sexta-feira, 5 de dezembro de 2014


05 de dezembro de 2014 | N° 18004
MÁRIO CORSO

Tatuagens

Depois que meu cachorro se foi, fiquei sozinho no quesito tatuagem. Todos são tatuados na minha casa. Inclusive me pressionam para fazer uma. Sinceramente, eu passo. As minhas razões são simples, coisa de geração, de idade. Um dos lugares onde mais me sinto à vontade é entre os da minha safra. Olho com entusiasmo as gerações que chegam, acredito serem melhores do que a minha, mas fico no meu posto.

Nunca se precisou tanto do corpo para se fazer um eu. Sempre fomos desde um corpo, mas ele não precisava de tanta evidência, tanto protagonismo. Essa onda de tatuagens é similar à das academias, dos corpos esculpidos, das plásticas, dos cuidados extremados com saúde e alimentação. Hoje precisamos ser lindos, sarados e bem aprumados. Como cultivar a alma não anda em alta, apostamos as fichas no corpo. Por isso, não creio que seja um modismo.

Em resumo: como agora somos mais dependentes do corpo para obtermos uma significação, para sermos alguém, ilustrá-lo faz parte. Recebo pacientes cujas tatuagens foram decisivas para certas significações que de outra forma seriam difíceis.

Além disso, não saberia o que tatuar. Geralmente, as tatuagens são cicatrizes de uma significação, uma tentativa de fazer algo valer mais do que vale. Ou então desenhamos na pele algo que não queremos esquecer, que é nosso, mas de certa forma tem uma exterioridade. Enfim, algo que se situa na borda, está no corpo mas não entra. Como sempre ando em conflito com minhas identificações, teoricamente seria útil sublinhar alguma delas na minha pele, mas, no meu caso, não tenho esperança de que esse uso vá ajudar.

E há ainda a questão estética. Na minha infância, tatuagem era algo marginal e transgressivo. Sem problema, eu achava isso bacana, mas acima de tudo elas eram cafonas, para usar a palavra da época. Vocês não sabem como as tatuagens melhoraram, algumas são praticamente obras de arte, enquanto as primeiras eram padrão cadeia. Mal-desenhadas, mal-acabadas, já nasciam tortas e desbotadas. Essa primeira impressão nunca me abandonou, tanto que emocionalmente elas me remetem primeiro a uma precariedade.

Mas a questão mais importante é a ideia de transitoriedade. Eu sei que não vou escutar as mesmas músicas a vida inteira. Meus gostos e referências mudam. Não tenho certeza de que seguirei com as mesmas opiniões. Talvez as tatuagens sejam para ancorar certezas necessárias, e não me sinto à vontade para tanto.

Ou, pegando pelo lado da imagem, vocês já se viram em fotos antigas com roupas em que nos achávamos arrasando e hoje nos parecem cômicas? Sempre penso na tatuagem como uma roupa indespível, uma espécie de prisão a um conceito. Decididamente, a ideia de não poder ficar pelado ou retirar um signo passageiro me incomoda. Invejo quem tem o conforto de algumas permanências.


05 de dezembro de 2014 | N° 18004
ARTIGO - JORGE AUDY*

O PAPEL DA INOVAÇÃO NA AGENDA REGIONAL

Nesta semana, em Brasília, realizou se a cerimônia de premiação dos vencedores do Prêmio Nacional do Empreendedorismo Inovador, promovido pela Anprotec e pelo Sebrae, com apoio do MCTI, MDIC e MEC, da qual participaram autoridades empresariais, governamentais e representantes de ambientes de inovação do Brasil.

A sociedade contemporânea, baseada no conhecimento, demanda novos conceitos para o papel das empresas, das universidades e do governo no processo de desenvolvimento econômico e social. Em nenhum outro tempo, a educação e a inovação foram tão importantes. Nesse contexto, insere-se o Movimento pelo Empreendedorismo Inovador, liderado pela Anprotec e pelo Sebrae, em nosso país. Esse prêmio reconhece os destaques no ano entre os principais ambientes de inovação do Brasil.

Os dois principais prêmios de 2014 foram para os gaúchos: Raiar, do Tecnopuc, é a melhor Incubadora de Empresas, e o Tecnosinos é o melhor Parque Tecnológico. Esse reconhecimento nacional é, ao mesmo tempo, motivo de orgulho e de preocupação. Orgulho, pois reconhece os esforços de nossas instituições públicas e privadas de nossa Rede Gaúcha de Incubadoras e Parques Tecnológicos (Reginp) e dos governos municipais e estadual, que geram condições para um novo modelo de desenvolvimento, em que a Ciência, a Tecnologia e a Inovação são elementos centrais.

Por outro lado, motivo de preocupação pelo enorme desafio que é o de efetivamente colaborarmos com o novo modelo de desenvolvimento, em que a inovação e o empreendedorismo são determinantes para o sucesso e o crescimento. Temos potencial e reconhecimento nacional neste sentido. O desafio é transformar esse potencial em realidade, contribuindo de forma decisiva na melhoria de qualidade de vida de nossa gente.

Cabe aos atores da Ciência, Tecnologia e Inovação buscar consensos para a proposição de políticas e diretrizes que mostrem o caminho para posicionar nosso Estado entre os líderes deste movimento no país e no mundo, tendo a inovação e o empreendedorismo, além da educação, como os pilares do processo de desenvolvimento econômico e social. Estamos prontos para gerar esses consensos?


*Pró-reitor de Pesquisa, Inovação e Desenvolvimento da PUCRS

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014


04 de dezembro de 2014 | N° 18003
ARTIGO - SEBASTIÃO MELO*

A HONRA E A HUMILDADE NA POLÍTICA

A finitude nos rouba a perspectiva do tempo. Nossa memória não comporta todos os saberes e todas as informações. Não por acaso, julgamos o passado como o melhor lugar para se viver, quando o desconforto com o presente bate à nossa porta. Essa limitação humana é resistente aos fatos: em 1914, nossa expectativa de vida era de 40 anos; a morte de parturientes era a regra e ler e escrever um privilégio; o regime democrático era um luxo e o voto universal uma utopia. E foi naquele ano que a primeira Grande Guerra ceifou 10 milhões de pessoas e devolveu às cidades 20 milhões de feridos. De fato, o passado não é o melhor lugar para vivermos.

