segunda-feira, 12 de agosto de 2024



12 de Agosto de 2024
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

É preciso confiar na investigação

Nunca havia estado no meio dos destroços de um acidente aéreo. E espero nunca mais estar. Foi em 2016, nos Andes colombianos, na encosta de um cerro, próximo a Medellín. Você deve lembrar: o voo 2933, da LaMia, que levava a equipe da Chapecoense para disputar a partida de ida da final da Copa Sul-Americana contra o Atlético Nacional.

Muito triste. Acidentes aéreos mexem com a gente porque levam, de roldão, em um só ato, muitas vidas. E também porque o avião é considerado o segundo meio de transporte mais seguro do mundo - dizem que o primeiro é o elevador.

No caso do acidente com o avião da VoePass, em Vinhedo (SP), os motivos não são tão simples. É natural do ser humano buscar respostas imediatas. Mas, como diz o clichê da aviação, em geral, um acidente aéreo ocorre por uma infinidade de razões, humanas ou não. O importante é compreender que a causa de um desastre é multifatorial e há múltiplas possibilidades. Principalmente, porque o complexo sistema da aviação é protegido por redundâncias: se um falha, há outro, e um terceiro, e ainda um quarto... A última linha de defesa (ou a primeira, em alguns casos) é o ser humano.

O acidente com o avião da VoePass também nos comove porque há muitos anos não ocorriam tragédias aéreas de grandes proporções no Brasil. Passado o apagão aéreo deflagrado desde o acidente do voo da Gol em 2006, houve importantes aprimoramentos: os pilotos brasileiros são reconhecidos internacionalmente por sua competência, as companhias aéreas obedecem às regras, o Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea) e a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), entre outras, não deixam, em nada, a desejar, em termos de segurança, aos órgãos europeus ou americanos.

Não há muito o que se possa dizer antes de se ter o relatório da investigação do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) em mãos. É preciso conter a ansiedade e esperar por uma apuração séria. Vivemos o momento histórico mais seguro da aviação no mundo. Sei que isso não conforta amigos e familiares das vítimas, não dá respostas e, sobretudo, porque um acidente, por si só, já derruba qualquer tese sobre segurança. Um só. Sei que não ameniza a dor, mas precisamos seguir acreditando que cada acidente é esmiuçado à exaustão. Para que os mesmos erros - de novo, humanos ou mecânicos - não se repitam. _

"É uma honra representar o meu Rio Grande do Sul"

Aos 15 anos, Andriely Camargo de Oliveira, da Escola Castelo Branco, de Salto do Jacuí, representa o Rio Grande do Sul em Brasília, como vencedora no Estado do Programa Jovem Senador.

O projeto oferece aos estudantes a oportunidade de passar uma semana vivendo o mundo do Legislativo e conhecendo, na capital federal, prédios como o Palácio do Planalto, o Supremo, além do Congresso. Estudante do primeiro ano do Ensino Médio, Andriely foi reconhecida pela melhor redação entre mais de 10 mil alunos gaúchos.

- A experiência está sendo muito importante justamente depois da catástrofe que nosso Estado vivenciou. Me sinto muito feliz de estar aqui representando meu Estado e conhecendo culturas novas, afinal o aprendizado que a gente recebe será fundamental para o resto de nossas vidas - avalia.

Os jovens senadores de cada Estado são separados em comissões temáticas. A gaúcha ficou com a área da educação. Seu grupo propôs uma nova forma de os estudantes ingressarem em universidades públicas, por meio do método de avaliação seriada.

- A gente faz votação no plenário, com todos os jovens senadores, e os projetos são aprovados. Agora, no decorrer do tempo, esses materiais podem ser aprovados pelos senadores (eleitos pelo voto) e virar, de fato, lei - conta.

O tema da redação envolveu "Os 200 anos do Senado e os desafios para o futuro da democracia". Andriely abordou no texto duas temáticas: a baixa participação da mulher na política, quando o Brasil tem população majoritariamente feminina, e refletiu sobre os ataques antidemocráticos promovidos em redes sociais e que culminaram nos atos de 8 de Janeiro.

A professora Gisele da Rocha acompanha Andriely na capital federal. Ela destaca a conquista da estudante como exemplo para os demais alunos da escola e do RS.

- Não é por serem alunos de uma escola pequena, de município pequeno, que não terão as mesmas oportunidades. Pelo contrário: essa vitória da Andriely mostra aos alunos da nossa escola e aos alunos de todo o RS que todo jovem tem de se encorajar e conhecer sobre política. É fundamental para a vida deles - explica. _

Educação no Estado

No final de semana, a coluna mostrou o quadro da educação nos quatro mais populosos municípios do Estado, excetuando-se a Capital: Canoas, Caxias do Sul, Pelotas e Santa Maria. Os dados são da organização Todos pela Educação. As prefeituras de Canoas e Pelotas não haviam enviado respostas aos questionamentos da reportagem até o horário de fechamento deste espaço. Por isso, a coluna publica, a seguir, os posicionamentos dos dois municípios que faltaram. _

Contrapontos O que diz Canoas

"Recebemos com surpresa, uma vez que os dados não condizem com a realidade. As informações foram prestadas corretamente, porém houve erro de migração nos dados, o que já foi reportado aos responsáveis. Inclusive solicitamos a correção. Todas as escolas, de Educação Infantil ou Fundamental, recebem água potável, ou seja, 100%. Outra divergência é no tocante ao acesso à pré-escola. O município de Canoas atende 100% das crianças na faixa etária de pré escola."

O que diz Pelotas

"A prefeitura trabalha ativamente para aumentar a inclusão de crianças na rede de ensino. Para enfrentar esse desafio, adquiriu 385 vagas em escolas parceiras e em 339 credenciadas. Além disso, está em fase de construção uma nova escola de Educação Infantil. As equipes da Smed estão em constante análise para identificar áreas e entender as necessidades específicas."

Terminada a Olimpíada, é hora de o presidente Emmanuel Macron cair na real. Ele esperava que os Jogos impulsionassem sua imagem deteriorada, como ocorreu com Jacques Chirac na Copa de 1998. Os próximos dias dirão.

