sábado, 3 de outubro de 2020


03 DE OUTUBRO DE 2020
J.J. CAMARGO

JUNTANDO OS CACOS 

"Eu preciso de um médico que trate a alma das pessoas! Podes me indicar alguém?"

Esta frase foi colocada logo depois do "em que posso te ajudar" quase sempre acrescido do recomendável "eu preciso saber um pouco mais, então me conte o que só contarias ao teu melhor amigo!".

Essa consulta pode ter acontecido ou, simplesmente imaginada, como introdução para discutir uma situação comum nestes tempos de rabugice coletiva, com todo mundo exasperado pelo demora do fim dessa pandemia, enquanto alguns ironizam que o pico da doença está previsto para o final de 2021, ou não. O certo é que esta experiência insólita de pânico generalizado mexeu com as pessoas de uma maneira inusitada, constrangendo os pretensos poderosos com a democratização do medo, esse sentimento que melhor define a nossa vulnerabilidade.

O confinamento desde cedo começou a cobrar seu preço, e a companhia sem tréguas dos cônjuges, privados até das novidades trazidas da rua, remexeu em mágoas represadas e estimulou um previsível acerto de contas. Muitos casamentos ruíram porque um acabou dizendo "o que precisava ser dito", e o outro, sempre tolerante, agora como um animal ferido e enjaulado, retribuiu.

Alguns, sem ânimo para dissecção de relações eternizadas pela mesmice, se deram conta do quanto estavam desorganizados e, com a morte sempre rondando por perto, ficaram chocados com a consciência de não estarem prontos.

Esses cenários resumidos aqui foram tantas vezes levados pelos pacientes aos consultórios dos médicos antigos, esses antiquados que consideram que ouvir é parte essencial da relação entre duas pessoas, mesmo quando a doença de uma delas não provoca nenhuma dor física.

A expressão de extremo descompasso afetivo justifica a demanda por divórcios, e a insegurança em relação a um futuro sem limites estabelecidos tem multiplicado o trabalho dos cartórios onde desaguam os processos dos requerentes de testamentos, pelos tipos que recém descobriram a finitude, sempre mantida distante, como se fosse uma improbabilidade.

Como as glamourosas estratégias de comunicação virtual já esgotaram seus limites de competência, ninguém mais aguenta os abraços virtuais, nem as telas do computador cheias de carinhas amorfas, olhando para lugar nenhum, e sempre alguém perguntando: "Vocês me ouvem?".

É certo que sairemos dessa pandemia mais espertos em comunicação remota, mas o retorno à vida que consideramos de fato normal vai nos encontrar muito diferentes. Quem dera, melhores, apesar de completa incerteza. Para não deixar a paciente do início desta crônica sem resposta, digo que não tenho ideia de para quem encaminhá-la, mas que pode me ligar se a solidão parecer insuportável.

Sei que vai ser difícil assimilar tantas perdas, mas confio que passar por uma experiência tão surreal também é viver. E com uma intensidade insuspeitada no nosso antigo modelo de convívio despreocupado. Historicamente, as tragédias são transformadoras, e pode ser que no fim de tudo cheguemos à conclusão de que as nossas vidas já estavam a exigir uma mudança, desde antes da doença aparecer.

Talvez o mais chocante acabe sendo o quanto demoramos a perceber esta necessidade. Então, vamos juntar os cacos e recomeçar.

Por absoluta falta de alternativas.

J.J. CAMARGO

03 DE OUTUBRO DE 2020
DAVID COIMBRA

O céu laranja de Porto Alegre

Porto Alegre amanheceu com o céu cor de laranja na sexta-feira. Um céu que Van Gogh gostaria de pintar. Há coisa de seis anos, depois de uma nevasca, a primeira nevasca da minha vida, vi a noite da Nova Inglaterra luzindo quase que no mesmo tom.

Quando digo nevasca, não me refiro a uns flocos de neve flutuando preguiçosamente, fazendo a gente ter vontade de cantar Noite Feliz. Não. Estou falando de tempestade de neve. O que eles chamam de blizzard.

Essa minha primeira blizzard foi assustadora. Os americanos são alarmistas. Uma semana antes, TVs, rádios e sites já anunciavam que aconteceria, pediam que tomássemos o máximo cuidado e passavam instruções: fiquem em casa, abasteçam a despensa, comprem cobertores e lanternas. Falavam muito nisso de lanternas. Alertavam que poderia faltar energia elétrica.

No dia em que ocorreria a blizzard, recebi uma ligação da Defesa Civil, repetindo as recomendações, encerrando com gravidade: "Não se esqueça de comprar lanternas!"

A cidade inteira estava agitada, todo mundo correndo, apressado. A Marcinha foi fazer rancho no supermercado, eu fui pegar o Bernardo na escola e, depois, saímos a procurar as benditas lanternas. Quem disse que encontramos? Todas tinham sido vendidas. Por Thomas Edison, será que ficaríamos no escuro? Finalmente, depois de muito bater perna, achei três lanternas tipo caneta à venda numa famosa ferragem chamada True Value. Comprei-as sofregamente.

Nunca as usei.

Nos seis anos em que vivi em Boston, só uma vez faltou energia, durante 15 minutos, por causa de uma obra que estavam fazendo no prédio em que morava. Mas antes da blizzard eu não sabia disso, então fiquei bem contente com as minhas lanternas e orgulhoso de tê-las achado.

Os canais de previsão de tempo marcaram para o meio da tarde o começo da tempestade, e a tempestade obedeceu. O dia havia começado claro e foi se tornando opressivo, as nuvens se aproximando do solo com jeito de brabas. Depois do almoço, o céu estava lilás. A temperatura foi baixando. Baixando... Na hora aprazada, flocos de neve do tamanho de moedas de um real começaram a cair como folhas mortas, pousando devagar no chão, juntando-se uns aos outros. No começo da noite, se você saísse à rua, afundaria até os joelhos no colchão de neve fofa e branca.

Nós, eu, a Marcinha e o Bernardo, estávamos no calor da nossa casa, jantando e apreciando a paisagem lá fora. Podíamos fazer isso, porque o apartamento era dotado de uma enorme porta de vidro que se abria para a sacada. Não me cansava de olhar para aquele cenário bucólico, em que sobressaía um robusto carvalho que nos abraçava todos os dias. Sério, ele nos abraçava. Era como se nos protegesse. Desenvolvi uma inexplicável afeição por aquela árvore poderosa. No dia em que voltaríamos em definitivo para o Brasil, eu e o Bernardo fizemos questão de ir até o pé dela e abraçar seu tronco. Fiz isso, confesso, e quero fazer de novo, quando estiver lá outra vez.

Naquela noite, a neve foi embranquecendo os galhos nus do imenso carvalho e também os telhados das casas, o gramado da praça, o chão das ruas. A cidade ficou inteiramente branca. E então, quando a luz da Lua conseguiu furar a massa de nuvens, tudo, chão, casas, árvores e céu, tudo ficou cor de laranja. Foi tão lindo, que parei diante da porta envidraçada em silêncio, o peito cheio de alguma emoção entre a alegria de ver e o agradecimento por estar vendo, e aí falei. Sem deixar de mirar a rua, chamei a Marcinha e o Bernardo: "Olhem..." E eles olharam.

