sábado, 29 de agosto de 2020



29 DE AGOSTO DE 2020
+ ECONOMIA

"Divertir-se em meio ao caos"

Carla Tellini criou uma cafeteria para tomar um bom café em Porto Alegre, que virou um pequeno império gastronômico. Hoje, a CEO e head criativa do Grupo Press Gastronomia e Diversão afirma que seu negócio é líder de mercado do segmento premium no Estado. Atua com as marcas Press Bar, Bah, Press Café, Presstisserie, Ô Xiss, Pê Éfe do Xiss e A Cantina do Press. Carla diz que seu maior aprendizado foi a paciência, por caracterizar os últimos meses como "provação para pessoas inquietas como eu".

Distanciamento

"Trouxe meu escritório para casa em março, quando todo o coorporativo do Press passou a trabalhar em home office - e sigo aqui. Faço muitas reuniões pelo Zoom e minhas poucas saídas têm sido para nossos restaurantes e cafés que estão operando, ou escapadas até meu sítio na zona sul da cidade."

Leitura e lazer

"Além de me dedicar ao planejamento para 2021-2026, me distraio montando playlists novas no meu Spotify e maratonando séries que desconhecia. Minhas leituras estão direcionadas a acompanhar o que ocorre na indústria de restaurantes americana, pois o vírus chegou lá algumas semanas antes daqui e vem causando igualmente muito impacto no segmento."

Combate ao coronavírus

"Estamos vivendo um momento surreal que exige, sim, distanciamento social e excelência em todos os cuidados para evitar o contágio e proteger nosso time e clientes. Para nós, que trabalhamos com alimentos, esse rigor não mudou tanto a rotina. E essa é uma parte imprescindível. Também é fundamental proteger a empresa do impacto econômico. O momento exige calma, criatividade, domínio do negócio, antecipação e agilidade nas tomadas de decisões, além de um time forte lutando junto. Isso fará total diferença para superar a crise econômica sem grandes estragos."

Aprendizado

"Aprendi a ter muito mais paciência. Esses últimos seis meses foram uma provação para pessoas inquietas como eu. Outro grande aprendizado geral tem sido perceber a insignificância da humanidade em relação à natureza e o quanto cada vez mais seremos assombrados por eventos impactantes como a covid-19 se não revertermos esse quadro de destruição do planeta."

Reflexões

"Ficou claro que devemos estar preparados para tudo, pois de uma hora para outra o mundo pode virar do avesso, como virou. E isso significa ter coragem e desprendimento para mudar o rumo da vida ou do negócio na mesma velocidade. O momento tem servido para reforçar minha visão de que o mais importante é fazer o que se acredita, nunca esquecer dos valores e não perder a capacidade saudável de rir bastante e se divertir mesmo em meio ao caos."

MARTA SFREDO

29 DE AGOSTO DE 2020
CARTA DA EDITORA

Fragmentos da História


Resgatar capítulos da História e debatê-los à luz do momento atual é uma das principais contribuições do jornalismo. Na edição deste fim de semana, Zero Hora traz dois conteúdos que fazem justamente essa ponte entre o passado e o presente sobre um tema caro para o Rio Grande do Sul, o setor agropecuário.

A reportagem que ilustra a capa desta edição é sobre os 50 anos, comemorados neste sábado, de um símbolo gaúcho, o Parque Estadual de Exposições Assis Brasil, em Esteio. No caderno DOC, a seção Com a Palavra é com Luiz Fernando Cirne Lima, ministro da Agricultura do governo de Emílio Médici.

A reportagem de autoria de Fernando Soares mostra que o parque Assis Brasil foi um divisor de águas na história da exposição de animais no Estado, inicialmente itinerante pelo Interior e, depois, fixada no Menino Deus, em Porto Alegre. A colunista de Campo e Lavoura, Gisele Loeblein, lembra que a sua construção ampliou não só a área, mas também a grandeza da Expointer, ao incluir a população urbana. A proposta de aproximação com o meio rural foi planejada, criando uma interação singular que se mantém até os dias de hoje. Porém, como mostra o texto de Soares, depois de cinco décadas de sucesso, o parque enfrenta desafios, entre eles o de se tornar mais produtivo e rentável.

Já a entrevista com o engenheiro agrônomo Cirne Lima, feita por Gisele, tem o mérito de dar voz a um personagem que liderou episódios marcantes do Estado e do país.

- Ele foi um desbravador em várias frentes. Desde a pioneira participação de um brasileiro em julgamento de animais de raça no Exterior até a criação da Embrapa, empresa pensada para gerar tecnologias que atendessem às necessidades da produção em um país tropical. Aos 87 anos, ele lembra com uma riqueza de detalhes impressionante os fatos dos últimos 50 anos no agronegócio - conta a colunista de ZH e GZH.

A reportagem e a entrevista nos fazem compreender um pouco da nossa história.

DIONE KUHN

sexta-feira, 28 de agosto de 2020



28 DE AGOSTO DE 2020
DAVID COIMBRA

Por que o Peninha é odiado pelos historiadores

O Peninha é odiado por historiadores. Não todos. Odiado por alguns, e direi por quê. O Peninha, você sabe de quem estou falando: Eduardo Bueno, jornalista, que começou sua trajetória jovenzinho na mítica Editoria de Esportes de Zero Hora. O Pedro Ernesto diria que, de tão jovem, nem pelos pubianos tinha. E o histórico editor Mauro Toralles, o Boró, ao vê-lo entrar pela primeira vez na Redação, magrela e desajeitado, os cabelos desgrenhados, o nariz proeminente, exclamou:

"Mas é o Peninha!" E Peninha ficou sendo.

Como Peninha, ele fez muito, inclusive privou da intimidade de alguns de seus ídolos, como Bob Dylan e Iúra, o Passarinho. Mas, como escritor, foi promovido a Eduardo Bueno, que escritor tem de ter nome e sobrenome.

Então, finalmente elevado a Eduardo Bueno, o Peninha escreveu clássicos da história do Brasil, sobretudo acerca do remoto século 16. Foram sucessos forjados em texto fluente, derramando luzes sobre personagens pouco conhecidos, como o misterioso Bacharel de Cananeia, que "se tornara uma espécie de rei branco vivendo entre os índios; que tinha pelo menos seis mulheres, mais de 200 escravos e mais de mil guerreiros dispostos a lutar por ele; que era temido e respeitado por todas as tribos costeiras desde São Paulo até Laguna e que não havia quem ousasse desafiar o seu poder. O Bacharel de Cananeia era o virtual senhor do litoral sul do Brasil".

Ficou curioso? Leia Náufragos, Traficantes e Degredados, de Bueno.

É por causa de histórias deste jaez que o Peninha é odiado pelos historiadores acadêmicos, mesmo que autores respeitados o defendam, como Mary del Priore. É que muitos historiadores abordam a história pelo viés marxista, em que a conjuntura sempre é mais importante do que o indivíduo. Eles não acreditam que a vontade de um homem possa mudar a sociedade, eles excluem o ser humano da história da Humanidade.

Os franceses são campeões nisso. Uma passagem da história narrada por franceses em geral é soporífera, porque não tem protagonistas, não tem personagens e, por consequência, não tem cor. Jesus Cristo talvez não tenha existido, Cleópatra era feia, Júlio César fantasiou ao escrever A Guerra Gaulesa e Shakespeare não foi um homem só, foi muitos. Por quê? Porque o coletivo tem sempre de superar o individual, porque o gênio tem sempre de estar abaixo do comunitário.

Os acadêmicos prezam tanto sua forma de contar a história que conseguiram, dias atrás, a regulamentação da profissão de historiador. É uma tendência de praticamente todas as categorias buscar pela segurança da reserva de mercado. É algo que vem de longe, das guildas medievais. Todos querem se proteger da concorrência de penetras. Jornalistas, publicitários, arquitetos, bibliotecários, até técnicos de futebol alegam dispor de um conhecimento tão especializado que só eles podem exercer a atividade que exercem.

