quarta-feira, 14 de setembro de 2022


14 DE SETEMBRO DE 2022
MÁRIO CORSO

A quem devemos mais respeito?

Somos mais filhos da mãe ou do pai? Ou então, a quem devemos mais respeito? Biologicamente é fácil. Nos genes dá empate, 50% para cada um. Porém, como herdamos mitocôndrias apenas da mãe, ela ganha. Mas na prática, isso não responde nada.

Existe um macabro mito grego em torno dessa questão. O rei Agamenon sacrificou ritualmente sua filha Ifigênia aos deuses para obter vento aos barcos que rumavam para a guerra à Troia. Contrariada, a rainha Clitemnestra arquitetou vingar a filha. Recebeu o esposo com pombas quando ele voltou da guerra. Mas era só ardil para assassiná-lo.

Orestes, irmão da sacrificada, vê-se na obrigação de vingar a morte do pai e mata a sua mãe. Enlouquecido pela perseguição das Erínias, monstros que atormentam quem derramou sangue do seu sangue, buscou julgamento em Atenas. A questão era se a vingança procedia. Ou seja, quem ele deveria respeitar mais, o pai ou a mãe?

Deu empate no julgamento de Orestes. A absolvição veio com o voto de Atenas (Minerva, para os romanos) que presidia o júri. A deusa justifica que não teve mãe, fora gestada na cabeça de Zeus, logo sem dívida para com a maternidade. Este julgamento mítico é lido como o nascimento da justiça.

No século 19, um jurista suíço, J. J. Bachofen, acrescenta outra interpretação. Ele pensa esse mito como a passagem alegórica do matriarcado ao patriarcado. A virada de quando o pai tornou-se o centro da autoridade. No século passado, a tese de um poder feminino originário ganhou inúmeros teóricos, curiosamente sem menção a Bachofen. Até hoje essa tese não tem correspondência arqueológica. O que já se pode dizer é que, na Idade do Bronze, a relação de poder homem/mulher era equilibrada. A posterior consolidação do patriarcado, a escolha pelo pai, é a história da assimetria de poder e do apagamento das mulheres.

Alguns historiadores creditam o culto a Virgem Maria, um fato tardio no cristianismo, à influência dos povos europeus autóctones recém-cristianizados. Os ditos bárbaros, veja só, não suportavam uma teogonia sem nenhuma alusão ao feminino. Descia-lhes mal a aridez de uma religião sem deusas. Mitos e fatos respondem a diferentes registros, mas certa é a eterna tensão referente ao poder (e à falta dele) das mulheres. A guerra simbólica subterrânea em torno disso estrutura nosso modo de pensar a vida, portanto é indissociável das escolhas políticas. O voto também determina os direitos e o espaço de liberdade que as mulheres terão. Por isso, a pauta dos costumes gera tanta gritaria. Pense nisso na próxima eleição.

MÁRIO CORSO


14 DE SETEMBRO DE 2022
INFORME ESPECIAL

Quanto tempo estamos dispostos a dedicar ao trabalho?

Tenho a sensação de que nunca surgiram tantos termos inusitados - e em tão pouco tempo - para designar fenômenos do mundo do trabalho. Pode parecer apenas modismo, mas tem algo mais aí.

Há alguns meses, a expressão da vez era a "grande renúncia", ou "great resignation", como foi chamada a onda de desligamentos voluntários que começou nos EUA. Agora, o mote é a "demissão silenciosa", ou "quiet quitting", que anda reverberando na mídia, nas redes sociais e nas mesas de bar. A expressão define a opção por trabalhar apenas o necessário - sem excessos e sem culpa.

Estamos falando, é evidente, de uma parcela ínfima da população, que pode se dar o luxo de fazer escolhas. Ainda assim, esse movimento merece atenção, porque envolve mão de obra qualificada e, via de regra, jovem - os famosos "cérebros" a reter.

Com a pandemia, muitos repensaram a vida. Afinal, quanto tempo estamos realmente dispostos a dedicar ao trabalho? Até onde deve ir o limite entre o pessoal e o profissional? Vale a pena ser um "trabalhador compulsivo"?

A geração Z (pessoas nascidas a partir de 1995) não vê mais o modelo tradicional - que marcou a trajetória de seus pais - como ideal de vida. Até os millenials (que vieram ao mundo entre 1981 e 1995) estão submergindo em questionamentos do tipo, após crises de esgotamento (a famosa síndrome de Burnout).

Tanto a grande renúncia quanto a demissão silenciosa são produtos dessa insatisfação coletiva. O desafio, agora, é encontrar o meio-termo entre o mal-estar difuso (mas potente) experimentado pelas novas gerações e o que empresas e empregadores buscam. E não, não será uma tarefa fácil.

Recepção calorosa e poliglota

Um dos pontos fortes do Acampamento Farroupilha, em Porto Alegre, a gente já sabe: é a hospitalidade gaúcha. Mas, no piquete Trio da Canha, a turma se superou. Quem chega ao local, no Parque Maurício Sirotsky Sobrinho, dá de cara com três placas em madeira, escritas à mão, desejando boas-vindas em diferentes línguas. Os avisos informam ainda que ali se fala espanhol e inglês.

A ideia partiu do chef (e bodegueiro) José Luiz Fernandes, o Carreirinha, que viajou o mundo cozinhando.