Vivemos mais, sabemos mais e em boa parte do mundo as pessoas percebem uma renda maior do que há cem anos. E isso, inegavelmente, é obra do desenvolvimento científico e da atuação dos governos. Mas, então, fica a pergunta: por que a desconfiança com a política e os políticos atravessou o último século?

Creio que a resposta não esteja tão somente nos problemas que as sociedades ainda enfrentam mundo afora, especialmente a pobreza, a violação dos direitos humanos e os limites da democracia. No Brasil, esses ainda são desafios não superados, além da reforma urbana e humanização de nossas cidades.

Proponho uma pausa neste ritmo alucinante que dificulta nossa reflexão, para que possamos olhar com humildade a forma como nos comportamos no espaço público. Porque uma sociedade é o resultado das ações e dos valores, tanto de quem se recolhe livremente às coisas da vida privada como dos que atuam em torno de causas, nos partidos políticos, nas entidades e nas instituições da República. É esta sinergia que “ergue e destrói coisas belas”, perenizando ideias e ideais.

Com efeito, é uma honra ser concebido e habitar o mundo, pertencer a uma comunidade, conviver no espaço público, ser escolhido para representar projetos políticos de sociedade, ocupando postos nas instituições, pois já sabiam os antigos que a “grandeza não consiste em receber honras, mas em merecê-las”.

Pensando assim, talvez encontremos a resposta para o descrédito da política e dos políticos, como também, de uma vez por todas, aceitemos, cada um de nós, que devemos nos esforçar para merecer uma cidade e uma sociedade saudáveis.

*Vice-prefeito de Porto Alegre

SEBASTIÃO MELO




04 de dezembro de 2014 | N° 18003
CARLOS GERBASE

TEMPOS DE CINEMA

Três filmes recentes têm o tempo como elemento principal de suas tramas. Cada um deles utiliza uma estratégia diferente para fazer o espectador refletir sobre essa dimensão misteriosa – mesmo que cotidiana – de nossas vidas. Em X-Men: Dias de um Futuro Esquecido, Bryan Singer tem ao seu dispor um universo cheio de mutantes superpoderosos, o que é bastante conveniente.

Um deles, através de uma poderosa conexão energética, envia alguém para o passado. A partir daí, assistimos às velhas discussões sobre os paradoxos da viagem no tempo. Um evento que já aconteceu pode ser apenas assistido, ou pode ser mudado? Singer se esforça, mas os resultados ficam devendo, e muito, aos autores de ficção científica que já abordaram o tema na literatura e no cinema.

Em Interestelar, Christopher Nolan, em vez de se apoiar nas convenções da ficção científica, faz a história girar em torno das fronteiras da ciência contemporânea. Há montes de diálogos tratando de matemática e física quântica, além de dois espetaculares eventos astrofísicos: o buraco de minhoca e o buraco negro. Até a teoria das cordas, que prevê a existência de outras dimensões espaciais além das três que conhecemos, aparece num enredo que fica no fio da navalha entre a divulgação científica e a absoluta banalização de teorias complexas. É um bom espetáculo, cheio de poderosos efeitos especiais, mas fracassa como Manual de Relatividade para Leigos.

Já Boyhood, de Richard Linklater, não pede que acreditemos num universo paralelo, nem quer ensinar as teorias de Einstein para quem não aprendeu a fórmula de Bhaskara. Boyhood mostra o tempo fluindo. Doze anos na vida de um grupo de pessoas, em especial de um menino que passa da infância para a adolescência. Linklater conseguiu uma façanha: ser original.


Filmes costumam ser feitos em um ou dois anos. Ele filmou durante 12. Essa extraordinária sincronia entre o período de filmagem e o envelhecimento natural dos atores permite que o espectador sinta o fluxo do tempo na tela, numa experiência que nos devolve a esperança de um cinema com mais ideias e menos efeitos. Para mim, Boyhood é uma das grandes obras-primas do cinema neste começo de século. Não perca tempo e vá assistir.

04 de dezembro de 2014 | N° 18003
PAULO SANT’ANA

Fumar é um saco

Ontem foi um dia histórico para nós, fumantes da RBS: proibiram de fumar em todas as dependências do prédio. Fui conferir no fumódromo e ele estava de portas lacradas.

Este fumódromo fechado agora me leva a antigas nostalgias. Ali tive conversas preciosas ou fúteis com outros fumantes, ali troquei milhares de baforadas.

Não tem mais, acabou.

Eu sei onde irá parar esta corrida frenética contra o fumo: haverá um dia em que serei proibido de fumar dentro do meu domicílio – como já acontece, aliás, em algumas cidades dos EUA.

E nada, nem aqui, nem lá, de proibir o fabrico de cigarros.

Mas, se por acaso proibissem de fabricar os cigarros, por certo eu montaria um jeito de comprar cigarros de fabricação clandestina.

Pois a maconha não é proibida? Proibida de cultivar, proibida de comercializar, proibida em tudo.

E, ainda assim, nunca vi tanto maconheiro em minha vida, eles se espalham pela sociedade, zombando da proibição.

As leis são boas, elas escondem, nesta fase da vida brasileira, a ideia de dificultar o uso do cigarro, em todos os lugares alcançados pela esfera legal, para que enfim os fumantes se cansem de fumar e parem com o vício. Isso vai dar certo em muitos casos, mas fumante que é autêntico mesmo não se dobra a esses artifícios legais, nunca vai parar de fumar.

Eu não consigo parar, por exemplo, com o vício de fumar enquanto escrevo. Como não permitem que eu fume nesta sala em que escrevo, a solução, a partir de ontem, foi escrever dois parágrafos e descer até o olho da rua, único lugar em que ainda (ainda, hein!) é permitido fumar.

Vou lá fora, acendo um cigarro, consumo-o e volto rapidamente para terminar minha coluna.

É chato, é um saco, mas o que vou fazer?

