quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

A demissão de Graça Foster, o esculacho de Dilma e o novo presidente da Petrobras

No final, Graça Foster foi demitida pelo que fez de certo, ao reconhecer uma perda de R$ 88 bilhões nos ativos da companhia, e não pelo que fez de errado

JOSÉ FUCS
03/02/2015 19h50 - Atualizado em 05/02/2015 09h57
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SOB FOGO Máscara de Graça Foster confeccionada a pedido de ÉPOCA. Sem poder brincar com Nestor Cerveró, foliões escolheram um novo mote para o Carnaval (Foto: Ilustração: Lovatto)
Depois de se recusar, estranhamente, a demitir a presidente da Petrobras, Graça Foster, contra todas as recomendações que lhe foram feitas por correligionários do PT e até por Lula, a presidente Dilma Rousseff mudou de ideia e decidiu finalmente defenestrá-la.
Não porque Dilma tenha se convencido de que a permanência de Graça Foster tornou-se um empecilho para ela dar a volta por cima do escândalo que abalou a Petrobras e chacoalhou o seu governo. Mas sim porque Graça resolveu deixar de lado o papel submisso que desempenhou durante toda a crise na companhia. De repente, Graça Foster surpreendeu a todos e desafiou a chefe e os caciques petistas, ao anunciar na semana passada uma perda de R$ 88 bilhões (!!!) no valor dos ativos imobilizados da Petrobras, equivalentes a mais de três vezes os gastos anuais do Bolsa Família.
Provavelmente, ao manter Graça no cargo, Dilma imaginava que ela continuaria a ser uma espécie de escudo para o governo, como aconteceu durante a campanha eleitoral e em seu depoimento à CPI da Petrobras, em meados de 2014, no Congresso Nacional. Só que Graça, vendo a sua reputação descer ralo abaixo, tentou salvar o próprio nome, se é que isso ainda é possível nesta altura do campeonato, ao reconhecer a extensão dos problemas contábeis que afetaram a Petrobras nos últimos anos. 
Embora os investidores tenham reagido com euforia à virtual saída de Graça Foster, puxando uma alta de 15% nos papéis da empresa nesta terça-feira, é curioso que, ao final, ela deixe o comando da empresa pelo que fez de certo, ao admitir que os ativos da companhia podem devem um deságio bilionário, e não pelo que fez de errado, dificultando ao máximo a apuração dos fatos do Petrolão.
Agora, o difícil será encontrar um abnegado ou uma abnegada que aceite assumir o pepino – uma missão que teria sido confiada por Dilma ao ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Só mesmo um executivo kamikaze aceitaria comandar a Petrobras, em meio à série de escândalos que atingiram a empresa, envolvendo não só as grandes empreiteiras mas os partidos políticos da chamada “base aliada”, em especial o PT.
Além de enfrentar os "aliados" que aparelharam a Petrobras como nunca se viu antes neste país, quem aceitar o cargo precisará  ter estômago para trabalhar sob a batuta de Dilma, cujoestilo pitbull é conhecido por todos que interagiram com ela desde os tempos em que esteve à frente do Ministério das Minas e Energia, no primeiro governo Lula.  O problema é que, neste caso, nem o tal adicional de insalubridade, pago pela Petrobras a seus trabalhadores de campo, parece suficiente para compensar o mau humor da chefe no dia a dia. Graça Foster que levou um esculhacho medonho de Dilma após reconhecer as perdas da Petrobras na semana passada, que o diga.

05 de fevereiro de 2015 | N° 18064
POLÍTICA EFEITO DO ESCÂNDALO

Renúncia de Graça e diretores antecipa mudança na Petrobras

CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO definirá amanhã quem ocupará a nova direção. Governo federal busca um nome que tenha preferência do mercado e dê um choque de credibilidade à empresa
Apresidente da Petrobras, Graça Foster, e outros cinco diretores renunciaram aos cargos, informou ontem a estatal, em nota ao mercado, citando que o conselho de administração se reunirá amanhã para escolher o novo comando da empresa.

Na terça-feira, Graça se reuniu com a presidente Dilma Rousseff, quando acertaram a mudança para depois da divulgação do balanço do ano passado da companhia. Mas os diretores não teriam aceito aguardar até março. O comunicado da Petrobras atendeu a pedido da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que cobrou a estatal sobre rumores da saída de Graça, que causaram fortes oscilações nas ações da empresa. Ontem, a CVM considerou insuficiente o sucinto comunicado enviado pela companhia informando a renúncia da diretoria e pediu mais explicações.

Estão de saída da empresa os diretores José Carlos Cosenza (Abastecimento), José Antonio de Figueiredo (Engenharia), José Alcides Santoro (Gás e Energia), Almir Barbassa (Finanças) e José Formigli (Exploração e Produção). José Eduardo Dutra (Serviços), ligado ao PT, e João Adalberto Elek Junior (Governança), ficam.

No lugar de Graça, que assumiu o cargo em 2012, os principais cotados são Murilo Ferreira, atual presidente da Vale, e Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central no governo de Luiz Inácio Lula da Silva (veja quadro). O Planalto procura um nome de fora da companhia, de preferência do mercado, que dê um choque de credibilidade à empresa, mas tem enfrentado dificuldades para encontrar um executivo que se disponha a assumir a estatal. Dilma deflagrou, no fim da semana passada, o processo de escolha de substitutos. A operação ficou a cargo do ministro da Fazenda, Joaquim Levy.


Em meio a troca de comando da empresa, empregados de fornecedores da estatal protestaram contra a crise no Complexo Petroquímico do Rio (Comperj).

05 de fevereiro de 2015 | N° 18064
DAVID COIMBRA

O ser humano é perigoso

Um homem queimado vivo dentro de uma jaula.

A cena não me sai da cabeça.

Primeiro fiquei revoltado com a falta de reação do mundo civilizado. Por que não conseguimos fazer algo contra esses monstros? Como é que a Humanidade ainda produz gente capaz desse tipo de crueldade?

Estava chegando à conclusão de que tais atrocidades são produto do fanatismo, da intolerância religiosa, do... Então lembrei do Brasil.

Sim, o meu Brasil, o nosso Brasil, onde as pessoas se relacionam com tanta descontração e irreverência, no nosso Brasil isso acontece. No alto dos morros da mais bela cidade do planeta, o Rio de Janeiro, os traficantes costumam punir desafetos com a morte no que eles chamam de “micro-ondas”: enfiam a vítima numa pilha de pneus e a queimam viva. Não foram dois ou três que morreram assim no Rio: foram dezenas. Não faz muito, mãe e filha foram arrancadas de uma casa e arrastadas para uma favela, onde tiveram esse fim terrível.

