segunda-feira, 5 de agosto de 2024


05 de Agosto de 2024
CLÁUDIA LAITANO

Clube do livro

Um livro sobre amor aos livros chegou ao topo das listas de mais vendidos do Brasil na última semana. Entre títulos de autoajuda espiritual e financeira e histórias açucaradas, o romance distópico Fahrenheit 451 (1953), do escritor americano Ray Bradbury (1920-2012), parece ter renascido das cinzas para uma nova geração.

O milagre da multiplicação de leitores tem nome: Felipe Neto. Com uma audiência potencial de 46,5 milhões de seguidores no YouTube, o empresário lançou no final de julho o Clube do Livro FN, plataforma em que os assinantes pagam R$ 499 por ano (o livro é adquirido por fora) para ter acesso a videoaulas e lives e interagir com outros leitores. Apenas na live da leitura de Fahrenheit 451, o clube conquistou 4 mil sócios.

Alguns dias antes, Fernanda Torres havia inaugurado um perfil no TikTok dedicado exclusivamente a indicações literárias. A estreia foi com a recomendação de livros que analisam diferentes aspectos da obra de Machado de Assis (Ao Vencedor as Batatas e As Ideias Fora do Lugar, ambos de Roberto Schwarz, O Otelo Brasileiro, de Helen Caldwell, e Machado, de Silviano Santiago). No embalo de um renovado interesse impulsionado pelo vídeo elogioso de uma influencer americana, Machado também anda vivendo seus dias de best-seller póstumo.

Felipe Neto e Fernanda Torres talvez sejam as primeiras celebridades brasileiras a ingressarem no disputado terreno dos influencers literários, nicho que no Brasil ainda é dominado por desconhecidos ou ex-desconhecidos. Nos Estados Unidos, o número de famosos (famosas, na verdade) com seus próprios clubes de leitura não para de aumentar. A ponto do site The Cut publicar: 

"Por que toda mulher famosa agora tem um clube do livro?". Oprah Winfrey começou o dela em 1996, recomendando mais de cem livros desde então. Reese Witherspoon fundou uma empresa para gerir seu clube de leitura, a Hello Sunshine, que ajuda a transformar as histórias selecionadas em filmes e séries de TV. Estrelas como Dakota Johnson, Dua Lipa, Emma Watson, entre outras, também têm usado a atenção dos fãs e da mídia para falar sobre seus autores preferidos.

Se a leitura exige recolhimento, descobrir novos livros e autores pode ser uma experiência compartilhada: não há ferramenta de marketing mais poderosa do que um leitor apaixonado. Não importa o quanto as telas dominem o mundo e ditem o ritmo das nossas vidas, sempre vai haver alguém disposto a salvar seus livros favoritos da destruição, do esquecimento e da censura. Em poucas palavras, esse é o resumo da história narrada em Fahrenheit 451. _

CLÁUDIA LAITANO

05 DE AGOSTO DE 2024
ARTIGOS - Daniel Randon -Presidente da Randoncorp e presidente do Conselho Superior do Transforma RS

O caminho do pódio

Neste momento de Olimpíadas, os olhos do mundo se voltam para os atletas que, com garra e determinação, representam o Brasil e conquistam medalhas. Essa realidade é um reflexo do potencial inegável do nosso país, mesmo diante da falta de apoio e estrutura em comparação a países desenvolvidos. A resiliência e o caráter dos nossos atletas são admirados internacionalmente. Eles nos ensinam que, independentemente das adversidades, é possível acreditar e lutar pelos sonhos.

O esporte, em sua essência, é uma poderosa ferramenta de transformação. Ele ensina lições valiosas, como disciplina, coragem de se levantar após uma derrota, de competir de maneira saudável, adaptabilidade diante das adversidades e persistência para buscar excelência em cada desafio. São valores fundamentais para a formação de indivíduos mais fortes e preparados para enfrentar as dificuldades da vida. Quando falamos em ensino integral, é fundamental que as instituições aproveitem essas horas para investir mais no esporte, apoio que não apenas promove a saúde física, mas também a mentalidade resiliente de que tanto precisam os jovens.

Ao integrar o esporte à educação, formamos cidadãos que aprendem a liderar, a trabalhar em equipe e a respeitar o próximo. São habilidades cruciais para o desenvolvimento de uma nova geração de líderes, empreendedores e cidadãos engajados. Precisamos de uma geração que não apenas sonhe, mas que tenha coragem e determinação de transformar os sonhos em realidade. O espírito olímpico, que valoriza a superação e o comprometimento, deve ser cultivado desde cedo.

Ao celebrarmos as conquistas dos nossos atletas, devemos ter a consciência do papel do esporte na formação de um Brasil mais forte. Incentivar a prática esportiva para crianças e adolescentes é um passo crucial para que possamos nos tornar protagonistas de nossa própria história. O Brasil tem um potencial imenso, basta acreditarmos e investirmos naqueles que estão prontos para brilhar no pódio da vida. _

Vitalidade comunitária e antifragilidade

Pedro Valério Diretor-executivo do Instituto Caldeira

Nos últimos 200 mil anos, nada nos moldou tanto quanto a cidade: nós prosperamos quando colaboramos e também competimos em ambientes que facilitam os fluxos de informação. O historiador inglês Ben Wilson destaca um aspecto importante das cidades: sua capacidade de regeneração. Ele lembra as cidades em tempos de guerra ou que passaram por desastres naturais e continuavam pulsando: algo fez as coisas funcionarem contra todas as probabilidades. O autor chama esse fator de "vitalidade comunitária": ele é responsável pelas formas criativas que fazem as cidades avançarem em momentos caóticos.

É impossível não associar essa ideia ao neologismo "antifrágil", que o matemático Nassim Taleb usou para designar o que permite que algo melhore depois de sofrer o impacto de uma grande força destruidora. Essa propriedade está além da resiliência ou da robustez: "o resiliente resiste ao choque e permanece igual; o antifrágil fica melhor", explica o autor.

O Instituto Caldeira nasceu em plena pandemia, sob o bombardeio diário das quarentenas. De 26 de março de 2021, quando finalmente inauguramos o espaço físico do hub, até 3 de maio de 2024, quando vimos o prédio ser invadido pelas águas do Guaíba, mais de 500 empresas e instituições se associaram ao projeto e cerca de 600 mil pessoas circularam pelo hub. Uma excepcional vitalidade comunitária se formou nesse período. Vimos nascer uma comunidade antifrágil.

Porto Alegre, ao longo de seus 252 anos, também passou por incontáveis testes e, nos últimos anos, buscava tornar-se uma versão melhor de si mesma. Eis que temos um novo teste e cabe a nós decidir o que queremos para o futuro. Deste teste, o Caldeira quer sair melhor e mais forte, e nossa visão é de que Porto Alegre também pode aperfeiçoar-se e melhorar. Apostaremos na vitalidade comunitária e na antifragilidade, duas propriedades que serão responsáveis pelo ímpeto de "fazer as coisas funcionarem contra todas as probabilidades". Vai dar certo? Seguiremos no dale, tentando sempre. 


05 de Agosto de 2024
EDITORIAL

Emendas às claras

Agiu no sentido certo o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino, na semana passada, ao tomar duas decisões que, uma vez rigorosamente observadas, dificultarão bastante a opacidade no manejo do dinheiro público pelo Legislativo. A transparência no repasse de recursos recolhidos junto aos contribuintes é preceito básico da República. Este princípio, no entanto, vinha sendo contornado pelo Congresso com os subterfúgios que passou a usar para deputados e senadores distribuírem verbas por meio de emendas. São os casos do chamado orçamento secreto e das emendas Pix, que contêm obstáculos para a sociedade saber quem as apadrinhou e a finalidade do uso dos recursos, por exemplo.