Regulamentação. Controle. Ordenamento.

Certidões. Carimbos. Atestados.

É, de alguma maneira, a concretização do sonho marxista de a comunidade submeter o indivíduo.

Quer um exemplo sólido deste sonho realizado? Brasília. Niemeyer e Lucio Costa planejaram uma cidade compartimentada, onde cada ocupação teria o seu lugar e cada quadra a sua função, uma cidade tão acima do transeunte e do pedestre que ninguém pode nem conversar numa esquina, porque esquinas não há. Brasília deveria ser a vitória da ordem sobre a iniciativa. Deveria ser a derrota do homem só. Não sei se deu certo. Algum historiador autorizado ainda me dirá se sim ou não. Algum dia.

DAVID COIMBRA


28 DE AGOSTO DE 2020

OPINIÃO DA RBS



DESPESA INOPORTUNA


A criação de um novo tribunal federal em Minas Gerais, aprovada na quarta-feira pela Câmara, revela uma desconcertante falta de sintonia da maioria dos deputados com o que deveria ser neste momento prioridade no parlamento em termos de cuidados com os recursos públicos. Em uma época de severos desafios às finanças da União ocasionados pela pandemia do novo coronavírus, a Casa decide pela inoportuna concepção de uma estrutura que, mesmo utilizando atuais magistrados e servidores e prédios existentes, acabará se convertendo em mais gastos. Novos desembargadores, por exemplo, precisarão ser nomeados para preencher as vagas do futuro Tribunal Regional Federal da 6ª Região (TRF6).

A decisão dos deputados federais mostra que, a despeito da gritante falta de recursos para o atendimento de serviços básicos à população, os lobbies e interesses meramente políticos falaram mais alto. A necessidade de austeridade foi outra vez deixada em segundo plano. A criação do TRF6 em Minas Gerais, é preciso ressaltar, teve forte influência do agora ex-presidente do Superior Tribunal de Justiça, o mineiro João Otávio de Noronha, que deixou ontem o cargo e tem se mostrado um esforçadíssimo candidato a uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF), que será aberta em novembro, com a aposentadoria do ministro decano, Celso de Mello. O centrão, da mesma forma, abraçou a ideia despropositada com devoção.

Como todo serviço público, o Judiciário merece tratamento apropriado e precisa de recursos adequados para operar, mas os gastos na área no Brasil já são visivelmente superiores em termos proporcionais aos de vários países. Chegaram a R$ 100,2 bilhões em 2018, o equivalente a 1,5% do PIB nacional, de acordo com dados recentes divulgados pelo Conselho Nacional de Justiça. Ou seja, um custo anual de R$ 479,16 por cidadão brasileiro, R$ 10,7 a mais do que um ano antes. Outro estudo, um pouco mais antigo, de 2015, do cientista político Luciano da Ros, professor da UFRGS e doutor em Ciência Política pela Universidade de Illinois, em Chicago, apontou que, enquanto no Brasil as despesas com o Judiciário chegavam a 1,3% do PIB, o custo era significativamente menor em nações como Espanha (0,12%), Estados Unidos (0,14%), Portugal (0,28%), Chile (0,22%) e Argentina (0,13%).

A criação do TRF6, vista de maneira isolada, poderia ser uma questão menor, mas ilustra o problema de fundo do Brasil, com uma tendência apresentada pelos três poderes de demonstrar pouco apreço pelo Brasil real, formado por empresas e trabalhadores que se esforçam para pagar seus impostos e, diante das sucessivas crises atravessadas pelo país, mal conseguem fechar as suas próprias contas e lutam para sobreviver de um mês para o outro. 

Um Congresso com rompantes perdulários e um governo que, de uma hora para outra, se embriagou com a repentina melhora na popularidade e se converteu com entusiasmo ao assistencialismo, antes condenado, são um enorme risco para a estabilidade macroeconômica do país. Os primeiros sinais aparecem na alta do dólar e dos juros futuros, no nervosismo dos investidores em ações e na retirada enorme de recursos do país por estrangeiros. Se a inebriante insensatez não for contida, em breve os efeitos passarão para a economia real, frustrando outra vez a tão esperada retomada do crescimento.


28 DE AGOSTO DE 2020

IBGE



Municípios do RS estão perdendo população


As mais recentes estimativas populacionais calculadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgadas na manhã de ontem, apontam que pouco mais da metade dos municípios gaúchos está encolhendo.

O cálculo revela que 51,3% das 497 cidades do Estado perderam habitantes ao longo do último ano - principalmente em pequenas localidades, mas também em aglomerados urbanos de maior porte em regiões como a Fronteira Oeste. A baixa natalidade e a busca por melhores oportunidades de estudo e trabalho são citadas por especialistas como razões para a intensificação desse fenômeno no Rio Grande do Sul.

As estimativas do IBGE são apresentadas todos os anos por determinação legal e servem, entre outras finalidades, para ajustar a distribuição de recursos dos fundos de participação dos municípios e dos Estados. O número de habitantes calculado para 2020, se comparado com as informações do ano passado, indica que 255 dos 497 municípios gaúchos teriam perdido moradores, o equivalente a 51,3%. Esse índice supera o verificado no ano anterior, quando 50,9% das localidades haviam diminuído em relação a 2018.



Natalidade


Doutor em Geografia Humana, professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e pesquisador do Observatório das Metrópoles, Paulo Roberto Soares diz que o estudo confirma tendências demográficas recentes:

- Há vários anos, o Estado já apresenta indicadores diferenciados em relação ao resto do país, como taxa de natalidade mais baixa e maior longevidade, o que nos aproxima mais de padrões de países vizinhos como Argentina e Uruguai.

O especialista observa que é preciso levar em conta que os dados são estimados e não têm o mesmo grau de confiabilidade de um censo demográfico, mas coincidem com outros fenômenos recentes como migrações em busca de melhores oportunidades de estudo ou trabalho.

- O Rio Grande do Sul tem muitas cidades pequenas, com pouco mais de mil habitantes, que não oferecem emprego (no nível necessário). Mas também temos municípios maiores em áreas como a Fronteira Oeste que vêm perdendo população nos últimos anos - analisa Soares.

Santana do Livramento recuou 0,9% desde o ano passado, por exemplo, e Alegrete encolheu 0,7%, conforme o IBGE. No outro extremo da tabela, o Litoral Norte segue como a região mais atrativa: dos 10 municípios que mais aumentaram de população em termos proporcionais, sete ficam à beira-mar. Conforme o instituto, como um todo o Estado cresceu 0,4% - metade da média nacional - e chegou a 11.422.973 habitantes. Porto Alegre aumentou 0,3%, e alcançou 1.488.252 moradores.

Diferenças

Nem todas as administrações municipais concordam com os cálculos divulgados pelo IBGE. O prefeito de Engenho Velho, Paulo André Dal Alba, considera um equívoco a conta que coloca a cidade do Alto Uruguai como a quarta menor de todo o Brasil e a que mais teria perdido moradores desde o ano passado no Rio Grande do Sul em termos proporcionais. Segundo a estimativa populacional oficial, a localidade somaria 982 almas.

- Para nós, é um equívoco. Temos 1,2 mil eleitores e, pelos registros da nossa Secretaria da Saúde, 1,5 mil habitantes. Já havíamos entrado em contato com o IBGE anteriormente, mas mesmo com a correção não passaríamos de faixa do Fundo de Participação dos Municípios (o que resultaria em mais transferência de recursos). Então acabou ficando por isso mesmo. Esperamos que o próximo censo aponte nossa verdadeira população - afirma Dal Alba.