Confesso que a lembrança me deixou desnorteado. Os traficantes cariocas não cometem essa barbárie por convicção religiosa ou ideológica, que é o caso dos terroristas do Estado Islâmico. Cometem apenas por maldade.

O que iguala um traficante que vive às margens das ondas plácidas do mar do Rio a um fanático religioso no meio da aridez do deserto do Oriente Médio? Por que ambos chegam a esse ponto de indignidade e de desrespeito pela vida humana? Por que eles fazem o que fazem?

Resposta: Porque podem.

Não é só o fanatismo que leva um ser humano a tamanha degeneração, porque os traficantes não são fanáticos. Não é a falta de educação, porque os terroristas do Estado Islâmico não são ignorantes iletrados. O que os levou a isso, tanto no alto do morro quanto no deserto, foi o poder e a sensação de que nenhuma força institucional terá condições de detê-los.

O ser humano é perigoso.

Se é verdade que a maioria das pessoas só quer viver em harmonia e morrer em paz, sempre haverá os que sublimarão o seu mal-estar na civilização com a violência que lhes palpita no peito. Para esses é feita a lei. Com esses o Estado tem de estar eternamente vigilante.


As feras do fundamentalismo islâmico o mundo terá de resolver com toda a habilidade e força de que puder dispor. As nossas feras, essas, nós, brasileiros, teremos de eliminá-las. E só há uma forma de fazer isso: retirando-lhes o poder. Retirando-lhes o dinheiro das drogas. É preciso legalizar as drogas já.

05 de fevereiro de 2015 | N° 18064
LUCIANO ALABARSE

O DIFERENTE É O INIMIGO

A legislação francesa não considera criminosas nem a blasfêmia nem a sátira às religiões, com uma ressalva: o cidadão que se sentir ofendido pode buscar reparação judicial. Mas a lei francesa enquadra racismo e terrorismo no rol dos crimes violentos. Como o massacre do Charlie Hebdo foi justificado pelos excessos de seu humor blasfemo, algumas manifestações, ao mesmo tempo, prestaram solidariedade aos humoristas assassinados e condenaram o humor politicamente incorreto da revista. O debate dos limites do humor voltou com tudo.

As perguntas: é possível absolver o riso que incita e promove a violência? É correto demarcar as liberdades de expressão? Há fronteiras entre esses territórios? Para Hobbes, o riso é um ato agressivo – pois denota percepção de cabal superioridade. Nessa perspectiva, o “Charlie Hebdo” é indefensável. Será?

Como disse Joel Pinheiro, no artigo “O riso correto da esquerda”, “violência não é monopólio de quem está por cima.” Uma sociedade que legitima a ridicularização de minorias está doente. Sim. Mesmo que o papa Francisco justifique como naturais reações físicas quando nossas amadas mães são ofendidas, nenhuma minoria pode sair fuzilando o mundo quando se sente ultrajada. O humor entra aí, para escancarar tais contradições. O humor politicamente correto, porém, postula que é possível fazer graça sem que ninguém se sinta ofendido. Não é. Quer que todos os gatos sejam pardos. Não são.

No estranho e premiadíssimo A Cidade & A Cidade, China Miéville coloca duas cidades cruzadas, Beszel (Ocidente?) e Ul Qoma (Oriente?), em convivência permanentemente vigiada. Antagônicas e complementares, as duas organizam-se em grupos radicais, onde o aparato policial paira acima de todos. Não há conciliação. O diferente é o inimigo. Do jeito que a coisa vai, chegaremos aí rapidinho. Apontada como “a ficção do novo século”, a fantasia delirante do livro se encaminha, na vida real, para ser um pesadelo permanente.


Cu-ru-zes, como diria o Téo Pereira.

05 de fevereiro de 2015 | N° 18064
L. F. VERISSIMO

Outra carta da Dorinha

Recebo outra carta da ravissante Dora Avante. Dorinha, como se sabe, não revela sua idade para ninguém, mas nega que já viu o cometa Halley passar duas vezes. Só o Pitanguy e Deus sabem a sua verdadeira idade, e um está aposentado e o outro está quase. Dorinha tem se reunido com o seu grupo de carteado e pressão política, as Socialaites Socialistas, que lutam pela implantação no Brasil do socialismo soviético na sua fase terminal, que é a volta ao feudalismo (mas esclarecido desta vez, segundo elas). As reuniões das Socialaites Socialistas também tratam do trabalho social do grupo.

Por exemplo: todas se comprometeram a doar seus botox para transplante, caso venham a morrer. O assunto predominante nas reuniões, claro, tem sido os escândalos das empreiteiras. Três do grupo estão com maridos presos, o que acham ótimo. “Assim pelo menos a gente sabe onde eles estão dormindo”, diz Suzana (“Su”) Cata, para inveja das que têm maridos soltos. Mas a preocupação maior de todas é... Deixemos que a própria Dorinha nos conte. Sua carta veio escrita com tinta púrpura em papel magenta cheirando a “Mange Moi”, um perfume proibido pelo Vaticano, mas que, dizem, o papa Francisco está prestes a liberar.

“Caríssimo! Beijos secos, para poupar saliva. Sim, estamos todas empenhadas na campanha contra o desperdício de água. Senti como o problema é grave quando fiz uma enquete no grupo e se revelou que todas – todas! – estão dando banhos nos seus cachorros com água mineral San Pellegrino. Menos eu, que lavo a ‘Desirée de Goumont’, meu poodle (o nome é maior do que ela), com champanhe rosê.

A Tatiana (‘Tati’) Bitati, vice-líder do grupo, abaixo de mim, acha que devemos começar a pensar num plano D, de dar o fora, se a crise hídrica piorar muito. Ela propõe o exílio e já se informou sobre um condomínio em Miami que só recebe brasileiros fugitivos da crise e tem o nome sugestivo de ‘Bye-bye Brazil’. Nos mudaríamos para lá até que os reservatórios enchessem de novo ou o país virasse um imenso Piauí e não houvesse mais razão para voltar. Mas assez de misère! Como o próximo Carnaval periga ser o último antes do Juízo Final, decidi voltar a desfilar.

