terça-feira, 13 de agosto de 2024

12/08/2024 - 18h16min
Rosane de Oliveira 

Para que serve o Conselho Tutelar, se não consegue evitar a morte anunciada de uma criança?

Duas meninas foram mortas na Região Metropolitana e as mães estão presas como suspeitas dos crimes

Kerollyn Souza Ferreira, nove anos, teve o corpo localizado dentro de contêiner de lixo próximo da casa onde vivia com a família.

Arquivo Pessoal / Divulgação

Com poucas horas de diferença, dois crimes cruéis abalaram o Rio Grande do Sul e só não tiveram maior repercussão nacional porque as vítimas são duas meninas pobres, uma de sete e outra de nove anos, uma em Novo Hamburgo e a outra em Guaíba. As mães têm praticamente a mesma idade (31 e 30 anos) e estão presas como suspeitas do assassinato. Nessa hora, é de se perguntar por onde andava o Conselho Tutelar, que no caso de Guaíba não protegeu uma criança que dormia dentro de um carro abandonado e que era sabidamente vítimas de maus-tratos.  

A menina de Guaíba, Kerollyn Souza Ferreira, foi encontrada morta dentro de um contêiner de lixo (a perícia ainda não determinou a causa). A mãe, Carla Carolina Abreu Souza, foi presa temporariamente e está sendo investigada por maus-tratos. A menina de Novo Hamburgo, Ana Pilar Cabrera, foi morta a facadas e a mãe acabou presa em flagrante. Muito mais não se sabe porque a polícia, vejam só, fez voto de silêncio em protesto pelo não atendimento de reivindicações corporativas.  

Nos dois casos, eram duas crianças que deveriam estar na escola. Tinham mais uma coisa em comum: estavam sendo criadas longe dos pais, porque na separação as mães ficaram no Rio Grande do Sul e os pais foram tocar a vida em outro lugar. 

Ana Pilar tinha parentes que nunca desconfiaram da violência da mãe. Kerollyn era conhecida na Cohab Santa Rita, em Guaíba como uma menina sapeca, vaidosa, simpática e afetuosa, que levava e buscava o irmãozinho na escola, como se aos nove anos fosse a adulta da família. Na véspera de morrer, esteve numa escola buscando doações de alimentos e roupas.  

Depois da tragédia, soube-se que a menina de Guaíba vivia o inferno da negligência e dos maus-tratos. Testemunhas disseram à Polícia que ela e os irmãos passavam fome, que a mãe filmava a criança dizendo que ela era “endiabrada”.  

— Na verdade, era uma criança de nove anos que queria brincar e vivia sem atenção nenhuma — descreveu o chefe da Polícia Civil, delegado Fernando Sodré. 

Maikon Correia, que é pai de outra filha da mulher, afirma que procurou o Conselho Tutelar diversas vezes para relatar a situação vivida pelas crianças. O vigilante diz que a menina costumava pedir comida na casa de vizinhos: 

— Era uma situação de abandono. Ela sempre deixava as crianças sozinhas. A guriazinha passava fome, com os outros irmãos dela dentro de casa, quando a mãe saía. Tentei de várias formas ajudar. O Conselho Tutelar fechou os olhos. Isso que me dói. Essa querida criança podia estar com vida, se algum órgão público tivesse prestado atenção. Tudo era iminente. O que estava acontecendo com a vida da Kerollyn, era iminente. Todo mundo estava sabendo. 

O pai de Kerollyn, Matheus Ferreira, que vive em Santa Catarina, relatou ao g1 RS ter procurado o Conselho Tutelar ao menos seis vezes. Em julho de 2022, registrou ocorrência contra a mãe da menina, por ameaça. No relato, ele afirmava estranhar o comportamento da filha. “Nada vai trazer a minha filha de volta. Isso é revoltante. Por diversas vezes eu tentei”, escreveu em relato na internet. 

O que fez o Conselho Tutelar com as denúncias? Pela resposta da conselheira tutelar Ieda Lucas, tratou o assunto de forma burocrática. Ieda confirmou que a família vinha sendo acompanhada, mas negou que o Conselho Tutelar tenha se omitido de realizar atendimentos no caso. 

— Todas as denúncias que foram feitas dessa família foram atendidas. A gente luta para que a criança permaneça no seu lar. A gente estava acompanhando, sim. Não havia risco de vida todas as vezes que fomos — disse. 

Se o Conselho Tutelar não foi omisso, é de se perguntar para que serve sua intervenção. Dizer que a criança estava “assistida” e que a morte foi “uma fatalidade” é lavar as mãos. 

ALIÁS 

Os assassinatos de Kerollyn e Ana Pilar remetem para outro tema que em geral frequenta os discursos de campanha, mas não chega à vida real: o planejamento familiar, com orientações para homens e mulheres sobre como evitar a gravidez indesejada.

segunda-feira, 12 de agosto de 2024


12 de Agosto de 2024
CARPINEJAR

Poderia ser eu, você, qualquer um

Um avião da companhia aérea Voepass com 62 pessoas caiu em um condomínio residencial em Vinhedo (SP), na sexta-feira, e ninguém sobreviveu. É o acidente que teve o maior número de vítimas desde a tragédia da TAM em 2007.

Num desastre aéreo, o primeiro pensamento que vem à tona é que poderia ser você. É uma morte coletiva que coloca todo mundo mentalmente dentro do avião. Você recorda a sua família, os seus amigos, imagina o que o seu círculo de afetos estaria sofrendo com o seu desaparecimento repentino.

Pois não tem como escapar. É, ao mesmo tempo, um infortúnio tão raro e tão inesperado que nos provoca a mais completa sensação de impotência, de imobilidade emocional. Ainda não se sabe o que causou a queda. Uma hipótese provável é que a asa tenha perdido completamente a sustentação pela formação de gelo, numa queda em parafuso de aproximadamente 4 mil metros, com velocidade de 440 km/h.