A assessoria de comunicação do IBGE, por meio de nota, informa que as estimativas "são baseadas, principalmente, nas projeções de população para os Estados divulgadas em 2018 e na tendência populacional observada nos censos de 2000 e 2010 para cada município. No Brasil e na maioria dos países, a contagem da população só acontece de 10 em 10 anos, nos censos demográficos. O próximo censo do IBGE está previsto para 2021, e seus resultados irão dirimir eventuais dúvidas sobre a população de cada cidade brasileira."

O órgão federal sustenta, ainda, "que muitos eleitores mantém seus registros eleitorais nas cidades em que nasceram mesmo depois de terem ido morar em outro lugar, e que os registros de saúde de alguns municípios podem contabilizar moradores de cidades vizinhas que tenham procurado atendimento médico na rede de saúde local".

MARCELO GONZATTO

28 DE AGOSTO DE 2020
SUA SEGURANÇA

Sergio Moro começa a acumular derrotas


Pode ser mera coincidência, mas acasos dificilmente acontecem na política. O certo é que, desde que seu nome figurou em pesquisas entre favoritos para uma possível candidatura à Presidência da República, o ex-juiz Sergio Moro tem acumulado derrotas profissionais. Primeiro, ainda quando era ministro da Justiça, quando levantamentos o apontaram como o único que poderia concorrer de igual para igual, junto ao eleitorado, contra uma candidatura de Jair Bolsonaro à reeleição. Mesmo trabalhando com o presidente, Moro viu alguns de seus projetos minguarem - tanto dentro do governo quanto no Congresso, onde é visto como inimigo por grande parte dos parlamentares.

O boicote como ministro teve seu auge quando o presidente atropelou Moro, decidindo indicar as chefias da Polícia Federal. O ministro pediu demissão. Agora, uma nova frente está aberta contra Moro, formada por seus ex-colegas magistrados. Apenas nesta semana final de agosto ele teve duas sentenças anuladas. Uma delas pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que invalidou a condenação de réus em desvios de recursos no Banestado - a atuação de Moro foi considerada parcial, pró-acusação. A outra derrota foi no Tribunal Regional Federal da 4ª Região, que anulou condenação do ex-tesoureiro do PT Paulo Ferreira, num processo por corrupção em uma obra.

Mas nada disso é comparável à sombra que paira sobre a mais vistosa sentença já dada por Moro: a que condenou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por corrupção, no caso que envolve um apartamento triplex na praia de Guarujá (SP). Empreiteiras teriam presenteado Lula com uma reforma no imóvel e a condenação impediu o ex-presidente de participar das eleições presidenciais de 2018, vencidas por Bolsonaro. Como Moro virou ministro logo após o pleito, os petistas sempre o acusaram de ter agido para beneficiar o candidato que o levaria ao cargo de ministro. Desconfiança reforçada desde que hackers divulgaram à mídia mensagens de Moro nos quais ele instrui procuradores da República sobre as melhores chances de obter condenações.

A suspeição de Moro nesse caso deve ser julgada em breve pela 2ª Turma do STF, composta por Cármen Lúcia, Edson Fachin, Ricardo Lewandowski, Celso de Mello e Gilmar Mendes. O julgamento começou em 2018, e Moro obteve dois votos a seu favor (Cármen e Fachin), mas tudo pode mudar. Até porque os próximos a votar são ácidos críticos da Lava-Jato: Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowski. Caso esses dois votos lhe sejam contrários, o ex-juiz dependerá dos humores do decano Celso de Mello, que está hospitalizado por problemas de coluna. Caso não vote, o julgamento acabaria empatado e na Justiça isso significaria anular a condenação de Lula, com base no princípio "in dubio pro reo" (na dúvida, favoreça-se o réu). Seria a maior derrota para Moro, seja nos 22 anos de carreira como juiz ou como possível aspirante a presidente da República.

HUMBERTO TREZZI

28 DE AGOSTO DE 2020
EDUARDO BUENO

O som e a fúria


Preciso confessar: considero o Brasil um país chinelão. E acho que posso dizer isso de cadeira - reclinável, de rodinha e com encosto anatômico. Não só porque li - ou, vá lá, "compulsei" - cerca de 2 mil livros sobre a história pátria e escrevi mais de 30. Não só porque já morei no, como diria eu, Primeiro Mundo. E não só porque vivo no suposto "bairro nobre" da Leal e Valerosa capital gaúcha.

Embora os dois primeiros argumentos contem, o ponto (nobre) que quero ressaltar é o último. Faz já um tempo, a zona onde moro deixou de ser zona residencial (nobre?) para virar "zona mista" (mais ou menos nobre). Os casarões foram quase todos postos abaixo e em seu lugar pipocaram, feito cogumelos venenosos, prédios comerciais. Se você adquirir um "conjunto" num deles, será informado de que obras ou reformas só são permitidas "depois das 19h, para não atrapalhar os demais condôminos". Assim, pelas 20h (o pessoal "atrasa", sacumé) inicia-se uma sinfonia de onomatopeias - bzzz-bzzz, vruum-umm, toc-toc-toc, pec-pec-pec, shhhiiiink, pong-pong-pong, iiiiinnk - que não tem hora para terminar e cujo maestro, claro, está ausente, talvez desfrutando o sono dos injustos nalgum condomínio fechado em alguma nova zona nova-rica onde a minoria silenciosa agora dorme.

Os nomes desses prédios já revelam o abismo entre intenção e gesto. São quase títulos nobiliárquicos: Central Park, Champs Élysées, Quinta Avenida Center. Há um que exibe luzes estroboscópicas a noite toda, outro que tem 180 graus de miopia e aquele que preferiu homenagear Albert Einstein, talvez para exercer sua peculiar versão da teoria da relatividade: silêncio de dia, barulho à noite.

Óbvio que diante das trevas que envolvem o Brasil - o abismo da desigualdade, a violência, a devastação da Amazônia, o desgoverno -, minhas lamúrias são miudezas, cisco, poeira. White men problems na sua mais plena acepção. Mas justo por isso me parecem bem reveladores da dita "elite branca" e do país que ela quer construir, na surdina e no grito, com as serras e furadeiras de suas salas comerciais, que eles jamais deixariam soar de madrugada em suas salas de estar - e que sabem não ser permitidas nem aqui nem acolá, na Quinta Avenida ou na Champs Élysées.

De todo modo, espero que não me julguem um jornalista bundão por trazer tais questiúnculas à tona, nem queiram encher minha boca de porrada - até porque não fiz nenhuma pergunta. Mas faço uma agora: presidente Jair Bolsonaro, por que sua esposa Micheque recebeu R$ 89 mil de Fabrício Queiroz? Se for para comprar uma fantástica loja de chocolates aqui no bairro, por favor, peça para ela parar as obras às 22h, embora cumprir a lei não seja o forte da família.

EDUARDO BUENO

quinta-feira, 27 de agosto de 2020



27 DE AGOSTO DE 2020
DAVID COIMBRA

Uma série para assistir

Vi Marco Polo, e agora acho que estou sem séries para assistir. Triste.

É que gosto de séries baseadas em fatos históricos. Roma talvez tenha sido a melhor. A reprodução da vida privada da Antiga Roma é fiel e minuciosa, uma aula de história. Claro que a trama segue seu próprio curso fictício, mas há muito de realidade no que é narrado. Os dois protagonistas, os soldados Voreno e Pulo, existiram mesmo. São os únicos legionários citados por Júlio César em seu livro sobre a guerra gaulesa. Tinha esse livro e o perdi nas mudanças tantas. Agora só o encontro em latim, e latim, definitivamente, não é o meu forte. Triste.

A história que Júlio César conta de Voreno e Pulo é maravilhosa. Eles eram rivais. Não se gostavam. Num combate contra um povo gaulês, os nérvios, Pulo se extraviou do grosso da legião e se viu cercado de inimigos. Arremessou seu pilo e atravessou o peito de um nérvio que o atacava. Mas foi atingido por uma lança, caiu e seria morto ali mesmo, se Voreno não visse o que estava acontecendo e corresse para acudi-lo. Voreno matou um inimigo e deu tempo para que Pulo se erguesse e voltasse à luta. Assim, os dois rivais, ombro a ombro, como dois irmãos, foram abatendo os bárbaros e recuando até a tropa, que os recebeu sob aplausos e gritos de entusiasmo.

