quinta-feira, 13 de agosto de 2015



13 de agosto de 2015 | N° 18259 
DAVID COIMBRA

Mas


Uma grande lição que aprendi, nesses trinta e tantos anos de jornalismo, é que a palavra mais importante de todas as línguas faladas e escritas é... mas.

Você pode encontrar o mas em tudo, e tudo depende da forma como você usa o mas.

Pegue a seguinte frase: “Dilma é um fracasso, mas sou contra o impeachment”.

Parece que minha posição contrária ao impeachment é dura como a marcação de Edinho na frente da área, não é? Agora inverta: “Sou contra o impeachment, mas Dilma é um fracasso”.

Parece que falta só mais uma fase da Lava-Jato para me convencer de que Dilma deve sair. Tudo depende do ponto de vista, portanto. De onde se olha. 

As pessoas mais inteligentes criticam a superficialidade do debate político brasileiro, mas (olha aí!) também elas às vezes são superficiais. Porque o debate sempre escorrega do objeto debatido e cai no debatedor. Assim não se costura consenso algum, só se descosturam dissensos.

O PT, de longe o partido mais importante da história política brasileira, tem muita responsabilidade por esse clima pesado. Porque o PT sempre foi excludente. Ou você era petista, ou você era canalha. Ou, no mínimo, burro.

Brizola, que não era petista mas ocupava o espaço da esquerda, foi desidratado sistematicamente pelo PT, mais ou menos como o que se fez com Marina no ano passado. Em Brizola colou-se o rótulo de caduco e o selo de folclórico, até ele ficar com menos votos do que Enéas.

Em 1993, já bem instalado como única alternativa de esquerda, o PT foi também o único partido a opor-se ao Plano Real, que salvou o Brasil.

Quer dizer: o PT, muitas vezes, fez oposição irresponsável, e sempre foi infenso a críticas vindas de fora. Se eu dissesse, por exemplo, que o PT só pensa em cargos, seria chamado de coxinha. E com razão. Seria uma generalização. Não concordo com esse pensamento. Sei, e enfatizo faz tempo, que há muitos petistas dignos e bem-intencionados. Quem diz que o PT só pensa em cargos não sou eu: é Lula. Aquele coxinha.

Você ouve que você é da elite, que você é da direita, e ouve ainda que você tem de pagar seus impostos satisfeito porque algum pobre, em algum lugar, está feliz com esse governo que o despreza. Quanto tempo suporta a sua abnegação? “Eu odeio a classe média!”, bradava a socióloga do PT, e Lula, ouvindo, ria. “Eu odeio!”

E a classe média odiada baixava a cabeça, e agora reclamam que ela passou a odiar.

O PT está recebendo o troco. O que é ruim para o PT, sim, mas pode ser pior para o Brasil.

Eduardo Cunha, presidente do Congresso, anunciou-se oposicionista. A partir daí, não passou a fazer oposição: passou a fazer sabotagem. Cunha quer a desgraça do governo, ainda que desgrace junto o povo brasileiro.

O governo federal agora precisa de ajuda. E o governo estadual também. Petistas justamente indignados com a ação solerte de Cunha não haverão de usar a solércia contra Sartori. Inclusive o mais alto entre os petistas: a presidente do Brasil. O governo brasileiro, que perdoou dívidas de quase US$ 1 bilhão dos africanos, que financia portos em Cuba, que é solidário com bolivianos, gregos e venezuelanos, esse governo pródigo com nossos irmãos estrangeiros não pode se esquecer dos seus irmãos gaúchos. O bloqueio de contas do governo do Estado, numa situação como essa, é uma sabotagem tão insensível quanto a que Cunha faz ao governo federal.

O governo federal errou, mas necessita de apoio.

O governo estadual deve muito, mas não é o momento de cobrar.

Mas: conjunção adversativa. Nunca o Brasil e o Rio Grande dependeram tanto da gramática.

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