Eu vivo viajando, numa média de seis a oito voos por semana. Eu já embarquei várias vezes pela companhia Passaredo, eu já saí do aeroporto de Cascavel, eu já briguei no balcão para garantir meu horário, eu já palestrei em Vinhedo. O avião já havia operado em Caxias do Sul, minha cidade natal.

É uma colcha de casualidades inexplicáveis. Você se sente aliviado pela sua existência poupada e também mortificado por quem não contou com a mesma sorte. É o medo por não ter controle sobre a vida, e pesar porque alguém partiu simbolicamente em seu lugar. É o frio e o quente misturados - suor gélido pela sua sobrevivência e lágrimas quentes tributárias da fatalidade, com tanta gente inocente de seu fim.

Não há como não se ver preso ao "quase", ao roteiro incessante do "se". O avião fez três viagens no dia. Dez passageiros perderam a conexão. Quantas pessoas embarcaram perto da catástrofe, ou poderiam ter subido para nunca mais naquele modelo ATR-72?

Foi uma salvação por um triz, uma proteção que aconteceu no detalhe. Um táxi que se atrasou, um carro de aplicativo que cancelou a corrida, um alarme do celular que não tocou, um erro na compra do bilhete: um mero acaso decidiu destinos. E das 62 vítimas, quantas tiveram o pressentimento de não ir ou a chance de estar numa outra escala?

Isso mexe com as nossas piores fantasias. Todo falecido ali se torna nosso parente, porque leva consigo um pouco da nossa morte. Na aeronave, encontravam-se docentes, médicos, árbitro de judô, representantes comerciais, policiais rodoviários, fisiculturista, procurador, advogado, farmacêutico, veterinária, empresários, comissárias e pilotos jovens, entre tantas profissões e sonhos ceifados.

Não existe como não se desesperar ao descobrir que o servidor do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) Rafael, 41 anos, foi buscar a filha de três, Liz, para passar o Dia dos Pais em Florianópolis.

Nem os mais crentes em Deus são capazes de justificar tal desígnio. Como a véspera de uma data festiva se transforma repentinamente num pânico do tamanho de um país inteiro? Onde enterrar a saudade?

CARPINEJAR

12 de Agosto de 2024
CLÁUDIA LAITANO

De perto ninguém é

A música Vaca Profana fez muito sucesso no início dos anos 1980, mas nada que se compare ao seu verso mais famoso. Não é o melhor verso da música brasileira, não é sequer o melhor verso do Caetano, mas é tão conhecido que tem gente convencida de que a expressão "de perto ninguém é normal" é um ditado tão antigo quanto as igrejas de Salvador. Hoje nem todo mundo lembra da canção, mas a frase não só se instalou na linguagem cotidiana e na sabedoria popular como já foi usada como título de série (mais de uma), livro sobre amor e sexualidade, peça de teatro, filme e até como slogan de campanha contra os manicômios.

Não é normal nossa obsessão com o normal. Ou é, partindo do princípio de que o conceito de normalidade pula de galho em galho conforme o ponto de vista de quem o define: uma hora aqui, outra acolá. Podemos classificar o normal tanto como um estilo pessoal ("normcore", o jeito de vestir de quem não parece muito preocupado com o jeito de vestir) quanto como uma patologia a ser investigada ("normose", o comportamento de quem pira no esforço de nunca se distinguir da maioria). 

Durante a pandemia, antecipamos tanto o "novo normal" que a expressão perdeu a validade antes mesmo da chegada da vacina. (A ponto de a revista Vogue colocar Gisele Bündchen na capa de uma edição de 2020 sob o título: "O novo normal". Oi?). Nos últimos tempos, estamos normalizando o "não podemos normalizar", aplicando a expressão como escudo contra desgraças de todas as dimensões e naturezas: da crise climática às derrotas da dupla Gre-Nal, da violência policial à falta de boas maneiras.

Na campanha eleitoral norte-americana, o normal virou tema de disputa. Do lado republicano, o bilionário Donald Trump e o advogado J. D. Vance apresentam-se como legítimos representantes de todas as famílias e pessoas normais - seja lá o que isso signifique. Do lado democrata, Kamala Harris e Tim Walz apostam na estratégia de qualificar os dois oponentes como gente esquisita, que fala de um jeito que, olhando de perto (e mesmo de longe), não parece muito normal.

Alguns se sentem mais seguros imaginando um mundo dividido entre saudáveis e doentes, bons e maus, normais e anormais. Outros conseguem conviver com a noção de que fomos programados, como espécie, para agir, pensar e sentir de maneiras tão distintas quanto as circunstâncias que se nos apresentam - e a normalidade é mais uma estatística do que um atributo. Precisamos normalizar a ideia de que o normal, como quase tudo, também é político. _ claudia.laitano21@gmail.com

CLÁUDIA LAITANO

12 de Agosto de 2024
ARTIGOS - Jorge Audy - Superintendente de Inovação e Desenvolvimento da PUCRS e do Tecnopuc

ARTIGOS

O Plano Brasileiro de IA e os desafios futuros

A soberania nacional está relacionada ao efetivo domínio dos ciclos científicos e tecnológicos

Vivemos um momento na história com um potencial de transformação de maior intensidade do que o registrado na década de 1970, quando novas tecnologias - como os computadores e a internet - mudaram o mundo, com impactos nos 50 anos seguintes. Esta década de 2020 é um período ainda mais transformador, com o desenvolvimento e uso da inteligência artificial (IA) em todas as áreas e com forte impacto nas relações de trabalho, nas nossas vidas pessoais e profissionais e na sociedade. Este novo ciclo levou muito menos tempo para gerar efeitos, em um mundo exponencial e interconectado.