Na série, essa batalha é mostrada mais ou menos como César narrou.

Marco Polo tem essa boa qualidade de Roma, essa tentativa de reproduzir a vida privada de uma sociedade antiga. Mas é evidente que nós, ocidentais do século 21, nos interessamos menos pelos velhos mongóis do que pelos velhos romanos. Até porque somos subprodutos de Roma. Nossa cultura, nossa língua, nossos costumes, nossas leis e nossa forma de viver vieram de Roma e da Grécia. É por isso que o estudo dessas civilizações é tão importante. Fico preocupado quando vejo as escolas do Brasil perdendo o foco neste conteúdo em nome de abordagens politicamente corretas, mas isso é tema para outra conversa. Por ora, sigo com Marco Polo.

A série idealiza o personagem, e não poderia deixar de ser assim. Ele se torna um grande guerreiro e salva o império mongol algumas vezes. Mas fico pensando que nem precisava dessa demão dourada. Se a série tentasse apenas contar a história real de Marco Polo já haveria emoções em quantidade suficiente. Imagine que, há 800 anos, ele saiu de Veneza em direção ao Extremo Oriente. Levou três anos na viagem, de barco e a pé, seguindo pela lendária Rota da Seda. Chegando à China, integrou a corte do próprio Kublai Khan, o neto de Gengis Khan. Marco Polo só voltou à Europa depois de 24 anos.

Estando de novo em casa, não sossegou. Meteu-se numa guerra entre Veneza e Gênova e teve a "sorte" de ser capturado pelos genoveses. Na cadeia, conheceu um escritor, que tomou nota de suas memórias e, depois de um ano, lançou um livro que se tornou sucesso no continente: O Livro das Maravilhas.

Também tinha esse livro e também o perdi nas tais mudanças tantas. Encontrá-lo-ei. Juro por Marco Polo!

Mas o que queria dizer sobre a série de TV é que Marco Polo acaba não sendo sobre Marco Polo, e sim sobre os mongóis. O que se torna muito interessante. A figura do Kublai Khan conquista o espectador e vira o centro da narrativa. Vou pedir para o Ticiano Osório assistir e tecer uma crítica mais abalizada do que a minha. Enquanto isso, veja também você, forme sua opinião e me dê uma dica de outra série histórica, por favor.

DAVID COIMBRA



27 DE AGOSTO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

Para o turismo voltar

Em todo o mundo, o turismo - e a indústria cultural, de hospedagem, transporte e alimentação em torno dele - é um dos segmentos mais sacrificados pela pandemia, em um círculo vicioso dramático que praticamente paralisou essa atividade crucial da economia. Apenas no Brasil, o segmento respondeu no ano passado por quase 3 milhões de empregos e movimentou R$ 238,6 bilhões. Por isso, é um bom sinal, e indicador de adaptação aos novos tempos, a notícia de que o Ministério do Turismo concedeu o selo Turismo Responsável - Limpo e Seguro para 19.318 prestadores de serviços turísticos no país, dos quais 1.010 no Rio Grande do Sul. O selo avaliza os protocolos de estabelecimentos e agências de viagens sobre boas práticas de higienização e visa ampliar a segurança de turistas e viajantes.

Em relação ao turismo com origem no Exterior, o Brasil não está no topo do ranking dos países mais atingidos devido à relativamente baixa entrada de estrangeiros - a França, por exemplo, registra 14 vezes mais turistas externos do que nós. Ainda assim, cidades e regiões de alta atratividade externa, como Rio de Janeiro, Foz do Iguaçu, Florianópolis e a Amazônia, se ressentem profundamente dos dólares dos visitantes, que, no total, deixaram por aqui cerca de US$ 6 bilhões no ano passado. Mais grave, porém, é a trava abrupta nas viagens internas, que, além de ceifar sonhos e planos, ameaça milhares de pequenos negócios por todo o país - de pousadas a bares - que sobrevivem do turismo brasileiro.

Encontrar o ponto ótimo entre a contenção da pandemia e a reativação gradual do turismo é o desafio de empreendedores e governos agora. É compreensível que, depois de quase seis meses de recolhimento e restrições, turistas em potencial estejam ávidos em retomar os hábitos de viagem da fase pré-pandemia - e serem recebidos de braços abertos por estabelecimentos que necessitam fazer caixa com urgência. A retomada, no entanto, deve ser progressiva e repleta de salvaguardas, a começar por se repelirem as aglomerações. O erro de um estabelecimento pode comprometer a imagem de toda uma cidade e do setor. Por isso, a interdição de dois estabelecimentos em Gramado que descumpriram as restrições no fim de semana deve ser apoiada sob pena de se produzir uma temida reversão nas expectativas de retomada das viagens.

Além do selo de segurança, os órgãos oficiais de turismo podem fazer muito ainda pelo setor a partir de agora, como divulgar roteiros de curta duração em áreas de menor difusão da covid-19 e que foram especialmente atingidas pela suspensão de festas, feiras, congressos e demais eventos. Em outros países que começam a controlar a doença, há, por exemplo, campanhas de incentivo para que a população conheça melhor a própria cidade, hospedando-se em hotéis e experimentando serviços, gastronomia e atrações geralmente só desfrutadas por viajantes de fora. Com esse estímulo, e tarifas mais baixas, algumas metrópoles na Ásia têm registrado hotéis lotados nos fins de semana.

Assim como desabou no início da pandemia, o turismo interno tem potencial de se recuperar rapidamente, e até crescer, em relação aos níveis anteriores ao coronavírus tão logo a normalidade comece a retornar ao cotidiano. O câmbio em novo patamar nas alturas e as dificuldades para se cruzar fronteiras com passaporte brasileiro deverão canalizar no médio prazo grande parte dos planos de viagem ao Exterior para os roteiros internos. É uma provável e desejada bonança para a qual o setor precisa se equipar e se preparar desde já, durante a inevitável e involuntária entressafra de viajantes.

OPINIÃO DA RBS


27 DE AGOSTO DE 2020
ESCOLHA DO REITOR

Estudantes protestam por mais autonomia na UFRGS

Dezenas de estudantes se reuniram na reitoria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) na manhã de ontem em uma manifestação para cobrar mais autonomia universitária, o fim dos cortes de verbas federais que atingem diretamente a educação no país e um sistema de eleição paritário na universidade - que não atribua pesos diferentes de acordo com a categoria de cada votante.

Por volta das 9h30min, cerca de 80 manifestantes, entre eles aproximadamente 50 estudantes da UFRGS, marcharam pelo Campus Centro da universidade. Para esses alunos, a possibilidade de o presidente Jair Bolsonaro escolher o terceiro colocado da lista tríplice para reitor, encaminhada ao Ministério da Educação (MEC) pela UFRGS, é vista como uma intervenção porque o professor Carlos André Bulhões Mendes, tido como mais alinhado com o Planalto, representa a chapa que recebeu a menor parcela de votos. Além disso, ganhou o menor número de votos em eleição do Conselho Universitário (Consun).

Em ambas as consultas, os atuais reitor e vice-reitora, Rui Oppermann e Jane Tutikian, ficaram à frente. No entanto, o processo de nomeação de um novo reitor ou reitora passa, necessariamente, por uma indicação do presidente da República: ainda que seja visto como uma tradição que o governo federal aponte os candidatos vencedores no processo interno da universidade como seus escolhidos, a prerrogativa de apontar qualquer um dos nomeados na lista tríplice para o comando da UFRGS é legal e faz parte do processo.