Em uma das decisões, em caráter liminar, Dino atendeu a pleito da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e determinou ao governo e ao Congresso ampla publicidade às transferências por emendas Pix, com fiscalização do Tribunal de Contas da União (TCU) e da Controladoria-Geral da União (CGU). O escrutínio inclui repasses anteriores. Indicou ainda critérios para novas liberações, como forma de conferir racionalidade às despesas, que devem passar a ser rastreáveis. Espera-se que o plenário da Corte confirme o entendimento. A força do colegiado é importante.

Emendas Pix é como são chamadas as emendas individuais que repassam recursos do orçamento da União sem a indicação de destino e emprego do dinheiro. Isso dificulta a fiscalização e abre brechas para a malversação. Fere, portanto, princípios constitucionais como os da publicidade, da moralidade e da eficiência, já que também não se consegue aferir o emprego, mesmo quando há boa-fé.

No outro caso, sabia-se que o Congresso estava driblando a decisão do STF de 2022 de acabar com as emendas de relator, popularmente batizadas de orçamento secreto. Os repasses foram transferidos para as emendas de comissão e a farra continuou. A decisão de Dino se deu no âmbito de um processo de conciliação entre governo, Congresso e órgãos de controle que discutia a burla da decisão da Corte que considerou o mecanismo inconstitucional. O ministro determinou que as informações sobre indicação e destino das emendas sejam centralizadas, transparentes e de fácil fiscalização.

As emendas se converteram na forma de o Congresso se assenhorar de maiores fatias do orçamento. As duas modalidades em questão também se tornaram um instrumento de poder para as lideranças do parlamento, pela distribuição de verbas conforme interesses políticos. Não é de se duvidar que surja alguma inconformidade. O orçamento secreto foi criado no governo Jair Bolsonaro, mas a gestão Luiz Inácio Lula da Silva, sem base consistente, assistiu inerte à manobra para mudar a forma de pagamento. O orçamento de 2024 prevê R$ 44,67 bilhões em emendas, sete vezes o valor de uma década atrás. Os brasileiros devem ter assegurado o direito de saber em detalhes como os recursos de seus impostos são usados. _



05 de Agosto de 2024
GPS DA ECONOMIA - Marta Sfredo

Respostas capitais

Pesquisador associado do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas) e especialista em contas públicas

"Por vinculação, gasto com saúde subiu R$ 50 bilhões só entre 2023 e 2024"

O Brasil já viu cortes de R$ 15 bilhões e "pré-contingenciamento" em 2024, e agora as atenções vão para uma tesourada ainda maior e mais estratégica, de R$ 25,9 bilhões em gastos obrigatórios para 2025, importantes por representar economia que se sustenta ao longo dos anos.

Os cortes em saúde e educação surpreenderam?

Para quem acompanha, não. É importante lembrar que, por conta da vinculação desses gastos à receita, o mínimo constitucional da saúde subiu R$ 50 bilhões só entre 2023 e 2024. O orçamento deste ano foi feito assumindo R$ 170 bilhões em aumento de receita. Isso elevou a necessidade de gastos para cumprir a vinculação. Existe até dúvida se vão conseguir gastar tudo isso, o que pode elevar o empoçamento (gastos previstos e não realizados).

A contenção extra de gastos ao longo do ano ajuda?

Aumenta a contenção de R$ 15 bilhões para cerca de R$ 47 bilhões. É uma espécie de pré-contingenciamento, com redução de empenhos, que não permite gastar tudo o que está programado. É uma medida inteligente. Ajuda a evitar o comportamento de muitos ministérios que estavam acelerando empenhos para tentar fugir dos cortes de orçamento.

Ajuda na percepção do compromisso de déficit zero?

É a medida mais forte, sinal de maior compromisso do governo como um todo, porque não foi feito só na Fazenda, teve aval da ala mais política. É importante porque ainda se vê, no mercado, projeções de déficit alto. Algumas poucas casas já corrigiram, inclusive descontando o crédito extraordinário para o RS que não vale para o cumprimento da meta. Deve gerar, nas próximas semanas, revisões para melhor do resultado fiscal.

E falta o corte de 2025...

Até o final do mês, o governo precisa encaminhar o projeto de lei orçamentária para 2025. Aí terão de aparecer os R$ 25,9 bilhões de corte, e nas obrigatórias, não nas discricionárias como as deste ano. O mercado reagiu bem, mas quer detalhamento. Não é fácil. O governo anunciou auditoria no BPC (Benefício de Prestação Continuada) e na previdência.

Será suficiente?

É importante que o governo mostre, a cada mês, estimativas do percentual de fraudes para mostrar o potencial da medida. Há uma boa pista no número de benefícios, que explodiu. Talvez seja necessário um projeto de lei para mudar ou reduzir brechas nos critérios. E ainda há ajustes a fazer no Bolsa Família. Os benefícios unipessoais aumentaram de 2 milhões para 6 milhões depois que o governo mudou a regra em 2021, pouco antes das eleições. Ao longo de 2023, houve redução para perto de 4 milhões. É um indício de que existe muita fraude. Se o número voltasse a 2 milhões de beneficiários unipessoais, representaria só aí uma economia anual de R$ 14 bilhões. Pode ser que não se consiga reduzir tanto, mas é para mostrar como é relevante. E esse tipo de redução de gasto é importante porque não ocorre uma vez só, é permanente da despesa.

Haddad diz que há estudo para desvincular despesas de saúde e educação. É possível?

Não é preciso desvincular, dá para fazer vinculação mais inteligente. Vincular despesa a receita é ruim. Coloca no orçamento a volatilidade da receita e prejudica o planejamento plurianual. E se saúde e educação acompanham, enquanto as demais estão limitadas a 70% do aumento da receita, vão espremer as discricionárias. Isso pode levar a uma situação semelhante ao shutdown dos Estados Unidos, ter de descontinuar serviços públicos. Na prática, a vinculação inviabiliza o próprio arcabouço fiscal. Não é um tema urgente, mas precisa se pensar agora porque depende de emenda constitucional.

Isso não foi percebido?

Nós alertamos, no Ibre. Mas ignoraram.

Qual seria a vinculação mais adequada?

O ideal seria desvincular de ciclos econômicos. Uma das formas seria definir um gasto real per capita, definir um piso e poder corrigir pela inflação, talvez até com algum crescimento real. Seria uma vinculação mais inteligente. Ao usar gasto per capita, já se restringe porque não se leva em conta toda a população. Daria muito maior previsibilidade plurianual. _

GPS DA ECONOMIA

05 de Agosto de 2024
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Política e poder

Partidos escolhem vices que não acrescentam votos novos

Adiló disputa reeleição em Caxias com Néspolo de vice

Com o encerramento do período de convenções, convém olhar com atenção as chapas completas e não apenas o titular. Porque a figura do vice, muitas vezes tratada como decorativa, deveria ser vista com a responsabilidade que o cargo impõe e não apenas como uma imposição do partido aliado. Nunca é demais lembrar que o vice substitui o titular em caso de morte ou impedimento.

Nos Estados Unidos, a vice-presidente Kamala Harris foi indicada pelos democratas por ser mulher, negra, senadora, promotora de Justiça. Teve um desempenho discreto ao longo do mandato, mas estava pronta para assumir a candidatura quando o presidente Joe Biden mostrou que não tinha condições e foi pressionado a desistir.