Neste contexto desafiador, foi aprovado, pelo Conselho de Ciência e Tecnologia da Presidência da República, o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial 2024-2028 (PBIA) - IA para o Bem de Todos. O documento reconhece a IA como uma revolução centrada em dados e nos processadores de alto desempenho, envolvida em uma corrida global com efeitos geopolíticos. O PBIA direciona ações estratégicas referentes aos impactos da IA sobre esferas como educação, trabalho, meio ambiente, sustentabilidade, integridade da informação e soberania nacional.

Mais do que nunca, a soberania nacional está relacionada ao efetivo domínio dos ciclos científicos e tecnológicos. Isso fica claro quando vemos países como China e Estados Unidos investindo recursos públicos da ordem de dezenas de bilhões de dólares em planos nacionais de IA.

O PBIA prevê investimentos da ordem de R$ 23 bilhões em cinco anos, um valor na escala de países como Alemanha, França e Reino Unido, gerando condições, mesmo que tardiamente, de nos posicionarmos em um contexto mundial.

O plano tem premissas fundamentais. Entre elas, destacam-se o foco no bem-estar social e a ética e responsabilidade no uso da IA.

Necessitamos de grandes projetos nacionais, como o PBIA, para gerarmos um novo ciclo de desenvolvimento, com soberania e inserção global, atentos aos impactos sociais. Este é o tamanho do desafio e da responsabilidade que temos com o nosso futuro. _

Onde tudo o que coopera cresce

Mario De Conto - Superintendente do Sistema Ocergs

O movimento Céu, Sol, Sul, Terra e Coop está mostrando a importância de apoiar as cooperativas

A primeira vez que os gaúchos ouviram que aqui "tudo que se planta cresce e o que mais floresce é o amor" foi em 1978. Hoje, mais de 45 anos depois, a canção de Leonardo tem significado ainda maior. Com ela, enchemos o peito para cantar nossa reconstrução. E em uma retomada que passa essencialmente pela força do cooperativismo, o refrão foi uma escolha natural para representar a jornada das cooperativas neste caminho.

O movimento Céu, Sol, Sul, Terra e Coop está mostrando a importância de apoiar as cooperativas. Muitas vezes sem ser notado, nosso trabalho está no dia a dia. Do acender das luzes ao plano de saúde e, acima de tudo, na mesa das famílias. Comprar produtos do cooperativismo é auxiliar não apenas o produtor, mas a comunidade a sua volta. E o Rio Grande sabe disso.

Praticamente metade dos gaúchos, 47,7%, consome produtos e serviços de cooperativas. Em Ijuí, Uruguaiana e Passo Fundo, esse índice chega a mais de 60%. A pesquisa do Instituto Pesquisas de Opinião (IPO) aponta que, além de consumir, nosso povo sabe da importância das cooperativas, do cooperativismo e do Sistema Ocergs.

Segundo o estudo, seis em cada 10 gaúchos conhecem ou ouviram falar sobre cooperativismo. Destes, 95,1% o veem como importante. Quando o tema é o Sistema Ocergs, oito em cada 10 gaúchos que conhecem ou ouviram falar têm imagem positiva. As cooperativas em si têm os melhores resultados, sendo sete em cada 10 os que conhecem ou ouviram falar. Destes, 91,2% têm uma imagem positiva.

Os números coletados com mil entrevistas em oito regiões do Estado nos trazem a certeza do cooperativismo como um pilar do crescimento do Rio Grande. Contudo, também evidenciam a importância de movimentos como o que estamos protagonizando para que mais pessoas conheçam e entendam esses conceitos. O cooperativismo precisa ser cada vez mais conhecido e difundido e o nosso papel, enquanto Sistema Ocergs, é mostrar, para quem quiser ver, que, com o trabalho das cooperativas, plantamos e crescemos todos juntos. 


12 de Agosto de 2024
GPS DA ECONOMIA - Gustavo Estrella

GPS da Economia - Respostas capitais

CEO da CPFL Energia, controladora da RGE

"Precisamos discutir como preparar o Estado para situações como a de maio"

Controladora da RGE, a CPFL Energia divulgou balanço do segundo trimestre com lucro líquido de R$ 1,1 bilhão, mas abaixo do resultado do ano passado. Apesar dos efeitos da crise climática, o CEO da companhia, Gustavo Estrella, vê com bons olhos a velocidade de recuperação no Estado.

Qual foi o impacto do RS nos resultados?

No nosso caso, o consumo da indústria era a maior preocupação, porque o Estado acabou sendo afetado não só nas bases da indústria, mas em toda a logística. Havia preocupação com o tempo que a indústria ia demorar para retomar. Mas isso está em ritmo positivo. Por exemplo, o mercado industrial caiu 14%, em maio, no auge da crise. 

Em junho, o consumo industrial caiu só 3%. Ou seja, de 14% para 3%. Mas, em julho, cresceu 7%, então é claro que existe um movimento de formação de estoque e recomposições. É um sinal muito claro de que a indústria está numa velocidade de recuperação, bem acima da nossa expectativa, o que é muito bom, não só para a CPFL, mas principalmente para o Estado de forma geral. 

Mas há uma discussão que a gente precisa fazer, de como é que a gente prepara o Estado para enfrentar situações como essa. E talvez uma das ações, uma das iniciativas, é exatamente essa, como é que a gente vai tratar o tema da arborização para realmente garantir e preservar, de novo, não só o fornecimento de energia, mas a infraestrutura do Estado de forma geral.

Vai ser preciso investir mais?

Antes, os indicadores de RGE e Equatorial já estavam abaixo dos de Santa Catarina e do Paraná, por exemplo. Por que isso acontece no RS?

