quinta-feira, 4 de março de 2021


04 DE MARÇO DE 2021
L. F VERISSIMO

Detalhes, detalhes

Há momentos de grave introspecção em que um homem faz um inventário de si mesmo - seus sonhos, suas desilusões, suas possibilidades e onde diabo ele enfiou o chaveiro e o antiácido - e se faz perguntas. Valeu a pena? Devo continuar? Quem sou eu, e por que estou falando sozinho? Desta espécie de promontório filosófico, ele avista o caminho que já percorreu e o caminho que ainda precisa andar ou, se tiver sorte e aparecer um táxi, rodar.

O Brasil já teve várias oportunidades de, por assim dizer, afastar-se de si mesmo, examinar-se, decidir o que precisava ser feito, ajustar a gola da camisa e ir em frente. Falam que os nossos partidos políticos não significam nada como se isto fosse um grande defeito, e é uma das nossas vantagens sobre países mais ortodoxos e sem graça. Ou seria uma vantagem se fosse aproveitada. 

Nada está preestabelecido na nossa política, não temos compromisso com nenhuma forma de coerência, podemos ir inventando nosso destino no caminho. Mas nosso distanciamento crítico raramente leva à sabedoria. Nossos momentos de introspeção geram curiosidades - um maluco que foge da Presidência, um atleta que é corrido da Presidência, um torneiro mecânico que sucede a um sociólogo como se fosse a coisa mais natural - sem um mínimo de lógica ou fidelidade a princípios rígidos ou até a preconceitos claros.

Como o Brasil, também deveríamos nos reavaliar e nos reinventar, e praticar, a intervalos, uma espécie de escafandrismo interior para descobrir o que somos, o que fizemos e deixamos de fazer, como continuar, como parar e como votar - mesmo sabendo que só uma pequena parte do nosso destino é decidida por nós e que o acaso e a natureza decidem o resto. E devemos nos consolar com o seguinte pensamento: só um detalhe nos separa da fortuna e da solução de todos os nossos problemas. Foi a mãe do Bill Gates que teve o Bill Gates, não a nossa. E você acertar todos os números de uma Sena acumulada menos um, esse um é o detalhe. Esse um decide o seu destino.

O detalhe é como o vidro de um aquário.

Um vidro com poucos milímetros de espessura através do qual você vê claramente os peixes coloridos e as plantas exóticas do outro lado. Os milímetros do vidro do aquário separam dois mundos inteiramente diferentes. Só um detalhe parecido separa você de outra vida.

Luis Fernando Verissimo está em licença médica.

Esta coluna foi publicada originalmente em 29 de setembro de 2014

L.F. VERISSIMO

04 DE MARÇO DE 2021
INFORME ESPECIAL

Um pequeno grande gesto que nos ensina muito

Felipe Ramos Kappaun, o Pipe, tem seis anos e adora culinária. Morador de Santa Cruz do Sul, se comoveu ao ver os "tios" trabalhando sob o sol do verão para consertar uma tubulação na rua onde mora.

O bonito disso tudo é que o Pipe transformou seu sentimento em ação. Foi para a cozinha e preparou uma fornada de bolinhos para os trabalhadores da prefeitura. Com todos os cuidados, máscara e distanciamento, fez questão de ir ali rapidinho para entregar.

A mãe dele, Tatiana, dona de casa, supervisionou tudo. Ela se diz surpresa com a repercussão desse gesto que deveria ser natural.

- Conversamos muito sobre princípios e valores. Dialogamos sobre justiça, empatia, igualdade e generosidade - explica.

Que ao publicar a foto e o gesto do Pipe, todos os que precisam sair de casa para trabalhar nesse momento difícil se sintam acarinhados. Estejam eles nos hospitais, em outras atividades essências, como na segurança pública, no transporte ou nas obras. Sejam empresários ou trabalhadores. A cada um, obrigado.

Comunicação em pauta

A Fabico promove dia 9 de março a aula inaugural do curso de Publicidade e Propaganda da UFRGS, com transmissão via Facebook. O encontro irá debater com profissionais da área as oportunidades de inovação no ramo da comunicação no âmbito social, cultural e mercadológico. Participam da conversa Alessandro Garcia, Karina Limeira e Eduardo Zilles Borba, com mediação do professor André Iribure.

Preocupação

No segundo semestre de 2020, Porto Alegre registrou aumento de 62,72% no número de testamentos e doação de bens em relação aos primeiros seis meses do ano, segundo levantamento do o Colégio Notarial do Brasil. No total, foram 2.366 atos de transferência de bens realizados diretamente em cartórios de Porto Alegre, contra 1.454 registrados na metade inicial do ano. Além da preocupação com a pandemia, outro fator que pode ter contribuído para o aumento é a disponibilização do serviço online.

DO BEM

No mês da mulher, o Sindicato dos Servidores de Nível Superior do Poder Executivo do Estado do Rio Grande do Sul (Sintergs) está mobilizando seus servidores em uma ação social para arrecadar recursos que serão doados ao coletivo Mães da Periferia. A iniciativa ajuda na divulgação de uma "vaquinha" para a compra de um terreno onde será construído um centro cultural, com espaço de acolhimento e biblioteca. O grupo autônomo atua com mulheres em situação de vulnerabilidade social em comunidades de Porto Alegre, Viamão e Alvorada.

Fôlego

O 1º Tabelionato de Protesto de Porto Alegre está oferecendo o parcelamento de dívidas e títulos. Os pagamentos podem ser efetuados em até 12 vezes no cartão de crédito. Cobranças como IPTU, IPVA e pendências com órgãos públicos entram na nova condição de quitação. A iniciativa é para aliviar a crise econômica gerada pela pandemia.

Inclusão

Projeto de extensão realizado pela Universidade de Santa Maria aplicou questionários para analisar a acessibilidade promovida pelo município na questão da mobilidade. O resultado da primeira etapa da pesquisa, que ainda está em andamento, concluiu que a espera nos pontos de ônibus, a falta de plataformas elevatórias, além da necessidade de treinamento dos motoristas são os principais problemas apontados pelos usuários do sistema que necessitam de atendimento especializado.

TULIO MILMAN

quarta-feira, 3 de março de 2021


03 DE MARÇO DE 2021
CAPA

Frank e Kassin juntos na distância

Gravado em Porto Alegre e no Rio durante a pandemia, o disco "Nunca Fomos Tão Lindos" une rock, brega e eletrônico

De um lado, um monumento vivo do rock gaúcho. Integrante de bandas como Os Cascavelletes, Cowboys Espirituais, Tenente Cascavel, Graforréia Xilarmônica e ainda com sua própria carreira autoral. Do outro, um produtor renomado, que trabalhou com Los Hermanos, Adriana Calcanhotto e Caetano Veloso, entre outros - também com projetos em seu currículo como Acabou La Tequila, +2, Orquestra Imperial e sua trajetória solo. Pois os dois nomes se uniram: Frank Jorge e Kassin formam um duo no disco Nunca Fomos tão Lindos, que chega às plataformas digitais nesta sexta-feira.