Lembrei dessa noite ao ver o amanhecer laranja de Porto Alegre na sexta-feira. Era bem cedo ainda, estava meio escuro. Até parecia noite, mas era o dia que vinha. Chovia uma chuva silenciosa e boa e foi bonito. Fiquei pensando que você pode encontrar belezas em qualquer parte do mundo, em qualquer pedaço de tempo. Basta querer ver. Torci para que meus irmãos porto-alegrenses estivessem contemplando o mesmo céu, mas calculei que a maioria da cidade continuasse sob os lençóis. Senti vontade de despertar a todos. Queria poder convocá-los a admirar aquela cena que Van Gogh pintaria. Queria poder pedir: "Olhem..." E eles olhariam.

DAVID COIMBRA

03 DE OUTUBRO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

Ameaça em ondas 

Trazem esperança mas também devem ser recebidos com comedimento os números que mostram arrefecimento dos casos, das internações em UTI e das mortes por covid-19 no Rio Grande do Sul, assim como estudos indicando a possibilidade de ter ficado para trás o período mais grave da pandemia. O momento mais crítico teria sido no início de setembro e, agora, o Estado estaria ingressando em uma fase de lento declínio da enfermidade, que já ceifou a vida de mais de 4,8 mil gaúchos. A cautela não tem qualquer relação com questionamento às estatísticas ou à pesquisa que aponta a tendência. 

A parcimônia é baseada na simples constatação de que o quadro pode mudar, com um recrudescimento da enfermidade, caso a população relaxe no distanciamento social, na postura de evitar aglomerações, e nas atitudes pessoais como usar máscara, álcool gel e o ato de lavar as mãos constantemente. Mesmo com o cansaço de mais de seis meses de restrições, afastamento de familiares e amigos, o comprometimento individual segue decisivo na batalha para manter os números em trajetória consolidada de queda.

O Brasil, na média, também vem apresentando nas últimas semanas uma curva descendente de infecções e óbitos, após um longo platô, mas este movimento, da mesma forma, não deve se tornar motivo para a população negligenciar medidas essenciais ao combate da disseminação do agente infeccioso. A retomada gradual das atividades econômicas não prescinde de todos os cuidados, cautelas e limitações, como é o caso das escolas, com o retorno às aulas presenciais compondo uma das fases de flexibilização mais sensíveis em todo o mundo.

O exemplo de quanto o novo coronavírus é traiçoeiro e oportunista, sempre à espreita de descuidos e comportamentos inapropriados, vem de alguns pontos do próprio Brasil, da Europa, dos Estados Unidos e de Israel. Manaus, que gerou cenas dramáticas nos primeiros meses da pandemia no país, atravessa período de novo aumento de mortes e a possibilidade de uma segunda onda, embora a situação ainda gere discordância entre especialistas. Na cidade do Rio, as internações em UTIs voltaram a subir nas últimas semanas. Vários países europeus observam a elevação de casos e, em Madri, a capital espanhola, foi preciso aumentar as restrições à circulação da população de algumas regiões. Na Espanha e na França, ficou claro que os jovens são agora os principais vetores da doença e, como não vivem isolados, os que se arriscam ao contágio acabam mantendo o vírus circulando intensamente.

Diante do perigo de uma segunda onda, é preciso renovar o apelo para a manutenção das atenções básicas e do distanciamento social para que o Estado e outras regiões do Brasil não vejam a repetição de imagens de cidades esvaziadas, em um momento de esgotamento social e econômico. Do governo federal já se viu que não se pode esperar muito em termos de incentivo a comportamento seguro. Como ainda não há vacina segura e de eficiência comprovada, negligências podem colocar a perder meses de protocolos rígidos e forçar a necessidade de retornar algumas casas na caminhada das flexibilizações. O mais robusto obstáculo a uma nova onda é a consciência e a responsabilidade de cada cidadão. Afrouxar os cuidados poderá significar ver o mapa do Rio Grande do Sul outra vez pintado de vermelho.



03 DE OUTUBRO DE 2020
+ ECONOMIA

Risco Trump com covid-19 se soma a temor sobre Guedes 

Causou susto nos mercados, na sexta-feira, o diagnóstico de que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está com covid-19. Na economia, a situação eleva a já alta incerteza, desde como o governo americano vai se comportar agora até o futuro da eleição para a Presidência dos EUA. Está em dúvida a realização de debates e outros atos de campanha nas próximas duas semanas, metade do tempo que falta para o dia da votação.

Considerando os resultados do primeiro embate com o democrata Joe Biden, pode até beneficiar Trump. Apesar do bate-boca desastrado, pesquisas mostraram leve vantagem para o democrata. Se antes era difícil de prever resultado, agora se tornou quase impossível.

Esse aumento de incerteza faz investidores se refugiarem em mercados mais seguros. Países com economia fragilizada, como o Brasil, tendem a ser mais afetados. Em setembro, houve saída de R$ 2,4 bilhões de estrangeiros da bolsa brasileira. E o fato inesperado colhe o país em momento difícil, com endividamento crescente e dúvidas sobre o compromisso do governo Bolsonaro com o ajuste fiscal.

A bolsa caiu 1,53% na sexta-feira, enquanto o dólar fechou quase estável, mas em R$ 5,666, cotação mais alta desde 20 de maio. Isso ocorreu um dia depois que Bolsonaro afirmou que o ministro da Economia, Paulo Guedes, tem 99,9% de sua confiança. O que tornou a declaração necessária foi o desgaste de Guedes na discussão sobre como financiar um programa social mais robusto do que o Bolsa Família. E o clima que já não era bom entre Guedes e o ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, azedou mais na sexta-feira. Em reunião com bancos, Marinho disse que o colega havia perdido a confiança do relator do orçamento no Congresso, Márcio Bittar (MDB-AC), por ter revisto sua posição sobre os precatórios como fonte para o Renda Cidadã.

Ao saber, Guedes afirmou que não devia ser verdade, porque, se fosse, Marinho seria "despreparado, desleal e fura-teto". A piora global e a desconfiança interna fizeram o economista-chefe da corretora Necton, André Perfeito, revisar sua projeção para o dólar no final de ano de R$ 5,90 para R$ 6.

"No mundo anormal, mais mudanças" 

Andrea Kohlrausch havia se tornado presidente da Bibi Calçados há menos de um ano quando a pandemia a obrigou a mudar todos os planos em poucos dias. A empresa, que emprega 1,2 mil funcionários, não fez demissão em massa. Com indústria e uma rede de franquias, já abriu quatro lojas na retomada e prevê mais três no Exterior ainda neste ano.

Distanciamento

"Neste momento, estou em casa, porque meu esposo testou positivo para covid-19. Faz uma semana, ele tem sintomas bem leves, mas nos isolamos. Antes, alternava entre casa e empresa. Demos férias coletivas, depois adotamos jornadas reduzidas. Em agosto, conseguimos retomar 100% da produção. Setembro foi o primeiro mês completo. Aderimos ao movimento Não Demita e mantivemos cerca de 1,2 mil empregos, incluída a unidade da Bahia."

Leitura e lazer

"Participei de muitas lives, vi algumas séries e filmes, como O Dilema das Redes. Estou lendo agora Avalie o que Importa (Bruno Menezes e John E. Doerr), sobre gestão de OKRs (Objectives and Key Results, metodologia adotada pelo Google). Também estou passando um momento único com meus filhos Luísa, de 11 anos, e Augusto, de três. Fizemos uma escala familiar para que possam brincar e socializar. Levamos para andar de bicicleta. Haja criatividade. Eu estava mais sedentária e retomei a corrida."