É uma região muito rural. Quando comparo com as minhas outras concessões, é muito mais rural. É uma área mais espalhada do que as minhas outras áreas de concessão. Nós vamos nos dois extremos aqui. Tenho quase 8 mil clientes, em média, por município. Em uma das concessões de São Paulo, esse número é de 68 mil clientes por município. Só na Avenida Paulista tem 20 mil. Isso dá uma dimensão de que, numa zona mais rural, onde tenho clientes em uma região mais espalhada, naturalmente, o meu desafio de recomposição de rede é maior.

?Mesmo assim, as metas não são atingidas?

GPS DA ECONOMIA

12 de Agosto de 2024
EDITORIAL

Medalhistas e cidadãos

Mais produtivo do que comparar o desempenho do Brasil na Olimpíada de Paris em relação a edições anteriores é discutir como criar condições para o potencial dos atletas nacionais ser mais bem desenvolvido e isso se refletir em conquistas no futuro. O país terminou na 20ª posição, abaixo do 12º lugar de 2021, em Tóquio, o melhor desempenho obtido até hoje. Foram 20 medalhas, ante 21 no Japão, mas apenas três de ouro, contra sete há três anos.

Ao longo das Olimpíadas, o Brasil dependeu muitas vezes de atletas com talento excepcional ou de uma geração espetacular para subir ao pódio. Além dos adversários, superou barreiras como o baixo investimento em modalidades menos populares e a estrutura precária, a não ser em ilhas de excelência. Talentos esportivos de norte a sul seriam mais bem aproveitados e lapidados se existissem acesso, condições materiais e incentivo apropriados. Além disso, esporte não é só competição. É saúde física e mental e oportunidade para os jovens, em especial das periferias, evitarem maus caminhos. Por ensinar disciplina e respeito às regras, também forma cidadãos.

No investimento houve alguma evolução. Novas fontes foram criadas, como leis de incentivo, embora sigam aquém do necessário. É ainda possível discutir o emprego das verbas. O Portal da Transparência no Esporte, da Universidade de Brasília (UnB), dá pistas sobre repasses federais diretos e indiretos. Ou seja, dinheiro do orçamento da União, incentivos tributários e patrocínios de estatais.

Os investimentos foram significativos antes da Olimpíada do Rio, em 2016, mas caíram depois. Entre 2017 e 2021, ficaram abaixo dos R$ 2 bilhões anuais. Em 2022, subiram para R$ 2,31 bilhões e, no ano passado, para R$ 3 bilhões. Deste total, foram R$ 1,4 bilhão para esportes de alto rendimento, R$ 1,6 bilhão para educação, lazer e inclusão social e somente R$ 39,7 milhões para infraestrutura. Sem ginásios, pistas e equipamentos adequados e em quantidade, a formação é dificultada. Escolas públicas deveriam contar com melhores instalações. Ademais, deve ser uma política de longo prazo, sem interrupções ou quedas bruscas de aportes que ameacem a continuidade do trabalho.

É preciso ainda ampliar e qualificar o Bolsa Atleta, principal programa federal para ajudar diretamente atletas de alto rendimento. Um ano antes do Rio, foram distribuídos R$ 71 milhões. Em 2017 e 2018, apenas R$ 15,5 milhões e R$ 12,1 milhões, respectivamente. O orçamento de 2024 é de R$ 162 milhões, para mais de 9 mil atletas. Contempla desde as categorias de base até medalhistas como Rebeca Andrade.

Como o esporte nem sempre é considerado prioridade, está entre as primeiras áreas a sofrer cortes quando a situação fiscal se deteriora. Seria desejável encontrar mais formas de viabilizar e ampliar o programa, com mecanismos que possibilitem maior participação privada, por exemplo. Um apoio maior deveria também ser direcionado para elevar o número de atletas da base. Da quantidade é mais fácil tirar a qualidade capaz de levar o país a se tornar uma potência olímpica. _

Talentos esportivos seriam mais bem aproveitados e lapidados se existissem acesso, condições materiais e incentivo adequados



12 de Agosto de 2024
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

É preciso confiar na investigação

Nunca havia estado no meio dos destroços de um acidente aéreo. E espero nunca mais estar. Foi em 2016, nos Andes colombianos, na encosta de um cerro, próximo a Medellín. Você deve lembrar: o voo 2933, da LaMia, que levava a equipe da Chapecoense para disputar a partida de ida da final da Copa Sul-Americana contra o Atlético Nacional.

Muito triste. Acidentes aéreos mexem com a gente porque levam, de roldão, em um só ato, muitas vidas. E também porque o avião é considerado o segundo meio de transporte mais seguro do mundo - dizem que o primeiro é o elevador.

No caso do acidente com o avião da VoePass, em Vinhedo (SP), os motivos não são tão simples. É natural do ser humano buscar respostas imediatas. Mas, como diz o clichê da aviação, em geral, um acidente aéreo ocorre por uma infinidade de razões, humanas ou não. O importante é compreender que a causa de um desastre é multifatorial e há múltiplas possibilidades. Principalmente, porque o complexo sistema da aviação é protegido por redundâncias: se um falha, há outro, e um terceiro, e ainda um quarto... A última linha de defesa (ou a primeira, em alguns casos) é o ser humano.

O acidente com o avião da VoePass também nos comove porque há muitos anos não ocorriam tragédias aéreas de grandes proporções no Brasil. Passado o apagão aéreo deflagrado desde o acidente do voo da Gol em 2006, houve importantes aprimoramentos: os pilotos brasileiros são reconhecidos internacionalmente por sua competência, as companhias aéreas obedecem às regras, o Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea) e a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), entre outras, não deixam, em nada, a desejar, em termos de segurança, aos órgãos europeus ou americanos.