O álbum é patrocinado pela Natura Musical por meio da Lei de Incentivo à Cultura do RS. Frank Jorge assina a composição das 13 faixas, enquanto Kassin é o responsável pela produção musical.

Os dois são amigos desde os anos 1990, quando eram colegas no selo Excelente, de Carlos Eduardo Miranda - Frank com a Graforréia, enquanto Kassin integrava a banda carioca Acabou La Tequila. Ao longo dos anos, a dupla foi maturando a ideia de produzir um disco. Até que surgiu o edital da Natura.

A ideia era que o álbum fosse trabalhado com os dois juntos em estúdio, mas a pandemia atrapalhou os planos. Gravado ao longo de 2020, o projeto foi realizado remotamente - Frank em Porto Alegre, Kassin no Rio. Nunca Fomos tão Lindos foi desenvolvido por meio de videochamadas. Enquanto Frank gravava voz, guitarra, violão e baixo, Kassin trazia suas batidas, erguendo paredes de som com bateria eletrônica e baixo synth.

O disco ganhou outra cara a distância, criando espaços para a dupla trabalhar mais as suas ideias.

- A pandemia mudou o projeto, mas acho que foi para melhor - atesta Kassin. - Em vez do Frank vir ao Rio e matar o disco em uma semana, o álbum acabou sendo supertrabalhado, elaborando mais os elementos que a gente queria trazer, a escolha do repertório.

Nunca Fomos tão Lindos traria música popular brasileira misturada com rock. Porém, Kassin propôs que a dupla fosse para outra direção:

- Tive uma vontade de promover uma quebra da coisa sessentista/setentista que o Frank tem.

Frank completa:

- Ele tentou justamente correr para outras direções do que seria previsível fazer nas músicas, que tinham um formato, uma atmosfera de canções jovem-guardistas. Esse é um pouco meu métier, algo que componho quase involuntariamente.

Com letras trazendo reflexões bem-humoradas e boa dose da ironia característica de Frank, é possível ouvir diferentes sonoridades em Nunca Fomos tão Lindos: brasilidades, disco music, synth pop, rock, samba-jazz, música brega e tecnobrega.

- Trata-se de um resultado muito raro, um disco que tem uma sonoridade muito sua, a partir do volume de referências que a gente carrega - afirma Frank.

Beleza

O Que Vou Postar Aqui foi o primeiro single do álbum, com clipe produzido a distância, dirigido por Vinicius Angeli. Com beats eletrônicos e vocais finais à Beach Boys, a faixa critica a necessidade de ficar gerando conteúdo constante nas redes sociais.

- Não chega a ser uma crítica à sociedade, mas sim um comentário. Talvez até uma crítica a mim mesmo sobre como é a minha atuação nas mídias digitais sociais - explica Frank. - Gosto de falar sobre isso: a pessoa e a sua interação social, de que maneira ela evidencia a sua interpretação do que acontece no mundo.

Já o segundo single, Tô Negativado, apresenta influência direta dos ritmos do Pará, como carimbó e tecnobrega. Aqui, a dupla apresenta uma faixa romântica sobre encontros e desencontros. Um clipe de Tô Negativado está nos planos do duo, mas ainda sem previsão de lançamento.

Entre as 13 faixas, há também a curiosa Complicado Jeito de Amar, inspirada nas baladas sertanejas radiofônicas. Segundo Frank, soa como "um tecnopop dos Eurythmics dos anos 1980".

Acompanhando o lançamento de Nunca Fomos tão Lindos, um curta-documentário será disponibilizado no canal do YouTube da dupla. O registro aborda o processo de criação do disco e a relação de Frank e Kassin com a música.

Os dois realizariam apresentações após o lançamento. Porém, o presente é impeditivo. Segundo Frank, uma live está prevista para o dia 12 de março, em que ele tocará o disco, trazendo uma interação com Kassin. O plano da dupla é se reunir para tocar o álbum quando for viável.

Frank explica que o título do trabalho vem de uma piada interna. Lembra que já teve um blog chamado Feios para Sempre, cujo título e temática permaneceram em sua mente.

- Tem aquele filme baseado no conto do João Gilberto Noll chamado Nunca Fomos tão Felizes. Daí me ocorreu isso, Nunca Fomos tão Lindos (risos). Eu e o Kassin já temos muito tempo de trabalho musical. A beleza do cara tá justamente nisso de seguir tocando a vida, fazendo nossas coisas, independentemente de serem valorizadas ou não. Sempre brincamos com o esdrúxulo e o esquisito, o que segue sendo algo bacana e gostamos de fazer.

WILLIAM MANSQUE


03 DE MARÇO DE 2021
DAVID COIMBRA

Exigem muito de mim

Tudo começou com a carteira de identidade. Disseram-me que precisava tirar a carteira de identidade. Eu tinha uns 14 anos e queria fazer alguma coisa para a qual se pedia documento. "É importante a carteira de identidade", insistiam. "Tu tem que tirar a carteira de identidade. Tem que".

Então, lá fui eu para alguma repartição ou delegacia, não lembro bem, só lembro que era ali pela Floresta e havia bancos nos quais a gente se sentava para esperar que fizessem nossa carteira de identidade. Então, depois de cumprir várias etapas burocráticas, aboletei-me num daqueles bancos para esperar o atendimento do funcionário que me entregaria a minha carteira. E esperei. E esperei e esperei e esperei. Eu lia um livro... Que livro era? Aos 14 anos estava na fase do Hermann Hesse, que, definitivamente, não é boa leitura para se esperar pela carteira de identidade.

Então, aborrecido com as horas de espera, fechei o livro e tive uma epifania. Pensei: "Por que, afinal, preciso de uma maldita carteira de identidade? Diga-me", disse para mim mesmo: "Júlio César tirou carteira de identidade? E Alexandre, o Grande, foi grande sem nunca sequer sentar-se numa repartição para obter uma carteira de identidade, não é mesmo? E os grandes filósofos gregos, Aristóteles, Sócrates e Platão, por acaso tinham carteira de identidade?"

Fiz-me essas perguntas e as respondi, e concluí: bilhões de pessoas no mundo nasceram, viveram e morreram sem carteira de identidade. Elas não precisavam se identificar. Elas existiam, e pronto. Se alguém quiser saber quem sou eu, basta perguntar:

- Quem é você?

- Eu sou eu. Ou seja: eu não sou um número, não sou um registro, sou uma pessoa e estou bem ali, na frente da outra pessoa, olho no olho, as gotículas com eventuais vírus contidas pela máscara. Isso é que importa!