Combate ao coronavírus

"Não há solução ainda, mas já estamos voltando às atividades. Exportamos para mais de 60 países, lidamos com situações muito diversas, como no Peru, onde houve dias que os homens não podiam sair, e na Argentina, que segue muito fechada. Não dá para se desmotivar, tem de buscar a solução. Atuamos muito no apoio a nossa rede de franquias. Orientamos sobre como atuar no e-commerce, orientamos sobre as MPs e prazo para recolher impostos, apoiamos negociações com shoppings. Ajudamos a ativar o delivery, adotar mecanismos antifraude, a trabalhar nas redes sociais."

Aprendizado

"A Bibi tem 71 anos porque sempre teve coragem de inovar. Vai intensificar a inovação. Temos foco em sustentabilidade e buscamos o equilíbrio com todos com quem trabalhamos. Acreditamos na empatia e na disposição de aprender sempre, e a pandemia reforçou esses princípios."

Reflexões

"Uma das frases que uso é ?quem tem um porquê enfrenta qualquer como?. A empresa tem propósito claro, que é contribuir para o desenvolvimento feliz e natural das crianças. É importante que cada pessoa busque seu propósito. Não há um novo normal, vamos ter um mundo anormal, em que as mudanças vão se acelerar. Com tanta informação disponível, o que vai importar é a capacidade de execução. Nessa retomada, já inauguramos quatro lojas, abrimos a segunda no Equador, a primeira internacional do ano, e ainda devemos abrir mais três no Exterior neste ano. Ainda não vencemos o coronavírus, mas estamos retomando com prevenção e segurança."

Indústria de alimentos para cães e gatos de Garibaldi, a Nutrire ampliou seu plano de expansão para o Exterior. A empresa passa a fornecer produtos para o Catar. Vai começar com o envio de um contêiner com 12 toneladas de ração. A empresa gaúcha já vende para outros oito países árabes.

A embalada na construção civil também chegou a Gramado. Entre abril e agosto, a Scalla Incorporações vendeu 70% das unidades de um novo prédio na cidade da Serra com 20 apartamentos.

Depois de gerar 1,14 mil postos em julho, o setor calçadista criou outros 6,3 mil em agosto. É uma reação depois de quatro meses seguidos de perda de empregos, mas ainda faltam 36,6 mil para voltar ao nível de dezembro de 2019 (269 mil postos de trabalho).

MARTA SFREDO

03 DE OUTUBRO DE 2020
J.R. GUZZO

Bolsonaro vai se arrepender 

O nome que se deu como o escolhido pelo presidente Jair Bolsonaro para a vaga que está sendo aberta por estes dias no Supremo Tribunal Federal é o que os agentes das companhias de seguro chamam de "P.T." - desastre com "perda total". Em relação a ele, a única coisa que o presidente poderia fazer de útil é dizer que foi tudo um mal-entendido - o tal Kassio Nunes Marques, o homem preferido pelas gangues que operam no Congresso e no baixo mundo do Poder Judiciário em Brasília, "garantista" ao gosto da esquerda e abençoado por Gilmar Mendes, Toffoli e seus parceiros, tem tudo para ser o herói do pior momento dos quase dois anos do governo Bolsonaro.

A reação ao anúncio divulgado no noticiário foi mais uma dessas anomalias que a vida pública brasileira de hoje oferece. A maior parte dos que de uma forma ou de outra apoiam o governo achou que o nome é um horror; sua indignação com ele, e com Bolsonaro, ficou evidente de imediato nas redes sociais.

Quem gostou, vice-versa ao contrário, foi o bonde que circula entre a esquerda nacional e a "Confederação Brasileira da Corrupção Responsável": PT, centrão, OAB, escritórios milionários de advocacia criminal, garantistas, intelectuais orgânicos, inimigos da Lava-Jato, os ministros do STF que se especializam em proteger acusados de corrupção, a mídia que condena tudo o que Bolsonaro faz etc. Uns, é claro, não dizem em voz alta que apoiam; mas ficam quietos, o que dá na mesma.

O apoio mais chocante ao nome de Kassio Nunes - que nunca foi juiz, está na magistratura por nomeação de Dilma Rousseff e ficaria no STF pelos próximos 27 anos, até 2047 - veio do seu conterrâneo Ciro Nogueira, senador pelo Piauí e denunciado formalmente em fevereiro de 2020 pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, caso que está enfiado numa gaveta do STF. Precisa dizer mais alguma coisa?

O preferido do senador, além dessa qualificação, tem uma soma de realizações profissionais como jurista equivalente a três vezes zero. É contra a prisão de criminosos após a sua condenação em segunda instância (segundo ele, é preciso "justificar" por que o sujeito teria de ir para a cadeia só porque foi condenado duas vezes) e a favor da construção de mais prédios para esses tribunais superiores que se multiplicam por aí; acha que os seus palácios atuais não são suficientes.

Logo no começo do governo Bolsonaro, circulou no mundo político a notícia de que um dos seus filhos estava para ser nomeado embaixador do Brasil nos Estados Unidos - nada menos do que isso. Foi um espanto tão grande, que a ideia acabou sendo abandonada. Para o bem-estar de todos e felicidade geral da nação, o arrependimento, como aconselhava Santo Agostinho, veio antes do pecado. Aguarda-se, agora, o momento em que Bolsonaro vai se arrepender - se antes ou depois do desastre.

*Conteúdo distribuído por Gazeta do Povo Vozes

J.R. GUZZO

03 DE OUTUBRO DE 2020
CARTA DA EDITORA

O repórter 

A função mais nobre do jornalismo e, ao mesmo tempo, a mais complexa e desafiadora é a do repórter. Nove em cada 10 recém-formados começam na profissão nessa atividade. É como se fosse um rito de passagem para quem quer seguir na carreira. Não é uma regra - e há exceções que desmentem o que acabei de dizer -, mas o recomendável é não queimar essa etapa. Parte, depois de um tempo, vira editor, gestor, colunista, apresentador. Mas uma grande parcela opta por continuar na reportagem, de tão apaixonante que é.

A Redação Integrada de ZH, GZH, Rádio Gaúcha e Diário Gaúcho tem um dos melhores times de repórteres do país, não apenas pela excelência mas também pela abnegação. Um dos mais experientes e versáteis dessa equipe é Humberto Trezzi. É o que chamamos no jornalismo de repórter puro-sangue. São quase quatro décadas fazendo reportagens que já lhe garantiram 74 prêmios, internacionais, nacionais e estaduais.

Há 32 anos em Zero Hora, Trezzi coloca entusiasmo e dedicação em tudo o que faz. Como integrante do Grupo de Investigação da RBS (GDI), fez reportagens como as que revelaram o poder das facções criminosas instaladas no Rio Grande do Sul, a indústria da falsificação de cigarros e a venda de casas ilegais em áreas ambientais. Fez coberturas internacionais nas guerras civis de Angola (1996) e da Líbia, durante a Primavera Árabe (2011), e dos cartéis no México (2009), entre outras. Além de repórter, é também colunista de segurança, área na qual sempre teve forte atuação como repórter.