INFORME ESPECIAL

domingo, 11 de agosto de 2024

 Venda de passagens para voos no aeroporto de Porto Alegre é autorizada

Aeroporto de Porto Alegre volta a ter voos em 21 de outubro

Aeroporto de Porto Alegre volta a ter voos em 21 de outubro

Fraport Brasil/ Divulgação/ JC
Uma das notícias mais aguardadas desde o fechamento do Aeroporto Internacional Salgado Filho, em Porto Alegre, está no ar. A venda de passagens para a retomada de voos, prevista para 21 de outubro no terminal na Capital, foi autorizada pelo governo federal no fim da tarde desta quinta-feira (8).
Ministros de duas pastas anunciaram a liberação, o de Portos e Aeroportos e o da Reconstrução do RS. Com isso, as companhias aéreas já podem ofertar as ligações. Hoje os voos são feitos na Base Aérea de Canoas (Baco). A retomada de pousos e decolagens na pista na Zona Norte de Porto Alegre ocorrerá com a conclusão de parte das obras de restauração da pavimentação
O ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho, disse que serão 128 voos diários. Antes de ser inundado e fechado na noite de 3 de maio, o complexo aeroportuário operava entre 140 a 150 voos diários
"Autorizamos o início da venda de voos para o Aeroporto Internacional Salgado Filho! A retomada das operações no principal terminal do Sul terá início no dia 21 de outubro, com 128 voos diários, chegando a cerca de 900 voos semanais", postou Costa Filho, na rede X, ex-Twitter.
Operações no principal terminal do Sul terá início no dia 21 de outubro, com 128 voos diários, chegando a cerca de 900 voos semanais | EVANDRO OLIVEIRA/JC
Operações no principal terminal do Sul terá início no dia 21 de outubro, com 128 voos diários, chegando a cerca de 900 voos semanaisEVANDRO OLIVEIRA/JC
Os voos vão ser das 8h às 22h, segundo o titular da pasta extraordinária pela Reconstrução, Paulo Pimenta, que também fez a comunicação da liberação da operação.
"A distribuição dos slots, horários de chegada e partida para as empresas aéreas será realizada pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e servirá para indicar quantos voos cada empresa aérea poderá realizar inicialmente", esclareceu Pimenta, em nota.

O governo projeta que o aeroporto poderá operar com 100% da capacidade a partir de 16 de dezembro. A concessionária do complexo, a Fraport Brasil, é responsável pelas ações de restauração da estrutura do Salgado Filho

terminal ficou 23 dias com água, danificando o primeiro piso (onde ficam esteiras de malas e desembarque doméstico e internacional, lojas e serviços de apoio), estacionamentos e a pista (desde áreas de táxiaéreo até a Pista de Pouso e Decolagem (PPD). Também instrumentos de apoio à operação das aeronaves e infraestrutura elétrica e de bombeiros sofreram grandes danos.A reabilitação do terminal terá três etapas, conforme a Fraport. A fase 1, de limpeza e avaliação de danos, foi concluída. A fase 2, prevista para encerrar em outubro, justamente para liberar os voos, tem recuperação das áreas para retomada de pousos e decolagens.
restauração atinge 1,3 mil metros de extensão (cerca de 60 mil metros quadrados) da pista de pouso e decolagem, mais 20 mil metros quadrados do Pátio 1, onde as aeronaves ficam estacionadas e a taxilane do Pátio 1 (Posições 06 a 011, equivalente a 20 mil metros quadrados).

fase 3 de recuperação começa em outubro nas áreas em que não houver movimentação de aeronaves, sem gerar interferência nos pousos e decolagens. Nesta etapa, ocorrerá a recuperação de 1,2 mil metros de extensão, equivalente a 53 mil metros quadrados da PPD.

Também será feita a fresagem do pavimento, preparando-o para receber recapeamento ou reconstrução em pavimento flexível, dependendo do local. Isso ocorrerá para que, em dezembro, seja concluída a recuperação completa dos 3,2 mil metros de pista, além das taxiways e pátio, fundamentais para que o aeroporto possa voltar a operar em sua totalidade.

Caixa misteriosa, humor e suspense no Clube do Crime

Jaime Cimenti



O último demônio a morrer (Editora Intrínseca, 320 páginas, R$ 69,90), do celebrado autor, produtor e apresentador inglês Richard Osman, é o novo e quarto volume da consagradíssima série O Clube do Crime das Quintas-Feiras, composto de quatro detetives septuagenários. A obra foi eleita pelo New York Times como a melhor aventura do Clube. A série é sucesso internancional e já vendeu mais de 10 milhões de exemplares. O romance será levado às telonas da Netflix com produção de Steven Spielberg, direção de Chris Columbus (Harry Potter), com Helen Mirren (A Rainha) e Bem Kingsley (Gandhi) no elenco central.

O último demônio a morrer começa com uma caixa misteriosa e o assassinato de um velho amigo do grupo de detetives setentões. Fim de ano, clima natalino e um homem, o amigo do grupo, antes de ser executado, recebe uma antiga caixa de um indivíduo enigmático e a ordem de entregá-la a outra pessoa, sem fazer mais perguntas. O misterioso objeto foi transportado clandestinamente pelo litoral da Inglaterra e desaparece, e aí um verdadeiro caos se instaura.

A antiguidade preciosa e o conteúdo são apenas a ponta de um profundo iceberg, que inclui rede de traficantes de drogas e falsificadores de arte profissionais. No mundo das antiguidades,com se sabe, nem sempre se joga limpo. Mais mortos virão e os velhos detetives, que não têm mais em quem confiar, se perguntam se estão arriscando a pele diante de um caso sem solução.

Nessa nova aventura do Clube do Crime das Quintas-Feiras, Richard Osman, que leva o mistério habilmente até a última peça do quebra-cabeça, faz com que os detetives idosos lidem com as dificuldades de seus processos de envelhecimento, como o luto, a solidão e a morte - um dos vovôs tem até problemas com uma namorada virtual. Mas emoção sincera, humor afiado e suspense não faltam, para arrancar gargalhadas e lágrimas dos milhões de leitores. 