- Sou fluente nas duas línguas e achei que seria legal destacar isso, até como forma de inclusão. O pessoal gostou da ideia, e a minha mulher pintou os letreiros. Esses dias, até já recebemos um gringo - conta Carreirinha.

O espaço também recebeu rampa para cadeirantes - tudo para receber bem os viventes.

- Nosso maior objetivo é transmitir uma energia boa para as pessoas. Queremos que todos se sintam acolhidos - diz Jailton Fernandes, irmão de Carreirinha e patrão do piquete.

JULIANA BUBLITZ

terça-feira, 13 de setembro de 2022


13 DE SETEMBRO DE 2022
CARPINEJAR

Nem a glória o domesticou

Não existe nenhum técnico como Felipão. É um avô com responsabilidades de pai. É um avô criando os seus netos da bola. Ele vem destruindo os estereótipos da velhice. Apesar dos 73 anos, não fica encolhido na casamata com uma coberta por cima dos joelhos no inverno paranaense. Permanece à beira do campo gritando, orientando, incentivando os seus atletas. Continua sendo expulso pelo juiz, tamanha a sua explosão sanguínea. Há guris que não têm o mesmo preparo físico.

Felipão é fênix renascendo das cinzas, um acumulador de recordes. Nunca desiste de apostar a sua reputação por uma nova conquista. Vive desafiando o destino. Pode-se dizer qualquer coisa a respeito dele, menos que é acomodado, menos que se senta em cima dos seus títulos.

Já era campeão do mundo pelo Brasil quando recebeu uma surra da Alemanha na semifinal de 2014. Caiu, levantou de novo, mais forte do que antes. Está agora na sua quarta final de Libertadores, comandando o Athletico-PR, combatendo supremacias do Sudeste e plantéis milionários.

O gaúcho de Passo Fundo é viciado em trabalhar. Desde a sua ubiquidade no início dos anos 1970, quando abusou da quilometragem do seu fusca indo e voltando entre três cidades: dava aulas de educação física na Escola AJ Renner (na época Ginásio Industrial), em Montenegro, treinava no Caxias e estudava no Centro Universitário Metodista - IPA, em Porto Alegre.

Longas distâncias jamais foram desculpa para o seu aperfeiçoamento, para o seu apetite pelo infinito. Não existe time grande ou pequeno para ele, o que existe é time motivado ou desorganizado. Não depende de contratações milionárias. Assim como obteve a tríplice coroa clássica (copa continental, campeonato e copa nacional) com os tradicionais Palmeiras e Grêmio, alcançou uma Copa do Brasil surpreendente para o Criciúma.

Talvez só perca em importância histórica para Zagallo, que teve uma carreira mais vitoriosa como jogador, detentor do recorde de títulos das Copas do Mundo Fifa (como atleta em 1958 e 1962, como treinador em 1970 e como coordenador técnico em 1994).

Ao lado dele, Felipão é o técnico da história do futebol a disputar três Copas do Mundo e conduzir sua seleção à semifinal em todas as suas participações. Mesmo com retrospecto mano a mano com Zagallo, conta ainda com acréscimos em sua trajetória ao treinar o poderoso Chelsea na Premier League, e a seleção portuguesa, vice-campeã na Euro 2004 e quarto lugar na Copa do Mundo de 2006, na Alemanha.

É o único gaúcho que pode, um dia, virar nome de rua, ao mesmo tempo, em Portugal, Uzbequistão, Kuwait, China e em diversas capitais brasileiras, de Maceió a Curitiba. Luiz Felipe Scolari é chamado de Felipão pelo gigantismo do seu esforço. Permanece com alma de zagueiro, chutando preconceitos para longe.

A glória não o domesticou, a derrota não o subjugou. Não o vejo encerrando a carreira tão cedo. Descendente de italianos, praticante do vêneto brasileiro, ainda rosna e morde, porque sabe que "Can vècio no' ghe sbaia a la luna".

A luz da lua é o seu refletor.

CARPINEJAR

13 DE SETEMBRO DE 2022
CARLOS GERBASE

Aqui e agora

A capacidade de imaginar é característica da nossa espécie. Outros animais talvez a possuam, mas é quase consenso entre os cientistas que a imaginação humana evoluiu com um grau de sofisticação sem igual na natureza. Criamos cosmogonias, mitos e divindades. Contamos histórias sobre heróis e anti-heróis. Somos capazes de reinterpretar o passado e supor o que acontecerá no futuro. 

Antes de viajar, pensamos no roteiro que nos levará a lugares desconhecidos. Imaginamos, muito antes de termos provas concretas, que pessoas nos amam ou nos odeiam. Escrevemos romances e peças de teatro, fazemos filmes, pintamos quadros, compomos óperas. A própria História é uma narrativa de fatos que não presenciamos. Em resumo: nossa mente é uma máquina de abandonar o momento presente e o local físico de nosso corpo. E isso é bom. É parte da essência dos humanos.

Há, contudo, um efeito colateral. Parte de nossa mente, em especial aquelas áreas que evoluíram há mais tempo, algumas delas responsáveis pelo processamento das emoções, estão ainda intimamente relacionadas ao estado "natural" das outras espécies animais, que vivem exclusivamente no aqui e no agora. A imaginação nos afasta de algo precioso: a capacidade de usufruir com a necessária atenção do momento presente, o que não é bom e pode até ser motivo de sofrimento. 