São os novos tempos. Quando comecei a fumar, nunca pensei que iriam um dia, como estão fazendo agora, proibir de fumar em lugares fechados. Se eu soubesse que iriam fazer isso, não teria adquirido o vício de fumar. É justamente nisso que as leis apostam: já sabendo que é proibido fumar, os não fumantes desistem de começar a fazê-lo, tais os obstáculos que lhes serão criados se o fizerem.


Não posso deixar de considerar que o método adotado agora terá eficiência.

04 de dezembro de 2014 | N° 18003
L. F. VERISSIMO

Má fase

“Rebaixamento” tem uma conotação meio fúnebre, tem não? Soa como enterro, sepultamento, algo definitivo. Claro que não é nada disso. O time que cai para a segunda divisão tem um privilégio que nenhum morto tem, o de poder voltar. O Fluminense, por exemplo, foi rebaixado até as cavernas do inferno e voltou espetacularmente, à vida e à primeira divisão. Qualquer grande clube pode ser vítima dessa maldição que ronda o mundo do futebol, que é a má fase. A terrível má fase.

Quando entra numa má fase – um misterioso período da vida de um clube em que nada dá certo e os vexames se acumulam – não há o que fazer. A má fase é como um vírus de origem desconhecida e terapia impossível que derruba grandes e pequenos do mesmo modo. A única maneira de enfrentar uma má fase é como se enfrenta uma tormenta: esperando que passe. (Tentar melhorar a administração do clube e o seu plantel também ajuda, claro.)

A torcida do Botafogo tem um consolo adicional para a má fase do seu time. Existe a velha máxima, dita com um certo orgulho fatalista, de que certas coisas só acontecem com o Botafogo. Não é verdade, ninguém está livre de sucumbir a fases ainda piores do que a dele – veja-se o Vasco.

Mas, no caso do Botafogo, a dor do rebaixamento é atenuada pela lembrança de que o clube tem uma vocação para o drama. Viver um momento de completa descrença no time é reafirmar, ao mesmo tempo, o folclore que o diferencia de todos os outros. Assim, quanto pior for a situação do time, melhor a literatura que o cerca.

O rebaixamento fortalecerá o folclore. Sofreremos como nenhuma outra torcida, e voltaremos dos mortos em 2015 – está bem, talvez 2016 – purgados e triunfantes. E a estrela solitária se erguerá das cinzas, como já aconteceu antes, e brilhará no céu da pátria outra vez.

O COMEÇO

Leitura recomendada para os nostálgicos da ditadura: a entrevista com o historiador Pedro Henrique Pedreira Campos publicada pela Folha de S. Paulo na segunda-feira. Pedro Henrique é o autor do livro Estranhas Catedrais – As empreiteiras brasileiras e a ditadura civil-militar, recém publicado. Na sua pesquisa de quatro anos para o livro, ele estudou a participação das empreiteiras no golpe de 64 e a sua relação com o governo militar que se seguiu e os casos de corrupção, que na época eram acobertados porque não existia fiscalização, a imprensa era censurada e qualquer crítica era considerada contestação ao regime.


O poder das empreiteiras, que nasceu no governo Juscelino, aumentou com seu acesso direto ao Estado ditatorial e sobreviveu ao fim da ditadura, com os mesmos maus hábitos. Pedro Henrique diz que, na era dos militares, a apropriação do Estado pelas empreiteiras era até maior do que o que está sendo revelado hoje por instituições democráticas como o Ministério Público e a Polícia Federal. Mas também reconhece que foram mantidas certas estruturas, em relação à distribuição de cargos e aparelhamento político, que facilitam a corrupção.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014


03 de dezembro de 2014 | N° 18002
EDITORIAL

TROCA DE FAVORES

O país só tem a perder quando, além de insistir no abrandamento do rigor fiscal, o Planalto recorre a práticas condenáveis como a de barganhar com emendas parlamentares.

A manobra fiscal defendida pelo governo federal para enfrentar a fragilidade das contas públicas já se constitui em si mesma uma ameaça à credibilidade das finanças governamentais. Condicionar a liberação de verbas parlamentares à sua aprovação torna ainda mais grave esse tipo de prática, pois demonstra o quanto tais dotações são usadas como moeda de negociação. Tem que ser assim? Não há outra maneira de manter um relacionamento mais republicano entre o Executivo e o Legislativo? Por mais que líderes políticos neguem qualquer tipo de chantagem no caso, é óbvio que práticas assim beiram a negociata.

Basicamente, o que o Planalto pretende com o projeto alterando a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) é descontar da poupança destinada ao pagamento de compromissos da dívida pública os gastos com obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e com desonerações tributárias. A necessidade só surgiu porque o governo federal se descuidou de um princípio elementar quando há a preocupação de gerenciamento responsável: manter as finanças públicas em equilíbrio.

Pressionado pelo Tribunal de Contas da União (TCU) a respeitar a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), um dos pressupostos da estabilidade, e a reorganizar as contas com uma nova equipe econômica, o Planalto se vê sem outra saída no curto prazo a não ser mudar a lei. O precedente é perigoso e inaceitável.

O país só tem a perder quando, além de insistir no abrandamento do rigor fiscal – decisão contestada pela oposição no Supremo Tribunal Federal (STF) –, o Planalto recorre a práticas condenáveis como a de barganhar com emendas parlamentares. Situações com esse grau de desgaste para os políticos poderiam ser evitadas se, além de o governo ter se preocupado mais com a qualidade dos gastos, a política brasileira se pautasse mais por partidos afinados com programas do que com imediatismos.


Líderes políticos na Câmara e no Senado tentam se preservar quando negam qualquer tipo de chantagem valendo-se das emendas parlamentares. Sob o ponto de vista da população, porém, o termo adequado para a manobra é um só: imoralidade.

03 de dezembro de 2014 | N° 18002
ARTIGO

GESTO DE RESPEITO AOS FILHOS

Quando as grandes famílias agrícolas constituídas por pais, filhos, avós e tios foram para as cidades, elas se fracionaram em famílias nucleares, formadas apenas pelo casal e pelos filhos. Nessa nova ordem social, o pai se tornou um operário que saía de casa para garantir o sustento da família, enquanto a mãe assumia como tarefa exclusiva o cuidado da prole, gerando-se um novo paradigma: o do instinto materno, alicerce da orientação legal que atravessou os séculos 19 e 20.