Presidentes, monarcas e ditadores bizarros da América Latina

Desde a colonização ibérica, passando pelas independências, as ditaduras simultâneas, a redemocratização e por todos os capítulos seguintes que contam a história dos países latino-americanos, podemos observar, na América Latina, um grande mosaico político composto por seres poderosos, esdrúxulos e bizarros.

América Latina - lado B (Globo Livros, 448 páginas, R$ 64,90), do consagrado jornalista Ariel Palacios, correspondente da Globo News e CBN para a Argentina desde o ano em que o presidente argentino Menen tentou, sem conseguir, seduzir Madonna, é uma obra que mostra a América Latina hispânica com toda sua diversidade e complexidade.

Com seu estilo inconfundível e conhecimento enciclopédico, Ariel conta histórias saborosas, bizarras e muito loucas dos líderes de nosso continente. O livro vai de Evita e Juan Domingo Perón a Nicholás Maduro, passando por ditadores do vodu haitiano Papa e Baby Doc, o malfadado imperador do México Maximiliano de Habsburgo, o monstruoso - e medroso - Alfredo Stroessner e o verborrágico Fidel Castro, entre muitos outros.

Como se sabe, os presidentes, ditadores, monarcas e alguns líderes religiosos da América Latina superam as histórias mirabolantes do realismo fantástico dos famosos romances, novelas e contos de García Márquez, Vargas Llosa e outros. O continente é pródigo em instabilidades sociais, econômicas e políticas, golpes, violência, drogas, contrabando, conspirações e corrupção.

No livro tem presidente que comandou o funeral da própria perna; necromania, leitão afrodisíaco e defunto conselheiro presidencial canino; planos para invadir a Grã-Bretanha; república de bananas; renúncia presidencial por fax; presidente condenado por tráfico de drogas; narcoextravagâncias; conexões ornitológicas com o além; argentino CEO de Deus na Terra e outras histórias. Como escreveu Ariel no prólogo, para contar todas as histórias esquisitas, macabras e surrealistas da América Latina, seria preciso produzir uma colossal enciclopédia.

É certo que existem pecados e problemas acima da linha do Equador. Em alguns países a corrupção é menor e os controles maiores. Em outros a corrupção e as negociatas boas para as quais nem todos são convidados são mais disfarçadas, e aí as coisas se resolvem mais "civilizadamente", sem embates sangrentos e de baixo nível, como ocorre muito na América Latina.

Ariel, brasileiro, deixou de fora histórias de nosso Brasil, preferindo falar apenas dos nossos queridos hermanos vizinhos. Em alguns casos chamamos de hermanos, porque irmão não se escolhe. Como escreveu Ariel: "Talvez nosso (re)conhecimento se dê de forma mais clara quando olhamos para os outros, para que, a partir de comparações, diferenças e semelhanças saltem aos olhos. (...) Já conhecemos o vasto arsenal de besteiras feitas por nossos políticos nativos, que com frequência emulam o mítico personagem de Dias Gomes, Odorico Paraguaçu, cuja cabeleira tingida de uma cor preta intensa, como as asas da graúna, foi inspirada no cabelo pintado do presidente Perón."

 Lançamentos

STF - Como chegamos até aqui (Avis Rara-Faro, 128 páginas, R$ 39,90), de Duda Teixeira, renomado jornalista e escritor, coautor de Guia politicamente incorreto da América Latina, fala de nossa Suprema Corte, inspirada na Suprema Corte dos EUA. O autor mostra problemas do STF e resgata os princípios fundadores do Tribunal, convidando a refletir e buscar novos caminhos e soluções.

Lugar de Mulher é Onde Ela Quiser - Você é dona de suas decisões (Mulher Editora, 179 páginas) traz candentes relatos de Taise Vielmo Cortes e outras mulheres ativas, brilhantes e pensantes sobre a situação feminina no Brasil e no mundo. Prefácio de Camila Farani. Lançamento: Bistrô da Catedral, Duque 1.187, 16/8, 17h30min.

As irmãs sob o sol nascente (Editora Planeta, 320 páginas, R$ 59,00), de Heather Morris, autora do best-seller O tatuador de Auschwitz, traz, com base em história real, Norah e Nesta, presas pelo exército japonês na Segunda Guerra. Com outras mulheres do campo de concentração, buscam sororidade e força para sobreviver.

 A propósito

Está certo o Ariel, precisamos estudar e lembrar o que aconteceu e acontece com a vizinhança para buscarmos gargalhadas e lições para o futuro. Quem sabe a gente não repete as bobagens e loucuras deles e nem as do nosso sanatório geral. Quem sabe um dia a gente deixa de ser um país para ser uma nação dessas de verdade, civilizadas, tipo Nova Zelândia . Tudo é possível e impossível nos trópicos, mesmo como nossos passados imprevisíveis, como disse o outro, que a gente não exato quem foi.( Jaime Cimenti 

31.jul.2024 às 10h02
Thaís Nicoleti de Camargo

O desafio da simplicidade

Pacto da Linguagem Simples encontra resistência no meio jurídico. Em dezembro do ano passado, foi anunciado o Pacto Nacional do Judiciário pela Linguagem Simples, que nasceu do reconhecimento de que a linguagem adotada no Direito é hermética, inacessível e, portanto, excludente. Há, porém, resistência às mudanças, sob o argumento de que simplificação é rebaixamento.

Simplificar, como sabemos, é o oposto de complicar. Ambos os termos têm na origem a palavra latina "plica", que quer dizer "dobra" ou "prega", estando a oposição entre eles marcada pela ausência ou presença de "dobras". "Explicar", da mesma família etimológica, é desdobrar ou "tirar das dobras". Então, o que é simples está acessível, e o que é complicado precisa ser explicado. Simplificar não é rebaixar, mas tornar visível ou inteligível.