Sim, estarei de novo na avenida! Só preciso encontrar meu agogô e meu tapa-sexo. O tapa-sexo foi visto pela última vez na boca da ‘Desirée de Goumont’, que brincava com ele distraída, sem se dar conta do simbolismo da cena. Meu único sentimento é que o Pitanguy não poderá estar ao meu lado, para ouvir o povo aplaudir meu corpo e pedir ‘O autor! O autor!’.


Da tua Dorinha”.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015


04 de fevereiro de 2015 | N° 18063
PEDRO GONZAGA

NO RODÍZIO

No tempo do encontro às escuras, a humilhação pública (ao menos a minha) costumava se dar em pizzarias baratas, em rodízios que propunham sabores já perdidos: pizza de pipoca, de cachorro quente, a odiosa Popeye (de espinafre), pizza de ovo, além das infinitas possibilidades da ervilha.

Meu amigo Pedro Damásio certa vez me contou de um rodízio espartano em que havia dois sabores. Com um canto de olho, flagrou o garçom, depois de oferecer um último pedaço de margherita, girar sobre o próprio eixo e no volteio recolher o tomate, enfiá-lo no bolso, para apresentar impávido: muçarela.

Em lugares assim, sob a luz de cadavéricas fluorescentes, lutando contra os urros das hordas, o sujeito (ocultando as espinhas com uns fiapos de barba rala), tentava a sorte com uma garota que um amigo (agraciado pelo namoro) vinha lhe apresentar. Tanto ela quanto eu já começávamos o encontro com a espada do encalhamento sobre a cabeça. Tudo isso agravado por um elemento que não se faz mais presente: não sabíamos que aparência a pessoa teria. (Aos leitores com mais de 30, lanço o desafio de não terem fugido de um encontro marcado pelo 138.)

Permitam-me certo romantismo, mas isso obrigava as pessoas a terem mais do que uma boa aparência. Quando se escolhe um par apenas por foto, opta-se pela utilidade. E como tudo aquilo que tem apenas utilidade, a mesma utilidade termina por se tornar inútil. Antes, os encontros quase sempre davam errado, mas isso não deixava de ser divertido. Hoje podem funcionar em cibernéticos matches, mas são apenas chatos.

Ninguém queria ser chato. Por isso alguns amigos se interessavam por astrologia, outros por Caverna do Dragão, em busca de ter uma boa conversa. Eu acreditava na literatura. Acreditava em ler os russos como diferencial. Andava com um volume de Crime e Castigo. Ou com Bukowski, anos depois. Mudam-se os meios, mudam-se as vontades.

Agora me parece engraçado ter presumido que a literatura tivesse esse poder. De volta àquele rodízio, no entanto, vendo-me desarmado porque ela não gostava de ler, sinto genuína compaixão por aquele jovem que não empurrou o assunto sobre ela, mesmo diante da derrota.



04 de fevereiro de 2015 | N° 18063
DAVID COIMBRA

Pela legalização das drogas

Havia, nos anos 70, uma dupla de músicos chamada de “a dupla da ditadura”: Dom e Ravel. Foram autores de várias musiquinhas ufanistas utilizadas pela propaganda do regime, o que lhes rendeu o opróbrio nacional depois de passados os anos do “milagre econômico”. Morreram amargurados e esquecidos, negando que tivessem feito qualquer composição a pedido dos militares, e acho até que era verdade. É bem provável que Dom e Ravel não apoiassem conscientemente a ditadura. Podiam ser considerados culpados, apenas, pelas músicas ruins que cometeram.

Uma delas tornou-se o hino do regime: Eu te Amo, meu Brasil. Era uma marchinha festiva. Começava assim: “As praias do Brasil ensolaradas, lalaiá-lá...”. E seguia num encadeamento condoreiro, elogiando as nossas mulheres, que têm mais amor, as nossas tardes, mais douradas, nossas mulatas, que brotam cheias de calor, e a nossa juventude, que ninguém seguraria.

Até certo tempo, o brasileiro, saudavelmente, nunca se levou a sério e sempre achou risível o patriotismo. Isso de as pessoas brigarem por causa de piada e cantarem o hino chorando é coisa recente. Então, corria na época uma versão debochada da música de Dom e Ravel, que dizia assim:

“A maconha no Brasil foi liberada, lalaiá-lá! Até o presidente já fumou, lalaiá-lá! E eu vou continuar na minha, tomando bolinha com o governador!

Eu te amo, meu Brasil, eu te amo! Meu coração é de Jesus e o meu pulmão da Souza Cruz!”

É uma gozação que agora parece bobinha, mas na época tratava-se de afronta rascante àqueles militares de óculos escuros.

“A maconha no Brasil foi liberada”, cantávamos nos anos 70, e isso causava escândalo. Hoje, maconha e demais drogas são liberadas em todo o território nacional. Duvido que haja país no mundo em que as drogas gozem de tamanha liberdade. No Brasil, o comércio de drogas é um capitalismo selvagem e irrestrito, sonho que nem os neoliberais mais radicais de Davos ousaram sonhar.

Qualquer um compra a substância que quiser na hora em que quiser, mas terá de pagar o preço que o traficante exigir. E assim o poder dos traficantes cresce e cresce a criminalidade e quase 60 mil pessoas morrem assassinadas por ano nesse paraíso de praias ensolaradas, lalaiá-lá.

O Brasil só conseguirá restringir as drogas se as controlar. Ou seja: tornando-as legais de direito, já que o são de fato. O Estado brasileiro deveria tomar a si a produção e a venda das drogas, cadastrando os consumidores, definindo os locais de uso, transformando as drogas em problema de saúde, não de polícia. Mais ou menos como é feito com o cigarro, que, com inteligência, está sendo banido da sociedade.


O dinheiro das drogas deveria ser investido, exatamente, no combate às drogas, na prevenção, na educação, em vez de ser investido na compra de armamentos para bandidos. Chega de hipocrisia. Chega de crianças morrendo vitimadas por tiroteios entre traficantes. Pela legalização das drogas. Antes que eles, os traficantes e seu dinheiro sangrento, acabem segurando a juventude do Brasil.

04 de fevereiro de 2015 | N° 18063
MOISÉS MENDES

A vingança das águas

O leito seco de um rio parece algo improvável, até que um dia o flagelo está a sua frente. Há exatos 10 anos, entrei no leito vazio do Vacacaí Mirim, em Restinga Seca.

Andei pelo chão poeirento, pisando em vísceras de pedras e galhos de um cenário nordestino. Era estranho imaginar que meses antes corria água por ali e que em algum momento, com o fim da estiagem, a água voltaria a correr.