Esse paradoxo existencial é objeto de estudo da filosofia e da psicologia há séculos. Nos últimos tempos, tem se fortalecido a ideia de que voltar ao aqui e agora é importante para manter a saúde mental. A palavra da moda é mindfulness, e as estantes de autoajuda das livrarias estão cheias de obras que mostram supostos atalhos para a plena atenção ao presente. Nada contra. Atalhos com palavras gringas podem funcionar.

Só não venham me dizer que os gringos do Ocidente inventaram todos os atalhos. A meditação, surgida no Oriente há milênios, ajuda seus praticantes a domar a imaginação, proporcionando que mentes inquietas demais possam repousar no aqui e agora, o que é muito bom para a saúde. E, por incrível que pareça, contribui para que, depois da prática, a imaginação funcione melhor e nos ajude nos processos criativos, tanto artísticos quanto científicos, em vez de ser uma máquina geradora de ansiedade. 

Meditação nada tem a ver com religião ou com pensamento dogmático. Como sintetiza David Lynch, é uma maneira de abandonar as ondas agitadas da superfície e pescar nas águas profundas de nossa mente. Deveria ser ensinada em todas as escolas, despertando as crianças e os adolescentes para uma vida com mais autoconsciência e cuidado de si.

CARLOS GERBASE

13 DE SETEMBRO DE 2022
+ ECONOMIA

"Dinheiro vivo" X "moeda nacional"

Quase duas semanas depois da revelação do site UOL de que 51 dos 107 imóveis negociados pela família do presidente e candidato à reeleição Jair Bolsonaro desde 1990 foram pagos, total ou parcialmente, com dinheiro vivo, ainda há confusão sobre a forma de pagamento.

Primeiro, "dinheiro vivo" ou "dinheiro em espécie" são formas de definir pagamento em notas e moedas. Era a forma mais usada para compras pequenas, de um cafezinho a um lanche. Com o crescente uso de cartões de crédito, o surgimento do Pix e até a pandemia (depois de pegar em notas que circulam, é preciso higienizar as mãos), caiu ainda mais em desuso. Como descrevem agentes do mercado imobiliário, raramente se usa "dinheiro vivo" para quitar compras de imóveis, por envolver altos valores e, portanto, grandes volumes de cédulas, que precisam ser transportados com segurança.

Segundo, "moeda corrente nacional" é a expressão usada para qualquer transação feita, no caso do Brasil, em reais. A quitação pode ser em dinheiro vivo, cheque ou transferência bancária, inclusive eletrônica, e até em "dinheiro vivo". Nesse caso, um pagamento em Pix, por exemplo, é uma operação em "moeda corrente nacional", por ser uma transferência bancária instantânea. Logo, qualquer outra operação que não seja em "moeda corrente nacional" terá de ser em dólares, euros, libras, pesos uruguaios ou qualquer outra moeda estrangeira.

Desde a primeira reportagem do UOL, feita pelos jornalistas Thiago Herdy e Juliana Dal Piva, foi especificado que pagamento em dinheiro vivo foi feito em 51 dos 107 imóveis comprados pela família (pais, irmãos, filhos e ex-mulheres), em valor de R$ 13,5 milhões (R$ 25,6 milhões atualizados pelo IPCA), conforme detalhado em escrituras que especificam quantia "contada e achada certa", expressão usada para pagamento em espécie porque cheque ou transferência não se "conta e acha certo".

Ainda conforme a reportagem, cheque ou transferência bancária foram usados para quitar 30 imóveis, com valor de R$ 13,4 milhões (R$ 17,9 milhões atualizados pelo IPCA). Os autores do levantamento fizeram questão de apontar que, em 26 imóveis, "não é possível saber a forma de pagamento" porque "esta informação não consta nos documentos de compra e venda". Essas aquisições somaram pagamentos de R$ 986 mil (R$ 1,99 milhão atualizados).

Parte da comprovação de pagamento em espécie vem de inquéritos policiais abertos para levantar a origem desses recursos, na maioria dos casos relacionados a Flávio e Eduardo Bolsonaro, investigados por envolvimento em apropriação de parte dos pagamentos dos funcionários de seus gabinetes, a chamada rachadinha. É bom lembrar, ainda, que a primeira reação de Bolsonaro não foi questionar que a quitação tivesse sido feita em notas de real: ao contrário, perguntou apenas "qual o problema em comprar com dinheiro vivo algum imóvel?".

A tese da "moeda corrente nacional" foi construída mais tarde e também abre interrogações: se 51 dos 107 imóveis tivessem sido pagos em "moeda corrente nacional", a quitação dos demais teria sido em dólares, euros, libras, pesos uruguaios ou outra moeda estrangeira? Não deve ser o caso. Leitores também criticam a falta de avanços na apuração do caso, então é bom lembrar que existe um pedido de investigação sob análise do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça.