No caso do Direito, já se usa o termo "juridiquês" para denominar uma linguagem que tem ares de idioma estranho. A mim parece impróprio, porque confunde dois traços da linguagem usual no meio forense: o vocabulário técnico, com direito a expressões latinas, e certo estilo rebuscado, cheio de termos antigos ou raros.

Uma expressão como "consorte supérstite", por exemplo, embora usual no Direito, não é parte do seu vocabulário técnico. Muita gente, mesmo bem escolarizada, não saberia de imediato que significa o mesmo que "viúvo". Por que usar "ergástulo público" ou "cártula chéquica" em vez de "cadeia" ou "talão de cheques", respectivamente?

Antes que comecemos a lamentar a ignorância das pessoas, a falta de leitura ou os baixos níveis educacionais, vamos lembrar que, assim como novas palavras nascem e se fixam na língua, há palavras que vão caindo em desuso e se arcaízam. E isso é normal. Menos natural é colher no rol de arcaísmos um punhado de termos raros, que, por serem usados uma vez ou outra, são desconhecidos e soam eruditos.

O desafio mesmo parece ser dizer coisas relevantes em linguagem simples, clara, com vocabulário preciso.

Não é à toa que textos assim escritos parecem peças de antiquário. Nada contra as peças de antiquário que são, de fato, antigas e trazem consigo o sabor da época em que foram produzidas. Que dizer, porém, de uma antiguidade fabricada no presente?

Cada um é livre para ter o próprio estilo, mas não parece apropriado complicar e obscurecer o sentido de sentenças judiciais, leis ou contratos, que afetam diretamente a vida do cidadão. Ao que tudo indica, não haveria um motivo forte para manter esse estilo, a não ser a tradição. Como essa tradição entra em contato com uma realidade linguística muito diferente, que é a dos novos operadores do Direito, o resultado acaba sendo um curioso amálgama.

Os mais jovens têm as mesmas dificuldades de escrita que acometem os estudantes e profissionais de todas as áreas, mas logo se veem empregando construções como "resta comprovado", "em sede de", "eis que" e outras, não raro desconhecidas até dos dicionários, só usadas no meio jurídico. O discurso não tem mais "cártulas chéquicas", até porque o próprio talão de cheques já se tornou obsoleto, mas continua marcado e, muitas vezes, traz impropriedades linguísticas e defeitos de sintaxe emaranhados num pseudoeruditismo.

A tendência, se é que podemos arriscar um palpite, é que a linguagem do Direito se modernize e se aproxime da linguagem acadêmica (ou mesmo jornalística), em geral mais simples e objetiva, voltada para a clara transmissão do conteúdo. Esse, no entanto, é um caminho a percorrer. Não parece possível obrigar alguém a simplificar a própria linguagem; pode-se, isto sim, numa fase de transição, criar "tradutores", que sejam capazes de reformular os textos de modo que se tornem acessíveis aos "não iniciados".

Na prática, os jornalistas fazem esse trabalho no seu dia a dia, comunicando ao grande público decisões tomadas nas altas instâncias da Justiça, esmiuçando o conteúdo e as consequências de projetos de lei em votação, enfim, trazendo informação para o leitor médio.

É bom lembrar, no entanto, que não é só no Direito que se usa a linguagem para dizer pela forma algo que vai além do conteúdo. Em algumas áreas do saber, há um verdadeiro culto da linguagem rebuscada, mas em outra direção (coisas como "a construção da representação de mulheres transexuais a partir de recursos linguístico-semióticos no contexto da teoria de fulano"), que parece um esforço para transmitir credibilidade científica. É uma espécie de rebuscamento científico, comum em círculos universitários. Esse, porém, é tema para outra conversa.

O desafio mesmo –e vale para todos– parece ser dizer coisas relevantes em linguagem simples, clara, com vocabulário preciso e diversificado.

Homens que correm com lulus-da-pomerânia

No mundo da produtividade incessante, o cachorro te obriga a parar e pôr as duas patas na rua. Não nasci para tutora de pet. Ou achava que não tinha nascido. Nunca imaginei ter um até que minha filha cresceu um pouco, ganhou voz e passou a latir pelo seu desejo. E como latiu. Acabei por me render e hoje temos uma cadelinha que pesa o mesmo que um frango.

Claro que passei a amar a cachorra. E o que eu mais temia na aventura de ter um pet se revelou a minha parte preferida: levá-la para passear. Tem horas que detesto ter que levantar para fazer isso. Como aqueles domingos em que já bebi demais e minhas nádegas estão grudadas feito um imã à poltrona. Ou nos dias de semana, quando estou escrevendo e não quero parar, não quero interromper o fluxo.

É aí que entra uma das vantagens do passeio: é preciso interromper o fluxo. No mundo da produtividade incessante, o cachorro te obriga a parar. No mundo do carro e do condomínio, te obriga a colocar as duas patas na rua. No mundo da tela, te obriga a contemplar. No mundo solitário da escrita, te obriga a interagir com o outro.

Cachorro da raça lulu-da-pomerânia

Como pais e mães de bebês, que se reconhecem imediatamente pelas olheiras e pelos apetrechos do puerpério, os tutores também se enxergam nas suas similitudes. Adoro observar os bípedes dos quadrúpedes. Geralmente a dupla tem o mesmo estilo: homem fortão com cachorro grande ou parrudo, perua com cachorro de roupa e chuquinha, senhora de idade com cãozinho miúdo, tipo esportivo com tipo corredor e, num país em que a desigualdade social chega até nos cães, vira-latas magros, mas bem-amados, junto de moradores de rua.

Mas nem sempre tudo é tão previsível. Às vezes a vida dá "shuffle" e você vê um daqueles sujeitos de carranca e porte ameaçadores, que normalmente fariam uma mulher atravessar para o outro lado da rua, sendo arrastado por um delicado lulu-da-pomerânia.

E aqui digo sendo arrastado porque, muitas vezes, são os canis que guiam os sapiens. Donna Haraway diz que homens e cães são "parceiros no crime da evolução humana". Espécies companheiras que criam uma à outra na carne. Que se transformam mutuamente, para melhor, em diversos aspectos.