Ah, mas tive de tirar a carteira de identidade. O funcionário me chamou e me lambuzou as pontas dos dedos para capturar minhas impressões digitais. Saí de lá no fim da tarde e fui caminhando até a sapataria do meu avô, que ficava na Câncio Gomes. Cheguei lá e mostrei-lhe o documento. Ele deu uma olhada e comentou:

- Tu estás taludo na foto.

Gostei daquilo. Taludo. Senti certo orgulho da minha carteira de identidade. Mal sabia que era só o começo. Depois daquele dia, só o que eles fazem é exigências. Já tirei diversos documentos, carteira de trabalho e de motorista, CPF, título de eleitor, e a todo instante tenho de comprovar algo, onde moro, quanto ganho, se sou casado ou solteiro, e eles querem sempre que envie papéis assinados para algum lugar, e eles pedem que eu abra apepês e sites e me pedem senhas. Deus, como eles gostam de senhas! Tenho um caderno de senhas, já contei isso. Estão todas ali, anotadas, mas, desgraçadamente, algumas não funcionam mais. Eles dizem que a senha perdeu a validade e mandam que faça outra e a senha tem de ser como eles querem, com números e letras e com maiúsculas e símbolos, tipo *&¨%$#@. E mais: eles adoram que eu frequente cartórios, volta e meia tenho de ir a um cartório para que minha assinatura receba um carimbo e aquela carimbada custa algum dinheiro. Parte do meu trabalho é para pagar carimbos e papéis certificando coisas.

Sou uma pessoa muito certificada. Bem mais do que foi Alexandre, o Grande. Está certo: provavelmente não conquistarei o mundo, como ele conquistou. Mas guardarei para sempre, na memória, algo que ele jamais teve: o número inteiro do CPF. Isso ninguém me tira.

DAVID COIMBRA

03 DE MARÇO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

RESPEITO AOS IDOSOS

O drama da falta de leitos de UTI para dar suporte a todos os pacientes com covid-19 em estado grave tem causado especial preocupação entre idosos, pelo receio de que, caso adoeçam e precisem de um cuidado com maior complexidade, possam ser preteridos, com alguém mais jovem passando à frente. Essa inquietação levou a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia no Rio Grande do Sul (SBGG-RS) a se manifestar sobre a situação, que também passou a ser um dilema vivido no dia a dia pelos médicos intensivistas nas últimas semanas, que precisam fazer a dura escolha de quem será direcionado à terapia intensiva e quem permanecerá em um leito clínico, sem a atenção que o caso deveria merecer.

O alerta pertinente da entidade é de que disseminou-se a percepção de que o critério da idade seria um fator definitivo na decisão, pelo argumento simplificado de que mais jovens teriam maiores possibilidades de sobrevivência. Assim, adverte a SBGG-RS, haveria o risco de idosos até desistirem de buscar atendimento em situações mais delicadas, pela falsa certeza de que não teriam chances de conseguir vaga em uma UTI, caso precisassem. Ou seja, seriam "deixados para trás", como pontua a nota divulgada pela entidade.

O fato é que essa compreensão, felizmente, não está correta. Os critérios de escolha levam em consideração principalmente quem tem mais condições de se recuperar, embora a idade também possa ser um fator avaliado. Um indivíduo mais jovem que outro, por exemplo, pode ter uma expectativa de vida menor por ser portador de outras comorbidades ou doenças crônicas.

Ciente da possibilidade de que em algum momento essa dolorosa "escolha de Sofia" tivesse de ser feita, o Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul (Cremers) aprovou um protocolo para regulação dos leitos de UTI, caso um dia chegasse o temido colapso do sistema de saúde, como se assiste agora. Na primeira versão, do final de maio do ano passado, a questão etária era contemplada, mas uma revisão, publicada poucos dias depois, excluiu corretamente esse critério para auxiliar na classificação dos pacientes que teriam prioridade. "Entende-se que a análise deva ser feita levando em consideração as particularidades de cada caso", diz trecho da resolução do Cremers que serve como auxílio para a tomada de decisão dos médicos reguladores e intensivistas, embora admita que o tema da idade do paciente gera uma discussão ética importante.

A SBGG-RS lembra a existência de pesquisas apontando o quadro de saúde de uma pessoa até a internação como fator significativo para a avaliação da possibilidade de sobrevivência. Assim, a idade não pode ser um fator isolado para a decisão sobre quem terá chances maiores de recuperação por ser levado a uma UTI. O próprio Conselho Federal de Medicina tem uma resolução de 2016 sobre unidades de tratamento intensivo em que não aborda o ponto etário como critério. A realidade, no entanto, é que não há leitos para todos. Diante do quadro com maior necessidade do que oferta de vagas e da perspectiva de aumento dos casos de covid-19 nos próximos dias, o verdadeiramente vital, agora, é tomar todos os cuidados possíveis, como evitar aglomerações, usar máscara corretamente e fazer sempre a higienização das mãos para diminuir contágios e a pressão sobre os hospitais.

 


03 DE MARÇO DE 2021
TICIANO OSÓRIO INTERINO

O terror que nunca morre

Vocês já viram o Homem Invisível? Eu já. Três vezes. E a cada vez fecho os olhos para os furos de roteiro desse filme lançado no ano passado nos cinemas (lembram desse lugar?) e hoje disponível no streaming. Prefiro ficar admirando a transformação do personagem.

Mas não estou falando dos efeitos visuais. Eu me refiro à transformação sofrida pela própria história.

O Homem Invisível é um dos filhos eternos paridos pela literatura fantástica do século 19 e depois vitaminados pelo cinema dos anos 1930. Todos permanecem entre nós porque espelham dilemas, pesadelos e pulsões que atravessam gerações. Frankenstein nos alerta sobre os perigos de brincar de Deus - o debate sobre limites da ciência segue atual em tempos de edição do DNA. O Médico e o Monstro sintetiza a dualidade humana - todos temos um lado obscuro, não? Drácula não oferece apenas uma metáfora sobre a insaciabilidade do desejo sexual - os vampiros que sugam sangue também podem ser lidos como a elite que explora os trabalhadores. O Homem Invisível também pode, com o perdão da piada infame, ser visto de várias maneiras.

Aliás, essa é uma característica das histórias de terror: elas se vestem conforme o figurino da época. Peguem os zumbis, por exemplo. Já foram usados em alegorias sobre as minorias vítimas de intolerância e preconceito; em críticas ao consumismo e ao militarismo; como símbolos da desigualdade social, tanto no âmbito das cidades quanto na geopolítica mundial; como produto de nosso descaso com a natureza ou com a saúde; e como consequência das circunstâncias (políticas, econômicas, sanitárias etc.) que nos tornam irreconhecíveis e irreconciliáveis uns aos outros.