Não há muito o que se possa dizer antes de se ter o relatório da investigação do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) em mãos. É preciso conter a ansiedade e esperar por uma apuração séria. Vivemos o momento histórico mais seguro da aviação no mundo. Sei que isso não conforta amigos e familiares das vítimas, não dá respostas e, sobretudo, porque um acidente, por si só, já derruba qualquer tese sobre segurança. Um só. Sei que não ameniza a dor, mas precisamos seguir acreditando que cada acidente é esmiuçado à exaustão. Para que os mesmos erros - de novo, humanos ou mecânicos - não se repitam. _

"É uma honra representar o meu Rio Grande do Sul"

Aos 15 anos, Andriely Camargo de Oliveira, da Escola Castelo Branco, de Salto do Jacuí, representa o Rio Grande do Sul em Brasília, como vencedora no Estado do Programa Jovem Senador.

O projeto oferece aos estudantes a oportunidade de passar uma semana vivendo o mundo do Legislativo e conhecendo, na capital federal, prédios como o Palácio do Planalto, o Supremo, além do Congresso. Estudante do primeiro ano do Ensino Médio, Andriely foi reconhecida pela melhor redação entre mais de 10 mil alunos gaúchos.

- A experiência está sendo muito importante justamente depois da catástrofe que nosso Estado vivenciou. Me sinto muito feliz de estar aqui representando meu Estado e conhecendo culturas novas, afinal o aprendizado que a gente recebe será fundamental para o resto de nossas vidas - avalia.

Os jovens senadores de cada Estado são separados em comissões temáticas. A gaúcha ficou com a área da educação. Seu grupo propôs uma nova forma de os estudantes ingressarem em universidades públicas, por meio do método de avaliação seriada.

- A gente faz votação no plenário, com todos os jovens senadores, e os projetos são aprovados. Agora, no decorrer do tempo, esses materiais podem ser aprovados pelos senadores (eleitos pelo voto) e virar, de fato, lei - conta.

O tema da redação envolveu "Os 200 anos do Senado e os desafios para o futuro da democracia". Andriely abordou no texto duas temáticas: a baixa participação da mulher na política, quando o Brasil tem população majoritariamente feminina, e refletiu sobre os ataques antidemocráticos promovidos em redes sociais e que culminaram nos atos de 8 de Janeiro.

A professora Gisele da Rocha acompanha Andriely na capital federal. Ela destaca a conquista da estudante como exemplo para os demais alunos da escola e do RS.

- Não é por serem alunos de uma escola pequena, de município pequeno, que não terão as mesmas oportunidades. Pelo contrário: essa vitória da Andriely mostra aos alunos da nossa escola e aos alunos de todo o RS que todo jovem tem de se encorajar e conhecer sobre política. É fundamental para a vida deles - explica. _

Educação no Estado

No final de semana, a coluna mostrou o quadro da educação nos quatro mais populosos municípios do Estado, excetuando-se a Capital: Canoas, Caxias do Sul, Pelotas e Santa Maria. Os dados são da organização Todos pela Educação. As prefeituras de Canoas e Pelotas não haviam enviado respostas aos questionamentos da reportagem até o horário de fechamento deste espaço. Por isso, a coluna publica, a seguir, os posicionamentos dos dois municípios que faltaram. _

Contrapontos O que diz Canoas

"Recebemos com surpresa, uma vez que os dados não condizem com a realidade. As informações foram prestadas corretamente, porém houve erro de migração nos dados, o que já foi reportado aos responsáveis. Inclusive solicitamos a correção. Todas as escolas, de Educação Infantil ou Fundamental, recebem água potável, ou seja, 100%. Outra divergência é no tocante ao acesso à pré-escola. O município de Canoas atende 100% das crianças na faixa etária de pré escola."

O que diz Pelotas

"A prefeitura trabalha ativamente para aumentar a inclusão de crianças na rede de ensino. Para enfrentar esse desafio, adquiriu 385 vagas em escolas parceiras e em 339 credenciadas. Além disso, está em fase de construção uma nova escola de Educação Infantil. As equipes da Smed estão em constante análise para identificar áreas e entender as necessidades específicas."

Terminada a Olimpíada, é hora de o presidente Emmanuel Macron cair na real. Ele esperava que os Jogos impulsionassem sua imagem deteriorada, como ocorreu com Jacques Chirac na Copa de 1998. Os próximos dias dirão.

INFORME ESPECIAL

domingo, 11 de agosto de 2024

 Venda de passagens para voos no aeroporto de Porto Alegre é autorizada

Aeroporto de Porto Alegre volta a ter voos em 21 de outubro

Aeroporto de Porto Alegre volta a ter voos em 21 de outubro

Fraport Brasil/ Divulgação/ JC
Uma das notícias mais aguardadas desde o fechamento do Aeroporto Internacional Salgado Filho, em Porto Alegre, está no ar. A venda de passagens para a retomada de voos, prevista para 21 de outubro no terminal na Capital, foi autorizada pelo governo federal no fim da tarde desta quinta-feira (8).
Ministros de duas pastas anunciaram a liberação, o de Portos e Aeroportos e o da Reconstrução do RS. Com isso, as companhias aéreas já podem ofertar as ligações. Hoje os voos são feitos na Base Aérea de Canoas (Baco). A retomada de pousos e decolagens na pista na Zona Norte de Porto Alegre ocorrerá com a conclusão de parte das obras de restauração da pavimentação
O ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho, disse que serão 128 voos diários. Antes de ser inundado e fechado na noite de 3 de maio, o complexo aeroportuário operava entre 140 a 150 voos diários
"Autorizamos o início da venda de voos para o Aeroporto Internacional Salgado Filho! A retomada das operações no principal terminal do Sul terá início no dia 21 de outubro, com 128 voos diários, chegando a cerca de 900 voos semanais", postou Costa Filho, na rede X, ex-Twitter.
Operações no principal terminal do Sul terá início no dia 21 de outubro, com 128 voos diários, chegando a cerca de 900 voos semanais | EVANDRO OLIVEIRA/JC
Operações no principal terminal do Sul terá início no dia 21 de outubro, com 128 voos diários, chegando a cerca de 900 voos semanaisEVANDRO OLIVEIRA/JC
Os voos vão ser das 8h às 22h, segundo o titular da pasta extraordinária pela Reconstrução, Paulo Pimenta, que também fez a comunicação da liberação da operação.
"A distribuição dos slots, horários de chegada e partida para as empresas aéreas será realizada pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e servirá para indicar quantos voos cada empresa aérea poderá realizar inicialmente", esclareceu Pimenta, em nota.