No Brasil, o presidente Lula se elegeu três vezes tendo como vice um político mais liberal do que ele, capaz de acrescentar votos que não teria: o empresário José Alencar em 2002 e 2006 e o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin em 2022.

Alencar, um dos barões da indústria têxtil, foi decisivo para quebrar a desconfiança de setores empresariais que temiam a implantação do comunismo com Lula. Alckmin ajudou a conquistar votos entre eleitores que não gostam do PT, mas não queriam saber de Jair Bolsonaro.

A vice do prefeito Sebastião Melo (MDB), Betina Worm, foi escolhida pelo PL, mais especificamente por seu presidente municipal, Luciano Zucco. Dado o perfil dos adversários, não acrescenta um voto que Melo já não tivesse.

O mesmo se pode dizer da vice de Maria do Rosário, Tamyres Filgueira, indicada pelo PSOL. É uma escolha em nome da diversidade (uma mulher negra), mas Tamyres não traz para a chapa votos novos, até porque não há candidatos viáveis à esquerda de Rosário.

Não é diferente o caso de Felipe Camozzato, que terá como vice Raqueli Baumbach, empresária do ramo da gastronomia. Raqueli também é novata na política, o que tem prós e contras, mas mantém o Novo restrito ao seu próprio círculo.

Juliana Brizola (PDT) é quem tem um vice de perfil diferente do dela. O médico Thiago Duarte entra em áreas em que a neta de Leonel Brizola não transita. _

Sem a presença do governador Eduardo Leite e da presidente estadual do partido, Paula Mascarenhas, o PSDB e seu parceiro de federação, o Cidadania, aprovaram por aclamação a candidatura do prefeito Adiló Didomenico à reeleição em Caxias do Sul, tendo Edson Néspolo (União Brasil) como vice. A coligação conta ainda com Republicanos, PRD e Democracia Cristã.

Néspolo, que disputou as eleições de 2016 e 2020, disse que foi convidado por outros partidos, mas decidiu ficar ao lado do prefeito:

- Estou aqui porque aqui tem ternura e tem firmeza. Esta não é hora para extremismo nem aventura. _

Jairo Jorge concorre em Canoas com o apoio de 12 partidos

Apoio a Juliana racha federação

Apesar de PSDB e Cidadania formarem uma federação, o apoio dos tucanos à candidata do PDT, Juliana Brizola, rachou o grupo que vive um casamento de aparências. O Cidadania decidiu continuar apoiando o prefeito Sebastião Melo. O tempo de TV, no entanto, vai para Juliana, já que oficialmente os dois partidos têm personalidade jurídica única.

Na votação entre os membros da executiva da federação partidária sobre quem apoiar, foram sete votos favoráveis a endossar a candidatura de Juliana e quatro contrários. A divisão é proporcional ao tamanho dos dois partidos na executiva.

Os candidatos a vereador pelo Cidadania já haviam ajudado a implodir a candidatura de Nelson Marchezan (PSDB). _

Marroni vai para a sexta tentativa em Pelotas

Vinte e quatro anos depois de ter sido eleito prefeito de Pelotas, o ex-deputado federal e estadual Fernando Marroni disputará sua sexta eleição para o cargo. Marroni concorreu, sem sucesso, em 1996, 2004, 2008 e 2012.

A vice será a professora e musicista Dani Brizolara, do PSOL. A coligação é formada por cinco partidos: PT, PCdoB, PV, Rede e PSOL. _

Por que um prefeito que teve problema atrás de problema, sendo o maior deles uma enchente sem precedentes, resolve tentar o quarto mandato? O prefeito Jairo Jorge (PSD), de Canoas, responde:

- Por amor à cidade e porque preciso reconstruir Canoas. Este mandato foi atípico. Assumi na pandemia. Quando as coisas estavam começando a andar fui afastado por um ano pela Justiça. Voltei, parecia que a cidade estava entrando no prumo e me afastaram de novo, por 130 dias. Reassumi no dia 2 de abril e, um mês depois, veio a enchente. Não posso me omitir.

Jairo Jorge concorrerá pela Coligação Amar Canoas (Aliança Municipal para Avançar e Reconstruir), composta por 12 partidos (PSD, PT, PCdoB, PV, Rede, PDT, PSDB, Cidadania, Podemos, PSB, Avante e Agir) e terá como vice a professora e vereadora Maria Eunice Wolf (PT). 

POLÍTICA E PODER

sábado, 3 de agosto de 2024

 

 Elias Wagner e seu filho Zé Elias - MEU VELHO PAI

   

Elias Wagner e Elias Filho Clipe OFICIAL "Mais que pai e filho"

   

Enzo Rabelo - Pai, por quê? Clipe Oficial

 

AMOR DE PAI E FILHO - ESPECIAL DIA DOS PAIS

   

 Dia dos Pais - Homenagem Especial - Simples Assim

03 de Agosto de 2024
MARTHA MEDEIROS

Ausência e abstração

Muitos rejeitaram a diversidade exposta no evento. Houve quem definisse como uma "parada gay sem restrição de horário". A velha e pontual resistência à mudança. Eram apenas artistas em cenas alegóricas e multiculturais, um happening festivo - mas os saudosos de 1895 ainda querem Oscar Wilde atrás das grades.

Ninguém é obrigado a ter relações homossexuais, nem a gostar do que vê. É só trocar de canal e continuar preservando seus dogmas, livre para ser como deseja e acreditar no que lhe conforta. Mas gasta saliva à toa quem esbraveja pela volta do padrão oficial de comportamento. A revolução que nos coube é esta, a hierarquia de costumes ficou para trás. Agora, cada um se veste como quer, ama quem quer, e isso não deveria soar ameaçador.

Um mundo horizontalizado, todos com sua devida importância e representatividade. O que atormenta? Talvez o medo de que nossos netos se tornem drags, trans... Que desperdício de pânico. Confiemos no chamado da natureza humana: cada um descobrirá para o que nasceu, cedo ou tarde, e à nossa revelia. É uma vitória da sociedade quando ninguém mais precisa se esconder atrás de estereótipos para realizar os sonhos dos pais, falsificando a si mesmo. 

O que estamos vendo é um ajuste, uma apertada de parafusos, pela segurança da engrenagem: gente feliz agride menos. Ninguém perseguirá héteros, nem os brancos serão escravizados: não haverá revide, tudo continuará a ser como é, apenas sem a tirania do modelo único. O normal é sermos desiguais, como são irmãos e irmãs de uma mesma família.

O sagrado pode ser teatralizado sem risco: não é função da arte inibir, ao contrário, ela expande o espírito, e o humor faz parte desta transcendência. A diversão é expectorante, ajuda a respirar, sem prejuízo à seriedade de nossos valores, portanto, sejamos uma plateia inteligente e relaxada diante de um mundo que jamais cessará de se transformar, é só conferir os livros de História. Enquanto estivermos vivos, testemunharemos o novo. Quem não suporta, pode fechar a janela, mas sem tentar fechar a dos outros, é ineficaz. O tempo nunca perdeu para o medo, o homem é que perde para o tempo.

Guerras são objetivas como um tiro. A paz, ao contrário, vem do mergulho emocional nas diversas camadas que nos constituem, até que se compreenda que o universo é mais vasto do que nossas escolhas e vontades, e que o amor que dizemos sentir pelo próximo não pode ser da boca pra fora. Se for, aí sim o pânico se justifica. _

O que estamos vendo é um ajuste: gente feliz agride menos. Enquanto estivermos vivos, testemunharemos o novo

MARTHA MEDEIROS

03 de Agosto de 2024
DECLÍNIO COGNITIVO - Bianca Dilly

DECLÍNIO COGNITIVO

O cérebro também precisa de exercícios

Cerca de 150 mil gaúchos sofrem com algum tipo de demência. Explorar novas habilidades ajuda a proteger contra danos.