Trezzi costuma dizer que uma das maiores gratificações para um repórter é ver que uma investigação jornalística teve consequências, que ajudou a contribuir para uma sociedade melhor. Em junho, no auge da pandemia, ele e o colega da RBS TV Giovani Grizotti mostraram casos de pessoas com poder aquisitivo que estavam requisitando o auxílio emergencial de R$ 600 do governo federal, dinheiro destinado a parcela da população carente. Até uma noiva, que se casaria no Caribe, e uma empresária, dona de um Mustang, estavam na lista.

Depois da reportagem, alguns dos beneficiados devolveram o dinheiro. O material publicado em ZH e GZH e veiculado na RBS TV serviu de base para investigações criminais e cíveis da Polícia Federal e do Ministério Público Federal. Na quinta-feira, a PF desencadeou um mutirão para interrogar suspeitos de fraudar o auxílio emergencial. Dos 172 suspeitos, 36 foram revelados pelo GDI.

- Comprovamos mau uso do dinheiro público e, o que é ainda melhor, nossa reportagem induziu pessoas a devolverem os recursos recebidos de forma indevida e ajudou nas investigações dos órgãos competentes - conta Trezzi, que já trabalha em outras frentes de investigação, sempre com a disposição de quem está começando na profissão de repórter.

DIONE KUHN

sexta-feira, 2 de outubro de 2020


A propósito...

Na história da humanidade já vivemos outras revoluções que envolveram informação, como as invenções do livro, da imprensa e de meios de comunicação como o rádio, o telefone, a TV, o cinema e tantos outros. Resta esperar que as mentiras tenham pernas e redes curtas e que os meios de comunicação e seus detentores tenham ética e responsabilidade. Resta esperar que autoridades públicas e privadas cumpram seu papel. 
No final o povo, que não é bobo, deve ser soberano e sua voz deve ser a voz de Deus. No embate final a democracia, a liberdade e o bem devem vencer. Melhor utopia que distopia. O povo tem dedos e mentes para bem apertar o controle remoto e os teclados, usar bem o mouse e dar uma resposta a abusos. A inteligência natural precisa se impor. Tomara que ainda dê tempo. 
Jaime Cimenti
 Lançamentos
  • Nada Ortodoxa (Intrínseca, 304 págs., R$ 29,90), de Deborah Feldman, é o livro de memórias que inspirou a minissérie da Netflix indicada ao Emmy, na qual uma jovem judia busca seu lugar no mundo. A obra tem posfácio da autora sobre a adaptação do romance para a minissérie de grande sucesso no período da pandemia.
  • O Sonho da Sombra (Editora Catarse, 72 págs., R$ 20,00), de Demétrio de Azevedo Soster, escritor, pesquisador, professor e jornalista, tem 66 pungentes poemas tendo o pai falecido como tema central. Luís Augusto Fischer disse na apresentação: o livro carrega a sina de olhar para o mundo fotografando tensões, embates, confrontos.
  • Todas as cartas (Editora Rocco, 864 págs., R$ 119,90), reúne correspondências escritas por Clarice Lispector ao longo de sua vida. Cinquenta são inéditas. São cartas para João Cabral de Melo Neto, Rubem Braga, Lygia Fagundes Telles, Mário de Andrade e outros, revelando o tempo que a autora morou no exterior e aspectos da pessoa e da grande escritora.

 O transcendente na obra de Kafka

Os sagrados cães dançarinos - Mística e heresia em Franz Kafka (Editora Filocalia, 240 págs., R$ 69,90), de Eduardo Oyakawa, pós-doutor em Filosofia da Arte pela Universidade Federal de São Paulo, mestre e doutor em Mística e Literatura pela PUC-SP, sociólogo, poeta e membro da Associação Brasileira de Filosofia da Religião, é o resultado de mais de uma década de reflexões e indagações do autor, que originaram investigações sobre filosofia, teologia e história das ideias.
{'nm_midia_inter_thumb1':'https://www.jornaldocomercio.com/_midias/jpg/2020/09/29/206x137/1_os_sagrados_caes_foto_e_realizacoes-9150737.jpg', 'id_midia_tipo':'2', 'id_tetag_galer':'', 'id_midia':'5f72b9d7127d9', 'cd_midia':9150737, 'ds_midia_link': 'https://www.jornaldocomercio.com/_midias/jpg/2020/09/29/os_sagrados_caes_foto_e_realizacoes-9150737.jpg', 'ds_midia': 'Os sagrados cães', 'ds_midia_credi': 'EDITORA É REALIZAÇÕES /DIVULGAÇÃO/JC', 'ds_midia_titlo': 'Os sagrados cães', 'cd_tetag': '1', 'cd_midia_w': '624', 'cd_midia_h': '800', 'align': 'Left'}
Durante anos, a obra de Franz Kafka foi tratada, predominantemente, pelos especialistas sob o ponto de vista da sociologia da cultura, da psicanálise e do marxismo frankfurtiano. A fulgurante questão da religiosidade dos textos foi parcialmente deixada de lado às expensas da compreensão ontológica de que as narrativas não apenas sugerem como deixam florescer, se forem ciosa e corajosamente escrutinadas.
Os sagrados cães dançarinos, de forma original e generosa, pretende trazer à luz a possibilidade de uma hermenêutica de cunho místico sobre algumas das narrativas kafkianas. Tentando desvelar um aspecto sobrenatural, o autor propõe, de modo inovador, investigar a face cruel e angélica do Deus escondido no mundo. Alguns afirmam haver um apelo ao transcendente em Kafka, mas a maioria nega essa ânsia pelo divino.
São pontos altos da obra de Oyakawa: a análise contextual, importante para situar o leitor no tempo, proporcionando maior clareza nos escritos; a eloquente exposição do antagonismo vivido por Kafka entre a vida prática e a vida espiritual e, por fim, a apresentação sistemática dos intérpretes, oferecendo ao leitor uma multivisão das críticas feitas ao autor nascido em Praga, desvelando, surpreendentemente, uma religiosidade presente nas obras de Kafka estudadas.
Como se vê, os leitores brasileiros têm a oportunidade de ler uma obra aprofundada e bem fundamentada sobre aspectos importantes de narrativas de um dos maiores escritores de todos os tempos.

