades educativas. Uma aeronave de porte grande será adaptada para se transformar em uma biblioteca cercada por outras comodidades, como cafeteria, simulador de voo, loja de produtos temáticos e museu.

Sem custos para o município, a iniciativa se baseia em parcerias com a iniciativa privada e espera ajuda do governo federal.

- Será um grande sucesso e um caminho, através do estímulo à leitura, para avançarmos na educação - projeta o prefeito Jairo Jorge.

O projeto é pilotado pelo secretário municipal da Cultura, Wolmar Pinheiro Neto, e tem como padrinho o deputado estadual tenente-coronel Zucco, que protocolou ontem um projeto na Assembleia propondo que Canoas se transforme, oficialmente, na "cidade do avião". Mais do que um complexo cultural, a Aviãoteca de Canoas é uma demonstração de fé no futuro, no momento em que o mundo enfrenta uma crise sem precedentes, mas que, assim como todas, passará. Em princípio, a inauguração deve ocorrer ano que vem.

TULIO MILMAN

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021


22 DE FEVEREIRO DE 2021
DAVID COIMBRA

A ironia na derrota do Inter para o Flamengo

Rodinei foi o improvável protagonista da derrota do Inter para o Flamengo no Maracanã. Ele foi o personagem mais discutido antes do jogo, durante o jogo e, obviamente, continuará sendo agora, no depois do jogo.

O resultado passa por Rodinei. Mas o que ocorreu com esse lateral modesto, que até a semana passada não chamava muita atenção no futebol brasileiro, transcende os limites do esporte. Há muitos questionamentos que podem ser levantados neste caso. Porque Rodinei só jogou graças à generosidade de um ricaço, que pagou R$ 1 milhão de multa ao Flamengo para que ele pudesse entrar em campo.

Esse é o questionamento que mais me inquieta: é assim mesmo? No capitalismo raiz cada um faz com seu dinheiro o que bem entender? Legalmente, decerto que é. Mas pode haver algum incômodo ético com este uso do dinheiro? Num país que padece de tantas misérias, não é um pouco obsceno gastar tanto para garantir a escalação de um lateral-direito?

Ontem, um grande empresário disse uma frase que me fez ficar pensando. A seguinte:

"O dinheiro tem de ser respeitado".

Porque o dinheiro não representa apenas bens materiais. Ele representa sacrifício, esforço e, sobretudo, tempo. Pode significar bem-estar, saúde e segurança. Pode ser a diferença entre a vida e a morte.

Então, deixo essa pergunta para você responder, leitor: não é triste saber como foi gasto esse dinheiro? Ou está tudo bem?

De qualquer forma, talvez o magnata tenha se arrependido do gasto. O que não deixa de ser uma suprema ironia do destino. Porque, no primeiro gol do Flamengo, Rodinei, que, segundo Abel Braga, nunca é driblado, foi driblado por Bruno Henrique, que passou para Arrascaeta marcar.

Depois disso, Rodinei entrou com força excessiva numa dividida com Filipe Luís, pisou-lhe o calcanhar, torcendo-o de forma periclitante, e foi expulso.

Foi por isso, por causa desses dois lances, que o Inter perdeu a partida.

Porque o Inter jogou bem.

Enquanto os dois times tinham 11 jogadores, o Inter foi melhor, assenhoreou-se do jogo e saiu ganhando, com o gol de pênalti de Edenilson. No primeiro tempo, o Flamengo só teve um respiro técnico por cerca de 15 minutos, quando conseguiu tocar a bola e envolver a marcação. Aí, empatou. Mas o Inter não se apequenou. Ao contrário, empurrou o Flamengo para trás e quase fez o segundo com... Rodinei! Ele chutou forte de dentro da área, a bola desviou no pé de um zagueiro e bateu na trave.

Mas nem a expulsão de Rodinei tirou do Inter a vontade de vencer (ou, pelo menos, de empatar). Em certo momento, o Flamengo ficou acantonado na sua área, espaventando a bola no chutão, no desespero, na ânsia de se livrar dela de qualquer jeito. O Inter, com um jogador a menos, foi mais agressivo, mais perigoso e mais valente, e o símbolo de todas essas qualidades foi Patrick, que metia a bola goela adentro dos marcadores como se estivesse enfrentando crianças.

O Flamengo venceu por ter jogadores mais técnicos e porque estava com um a mais. Mas o Inter foi melhor. Os próprios jogadores do Flamengo sabiam disso, tanto que, quando o juiz apitou o fim da partida, jogaram-se à grama, exaustos, e comemoraram a façanha. Sabiam que tinham batido um time com futebol de campeão.

DAVID COIMBRA