Aprender uma nova habilidade, participar de jogos que estimulem o raciocínio lógico, integrar discussões em grupo, testar habilidades musicais, de computação ou fazer aulas para praticar um novo idioma. Mais do que aumentar os conhecimentos e se divertir, atividades como essas fazem bem ao estado geral do cérebro.

De acordo com especialistas, o treinamento cognitivo é um dos cinco fatores que protegem e melhoram a performance e a saúde cerebral a longo prazo. Segundo o médico neurologista responsável técnico pelo Centro de Pesquisa e Investigação Clínica do Instituto do Cérebro (Inscer), Cristiano Aguzzoli, a importância do treino intelectual fica ao lado de manter uma dieta balanceada, praticar atividades físicas regularmente, controlar os fatores de risco cardiovasculares e se engajar em atividades sociais.

Quando essa combinação não recebe atenção, o declínio cognitivo pode ser uma consequência. Em relação ao treinamento intelectual, o presidente da Sociedade de Neurologia e Neurocirurgia do Rio Grande do Sul e integrante do Grupo de Distúrbios Cognitivos da Santa Casa, André Luiz Rodrigues Palmeira, destaca que quando se deixa de praticar habilidades, o cérebro vai perdendo a capacidade plástica:

- Ele vai se tornando mais vulnerável aos danos. Quando aprendemos coisas novas, estamos estimulando a formação de novas conexões. É o que chamamos de neuroplasticidade. Quando estimulamos, melhor se responde ao processo de desenvolvimento e às doenças que possam surgir - detalha.

Atualmente, há estimativas que apontam a existência de aproximadamente 150 mil gaúchos com alguma demência, dos quais 50% a 60% dos casos são relativos à doença de Alzheimer. O cálculo é do médico geriatra e professor da Universidade Feevale Leandro Minozzo, baseado no número de idosos e a partir de dados do Relatório Nacional sobre a Demência no Brasil (Renade). É um levantamento que preocupa e que deve piorar.

- As projeções apontam para o crescimento do número de casos de demência no mundo todo, em especial em países em desenvolvimento. A região da América Latina é a área do mundo onde se tem a maior prevalência de casos de demência. Também há estudos que mostram de 700 mil a 800 mil casos sem diagnóstico no Brasil, o que torna a situação mais complexa e demandante para toda a sociedade - aponta Minozzo.

Por isso, o treinamento é necessário por toda a vida. Segundo especialistas, a preocupação começa já na infância. E entre os fatores que mais protegem o cérebro nesse sentido é a educação. Há estudos que relacionam a baixa escolaridade com o aumento da chance de um indivíduo desenvolver demência.

Conforme Aguzzoli, os anos de educação são primordiais a longo prazo:

- Mais anos de escolaridade estão relacionados à proteção. Na fase adulta mais avançada, o treinamento cognitivo é fundamental para ter a mente ativa.

"Um bônus"

Entre as formas indicadas para as atividades intelectuais, está o aprendizado de idiomas. Na Associação Cristã de Moços do Rio Grande do Sul (ACM-RS), pessoas de todas as idades se encontram semanalmente no Centro Histórico de Porto Alegre para estudar inglês e espanhol. São cerca de 150 alunos, com idades entre 13 e 83 anos. Há grupos focados na terceira idade.

- Precisa manter o cérebro ativo. E o estudo de um idioma, que não é a nossa língua-mãe, é fundamental para a ginástica cerebral - relata a policial civil aposentada Katia Beirão Haag, 57 anos.

Professora de línguas e coordenadora de idiomas da ACM- RS, Nádua Gallo Muhammad conta que o trabalho é humanizado:

- Temos a missão de olhar para o próximo, acolher. O aprendizado de línguas exercita a mente, mas também traz a socialização como um dos benefícios.

O engajamento em atividades sociais é outro ponto importante para a saúde cerebral e também entra como fator decisivo para os alunos. Além disso, os colegas, para além da sala de aula, tornam-se amigos.

- Esse grupo é muito importante para todos nós. Nós conseguimos nos aproximar como pessoas. Inclusive, viajamos juntos. Eu considero essas aulas como uma terapia de vida. Trocamos experiências. Aprender espanhol é um bônus - conclui a estilista aposentada Rejane Penck de Araujo, 69. _

A América Latina é a área do mundo onde se tem a maior prevalência de casos de demência. Há estudos que mostram de 700 mil a 800 mil casos sem diagnóstico no Brasil.

Leandro Minozzo - Médico geriatra


03 de Agosto de 2024
J.J. CAMARGO

Os limites da verdade

Um mundo sem mentiras teria muitas vantagens, no entanto, o supersincero é uma figura assustadora e temida. Claro que o constrangimento resultante será uma exclusividade das pessoas de boa índole, aquelas que motivaram a publicação dessa crônica. E que em nada se parecem com os limitados de caráter, sempre enredados em escusas fabricadas, contextos falsos e vieses convenientes.

Normalmente vista como a vilã dos relacionamentos pessoais, a mentira existe, em muito, porque nos ajuda a cumprir um propósito essencial: a convivência harmoniosa em sociedade. Não seria um exagero chamá-la de mentira do bem porquanto pode significar de preservação da dignidade que, para os desprovidos amiúde, representa a única e pífia justificativa para a sobrevivência.

Certamente, o mundo sem mentiras teria muitas vantagens: (1) os políticos teriam que encontrar virtudes verdadeiras, (2) os compromissos seriam respeitados, (3) ninguém manteria segredos e (4) a traição não existiria.

Na essência, todos desejamos que as pessoas nos tratem com sinceridade, mas intimamente tememos o supersincero, uma figura sempre assustadora.

Para quem acha relaxante o convívio com a verdade, uma recomendação útil: retenha toda a informação bombástica até comprovar sua autenticidade. Sites como Snopes e FactCheck.org podem ajudar.

Uma dúvida constante é o quanto estamos, de fato, preparados para a sinceridade absoluta. Porque, sem mentiras, você teria que ouvir com naturalidade o que os outros pensam da sua aparência, das suas opiniões, dos seus amores e, que desagradável, do seu desempenho profissional.

Todos admitem que a mentira pode ser uma bengala para a autoestima. Em consequência, quase nada do que se publica, por exemplo, em sites de relacionamento, é verdadeiro. Uma pesquisa baseada em uma rede social na Califórnia mostrou que os homens eram, em média, cinco centímetros mais baixos e as mulheres estavam seis quilos acima do peso anunciado.

Como a verdade está atrelada à palavra, ficamos sempre à mercê do jeito de dizer, com termos conciliadores ou belicosos, que fluirão condicionados a gatilhos de risco, como preconceito, intolerância, sequelas emocionais ou, simplesmente, cansaço.

Com uma visão isenta, é fácil concluir que dois predicados frequentes tornam a verdade uma ameaça ao convívio social amistoso: a verdade absoluta e a verdade permanente. A fonte de intolerância mais antiga é o contador de vantagens, um tipo frequente em reuniões sociais e quase obrigatório em entrevistas de emprego.

Como era de se esperar, essa intolerância aumenta com a velhice porque parece cada vez mais irritante que alguém suponha que apesar de tudo o que a idade ensina ainda sejamos impressionáveis.

Por outro lado, a prática da verdade tem significado diverso em diferentes ambientes, usando-se como extremos, a fidelização à verdade nas pesquisas científicas - onde a falsidade é repudiada com veemência máxima porquanto representa de malefício para a sociedade - e a permissividade sem filtro das redes sociais, que rapidamente se revelaram os celeiros das notícias falsas, com o descompromisso moral de quem não se importa que uma mentira possa destruir uma família ou emporcalhar uma biografia.