Graças à minha cachorra me torno uma pessoa mais empática. E até mais tolerante. Esses dias, ela encasquetou de cheirar o cão de um sujeito de orientação política totalmente oposta à minha, como mostrava a estampa de sua camiseta.

Travada naquela situação, sem conseguir desembestar a bichinha dali, acabei por conversar com o sujeito e até dar uma risada, coisa que nunca aconteceria em outra circunstância.

Achei a experiência saudável mas confesso que, ao me distanciar um pouco, olhei de novo para a camiseta dele e voltei a rosnar. Civilizados ou não, domesticados ou não, ainda somos todos de sangue e osso.

Giovana Madalosso - Escritora, roteirista e uma das idealizadoras do movimento Um Grande Dia para as Escritoras.

sábado, 10 de agosto de 2024



09/08/2024 - 17h03min
PORTAL EDICASE

Veja o que acontece no cérebro na vitória e na derrota

Na reta final das Olimpíadas em Paris, diversos atletas tiveram a possibilidade de experimentar as sensações proporcionadas tanto pela vitória quanto pela derrota após as competições. O cérebro, por sua vez, reage de maneira diferente em cada uma dessas experiências.

Na vitória, conforme o Dr. Fernando Gomes, neurocientista e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), o órgão libera uma série de substâncias químicas, principalmente dopamina, que é frequentemente associada ao prazer e à recompensa.

“Essa liberação de dopamina cria uma sensação de euforia e satisfação, que incentiva a repetir comportamentos que levam ao sucesso. É como se o cérebro nos recompensasse com um prêmio interno por termos alcançado um objetivo”, explica.

Cérebro na derrota

Por outro lado, uma derrota provoca uma resposta diferente. O cérebro ainda libera dopamina, mas em níveis muito menores. Em vez disso, outras áreas do órgão, como a amígdala, que está associada às emoções e ao processamento do medo, tornam-se mais ativas. Isso pode levar a sentimento de frustração, tristeza ou, até mesmo, raiva.

“Essas emoções negativas não são apenas reações automáticas, já que elas têm um propósito evolutivo, porque provocam uma reflexão sobre os possíveis erros e incentivam na elaboração de estratégias que possam aumentar as chances de sucesso no futuro”, diz o médico.

Mentalidade e resiliência após derrota

Estudos de neurociência mostram que a maneira como a mente interpreta uma derrota pode influenciar a resposta do cérebro. “Pessoas que veem a derrota como uma oportunidade de aprendizado tendem a se recuperar mais rapidamente e a serem mais resilientes. Isso sugere que a mentalidade desempenha um papel crucial na forma como o cérebro processa falhas e sucessos”, explica o Dr. Fernando Gomes.

Ainda segundo o médico, a dinâmica entre vitória e derrota é fundamental para o crescimento pessoal, pois o cérebro, com sua capacidade de adaptação e aprendizagem, usa essas experiências para moldar o comportamento e redefinir a rota em direção aos objetivos. “Em última análise, tanto as vitórias quanto as derrotas são essenciais para o desenvolvimento humano, pois nos empurram a buscar constantemente o aprimoramento e a superação”, finaliza.

Por Mayra Barreto Cinel



09/08/2024 - 10h35min
Gilmar Fraga / Agencia RBS

Nada mais tem valor se não for documentado e exposto para centenas 

Ainda não me convenci de que existo mais dentro do celular do que aqui fora, onde espirro, tropeço, bocejo e digito.

Era 2009 e eu estava em Marrakech pela primeira vez, encantada com os tecidos, os tapetes e as especiarias do souk, o mercado a céu aberto da cidade. Em meio ao agito de vendedores e turistas, pedi a uma amiga que tirasse uma foto minha. 

Primeiro erro: não pedi licença para as senhoras que estavam posicionadas logo atrás de mim, expondo seu artesanato. Segundo erro: eu deveria saber que algumas religiões e culturas consideram que a fotografia rouba a alma das pessoas. Só me dei conta quando vi a foto depois: todas as figurantes involuntárias haviam tapado seus rostos com as mãos, a única arreganhada era eu.  

Houve um tempo em que celebridades também tapavam o rosto diante dos paparazzi, a fim de esconder as olheiras depois de uma noite forte ou o flagrante ao sair da boate às seis da manhã com o marido de alguém.  

Mario Quintana, idem, antipatizava com fotógrafos: não tinha interesse em ser eternizado e os enxotava. Até que, na véspera de seus 80 anos, uma fotógrafa de 23, de forma premeditada, se hospedou no mesmo hotel em que Quintana morava, em Porto Alegre. Encasquetou que o faria mudar de ideia e que conseguiria retratá-lo. 

Duelaram alguns dias. Por fim, ela saiu mais vitoriosa do que pretendia: tornou-se uma de suas melhores amigas. Essa aproximação entre eles virou um texto para teatro que foi publicado em livro, chama-se Minha Sombra Luminosa, do ótimo Tomás Fleck. Quintana teria completado, no último 30 de julho, 118 anos de idade, e devemos a Liane Neves as imagens que trazemos dele até hoje. 

Quem gosta de ser fotografado, está à vontade neste novo mundo. Já quem não gosta, paciência, é obrigado a se render: nada mais tem valor se não for documentado e exposto para centenas, milhares. Há quem fotografe a fatia de bolo que segura entre os dedos, há quem clique seus lençóis amarfanhados e escreva “aftersex” na legenda, para anunciar que transou. Até aí, por mais bizarro que pareça, é da vontade de cada um. 

O problema é quando você não quer aparecer numa foto abraçado a torcedores exaltados, não quer ser fotografado dançando solto na pista, tem motivo nenhum para sorrir para uma selfie forçada. Fazer o quê? Nada. É como envelhecer: a alternativa seria ter morrido antes. 

Virou prova de vida, do bebê recém-saído do útero ao moribundo antes de receber a extrema-unção: fotos para o Face, para o Instagram e para todos os porta-retratos digitais que a população vê e compartilha. Entrei nessa, claro, preciso manter meu público cativo, mas ainda não me convenci de que existo mais dentro do celular do que aqui fora, onde espirro, tropeço, bocejo e digito. Ainda preservo algumas camadas espectrais. Creio que apenas 30% da minha alma esteja em mãos alheias. 