O mito de que o amor pelo filho é um sentimento inerente à condição feminina aparentemente foi uma forma de a sociedade compensar a desvalorização da mulher, em particular pela sua dedicação exclusiva ao trabalho doméstico. Dessa forma, procurou negar que o amor materno, assim como o paterno, é conquistado no convívio com a criança, podendo variar de acordo com a cultura e as condições psicológicas dos pais.

Na verdade, a biologia não é suficiente para estabelecer um vínculo de amor entre a mãe e seu filho, o mesmo valendo para o pai. Da mesma forma, não é a tendência sexual dos pais que os capacita para exercerem as funções indispensáveis ao desenvolvimento de uma criança. O que não pode faltar a uma criança é o amor, sob pena de ela se tornar um corpo desabitado, um ser sem alma.

A guarda conferida pela lei atual a um dos genitores coloca o outro numa posição secundária em relação aos filhos, o que contribui para o estabelecimento da alienação parental. Esse fator tem demonstrado constituir-se num verdadeiro crime contra os sentimentos dos filhos e dos pais cujo convívio foi dificultado ou impedido pelo cônjuge que detinha a guarda.

Médico psiquiatra e psicanalista


GLEY P. COSTA

03 de dezembro de 2014 | N° 18002
ARQUITETURA

JOGO DE MOSTRARE ESCONDER

COBOGÓS DIVIDEM AMBIENTES SEM COMPROMETER A VISIBILIDADE E A ILUMINAÇÃO

Na arquitetura de interiores, certos detalhes fazem toda a diferença em um projeto. Os cobogós se enquadram nessa categoria. São elementos que não só conferem personalidade, mas também criam efeitos diferentes, conforme a combinação e o modelo escolhidos. Carregados de uma atmosfera retrô, são cada vez mais identificados com o design contemporâneo e hoje primam pela variedade de aplicações.

Presentes em fachadas e projetos de interiores desde a década de 1920, os elementos vazados foram assim batizados pela junção de letras dos nomes seus criadores, três engenheiros radicados em Recife. Em 1929, o português Amadeu Oliveira Coimbra, o alemão Ernest August Boeckmann e o brasileiro Antônio de Góis, natural de Pernambuco, patentearam os cobogós com as sílabas iniciais dos três sobrenomes.

A inspiração vem da arquitetura árabe, com referências das treliças muxarabis, fechamentos de madeira colocados nas janelas das residências para criar aberturas sem que as mulheres fossem avistadas por quem passasse na rua. O recurso garantia privacidade e permitia a passagem de luz.

Quando surgiram no Brasil, os blocos vazados eram feitos, na maioria dos casos, de cimento. Atualmente, a multiplicidade de materiais e texturas é que torna o recurso tão rico visualmente. Mármore, cerâmica, vidro, acrílico, madeira e porcelana em diversos formatos revestem paredes inteiras, compõem peitoril de varandas, adornam ambientes internos e ocupam o espaço de revestimento em áreas molhadas. A criatividade dita a utilização.

No projeto ao alto, assinado pela arquiteta Marcy Ricciardi, a divisória setoriza os ambientes sem comprometer a visibilidade da bancada gourmet. Mostra que, mesmo não tendo um espaço amplo, é possível aproveitar pequenos vãos para encaixar cobogós: experimente um novo olhar para uma área compacta. O resultado pode ser surpreendente.


CAMILA SACCOMORI

03 de dezembro de 2014 | N° 18002
J.A. PINHEIRO MACHADO

A gravata torta do vagabundo celeste

A gravata e a roupa, sempre, em todos os tempos, ocultaram a desfac¸atez - mas tambe´m sublinharam virtudes. Anonymus, que usa gravata borboleta, gosta de lembrar a censura de Fradique Mendes, o mais encantador dos personagens de Ec¸a de Queiroz, numa carta reclamando do seu alfaiate por lhe ter cortado um casaco que assentava ta~o bem “nas costas de uma cadeira de pau, como nas costas do Comandante da Guarda Municipal, ou de um filo´sofo, se houvesse algum nestes reinos”.

O que queria Fradique Mendes: “Eu desejava que esse casaco me mostrasse a Lisboa como sou: reservado, frio, ce´tico e inacessi´vel aos pedidos de meias-libras”.

A roupa esta´ para o homem como a palavra para a ideia, exaltava-se Fradique, querendo algo que ressaltasse suas qualidades e disfarc¸asse seus defeitos:

“Os alfaiates ingleses ajeitam certas roupas que emanam virtude por todas as costuras, justamente para esconder a velhacaria de quem as veste!”.

Vamos combinar que não há mal algum em ter simpatia pela futilidade das aparências. Contardo Calligaris lembra que, desde o fim do século 18, os dândis (que fizeram da elegância um culto) tiveram uma função decisiva na revolução social moderna: “Se o critério da elegância substituísse o da nobreza de berço, qualquer um poderia ser elite; bastaria que fosse elegante”. Um exemplo seria Disraeli (que era um dândi). Tornou-se primeiro-ministro da rainha Vitória porque sua elegância contou mais que sua origem humilde (que, em princípio, impediria que ele tivesse acesso a tamanho cargo).

Para os dândis, no entanto, a elegância era “uma fineza rica”, com implicações morais, como observou Calligaris. O cuidado frívolo com as aparências – do nó da gravata ao corte das calças – seria também uma revolta do bom gosto contra as feiuras do capitalismo incipiente.

Dos meus tempos de repórter em Paris, lembro de Monsieur Lanvin, um dos homens mais elegantes do se´culo 20, modelo de discric¸a~o e sobriedade, que nunca se confundiu com velhacos engravatados. Numa rara entrevista, respondeu sobre como se vestia:

“De gravata, sempre. Exceto na praia”.