MARTA SFREDO

13 DE SETEMBRO DE 2022
NÍLSON SOUZA

Neutralidade crítica

O uso adequado das palavras é sempre um desafio. Conheço um homem extremamente habilidoso nas tarefas de construir e consertar casas, mas que nunca teve a oportunidade de se alfabetizar. Toda vez que ele vai a uma loja, banco ou repartição pública e se atrapalha com crachás, rótulos ou formulários, reclama:

- É muita democracia! Na primeira vez que o ouvi desabafar, achei que estava ironizando. Na segunda, percebi que confundia palavras que rimam e têm a mesma terminação. Pode até parecer engraçado, mas, na verdade, é bem triste isso, pois a confusão sonora retrata o descaso histórico de nossos governantes com a educação.

Mais dolorosa ainda é a constatação de que outras pessoas tiveram a oportunidade de aprender e não aprenderam. Outro dia um colega criticou o político que disse preferir clubes de tiro a bibliotecas. Foi o que bastou para receber mensagens furiosas dos seguidores do dito-cujo, mais de uma com a seguinte acusação:

- Você está sendo imparcial! Assim mesmo, com o prefixo "im" bem evidenciado. Pretendiam xingar o jornalista e deram a ele um atestado de idoneidade, pois a imparcialidade é um dos valores mais apreciados em nossa profissão.

Aqui não se trata apenas de mau uso de palavras, há também o viés do fanatismo. Militantes de determinadas causas sempre duvidam de que alguém possa efetivamente ser imparcial na análise ou no julgamento de temas polêmicos. Uma vez, quando eu era editor de Esporte, o saudoso colega Paulo Sant?Anna, torcedor confesso e apaixonado do Grêmio, me perguntou na véspera de um Gre-Nal para quem eu torceria. Respondi que não torceria para ninguém, pois me considerava neutro - o que ele contestou de bate-pronto:

- Para mim, neutro é colorado!

Partidários raramente admitem a neutralidade alheia. Veem os isentos - isentões, na linguagem debochada da polarização política - como inimigos de suas causas e propósitos. Ou como hipócritas. Não acreditam que alguém possa estar sendo sincero ao manifestar indiferença por determinado resultado esportivo ou ao se posicionar num ponto equidistante dos extremos políticos.

Reconheço que é mesmo muito difícil ser neutro, imparcial e isento todo o tempo, especialmente diante de situações que desafiam as nossas crenças. Porém, creio que a neutralidade indispensável ao meu ofício não deve me impedir de repudiar quem enaltece torturador nem de condenar quem rotula brasileiros de militantes da KKK apenas por vestir verde e amarelo.

NÍLSON SOUZA


13 DE SETEMBRO DE 2022
INFORME ESPECIAL

A rainha Elizabeth e a Peterlongo

Com funeral marcado para o dia 19, em Londres, a rainha Elizabeth II esteve uma única vez no Brasil, em 1968 - e o que talvez você não saiba dessa história é que, durante a visita, a monarca foi recebida com o "Fino Champagne Peterlongo Brut". Um dos brindes ocorreu em São Paulo (abaixo), na companhia do então governador Roberto Sodré.

A bebida produzida em Garibaldi, na serra gaúcha, fazia sucesso em eventos oficiais do país desde os anos de 1930, quando Getúlio Vargas se tornou presidente da República. O gaúcho era amigo pessoal do saudoso Armando Peterlongo, que por anos comandou a vinícola. Reza a lenda que Elizabeth elogiou a qualidade do produto brasileiro.

Uma lupa sobre os 33 tribunais de contas do país

Responsáveis por fiscalizar os gastos públicos no Brasil, os 33 tribunais de contas do país - incluindo a Corte no Rio Grande do Sul - estão passando por um processo de avaliação com o exame de mais de 400 itens. Chamado de "marco de medição de desempenho", o trabalho é uma tentativa de "olhar com lupa" a forma como atuam os principais órgãos de controle brasileiros.

Pode parecer um tema árido e distante do dia a dia, mas não é. Cabe a esses tribunais evitar o mau uso do dinheiro de quem paga impostos e impedir fraudes. Por isso é tão importante saber como atuam. São transparentes? A fiscalização segue um padrão? Há lacunas? Há exemplos que podem ser replicados e adotados em todos os Estados? Todas essas questões serão respondidas.

- A intenção é identificar a realidade de cada tribunal e examinar como procedem na fiscalização aos jurisdicionados. O objetivo, com isso, é melhorar a atuação com o apoio dos próprios órgãos. Todos, inclusive o TCU, se dispuseram a participar - explica o gaúcho Cezar Miola (foto), à frente da Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil (Atricon).

Coordenado pela entidade, o levantamento tem a certificação externa da Fundação Vanzolini, ligada à Universidade de São Paulo (USP). A última análise do tipo ocorreu em 2019. Desde então, devido à pandemia, o escrutínio não era realizado, o que torna o esforço atual ainda mais relevante. Desde agosto, 20 tribunais já receberam visitas técnicas. A previsão é de que o trabalho in loco termine no próximo dia 30. O diagnóstico final sobre a qualidade e a agilidade do controle externo será conhecido em novembro.

JULIANA BUBLITZ

segunda-feira, 12 de setembro de 2022


12 DE SETEMBRO DE 2022
CLÁUDIA LAITANO

Amazonize-se

Às vezes, as coisas têm que piorar muito antes de melhorar um pouco. O que aconteceu com a Amazônia durante o atual governo estabeleceu um patamar tão indigno para a ação do Estado na proteção da floresta e dos seus habitantes que resta aos otimistas sonhar com um movimento na direção contrária nos próximos anos.