Criado em 1897 pelo escritor H.G. Wells, o Homem Invisível já nasceu lidando com temas grandes: ambição, solidão, incompreensão. Nos seus quase 125 anos de vida, ganhou abordagens em tom de comédia, mas no fundo é um personagem sinistro ou triste, um veículo para histórias sobre a intoxicação pelo poder e pela impunidade, sobre como a sociedade pode tornar invisíveis algumas pessoas.

Na sua mais recente, hum, encarnação, o Homem Invisível opera um dos elementos clássicos associados ao personagem, o do voyeurismo - marca identitária do próprio espectador de um filme. E o diretor Leigh Whannell acaba nos fazendo cúmplices do terror, graças ao modo como movimenta a câmera e alterna o ponto de vista das cenas.

Mas o que realmente distingue o seu Homem Invisível dos anteriores - comprovando a longevidade e a capacidade de adaptação do personagem - é que ele passa a simbolizar os relacionamentos tóxicos.

O protagonismo nem é do cientista que descobre um jeito de alcançar a invisibilidade, mas da sua esposa: ela também foi apagada, só que não por vontade própria.

- Ele controlava o que eu vestia, o que eu comia, como eu caminhava, até o que eu pensava - desabafa a certa altura, depois de fugir.

Traumatizada, a mulher começa a enxergar o marido em qualquer vulto masculino. Afinal, um homem invisível pode estar em qualquer lugar. E um homem abusivo está em todo lugar. Mesmo depois de morto, segue projetando sua sombra.

Quando coisas estranhas começam a acontecer, ela passa a desconfiar de que o sujeito voltou a atormentá-la, a ameaçá-la, a agredi-la, a sabotá-la. Ela grita, mas ninguém acredita. Sua sanidade é posta em xeque:

- É isso o que ele faz: ele me faz sentir que eu sou a louca da relação!

Aí está um Homem Invisível que, infelizmente, muitas mulheres poderão reconhecer até de olhos fechados.

TICIANO OSÓRIO - INTERINO

03 DE MARÇO DE 2021
CHAMOU ATENÇÃO

O gambito do WhatsApp

Enxergar as jogadas pelas mãos é como Oneide de Souza Figueiredo, 57 anos, define o xadrez:

- O tabuleiro é visto pelo toque.

Com mais tempo em casa devido ao distanciamento social imposto pela pandemia, o servidor público estadual decidiu dividir seu conhecimento sobre xadrez a partir de grupos de WhatsApp. Em seu apartamento, no bairro Menino Deus, em Porto Alegre, criou o projeto Xeque-Mate para Todos. Pelo aplicativo, reúne 70 alunos, além de 30 professores de diversos Estados.

Com cegueira total desde o nascimento, Figueiredo virou referência no jogo e hoje integra a diretoria da Federação Brasileira de Xadrez para Deficientes Visuais (FBXDV). Além da paixão pelo tabuleiro, define as horas dedicadas ao passatempo como maneira de combater a saudade dos en­contros com outros jogadores.

- Cresceu demais o número de pessoas que querem aprender a jogar xadrez. Teve a série O Gambito da Rainha, que popularizou ainda mais - afirma, ao citar a obra da Netflix que conta a história de uma enxadrista e que venceu dois prêmios no Globo de Ouro no último domingo.

Para atender à necessidade dos deficientes visuais, participantes usam superfície de madeira adaptada, com pinos de fixação sob as peças. O encaixe abaixo de cada peão, torre, cavalo, bispo, dama e rei permite que o jogador encoste em cada um sem receio de derrubar.

- Para nós, a jogada começa quando se levanta a peça - diz.

O jogo segue as demais regras de jogadores com visão plena, e as adaptações se restringem à construção dos itens: as pretas têm o topo pontiagudo, e as casas da mesma cor são elevadas em relação às brancas, expedientes que possibilitam que o cego identifique o seu campo. Quem quiser participar do grupo deve contatar o instrutor pelo telefone (51) 99835-3585.

TIAGO BOFF

terça-feira, 2 de março de 2021


02 DE MARÇO DE 2021
DAVID COIMBRA

Notícia número 1:

No sábado, um áudio de WhatsApp contaminou celulares de toda a cidade como se fosse um corona: uma família da Zona Sul pediu comida por aplicativo e foi assaltada pelo entregador. Ou por alguém que se fazia passar pelo entregador. O fato, confirmado pela polícia, causou grande comoção entre os porto-alegrenses. Então, não podemos nem sequer usar a telentrega dos restaurantes, justamente no momento em que mais se precisa desse serviço? Há gente em pânico na cidade. Temo que os bons entregadores acabem sofrendo com esse medo. O medo é um sentimento muito perigoso, torna as pessoas agressivas. Tomara que a polícia resolva logo o caso.

Notícia número 2:

Foi deflagrada, na cidade, a "Guerra das Belezas", é assim que vem sendo chamado esse conflito quase bélico.

Deu-se o seguinte: no sábado, o mais famoso dos proprietários de salões de beleza de Porto Alegre, Hugo Moser, foi reclamar de um concorrente que manteve as portas abertas mesmo durante a bandeira preta das restrições anti-covid. Hugo e a dona do salão bateram boca, ela mandou que uma funcionária filmasse a discussão e o vídeo caiu no WhatsApp e pelo WhatsApp se propagou.

Aparentemente, a intenção da dona do salão com o vídeo era constranger Hugo Moser. Mas não pegou bem a infração às regras de combate à pandemia e o Hugo ganhou a solidariedade da maioria das pessoas. Depois da repercussão do episódio, a dona do salão publicou uma nota dizendo que abrira apenas para fazer limpeza e pagamentos. Mas nada disso foi dito na discussão com o Hugo. Além disso, há de se questionar: é necessário abrir um estabelecimento para limpá-lo? Acho que Hugo ganhou a guerra já na primeira batalha.

Notícia número 3:

Essa eu já sabia e já havia antecipado: o Grêmio perdeu, perderá de novo e não conquistará a Copa do Brasil.

Renato tinha de mudar o time, se quisesse vencer o Palmeiras. Mudou, e mudou errado: mexeu no goleiro. Manteve sua frágil ala direita e seu sonolento camisa 10 no meio-campo.

O Grêmio, como tem sido durante quase toda a temporada, foi previsível e inoperante. Esse time, com esses jogadores, não tem condições de bater o Palmeiras. No domingo passado, perdeu só por 1 a 0 porque o Palmeiras teve um jogador expulso. No domingo que vem, será presa fácil em São Paulo. Para fazer um enfrentamento minimamente digno, o Grêmio tem de mudar muito. Não mudará. Perderá. Talvez perca feio.

Veja que serviço presto a você, leitor: já lhe dei uma notícia do próximo fim de semana.