Caminhei com a professora Lacy Cabral de Oliveira e um neto dela, o Rafael. Os dois me acompanharam numa reportagem sobre a grande seca de 2005. Restinga significa ponta de terra cercada por água. Naquele ano, Restinga Seca via sentido no próprio nome.

Andamos um pouco e encontramos uma represa de sacos de areia, de uma margem à outra do rio estreito. Uma espécie de muro que teria sido erguido por um arrozeiro para reter a água perto da bomba de sucção.

Na terra de Iberê Camargo, o rio denunciava a ganância do homem que sugou a água que os outros, mais adiante, ficavam esperando. Os rios Vacacaí Mirim e Vacacaí Grande estavam secos e só o Jacuí continuava socorrendo Restinga.

Me lembrei dessa cena numa conversa no bar da Zero, anteontem, com o Carlos Etchichury, o Renato Dornelles e o Nilson Vargas. Nos perguntamos sobre o que pode acontecer em São Paulo quando o desespero acionar uma guerra pela água.

Em Restinga Seca, onde todo mundo se conhece, alguém foi capaz de erguer uma represa para furtar água. Em São Paulo, a prefeitura calcula que residências e empresas furtaram, em ligações clandestinas, 2,6 bilhões de litros de água potável em 2014, o suficiente para abastecer 260 mil pessoas durante um mês.

Um advogado paulistano conseguiu na Justiça que a prefeitura lhe garanta água sem cortes em casa. O que mais, além do furto e do egoísmo judicializado, irá aflorar na guerra da seca?

O que será de São Paulo se o que sobrar para mais de 20 milhões de pessoas for a água podre da represa Billings, com bactérias que matam, índice de coliformes fecais cem vezes acima do considerado aceitável e a imundície de metais pesados cancerígenos que despejam ali?


A vingança das águas é cruel e comovente. Que vingança o Rio dos Sinos, o Gravataí e o Caí, três dos 10 rios mais poluídos do Brasil, estarão preparando?

04 de fevereiro de 2015 | N° 18063
J.A. PINHEIRO MACHADO

Churchill e a joia mais cobiçada

Nas homenagens a Winston Churchill, no cinquentenário de sua morte, em 24 de janeiro passado, vale lembrar um entardecer ensolarado: quando o grande líder chegou à embaixada britânica de Paris, na condição de primeiro-ministro, para a Festa do Armistício, momento de glória depois da vitória na II Guerra Mundial. Foi então apresentado a uma mulher inesperada: a deslumbrante Odette, esposa de Jacques Pol Roger, desportista notável e diretor da empresa familiar produtora daquelas esplêndidas garrafas de champanhe servidas na festa.

O primeiro-ministro, que tinha uma admiração romântica pela França, foi cativado pela elegância e a beleza de Madame Pol Roger e a ela ergueu um brinde com o excepcional champanhe Pol Roger 1928, um vintage encorpado à altura da ocasião.

Além da beleza, aquela mulher elegante tinha uma aura de charme heroico que fascinou o grande líder dos Aliados na II Guerra: ela arriscou a vida como mensageira clandestina da Resistência Francesa sob a ocupação nazista.

Desde aquele brinde na embaixada, Madame Pol Roger tornou-se a maior paixão da vida de Winston Churchill. Cabelo dourado, corpo esguio e olhos de um estranho azul acinzentado, Odette foi reconhecida como uma das mais lindas mulheres de Paris, e mereceu ser fotografada pelo gênio Cecil Beaton. Casou-se muito jovem, adotou o sobrenome Pol Roger, e passou a viver com o marido, Jacques, perto das videiras de Épernay. Depois da Festa do Armistício, todos os anos, no aniversário de Churchill, Odette enviava de presente uma caixa do soberbo champanhe daquele primeiro brinde, o Pol Roger 1928, até 1953, quando acabaram os estoques.

“Convide-me para Épernay”, escreveu Churchill a Madame Pol Roger, “e eu vou pressionar as uvas com os pés.” Era uma imagem vívida, mas ele nunca foi visitá-la na região de Champagne.

Essa mulher admirável nasceu Odette Wallace, filha do general Georges Wallace, que lutou com distinção no exército francês durante a I Grande Guerra. Era bisneta do colecionador de arte e filantropo Sir Richard Wallace, que dedicou a vida à “Wallace Collection”, seu tesouro inigualável de obras de arte. Ao conhecer Odette e suas duas irmãs, também belíssimas, Winston Churchill não resistiu a uma ironia amável:

“Elas são a verdadeira Wallace Collection”.


Seu olho arguto não vacilou e fixou-se na joia mais cobiçada da coleção: Odette.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015


03 de fevereiro de 2015 | N° 18062
EDITORIAL ZH

OPOSIÇÃO CARANGUEJO

Foi decepcionante a entrevista concedida à Rádio Gaúcha ontem pelo líder da maior bancada da Assembleia Legislativa, que faz oposição ao governo recém-eleito.

Aferrado a um projeto rejeitado pelas urnas, o petista Luiz Fernando Mainardi não demonstra qualquer disposição de transigir e examinar com objetividade as alternativas que serão propostas pela nova administração a não ser, como alertou, que coincidam com as políticas públicas que o seu partido vinha tentando implementar. Alega o ex-secretário que as medidas do governo peemedebista já foram tentadas no passado e geraram resultados desastrosos para o Estado.

Ora, o mais sensato para um parlamentar é esperar que o governo Sartori apresente suas propostas, para então avaliá-las. Por enquanto, tudo o que a nova administração fez foi comentar a dramática si- tuação financeira do Estado e anunciar que só haverá saída se todos os setores da sociedade contribuírem com a sua cota de sacrifício.

A contribuição que se espera dos parlamentares de todos os partidos é a fiscalização atenta do Executivo e o exame responsável dos projetos apresentados, sem preconceitos nem ressentimentos políticos. Nossos deputados oposicionistas não podem agir como os caranguejos da anedota, que o pescador colocava num balde sem tampa porque sabia que uns puxariam os outros para baixo e todos permaneceriam condenados à inflexibilidade de sua natureza.



03 de fevereiro de 2015 | N° 18062
EDITORIAL ZH

HORA DE PENSAR NO PAÍS

Com uma estratégia desastrada de articulação, o governo possibilitou a eleição de um aliado ressentido para a presidência da Câmara, mas o país não pode ser punido por isso. A escolha do peemedebista Eduardo Cunha é encarada pela oposição como a possibilidade concreta de finalmente livrar o Congresso da submissão ao governo.