Enquanto isso, a floresta e seus defensores resistem como podem. Parte dessa história de resistência é narrada no premiado documentário O Território, que chegou aos cinemas brasileiros na semana passada. Com direção do americano Alex Pritz e participação de indígenas à frente e atrás das câmeras, o filme mostra o esforço do povo Uru-eu-wau-wau para proteger seu território, localizado em uma área de reserva ambiental em Rondônia.

Os dois personagens que conduzem a narrativa são a inquebrantável e heroica ambientalista Neidinha Bandeira e o indígena Bitaté Uru-eu-wau-wau - um garoto que ainda não havia completado 19 anos quando foi escolhido para comandar a luta do seu povo pelo direito de continuar existindo. Descendente de indígenas que viviam isolados até 1981, Bitaté aprendeu a manejar drones e a usar a tecnologia a favor da proteção da floresta. Impossível não se comover com sua coragem e a sabedoria precoce. O documentário acerta também ao dar rosto e voz aos grileiros, uma gente pobre e sem perspectiva que sonha em explorar a Amazônia da mesma forma que os caubóis desbravaram o Velho Oeste americano no século 19 - sem perceber o valor daquilo que está sendo destruído.

Assisti ao filme na última segunda-feira, Dia da Amazônia, em um cinema no West Village, em Nova York. Não foram apenas os brasileiros que saíram da sessão apreensivos com o destino da floresta - essa riqueza sem tamanho que o destino colocou sob nossa distraída proteção. Mas apenas nós temos o poder de começar a dar um novo rumo para essa história já a partir das próximas eleições.

A melhor coisa que nós, brasileiros, podemos fazer pela floresta (além de votar contra quem defende a pilhagem) é se interessar pelo que acontece por lá - da mesma forma, ou mais, que os estrangeiros. Não deixe de assistir a O Território e de apoiar a recém-lançada plataforma de jornalismo Sumaúma (apoia.se/sumaumajornalismo), capitaneada pela multipremiada jornalista gaúcha Eliane Brum. Como propõe o manifesto da nova iniciativa: "Sumaúme-se, amazonize-se".

CLÁUDIA LAITANO

12 DE SETEMBRO DE 2022
CARPINEJAR

Como quer ser chamado?

Há uma nova lei federal, publicada em junho, que facilita a troca de nome ou sobrenome. O procedimento pode ser feito num cartório, dispensando o desgaste anterior de entrar com o pedido na Justiça.

Qualquer pessoa maior de idade tem o direito à adaptação do nome, basta levar seus documentos pessoais. Não será preciso justificar a mudança, não será exigida uma motivação.

Eu sempre fui favorável a que todo mundo, de modo geral e livre, escolha o próprio nome. Agora é viável. Você permanece com o nome dado pelos pais até os 18 anos e depois tem a chance de escolher um definitivo. Pode confirmar ou inovar. Fica a seu critério honrar o batismo ou buscar uma nominação que melhor o represente.

Assim, a família não será mais culpada pelo intruso "h", pelo penetra "y", pelo invasivo "w", pela grafia estranha e estrangeira, que fez você passar a vida corrigindo os outros ou soletrando como se escreve.

Será uma libertação. Você não vai mais sonhar com um filho para se vingar dos pais. Porque o costume é oferecer ao filho o nome que você gostaria de ter para si. Combateremos os atos falhos, as suplências, os traumas.

Na maioridade, após o Ensino Médio, você estará pronto para ser chamado como quiser. Tirará a sua certidão de nascimento final. Deixará para trás a sua adolescência e partirá para a vida adulta, assumindo as suas responsabilidades penais e civis. Haverá um marco da emancipação do sujeito, de soltura ortográfica.

Algumas transformações e metamorfoses no sobrenome foram também desburocratizadas. Acabou a lenga-lenga de adotar outra assinatura somente com o casamento. Casará antes consigo mesmo, numa demonstração arrebatadora de amor-próprio.

Contará com a oportunidade de destacar a sua ligação familiar por afinidade inserindo os sobrenomes dos avós. Poderá superar os limites do cerco sanguíneo com a inclusão dos sobrenomes da madrastra e do padrasto.

Desfrutará do poder papal, pois o sumo pontífice, ao assumir o Vaticano, desliga-se do batismo e homenageia uma referência espiritual. Responde à pergunta do colégio de cardeais: "Quo nomine vis vocari?" (Como quer ser chamado?).

A nova lei democratizou o privilégio dos artistas, que têm licença poética de recomposição do nome conforme a numerologia, o mapa astral e o sucesso.

Os músicos famosos e badalados jamais são encontrados no Spotify com o seu registro de nascença. Bruno Mars é Peter Gene Hernandez. Lana Del Rey é Elizabeth Woolridge Grant. Lady Gaga é Stefani Joanne Angelina Germanotta. Anitta é Larissa de Macedo Machado.

Afinal, ninguém nunca leu um livro sequer do chileno Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto, apesar de ele ter lançado mais de 30 obras fundamentais da lírica hispânica e obtido o Prêmio Nobel de Literatura. Pois ele inventou o seu nome: Pablo Neruda. Foi o seu primeiro poema.