A Guerra das Belezas, o assalto por telentrega e o futuro do Grêmio

Vamos agora às notícias mais trepidantes do início da semana em Porto Alegre. Primeiro, tratemos de duas que explodiram na internet, borbulharam para fora das redes sociais e ganharam o chamado "mundo real".

A propósito, uma consideração filosófica: existe mundo real? Porque o meu mundo real é um, o do deputado é outro, o do batedor de carteiras outro ainda. O que é o mundo real?

Bem. Por ora, isso não importa. O que importa são as notícias mais trepidantes do início da semana. Ei-las:

DAVID COIMBRA

02 DE MARÇO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

A FALTA DE OPÇÃO

O agravamento da pandemia em meio à vagarosa vacinação contra a covid-19 no país tem levado governos estaduais e prefeituras a adotar uma nova rodada de restrições a atividades. As medidas, necessárias para evitar uma aceleração ainda mais drástica das infecções pelo novo coronavírus e o caos nos sistemas de saúde, eliminam neste momento qualquer esperança de recuperação do mercado de trabalho. Sem perspectivas de queda do desemprego, não há outra opção a não ser voltar a lançar mão do auxílio emergencial, como já acordaram o governo federal e o Congresso.

O presidente da Câmara, Arthur Lira, confirmou ontem que a intenção é pagar, a partir deste mês, quatro parcelas de R$ 250 para a população mais afetada pela falta de ocupação. Assim como no ano passado, os recursos também terão a função de evitar uma retração mais aguda da economia, por movimentar especialmente o consumo. Mesmo com um valor inferior ao de 2020, o auxílio emergencial é, por ora, a única ferramenta de curtíssimo prazo disponível para evitar o aumento da miséria e mitigar riscos de instabilidades sociais e tensionamentos institucionais. Alcançar outra vez recursos para os mais desvalidos, portanto, não é uma alternativa, mas uma imposição. E há pressa.

A expectativa é de que hoje o senador Marcio Bittar (MDB-AC) apresente novo parecer sobre a PEC Emergencial, viabilizando a retomada do auxílio. O mecanismo de transferência de renda, entretanto, tem de vir acompanhado de outras medidas de cortes de gastos que compensem o novo esforço do caixa. É um equilíbrio indispensável para não tornar a ajuda financeira vital para mais de 30 milhões de brasileiros uma fonte de agravamento da crise fiscal. Caso contrário, alimenta-se o perigo de rombos orçamentários ainda maiores, que se traduzirão ali na frente em mais inflação, alta dos juros, deterioração da confiança dos agentes da economia e receio ainda maior de investidores internacionais, frustrando outra vez a recuperação do PIB. É preciso ficar claro de onde sairão os recursos, sem que esta fase de apontamento das contrapartidas fique para um segundo momento, como se cogita, fatiando a PEC.

A inevitabilidade de voltar a pagar o auxílio emergencial decorre de uma série de erros do governo federal. Enquanto outros países vivem uma fase descendente da pandemia, o Brasil vê o número de casos, internações e mortes reacelerar pelo atraso na vacinação, fruto da incúria na negociação de imunizantes com um maior número de laboratórios. A falta de uma orientação uníssona que incentivasse o uso de máscara e desaconselhasse aglomerações, da mesma forma, contribui para que o vírus se espalhe rapidamente, abrindo margem para o surgimento de novas variantes, mais contagiosas e agressivas. 

O resultado é o recrudescimento da covid-19, com reflexos nefastos na atividade e no emprego. O coerente, para qualquer governo racional, seria não incorrer mais no mesmo erro. Assim, o mínimo que se espera é que o governo federal cumpra a promessa de entregar, até maio, mais 140 milhões de doses. Uma campanha de imunização que avance o mais rápido possível, freando contaminações e mortes, é hoje o melhor pacote econômico de que o Brasil pode dispor. 


02 DE MARÇO DE 2021
CHAMOU ATENÇÃO

Em um ano, 90 gatos resgatados

Foi o incômodo em ver a grande quantidade de animais na rua e, depois, o agravamento da pandemia que fez a técnica em radiologia Lisie Minuzzo, 38 anos, decidir mergulhar numa vontade antiga: ser voluntária e ajudar a socorrer bichos de rua em Porto Alegre.

O primeiro resgate, ainda em 2019, em uma praça repleta de gatos na Zona Norte, parecia não ter dado muito certo: ela foi mordida por um felino e precisou até tomar vacinas. Mas o começo errático trouxe resultados no futuro. Em pouco tempo, Lisie passou a conhecer outras mulheres interessadas em ajudar e, juntas, formaram o projeto Dê uma Chance.

Desde fevereiro de 2020, a iniciativa já resgatou e conseguiu lares para 90 animais - sendo a maioria gatos, a paixão da idealizadora, que já tinha sete, parte deles que seria descartada de gatis e dois que adotou naquele primeiro resgate, em que foi mordida.

O projeto existe graças à boa vontade e à dedicação de nove pessoas - além de Lisie, sete mulheres tocam sua rotina em paralelo às atividades e há um homem que se juntou ao grupo depois. Entre elas, uma juíza, uma psicóloga, uma enfermeira e uma barbeira. Uma das integrantes é veterinária e é a responsável por coordenar a metodologia que será aplicada em cada animal. Sem sede fixa, o projeto precisa de doações em dinheiro e itens para castração e tratamento, além de ração. Os gatinhos ficam de forma temporária nas casas dos voluntários até serem adotados.

- Precisamos da ajuda de todos. Temos uma rede de acolhimento muito boa, mas toda a ajuda é bem- vinda - afirma Lisie.

O projeto pode ser encontrado no Instagram @projeto_deumachance e no Facebook ou no telefone da fundadora: (51) 99356-7181.

VITOR ROSA


02 DE MARÇO DE 2021
NILSON SOUZA

Quando a escola vai ao aluno 

Conversei na semana passada com a diretora de uma escola pública da Capital que não abandonou os seus alunos durante a pandemia. Nem um. E não são poucos: 1.174. Todos, sem exceção, receberam os conteúdos de suas respectivas séries - ou por ensino remoto, ou por material impresso recolhido pelos pais na escola, ou (para a parcela dos desalentados, sem acesso à tecnologia e sem ânimo para estudar) pela busca ativa.

- Formamos uma força-tarefa para correr atrás desses alunos e fomos nas suas casas levar material, cobrar tarefas e conversar com as famílias - conta a professora Susana Silva de Souza, que dirige a Escola Estadual de Educação Básica Gomes Carneiro há seis anos.

Nada foi fácil. No início, poucos professores estavam preparados para o trabalho online. Alguns, conta a diretora, tinham verdadeiras crises de ansiedade para lidar com o computador ou com o celular. Mas aprenderam, com a ajuda de colegas mais familiarizados com o mundo digital ou mesmo dos próprios alunos. O colégio mapeou os estudantes sem acesso à internet e convocou pais e responsáveis para recolher material impresso na escola. Restou o grupo de maior risco de evasão, formado por desconectados e desinteressados.