Martha Medeiros



09/08/2024 - 08h49min
Atualizada em 09/08/2024 - 08h52min - LETÍCIA PALUDO

"Quero inspirar as pessoas a serem a sua melhor versão", diz a Miss Grand Brasil Talita Hartmann

Modelo gaúcha de 27 anos superou outras 26 candidatas na etapa nacional realizada em São Paulo. Agora ela inicia a preparação para o concurso internacional, que ocorre em outubro

Talita Hartmann foi eleita a Miss Grand Brasil na noite de quinta-feira.

Modelo de 27 anos é natural de São Vicente do Sul, no interior gaúcho. Talita agora irá se preparar para representar o Brasil no concurso internacional, em outubro. A gaúcha superou outras 26 candidatas na etapa nacional. Segunda colocada também é gaúcha. Loraine Silveira representou o Mato Grosso do Sul.

Natural de São Vicente do Sul, a gaúcha Talita Hartmann foi eleita a Miss Grand Brasil 2024 na noite de quinta-feira (8). Após a conquista, ela comentou o resultado em entrevista a Donna:

— Eu tenho certeza de que foi a minha essência, a minha personalidade e a minha autenticidade que me trouxeram até aqui. 

A modelo de 27 anos superou outras 26 candidatas brasileiras na final do concurso, realizado na casa de shows Tokio Marine Hall, em São Paulo.

— Eu quero construir um legado positivo, alegre e que influencie as pessoas para o bem, para serem fortes, guerreiras, para nunca desistirem de seus sonhos. Por mais que a vida nos leve para momentos e situações em que a gente deixe de acreditar, Deus está ali — afirmou Talita.

A mais nova Miss Grand Brasil projetou o que espera alcançar com o seu reinado:

— O legado que eu quero construir é de muito amor, de inspirar pessoas a serem a sua melhor versão, a se cobrarem a serem cada vez melhor, pessoas que inspiram e motivam, que sejam luz, que sejam amor. Eu aprendi que a elegância é na humildade e quero mostrar a minha verdadeira essência para o mundo.

A jovem de 1m88cm viveu a infância no Interior até ser descoberta e iniciar a carreira de modelo, aos 14 anos. Na seletiva nacional, ela enfrentou outra gaúcha, Loraine Silveira, que representou o Mato Grosso do Sul.

O próximo passo é a disputa do Miss Grand International, que será realizado em 25 de outubro na Tailândia e no Camboja.



Carta para não voltar a um relacionamento dependente. Se você passou por uma relação dependente, certamente já ouviu esta frase: "só eu para aguentar você". A princípio, a sentença se assemelha a uma jura romântica, a um elogio da tolerância, mas seu sentido é o inverso: baseia-se no ato de diminuir o outro, tirando-lhe valor, mérito e poder de decisão.

Com "só eu para aguentar você", o interlocutor faz questão de destacar que você é de temperamento complicado, difícil de amar. Faz questão de apequenar você, controlar os seus horários, manipular os seus silêncios, domesticar as suas intenções.

Faz questão de apontar que nada do que você realiza é correto, nada do que diz é apropriado, nada do que sonha é viável, nada do que deseja é justo. Faz questão de mostrar que ninguém mais iria querer estar com você. O envolvimento até parece uma caridade.

O que você festeja como intimidade ("o quanto ele me entende!") é dominação. Seu par começa a falar por você, antes de você, como se soubesse o que é melhor para você mais do que você mesmo. Cria uma simbiose, coagindo-o a pedir aprovação para qualquer gesto, licença para qualquer saída.

É uma hipnose disfarçada de telepatia, uma infantilização camuflada de proteção.

Ele transmite a imagem pública de que ninguém conhece tanto você - e se habilita como seu tradutor, seu facilitador, sua ponte com o mundo. Mas tudo isso, em vez da magia da cumplicidade, tem o objetivo perverso e particular de podar a sua existência, de fiscalizar as suas afeições, de amputar os seus espaços, de debilitar a sua iniciativa.

Sem perceber, você não comandará mais a própria vida, numa convivência de natureza coercitiva. Ele escolherá seus novos amigos, selecionará aqueles com quem precisa manter contato na sua família, com quem é adequado conversar entre seus colegas do trabalho, com quem é pertinente estreitar os laços. Nunca a sua lista e a dele coincidem. Ele sente medo do seu passado, dos seus conselheiros, dos bastiões de sua coragem.

Talvez você tenha apagado o tormento que foi o seu casamento. Por isso, pense bem antes de ter uma recaída. Jamais deve voltar a um lugar de onde se esforçou para sair. Caso ceda a uma reaproximação, será cada vez mais complexa a fuga. Terá que mudar as desculpas, as justificativas. Amargará o dobro de vigilância, de desconfiança.

Você dá uma outra chance para a relação não porque acredita que a pessoa vai mudar, mas pela expectativa de que ela vai se compadecer de todo o seu sofrimento anterior, de todo o seu sacrifício, de toda a sua renúncia.

Só que ela é insensível para se emocionar com qualquer apelo. Você é tratado como um troféu. Troféu não tem alma. Apenas será exposto na estante. Não poderá se mexer.

Quer se livrar definitivamente de um ex? 

Então, faça um exercício, você que somente se lembra das coisas boas e se esquece das ruins, você que está acostumado a perdoar e seguir adiante. Anote tudo de péssimo que aconteceu no relacionamento. Abra o caderno toda manhã, para ter sempre em mente os motivos para o término do romance.

Não seja pego por uma falsa saudade. Não seja raptado pela carência. Não seja subjugado pela esperança. O tempo longe é venenoso. Com a distância, é comum achar que aquilo que foi ruim não era tão ruim assim. Não seja pego por uma falsa saudade. Não seja raptado pela carência. Não seja subjugado pela esperança

CARPINEJAR 


10 DE AGOSTO DE 2024
COM A PALAVRA - Fran Winandy

COM A PALAVRA

Ativista no combate ao etarismo e psicóloga com MBA em Recursos Humanos e mestrado em Administração

"Quem ainda não enfrentou esse preconceito pode vir a enfrentar no futuro". Fran Winandy é uma das principais referências no Brasil quando se trata de diversidade etária. Ela foi a primeira a escrever um livro sobre a discriminação de idade. A obra Etarismo: um novo nome para um velho preconceito foi lançada em 2021 e relançada ano passado.