CARPINEJAR

12 DE SETEMBRO DE 2022
OPINIÃO DA RBS

O agro e a inovação

O agronegócio é uma das bases tradicionais da economia gaúcha, e a inovação, uma aposta firme para o futuro. Nada melhor, portanto, do que promover uma aproximação proveitosa para ambos e para o Estado, incentivando empresas emergentes de tecnologia voltadas à busca por soluções para o campo. Mais um passo neste objetivo foi dado na semana passada, com a apresentação do projeto de implantação de uma casa permanente para abrigar startups no Parque de Exposições Assis Brasil, em Esteio.

Trata-se de uma promissora parceria entre a prefeitura do município, o governo do Estado e a Feevale, instituição de reconhecida trajetória no incentivo à inovação. Os detalhes dos planos foram mostrados em reportagem de Bruna Oliveira publicada na sexta-feira em Zero Hora. Mesmo encravado na Região Metropolitana, o parque também é um símbolo do agronegócio gaúcho, conta com boa infraestrutura e acessos e é próximo de importantes universidades, de onde saem mentes fervilhantes de ideias. Reúne, portanto, plenas condições para prosperar e ajudar as mais diversas atividades relacionadas à agropecuária com a invenção de novos processos, produtos ou serviços que elevem a produtividade no campo.

A intenção, em síntese, é formar um hub das chamadas agtechs, as startups focadas no agro. Será um ambiente onde as empresas encontrarão as condições necessárias para se desenvolver, enquanto estarão mais próximas das demandas do setor. O projeto está ainda sintonizado com uma antiga meta de ocupar mais o Assis Brasil, hoje movimentado basicamente nas feiras agropecuárias e outros eventos que o local costuma receber.

Os organizadores estabeleceram que a seleção das primeiras empresas será feita a partir da apresentação de propostas para solucionar 35 gargalos listados pela cadeia produtiva do setor. As escolhidas serão conhecidas em novembro e, em seguida, começarão a receber mentoria. A intenção é construir uma casa de 400 metros quadrados para o funcionamento do hub. A Feevale prestará assessoria às startups.

A agropecuária é um dos segmentos econômicos mais modernos e competitivos do Rio Grande do Sul e do Brasil e os produtores estão constantemente em busca de inovação e incorporando novas tecnologias, das sementes ao maquinário. Tudo para produzir cada vez mais no mesmo espaço. A produtividade, da mesma forma, é perseguida pelos demais elos da cadeia de insumos, máquinas e serviços. Assim, é natural e salutar que cada vez mais surjam novas agtechs.

No ano passado, o Tecnopuc, na Capital, inaugurou o Hub Agritech, com objetivos semelhantes. A Expointer de 2022, recém encerrada, deu especial atenção a esta tendência, com a criação do RS Innovation Agro, espaço que recebeu mais de 40 mil pessoas durante a feira e contou com a apresentação de startups e palestras. Com uma produção primária forte e parques tecnológicos espalhados por todos os cantos de seu território e capital humano farto, o Estado tem amplas condições de ver, em breve, iniciativas semelhantes florescendo também em outras regiões.

 


10 DE SETEMBRO DE 2022
MARTHA MEDEIROS

Ausência amorosa

Duas pessoas que amo somaram pontos no ranking dos meus afetos, não por estarem ao meu lado, mas por não estarem. Às vezes, o maior presente que você pode dar a alguém é a sua ausência, e entendo se você discordar. Vem aí uma confissão atípica.

Sou uma mulher que não se atrapalha com a solidão - gosto de ficar sozinha. Minha parceria comigo funciona, o que não impede que eu valorize os momentos com amigos e familiares. Aliás, é justamente por isso que os amo tanto: eles são meu ponto dentro da curva, me fazem sentir "normal". Sei lá por que, é considerado anormal a pessoa se contentar com a própria companhia, algum problema a criatura deve ter.

Devo ter. Gosto de flanar pelas ruas, ir ao cinema, assistir a séries, sem me sentir incompleta por não haver alguém ao lado. Não por acaso, elegi a literatura como profissão: não há como exercê-la em equipe. Sou uma loba solitária e debato sobre isso com meu terapeuta uma vez por semana - nos outros dias, me trato por escrito, no abandono do meu escritório, onde estou agora, sozinha e ao mesmo tempo com você, que me lê.

Entrando no assunto: durante a pandemia, não viajei. Surgiu agora a ocasião e a urgência de pegar um avião e sobrevoar o oceano. Não era o melhor momento para meu namorado, mas, se eu insistisse, ele embarcaria comigo. Não insisti e ele não me impôs nenhuma DR. Conhece a mulher que tem. Sabe que depois de um longo período em que ficamos isolados do mundo, voltados um para o outro, eu precisava matar saudades de mim. Parece simples e é simples, mas o apreço à simplicidade é uma mentira que as pessoas contam. No fundo, adoram um drama, acreditam que as discussões dão mais consistência à vida. Geralmente são jovens, têm tempo para desperdiçar. Não é o meu caso. Sem drama, estou embarcando apenas com minha mochila.