- Fomos nas suas casas e, em algumas, ficamos esperando até o pai ou a mãe chegar do trabalho, para convencê-los de que era importante manter o vínculo com a escola.

A Gomes Carneiro não fechou, nem nos piores momentos da pandemia. A determinação do grupo diretivo formado pela diretora, três vice-diretores, duas orientadoras e uma supervisora contagiou os demais professores. Todos (64 no total) se envolveram de alguma forma com a missão de levar a escola aos alunos isolados pela pandemia.

Deu muito certo.

A escola da Vila Ipiranga, na zona norte de Porto Alegre, concentrou a busca ativa no último grupo de alunos que ameaçava desistir, resgatou cada um deles para as aulas de recuperação em janeiro e chegou ao final do primeiro ano da pandemia com 100% de aprovação. Embora tenha sido um ano de promoções automáticas, esses alunos receberam atenção, mantiveram o vínculo com a escola e a perspectiva de um futuro digno.

O Brasil tem jeito, sim!

NÍLSON SOUZA

02 DE MARÇO DE 2021
INFORME ESPECIAL

Entidade alerta para preconceito contra idosos

A Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia do RS está questionando os critérios divulgados em algumas entrevistas para definir a prioridade no tratamento da covid-19 no Estado. A entidade não aceita que a idade cronológica prepondere para definir a prioridade de suporte, sob o argumento de que nem sempre as pessoas mais jovens têm maiores chances de sobrevivência.

Em nota assinada por João Senger e Gustavo Pereira, presidente e integrante da associação, essa prática é classificada como ageísmo (discriminação contra pessoas pela idade). Para eles, "esse pensamento reflete falta de empatia e respeito à pessoa idosa". Além disso, temem que o medo de serem barrados leve muitos idosos a deixarem de buscar atendimento e suporte de saúde em casos mais delicados.

O texto da entidade ressalta também que diversos estudos científicos demonstram que a capacidade funcional prévia à internação é um marcador significativo para definir chance de sobrevivência.

Assim, idosos saudáveis e com boa funcionalidade podem ter inclusive melhor prognóstico do que pacientes mais jovens. "A idade cronológica não representa fator isolado sobre escolha de prioridade, conceito já bem estabelecido na literatura científica e entre profissionais envolvidos nesse difícil processo no cenário hospitalar", afirma a nota enviada ao Informe Especial.

Bolsonaro abre brecha para Leite encher o RS de dinheiro 

Bem que Eduardo Leite poderia aceitar a provocação de Jair Bolsonaro. Em mais um dos seus arroubos de truculência negacionista, o presidente declarou que os Estados que restringirem a circulação de pessoas deveriam pagar pelo auxílio emergencial.

O governador gaúcho deveria usar a sua projeção nacional para dizer que concorda e acha justo, desde que a lógica se aplique para ambos os lados. Nesse caso, o governo federal, que debocha da pandemia, incentiva aglomerações, rejeita o uso máscaras e defende tratamentos sem comprovação científica deveria pagar por todos os prejuízos decorrentes disso, tanto na esfera pública quanto na privada. Bem como indenizar as famílias que perderam parentes por acreditarem que a covid-19 era uma gripezinha, que iria passar logo, que máscara não funciona e que a vacina transforma as pessoas em répteis.

Seria uma conta altamente lucrativa para o Rio Grande do Sul e para todos os Estados. Mas não vai se realizar, embora faça todo o sentido. O governo federal quebraria de vez.

TULIO MILMAN

segunda-feira, 1 de março de 2021


01 DE MARÇO DE 2021
DAVID COIMBRA

Um ano, neste mês

Quando me mudei para os Estados Unidos, achava que viveria lá um ano, no máximo. Mesmo assim, procurei pelo melhor lugar possível para morar. Levado por corretores, visitei diversos apartamentos. Uns mais caros, outros bem baratos, como os famosos basements, que são, na verdade, meros porões. Só que não exatamente como os daqui. Os basements americanos ficam, óbvio, na base dos prédios - pode ser um edifício de apartamentos, pode ser uma casa. No entanto, ao contrário dos nossos porões, eles têm porta para a rua e janelinhas na parede da frente. Mas, como estão enterrados abaixo da linha do solo, as janelinhas ficam no alto, próximas ao teto, você não pode se debruçar nelas para ver o movimento.

Conheci basements ajeitados, bonitos e agradáveis. As pessoas que lá viviam pareciam felizes. Uma das corretoras que me atendeu insistia para que alugasse um - era mais barato, era espaçoso, era até arejado, argumentava. Ideal para quem moraria ali apenas um ano. Eu não queria. Podia ser por seis meses, três, um, não interessava - preferia passar meus dias em um local no qual sentisse que poderia viver para sempre.

É o critério que emprego quando vou fazer uma escolha. "Isso é algo que me apeteceria ?para sempre??". O curioso é que me faço essa pergunta exatamente por saber que o "para sempre" não existe. Nada é para sempre, tudo é provisório. O que torna todo o provisório eterno.

Não é uma contradição. Seguindo com o tempo em que vivi nos Estados Unidos como exemplo, pensava que seria um ano, foram seis. Um expressivo pedaço de tempo que foi importantíssimo para mim e para minha família. Temos essa época como um tesouro guardado, uma poupança de boas lembranças da qual podemos lançar mão a todo momento. Um tipo de vida que experimentamos e que não deixou de existir, porque está em nós. Pode ser usado eternamente.

É interessante como uma única vida é feita de várias outras menores. Se você pensar na sua experiência, vai constatar isso. Falo da minha, porque é a que tenho. Posso dividi-la em muitas diferentes, com situações diferentes, personagens diferentes, cenários diferentes e até com o protagonista diferente. No caso, eu. Porque mudei bastante e continuo mudando, não sou igual ao que era.

Então, foram múltiplos tipos de vida que tive. Que tiveram seu tempo e que não voltam. Acabaram.

Mas, por fazerem parte da minha bagagem, continuam comigo. Ou seja: acabaram, mas não deixaram de existir.

Talvez esteja fazendo filosofices na segunda-feira, mas precisava tecer essas considerações a fim de abordar o que está acontecendo conosco hoje, no presente pulsante.