Para os governistas, a derrota é o confronto com a infidelidade de parte das próprias bases e o fim do controle quase absoluto de aliados no Congresso. Para a população, o que importa é o aperfeiçoamento das relações entre o governo e o parlamento.

Até agora, não há sinais de que isso seja provável, mesmo que, logo depois de eleito, o novo presidente tenha dito que uma das suas missões é a de assegurar a governabilidade. O deputado fazia referência às especulações de que, após os ataques de aliados do Planalto durante a campanha, poderia conspirar contra os interesses do Executivo de forma sistemática. Disse o senhor Eduardo Cunha que não guarda mágoas dos governistas e que não marcará sua atuação como oposicionista ou situacionista, mas pelo bom senso.

É o que terá de prevalecer na sua gestão, se o próprio eleito deseja reverter expectativas criadas por um histórico de decisões impulsivas, sempre prontas a afrontar consensos estabelecidos pelo governo. A defesa dos interesses maiores da sociedade, e não dos parlamentares, dependerá do equilíbrio entre um Congresso que pretende ser independente e um governo que terá de respeitar a autonomia do Legislativo.


A grande dúvida, que ambos terão de responder da melhor forma, é o que o país ganha com a nova composição do comando da Câmara e suas consequências. Executivo e parlamento são desafiados a oferecer a melhor resposta, não a aliados ou adversários, mas aos cidadãos.

03 de fevereiro de 2015 | N° 18062
LUIZ PAULO VASCONCELLOS

SORRISOS OBITUÁRIOS

Inspirado no prefácio da crônica de Luis Fernando Verissimo publicada no domingo, dia 18 de janeiro, em que ele, com muito bom humor, comenta que todas as pessoas que aparecem nas fotos das colunas sociais estão sorrindo, arrisco os comentários que vão aí abaixo, nem tão bem-humorados assim, mas de qualquer maneira bem observados.

Antes, porém, permito-me reproduzir um trecho da citada crônica: “Nestes dias que nos assolam, é importante encontrar um abrigo das más notícias. (...) Agora, como o futebol não é mais refúgio, faço o seguinte: leio as manchetes da primeira página, o suficiente para me desesperar, e vou direto para a crônica social”.

Pois eu também encontrei o meu abrigo das más notícias, uma condição que elimina a inveja, o ciúme, a raiva, a mentira e o mau humor. É verdade. Afirmo que não existe mais avareza, preguiça e esbanjamento. Não existe mais cobiça, fofoca ou maledicência. Gulodice, soberba e sovinice foram banidas do cotidiano das famílias.

E muitas outras coisas mais que a sociedade costuma julgar como delitos e defeitos. Pelo menos, é o que concluo lendo os obituários publicados nos jornais. Todos os que estão deitadinhos nos caixões esperando a hora do enterro ou da cremação foram honestos, superprotetores, personalidades fortes e raras inteligências. Todos valorizaram a educação, o estudo dos filhos e a união das famílias.

Todos foram alegres, bonitos e elegantes. Todos foram muito ligados à família, aos pais e avós extremamente presentes, considerados exemplos de dignidade, simplicidade, honestidade e caráter. Afáveis, meigos e doces. Humildes, leais e sinceros. Divertidos, atenciosos e queridos.


Tá certo, eu sei que quem morre fica logo bonzinho, que a dor do luto desculpa tudo, que o medo da morte transforma em virtude tudo o que a pessoa escondia da vizinhança e da família. Mas, convenhamos, não é preciso exagerar, tudo tem um limite. Sem limite, o que deveria ser um tributo ao falecido torna-se risível. Uma espécie de abrigo das más notícias.

03 de fevereiro de 2015 | N° 18062
DAVID COIMBRA

O galo cinza das neves

A Marcinha olhou para mim e advertiu:

– Acho que tu não devias andar nesse negócio aí. Isso é coisa de americano...

“Esse negócio” era um snowmobile estacionado bem na frente da casa de um amigo americano nosso, onde estávamos para assistir ao Super Bowl, no domingo passado.

Super Bowl. Snowmobile. Vai que você não sabia o que são essas palavras cheias de dáblios, então explico: Super Bowl é a finalíssima do campeonato de futebol americano. Eles chamam de campeonato do MUNDO, embora seja disputado só nos Estados Unidos. Com o que, o Patriots, aqui de Boston, é campeão do mundo. Entendo isso – também fui campeão do mundo de três-dentro-três-fora, embora o campeonato tenha sido disputado só no IAPI.

Quanto ao snowmobile, trata-se de uma espécie de moto de neve, com esquis em vez de rodas. Meu amigo me convidou para dirigi-lo, fiquei entusiasmado, e a Marcinha, nem tanto. Aí argumentei que já havia dirigido um snowmobile 20 anos atrás, quando visitei o Colorado.

– E dirigi muito bem – me exibi. – Muito bem! O galo cinza das neves!

A Marcinha apertou os lábios:

– Isso é coisa de americano...

A essa altura, eu já havia ingerido algumas taças de vinho, o que foi decisivo para os acontecimentos futuros. O meu amigo, muito atencioso, tentava explicar como funciona esse esporte deles.

Os americanos gostam de ter suas exclusividades. Eles insistem em chamar o futebol de verdade de soccer e em medir as coisas em pés, polegadas, libras, milhas e Fahrenheit. O governo já tentou mudar isso, mas a população não se adaptou ao sistema de medidas do resto do mundo, que fazer?

A forma como os americanos lidam com os esportes também é totalmente diferente da nossa. Eles querem ganhar, é evidente, mas tudo o que envolve o jogo é tão importante quanto o próprio jogo, como os shows nos intervalos da partida e até os comerciais de TV. Você tinha de ver os comerciais de TV. São pequenas e caríssimas obras de arte encenadas por atores da estatura de um Matt Damon, que apareceu bastante, suponho, por ser aqui de Boston.

Foi entre um comercial e outro e uma taça de vinho e outra que decidi dirigir o snowmobile. Meu amigo deu instruções rápidas: acelera aqui, freia ali. Pronto. Montei no bicho. E fui embora. Minha arrancada foi promissora. Saí por um caminho já traçado, fiz uma curva e me senti seguro. Sou mesmo o galo cinza das neves!, pensei. Segui em frente e, como as casas não têm cercas, invadi a propriedade de um vizinho, alertando dois grandes cães, que saíram latindo atrás de mim. Pareciam inofensivos, mas achei melhor não arriscar. Acelerei. Eles continuaram no meu encalço.