A coordenadora-geral do Diretório Central de Estudantes (DCE) da UFRGS, Ana Paula Santos, que é estudante de Matemática, explica que o ato simbólico de ontem demonstrou a mobilização da comunidade acadêmica comprometida em garantir autonomia e democracia na universidade:

- Não aceitaremos um interventor nomeado pelo Bolsonaro, que desde o início de seu mandato vem atacando a educação. Defendemos a paridade e temos diversas críticas à gestão atual da reitoria, mas os problemas da UFRGS devem ser resolvidos na UFRGS.

"Resistência"

Gabriela Silveira, representante da União Nacional dos Estudantes (UNE) no Rio Grande do Sul, avaliou o ato como importante para transmitir a mensagem de que a UFRGS precisa ter autonomia e seus estudantes estão mobilizados para defendê-la:

- O protesto cumpriu um papel importante e necessário neste momento, que é o de as pessoas conseguirem enxergar a comunidade da UFRGS, ainda que não no seu todo, viva, em movimento, dizendo o que nós queremos, mostrando o que defendemos. Para mostrar à população a importância que há em respeitar os processos da UFRGS, uma universidade que tem sido duramente atacada, mas mesmo assim resiste e é uma referência.

Os estudantes utilizaram máscaras e foram orientados a manterem distanciamento, algo reforçado tanto na convocatória quanto no ato. O protesto foi organizado pelo DCE da UFRGS, pela Associação de Pós-Graduandos e pela Assufrgs, que representa os técnicos administrativos ligados à universidade.

GUILHERME JUSTINO

27 DE AGOSTO DE 2020

ENSINO A DISTÂNCIA

"Às vezes, precisava estudar no meio dos raios"



Sentado na grama, no topo do morro, Jean Carlo Araldi, 16 anos, estudante do segundo ano do Ensino Médio, apoia o caderno sobre os livros. O estojo protege lápis, caneta e o aparelho celular que funciona a pleno somente no fim da trilha de um quilômetro, percorrida a pé. O pico da montanha é o único ponto com cobertura de internet no terreno em que ele vive, um sítio pertencente ao empregador de seu pai.

Jean Carlo mora na área rural de União da Serra, município localizado entre Serafina Corrêa e Guaporé, na região da Serra. A população estimada é de 1.156 habitantes, segundo o IBGE. Nos dias em que os trabalhos ficam atrasados, ele retorna para casa só depois das 20h.

O smartphone foi comprado para possibilitar acesso às lições a distância, modelo adotado no Estado desde março, quando os encontros presenciais nas escolas foram suspensos em razão da pandemia de coronavírus.

- Se começa a chover, não subo e acumula trabalho para o outro dia. Mas às vezes chove quando já estou no morro, e preciso estudar no meio dos raios. Isso quando a bateria do celular não acaba antes, e fica mais coisa acumulada - explica o aluno da Escola Estadual de Ensino Médio Ricardo Francisco Gasparin.

Como caseiro, o pai do estudante, Oscar Fernando dos Santos, que não aprendeu a ler, recebe R$ 1,3 mil por mês. A mãe estudou até a quarta série.

Os pais investiram quase 20% da renda mensal na compra de um receptor de internet via satélite. Os equipamentos de captação do sinal e o pacote vão custar, no primeiro ano, R$ 2,6 mil, e foram instalados na terça-feira. A velocidade, de 10 mega, possibilita que agora, Jean Carlo acompanhe as lições do quarto. Mesmo afirmando que o valor é "bastante impactante" no orçamento, o caseiro não demonstra arrependimento.

Em todas as falas, Jean Carlo reforça que quer retribuir o investimento feito pela família:

- Se estudar bastante talvez eu possa conseguir um bom trabalho, planejar um bom futuro para mim. E ajudar meu pai e minha mãe, que estão sempre comigo, indo inclusive lá em cima às vezes, para não me deixar sozinho - agradece.

TIAGO BOFF


27 DE AGOSTO DE 2020

VAIVÉM NO GOVERNO


Bolsonaro suspende o Renda Brasil e pressiona Guedes


Presidente diz que programa não pode tirar "de pobres para dar a paupérrimos". Ministro deve ajustar versão até amanhã
Ao participar de evento em Ipatinga (MG) ontem, o presidente Jair Bolsonaro criticou publicamente a proposta do Renda Brasil, apresentada a ele pela sua equipe econômica nesta semana. O chefe do Executivo afirmou que o projeto está suspenso e que não vai "tirar (recursos) dos mais pobres" para abastecer o novo programa, que substituirá o Bolsa Família e deve ser a marca social do governo.

Além disso, estabeleceu o prazo de até amanhã para que o ministro da Economia, Paulo Guedes, mostre nova versão para o Renda Brasil. Um encontro do presidente com ministros foi marcado para sexta-feira, mas ainda não havia sido oficializado pelo Palácio do Planalto. Técnicos que trabalham no desenho do Renda Brasil se reuniram ontem para dar início aos ajustes pedidos por Bolsonaro, que quer uma solução sem passar pela revisão do abono salarial.

- Ontem (terça-feira) discutimos a possível proposta do Renda Brasil. E eu falei "está suspenso", vamos voltar a conversar. A proposta, como a equipe econômica apareceu para mim, não será enviada ao parlamento. Não posso tirar de pobres para dar a paupérrimos. Não podemos fazer isso aí - reagiu Bolsonaro.

Inicialmente, Guedes havia dito ao presidente que, para chegar ao benefício médio de R$ 300, como quer o presidente, é preciso cortar deduções de saúde e educação do Imposto de Renda. Hoje, o valor médio pago pelo programa criado na gestão petista é de R$ 190.

Bolsonaro também confirmou que a ideia da equipe econômica era usar o dinheiro que atualmente paga o abono salarial de trabalhadores para bancar parte do Renda Brasil, mas deixou claro que não gostou da possibilidade.

- Por exemplo, a questão do abono para quem ganha até dois salários mínimos, que seria como um décimo quarto salário... Não podemos tirar isso de 12 milhões de pessoas para dar a um Bolsa Família, um Renda Brasil, seja lá o que for o nome do programa - comentou o presidente.

A avaliação na área econômica, porém, é de que a revisão do abono salarial era "fundamental" para criar espaço no orçamento para bancar o novo programa, que teria maior alcance e valor de benefício que o Bolsa Família. A extinção do abono, por exemplo, poderia liberar cerca de R$ 20 bilhões.

Entre integrantes da equipe econômica, já há a percepção de que o Renda Brasil vai acabar com alcance e valor "não tão diferente" do Bolsa Família, diante da resistência do presidente em bancar a revisão dos programas considerados ineficientes e a necessidade de respeitar o teto de gastos (que limita o avanço das despesas à inflação).

Além do abono, estão na mira dos técnicos mais de 20 iniciativas, como o seguro-defeso (pago a pescador artesanal no período de reprodução dos peixes, quando a pesca é proibida), entre outros.

Custo

No início de sua gestão, Bolsonaro deu aval a uma proposta de redução do alcance do abono salarial, que foi incluída na reforma da Previdência, mas acabou sendo rejeitada pelos parlamentares. A percepção no governo, porém, é de que o momento agora é outro e que o custo político da proposta da Economia é alto para quem quer elevar sua popularidade.

Pela proposta em gestação, haveria a unificação de vários programas sociais para criar o Renda Brasil, que deve incluir os beneficiários do auxílio emergencial, que recebem atualmente parcelas de R$ 600 (R$ 1,2 mil para mães solteiras), pagas em razão da covid-19.

- Resolvemos estendê-lo (auxílio emergencial) até dezembro, o valor não será R$ 200 nem R$ 600, estamos discutindo com a equipe econômica - acrescentou Bolsonaro no evento em Minas Gerais.

Ele destacou que o auxílio custa cerca de R$ 50 bilhões por mês e "é uma conta pesada":

- Sabemos que os R$ 600 é pouco para muitos que recebem, mas é muito para o país que se endivida. E, lamentavelmente, como é emergencial temos de ter um ponto final nisso.