Estamos em março. No ano passado, por esta época, a cidade começou a fechar por causa da peste. Ficamos acantonados nas nossas casas, calculando quanto tempo teríamos de permanecer naquela condição. De repente, surgiu uma data: 6 de abril. As pessoas falavam que 6 de abril seria o dia do "pico" e que, depois disso, viria a queda da contaminação e a volta à normalidade. Veio o 6 de abril, tudo continuou igual. Então, falou-se em 20 de abril, e aquele dia se foi e nada mudou. Passada essa data, ninguém mais se arriscou a falar em dia; falava-se em mês. O pico seria em maio, em junho, em julho. "Esta quinzena será decisiva", alertavam as autoridades, a cada quinzena. Só em setembro a pandemia arrefeceu. E agora recrudesceu. Continuamos na mesma situação, é o nosso Dia da Marmota.

Estamos vivendo tempos provisórios que não terminam nunca. Já é um bom pedaço de vida. Já é significativo. O que me leva a questionar: mais tarde, nas próximas vidas que viveremos, será que teremos coisas boas sobre este período guardadas na conta-corrente da nossa experiência?

DAVID COIMBRA

01 DE MARÇO DE 2021
É DEMÓÓÓÓIS

DERROTA GREMISTA

Ficou muito mais difícil. Importante dizer que, além do gol marcado por Gustavo Gómez, o Palmeiras teve ainda duas grandes chances de gol que, se convertidas, teriam encaminhado o título do time paulista. Com a expulsão boba do zagueiro Luan, o jogo tomou outra forma. Renato encheu o time de atacantes e foi para dentro do Palmeiras. Criou muitas jogadas ofensivas, mas quase nenhuma com qualidade. Weverton fez uma única defesa num chute do Ferreirinha.

No mais, foram só intervenções. Encontrou momentos de bombardeios, mas o grande lance, a grande chance, o Grêmio não teve. Está aberta a decisão, mas com muito mais dificuldades. Esta desvantagem é preocupante. O Grêmio ataca mal. Jean Pyerre some, Pepê não joga. E quando Alisson se torna o atacante que mais produziu, é porque os outros estão muito mal. Renato continua com dificuldade para escalar Ferreirinha, ainda que ele entre em campo e jogue muito.

GAUCHÃO Ele está de volta. De volta também está a chance de ver jogadores jovens em ação, começando a ganhar estrutura de atletas em competição. Vale para a dupla Gre-Nal e para o Interior. Mesmo sendo clube pequenos, cabe a eles vasculhar suas regiões e tentar encontrar jogadores. Em cada rincão deste Estado tem um time de futebol, em cada pequeno município tem uma prefeitura promovendo jogos de futebol em campeonatos locais. Ramírez chega no Inter com o cartaz de que trabalha com jovens. O novo técnico do Grêmio receberá muita pressão dos dirigentes para que lancem e coloquem ação os jovens produzidos nas categorias de base

Cada vez mais o nosso regional se faz importante na formação de jogadores. Quero ver os garotos colorados esta noite como primeira experiência contra o Juventude. E é apenas a primeira atração.

JOGO DE POSIÇÃO Está na coluna da superedição de final de semana do meu querido vizinho de página, Leonardo Oliveira. Mas o que é jogo de posição? Eu sempre conheci jogo de bola, onde ela é a prioridade e atrás dela todos correm. Claro que se estas corridas forem organizadas, muito melhor. Serão corridas menores, o adversário terá menos campo para desenvolver seu futebol, ou seja, estenderá um time organizado. Agora jogo de posição é demais.

Depois de ler toda coluna do Leonardo, fiquei sabendo ainda menos desta invenção. Esta é a grande preocupação que tenho em relação ao Inter. O aclamado treinador espanhol que está chegando, segundo muitos para dar um patamar avançado ao Colorado, tem apenas 70 jogos como profissional, um título sul-americano, que pouco representa, e treinou um time de empresários, sem as cobranças dos grandes clubes de torcida, e antes era treinador de categorias de base.

APOSTA O Inter mandou Abel Braga e seus títulos embora para ter esta aposta, o que me gera muita intranquilidade. No ano passado, me aplicaram que viria Eduardo Coudet e que o Inter mudaria. Discurso muito parecido. Só que Coudet era muito mais rodado. E não se viu nenhuma revolução. Acabou indo embora, o que foi bom, pois veio Abel e faltou só um gol para o time ser campeão brasileiro. Mas, independentemente da frustração, foi um grande trabalho.

Ramírez chega para o "jogo de posição". Só ele e o Leonardo Oliveira sabem o que é isto. Quero aprender, ser menos ignorante, mas deixando claro que Coudet, o revolucionário, só revolucionou quando "demitiu o Internacional". Irá receber bons jogadores formados na gestão do Medeiros, um time pronto formado pelo Abel, muitos jovens e os quatro lesionados. Treinador bom é aquele que faz trabalhos importantes com tudo isto que o Inter está lhe entregando.

PEDRO ERNESTO

01 DE MARÇO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

EM CAUSA PRÓPRIA

Os brasileiros aplaudirão de forma efusiva os deputados federais se, nas próximas semanas, também dedicarem as sextas-feiras, dia em que o Congresso costuma ficar às moscas, à tramitação e votação de matérias essenciais e urgentes para o país, como temas relacionados ao combate à pandemia, ao auxílio emergencial e às reformas. Tamanha mobilização três dias atrás, no entanto, não era para nenhuma dessas nobres tarefas. Desde a metade da semana passada, um grupo de parlamentares, centrão à frente, se reuniu para tentar aprovar, de afogadilho, a chamada PEC da Imunidade - rapidamente, claro, apelidada de PEC da Impunidade.

Trocando em miúdos, a proposta de emenda à Constituição dificulta a prisão de deputados e senadores em certos casos. Ou seja, os deputados federais estavam em plena sexta-feira em Brasília não trabalhando em prol da população, mas tentando legislar em causa própria. A celeridade repentina teve como motor o episódio do parlamentar bolsonarista Daniel Silveira (PSL-RJ), detido há quase duas semanas por ameaças a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), à própria Corte e por pregar um novo AI-5 no Brasil. Para o bem do país, a péssima repercussão da tentativa na opinião pública e a falta de acordo para votar o texto na sexta-feira levaram à decisão do restabelecimento dos ritos adequados. Presidente da Casa e um dos articuladores da PEC, o deputado Arthur Lira, derrotado, decidiu enviar a proposta para começar a ser discutida em uma comissão especial, o que é praxe.

Pelo texto da PEC, decisões judiciais não poderiam mais afastar parlamentares de seu mandato. Um ministro do STF não poderia mais, de forma monocrática, decretar prisão cautelar de um legislador, como foi o caso de Silveira. A decisão teria de ser do plenário. Permaneceria a possibilidade de deputados e senadores serem presos por crime inafiançável em flagrante, mas ficariam sob custódia da respectiva Casa até o plenário votar a decisão. Os parlamentares também responderiam por declarações apenas nos conselhos de Ética e não poderiam mais ser responsabilizados civil ou criminalmente.