O dilema dos peixes

A matéria de capa da Veja desta semana trata de um dos assuntos mundiais mais importantes: o sucesso estrondoso do documentário O dilema das redes, o preço dos likes e o extraordinário poder dos gigantes da tecnologia (Google, Facebook, Instagram, etc) sobre as pessoas e a vida atual. Se você cai nas redes, é peixe, se não cai, também é.
Não temos escapatória. Não adianta morar sozinho em Pinhal, sem celular, computador, tablet, notebook, radio ou aparelho de TV. Eles vão te descobrir e, mesmo que não te achem, vais ser afetado, de alguma ou muitas formas, pelos algoritmos dos donos do poder. Eles nos chamam de usuários, mesma palavra utilizada para os viciados em drogas.
O título da série deveria ser O dilema dos peixes, pois seria melhor e mais democrático que as pessoas escolhessem sobre forma, conteúdo, quantidade, qualidade e privacidade das informações. Vida privada, segredos e liberdade viraram sonho de uma noite de verão. O Big Brother do romance 1984 hoje é coisa de jardim de infância perto do que anda por aí em matéria de mídias e controles sociais. A privacidade acabou.
J.D.Salinger, autor de O apanhador no campo de centeio, era a última pessoa privada nos Estados Unidos. Aí a ex-mulher escreveu um livrão sobre sua vida íntima e deu. No Brasil, até Dalton Trevisan, um grande recluso, teve sua privacidade invadida por um livro escrito por um ex-amigo e colega de bar e de literatura.
Enfim, se ficar as redes te pegam, se correr as redes te comem. Se tu estás dentro, fica doido com tantas imagens, sons, mensagens, grupos e informações. Se estás fora, é tipo assim morte em vida e navegar no mar do esquecimento e da solidão. Complicadíssimo. Alguns chefões das grandes empresas aconselham cuidado e mesmo a nem entrar nas redes. O escritor israelense Yuval Noah Harari, autor do best-seller Sapiens, alerta para a falta de privacidade nas redes, mas ao mesmo tempo tem contato com os proprietários das megaempresas do Vale do Silício.
Em vários países do mundo há esforços legislativos para tentar, ao menos, regular a coleta, a seleção, a análise e a distribuição de informações, especialmente em meios eletrônicos. O esforço é válido e necessário, embora seja difícil controlar o incontrolável que anda por aí. Algumas empresas pretendem que o controle seja feito por elas mesmas, o que é questionável, para dizer o mínimo.
Mentiras são disseminadas com muito mais rapidez que verdades e as terríveis fake news vão causando danos irreparáveis. Pessoas, países, democracias, ideais, dados científicos e muito mais estão aí, correndo riscos e expostos aos poderes devastadores de uma tecnologia que foi pensada para o bem da humanidade e não para causar tantos estragos. Em tempos de coronavírus as coisas se agravaram e as pessoas estão estonteadas, desorientadas e carentes de informações verdadeiras, bem como de atitudes governamentais e privadas que coloquem a informação em outros patamares.

02 DE OUTUBRO DE 2020
DAVID COIMBRA

Você tem a idade do seu sapato

Está bem. Confesso. Eu uso sapatênis.

Ganhei um da Marcinha, uma vez, e tenho usado. Mas resisti o quanto pude. Pensava: vou me transformar em motivo de chacota entre meus amigos, se me virem de sapatênis. Porque sempre usei botinas, entende? Sempre. Me dava, sei lá, um ar meio selvagem. Gosto de ter um ar meio selvagem.

Quando morei nos Estados Unidos é que comecei a calçar tênis no verão. Talvez tenha sido por compensação psicológica, porque, durante todo o severo inverno do Norte, meus pés ficavam dentro das minhas botas Ugly. Oh, como gosto das minhas botas Ugly. Enfrentam neve, enfrentam chuva, enfrentam as intempéries com a bravura de um Kannemann.

Trouxe minhas botas Ugly para o Brasil. Num dia de inverno, calcei-as e saí por aí, bem feliz. Aí encontrei meus amigos Admar e Cabeça. Eles nem bem falaram comigo e já riram: "Mas que bota feia!" Tentei explicar que havia uma filosofia naquilo tudo: o nome dessas botas é Ugly, feio em inglês, a ideia é que elas sejam companheiras cumpridoras, úteis e sempre confiáveis. Quem usa uma Ugly está pouco se lixando para a vaidade, vaidade das vaidades, tudo é vaidade debaixo do sol, como dizia o Eclesiastes.

Você acha que adiantou o meu arrazoado? Continuaram rindo e repetindo irritantemente: "Bota feia, bota feia". Definitivamente, você não pode usar umas boas botas Ugly nos trópicos.

Então, a Marcinha veio com aquele sapatênis. De imediato, lembrei da Constanza Pascolato, que ensina: "Você tem a idade do seu sapato". Ela só usa tênis, é uma mulher jovial, além de ser muito elegante. Mas sapatênis, francamente, me parece coisa de quem pendura o casaco nos ombros, que nem o Tio da Sukita. De quem quer ser jovem, mas já não é. O cara almeja a juventude, só que a sua idade provecta interior lhe suprime a coragem de colocar tênis. Ele é velho na alma e nas articulações. Aí ele apela para o meio-termo do sapatênis. A pior opção. Seja quente ou seja frio, se for morno, eu te vomito!

Por todas essas razões, havia decidido terminantemente não usar sapatênis. Mas um dia a Marcinha insistiu para que os calçasse, e você sabe como são as mulheres: elas conseguem ser persuasivas, quando querem. No caso, ela argumentou que até o Tio Niba usa sapatênis. Aquilo me fez estremecer. O Tio Niba é tio dela e é um modelo de elegância masculina. Porque ele é da lida do campo, ele veste bombachas e botas de cano alto e adaga na cintura e tudo mais. Porém, quando está na cidade, o Tio Niba é um despojado que combina toda a masculinidade rural com a irreverência citadina. Assim, se o Tio Niba usa sapatênis, por que não eu?

Usei, pois. E gostei! Senti-me selvagem novamente, como no tempo das botinas.

E, dias atrás, estava dentro dos meus sapatênis pela primeira vez na vida e encontrei, justamente, o Admar e o Cabeça. Antes que disséssemos bons dias, antes de qualquer aceno, antes que eu pudesse pronunciar Cucamonga, eles olharam para baixo. Apontaram, ambos, para os meus pés. E gritaram, em coro: "De sapatênis! De sapatênis!" Continuaram rindo, mas permaneci impávido. Resolvi que usar sapatênis seria uma prova da minha personalidade inabalável. É o que estou fazendo. Porque é impossível agradar a todos, nos trópicos.

DAVID COIMBRA

02 DE OUTUBRO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

O drama do desemprego 

Na categorização das grandes angústias da população hoje, logo após as preocupações relacionadas à saúde, com o vírus da covid-19 em plena circulação, o desemprego é o drama que exige as providências mais urgentes. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostrou na quarta-feira uma taxa de desocupação recorde no país no trimestre encerrado em julho, de 13,8%, o que significa a existência de 13,1 milhões de pessoas na busca por trabalho, contingente maior do que o número de habitantes do Rio Grande do Sul.

Mesmo que outros indicadores mais recentes mostrem alguma recuperação em postos formais, o desemprego real, a aparecer nos próximos meses, pode ser ainda maior, surgindo à medida que mais brasileiros se encorajem a procurar colocação com o prosseguimento das flexibilizações e abertura gradual das atividades econômicas. A também inédita marca de 5,8 milhões de desalentados, que nem sequer se animam a tentar um emprego, é um sintoma dessa provável realidade mascarada.

Obstáculos não faltam à frente. O fim de medidas do governo como o programa que suspende contratos e reduz a jornada, no fim do ano, é uma dessas incógnitas. Não se sabe o quanto as empresas que hoje mantêm formalmente trabalhadores vinculados graças a esse mecanismo conseguirão conservar essas vagas devido às incertezas quanto à retomada da economia. A própria redução na quantidade da população ocupada revelada pelo IBGE, com queda na massa de rendimentos, a base que sustenta o consumo das famílias, se torna um limitador importante para uma reação robusta da atividade. O Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) até apontou que em agosto o país criou 249 mil vagas com carteira assinada, mas no acumulado do ano a perda é de 850 mil postos formais.