Fiquei um pouco apreensivo e optei por fazer uma manobra ousada, a fim de escapar deles. Vou subir aquele montinho de neve ali, resolvi. Foi o que fiz. Só que o snowmobile adernou para um lado. Por mil picolés, esse WOLFREMBARTZKRIZBURGU ERKLIMBERZ desse snowmobile vai capotar em cima de mim!, imaginei, e virei o guidão para a esquerda e de novo para a direita e surgiu uma caixa de energia elétrica na minha frente e entendi que se batesse naquela CRISPLEMKUTZALDJUGA daquela caixa eu ia incendiar toda a casa do meu amigo americano e ouvi os DJXLO@$2!5$377&&SSV LEPTEIS dos cachorros latindo atrás de mim e vi uma árvore crescendo e crescendo cada vez mais e bati nela.

Pechei na árvore. Machuquei um pouco o dedo médio da mão esquerda, só um pouco. O snowmobile também está inteiro. Meu orgulho, não. Devia ter ouvido a Marcinha. Coisas de americanos são para americanos.



03 de fevereiro de 2015 | N° 18062
FABRÍCIO CARPINEJAR

O bagageiro e a mala

Homem sabe arrumar bagageiro, mas fracassa ao organizar sua mala.

O bagageiro do carro é sua mala. Lembro as técnicas militares do meu pai quando passávamos um mês no litoral gaúcho.

Naquele tempo, carregávamos a casa para o mar, não íamos somente para o mar. Tínhamos que levar tevê, ventilador, cadeiras, isopor, panelas, afora as bagagens do casal e dos quatro filhos.

E mais brinquedos. E mais bicicletas. E pranchas. E patins.

A mãe sempre se metia na frente e tentava acomodar as quinquilharias no Corcel II.

Na metade do processo, ela desistia e gritava com todo mundo: – Vamos, pessoal, optar e selecionar o que cada um realmente vai usar. Nessa hora, vinha o pai, com seu boné de poeta Neruda, analisava o tamanho da encrenca, um contêiner de alças, e pacificava:

– Deixa que resolvo, não precisa tirar nada daqui.

Ele iniciava um longo processo de quebra-cabeça, de encaixe de conteúdo pela forma e pelo peso do objeto, empregando desvãos e esconderijos inimagináveis debaixo dos bancos.

Virava um samurai, com movimentos lentos e seguros, numa coreografia que se assemelhava à saudação ao sol da ioga. Durante 30 minutos, em insana caixa registradora, retirava coisas e depositava de novo.

E aquilo me impressionava. Só ele conseguia lacrar o porta-malas, parecia que seria impossível!, e ainda garantir uma abertura ao retrovisor.

Quando batia a porta e estalava o clique, todo mundo aplaudia. Era uma cena mais festejada do que churrasco de domingo. Já o pai com sua mala era um fiasco. Desleixado, confuso, sem ordem nenhuma na colocação das roupas ou na importância dos itens.

Botava embalagens frágeis no forro, perfeito para quebrarem, dobrava as calças como cobertor e esticava as camisas como redes de varanda.

E ficava irritado e socava o couro e urrava de insatisfação.

A mãe precisava dar um jeito, senão ele jogaria tudo no chão.

Com a arte mínima das unhas, a paciência de leque das mãos, a figura materna reorganizava as peças, criava canudos com as roupas, explorava os bolsões com domínio e equilíbrio.

No final, a mala paterna que antes transbordava agora chamava outros convidados do armário e da estante. E o pai podia, inclusive, ampliar seu repertório de livros e sandálias.

Minha infância veio à tona quando vi minha mulher arrumando seus pertences para as férias em Búzios (RJ).

Ela não sentava na mala como eu, não ficava de pé nela como eu, não ameaçava a integridade dos produtos caros de cabelos e pele com golpes de caratê, não produzia curvas de autódromo no zíper como eu.

Simplesmente conversava com a mala:

– Fecha, por favor, a gente merece ser feliz.


E a mala obedecia.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015


02 de fevereiro de 2015 | N° 18061
EDITORIAL

A PROVA DO PARLAMENTO

Depois da disputa pela presidência marcada por condutas deploráveis, a Câmara não pode se render à condição de linha auxiliar do Executivo.

Uma eleição deveria ser saudada como uma das maiores expressões da democracia. Nem sempre, no entanto, uma disputa decidida no voto pode ser acolhida como exemplo inquestionável de livres escolhas na política.

A eleição de ontem, para a presidência da Câmara Federal, é um bom exemplo de como o Congresso contribui para a desqualificação da própria atividade parlamentar. Independentemente de quem viesse a ser eleito, o duelo estabelecido pelas campanhas já antecipava há dias o espírito do confronto. Esse não foi um processo comum, mas marcado pelas anomalias que têm desfigurado a política brasileira, em meio à proliferação de denúncias de corrupção.

Além dos deputados, que afinal consagraram o peemedebista Eduardo Cunha, os senadores elegeram ontem o líder da Casa, o também peemedebista Renan Calheiros, que chega pela quarta vez ao cargo. Foi na campanha pela Câmara que a política brasileira reforçou, não o apreço pela democracia, mas suas condutas mais deploráveis.

A guerra criada pelo confronto entre governistas e oposicionistas deixou claro que, ao contrário do que poderia ser esperado, os desmandos em investigação no país, que atingem estatais, Executivo e Congresso, não contribuíram para mudanças de comportamento. É exemplar, pelos seus aspectos negativos, na batalha travada por apoios, a manifestação da deputada Gorete Pereira (PR-CE). Na tentativa de conquistar o voto da parlamentar, o staff governista criado para fazer pressão lembrou que ela poderia dispor de um cargo no Dnit, o departamento federal de infraestrutura de transporte.

A deputada não se sentiu contemplada, porque tal cargo já teria sido conquistado no governo anterior. “Esse cargo é meu”, disse Gorete, ou seja, ela poderia dispor da vaga como bem entendesse, para agradar a algum protegido. É sintomático que o vitorioso seja integrante de um partido aliado, mas declarado crítico do governo e apoiado pela oposição. O senhor Eduardo Cunha terá a chance, como prometeu ontem, de questionar na Câmara os superpoderes do Executivo, que governa por medidas provisórias, manobra em CPIs e potencializa o recurso da troca de cargos e favores para não ter sua base avariada.

Espera-se da gestão do peemedebista que a Câmara não se curve ao governo, num ano difícil na economia e na política. O Congresso não pode ser mera linha auxiliar do Planalto. Também será tarefa da liderança eleita, entre outras atribuições, contribuir para que os desdobramentos da Operação Lava-Jato na área política não encontrem resistências corporativas intransponíveis no Legislativo.