As gravatas podem ser de seda ou de polie´ster, escuras ou escandalosas, caras ou baratas, com no´ Duque de Windsor ou borboletas. Seguidamente, pendem do pescoc¸o de gente digna e nobre. Lobo Antunes recorda algue´m assim, o homem que iluminou sua vida, de gravata torta e casaco amassado:


“Charlie Parker... Esse pobre, sublime, misera´vel, genial drogado que passou a vida a matar-se e morreu de juventude, como outros de velhice. Cresci com um enorme retrato dele no quarto. Usa uma gravata torta e um casaco amassado, e poucas pessoas estiveram ta~o perto de Deus quanto esse vagabundo celeste”.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014


02 de dezembro de 2014 | N° 18001
FABRÍCIO CARPINEJAR

Dinheiro não compra tudo

São tantas as conquistas femininas ao longo do tempo, de independência do jugo masculino, que não vale jogar fora por uma noite. Não se rebaixe a sujeitos que pensam que podem comprá-la por conforto e ostentação. Dinheiro não traz paz de espírito.

Não aceite, por exemplo, que o homem pague bebida, ele vai supor que está a fim dele e entender errado. A cortesia custará caro. Não troque seu charme por um favor ou uma dose de vodca. Não alcance esperança se não existe nem atração. Não faça o tipo acreditar que tem chance apenas para baratear o custo da balada.

Não transmita a ideia de que um camarote representa alguma vantagem ou preliminar. Ser VIP é uma ilusão. O cercado vira uma prisão. Não se diminua esteticamente, a ponto de decorar o ambiente, suportando o anfitrião se vangloriando de suas coxas à mostra. A pulseira colorida não amadurecerá em aliança.

Não admita metade do preço das baladas e bares. É uma cilada machista. É tratar a mulher como manada para atrair homens. Pague o valor integral, para não ser vista como uma isca.

Ao sair, preveja condições de ir e voltar, sem depender de milagres. A autonomia protege a escolha.

Passe a mensagem correta, doa a quem doer. Quer sexo ou amor? Já venha com a pergunta definida de casa. Homem não tem complexidade para perceber os dois juntos.

Dificulte a vida do pretendente – homem se apaixona ao ser desafiado. A dúvida cria o mistério. Brigue, conteste, não concorde com tudo fingindo que é agradável. Bajulação é demonstração de submissão. Primeiro, estabeleça o contato. Depois, aceite a cantada. Não adianta reclamar do imprevisível e se lamentar como vítima do destino. Desde antes, diga o que deseja. Quebre a coluna vertebral das palavras, explore a sinceridade e a realidade, não simule que será uma história de amor ao perceber grosseria e laconismo. Não force a barra por visibilidade e confiança perante as amigas.

Homem emprega o artifício de deixar rolar para não se comprometer. Recuse o expediente da passionalidade, da mágica, do encontro astrológico. Fundamente a opção com boa conversa e cuidado.

Quando o homem escuta, não significa que esteja concordando. Provoque sua fala, para que ele se denuncie e entregue suas contradições. Se ele não sabe falar, não saberá amar.

Muito menos aposte no trago para criar empatia. A bebida não tornará ninguém melhor, somente piora o que já existe.

Não seja contra o cavalheirismo, é um indício de relacionamento sério. Perder tempo é dedicação. Não se oponha a que ele puxe a cadeira, segure o guarda-chuva, abra cervejas. Educação nunca faz mal. Um homem educado é o princípio de um homem gentil. Gesto é sempre honra, não moeda.

A vulgaridade envelhece. Não ponha vestidos que não permitam respirar. Tubinhos que fazem todas parecerem iguais e prontas para o sexo. Com a barra na altura da calcinha. É o uniforme do desespero. Aproveite a moda como ideologia: vestidos coloridos, combinações descoladas, vivas, com traços de sua personalidade. A aparência é a alma do olhar. Aja para o amor verdadeiro com espontaneidade. Não guarde vergonha de suas crenças e convicções.

Não transe nos banheiros ou nos corredores das casas noturnas. Pode concluir que foi uma aventura, um encontro inesquecível, arrebatador. Só que ele vai reconhecê-la como fácil e barata – sequer necessitou pagar motel.

Homem enumera as mulheres que pegou aos amigos. Não seja um número. Se ficou com um, não fique com outro da mesma turma. Será vítima de bullying sexual.

Transe porque tem vontade, não para despertar o interesse ou receber uma recompensa emocional. Que a facilidade seja consciente e alegre, não triste e resignada. Romance não é sobremesa, precisa vir com o prato principal.

Liberdade é jamais faltar respeito consigo. Ao identificar que ele não respeita seu ritmo, dispense. Não atalhe com medo de perder alguém. O atalho é o caminho mais longo, cheio de explicações, remorsos e desculpas.

A paciência é sinônimo de sedução. Dispense frases de para-choque de caminhão. Procure despertar o improviso, a inquietação, a novidade.

Não se convide para dormir na residência de um desconhecido, jurando que tem boas intenções. Ainda que não aconteça nada, ele se envaidecerá de expor seu apartamento disputado para a vizinhança.

Não dê oportunidade de flerte a homem comprometido. Que o estado civil se transforme em pré-requisito, não alimente suspense para descobrir do pior jeito na semana seguinte. Preferível o constrangimento ao vexame.


Intimidade vem com a ternura, jamais para quem tem pressa.

02 de dezembro de 2014 | N° 18001
PESQUISA LONGEVIDADE AMPLIADA

Mais vida, mais dias de trabalho

DADOS DIVULGADOS PELO IBGE apontam que expectativa de vida ao nascer chegou a 74,9 anos em 2013 no RS, são 76,9. Ampliação impacta o cálculo do fator previdenciário e o tempo de trabalho para quem quer se aposentar

No intervalo de apenas um ano, os brasileiros ganharam quase quatro meses a mais de expectativa de vida. Segundo dados do IBGE divulgados ontem, a esperança de vida da população do país ao nascer atingiu 74,9 anos em 2013, três meses e 15 dias a mais do que em 2012. A longevidade da população gaúcha ficou exatamente dois anos acima da média, com estimativa de 76,9 anos – é o quinto Estado onde se vive mais tempo. O impacto só não é bom em relação à aposentadoria: a vida mais longa vai custar 79 dias a mais de trabalho para quem não quiser ter descontos no benefício.