27 DE AGOSTO DE 2020
L.F. VERISSIMO
Constantino

Lá pelos séculos 4º e 5º aconteceram mudanças na história cultural e intelectual do Ocidente que podem ser descritas, simplificando um pouco, como substituições no futebol: saem paganismo e racionalismo gregos, entram empiricismo romano e cristianismo. O apóstolo Paulo já fizera pouco, nas suas pregações, da "sapiência dos sábios" gregos e da "lógica vazia dos seus filósofos" em contraste com a sabedoria do Cristo, iniciando a conquista do pensamento ocidental pelo cristianismo, que avançaria no começo do século 4º com o imperador Constantino abrindo caminho para a cristã ser a única religião do império.

Para garantir o apoio dos teólogos e praticantes da nova e triunfante religião, Constantino iniciou outra tradição da Igreja além do anti-intelectualismo de Paulo e dos conflitos reincidentes entre doutrina cristã e ciência: estabeleceu que nem o clero nem as autoridades mais altas da Igreja precisavam pagar impostos. Assim, além do prestígio e do poder na Terra e da certeza de um lugar no céu pela eternidade, os bispos tinham acesso a prazeres mundanos e riquezas não tributáveis. Bispos disputavam entre si os favores de patronos ricos e do próprio imperador do momento.

Pelo que se sabe dele, Constantino foi um bom imperador, bom na guerra, bom e generoso na vitória e competente como administrador do seu império, que manteve unido por mais tempo do que qualquer outro "césar" depois de Augusto. Não se sabe se foi um cristão convicto ou se usou a Igreja para fins políticos e práticos, mas o fato é que a grande migração da História, do racionalismo grego para o irracionalismo romano, para o que um estudioso da época chamou de "mistério, mágica e autoridade" da Igreja de Roma, não teria acontecido sem ele. E olha aí, Paulo Guedes: taxar igrejas ao invés de livros. Não é uma boa ideia?

L.F. VERISSIMO

quarta-feira, 26 de agosto de 2020



26 DE AGOSTO DE 2020
DAVID COIMBRA

Bolsonaro nos ama

Um dos maiores problemas de Bolsonaro é que ele se importa demais com o que a imprensa diz a seu respeito. Ele queria ser amado pelos jornalistas, queria que todos o elogiassem e o aplaudissem, mas não é assim que acontece, então ele se revolta, perde o controle e fala besteira.

Nesta segunda-feira, Bolsonaro estava se autoelogiando, lembrando do seu "histórico de atleta", ao que atribui o fato de ter se curado da covid-19, e então não se aguentou: teve que assacar contra os jornalistas. Mandou: "Quando (a covid) pega num bundão de vocês, a chance de sobreviver é bem menor".

Ou seja: morre de covid-19 quem é bundão.

Diogo Mainardi, ao saber da declaração de Bolsonaro, gravou um vídeo compassivo diante das águas da Lagoa de Veneza. Lembrou que seu pai, Ênio Mainardi, morreu de covid-19, e perguntou se tinha o direito de sentir vontade de socar a boca do presidente da República, como o presidente da República disse ter vontade de fazer com um jornalista naquele mesmo dia.

É evidente que Diogo Mainardi, vivendo a dor de um filho que perdeu o pai, tem o direito de sentir vontade de socar a boca de Bolsonaro. Familiares e amigos de outros 115 mil brasileiros que morreram de covid devem estar sentindo o mesmo. Portanto, neste exato momento, centenas de milhares, talvez milhões de brasileiros estejam odiando Bolsonaro por uma única declaração absurda que ele fez.

Ainda assim, Bolsonaro seguirá emitindo tolices, porque ele simplesmente não consegue entender que falar em público é diferente de falar em particular, sobretudo quando quem fala é presidente da República. Bolsonaro acredita que está sendo autêntico quando ofende pessoas ou diz palavrões, e na verdade está sendo apenas grosseiro. Essa grosseria faz com que ele seja criticado pela imprensa, o que o machuca e provoca nova reação destemperada e nova crítica.

Está certo que todos os presidentes se queixaram da imprensa. Todos. Lula chegou a sonhar com o que chamava de "regulação", um eufemismo para censura. Mas nenhum, nem os "impichados" Collor e Dilma, nem o impopular Temer, nenhum se abalou tanto com a opinião dos jornalistas quanto Bolsonaro.

É algo curioso, porque Bolsonaro está cercado de bajuladores. Eles o chamam de "mito", veja só. Eles, exatamente como os lulistas, não conseguem ver nele nenhuma falha, como se Bolsonaro fosse uma espécie de super-herói. Mas não é suficiente. Bolsonaro anseia por um elogio mais do que todos os outros: o elogio dos jornalistas.

Ora, você não pleiteia o afeto de quem despreza. Só lhe causa aflição a malquerença de quem você deseja. Com o que, concluo que essa insistência de Bolsonaro em atacar jornalistas não é ódio; é amor. Mas o amor dos espíritos primitivos, como o homem que, não admitindo a rejeição da mulher, tenta matá-la: "Se você não vai ser minha, não será de mais ninguém!" Para esse homem paleolítico, a mulher tem obrigação de amá-lo tão somente porque ele quer - ele acha que tem méritos e que é dever dela reconhecê-los. Se ela não reconhece, ela é que está errada.

Bolsonaro é assim. Bolsonaro é um homem sem requintes. Em sua compreensão de mundo, ele acredita que tem direito a todos os louvores. Ele olha para a imprensa cheio de angústia esperançosa, ele quer aprovação, quer carinho, e só encontra censura. Então, sofre. Sofre por amor. Bolsonaro ama a imprensa de uma forma como a imprensa jamais foi amada. Compreendo a dor de Bolsonaro. É a dor que desatina sem doer, é um descontentamento contente, é uma ferida que dói e que se sente, é o fogo que arde sem se ver.

DAVID COIMBRA


26 DE AGOSTO DE 2020

OPINIÃO DA RBS

CUIDAR DE QUEM CUIDA

A valorização dos profissionais da saúde é um dos efeitos mais visíveis e positivos da pandemia. Eles foram os primeiros a receber a onda de choque gerada pelo novo coronavírus e, certamente, serão os últimos a deixar de absorver a tensão de um cenário invisível à maioria da população. Notícia veiculada pelo jornal Folha de S. Paulo revela que, a cada minuto, alguém que trabalha na linha de frente do combate à covid-19 é contaminado no Brasil, um dado alarmante e que nos chama a atenção, mais uma vez, para a necessidade legal e moral de oferecer as melhores condições de trabalho possíveis a quem se arrisca para cuidar dos outros.

Enquanto fora dos hospitais a maior parcela da população enxerga apenas estatísticas, podendo até mesmo fazer de conta que elas inexistem, auxiliares, enfermeiros, médicos e todos os colaboradores de uma instituição de saúde, da portaria ao almoxarifado, deparam diariamente com dramas que têm rostos, nomes, sobrenomes, amigos e familiares. Some-se a esta lista os agentes comunitários e equipes de ambulâncias, que também se expõem a alto risco de contágio entre profissionais que cuidam da saúde da população.

Eram mais comuns, no começo do ano, cenas de aplausos coletivos nas janelas e demonstrações de afeto e gratidão. Certamente, esses sentimentos ainda se fazem presentes na sociedade. São justos e necessários, mas não são suficientes para evitar o estresse, a sobrecarga de trabalho e os danos físicos e psicológicos desse enorme contingente que suporta o peso avassalador de uma doença sobre a qual, passado meio ano da sua chegada ao Brasil, ainda restam mais dúvidas do que certezas.