O governo projeta que o aeroporto poderá operar com 100% da capacidade a partir de 16 de dezembro. A concessionária do complexo, a Fraport Brasil, é responsável pelas ações de restauração da estrutura do Salgado Filho

terminal ficou 23 dias com água, danificando o primeiro piso (onde ficam esteiras de malas e desembarque doméstico e internacional, lojas e serviços de apoio), estacionamentos e a pista (desde áreas de táxiaéreo até a Pista de Pouso e Decolagem (PPD). Também instrumentos de apoio à operação das aeronaves e infraestrutura elétrica e de bombeiros sofreram grandes danos.A reabilitação do terminal terá três etapas, conforme a Fraport. A fase 1, de limpeza e avaliação de danos, foi concluída. A fase 2, prevista para encerrar em outubro, justamente para liberar os voos, tem recuperação das áreas para retomada de pousos e decolagens.
restauração atinge 1,3 mil metros de extensão (cerca de 60 mil metros quadrados) da pista de pouso e decolagem, mais 20 mil metros quadrados do Pátio 1, onde as aeronaves ficam estacionadas e a taxilane do Pátio 1 (Posições 06 a 011, equivalente a 20 mil metros quadrados).

fase 3 de recuperação começa em outubro nas áreas em que não houver movimentação de aeronaves, sem gerar interferência nos pousos e decolagens. Nesta etapa, ocorrerá a recuperação de 1,2 mil metros de extensão, equivalente a 53 mil metros quadrados da PPD.

Também será feita a fresagem do pavimento, preparando-o para receber recapeamento ou reconstrução em pavimento flexível, dependendo do local. Isso ocorrerá para que, em dezembro, seja concluída a recuperação completa dos 3,2 mil metros de pista, além das taxiways e pátio, fundamentais para que o aeroporto possa voltar a operar em sua totalidade.

Caixa misteriosa, humor e suspense no Clube do Crime

Jaime Cimenti



O último demônio a morrer (Editora Intrínseca, 320 páginas, R$ 69,90), do celebrado autor, produtor e apresentador inglês Richard Osman, é o novo e quarto volume da consagradíssima série O Clube do Crime das Quintas-Feiras, composto de quatro detetives septuagenários. A obra foi eleita pelo New York Times como a melhor aventura do Clube. A série é sucesso internancional e já vendeu mais de 10 milhões de exemplares. O romance será levado às telonas da Netflix com produção de Steven Spielberg, direção de Chris Columbus (Harry Potter), com Helen Mirren (A Rainha) e Bem Kingsley (Gandhi) no elenco central.

O último demônio a morrer começa com uma caixa misteriosa e o assassinato de um velho amigo do grupo de detetives setentões. Fim de ano, clima natalino e um homem, o amigo do grupo, antes de ser executado, recebe uma antiga caixa de um indivíduo enigmático e a ordem de entregá-la a outra pessoa, sem fazer mais perguntas. O misterioso objeto foi transportado clandestinamente pelo litoral da Inglaterra e desaparece, e aí um verdadeiro caos se instaura.

A antiguidade preciosa e o conteúdo são apenas a ponta de um profundo iceberg, que inclui rede de traficantes de drogas e falsificadores de arte profissionais. No mundo das antiguidades,com se sabe, nem sempre se joga limpo. Mais mortos virão e os velhos detetives, que não têm mais em quem confiar, se perguntam se estão arriscando a pele diante de um caso sem solução.

Nessa nova aventura do Clube do Crime das Quintas-Feiras, Richard Osman, que leva o mistério habilmente até a última peça do quebra-cabeça, faz com que os detetives idosos lidem com as dificuldades de seus processos de envelhecimento, como o luto, a solidão e a morte - um dos vovôs tem até problemas com uma namorada virtual. Mas emoção sincera, humor afiado e suspense não faltam, para arrancar gargalhadas e lágrimas dos milhões de leitores. 

Presidentes, monarcas e ditadores bizarros da América Latina

Desde a colonização ibérica, passando pelas independências, as ditaduras simultâneas, a redemocratização e por todos os capítulos seguintes que contam a história dos países latino-americanos, podemos observar, na América Latina, um grande mosaico político composto por seres poderosos, esdrúxulos e bizarros.

América Latina - lado B (Globo Livros, 448 páginas, R$ 64,90), do consagrado jornalista Ariel Palacios, correspondente da Globo News e CBN para a Argentina desde o ano em que o presidente argentino Menen tentou, sem conseguir, seduzir Madonna, é uma obra que mostra a América Latina hispânica com toda sua diversidade e complexidade.

Com seu estilo inconfundível e conhecimento enciclopédico, Ariel conta histórias saborosas, bizarras e muito loucas dos líderes de nosso continente. O livro vai de Evita e Juan Domingo Perón a Nicholás Maduro, passando por ditadores do vodu haitiano Papa e Baby Doc, o malfadado imperador do México Maximiliano de Habsburgo, o monstruoso - e medroso - Alfredo Stroessner e o verborrágico Fidel Castro, entre muitos outros.