– A população está vivendo mais e envelhecendo de forma mais saudável, mas o aumento da expectativa de vida influencia no cálculo do fator previdenciário – explica o pesquisador do IBGE Fernando Albuquerque.

De fato, o aumento na esperança de vida levou a uma redução de até 0,92% na aposentadoria dos homens e de 0,78% na das mulheres, conforme o Instituto Brasileiro de Estudos Previdenciários (Ibep), com base no dado mais atual do IBGE. As informações contidas nas Tábuas Completas de Mortalidade do Brasil de 2013 são utilizadas pelo Ministério da Previdência Social como um dos parâmetros para determinar o fator previdenciário, no cálculo das aposentadorias do Regime Geral de Previdência Social.

Por exemplo: um homem de 60 anos e 35 de contribuição pelo salário-teto do INSS (R$ 4.390,24) receberia R$ 3.767,73 mensais caso tivesse requisitado a aposentadoria até a última sexta- feira. Desde ontem, um contribuinte nas mesmas condições vai receber R$ 34,57 a menos. Já uma mulher de 55 anos e 30 de contribuição diminuirá em R$ 20,47 o valor do benefício. Segundo a nova Tabela de Expectativas de Sobrevida e Fator Previdenciário 2000 - 2015, um segurado que requerer a aposentadoria a partir de agora vai ter que trabalhar quase três meses a mais se quiser manter o valor estipulado na tabela anterior.

Segundo Albuquerque, o aumento da longevidade do brasileiro pode ser explicado pela redução da mortalidade infantil e das mortes dos idosos com mais de 70 anos. Essas duas faixas etárias foram as que apresentaram mais ganhos de 1980 até ano passado.

Embora os homens tenham registrado, entre 2012 e 2013, um aumento maior da expectativa de vida em relação às mulheres, elas ainda estão à frente: vivem, em média, 78,6 anos, enquanto a população masculina chega aos 71,3, conforme as projeções do IBGE. Mulheres gaúchas ultrapassam os homens em cerca de três anos – podem chegar aos 80,3.

MORTALIDADE INFANTIL CAIU 78% EM COMPARAÇÃO A 1980

O IBGE também revelou que a taxa de mortalidade infantil (crianças de até um ano de idade) em 2013 ficou em 15 para cada mil nascidos vivos, uma queda de 78% em relação a 1980, quando esse índice era de 70. Para se ter uma ideia, no Japão a mortalidade infantil é de dois óbitos por mil. Programas de atenção pré-natal e de aleitamento materno, além de avanços no saneamento e na cobertura vacinal são fatores apontados pelo órgão para explicar a melhoria do indicador no Brasil.

Entre 2012 e 2013, foram observados aumentos na expectativa de vida em todas as idades. Na fase adulta, de mil pessoas que atingiram os 15 anos, 848 completam 60 – quatro a menos. O acréscimo também se notou nas mulheres em período fértil (de 15 a 49 anos): de cada 100 mil nascidas vivas, 93.568 chegaram aos 50 anos, 175 a mais do que em 2012.

A probabilidade de uma pessoa com 70 anos morrer nessa idade caiu de 47,5 por mil para 25,2 por mil. A explicação, diz Albuquerque, está nos avanços médicos e tecnológicos e em ações voltadas para os idosos, como a aposentadoria rural. Por outro lado, a faixa etária dos 15 aos 19 anos foi a que teve menos redução da mortalidade de 1980 a 2013. Nos homens de 17 e 18 anos, a taxa é exatamente a mesma de 1980.


luisa.martins@zerohora.com.br

02 de dezembro de 2014 | N° 18001
LUÍS AUGUSTO FISCHER

A LÍNGUA

Estou vivendo na França por um ano, experiência forte, como dá para imaginar. Ainda mais para quem, como eu, nunca tinha vivido longe do Brasil, apenas passeado. Estar longe da família e dos amigos, assim como longe da paisagem familiar, ser solicitado a conhecer, apreciar, sentir e julgar coisas novas todos os dias, isso tudo vai exigindo energias profundas.

Em parte a distância é bem atenuada pelo Facebook. Nunca tinha vivido tão claramente essa dimensão da globalização internética, e em verdade vos digo – é muito bom ver as curtidas e os comentários, poder intuir o modo como a vida daqui pode ser presenciada, mesmo que vicariamente, por gente querida, de longe.

Entre as tantas coisas relevantes, o tema da língua ressalta, naturalmente. Fico prestando atenção, por exemplo, ao modo como o inglês pressiona a língua local. Tem comissão oficial encarregada de enfrentar a questão, propondo palavras francesas ou neologismos grecolatinos para estrangeirismos indesejados (ainda vou escrever sobre isso alguma coisa). Em princípio acho inútil e mesmo indesejável haver uma comissão assim, ainda mais que, no Brasil, quem a comporia? Melhor nem pensar.

Na prática, o inglês, a língua franca de nosso tempo, deita e rola. Alguns exemplos que andei anotando, de palavras inglesas regularmente empregadas na fala: week-end (não tem equivalente em francês); stop (mãe mandando filho parar, super comum); ok (eles dizem “oquê”, sem fazer ditongo no fim); square (o nome formal da pracinha de bairro); chewing-gum (dito como oxítona, como em tudo); t-shirt; match; sports (é o nome da aula de Educação Física na escola). E por aí vai.


Uma inesperada é “pickpockets”, batedor de carteira. Em muitas das estações de metrô os alto-falantes avisam que é preciso tomar cuidado com eles. De vez em quando aparece escrito o aviso, em mais de uma língua; quando aparece português é o de Portugal, e o “pickpocket” vira “carteirista”. Um brasileiro de nossos dias dirá: “Saudades do tempo em que o batedor de carteira era o problema maior do cotidiano…”.

02 de dezembro de 2014 | N° 18001
MOISÉS MENDES

O avô inventado

Ninguém, nem os empreiteiros, terá o poder das avós e dos avôs neste século 21. É agora que os pais do século 20 têm a chance de se redimir.

Todos os erros, as omissões, as indiferenças e as barbeiragens com os filhos serão compensados pela atenção aos netos. Se os netos, como consequência da paparicagem, forem adultos com muitos defeitos, terão mais adiante a chance de corrigir suas falhas com seus netos.