Mais difícil foi contar para uma amiga que mora a quatro horas de trem da cidade onde encerrarei meu rápido tour. Como explicar que o grande encontro marcado era comigo mesma? Se eu não a visse há um longo tempo, seria diferente, mas estivemos juntas poucos meses atrás. Mandei o WhatsApp, contei da viagem. E ela foi de uma classe que, mesmo que eu esperasse, me surpreendeu: "Te conheço, não precisa fazer cerimônia comigo: se precisares de companhia, me chama, mas sei que não vais precisar". Amizade de mais de 40 anos. A preciosidade que é.

Culpa? Óbvio que irá acondicionada em um nicho da bolsa. Sou católica, apostólica, romana. Candidata à crucificação. Mas não consigo abdicar dos meus desejos. Não mais. A maturidade veio definitivamente em meu auxílio, tanto a minha, quanto a maturidade de quem convive comigo. Você tem medo de envelhecer? Não tenha. É quando o amor se revela em plenitude, dispensando os clichês.

MARTHA MEDEIROS

10 DE SETEMBRO DE 2022
LEANDRO KARNAL

Se o seu Ensino Médio foi bom (e a lembrança dele persiste), o nome do nobre francês Laplace está na memória. Há mais de dois séculos, o pensador estava absorvido por um desafio em plena era napoleônica. Se eu dominasse todas as massas, forças, resistências, direções e densidades dos materiais, eu conseguiria um universo previsível? Nada mais típico do século 19 do que tentar matematizar o cosmos. O positivismo e o marxismo possuem essa ansiedade em comum: a leitura científica e exata de tudo é capaz, inclusive, de prever o futuro.

O desejo é aceitável e justo. Um bom jogador de xadrez tenta estabelecer e antecipar respostas no tabuleiro. Quantas mais ele conseguir antever, maior será seu sucesso no jogo. Uma vida "à Laplace" seria mais eficaz?

A dúvida está no questionamento de Ivan Ilitch, a personagem de Tolstoi. Ele fez tudo certo, mediu todos os passos e, mesmo assim, ficou diante do acaso infeliz no fim da sua vida. O desafio do acaso ou, para usar termo mais atual, do randômico é um obstáculo aos adeptos de Laplace e, inclusive, aos algoritmos. Como eu digo algumas vezes, um avião, quando cai, leva à morte quem controlou ou não o colesterol ruim.

De um lado, o espírito do aristocrata francês antevendo e gozando as delícias de um mundo de laboratório com balanças de precisão e "condições normais de temperatura e pressão"; de outro lado, o mundo real...

No ano de 1812, quando Laplace pensava isso, Napoleão estava à frente de um imenso exército para punir a Rússia. Sabemos do destino gelado do plano do Corso. Um gênio estratégico, o general Bonaparte, avançando em passo militar firme. Ao fundo, uma música kitsch contemporânea: "que será, será...". Previsibilidade versus fatalismo, ciência contra o aleatório: eis o diálogo universal e permanente.

Um engenheiro estuda resistência de materiais. A fadiga do concreto é avaliada. Os dados objetivos e matemáticos servem para comprovar a ciência: bem orientada, a racionalidade diminui muito o acidente contra a, digamos, "pretensão" científica, o chamado efeito borboleta. Cada variável nova, mesmo que infinitesimal e mínima, detona consequências imprevisíveis. Se assim não fosse, a medicina seria uma ciência exata; criar filhos poderia tornar-se uma equação estável com variáveis controláveis. O corpo humano tem interações imprevisíveis infinitas. O corpo dos filhos é ainda mais instável. As reações emotivas de alguns adolescentes não poderiam ser contidas por uma matriz de uma rede de supercomputadores do MIT. Temos de aceitar o caos como parte da existência. Desde 1961, fala-se no "efeito borboleta". Criarei um termo novo a partir do belo coletivo do inseto delicado: "efeito panapaná".

Antes se falava que uma borboleta batia suas asas, e um tufão se formava do outro lado do mundo. Hoje, um panapaná se agita e provoca muitas alterações, inclusive sobre outros insetos que passam a se agitar na reação em cadeia do caos.

Arrisco-me com exemplo político em tempos minados. Vamos lá. O presidente Lula terminou seu segundo mandato com popularidade muito alta. O público consagrava seu governo nas pesquisas de opinião. Fez sua sucessora. Dilma não apresentou o mesmo índice. Quando foi afastada do poder, no meio do segundo mandato, arrastou parte do prestígio do Partido dos Trabalhadores. A eleição de Bolsonaro no oposto do espectro político parecia sepultar a estrela do PT. Houve um momento em que a maior cidade governada por esse partido foi Rio Branco, no Acre.

A instabilidade do panapaná sempre ocorre. Livre da cadeia e inocentado de muitos processos, Lula voltou ao páreo na disputa pela benevolência do eleitorado. A popularidade de Bolsonaro oscilou bastante, o mesmo ocorrendo com a de Lula. Houve borboletas e mariposas adejando em gabinetes de ódio.

O que buscam tantos insetos de direita e de esquerda? Buscariam o centrão? Temos de pensar que uma borboleta almejar o cargo de presidente deveria ser submetida a uma investigação psiquiátrica. A família da borboleta será investigada e surgirão fatos obscuros. Se não existirem, serão criados. O salário não é bom. O poder é limitado por contrapesos e verbas consignadas. As borboletas donas de banco possuem mais poder que a arquiborboleta do jardim do Planalto. O palácio borboletal não é o mais confortável do mundo. O prestígio vem acompanhado de muito desgaste. Há quem já tenha dito não poder mais tomar um caldo de cana, algo básico para as borboletas comuns.