Como surgiu a ideia desses livros sobre etarismo e que contribuições as obras trazem?

Há muitos textos acadêmicos e científicos sobre esse tema, que têm uma linguagem que nem todo mundo consegue acessar. Eu quis escrever de uma forma mais simples, para que todos possam compreender e participar da luta contra o preconceito etário. E para mostrar que o etarismo não é só um preconceito voltado para pessoas mais velhas. Até então, tínhamos muitos textos sobre o preconceito contra idosos, mas nos meus estudos constatei que se trata de preconceito etário, independentemente da idade. 

Também quis abordar as intersecções do etarismo com outros pilares da diversidade, como questões de gênero, raça e da população LGBT+. Queria algo que conseguisse atingir as pessoas, para que se sintam desconfortáveis de não participarem desse movimento. Todo mundo pode contribuir de alguma forma, e quem ainda não enfrentou esse preconceito pode vir a enfrentar no futuro.

? Esse assunto ganhou muita repercussão nos últimos anos. Você acredita que esse movimento contra o etarismo vem ganhando força?

Fico em dúvida sobre isso. Quando saio da minha bolha, percebo que muitas pessoas não entendem o meu trabalho, ou nem mesmo sabem o que é preconceito etário. Isso é muito comum. Sempre digo que a velhice é um alvo em movimento. Conforme vou me aproximando do alvo, ele vai indo para a frente e ficando mais distante. 

Então, a gente nunca chega lá, porque a gente não quer chegar. A gente acha que envelhecer é algo ruim. Normalmente, um velho não se acha velho. Assim, do mesmo jeito que não falo da morte, não falo da velhice. É um tema que as pessoas evitam. E isso é estranho, porque a gente deveria se preparar para a velhice, assim como a gente se prepara para uma viagem, por exemplo. A velhice é uma etapa importante da vida.

? Com o processo de envelhecimento da população, você acredita que as pessoas vão passar a ter outro olhar para as gerações mais velhas?

Olhando para a nossa pirâmide etária, percebe-se que nós vamos ficar muito mais tempo velhos. Vamos passar mais tempo velhos do que jovens. E o preconceito etário só vai aumentando. A Organização Mundial da Saúde aponta que os idosos são os que mais sofrem com a discriminação etária. Porque nós ainda temos uma sociedade muito jovem-cêntrica. Existe uma associação da beleza com a juventude, e o medo de envelhecer. 

Os filtros nas redes sociais mostram isso. Todo mundo acha que vai ser eternamente jovem. As pessoas só começam a se preocupar com a questão etária quando elas entram nessa faixa cinzenta, de estar chegando na velhice. Por exemplo, aos 40 anos, você começa a se sentir excluído do mercado de trabalho, começa a perceber que as pessoas não querem te contratar por conta da idade. Isso começa a te incomodar e você começa a prestar atenção no envelhecimento.

? Qual é o impacto dessa discriminação no mercado de trabalho?

Existe uma dificuldade muito grande de trazer pessoas acima de 50 anos para dentro das empresas. O percentual é muito baixo. Acima dos 60, então, não chega a 1%. E essas pessoas recebem salários baixos, as coisas ainda estão andando bem devagar. Ao mesmo tempo em que existe essa luta para abrir mais espaço para pessoas acima de 50 anos nas empresas, entendo também que temos outra briga, que é entender que não necessariamente essas pessoas terão acesso a emprego, e sim a trabalho. A trabalhos mais flexíveis, como prestação de serviços, talent as a service, esse tipo de coisa. 

Porque as empresas ainda não estão com abertura para contratar pessoas acima de 50 anos. Só que se nós estamos envelhecendo e tendo menos filhos, então, temos menos pessoas no mercado. Hoje, ainda não é uma necessidade do mercado de trabalho trazer pessoas acima de 50 anos, mas amanhã será. E se eu, como recursos humanos, não preparo as minhas lideranças para isso, como é que vou resolver isso depois? Nos países desenvolvidos já existe esse problema da falta de mão de obra. E no Brasil não vai ser diferente.

? Como as organizações devem agir para combater essa discriminação?

Normalmente, as empresas querem ficar no raso. Elas querem uma palestra sobre etarismo na semana da diversidade, ponto. E aí você não avança, não aprofunda. As empresas têm de ser intencionais em tudo. Tem de ser feito um balanço etário, tenho que olhar como está a minha pirâmide dentro da organização, buscar pessoas para completar esse mapa dentro da empresa. Por exemplo, se só tenho pessoas abaixo de 50 anos dentro da empresa, ou tenho um percentual muito pequeno de pessoas acima de 50 anos, vamos mudar isso. No mínimo, vamos refletir o que a gente tem na nossa sociedade e o que temos dentro da organização.

? Se o etarismo não é só contra pessoas idosas, quais são os impactos para as demais faixas etárias?

As pessoas mais jovens sentem questões relacionadas à falta de credibilidade, dificuldade quando vão encarar um cliente, por exemplo. Ou quando você vai num médico, por exemplo, você leva seu bebê num pediatra e você acha que esse pediatra é muito jovem, não leva a sério. Comecei a ouvir relatos de pessoas trazendo esses preconceitos em relação a outras fases da vida. A pressão na mulher para que ela engravide, por exemplo. 

Nas empresas, vejo muito as pessoas mais velhas falando que a juventude não tem comprometimento, que não gostam de trazer a geração Z para o time porque as pessoas mais jovens perdem a paciência e saem da empresa, não querem fazer um trabalho profundo, não aguentam ouvir críticas, são cheias de "mimimi". Isso é etarismo, se eu digo que não vou contratar uma pessoa mais jovem no meu time porque ela não se compromete, porque é superficial. São estereótipos que os mais velhos atribuem aos mais jovens. Assim como os mais jovens dizem que os idosos são muito teimosos, ou que não conseguem aprender nada de novo.