É imperativo reconhecer que foram positivas e oportunas as medidas emergenciais executadas pelo governo, tanto no auxílio às empresas quanto para aqueles que perderam o ganha-pão pela necessidade de implementar medidas de distanciamento social. Mas esses auxílios não podem ser eternos e, para se combater o desemprego, é preciso reativar a economia. Neste ponto o governo vem pecando. E o necessário, é preciso ressaltar, não é nenhum megapacote mirabolante de grandes números.

A reativação sustentável da atividade e, por consequência, do emprego, depende antes de mais nada da recuperação da confiança de todos os agentes da economia - consumidores, empresários e investidores. E essa confiança pode ser reconquistada caso o governo desista do caminho populista e retome a agenda prometida da austeridade, das reformas, da abertura econômica e do liberalismo. Ao mesmo tempo, para a reversão das expectativas é essencial cessar definitivamente com a política de permanente conflito, como na questão ambiental, tema em que é crucial uma guinada imediata. Uma injeção de ânimo que melhore a crença no futuro passa ainda por uma revalorização da educação. O restante é ajuste fino. Caso contrário, o país continuará preso a surtos fugazes de crescimento e emprego, sem saltos consistentes no médio e longo prazos, condenando os trabalhadores de agora e das próximas gerações a taxas elevadas de desemprego, subemprego, pobreza e aumento da desigualdade.

OPINIÃO DA RBS

02 DE OUTUBRO DE 2020
+ ECONOMIA

Com empresa 100% em home office, sede vira clube 

Quando a pandemia surgiu, o home office foi uma solução que, em tese, seria temporária. A Gruppen, de Porto Alegre, especializada em tecnologia da informação (TI), teve resultados tão bons que decidiu operar 100% nessa modalidade. A empresa, que previa inaugurar sua nova sede (foto) em 18 de março, dará outra finalidade ao espaço: vai transformá-lo em clube para os funcionários.

- Com as pessoas em casa, estabelecemos a interação entre os times, criamos reuniões diárias de bate-papo com câmeras abertas para trocas gerais - explica Felipe Jacobs, diretor da Gruppen.

Apesar da dificuldade inicial, durante a pandemia o faturamento cresceu 32% e as despesas caíram 22%. Em pesquisa interna, os funcionários indicaram seu "nível de felicidade" por notas de 1 a 10, e a média foi 8. O resultado foi a decisão de não retomar o trabalho presencial.

Mas o que fazer com a nova sede e como integrar os colaboradores? A resposta foi o Clube Gruppen. As instalações da Rua Dona Laura foram remodeladas para um lugar de se divertir com jogos, cafeteria, cervejas artesanais e sorveteria.

- Invertemos a ordem: antes o home office era esporádico, agora o esporádico será ir até a empresa e ter um dia diferente. O acesso ao clube só será liberado depois que a pandemia acabar. A pessoa pode ir para trabalhar, mas terá espaços de lazer de segunda a sexta, em horário comercial - detalha.

Na Gruppen, existe um indicador em que o funcionário soma pontos por tarefas e faz autoavaliação da produtividade.

- Controlar é mais caro do que confiar. Instauramos uma filosofia de confiança. Todos têm liberdade de construir seu dia, podendo gerenciar o tempo da melhor forma e com liberdade.

Ministra da Agricultura participa da abertura oficial

A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, visitará a Expointer hoje. A titular da pasta deve chegar ao Parque de Exposições Assis Brasil, em Esteio, por volta das 10h para cumprir a agenda. Na ocasião, ela participará da solenidade de abertura oficial do evento e verá o desfile dos campeões, às 11h.

Posteriormente, Tereza Cristina será agraciada pela Federação Brasileira das Associações de Criadores de Animais de Raça (Febrac) com a Medalha Paulo Brossard, entregue a lideranças do agronegócio. Também receberão a distinção o presidente da Federação da Agricultura do Estado (Farsul), Gedeão Pereira, o ex-secretário da Agricultura Odacir Klein e os pecuaristas Eduardo Macedo Linhares e Antonio Martins Bastos Filho. Ministra da Agricultura participa da abertura oficial da feira

Risco de alta nos preços de imóveis

A pressão custo de insumos, combinada à procura provocada pelo "efeito fique em casa" e pelo juro baixo, embute risco de aumento no preço dos imóveis no Rio Grande do Sul. Conforme o sindicato das empresas do setor no Estado, as altas em materiais de construção chegam a 34,7% no mês, caso dos fios de cobre. Segundo Aquiles dal Molin, presidente do Sinduscon-RS, a velocidade da reação pegou de surpresa fábricas de cimento e aço. Várias desativaram unidades, projetando reação só em 2021, e agora há escassez de insumos.

- O juro está baixo para compra de imóveis e nas aplicações. Muita gente que não conseguia agora pode comprar, e a baixa atratividade da renda fixa leva a investir em imóveis - detalha.

O empresário pondera, ainda, que "com todo mundo preso em casa", houve busca por pequenas reformas. Dal Molin admite que será necessário repassar os aumentos, mas não "de uma hora para outra".

- Não tem como absorver valores altos assim. Para quem quer comprar imóveis, é bom aproveitar os que estão à venda neste ano. Mas os lançamentos virão com preços novos.

MARTA SFREDO

02 DE OUTUBRO DE 2020
INFORME ESPECIAL

A hipocrisia ambiental do PT 

O governo Bolsonaro é uma catástrofe ambiental, a começar pelo ministro que deveria cuidar da área. Mas a esquerda não fica para trás quando o assunto é emporcalhar o planeta. Foi o PT e seus aliados que levaram o Brasil a uma tragédia chamada pré-sal.

Até 2006, Lula tinha um discurso coerente. Era o grande garoto-propaganda da energia renovável. "O biocombustível é nosso!", chegou a afirmar durante uma cerimônia em fevereiro daquele ano. Nessa mesma época, tinha um kit biodiesel no seu gabinete. Era para mostrar aos visitantes as possibilidades da produção brasileira. Contou que levava uma foto de uma mamona nas suas viagens internacionais: "Tem que ficar mostrando a folha, o cacho, ela verde, madura, para as pessoas saberem o que é", disse o então presidente sobre a planta usada para biodiesel.

Foi só a Petrobras confirmar a existência de petróleo a 7 mil metros de profundidade entre o Espírito Santo e Santa Catarina para o discurso mudar.

Lula virou barão do petróleo, um combustível fóssil altamente poluente e não renovável. O Brasil passou a investir bilhões na exploração e o governo petista esqueceu das energias limpas. Uma das áreas de exploração chegou a receber o nome de Campo de Lula. Mais tarde foi trocado por uma ordem judicial, embora à época do batismo a explicação era a de homenagem ao molusco, pela tradição de uso de nomes de seres do mar.

Quatorze anos depois, o petróleo está ficando obsoleto rapidamente. Preço e uso vêm caindo. Enquanto o Brasil foi na direção da sujeira, outras nações apostam no certo: energias limpas. Até os países árabes, grandes produtores mundiais de petróleo, se deram conta do fim do ciclo. A paz entre Emirados Árabes e Israel, impulsionada, em grande parte, por parcerias em inovação e tecnologias limpas, é prova disso.