Filhos, principalmente os que leram Freud em almanaques, podem ter problemas sérios com os pais. Não com os avós. Os avós foram protegidos dos capítulos mais cruéis das teorias psicanalíticas e são apenas coadjuvantes das tentativas de compreensão do que somos, de onde viemos e para onde vamos.

Mas avós são as nossas referências mais genuínas. Por exemplo, as magias que a Aline Bonnamain faz na cozinha do Antirrestaurante Mesa de San Miguel, na zona sul de Porto Alegre, são atribuídas à sabedoria herdada do avô Fernand Bonnamain, dono e chef do lendário Sans Souci. Aline diz: eu sou assim porque sou neta de Fernand Bonnamain. E todo mundo acredita.

O antirrestaurante de Aline e de Luiz Roberto Targa é diferente (vi no programa As Boas Coisas da Vida, do meu amigo Irineu Guarnier Filho e da Lilian Lima, na TVCOM), porque até sua localização é misteriosa. Assim como é diferente o picolé da Diletto.

Pois o picolé da Diletto diz na propaganda que é tão diferente porque o dono da marca, Leandro Scabin, herdou a ciência de fazer gelados do avô Vittorio, que veio do Vêneto para o Brasil fugindo da Segunda Guerra. E montou então a fabriqueta da Diletto em São Paulo.

Só que o avô da Aline existiu mesmo. E esse avô do homem da Diletto nunca ninguém viu. Vittorio não existiu. Leandro inventou um avô picoleteiro para glamorizar a marca. Conta na propaganda que o avô fazia picolés com frutas frescas, aproveitando até a neve. É mentira.

Enquanto Aline se orgulha de poder falar de Fernand, Leandro deve se constranger da emocionante (mas falsa) história de Vittorio nas embalagens do seu picolé.

Vittorio é um dos muitos personagens inventados pelo empreendedorismo do vale-tudo. Porque belas histórias constroem grifes, diferenciam um produto.

Além da Diletto, outras marcas que mentem – como a do suco Do Bem – foram desmascaradas por uma reportagem da jornalista Ana Luiza Leal, na revista Exame.

É preciso que alguém invente um avô para enganar os outros e ganhar dinheiro?

O delito de tentar tratar o consumidor como idiota é o menor. O pior é que esse neto matou a memória do avô verdadeiro, que se chamava Antonio e também veio da Itália, mas nunca fez picolés.

O avô Antonio foi atirado num depósito pelo marketing do picolé. O homem da Diletto desprezou seu avô de verdade para lucrar mais. Esse é o grande delito.

Que parafuso afrouxa na cabeça de quem precisa inventar um avô só para aumentar suas vendas?

Mas há um consolo nessa história. Seu Antonio já morreu e não passará pela vergonha de competir com um avô inventado.

Se estivesse vivo, poderia dizer que o homem da Diletto é um neto de mentira.

Conheço dois netos que vieram ao mundo há pouco. Heitor é o primeiro neto do poeta do Alegrete Élvio Vargas. E Julia também é a primeira neta da professora de Jornalismo da UFRGS Rosa Maria Bueno Fischer.


O avô materno de Julia foi o grande jornalista Jefferson Barros. Desejo que Heitor e Julia nunca caiam na tentação de inventar outros avós.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014


01 de dezembro de 2014 | N° 18000
EDITORIAL

INCLUSÃO SOCIAL COM AUSTERIDADE

Os bons propósitos na área social dependem sobretudo de rigor fiscal, mas também de outros pressupostos. Entre eles, estão o combate à corrupção e um basta a aliados de ocasião.

No mesmo dia do anúncio de uma equipe de ministros da área econômica comprometida com o rigor fiscal, a presidente Dilma Rousseff reafirmou, na última semana, a prioridade à inclusão social. A garantia, feita durante a Conferência Nacional de Economia Solidária, em Brasília, fecha com as primeiras manifestações dos ministros da Fazenda, Joaquim Levy, e do Planejamento, Nelson Barbosa, que confirmaram a continuidade dos avanços sociais, sob algumas condições.

Uma delas é a de que os investimentos nessa área levem em conta os limites orçamentários do governo, ainda que isso venha a obrigar o Planalto a fazer escolhas. O trabalho será facilitado, nas palavras do futuro ministro da Fazenda, se a economia brasileira recuperar as condições para crescer, permitindo maior receita para o governo e mais renda para os brasileiros de maneira geral.

Como defende o responsável pelo Planejamento a partir de 2015, não há contradição entre o compromisso da nova equipe econômica com a melhora dos indicadores financeiros e a manutenção de políticas sociais. Ainda assim, os programas nessa área precisarão, necessariamente, se ajustar ao cenário macroeconômico do país nos próximos anos. Isso porque, sem os recursos orçamentários assegurados pelos ganhos de arrecadação com o crescimento, fica mais difícil enfrentar os problemas derivados da desigualdade social, que resistem mesmo depois das conquistas registradas nos últimos anos.

As prioridades, nas palavras da presidente da República, incluem de educação e saúde até investimentos em infraestrutura e modernização, com potencial para gerar melhoria na qualidade de vida e mais emprego e renda para os brasileiros.

Todos os brasileiros desejam isso. Os mais conscientes, porém, sabem que os bons propósitos na área social dependem sobretudo de rigor fiscal, mas também de outros pressupostos. Entre eles, estão o combate à corrupção e um basta a aliados de ocasião. É preciso também enfrentar o espírito de atraso de setores do próprio partido da presidente e respeitar agentes privados que trabalham pelo desenvolvimento do país.


As conquistas sociais são importantes e devem ser mantidas. Mas não há mágica que promova a justiça social sem trabalho duro, honestidade e desapego de ideologias.

01 de dezembro de 2014 | N° 18000
MARCELO CARNEIRO DA CUNHA

UMA PONTE LONGE DEMAIS

Um dos sucessos mundiais da teledramaturgia escandinava foi e é Bron/Broen, ou, na Globosat, The Bridge. A primeira temporada causou espanto pela lindeza das cenas, a dureza do argumento e a sofisticação da dramaturgia. Além disso, a ótima dupla de personagens disfuncionais, um policial dinamarquês um tanto cansado das suas rotinas e uma esquisita policial sueca, com uma forma um tanto diferente de processar as emoções, encantaram crítica e público.