10 DE AGOSTO DE 2024
MARCELO RECH

Nada de novo no falatório

Pela largada do comboio eleitoral de Porto Alegre, as campanhas vão se conduzir pelo retrovisor e, quando muito, olhar 10 metros à frente.

A ausência de uma visão estratégica para as metrópoles brasileiras não é deficiência exclusiva da Capital, mas aqui ela se agrava. Depois da catástrofe de maio, o que era um problema se tornou um dilema existencial para Porto Alegre, que, mais do que nunca, precisa de uma perspectiva de longo prazo sobre em que cidade viveremos daqui a 10, 20 ou 30 anos.

O debate da Rádio Gaúcha, na terça-feira passada, foi um aperitivo: menções óbvias à necessidade de recuperação, manutenção e aprimoramento da infraestrutura e dos serviços. É pouco, muito pouco, diante do que há pela pela frente. Não bastasse a tragédia das enchentes, o mundo do emprego começa a passar por uma revolução que vai criar algumas cidades vencedoras e produzir uma legião de metrópoles deserdadas.

Coincidentemente, Porto Alegre recebeu no dia seguinte ao debate o aclamado economista Nouriel Roubini para uma palestra no Fronteiras do Pensamento. O primeiro economista a vislumbrar a debacle de 2008 lançou o livro Mega-Ameaças, no qual enumera 10 potenciais causas de desastre econômico e social, que, por outro lado, podem virar oportunidades se absorvidas por estratégias eficazes de antecipação a crises.

Uma delas, e uma das mais avassaladoras, é a inteligência artificial, que vai pulverizar milhões de empregos nos próximos anos - e criar outros tantos. O que os candidatos a liderar a cidade planejam para que a próxima geração possa não só assegurar sua renda mas também prosperar? Quais são os diferenciais competitivos que precisam ser identificados e explorados para que Porto Alegre não seja levada de roldão? Como induzi-los?

Há muitas outras questões-chave a serem elucidadas por quem pretenda de fato liderar a cidade, na acepção mais profunda de líder. Vai aqui uma pista: Porto Alegre conta com uma excelente rede de universidades e de hospitais que ainda não se conectam com uma estratégia de gestão de futuro municipal, mas que podem ser molas-mestras do desenvolvimento, juntamente com o esporte e a cultura, outras duas vocações que dão certo por aqui.

Amarrar as pontas, como busca fazer o Pacto Alegre, e fazê-las trabalhar em prol da renda e da qualidade de vida dos cidadãos pode não ser tão emocionante para um candidato quanto prometer - sem detalhar como - transporte, saúde e educação de primeiro mundo. Mas todas essas promessas serão quimeras se não houver uma estratégia arrojada e factível que assegure os recursos para colocar o trololó de sempre em prática. _

MARCELO RECH

10 DE AGOSTO DE 2024
EDITORIAL

EDITORIAL

Olímpíada e demagogia Opiondam

Grandes eventos esportivos, como a Copa do Mundo e a Olimpíada, acompanhados com grande interesse pelos brasileiros, são uma oportunidade para a população deixar de lado por alguns dias os temas mais pesados e torcer pelo desempenho dos atletas nacionais. São acontecimentos que deveriam unir a sociedade, a despeito das diferenças existentes em qualquer coletividade. Não é o que acontece no Brasil, onde qualquer tema vira arena para a polarização desmedida e abre brechas para o exercício da demagogia.

Aconteceu outra vez, agora com a Olimpíada de Paris. Um destes episódios teve início com uma desinformação e acabou com uma medida populista. Começou com a oposição acusando o governo federal de pretender taxar as medalhas e as premiações conquistadas pelos desportistas na França. Como se pagar imposto de renda por esses ganhos fosse novidade. Em vez de apenas esclarecer, o Planalto preferiu tentar tirar proveito político. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva correu para editar uma medida provisória e isentar os atletas de IR. Parece simpático. Mas trata-se de uma demagogia. Os esportistas brasileiros sequer pediam o benefício.

A isenção aos atletas que subiram ao pódio e orgulharam o país não vai impactar o déficit das contas nacionais. É algo ínfimo. Mas a atitude simboliza a forma como o Brasil, ao longo do tempo, foi desequilibrando as suas contas. Além do aumento de despesas, Executivo e Legislativo não se fazem de rogados quando surge a oportunidade de fazer agrado por meio de gastos tributários. Ocorre que, se alguém deixa de pagar o que deveria, a diferença será exigida do restante da sociedade, com mais impostos.

A iniciativa de Lula, antecipando-se a projetos de lei apresentados por deputados, retrata o uso recorrente do esporte para angariar apoio popular. São inúmeros os exemplos na história brasileira. A ditadura militar buscou capitalizar o sucesso da Seleção de 1970, na Copa do México. O então prefeito de São Paulo, Paulo Maluf, comprou fuscas com verba pública para presentear os tricampeões.

A Olimpíada de Paris não foi capaz de estabelecer um instante de trégua na batalha ideológica brasileira. Enquanto petistas atribuem as medalhas ao Bolsa Atleta, criado na primeira gestão Lula, apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro lembram que muitos da delegação nacional, como a judoca Beatriz Souza, que conquistou o ouro, são militares. Em 2021, Bolsonaro fez uma cerimônia para homenagear atletas militares laureados em Tóquio. Na segunda-feira, foi a vez de Lula tirar proveito e postar uma foto com a ginasta Rebeca Andrade. A designação da primeira-dama Rosângela Lula da Silva como representante do governo na França, com gastos de mais de R$ 200 mil de sua comitiva, também é controversa.

O espírito olímpico que permeia os jogos pressupõe respeito ao adversário e às normas do jogo. Não tem nenhuma relação com os sentimentos que alimentam a disputa política brasileira, na qual o oponente é visto como um inimigo a ser destruído e o oportunismo é regra.