Além do teor controverso, o rito de tramitação a jato tentado pela Câmara foi nitidamente descabido. Não há justificativa plausível para a urgência, a não ser o temor disseminado de ter destino semelhante ao do deputado Silveira, seja qual for a razão, desde um ataque à democracia até o manejo inadequado de dinheiro público. O correto, como será agora, é uma ampla discussão sobre a matéria.

Uma das justificativas para a PEC era definir de forma mais clara os limites da imunidade. Parlamentares têm - e precisam ter - prerrogativas e garantias especiais pelas suas funções, como no caso de opiniões ou votos, mas a tentativa em curso era uma simples busca por blindagem, bem além do necessário equilíbrio e independência entre os poderes. Uma prova é o alto grau de interesse de deputados enrolados na Justiça com o tema. Imunidade não pode ser um escudo para irresponsabilidades, crimes ou falta de decoro. 

Há, notadamente, uma tentativa de proteção em relação ao STF, que tem sido instado a agir, nos últimos anos, devido à omissão dos próprios parlamentares nos conselhos de Ética. O da Câmara, por exemplo, cassou o mandato de apenas sete deputados, apesar das quase duas centenas de casos analisados desde 2002. Especula- se, agora, uma punição branda a Silveira. O ideal seria que o Congresso fosse mais rigoroso com condutas condenáveis de seus membros e tivesse menos espírito de corpo, condenando inclusive com a perda do cargo quem não possui estatura moral para ser membro do parlamento. Como parece não existir a disposição de uma guinada ética, aumentar as chances de impunidade claramente não está de acordo com os interesses da sociedade brasileira.


01 DE MARÇO DE 2021
CLÁUDIA LAITANO

Esforço de guerra

Aquela turma de pesquisadores do projeto "Sonhos em tempos da pandemia", que vem recolhendo e analisando relatos oníricos dos últimos meses, já deve ter topado com muitos pesadelos parecidos com o meu: sonhei que a Avenida Anita Garibaldi, no discreto trecho entre a Silva Jardim e a Arthur Rocha, havia se tornado um campo de batalha.

Eu tentava chegar em casa, a pé, ainda contente por ter acabado de escutar no rádio uma música nova do Nei Lisboa (fica a dica, Nei) quando avistei os blindados estacionados na frente do Zaffari da Anita. Soldados armados corriam de um lado para o outro entre farmácias e lojas de móveis, tiros estilhaçavam os vidros de uma agência bancária, o posto da esquina já corria o risco de explodir. Em meio a todo esse caos, meus vizinhos, confusos como eu, não sabiam para onde correr. Meu dilema era decidir se tentava chegar em casa de qualquer jeito ou se fugia dali o mais rápido possível. A angústia de não conseguir avançar na confusão nem chegar em casa fez com que eu acordasse.

Não é muito difícil rastrear as origens do "conteúdo manifesto" (a historinha que o sonho conta) ou os sentimentos mais profundos tentando vir à tona disfarçados. Nos últimos dias, já fora do Brasil, tenho conversado com muitos amigos angustiados com a situação de colapso em Porto Alegre. Não raramente, metáforas de guerra aparecem nas conversas: bunkers, bombardeios, sacrifícios, insegurança, medo de morrer. "Em tempos de racionamento de liberdade e satisfação pessoal, temos que comemorar cada batata de boa notícia que trazemos para casa", me vi consolando uma amiga, talvez exagerando um pouco no tom de autoajuda.

O fato é que quando a coisa aperta, até autoajuda ajuda. Lembrei daquele slogan motivacional lançado na Grã-Bretanha no início da II Guerra que se tornou mania mundial por volta de 2012. Durante algum tempo, as infinitas variações do "Keep Calm and Carry On" estamparam memes, camisetas, quadrinhos, almofadas, panos de prato... E, assim como a moda veio, foi. A certa altura, "Keep Calm and Carry On" virou o Romero Britto dos slogans motivacionais: ninguém aguentava mais.

É uma pena que a frase tenha se tornado xarope antes do tempo. Ou talvez o sucesso repentino de 10 anos atrás tenha sido uma espécie de alerta cósmico a respeito do que viria a acontecer nos anos seguintes: não uma guerra, mas uma pandemia que exige de nós não apenas as batatas que garantem a sobrevivência individual mas o espírito de coletividade que permite enfrentar os piores tipos de calamidade.

Em 2021, nunca foi tão importante exercitar a fleuma britânica de tentar manter a calma e tocar a vida mesmo quando uma bomba ameaça desabar sobre o seu telhado no meio da noite. Mas é preciso atualizar o mais conhecido slogan de resiliência do século 20 para as urgências do presente: Keep Calm, Carry On, mas não esqueça de usar máscaras e ficar em casa se puder.

CLÁUDIA LAITANO

01 DE MARÇO DE 2021
INFORME ESPECIAL

Dados vazados e golpes virtuais 

O número de estelionatos no Estado segue em alta no começo do ano. Em janeiro, foram 5,5 mil registros, 76% acima do mesmo mês de 2020. Também é três vezes superior a cinco anos atrás. Embora não existam estatísticas específicas, acredita-se que este avanço esteja ligado às tentativas de golpes usando a tecnologia, como a invasão de contas no WhatsApp e a criação de perfis falsos no mesmo aplicativo para conseguir a transferência de dinheiro, além da utilização de dados vazados para saque de auxílio emergencial e abertura de contas bancárias.

A preocupação cresce com os megavazamentos de dados. Em meados de janeiro, descobriu-se que informações de mais de 200 milhões de brasileiros eram negociadas na deep web, aumentando o risco de golpes e fraudes. Mês passado foi noticiado que o mesmo aconteceu com 100 milhões de números de celular.

- Desconfiamos que essas informações podem estar alimentando bancos de dados clandestinos de criminosos para a aplicação de golpes - diz o delegado André Anicet, titular da Delegacia de Repressão aos Crimes Informáticos e Defraudações, ressaltando que apenas com o passar do tempo será possível ter mais certeza da relação entre vazamentos e as tentativas eletrônicas de fraude.

O número de registros de estelionato no ano passado no Estado cresceu 120% em comparação com 2019, de acordo com as estatísticas da Secretaria de Segurança Pública. A percepção do dia a dia é de que este aumento é puxado pelos golpes virtuais, diz Anicet.

- Parece que os criminosos encontraram um nicho. Muitos podem estar no sistema prisional, mas presos por outras razões. Praticam um crime mais fácil, menos perigoso e com penas menores - explica o delegado, acrescentando que o ideal é trabalhar na prevenção para que as pessoas não sejam ludibriadas ou não tenham seus dados furtados.

No final do ano passado, a Polícia Civil gaúcha lançou o aplicativo de celular PC Alerta!, espécie de manual para se precaver de golpes do gênero.

CAIO CIGANA - INTERINO