É estranho ver agora o PT e seus aliados, que não deram um pio quando o petróleo parecia significar dinheiro e poder eternos, virarem os arautos da defesa da Amazônia e do Pantanal, como se o combustível fóssil por eles tão festejado não fosse o causador de tragédias ambientais ainda maiores. Olhe para as mãos de Lula em fotos. Na época, para os incautos e para os oportunistas, elas simbolizavam, de acordo com o próprio ex-presidente, "um bilhete premiado" e "passaporte para o futuro do Brasil". Escrevi muito sobre esse erro lá atrás, mas fiquei falando quase sozinho. Fui vítima do meu próprio veneno, quando leitores me chamavam de caranguejo. Assim como hoje, quando afirmo que demitir Ricardo Salles é um dever moral, a leitura, equivocada, é partidária. Enquanto os políticos de esquerda e de direita pensam em poder e em dinheiro, o planeta sufoca.

Porque onde há fumaça, há fogo.

TULIO MILMAN

quinta-feira, 1 de outubro de 2020


01 DE OUTUBRO DE 2020
DAVID COIMBRA

O Grêmio deve amassar o Inter no Gre-Nal

Volta e meia é preciso relembrar a Confraria da Caveira Preta. Era uma reunião de velhos lobos da imprensa, entre eles o degas aqui. O mentor era o Emanuel Mattos. O Patrono, Evaldo Gonçalves.

O encontro mais importante ocorria em dezembro. Às vésperas do Natal, jantávamos em algum restaurante tradicional de Porto Alegre e fazíamos listas de quais seriam os mortos ilustres do ano seguinte. Cada um elaborava a sua relação de mortos regionais, nacionais e internacionais, às vezes tecendo um arrazoado acerca de determinado nome mais polêmico. As listas, em seguida, eram repassadas para o patrono, que com elas ficava até o próximo dezembro, quando eram lidas na abertura de um de nossos convescotes. Aquele que acertasse mais mortos não pagava o jantar.

Como o Sant?Ana sempre era dos mais votados e, teimosamente, nunca morria, incorporou-se à confraria. Outros participantes eram o Wianey Carlet, o Nico Noronha, o Flávio Dutra, o Luiz Zini Pires, o Jones Lopes da Silva, o Chimba, o Élvio Santos e alguns convidados especiais, como o Mário Marcos e o Boró, só que o Boró não ia.

Claro que a confraria era uma grande brincadeira, quase que só dizíamos bobagem nesses jantares, mas, num deles, o Emanuel chamou a mim e ao Nico de lado e perguntou: "Por que vocês não escrevem o livro definitivo sobre a história dos Gre-Nais?"

Eu e o Nico nos entreolhamos. Aí estava uma boa ideia. E não é que decidimos executá-la? Faz quase 30 anos, isso, estávamos no começo da década de 90. Passamos um ano inteiro dedicados ao livro, só eu entrevistei mais de cem personagens do clássico e li bem um milheiro de antigos jornais e documentos. Quando terminamos, deu certo orgulho. Havíamos feito alguma coisa importante ali.

Pois bem. Quero dizer com essa história que conheço o clássico Gre-Nal. Sei como suas engrenagens funcionam. E, acavalado nesse conhecimento, dou aqui meu palpite a respeito do Gre-Nal de sábado: o Grêmio vai amassar o Inter.

Sei bem que os detratores, que são muitos e furiosos, alegarão: "Tu disseste que o Inter ia amassar o Grêmio da última vez, e não foi o que aconteceu!"

Não foi. Verdade.

Mas, entre aquela crônica e o Gre-Nal, houve jogo do Grêmio, houve jogo do Inter, e as coisas mudaram. O Grêmio melhorou, o Inter piorou, e, assim, escrevi que as transformações operadas por Renato estavam fazendo diferença. Como fizeram.

Uma previsão, quando você a faz, é como uma pesquisa eleitoral: é o retrato do momento. Neste momento, enquanto escrevo febrilmente para meus ansiosos leitores, o Grêmio está melhor. Tem, a seu favor, a confiança e as individualidades. E o Inter tem, contra si, a insegurança e a instabilidade.

O quadro pode mudar até sábado à tarde? Pode. Talvez Coudet leve essa crônica para o vestiário colorado e os jogadores do Inter, tomados de brios, se mobilizem a tal ponto que se tornem invencíveis. Talvez. Quem sabe? Mas, por ora, o Grêmio é superior. Eu digo que é. Porque sei.

DAVID COIMBRA

01 DE OUTUBRO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

TOCANDO A BOIADA

É espantoso que o governo Bolsonaro, mesmo depois de todos os desgastes e alertas pelas queimadas e críticas internas e externas pela leniência com o desmatamento, prossiga com a mesma convicção e desenvoltura para levar adiante propostas que produzem ultrajes dentro e fora do país. O mais recente episódio dessa determinação que parece inabalável foi a reunião do desfigurado Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), comandado pelo ministro Ricardo Salles, que decidiu revogar normas protetivas para áreas de restinga e manguezais do litoral brasileiro, eliminar a necessidade de licença para projetos de irrigação e ainda permitir a queima de embalagens de agrotóxicos em fornos industriais. É fato que há no país um cipoal de regras e normas burocráticas inúteis ou impossíveis de serem cumpridas e deveriam ser revisadas ou extintas, mas não é o caso em questão.

A iniciativa mais danosa sem dúvida é a que ameaça as áreas da costa que são ecossistemas cruciais para a vida marinha e a subsistência de milhares de ribeirinhos e passariam a ficar à mercê de projetos imobiliários ou da ocupação desenfreada por atividades com pouca preocupação ambiental. Felizmente a deliberação foi suspensa um dia depois por uma liminar da Justiça Federal do Rio de Janeiro. Além da direção errada no mérito, era óbvio, como manifestou a própria representante do Ministério Público Federal na reunião, que as deliberações, legalmente questionáveis, acabariam nos tribunais. Outro problema, alertou o secretário do Meio Ambiente do Rio Grande do Sul, Artur Lemos, também participante do encontro virtual, é o risco de se criar uma espécie de guerra entre Estados na atração de investimentos, conforme legislações locais mais ou menos restritivas, algo semelhante à disputa que existe hoje no âmbito fiscal.

Como mostraram as imagens da grotesca reunião do dia 22 de abril, o ministro Salles, do Meio Ambiente, não desperdiça chance de, como ele mesmo disse, "passar a boiada" quando quer colocar em prática o que parece ser um planejamento consciente de desmonte de regras de preservação, supostamente em nome do desenvolvimento. Na realidade, Salles é apenas o peão a tocar a tropa, operacionalizando uma política caolha e atrasada em temas ambientais ao mando de seu mentor, Jair Bolsonaro. Surpreende que o presidente continue sem compreender que preservação e economia não são excludentes. Pelo contrário. A visão moderna do capitalismo cada vez valoriza mais iniciativas e empresas que estão afinadas com as melhores práticas ambientais, sociais e de governança (ESG, na sigla em inglês).

A situação no Brasil, motivo de angústia e perplexidade internacional, foi citada até no debate entre os candidatos à Presidência dos EUA, na terça-feira à noite. O democrata Joe Biden chamou a atenção para a destruição das florestas tropicais brasileiras e chegou a citar a possibilidade de se reunir com outros países para alcançar ao governo um montante de US$ 20 bilhões para apoiar políticas de preservação. O quadro, portanto, parece cada vez mais grave e motivo de inquietação mundo afora. Menos mal que, como foi o caso de uma das resoluções do Conama, as medidas destrutivas tendem a ser barradas pelo Judiciário ou pelo Congresso.

