Guerra, importações e mudanças societárias agitam setor petroquímico

Jefferson KleinRepórter
Uma série de temas tem movimentado ultimamente a petroquímica nacional e deverá impactar de forma relevante os próximos anos desse segmento da economia. Entre os fatores que estão transformando o cenário desse setor estão o conflito bélico no Oriente Médio (que tem pressionado o custo das matérias-primas em âmbito global), a continuidade da entrada de um expressivo volume de insumos plásticos importados pelo Brasil e a alteração no comando da principal companhia dessa atividade no País: a Braskem.
Nesse caso, trata-se da gestora IG4 Capital assumindo da Novonor (ex-Odebrecht) o controle da empresa que detém as principais unidades petroquímicas nacionais. Sobre isso, o presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), André Passos Cordeiro, destaca que, depois de muito tempo, há um grande novo movimento dentro do setor petroquímico. “Mas, não é algo planejado, é fruto das circunstâncias econômico-financeiras”, reforça o dirigente.
Já o diretor da MaxiQuim Assessoria de Mercado, João Luiz Zuñeda, adianta que a alteração societária também implicará na mudança da governança do negócio da Braskem e uma das perspectivas é uma maior participação da Petrobras nas definições do rumo da companhia. Além disso, ele ressalta que será possível aproveitar sinergias de fornecimento de matérias-primas e geração de produtos, o que deve alavancar investimentos. Zuñeda recorda que Magda Chambriard, atual presidente da Petrobras, foi eleita presidente do Conselho de Administração da Braskem.
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Quanto à guerra entre Estados Unidos e Irã, o presidente-executivo da Abiquim assinala que se trata de um fator que leva a uma pressão de custos de matérias-primas derivadas de petróleo, como é o caso da nafta petroquímica. Porém, Cordeiro espera que seja uma alteração momentânea de oferta e demanda, apesar desse panorama poder se prolongar.
Ele comenta que a situação global fez com que os países passassem a se preocupar mais com a questão de ter disponibilidade de insumos para que não se trave elos inteiros de suas economias. “Por exemplo: o enxofre. Sem ele não se faz ácido sulfúrico, sem esse ácido não se faz sulfatos, não se faz fertilizantes, não se faz uma série de ácidos derivados do sulfúrico que servem para baterias, cosméticos, xampus, itens de limpeza em geral, entre outros”, detalha o dirigente.
O presidente-executivo da Abiquim manifesta ainda a preocupação pelo fato de o preço da nafta ter aumentado no mercado mundial, mas o custo do gás de xisto nos Estados Unidos não teve essa oscilação. “Então, alargou a vantagem competitiva dos produtos petroquímicos norte-americanos, artificialmente, por causa de uma guerra que os próprios Estados Unidos estão envolvidos”, argumenta Cordeiro.
Por sua vez, o presidente do Sindicato das Indústrias de Material Plástico no Estado do Rio Grande do Sul (Sinplast-RS), Alfredo Schmitt, prevê que logo se terá um cenário menos incerto sobre o conflito no Oriente Médio. “As melancias vão começar a se acomodar, essa é a impressão”, projeta o dirigente.
No entanto, ele alerta que os aumentos repentinos de matérias-primas causados pela guerra tiveram grandes impactos para as empresas da cadeia do plástico. Schmitt adverte que esse incremento de custo acaba sendo transferido para o consumidor final.
Indústria nacional defende manutenção de medidas de proteção
Apesar de uma guerra representar um cenário adverso para a economia global, o presidente-executivo da Abiquim, André Passos Cordeiro, sugere que o governo brasileiro não reduza a aplicação de medidas de defesa comercial na cadeia do plástico, como antidumpings. Ele também propõe a desoneração para a indústria química nacional para a aquisição de matérias-primas e celebra ferramentas como o Regime Especial da Indústria Química (REIQ) e o Programa Especial de Sustentabilidade da Indústria Química (Presiq).