Como se sabe, os presidentes, ditadores, monarcas e alguns líderes religiosos da América Latina superam as histórias mirabolantes do realismo fantástico dos famosos romances, novelas e contos de García Márquez, Vargas Llosa e outros. O continente é pródigo em instabilidades sociais, econômicas e políticas, golpes, violência, drogas, contrabando, conspirações e corrupção.

No livro tem presidente que comandou o funeral da própria perna; necromania, leitão afrodisíaco e defunto conselheiro presidencial canino; planos para invadir a Grã-Bretanha; república de bananas; renúncia presidencial por fax; presidente condenado por tráfico de drogas; narcoextravagâncias; conexões ornitológicas com o além; argentino CEO de Deus na Terra e outras histórias. Como escreveu Ariel no prólogo, para contar todas as histórias esquisitas, macabras e surrealistas da América Latina, seria preciso produzir uma colossal enciclopédia.

É certo que existem pecados e problemas acima da linha do Equador. Em alguns países a corrupção é menor e os controles maiores. Em outros a corrupção e as negociatas boas para as quais nem todos são convidados são mais disfarçadas, e aí as coisas se resolvem mais "civilizadamente", sem embates sangrentos e de baixo nível, como ocorre muito na América Latina.

Ariel, brasileiro, deixou de fora histórias de nosso Brasil, preferindo falar apenas dos nossos queridos hermanos vizinhos. Em alguns casos chamamos de hermanos, porque irmão não se escolhe. Como escreveu Ariel: "Talvez nosso (re)conhecimento se dê de forma mais clara quando olhamos para os outros, para que, a partir de comparações, diferenças e semelhanças saltem aos olhos. (...) Já conhecemos o vasto arsenal de besteiras feitas por nossos políticos nativos, que com frequência emulam o mítico personagem de Dias Gomes, Odorico Paraguaçu, cuja cabeleira tingida de uma cor preta intensa, como as asas da graúna, foi inspirada no cabelo pintado do presidente Perón."

 Lançamentos

STF - Como chegamos até aqui (Avis Rara-Faro, 128 páginas, R$ 39,90), de Duda Teixeira, renomado jornalista e escritor, coautor de Guia politicamente incorreto da América Latina, fala de nossa Suprema Corte, inspirada na Suprema Corte dos EUA. O autor mostra problemas do STF e resgata os princípios fundadores do Tribunal, convidando a refletir e buscar novos caminhos e soluções.

Lugar de Mulher é Onde Ela Quiser - Você é dona de suas decisões (Mulher Editora, 179 páginas) traz candentes relatos de Taise Vielmo Cortes e outras mulheres ativas, brilhantes e pensantes sobre a situação feminina no Brasil e no mundo. Prefácio de Camila Farani. Lançamento: Bistrô da Catedral, Duque 1.187, 16/8, 17h30min.

As irmãs sob o sol nascente (Editora Planeta, 320 páginas, R$ 59,00), de Heather Morris, autora do best-seller O tatuador de Auschwitz, traz, com base em história real, Norah e Nesta, presas pelo exército japonês na Segunda Guerra. Com outras mulheres do campo de concentração, buscam sororidade e força para sobreviver.

 A propósito

Está certo o Ariel, precisamos estudar e lembrar o que aconteceu e acontece com a vizinhança para buscarmos gargalhadas e lições para o futuro. Quem sabe a gente não repete as bobagens e loucuras deles e nem as do nosso sanatório geral. Quem sabe um dia a gente deixa de ser um país para ser uma nação dessas de verdade, civilizadas, tipo Nova Zelândia . Tudo é possível e impossível nos trópicos, mesmo como nossos passados imprevisíveis, como disse o outro, que a gente não exato quem foi.( Jaime Cimenti 

31.jul.2024 às 10h02
Thaís Nicoleti de Camargo

O desafio da simplicidade

Pacto da Linguagem Simples encontra resistência no meio jurídico. Em dezembro do ano passado, foi anunciado o Pacto Nacional do Judiciário pela Linguagem Simples, que nasceu do reconhecimento de que a linguagem adotada no Direito é hermética, inacessível e, portanto, excludente. Há, porém, resistência às mudanças, sob o argumento de que simplificação é rebaixamento.

Simplificar, como sabemos, é o oposto de complicar. Ambos os termos têm na origem a palavra latina "plica", que quer dizer "dobra" ou "prega", estando a oposição entre eles marcada pela ausência ou presença de "dobras". "Explicar", da mesma família etimológica, é desdobrar ou "tirar das dobras". Então, o que é simples está acessível, e o que é complicado precisa ser explicado. Simplificar não é rebaixar, mas tornar visível ou inteligível.

No caso do Direito, já se usa o termo "juridiquês" para denominar uma linguagem que tem ares de idioma estranho. A mim parece impróprio, porque confunde dois traços da linguagem usual no meio forense: o vocabulário técnico, com direito a expressões latinas, e certo estilo rebuscado, cheio de termos antigos ou raros.

Uma expressão como "consorte supérstite", por exemplo, embora usual no Direito, não é parte do seu vocabulário técnico. Muita gente, mesmo bem escolarizada, não saberia de imediato que significa o mesmo que "viúvo". Por que usar "ergástulo público" ou "cártula chéquica" em vez de "cadeia" ou "talão de cheques", respectivamente?

Antes que comecemos a lamentar a ignorância das pessoas, a falta de leitura ou os baixos níveis educacionais, vamos lembrar que, assim como novas palavras nascem e se fixam na língua, há palavras que vão caindo em desuso e se arcaízam. E isso é normal. Menos natural é colher no rol de arcaísmos um punhado de termos raros, que, por serem usados uma vez ou outra, são desconhecidos e soam eruditos.

O desafio mesmo parece ser dizer coisas relevantes em linguagem simples, clara, com vocabulário preciso.