02 de fevereiro de 2015 | N° 18061
MARCELO CARNEIRO DA CUNHA

“Wolf Hall” e a supremacia inglesa

A Inglaterra já foi um pouco, ou muito, de tudo. Foi invadida por romanos, vikings e finalmente pelos normandos, há mil anos, quando parou de ser invadida e começou a invadir. Pois nessa Era da Nova TV que vivemos, a Inglaterra brilha firme, como estrela de primeira grandeza em um céu dominado pelas estrelas de Hollywood. Se, no cinema, o mundo ainda para ver a brincadeirinha que é o Oscar, na TV, as produções inglesas começam, cada vez mais, a mostrar quem têm café no bule. Chá, no caso.

A mais recente delas é a esplêndida Wolf Hall, a adaptação para o display de LED dos romances históricos de Hilary Mantel, vencedora de dois Man Booker Prizes com os livros da trilogia que criou sobre a vida de Henrique VIII, aquele das muitas esposas. Os livros centram a narrativa na enigmática figura de Thomas Cromwell, um filho de ferreiro que chegou ao posto de Chanceler na Inglaterra dos Tudor, uma façanha e tanto.

Wolf Hall, a série, é uma maravilha da nova televisão. A atuação de Mark Rylance como Cromwell é de deixar a gente querendo ser inglês. Damien Lewis, o sargento Brody de Homeland, faz um Henrique VIII assustador o bastante para se parecer com o original, imaginamos. As cenas internas e noturnas são filmadas à luz de velas, como um novo Barry Lyndon (1975), o que deixa tudo lindo demais, mesmo que um tanto obscuro.

O que sabemos de Henrique VIII diz muito pouco do drama real de um rei sem filhos homens em uma época em que isso era um problema e tanto. A Inglaterra, ainda católica, estava navegando nas águas turbulentas da Reforma Protestante, e os tempos eram difíceis, para se dizer o sub-mínimo. Cromwell faz o impossível para manter o pescoço intacto, em uma era de muitos machados, por todos os lados.


Hilary Mantel deve lançar o terceiro livro da trilogia neste ano, o que faz de mim um sujeito feliz, já tendo lido Wolf Hall e Bring Up the Bodies. Wolf Hall é a demonstração pura e simples da riqueza de se narrar a história, quando se tem uma e se compreende a importância dela. No Brasil, teríamos muito a pensar e falar sobre a nossa rica história. Mas nos falta uma Hilary Mantel, e nos falta uma BBC. Azar nosso, sorte deles.

02 de fevereiro de 2015 | N° 18061
ARTIGOS - CLÁUDIO BRITO*

CERVEJA NO FUTEBOL

Um mal da Copa do Mundo foi a legislação oportunista e permissiva que o Brasil produziu para ceder sua soberania à Fifa. E a cerveja voltou ao futebol. Disso resulta o movimento em favor da liberação das bebidas alcoólicas para o consumo dos torcedores durante os jogos. E, na mesma esteira, discute-se a retirada da Brigada Militar. Não é preciso adivinhar. É só olharmos o passado e perceberemos que a combinação desses fatos resultará em uma explosão.

A segurança privada tem um flanco aberto muito sério. Quem disse que um funcionário de um clube pode mandar um torcedor erguer os braços e submeter-se à revista? Onde está a qualificação dos contratados eventuais? Tanto é assim que, em seus coletes de serviço, o que se lê é a palavra “orientador”. Muito bem, que assim seja. Orientar, ajudar, acompanhar.

Tenho o melhor depoimento a prestar sobre a excelência dos serviços prestados por moços e moças que têm feito esse trabalho no Beira-Rio, mas não consigo aceitar que agentes privados desarmem um espectador que insista em portar um revólver enquanto rola um Gre-Nal. Há funções públicas indelegáveis. Sei que logo dirão que os clubes são entidades privadas e os estádios acolhem espetáculos geridos assim.

Nem é preciso alongar-me sobre a diferença entre um jogo de futebol e uma balada em um clube noturno qualquer. É pelas peculiaridades do esporte que o evento é outro. Então, que não se abra mão do policiamento ostensivo e das ações de polícia judiciária e dos juizados especiais itinerantes, presentes nos grandes espetáculos esportivos. E é justo que da arrecadação dos jogos saiam os recursos para o custeio da atividade da Brigada Militar. Afinal, os serviços privados também serão pagos assim.

Assusta-me a combinação explosiva da volta da beberagem ao futebol com a retirada do policiamento pela Brigada. Já não é tão simples o combate à violência nas arquibancadas. A pancadaria seguidamente acontece, entre as torcidas organizadas ou não. O futebol existe para nos trazer convivência saudável e alegria. A alegria dos estádios, todavia, não é o gole, mas o gol.


Jornalista

02 de fevereiro de 2015 | N° 18061
CINTIA MOSCOVICH

Quem deseja não é feliz?

Releitura do (já) clássico Quem Ama Não Mata, de 1982, com texto de Euclydes Marinho e direção de Fernando Meirelles, Felizes para Sempre?, série da Globo/O2 filmes, tem causado impacto com seus casais de personagens (e de atores) improváveis, além de dialogar com a tradição cinematográfica.

Girando em torno dos dramas (extra)conjugais dos três filhos da família Drummond, o eixo que amarra as histórias é vivido pelo atarracado e baixinho Cláudio (Enrique Diaz) e pela alta e esbelta Marília (Maria Fernanda Cândido), fato que dá um ar mais verdadeiro e convincente à narrativa. Os dois contratam uma garota de programa, Paolla Oliveira, que é linda, culta, melômana e que seduz todo o elenco, quando então o desejo passa a ser sinônimo de desagregação.

Outro casal a ponto de ter a vida desmantelada é Norma (Selma Egrei) e Dionísio (Perfeito Fortuna), pais do clã, casados há 46 anos. Com problemas de ereção, Dionísio reencontra um amor de juventude, que, dando uma volta a mais no parafuso, pode devolver-lhe a potência. Mas o que causou alvoroço entre o público feminino (principalmente nas mais taludas) vem sendo o assédio a Norma por um jovem colega, também professor da faculdade de Sociologia, que desperta nela uma desconcertante pulsão de desejo.