The Bridge deu tão certo que os norte-americanos entraram em cena, desta vez para estragar o que era doce fazendo uma versão sobre a ponte que separa Estados Unidos e México. Pois a dupla formada por Saga, a esquisita, e Martin, o bonachão, ganhou uma segunda temporada, na qual os criminosos são mais ecológicos, e suas causas mais incompreensíveis.

Um dos encantos de Bron, The Bridge, A Ponte, ou como resolvermos chamar, é este: estamos vendo histórias um tanto ousadas no conteúdo e na forma, contadas por gente que funciona de um jeito que nos espanta. Talvez esse mergulho no universo pessoal dos descendentes dos vikings seja, para nós, brasileiros, uma fonte de atração. Eles são diferentes, pensam diferente, beijam diferente e se movem em outra dimensão.


Hollywood adora eliminar as diferenças, e por isso mesmo é bom ver as séries feitas em outros polos, em outras culturas. Bron é gelada, branca, escura, contida, mesmo nos momentos em que nos revela os horrores de seus crimes e criminosos. Eu vi uma Copenhague muito diferente, com cores, calor, encantadora. Mas estive lá justamente no final de semana em que houve verão. No resto do tempo, suspeitamos, as coisas são mais ou menos como Bron mostra. Uma história intensa e fria, em um mundo que talvez seja mesmo assim. Veja e sinta.

01 de dezembro de 2014 | N° 18000
PAULO SANT’ANA

Elevador em queda

Fico pensando sobre o elevador que despencou em um edifício da Avenida Borges de Medeiros na madrugada de ontem, com nove passageiros.

Diz a notícia que, segundo testemunhas, os nove passageiros estariam embriagados e vinham de uma festa no terraço do prédio.

E que pulavam, gritavam e cantavam quando o elevador despencou até abaixo do térreo.

E a notícia fornece uma explicação técnica plausível para o despencamento do elevador: ele tinha capacidade para até seis passageiros. E foram nove os que despencaram.

Sempre tive muito medo de elevador. Aquela geringonça descendo e subindo o dia inteiro, será que não cansa dessa faina insistente?

Mas fico pensando que despencam poucos elevadores. São milhões de viagens durante um dia só na cidade e quase não se tem notícia de elevador despencando.

Até que um despenca e a gente fica imaginando o perigo que corremos diariamente, andando de elevador. Quem de nós nunca ficou preso num elevador?

Felizmente, não morreu nenhum dos nove passageiros, mas a queda e a aterrissagem foram vertiginosas e de impacto, tanto que, dos nove passageiros, dois tiveram fraturas nos ossos das pernas, justamente a parte do corpo que sofreu maior impacto.

A notícia faz intuir que os nove estavam embriagados, pois vinham de uma festa que houve no terraço. E cantavam e pulavam no elevador, depõem testemunhas.

Eu fico imaginando qual foi a reação deles quando o elevador começou a despencar e levou menos de dois segundos para aterrissar. Será que tiveram medo nesse rápido interregno entre o despencamento e a chegada em terra firme? O que terá passado pelas cabeças deles nesses menos de dois segundos?

Todo elevador traz uma placa no seu interior, fixando a capacidade dele para suportar o peso de transporte.

Um dia, entrei num elevador em que os outros 11 passageiros eram gordos, pareciam ter vindo de um concurso para Rei Momo. E fiquei pensando que a capacidade máxima do elevador era de 12 pessoas, mas quem assim a fixou deve ter calculado o peso médio de cada passageiro em 75 quilos. E nenhum daqueles 11 gordos que me acompanhavam na viagem tinha menos de 95 quilos.

Confesso que tive medo e, se não estivesse lá atrás no elevador lotado, teria pedido para descer e não fazer a viagem arriscada.


Mas, com todos esses problemas, insisto que são poucos os elevadores que despencam, menos até que os aviões que caem em meio aos voos.

01 de dezembro de 2014 | N° 18000
L. F. VERISSIMO

Bang!

A última do papa Francisco é que nem o Big Bang desmente a Teologia, nem a Teologia desmente o Big Bang. Um cristão pode aceitar a teoria do grande estouro que, segundo a ciência, deu origem ao Universo em um milésimo de segundo, sem abandonar sua crença na existência de um Deus criador de tudo. Pode-se até imaginar uma hipotética conversa do papa, que o representa na Terra, com Deus, em que Este lhe confidencia:

– Francisco...– Sim, Senhor. – O Big Bang... Existiu mesmo.

– O quê? – Existiu. Não adianta mais negar. A teoria está certa.

– O senhor tem certeza? – Meu filho, Eu estava lá. – Então o Big Bang... Foi o senhor?

– Modestamente...

A ciência não nos assegura que o Grande Nada que precedeu o Big Bang não fosse o tempo ocioso de Deus, indeciso sobre o que fazer da Sua vida. Crio um universo? Me resigno a esta imensa solidão, por toda a eternidade? E este meu poder sem limites, o que faço com ele? Se posso tudo, por que não fazer tudo? E Deus explodiu, criando tudo.

A vantagem de criacionistas sobre evolucionistas é que a Bíblia, onde está escrito tudo que um criacionista precisa saber, pode ser lida como verdade incontestável ou como uma coleção de parábolas e metáforas. Assim, trechos que parecem cientificamente improváveis são explicados como sendo em linguagem figurada, com liberdade poética, e os outros, menos fantásticos, como fatos históricos. Não há nem poesia nem certezas iguais nas explicações científicas.


Há pouco, uma sonda pousou num cometa e, entre as transmissões que mandou para a Terra, detectaram o que pareciam ser notas musicais. Não eram, mas, por um breve instante de encantamento, foi lembrada uma ideia antiga, a de um Universo sinfônico, e Deus como uma espécie de Beethoven sideral. O cometa traria, entranhado, algum resto da música das estrelas. Mas o ruído da sonda era só estática. Pena. Seria um ponto para o deslumbramento religioso contra a frieza da ciência.