Não é à toa que textos assim escritos parecem peças de antiquário. Nada contra as peças de antiquário que são, de fato, antigas e trazem consigo o sabor da época em que foram produzidas. Que dizer, porém, de uma antiguidade fabricada no presente?

Cada um é livre para ter o próprio estilo, mas não parece apropriado complicar e obscurecer o sentido de sentenças judiciais, leis ou contratos, que afetam diretamente a vida do cidadão. Ao que tudo indica, não haveria um motivo forte para manter esse estilo, a não ser a tradição. Como essa tradição entra em contato com uma realidade linguística muito diferente, que é a dos novos operadores do Direito, o resultado acaba sendo um curioso amálgama.

Os mais jovens têm as mesmas dificuldades de escrita que acometem os estudantes e profissionais de todas as áreas, mas logo se veem empregando construções como "resta comprovado", "em sede de", "eis que" e outras, não raro desconhecidas até dos dicionários, só usadas no meio jurídico. O discurso não tem mais "cártulas chéquicas", até porque o próprio talão de cheques já se tornou obsoleto, mas continua marcado e, muitas vezes, traz impropriedades linguísticas e defeitos de sintaxe emaranhados num pseudoeruditismo.

A tendência, se é que podemos arriscar um palpite, é que a linguagem do Direito se modernize e se aproxime da linguagem acadêmica (ou mesmo jornalística), em geral mais simples e objetiva, voltada para a clara transmissão do conteúdo. Esse, no entanto, é um caminho a percorrer. Não parece possível obrigar alguém a simplificar a própria linguagem; pode-se, isto sim, numa fase de transição, criar "tradutores", que sejam capazes de reformular os textos de modo que se tornem acessíveis aos "não iniciados".

Na prática, os jornalistas fazem esse trabalho no seu dia a dia, comunicando ao grande público decisões tomadas nas altas instâncias da Justiça, esmiuçando o conteúdo e as consequências de projetos de lei em votação, enfim, trazendo informação para o leitor médio.

É bom lembrar, no entanto, que não é só no Direito que se usa a linguagem para dizer pela forma algo que vai além do conteúdo. Em algumas áreas do saber, há um verdadeiro culto da linguagem rebuscada, mas em outra direção (coisas como "a construção da representação de mulheres transexuais a partir de recursos linguístico-semióticos no contexto da teoria de fulano"), que parece um esforço para transmitir credibilidade científica. É uma espécie de rebuscamento científico, comum em círculos universitários. Esse, porém, é tema para outra conversa.

O desafio mesmo –e vale para todos– parece ser dizer coisas relevantes em linguagem simples, clara, com vocabulário preciso e diversificado.

Homens que correm com lulus-da-pomerânia

No mundo da produtividade incessante, o cachorro te obriga a parar e pôr as duas patas na rua. Não nasci para tutora de pet. Ou achava que não tinha nascido. Nunca imaginei ter um até que minha filha cresceu um pouco, ganhou voz e passou a latir pelo seu desejo. E como latiu. Acabei por me render e hoje temos uma cadelinha que pesa o mesmo que um frango.

Claro que passei a amar a cachorra. E o que eu mais temia na aventura de ter um pet se revelou a minha parte preferida: levá-la para passear. Tem horas que detesto ter que levantar para fazer isso. Como aqueles domingos em que já bebi demais e minhas nádegas estão grudadas feito um imã à poltrona. Ou nos dias de semana, quando estou escrevendo e não quero parar, não quero interromper o fluxo.

É aí que entra uma das vantagens do passeio: é preciso interromper o fluxo. No mundo da produtividade incessante, o cachorro te obriga a parar. No mundo do carro e do condomínio, te obriga a colocar as duas patas na rua. No mundo da tela, te obriga a contemplar. No mundo solitário da escrita, te obriga a interagir com o outro.

Cachorro da raça lulu-da-pomerânia

Como pais e mães de bebês, que se reconhecem imediatamente pelas olheiras e pelos apetrechos do puerpério, os tutores também se enxergam nas suas similitudes. Adoro observar os bípedes dos quadrúpedes. Geralmente a dupla tem o mesmo estilo: homem fortão com cachorro grande ou parrudo, perua com cachorro de roupa e chuquinha, senhora de idade com cãozinho miúdo, tipo esportivo com tipo corredor e, num país em que a desigualdade social chega até nos cães, vira-latas magros, mas bem-amados, junto de moradores de rua.

Mas nem sempre tudo é tão previsível. Às vezes a vida dá "shuffle" e você vê um daqueles sujeitos de carranca e porte ameaçadores, que normalmente fariam uma mulher atravessar para o outro lado da rua, sendo arrastado por um delicado lulu-da-pomerânia.

E aqui digo sendo arrastado porque, muitas vezes, são os canis que guiam os sapiens. Donna Haraway diz que homens e cães são "parceiros no crime da evolução humana". Espécies companheiras que criam uma à outra na carne. Que se transformam mutuamente, para melhor, em diversos aspectos.

Graças à minha cachorra me torno uma pessoa mais empática. E até mais tolerante. Esses dias, ela encasquetou de cheirar o cão de um sujeito de orientação política totalmente oposta à minha, como mostrava a estampa de sua camiseta.

Travada naquela situação, sem conseguir desembestar a bichinha dali, acabei por conversar com o sujeito e até dar uma risada, coisa que nunca aconteceria em outra circunstância.

Achei a experiência saudável mas confesso que, ao me distanciar um pouco, olhei de novo para a camiseta dele e voltei a rosnar. Civilizados ou não, domesticados ou não, ainda somos todos de sangue e osso.

Giovana Madalosso - Escritora, roteirista e uma das idealizadoras do movimento Um Grande Dia para as Escritoras.