Em medicina, especialmente em condições extremas, verdade é empregada até o limite em que, por aspereza, possa comprometer a esperança. Perceber a diferença entre verdade total e verdade útil, em prol do paciente, é puro talento médico. _

J.J. CAMARGO

Amores disfarçados de amizade

Eu me ponho a matutar: será que é verdade? Se você está acostumado com a ideia do amor romântico - um amor sofrido, angustiado, obcecado, em que se quer fazer tudo junto -, você não é capaz de notar quando a afeição autêntica surge em sua frente. Seu olhar se aliena, condicionado a uma viseira de expectativas e sensações predeterminadas.

Não é possível reconhecer um amor manso, calmo, compreensivo. Vai assimilar que aquilo é amizade, não amor.

Quantos amores passaram pela sua vida disfarçados de amizade? Aquela pessoa dava colo, aquela pessoa ouvia até o fim, aquela pessoa era parceira de dança, de balada, das conversas do bar, aquela pessoa incentivava as suas iniciativas, aquela pessoa ria das suas piadas, aquela pessoa entendia as suas loucuras a ponto de não rotulá-las, mas você pensava que era só um amigo.

Como não padecia dos sintomas românticos, julgava que não havia química. Nem se arriscou a investir, a explorar a cumplicidade para um compromisso.

Seguia uma bula, concebia estar amando como não ter fôlego, morrer de saudade, permanecer aflito por uma mensagem, amaldiçoar a distância, atravessar crises de ciúme. Assim confundiu o placebo com a vacina. Tão ocupado em perseguir uma idealização, deixou de amar quem realmente merecia, quem o destino disponibilizou em seu caminho para fornecer clareza e discernimento.

Você simplesmente não permitiu ao amor crescer de uma forma que você não conhecia, misteriosa, feita de paz, de suavidade, de concordância, de respeito ao seu espaço. Esperava borboletas no estômago, e elas estavam espalhadas pelo seu jardim. Esperava perder a cabeça, a razão, o chão, e vinha alguém devolvendo sua cabeça, sua razão, seu chão.

Esperava um tormento, um redemoinho apertando a sua rotina, e havia a leveza de alguém que não sufocava, não implicava, não explodia e, mesmo sem passionalidade nenhuma, demonstrava que você era a presença mais importante do universo.

Quantos romances foram cortados pela raiz, pois não se assemelhavam aos romances de antes?

Você esquecia que as suas experiências pregressas apenas causaram aborrecimentos, e aquela, pelo contrário, era benéfica. Então, não confiava. Não admitia que flechadas no coração pudessem não sangrar.

Negou-se a experimentar uma combinação diferente, não foi a fundo, estabeleceu um limite prévio para a intimidade. Quando está habituado a sofrer, você interpreta equivocadamente a sua saúde emocional como monotonia.

Acha que o contato carece de taquicardia, de adrenalina, de ansiedade, do extremo da preocupação. Parece dizer a si mesmo: é muito sossego para ser forte, é muita convergência para ser atração.  Não havia o monopólio, a disponibilidade integral, a fixação, e estranhou a expansiva liberdade.

Não se mostrava tensionado, sem saber se a pessoa voltaria no dia seguinte. Não existia desespero e chantagem, não precisava correr atrás ou mendigar atenção, e acreditou que não sentia nada demais.

Não raciocinou por um minuto que amor bom é o da confiança: você não tem medo de perder o outro porque o outro já faz parte de você. Quando há tranquilidade, você finalmente encontra o encaixe de dois inteiros. Não é mais metade de ninguém. _


Hereditariedade e o câncer de próstata

No mês em que o Dia dos Pais é comemorado, em 11 de agosto, a saúde do homem fica em evidência novamente. É importante pontuar que, além de amor, carinho e valores transmitidos de pai para filho, muitas predisposições genéticas são passadas de forma hereditária. As particularidades da saúde masculina levam a reflexões passíveis de prevenir possíveis doenças e ampliar o cuidado para diminuir as ocorrências. Assim como os fatores ambientais e o estilo de vida, a genética desempenha função essencial para entender o desenvolvimento das enfermidades.

Em algumas doenças, a hereditariedade é a única forma de transmissão, como a hemofilia A e a fibrose cística. Outras patologias, como câncer e obesidade, possuem diferentes causas, entre elas os fatores genéticos, ambientais e hábitos do indivíduo. Em ambos os casos, entender o papel do atavismo no desenvolvimento de enfermidades traz ferramentas importantes para compreensão, diagnóstico precoce e tratamento dessas condições.

No caso da urologia, a principal preocupação relacionada às condições genéticas é o câncer de próstata, o segundo tipo mais comum entre homens, atrás apenas do câncer de pele. De acordo a OMS, são registrados mais de 1,4 milhão de novos diagnósticos anuais da doença. O Brasil é o quarto país em casos, atrás de Estados Unidos, China e Japão, e a estimativa do Instituto Nacional do Câncer é de 71.740 novos casos a cada ano, o que representa aumento de 8,5% da análise anterior.

Como estima-se que 10% dos tumores são hereditários, a análise do histórico familiar cumpre papel significativo na obtenção de informações complementares e vitais na busca por estratégias terapêuticas mais eficazes. Para pessoas com parentes próximos que descobriram câncer de próstata, como irmãos ou pai, há maior risco de desenvolver a doença em algum momento da vida. No entanto, ao identificar uma predisposição genética, é possível agregar ações preventivas para o homem, seja no mês dos pais ou em qualquer outra época do ano. 


03 de Agosto de 2024
MARCELO RECH

Qual Lula fala sobre a Venezuela?

As idas e vindas em relação à Venezuela abrem uma incógnita sobre qual Lula está falando quando diz que não viu nada de grave na farsa eleitoral de Nicolás Maduro. Há muitos Lulas possíveis na pele do presidente. Escolha a sua versão.

O amigão - Em 2013, Lula gravou um vídeo de apoio para a campanha de Maduro. E foi o brasileiro quem estendeu o tapete vermelho para receber o aliado em Brasília, em maio de 2023, demarcando seu retorno aos salões de uma democracia. Na ocasião, como velhos amigos, trocaram sorrisos, abraços e promessas de cooperação.

O caradura - Lula sabe bem o que se passa no submundo do regime e das eleições venezuelanas, mas faz de conta que a Venezuela vive na normalidade democrática. Confuso, ingênuo ou cínico, trata o conselho eleitoral da Venezuela, um braço do governo de Maduro, como se fosse uma justiça independente, que não existe na Venezuela. Apesar de líder inconteste do PT, afirma que o partido, como na defesa da vitória de Maduro, tem autonomia para se manifestar.

O pragmático - Esse Lula também coloca uma venda nos olhos, mas faz considerações incômodas a Maduro, como pedir transparência e a divulgação das atas eleitorais, sem avançar a linha que possa levar a um desentendimento. A versão pragmática de Lula pensa na dívida de U$ 1,2 bilhão da Venezuela com o Brasil, nos negócios entre os dois países e na extensa fronteira ao Norte.

O diplomático - Lula articula países da região para pressionar por eleições livres, e segue na afinidade com o chavismo para manter alguma ingerência sobre Maduro, evitando ainda mais loucuras, como a invasão da Guiana pela Venezuela. Esse Lula conversa com Joe Biden sobre o vizinho e sonha em ser um indutor da sua redemocratização.