Com sua visão canhestra, Bolsonaro prova não ter juízo e discernimento ao reiteradamente promover e insuflar ações prejudiciais aos interesses econômicos do próprio Brasil e que põem em risco gerações futuras. Cabe então às demais instituições colocar um freio na desconsideração do presidente pela saúde dos ecossistemas nacionais e nas atitudes que consolidam o governo federal como um pária ambiental do planeta, desgastando cada vez mais a imagem do país e prejudicando quem nada tem a ver com a destruição em curso.

 



01 DE OUTUBRO DE 2020
+ ECONOMIA

Um apê por R$ 6,7 milhões

A crise no segmento da construção civil parece ter acabado. Foi na pandemia que a Cyrela Goldsztein vendeu um apartamento de R$ 6,7 milhões no edifício Yoo, com decoração da grife do designer Philippe Starck e do empreendedor John Hitchcox.

Conforme Rodrigo Putinato, diretor regional da construtora no Sul, os negócios começaram a melhorar em junho, que teve vendas 30% maiores do que o mesmo mês de 2019, agosto foi o melhor mês do ano, e deve ser superado por setembro.

Neste ano, a empresa planeja somar R$ 600 milhões em valor geral de vendas (VGV) com lançamentos no Estado. Para 2021, pretende quase dobrar o valor e alcançar R$ 1 bilhão. Esse crescimento será parcialmente sustentado por três IPOs (oferta pública inicial de ações) feitos em apenas um trimestre por empresas ligadas à Cyrela nacional. Foram captados R$ 2,8 bilhões por Lavvi (alto luxo), Plano & Plano (habitação popular em São Paulo) e Cury (habitação popular em São Paulo e Rio).

ponto percentual foi o minúsculo recuo no percentual de famílias que têm contas em atraso no Brasil. Mas é tão surpreendente, neste momento, que merece registro. O indicador da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) encolheu de 26,7%, em agosto, para 26,5%, em setembro.

Despedalando 

Depois de pesadas críticas, o ministro da Economia, Paulo Guedes, disse ontem que nunca houve intenção da equipe econômica de romper teto ou financiar programas de forma equivocada. É uma clara referência ao desvio de recursos do pagamento de precatórios para o Renda Cidadã. Guedes recitou a mesma prece dos especialistas em contas públicas: "despesa permanente tem de ser coberta por receita permanente". Disse que um programa como o Renda Cidadã não pode ser financiado por "puxadinhos" e confirmou estudos para unir 27 benefícios em um só programa de renda. Agora, Guedes também descobriu que havia risco embutido na proposta. Mas ele não estava lá, no anúncio que deixou muita gente boquiaberta? A tática "se colar, colou" do governo Bolsonaro exaspera até os analistas mais técnicos.

MARTA SFREDO

01 DE OUTUBRO DE 2020
L.F. VERISSIMO

Miles e Juliette 

Não sei se existe uma tradução em português da autobiografia do Miles Davis. Imagino que a questão de como traduzir o adjetivo "motherfucker", que Miles usa para qualificar amigo ou inimigo e homem ou mulher, tenha dissuadido tradutores em potencial. Miles distribui "motherfuckers" do começo ao fim do seu livro. Só poupa uma pessoa, a cantora Juliette Gréco, que morreu há dias, com 93 anos de idade, e só não foi sua namoradinha parisiense porque ninguém ousaria chamar a musa do existencialismo de "namoradinha" de quem quer que fosse.

Miles e Juliette tiveram não um namoro, mas um tórrido romance. Miles conta que caminhavam abraçados pela beira do Sena e como nem ele falava francês nem ela falava inglês, passavam o tempo se beijando. Recomeçavam o romance sempre que Miles ia a Paris, como na vez em que foi convidado pelo diretor Louis Malle para improvisar a trilha sonora do seu filme Ascensor para o Cadafalso. 

Uma vez se reencontraram em Nova York. Juliette fora contratada para atuar num filme americano baseado num livro do Hemingway e os produtores a colocaram no hotel Waldorf-Astoria, onde seria assinado o contrato. Miles levou o baterista Art Taylor na sua visita a Juliette no hotel grã-fino, e os dois causaram grande sensação - que Miles descreve com evidente prazer - na sua passagem pelo saguão, vestidos, segundo o próprio Miles, como gigolôs do Harlem, entre caras brancas espantadas.

Um companheiro constante do casal nos cafés e porões do Quartier Latin era Jean-Paul Sartre. Foi Sartre quem sugeriu que Miles e Juliette se casassem. Subentendido na sugestão de Sartre estava o convite para Miles ficar morando em Paris, ou pelo menos na Europa, como já faziam tantos músicos afro-americanos, para fugir do racismo dos Estados Unidos, entre outras coisas. Americanos autoexilados em Paris constituem, há anos, uma categoria artístico-literária que se solidificou num clichê, que persiste. Miles não aceitou a proposta do "motherfucker" Sartre de se mudar para Paris e viver com Juliette como num clichê. Passeios e beijos pela beira do Sena em visitas esporádicas lhe pareceram uma ideia muito melhor.

L.F. VERISSIMO

01 DE OUTUBRO DE 2020
INFORME ESPECIAL

Pesquisa americana comprova: Brasil é a vanguarda das trevas 

Entre os habitantes de 20 países, os brasileiros são os que menos confiam nos cientistas. De acordo com o norte-americano Pew Research Center, 36% da população nacional não tem qualquer grau de confiança neles. Apenas 23% dos brasileiros manifestaram confiança absoluta e 36% se posicionaram na faixa do "algum grau de confiança".

O país no qual a população mais confia nos profissionais da ciência é a Índia - 59%, totalmente. Nos Estados Unidos, esse índice é de 38%, na Holanda, 47% e no Reino Unido, 42%.

A média global ficou assim: 36% confiam totalmente, 40% em algum grau e 17% em nenhum. O estudo detectou que, globalmente, os eleitores da direita tendem a ser mais críticos à ciência do que os de esquerda, mas não no Brasil, onde os percentuais são iguais.

O Brasil se destaca em outra resposta. Apenas 8% dos entrevistados no país consideram que os resultados das pesquisas científicas realizadas aqui são "os melhores do mundo ou estão acima da média", o índice mais baixo entre os pesquisados.

O estudo foi realizado entre 2019 e 2020. Analisando os resultados, seria um erro apontar os dedos apenas para os eleitores. Os números nos permitem concluir que a ciência e os cientistas, no Brasil, ainda se comunicam muito mal com a sociedade mais ampla.

Veja a pesquisa completa (em inglês): bit.ly/prc2020esteem

Desserviço 

Na manhã de ontem, no Aeroporto Salgado Filho, alguém decidiu comprar um café enquanto esperava a chegada de um voo.

Pagou a atendente em dinheiro e teve a ingrata surpresa de vê-la passar ao preparo da bebida sem antes lavar as mãos ou higienizá-las com álcool gel. - Você não vai lavar as mãos antes de me servir? - perguntou o cliente.

A mulher continuou o trabalho, sem responder. - Quero meu dinheiro de volta. - Você que sabe - respondeu a funcionária.

TULIO MILMAN