Garantir condições de trabalho dignas e seguras a esses profissionais é um dever do Estado e das instituições, mas também resultado de uma cobrança e de uma vigilância coletivas. É verdade que, de fevereiro até hoje, muita coisa melhorou. O índice de recuperação de pacientes infectados é crescente, resultado de uma curva de aprendizado que vai das regras de convívio social à evolução dos tratamentos, mesmo antes da chegada de uma vacina comprovadamente eficiente. Mas esse indicador positivo, que deve ser celebrado e sempre lembrado, não significa alívio na tensão das UTIs e das emergências espalhadas pelo país nem garante o declínio da curva que coloca o Brasil na vergonhosa parte superior dos rankings de óbitos.

Milhões de profissionais vêm acumulando, há meses, cansaço, tensão e sobrecarga de trabalho, aliados, muitas vezes, à necessidade de isolamento até mesmo do círculo familiar mais próximo, sempre motivado pelo instinto e pelo dever de proteção. Mesmo com todos os cuidados, números recentes divulgados pelo Ministério da Saúde apontam que mais de 257 mil profissionais da saúde foram contaminados pelo novo coronavírus no Brasil. Destes, 226 morreram vitimados pela doença. Aos que se foram e aos que permanecem no campo de batalha, nunca é demais reiterar o mais profundo agradecimento pela coragem, dedicação e talento.

A todos aqueles que nunca pararam para que tantos pudessem ficar em casa, especialmente os mais idosos e os que teriam maior risco se expostos ao vírus, a História, certamente, reservará justiça, gratidão e reconhecimento. Mas, enquanto isso, é um dever de todos, sempre e cada vez mais, cuidar de quem cuida. Garantir condições de trabalho seguras aos profissionais da saúde é um dever do Estado e das instituições, mas também resultado de uma cobrança e de uma vigilância coletivas

OPINIÃO DA RBS

26 DE AGOSTO DE 2020
UFRGS

Bolsonaro deve nomear reitor até 20 de setembro


O presidente Jair Bolsonaro tem até 20 de setembro para nomear o novo reitor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). A lista tríplice encaminhada ao Ministério da Educação (MEC) pelo Conselho Universitário (Consun), contendo os nomes de Rui Vicente Oppermann - atual reitor -, Karla Maria Müller e Carlos André Bulhões Mendes ainda está sob análise do governo.

Em menos de um mês, encerra-se o mandato de Oppermann e Jane Tutikian, atuais reitor e vice-reitora, que foram nomeados em 20 de setembro de 2016 pelo presidente da Câmara dos Deputados e então presidente em exercício Rodrigo Maia. O MEC informou que começou a avaliação técnica dos nomes e que, após essa fase, será encaminhado um relatório para Bolsonaro, que, então, definirá o nome.

Votos

A consulta acadêmica que indicou preferência por Oppermann e Tutikian, em um sistema que dá maior valor aos votos dos professores do que dos alunos e servidores da universidade, e a eleição no Consun, em que a mesma chapa foi referendada com 45 dos 77 votos dos conselheiros, não significam que esses devem ser os nomes escolhidos para a reitoria.

Questionado pela reportagem, o MEC não respondeu se é possível que o mandato da atual gestão seja encerrado sem que a chapa seguinte seja nomeada. A UFRGS, por sua vez, explicou que isso nunca aconteceu - e, portanto, a nomeação é esperada para os próximos 25 dias.

Protestos

A possibilidade de Bolsonaro escolher o último colocado tem levado a manifestações favoráveis e contrárias. Enquanto defensores explicam que é uma prerrogativa legal e algo com que os candidatos concordaram ao concorrerem à reitoria, os críticos defendem que a chapa do professor Bulhões foi a menos votada.

Integrantes do Diretório Central de Estudantes (DCE) da UFRGS convocaram ato "em defesa da autonomia e democracia" para hoje, às 9h30min, em frente à Faculdade de Educação. Entre as demandas do protesto, organizado pela Associação de Pós-Graduandos, pela Assufrgs, que representa os técnicos administrativos ligados à universidade, e pelo próprio DCE, estão o fim dos cortes às instituições públicas de Ensino Superior e a paridade nas eleições da UFRGS, com peso igual para cada votante, independentemente de sua categoria.

- Mas agora precisamos defender a autonomia universitária. Os problemas da universidade resolvemos na UFRGS, e não com um interventor - define Ana Paula Santos, estudante de Matemática e coordenadora-geral do DCE.

GUILHERME JUSTINO

26 DE AGOSTO DE 2020

MÁRIO CORSO

Saudade de um mundo que se foi

Um paciente anda maratonando Friends, uma série de TV americana dos anos 90 do século passado. Detalhe, ele já tinha visto mais de uma vez. Os episódios não lhe trazem novidade, conhece as personagens, o enredo, as piadas. Ele se pergunta o porquê de tanto entusiasmo. Aguenta a rotina chata da pandemia sabendo que depois das 20 horas será ele e Friends, seu momento de prazer do dia.

Tem para si que aquele era o retrato de sua juventude, que estava com saudade daquela época. Ao mesmo tempo, sabe que aquela fase foi a pior da sua vida e é agora, na maturidade, que tem bons amigos. Sua juventude foi o oposto do seriado, então, o que o captura?

Finalmente deu-se conta do seu regozijo nostálgico: era do mundo daquela época que tinha saudade. Um mundo em paz, onde o assunto dos amigos eram seus problemas amorosos, os desafios profissionais, os dramas de crescimento, as banalidades do cotidiano. Não havia ódio, nem a radicalização política, em que até remédio vira questão ideológica, nem mesmo as exigências do politicamente correto. Um momento na história no qual, para o bem e para o mal, podíamos esquecer do que estava acontecendo no noticiário e simplesmente viver a vida.

A história tem momentos de esperança, bonança e calmaria, são breves e não são para todos, mas o ethos desses intervalos é a sensação de que estaríamos em tempos de paz e vivendo uma confiança no futuro. Assim eram aqueles anos e era disso que ele estava saudoso.

O título do seriado diz tudo: amigos. Havia no grupo tipos dissonantes: a riquinha mimada, o nerd, a obsessiva, o bonitão burrinho, a new age, o pragmático, mas o que os unia era a falta que sentiam uns dos outros. Os personagens de Friends eram díspares, não pensavam igual, não possuíam os mesmos valores, hoje talvez nem seriam amigos.

Naquela época, as afinidades que ligavam as pessoas eram dilatadas. Qualquer pessoa interessante poderia ser um potencial amigo, sem verificar antes em quem votou, ou se separa o lixo, ou ainda se imagina que a terra é como uma laranja ou como uma pizza.

Talvez seja ridícula a nostalgia daquele mundo onde problemas equivaliam a percalços de gente branca, heterossexual e bem-nascida. Porém, há um elemento daquela receita de amizade que deixa saudade: a tolerância de uns com a diferença dos outros. Sinto que empobrecemos por perder o tempero da alteridade. Embora as variações entre as personagens fossem sutis, simpatizar com a diferença entre a identidade alheia e a nossa é a maior beleza que a amizade tem a legar.

MÁRIO CORSO

26 DE AGOSTO DE 2020
INFORME ESPECIAL

Contágio de alegria



Não foi um aniversário qualquer. Moradora de Cruz Alta, Evilyn Silva de Oliveira sonha ser bombeira desde os três anos. Por isso, a mãe, Adriana, escreveu ao quartel da cidade perguntando se alguma surpresa poderia ser feita à filha na noite em que ela completava 15 anos.

Entristecida pela pandemia, a aniversariante ganhou mais do que esperava. As sirenes e a agitação na rua eram prenúncio de um baita presente.