O esquerdista - A aliança histórica do PT e do MST com o chavismo bloqueia qualquer tentativa de desgarre de Lula em relação a Maduro. Quando se trata da autocracia chavista, o Lula que escolheu Cuba para passar o Réveillon de 2020 para 2021 está mais para a esquerda caquética e autoritária do nicaraguense Daniel Ortega do que para a esquerda contemporânea e democrática, além de crítica a Maduro, do chileno Gabriel Boric.

O antiquado - Um Lula que deixou de ser novidade nos círculos de maior prestígio empurra a diplomacia do Brasil para o lado de párias como a Rússia, o Irã e o Hamas. Lula não viu o tempo passar e tem dificuldade de lidar com a nova ordem mundial.

A esfinge - Quando não se entende um comportamento, é porque tem algo que não quer ou não pode vir à tona. Na relação com a Venezuela, é um enigma a ser decifrado

O contraditório - Uma combinação de todos acima. _

MARCELO RECH

03 de Agosto de 2024
EDITORIAL

EDITORIAL

O jornalismo em uma eleição singular?

Começa em duas semanas, de forma oficial, a campanha eleitoral para o pleito municipal de 2024. No Rio Grande do Sul, a disputa não será igual às anteriores. A busca pelo voto terá a singularidade de ocorrer em meio à reconstrução que se segue à mais devastadora catástrofe climática da história do país. Postulantes às prefeituras e às câmaras de vereadores serão cobrados pela população e pelo jornalismo do Grupo RBS, engajado com os gaúchos no esforço coletivo de retomada do desenvolvimento. Devem estar à altura das responsabilidades deste tempo em que o Estado está desafiado não só a se reerguer, mas a se tornar mais resistente.?

?A tarefa de forjar um Rio Grande do Sul adaptado ao aquecimento global e capaz de mitigar estragos causados por eventos meteorológicos extremos começa pelas ações sob a incumbência dos municípios. Será um tema inescapável. Dividirá atenções com outras pautas que permeiam as eleições municipais, como saúde, educação e transporte público. Mesmo nas cidades que não sofreram danos severos pelas enchentes que assolam o Estado desde o ano passado. Não há candidatura que possa garantir aos eleitores um futuro sem perdas materiais e risco à vida por secas, cheias ou pela fúria de tempestades.

O Grupo RBS, fiel aos princípios editoriais que norteiam a cobertura jornalística de períodos eleitorais, reitera o compromisso de colaborar para cada votante fazer a sua escolha de forma consciente e livre. Essa contribuição, na prática, se dá com um jornalismo preocupado com a relevância e a informação de qualidade. Mais do que buscar responsabilidades, é hora de dar atenção especial às propostas, ao cotejo de ideias, programas e biografias, e com insistência para que os aspirantes aos Executivos e Legislativos expliquem como viabilizar seus projetos. Os gaúchos conhecem os problemas de suas cidades. Estão à espera de soluções factíveis e, por isso, devem deixar clara a precedência do debate construtivo. Dos candidatos, esperam-se mais propostas e menos troca de insultos.?

A disseminação de desinformação, inquietação recorrente nos processos eleitorais recentes, vai requerer cuidado adicional. A rápida evolução das ferramentas de inteligência artificial, também mais acessíveis, eleva o risco de circulação de conteúdos fraudulentos, como as deepfakes. São os casos de vídeos e áudios falsos, embora convincentes. Criam uma situação, uma fala ou uma cena inexistentes, mas ultrarrealistas.

A difusão de falsidades, distorções e versões tendenciosas, com o intuito de enganar e confundir, conspurca a democracia por manipular a decisão do eleitor. Um voto contaminado pelo engodo não é um sufrágio livre. É neste momento que o jornalismo profissional, exercido com equilíbrio, rigor e técnica, se investe de ainda mais importância para a sociedade. O voto consciente é fruto da opinião individual formada a partir de dados verdadeiros e fatos constatáveis e checados.

?A poucos dias do início da campanha para um pleito de singular importância pelo momento histórico do Estado, a RBS reforça os seus deveres como grupo de comunicação. Entre eles estão a priorização de informações úteis ao eleitor, o debate em torno de temas da vida real que contribuam para o desenvolvimento dos municípios, a apuração, a checagem, a independência e a abertura de espaços para diferentes visões. É o que reafirma o jornalismo como pilar da democracia.? 



03 de Agosto de 2024
PERIGOSO OU NATURAL?

PERIGOSO OU NATURAL?

O que dizem especialistas sobre a "nova" ilha do Guaíba. Banco de areia já existia, mas aumentou depois da cheia de maio. Profissionais divergem sobre necessidade de intervenção na área

Vinicius Coimbra

A expansão de um banco de areia no Guaíba, em Porto Alegre, motiva posicionamentos contraditórios de estudiosos e autoridades. Parte deles define o local como problemático para embarcações no futuro e um risco em caso de uma nova enchente, o que justificaria uma intervenção. Outros defendem que a formação da ilha é um processo natural, que não significa risco.

Segundo Elírio Toldo Jr, pesquisador do Centro de Estudos de Geologia Costeira e Oceânica (Ceco) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a ilha já existia antes de maio.

- É um processo lento e natural que seguirá para o interior do Guaíba - pontua.

Ele ressalta que o crescimento do banco de areia não significa prejuízo ao canal por onde passam os navios. Para ele, a ilha também não preocupa em caso de cheias.

Francisco Milanez, diretor-técnico e científico da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural, afirma ser contrário à ideia de que o crescimento do banco de areia deva ser freado:

- É uma manifestação do arquipélago, uma formação arenosa estável, resultado da hidrodinâmica dos rios.

Desassoreamento

Já o posicionamento do Consórcio Metropolitano Granpal é de preocupação quanto ao aparecimento do banco de areia.

A entidade, que reúne 17 municípios, defende política de desassoreamento na região.

- A dragagem é urgente. Em épocas de seca, há sérios riscos de a operação do Catamarã ser interrompida - diz Marcelo Maranata, presidente do consórcio e prefeito de Guaíba.

Conforme Marcelo Dutra, doutor em ciência e professor de Ecologia na Universidade Federal do Rio Grande (Furg), o crescimento da nova ilha deve motivar iniciativas para o longo prazo:

- Vamos observar alterações drásticas se esse material não for retirado ou se novas entradas não forem evitadas. Estamos perdendo a capacidade de navegação. 



03 de Agosto de 2024
ACERTO DAS TUAS CONTAS

Giane Guerra acerto das (tuas) contas - com Guilherme Jacques e Guilherme Gonçalves

Investimentos que escapam da mordida do Leão

Um grande "charme" de uma aplicação financeira é ser isenta de Imposto de Renda, mas nem todas têm as mesmas regras. Na semana passada, a coluna falou da Letra de Crédito de Desenvolvimento (LCD), criada recentemente e ainda sem data para chegar ao mercado dos investidores. Hoje, traz uma lista dos investimentos que escapam da mordida do Leão. Mas antes lembre-se de que esse é apenas um dos atrativos. Diversos outros pontos devem ser levados em consideração na hora de escolher onde guardar o seu dinheiro.

LETRA DE CRÉDITO DE DESENVOLVIMENTO (LCD) - É isenta para pessoas físicas residentes no Brasil. Para investidores pessoa jurídica ou moradores do Exterior, a alíquota de IR é reduzida para 15%. O papel, emitido pelo BNDES, captará recursos para investimento de infraestrutura e inovação industrial.

LETRA DE CRÉDITO IMOBILIÁRIO (LCI) E DO AGRONEGÓCIO (LCA) - Com rendimento isento de IR, o papel é emitido por empresas destes setores.