Fernando Meirelles tem sido injustamente acusado de plágio devido a uma cena que explica a falência da relação de Cláudio e Marília. Em forma de flashback, o casal faz amor, enquanto o filho de quatro anos tenta pegar seu ursinho de pelúcia na piscina. A narrativa segue em slow motion com foco ora no casal, ora na criança, até o momento do clímax: os dois chegam ao final da relação e, ao mesmo tempo, a criança cai na piscina.


Segundo os internautas, a sequência seria “copiada” ou “plágio descarado” do prólogo de O Anticristo, de Lars Von Trier. O que Meirelles faz é corriqueiro em todas as modalidades artísticas: a menção a outra obra é prova de admiração, tida como elogio maior. Não há nenhuma má intenção ou desonestidade. Há uma série que vai marcar época na teledramaturgia nacional.

02 de fevereiro de 2015 | N° 18061
L. F. VERISSIMO

Além do saião

“Je suis” Tsipras. Ou fui, durante 15 minutos, até ver a foto do candidato vencedor das recentes eleições na Grécia reunido com o chefe de um partido de direita corrupto para pedir seu apoio no parlamento – algo tão inimaginável quanto, sei lá, o Lula visitar o Maluf. O partido do novo primeiro-ministro, de esquerda, não tem maioria suficiente para governar e precisa de ajuda, venha de onde vier. Na política moderna, “governabilidade”, a desculpa pronta para todas as alianças, imorais ou amorais, juntou-se a “austeridade” na lista de velhas palavras transformadas em novos palavrões.

Mas o importante na vitória do partido do Tsipras, o Syrisa, depois de cinco anos em que a Grécia seguiu a receita do FMI, do Banco Central Europeu e da Comissão Europeia – ou da Alemanha, para sermos mais sucintos – para sua salvação, não foi o sucesso do Syrisa mas o fracasso da receita. Cinco anos de austeridade e sacrifício inútil pioraram a vida da população e não melhoraram a situação do país, com os generosos empréstimos da Europa indo diretamente para pagar os bancos internacionais e só piorando a dívida.

O Tsipras não vai poder mudar isso imediatamente e talvez nem dure muito no poder, mas a Grécia foi o primeiro entre os países em situação parecida – Portugal, Espanha, Itália, Irlanda etc. – a se rebelar contra a receita e a dar o exemplo. Partidos e movimentos populares, como o “Podemos”, na Espanha, crescerão, politicamente, inspirados pelo Syrisa, ou no mínimo se convencerão de que podem, sim, sair de baixo do saião dogmático da frau Merkel para respirar um pouco.

É claro que dessa bicicleta se pula para os dois lados, para a esquerda ou para a direita. Também há partidos e movimentos neofascistas esperando para explorar a revolta das vítimas da austeridade, e eles também podem crescer. Os alemães – pelo menos os alemães que conhecem a própria história – sabem qual pode ser a consequência de uma nação forçada a entregar sua economia, sua história e seu futuro a outra.

Na Alemanha debilitada pela derrota na I Guerra Mundial, obrigada a pagar uma indenização gigante pela sua culpa na guerra e oprimida por uma dívida impagável (os credores insensíveis da época eram os franceses), a consequência do sacrifício imposto foi o ressentimento, e a consequência do ressentimento foi o nazismo. Hitler foi um produto da austeridade. Alguém aí bata na madeira.

ÁGUA, ÁGUA


O José Simão disse que em São Paulo mudaram a fórmula da água. Em vez de H20 agora é H2Ó PRA VOCÊS. Certo, faltar água no país com as maiores bacias hídricas do mundo é mais do que uma ironia, é um insulto. Alguém tem que explicar o que foi feito para se chegar a este ponto. Ou o que não foi feito. É verdade que a chuva mudou: hoje cai chuva teflon, que não adere. Quem diria que nós ainda iríamos ver a prova de uma velha conjetura brasileira, o “chove e não molha”?

sábado, 31 de janeiro de 2015


01 de fevereiro de 2015 | N° 18060
MARTHA MEDEIROS

INVERSO

Ela me contou que morou durante toda a infância bem no centro da cidade, num apartamento pequeno de uma grande avenida, e cresceu escutando as conversas e gritos dos transeuntes lá embaixo, os motores dos ônibus, as portas do comércio abrindo e fechando, as brigas entre os camelôs, e nem à noite esse zumzumzum sossegava, pois havia os cinemas, as boates, os botecos, as prostitutas, um quartel com ininterrupto entra e sai de soldados e uma igreja ao lado cujo sino não conhecia descanso.

Se dava para dormir? Feito um anjo. Cada barulho específico da zona central era como se fosse um instrumento musical, e juntos eles compuseram sua cantiga de ninar. A tudo se acostuma.

Até que ela virou mulher, casou e foi morar num bairro tão distante do centro que era praticamente uma granja, e quem dizia que conseguia dormir? O silêncio, ali, era barulhento além da conta.

Um cachorro latindo ao longe, no meio da madrugada, bastava para lhe despertar. O farfalhar das folhas ao vento, numa árvore próxima à janela, a deixava em estado de alerta. Podia até ouvir uma estrela cadente se prestasse bem atenção. Como pegar no sono estando envolvida por tantas quietudes secretas, por tanta discrição?

Não foi bem com essas palavras que ela me contou sobre essa situação invertida, mas foi desse jeito que a escutei, com essa prosa e poesia, e também com algum espanto. Se barulho virou silêncio através do costume, e se silêncio virou barulho pelo mesmo motivo, então está tudo mesmo de cabeça para baixo?

O que mais era pra ser que não é?

A pessoa muito calada, com um sorriso fixo no rosto, pacienciosa com todos em volta, relaxada num corpo em repouso, estará mesmo calma? Pode ser que por baixo de sua pele o barulho seja infernal, a dor lateje, o coração grite e ela apenas esteja inerte para não chacoalhar ainda mais o desespero que leva dentro. Enquanto que aquela pessoa que dança, corre, abraça, ama, gargalha, viaja e se joga na vida é o quê? Budista.

A pessoa que anda sumida é uma ermitã ou será que está muito bem acompanhada por si mesma? E quem não desgruda de grupos será mesmo sociável ou carente ao extremo?

Acho que eu gostava mais da vida quando ela era como era, exata, e não como é agora, quando traz em si o seu contrário, nos obrigando a ler nas entrelinhas, entender os subentendidos, perceber o abstrato e desprezar o concreto – eu preferia o óbvio a tanta charada, eu preferia o cristalino ao lusco-fusco, eu gostava quando era mais fácil e as coisas e as pessoas cumpriam o prometido.

Quando foi isso? Nunca. Nunca foi como eu queria. Sempre foi o inverso.