Evilyn não estava de aniversário sozinha. Neste mês, Cruz Alta completou 199 anos e o Corpo de Bombeiros da cidade, 70. Evilyn vestiu uniforme (foto) e foi levada para um passeio no caminhão vermelho que tanto admira. A vizinhança vibrou junto. A pandemia impediu uma festa formal de 15 anos. Mas a alegria também é contagiosa e sempre encontra seu espaço. Muitos dos bombeiros que foram à casa da menina estavam de folga, mas se apresentaram como voluntários para a celebração, realizada com todos os cuidados exigidos pelo momento. Comandante do batalhão, o tenente De Paula comentou:

- Só podemos agradecer a Deus por permitir que momentos como esse aconteçam. A mãe, Adriana, pensou que, no máximo, receberia a visita de um ou dois representantes da instituição. Quando ouviu as sirenes e viu ambulância, caminhonete, caminhões, inclusive bombeiros aposentados, mais de 30 pessoas, mal acreditou.

- Eles são profissionais com alma - disse Adriana.

Evilyn foi dormir feliz, mais alegre e com a certeza renovada sobre o que fará no seu futuro.

Mais, governador


Eduardo Leite acabou com um absurdo. Até esta semana, um motorista pego com atraso no IPVA tinha o carro apreendido. A partir daí, enfrentava uma maratona burocrática para reaver seu veículo. Ao redor dessa teia, se organizavam agentes exóticos e cobranças absurdas. O governador, com um canetaço, zelou pelo interesse do Estado e do cidadão. Agora, é possível pagar ali, na hora, a parcela em atraso e as multas. A arrecadação é rápida, a punição é justa e a vida segue.


É o tipo de medida simples e eficaz. Tanto, que poderia servir de inspiração para muitas outras áreas. Licenças, alvarás, liberação de projetos, documentos. Tudo pode ser mais ágil, mais digital e mais barato. E aí, nesse último ponto, é que alguns perderão e, por isso, resistirão.

TULIO MILMAN

terça-feira, 25 de agosto de 2020



25 DE AGOSTO DE 2020
DAVID COIMBRA

Por que os brasileiros torcem contra Neymar

Talvez seja coisa nossa, dos povos latinos. Nós somos muito coração, como já havia identificado Sérgio Buarque de Holanda, o pai do Chico. Não é nem que agimos por instinto, como os bichos. Não. Os bichos são previsíveis. Quer dizer: existe uma lógica reta nas suas ações e reações. Nós, latinos, não. Nós nos movemos por sentimentos tortuosos e somos capazes de coisas que fazem um anglo-saxão erguer uma sobrancelha e exclamar:

"Oh..." Por exemplo: essa final da Liga dos Campeões da Europa gerou manifestações que expõem a personalidade de alguns povos envolvidos. Os franceses, depois da derrota, saíram às ruas, quebraram carros e vitrines, atearam fogo em lixeiras, promoveram tumulto.

Por quê?  O time deles enfrentou um adversário superior e jogou bem, fez uma final digna. Não levou oito gols, como o Barcelona havia levado. Ao contrário: teve bravura e saiu de campo com a cabeça erguida.

Então, repito: por que a violência? 

É porque, para o francês de hoje, pouco interessam as razões, o que ele quer é demonstrar seu descontentamento com o mundo. O mundo, para o francês, é visceralmente injusto. O mundo não dá ao francês o que ele quer, e isso é revoltante. Afinal, o francês nasceu e, por consequência, deveria ter garantidos o sustento, a fartura e o campeonato da Europa.

O mesmo jogo de futebol titilou os brasileiros e lhes expôs a personalidade, graças ao envolvimento de um protagonista do campeonato, Neymar.

Muitos brasileiros, veja só, comemoraram a derrota de Neymar, o maior craque do Brasil. Nas redes, ninguém destacou sua habilidade fluente, sua vontade de vencer, seu genuíno abalo com a derrota. Nas redes, Neymar foi tratado como um fracassado.

Surge, desta forma, uma contradição do caráter do brasileiro. O brasileiro venera políticos e têm neles fé cega, como se fossem semideuses infalíveis (vide lulistas e bolsonaristas). No entanto, o brasileiro torce contra o seu semelhante. Ou seja: para o brasileiro, existe alguém acima dele que é intocável, e todos os demais, que estão a seu lado, na planície, são seres menores, quase desprezíveis.

Como o francês, o brasileiro também acha o mundo injusto, mas cultiva a esperança de que um herói corrija essa injustiça. Enquanto isso não acontece, enquanto ele não é salvo por alguém, o brasileiro se empenha em diminuir quem está por perto, para parecer maior. Ele aponta para o próximo e diz: eu não sou tão miserável, porque você é mais miserável do que eu. Eis a fonte da nossa irreverência, da nossa iconoclastia e da nossa amargura.

Somos, de fato, servos dos nossos próprios sentimentos. Ponderação, quase nenhuma. Reflexão, perto do nada. Mas muito, muito coração.

DAVID COIMBRA


25 DE AGOSTO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

PERGUNTA SEM RESPOSTA

Ao demonstrar destempero e agressividade no ataque a um repórter do jornal O Globo que o questionou sobre as estranhas transações financeiras entre Fabrício Queiroz e a primeira-dama, o presidente voltou a agir como o Jair Bolsonaro de sempre quando se vê contrariado: irascível, descontrolado e sem argumentos razoáveis. No surto de virulência, o presidente interrompeu de forma estrondosa a fase paz e amor que vinha se autoimpondo há pouco mais de dois meses, desde a primeira prisão de Queiroz, e destampou novamente as incógnitas que permeiam a relação com o primeiro-amigo da família presidencial.

Confrontado com a questão, Bolsonaro poderia tê-la ignorado, tergiversado, negado ou, preferencialmente, explicado a origem dos depósitos na conta de sua esposa. Não fez nada disso - agrediu de novo um jornalista que fazia uma pergunta latente e previsível diante das circunstâncias que envolvem o caso. A reação grosseira de Bolsonaro - "a vontade que eu tenho é de encher sua boca de porrada" - dá bem a dimensão sobre o desconforto, e falta de resposta, que a questão enseja.

Em novembro de 2018, já eleito, Bolsonaro justificou a entrada de R$ 24 mil em cheques a Michelle como devolução de parte de um empréstimo de R$ 40 mil ao amigo - que não haviam sido declarados à Receita Federal. Há duas semanas, a revista Crusoé e o jornal Folha de S. Paulo revelaram que os depósitos, na realidade, somam 27 cheques, no total de R$ 89 mil depositados por Queiroz e sua mulher, Marcia Aguiar. Os dois cumprem prisão domiciliar no Rio de Janeiro.

O problema do presidente não é tanto sobre a envergadura dos valores. Na triste história nacional de lavagens de dinheiro, desvios e malversações de recursos públicos, R$ 89 mil representam uma quantia relativamente modesta. No entanto, a falta de explicação sobre esses recursos depositados por um ex-assessor próximo de milicianos do submundo do Rio de Janeiro escava um abismo de indagações e desconfianças sobre o presidente e sua família.

Justas ou não, as suspeitas precisam ser investigadas e esclarecidas pelo próprio presidente, que, ao contrário, comporta-se de modo explosivo e como um mandatário acuado, expondo, simultaneamente, a figura da primeira-dama. A reação do presidente é mais uma reviravolta na lista de compromissos que, em razão dos problemas da família na Justiça, ele vai arquivando desde que assumiu a Presidência - além de silenciar sobre a origem de dinheiro suspeito, Bolsonaro recorre agora às graças do centrão, sempre disposto a trocar apoio por préstimos e acessos ao poder.

É um péssimo momento para Bolsonaro afundar-se cada vez mais nas dificuldades para explicar as relações com Queiroz. Em meio à pandemia de covid-19, o presidente deveria capitanear os esforços para amenizar os efeitos perversos da doença, como o bem-vindo programa de retomada do desenvolvimento que deve ser anunciado nos próximos dias. No entanto, o presidente, assombrado por meses pelo enigma sobre onde andava o amigo ligado às milícias, ofusca as próprias iniciativas ao escancarar de supetão a nova pergunta que não vai calar: afinal, por que Queiroz depositou R$ 89 mil na conta da primeira-dama?

OPINIÃO DA RBS