LETRA IMOBILIÁRIA GARANTIDA (LIG) - Emitidas por instituições como bancos e sociedades de crédito. Conta com o atrativo da isenção de IR, mas não entra na proteção de R$ 250 mil do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) no caso de calote da instituição financeira.

CERTIFICADO DE RECEBÍVEIS IMOBILIÁRIOS (CRI) E DO AGRONEGÓCIO (CRA) - Títulos emitidos por empresas com garantia nos créditos que ela tem a receber, como uma construtora que ainda será paga nas parcelas do imóvel que vendeu. Como a LIG, são isentos de IR, mas não têm proteção do FGC.

DEBÊNTURES INCENTIVADAS - Papéis emitidos por empresas para investir em infraestrutura,como saneamento e rodovias. Elas são isentas de IR para pessoas físicas, ao contrário das debênturescomuns ou corporativas. Também não são protegidas pelo FGC, mas bateram recorde de emissões no primeiro semestre.

FUNDOS DE INVESTIMENTO IMOBILIÁRIO - Há vários tipos, que vão da compra de títulos emitidos por empresas aos que adquirem o próprio imóvel para alugar e são chamados de tijolo. Bons pagadores de dividendos são isentos para pessoas físicas, mas, no caso de negociação das cotas em bolsa, paga 20% no ganho de capital.

FUNDO DE INVESTIMENTO EM CADEIAS PRODUTIVAS AGROINDUSTRIAIS (FIAGRO) - Criado há poucos anos, pode aplicar em silos e galpões ou comprar fatias de empresas do agronegócio. O lucro distribuído a pessoas físicas é isento, mas o ganho com a venda de cotas paga 20% de IR.

POUPANÇA - A caderneta também é isenta, mas seu rendimento é baixo, chegando até a perder para a inflação em alguns anos.

AÇÕES NA BOLSA DE VALORES - A venda é isenta quando a negociação ficar abaixo de R$ 20 mil no mês. Se exceder, tem que pagar 15% sobre o ganho de capital. Compra e venda no dia (day trade) recolhe 20%. Distribuição do lucro ao acionista, o dividendo é isento. Já o juro sobre capital próprio (JCP) recolhe 15% na fonte, ou seja, chega no investidor comIRpago. _

Do gastador ao investidor: o perfil do consumidor da Capital

Use lupa nos rótulos dos alimentos que você compra

Consumidor verde

Entusiasta da educação financeira, mesmo que no comando de uma entidade de varejo, o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Porto Alegre (CDL POA), Irio Piva, costuma inserir em pesquisas básicas de datas de vendas recortes que mostrem como estão as contas do consumidor. Na última, em parceria com a Vitamina Pesquisas Orgânicas e Criativas, os entrevistados foram questionados com qual perfil de consumo se identificam mais. _

A diretora Rosângela Cabral é também, claro, consumidora, e a coluna perguntou sua exigência para comprar alimentos:

- Procuro produtos naturais e orgânicos, mas nem todos são. Me preocupo em olhar o rótulo. Se tem ingredientes artificiais, nomes que não sei o que são, não compro - diz Rosângela.

Assim como cuida do meio ambiente e da comunidade, o consumidor sustentável preserva seu corpo com bons alimentos. A expressão que a coluna adora: "comida de verdade". _

37,5%

Gastador

26%

Poupador

18%

Desligado

10%

Devedor

8,5%

Investidor

Gasto o que ganho. Não tenho dívidas, mas também não costuma sobrar nada.

Consigo economizar parte do que ganho para reservas de emergência ou algum objetivo específico.

Não gasto tudo que ganho, mas deixo o que sobra parado. Não coloco na poupança nem invisto.

Tenho dívidas que não consigo saldar e entro em uma bola de neve, pois tenho gastos maiores que a minha renda.

Destino parte da minha receita a investimentos financeiros, mesmo que possa gerar maior risco.

ACERTO DAS TUAS CONTAS


03 de Agosto de 2024
CARTA DA EDITORA

Chega mais

As diversas modalidades esportivas ainda estarão em evidência nos próximos dias. E as Gu aproveitaram para mostrar que é possível estar na moda até na hora de praticar exercícios, tanto que já escolheram os seus looks fitness, que podem ser encontrados na Pompéia.

A dupla de ouro legging e jaqueta corta-vento foi a aposta da Alice Bastos Neves e é ideal para os dias em que o frio é a companhia na hora de se exercitar. Já a Kelly Costa prezou pelo conforto do básico com camiseta e legging. Nos pés, uma das escolhas mais importantes para quem vai praticar atividades físicas: o tênis, que precisa ter o modelo apropriado para evitar lesões.

Se inspirou? Garanta essas e outras opções nas lojas, no site lojaspompeia.com e no app. Para conferir de perto, visite a unidade da Pompéia no Shopping Iguatemi (Av. João Wallig, 1.800, 1º andar, de segunda a sábado, das 10h às 22h, e aos domingos, das 11h às 22h) e aproveite o serviço de consultoria gratuito. 

Já peguei muita estrada pavimentada nas conquistas das liberdades femininas. Mercado de trabalho talvez seja a mais preciosa para mim, herança de uma geração que colocou uma boa dose da identidade na profissão - tente falar comigo durante 15 minutos e saberás. Uma forma de conquista, porém, ficou para atrás na minha bibliografia: sou péssima em tomar a iniciativa quando algum homem me interessa. Assim como também não facilito minha vida só postando fotos da Tannat e da Tulipa, minhas gatas, no Instagram.

Embalada por essas observações do meu precário marketing pessoal como solteira, fui editar a matéria de capa desta edição, feita e proposta pela repórter Karine Dalla Valle. Assim como temos histórias bacanas como a da estrategista de marca Karine Adiers, que conduz o par escolhido por ela mesma pelo salão de dança, temos reflexões importantes, a exemplo de uma onipresente visão social daquela menina moldada para ser "a eleita".

Não me encaixo atualmente em nenhum dos modelos acima. Mas cabe a quem tem acesso a boas conversas, como nós de Donna e vocês leitoras, lançar um olhar atento para a provocação da psicóloga Lavínia Palma, que nos entrega observações como "Se a mulher esconder o que sente, ou ficar em uma posição de espera, isso, de alguma forma, ainda confere valor para ela".

Em pleno 2024, ainda temos estereótipos nos calcanhares quando o assunto é vida sexual, mesmo as que já dispensaram há muito o sapatinho de cristal. _

Profissionais da moda e da arquitetura se reúnem no próximo dia 10 no evento Cenários do Design, na Fábrica do Futuro (Rua Câncio Gomes, 609, Floresta), em Porto Alegre, para debater as tendências futuristas do design e fortalecer a produção local, oferecendo novas perspectivas aos criativos da região. O encontro promoverá networking e painéis, além de conteúdo exclusivo de feiras internacionais como Salone del Mobile, integrando tendências globais com a realidade local. Os ingressos estão disponíveis via plataforma Sympla.

A De Sírius Cosméticos criou a linha de tratamento capilar Hair Curve, que reativa a definição de cabelos cacheados, ondulados e crespos que passaram por processos químicos como mechas, progressiva e uso excessivo de chapinha, deixando os fios mais saudáveis e fortes. Os produtos estão à venda no site da marca desirius.com.br/hair-curve.

Malha gaúcha - Trama tropical

Criando malhas há 38 anos, a Biamar lançou a coleção de primavera com mais de cem novos modelos. Sob o conceito Trama Tropical, a marca se inspirou tanto no clima ameno quanto no inverno brasileiro, trazendo peças de tricô como blusas, casacos, saias, entre outros, sempre apostando em tons pastel. As roupas estão disponíveis no site loja.biamar.com.br.