O presidente-executivo da Abiquim indica ainda a necessidade de manter investimentos em prospecção e produção de insumos do setor, como o gás natural, dentro do Brasil para se ter acesso ao insumo a preços mais competitivos. Sobre a entrada de produtos estrangeiros em território nacional, o presidente do Sinplast-RS, Alfredo Schmitt, salienta que a Braskem tem uma capacidade de produção de cerca de 3 milhões de toneladas de polietileno ao ano e nos últimos 12 meses ingressaram no País em torno de 2 milhões de toneladas dessa resina por meio de importações.
"Isso realmente é algo que balança o sistema produtivo da indústria", aponta o dirigente. Schmitt enfatiza que as empresas do setor não podem trabalhar com menos de 75% da sua capacidade instalada. "É algo altamente problemático", reforça o dirigente. No Brasil, no primeiro trimestre deste ano, a taxa de ocupação das centrais petroquímicas da Braskem ficou na ordem de 69%.
O diretor industrial da Braskem no Rio Grande do Sul e presidente do Conselho de Administração do Comitê de Fomento Industrial do Polo do Rio Grande do Sul (Cofip), Nelzo Silva, concorda que uma forma de combater o excesso da entrada de petroquímicos importados no Brasil é por meio da aplicação de medidas de defesa comercial e outras barreiras não tarifárias. "São práticas amplamente utilizadas pelos países desenvolvidos com o objetivo de garantir a concorrência justa e competitividade das indústrias domésticas", reforça o dirigente.
Sem medidas desta natureza, ele comenta que o mercado fica sujeito a preços predatórios que, a médio e longo prazo, levarão ao fechamento das linhas de produção no Brasil. Por outro lado, reforça o integrante da Braskem, essas iniciativas não tiram a responsabilidade da indústria nacional de buscar ações de incremento da produtividade e comprometimento com operações sustentáveis - ambiental, social e economicamente.
Sobre ações da Braskem no Polo Petroquímico de Triunfo, Silva adianta que a próxima parada de manutenção de grande porte ocorrerá em 2027 e os investimentos e projetos que serão realizados estão na fase de engenharia e definição financeira. Ele acrescenta que a empresa possui um planejamento plurianual de aportes em que investimentos estratégicos são analisados quanto à sua viabilidade técnica e econômica. "Por serem estratégicos, não são comentados antes da consolidação das análises e devidos alinhamentos com todos os agentes envolvidos, sejam públicos ou privados", finaliza.
Novo gasoduto é apontado como opção para o RS conseguir mais gás natural
A construção de um gasoduto entre Uruguaiana e Porto Alegre é discutida há décadas como uma opção para trazer mais gás natural para o Rio Grande do Sul. O tema voltou ao foco após a descoberta de uma das maiores jazidas desse combustível no mundo, a de Vaca Muerta, na Argentina.
Para o deputado federal Paulo Pimenta (PT), líder do governo Lula na Câmara, é preciso recolocar em discussão a construção desse gasoduto. "É uma pauta absolutamente estratégica para o Rio Grande do Sul", sustenta o parlamentar. De acordo com o deputado, uma forma de viabilizar a iniciativa seria a realização de uma Parceria Público-Privada (PPP).
"Para a indústria crescer, tem que ter matéria-prima e energia competitivas", acrescenta o diretor da MaxiQuim Assessoria de Mercado, João Luiz Zuñeda. Uma das melhores possibilidades para o Estado, apontadas por ele, é o uso do gás argentino proveniente de Vaca Muerta. Zuñeda recorda que a Braskem, no Polo Petroquímico gaúcho, realizou experiências com esse insumo, vindo por navios, através da Lagoa dos Patos.
O diretor industrial da Braskem no Rio Grande do Sul, Nelzo Silva, detalha que a empresa realizou, em novembro de 2025, um teste pontual de utilização de gás propano oriundo do reservatório argentino. "A companhia permanece atenta a oportunidades para tornar essa e outras medidas similares viáveis do ponto de vista logístico e comercial a fim de ter uma operação mais competitiva, eficiente e sustentável", comenta o dirigente.

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