Feira La Movida - Moda e cultura

Ocorre neste domingo, das 10h às 18h, mais uma edição da Feira La Movida na João Telles, esquina com a Osvaldo Aranha, com moda, arte, gastronomia e cultura. Além disso, o evento contará com música ao vivo e outras atividades no local. Mais informações no perfil @feiralamovida.

CARTA DA EDITORA

sexta-feira, 2 de agosto de 2024


02/08/2024
Jaime Cimenti

Cem mil anos de criatividade humana

uma breve história da arte

Há cem mil anos o ser humano faz arte, buscando expressar suas emoções, sua história e sua cultura. A arte é o território da liberdade e da criatividade infinitas, e sua história confunde-se com a trajetória da humanidade. Desde os desenhos rupestres até os atuais movimentos como arte conceitual, pop art, arte de novas mídias e hiperrealismo, a arte busca beleza, harmonia, equilíbrio, resistência e participação. Há quem diga que está difícil definir o que é arte hoje, mas isso mostra as buscas permanentes e as saudáveis inquietações dos artistas.

Uma breve história da arte (L&PM Editores, 304 páginas, R$ 63,90), de Charlotte Mullins, experiente e detalhista apresentadora, escritora e crítica de arte, autora de doze livros sobre artes visuais, é um belo e instigante passeio pelos cem mil anos de arte no mundo. Charlotte fala das marcas dos povos pré-históricos, das obras-primas da Antiguidade e da longeva relação da arte com a religião. A autora trata do Renascimento, de Da Vinci, Giotto, Donatello, Van Eyck, Michelângelo e outros.

Mais adiante, relata como artistas se agrupam e se separam em meio ao tumultuado século XX. Picasso, Frida Kahlo, Georgia O'Keefle, Kathe Kollwitz e outros são enfocados pela autora, que depois fala sobre nossos agitados dias. Arte como resistência aos desafios sociais, novas plataformas e ideias, conceito e atitude sendo mais valorizados que, necessariamente, o objeto final. Artistas como Ai Weiwei, Shirin Neshat e o ícone pop Yayoi Kusama estão na obra. São apresentados artistas esquecidos, como a italiana Sofonisba Anguissola e a chinesa Guan Daosheng. O livro foge do eurocentrismo e do cânone e a jornada traz a América do Sul, Austrália, passando pela Índia, Oriente Médio, Vale do Niger, Japão, Java e Rapa Nui.

O livro proporciona a estudantes, universitários e qualquer adulto interessado uma visão global, ampla e aguçada da história da arte de forma concisa. O livro é ao mesmo tempo erudito, fresco, inclusivo e acessível e mostra como a arte pode fazer pessoas e mundo melhores. 

Lançamentos

Uma poética do efêmero e outros textos ( Edição do Autor, 104 páginas) quarto livro do poeta e escritor dois Santos dos Santos , tem três partes: uma poética do efêmero e outros textos; microcontos e aforismos. “É fluida a nossa percepção de mundo, e nessa insegurança andamos a vida inteira por lugares movediços.” é um dos belos aforismos schopenhauerianos do livro.

Censura por toda parte ( Avis Rara-Faro, R$ 27,47, 128 páginas) de André Marsiglia,consagrado advogado constitucionalista especializado em Liberdade de Expressão , analisa com profundidade e objetividade os bastidores jurídicos do inquérito das fake news e a nova onda repressora que assola o Brasil.

Os maridos ( Editora Intrínseca, 352 páginas, R$ 56,30) romance de estréia de Holly Gramazio é um olhar original e divertido sobre relacionamentos e escolhas determinantes da vida. Ao voltar da despedida de solteira da melhor amiga Lauren é recebida por Michael,seu marido. Só que ela não é casada com ele , que desaparece depois de ir ao sótão trocar uma lâmpada...aí aparecem outros maridos,que desaparecem no sótão...

Domingo

Domingo frio, céu em tons de chumbo, sol escondido. Garoa fina. Acordo cedo, vou em busca do café e dos jornais. Como sou meio cult e setentão, gosto de jornais impressos. Na sacada observo as árvores e os postes com seus fios de energia elétrica e telefonia. Nos cabos de fibra ótica um passarinho pousa. Como se estivesse fazendo um exercício de pilates, ele fica ali, firme, sem ligar para a chuvinha.

Ele está sozinho, enfrentando o frio, o vento e a água. É um bom pássaro gaúcho, que não se entrega diante dos rigores do inverno. Estou só de pijama, está frio ali na sacada, mas não me afasto, hipnotizado pela imagem da ave, que segue ali, impávida, firme e forte.

Os minutos vão passando e a ave ali, sem mover uma peninha sequer, sem um pio, silêncio e concentração totais. O passarinho lembra o cavalo Caramelo, símbolo da resistência, que se quedou, parado, em cima do telhado, aguardando o futuro, no meio da inundação. O pássaro segue ali, seguro de si, na corda bamba, fazendo seu espetáculo de circo ao ar livre, sem se preocupar com toldo, arquibancadas, plateias e aplausos. Ele esta ali, vivendo o seu momento, vivo, sereno, não dando a mínima para as persistentes gotículas da chuva.

Mas eis que o sol aparece entre as nuvens cinzentas, que se abrem como se fossem as cortinas do Theatro São Pedro. O astro-rei mostra que está ali, como em quase todos os dias, para clarear o mundo e as ideias dos humanos e jogar luz na fauna, na flora, nos rios e nos mares. Depois de um primeiro ato, o sol desaparece e as nuvens se movimentam, formando novas cortinas. Como disse o Ulysses Guimarães, política é como nuvem, sempre em movimento .

Digo eu que a política e nuvens se movimentam, muitas vezes, para que tudo fique como já era no tempo do Rei Salomão, que nos deixou o Eclesiastes, onde está escrito que não há novidades debaixo da luz do sol. Nesses últimos séculos houve muitas e rápidas mudanças, mas ainda temos muito o que aprender em matéria de humanismo propriamente dito. O sol volta, o pássaro voa em direção ao infinito, como se fosse um avião pontual carregando passageiros, bagagens e esperanças em direção a algum ponto do planeta.

Era um pássaro ou uma pássara? Não sei, não deu para ver e nem importa. Resolvi tirar o pijama, pois não sou civil e nem militar de pijama. Depois de algum tempo fora da cama, semi-aposentado, visto a roupa do dia. Antigamente alguns aposentados ficavam de pijama o dia inteiro. Uns até iam no armazém da esquina de chinelos e pijama, como seu Setembrino, na minha terra, que botava o pijama assim que chegava em casa e, nos fins de semana, usava o pijama de sexta de tardezinha até segunda de manhã. O Setembrino já fazia isso antes de se aposentar. Já a Maria, que mora sozinha na Serra, depois de aposentada, só tira o pijama quando sai. 

A propósito

Com um mate, sento na poltrona confortável e leio os jornais. Antigamente, de manhãzita, muitos gaúchos pegavam o Correio do Povo e iam direto para o banheiro, para o café ou para o mate. Muitos ainda devem fazer o mesmo, com o Correio, a Zero Hora e o Jornal do Comércio, eterno noventão competente, lépido e fagueiro. Hoje muitos levam o celular para todo lado e aí podem ler os jornais sentados no trono. Nos periódicos as agressões e polarizacões deletérias do planeta, os egos oceânicos, as guerras sem sentido e as notícias boas da reconstrução do RS, das artes e dos esportes. Tem até crônica clássica sobre passarinho, falta de assunto e outras amenidades amadas pelos leitores. (Jaime Cimenti)