Laplace não estudou as borboletas. Elas são imprevisíveis e, talvez, irracionais. Geralmente temos raiva delas. Talvez devêssemos ter mais compaixão. Podem ser apenas mariposas, morrendo ao se baterem contra a luz que nunca atingirão. Alguém tem esperança de entender essa busca? São insetos estranhos os políticos, mas seríamos flores dóceis a servir-lhes de alimento? O exame psiquiátrico deveria ser para candidatos ou também para eleitores?

LEANDRO KARNAL

10 DE SETEMBRO DE 2022
DRAUZIO VARELLA

TRÊS PESQUISAS

1) Andar para viver mais

O benefício do exercício físico de baixa intensidade na expectativa de vida de homens mais velhos foi avaliado por uma equipe de pesquisadores de diversas universidades norte-americanas. O estudo começou em 1980 e envolveu 707 homens não fumantes, de 61 a 81 anos de idade, acompanhados por um período de 12 anos.

Nesse período, aconteceram 208 mortes. A mortalidade entre os homens que andavam menos do que uma milha (1,6 km) por dia foi o dobro da encontrada entre os que andavam mais do que duas milhas (3,2 km) diárias.

Morreram de doenças cardiovasculares 6,6% dos homens do grupo que andava menos e 2,1% dos que andavam mais. As mortes por câncer também foram significativamente superiores nos mais sedentários: 13,4% versus 5,3%, enfatizando o conceito de que o câncer é uma doença prevenível, em muitos casos.

O número total de mortes ocorridas entre os mais ativos no período de 12 anos foi o mesmo que aconteceu em apenas sete anos no grupo que andava menos do que uma milha por dia.

O presente estudo mostra que o exercício físico aumenta a longevidade, mesmo quando de baixa intensidade e iniciado numa fase mais tardia da vida. Afinal, o corpo humano é uma máquina desenhada para o movimento.

2) O cheiro da felicidade e do medo

Como outros animais, seres humanos são capazes de enviar sinais químicos que revelam estados emocionais. Pesquisadores da Rutgers University, em Filadélfia, aplicaram um chumaço de algodão nas axilas de 25 homens e mulheres, enquanto assistiam a um filme alegre. Depois repetiram a experiência com um filme que provocava medo. A seguir, os chumaços de algodão foram colocados em frascos de vidro e rotulados com código. Uma semana mais tarde, 77 indivíduos de ambos os sexos tentaram identificar pelo olfato as sensações de felicidade e medo impregnadas no algodão contido em cada frasco. Homens e mulheres detectaram o "cheiro de medo" numa frequência maior do que aquela atribuída ao acaso. O "cheiro de felicidade" exalado nas axilas de ambos os sexos, no entanto, foi captado com mais precisão pelas mulheres; os homens foram capazes de identificá-lo apenas nas axilas femininas.

Embora evidências de que sinais olfatórios carreguem informações sobre estados emocionais já tenham sido descritas em diversas espécies, esta é a primeira demonstração nos homens.

3) O perigo da aspirina nas crianças gripadas

Desde 1980, o Centers for Diseases Control (CDC), nos Estados Unidos, alerta médicos e pais a não administrar derivados do ácido acetil salicílico (AAS, aspirina, Melhoral, etc) para crianças com resfriados, gripes ou catapora. Lá, desde 1986, todos os produtos contendo aspirina trazem no rótulo a advertência de que seu uso em crianças portadoras dessas doenças pode trazer complicações.

O uso indiscriminado de antitérmicos contendo aspirina é prática comum no Brasil. No caso das crianças, essa prática pode ter uma consequência rara, mas grave: a síndrome de Reye.

A síndrome de Reye foi descrita em 1963, na Austrália, durante uma epidemia de gripe. É caracterizada por vômitos profusos e distúrbios neurológicos que incluem alterações da personalidade e deterioração do nível de consciência. Com a evolução do quadro, surgem irritabilidade extrema, agitação, confusão mental, delírio e coma. Cerca de um terço das crianças acometidas pela síndrome vai a óbito (que é mais frequente nos menores do que cinco anos).

Pesquisadores do CDC publicaram uma análise da incidência da síndrome de Reye em crianças norte-americanas de 1981 a 1997. No período foram identificados no país 1207 casos, em menores de dezoito anos. Em 1980, antes do alerta à população, ocorreram 555 casos. Desde 1987, depois do alerta, o número de casos esteve abaixo de 36 por ano.

Dado o grande número de antitérmicos existentes no mercado e a alta letalidade da síndrome de Reye, é fundamental que o Ministério da Saúde obrigue os fabricantes de medicamentos que contenham derivados do ácido acetilsalicílico a colocar no rótulo a advertência que esse tipo de medicamento, tão popular, não deve ser administrado para crianças com catapora, gripes ou resfriados.

DRAUZIO VARELLA

10 DE SETEMBRO DE 2022
MONJA COEN

INDEPENDÊNCIA OU INTERDEPENDÊNCIA?

Celebramos 200 anos da independência do Brasil de Portugal, e hoje sabemos que todos interdependemos uns dos outros. Existe algum país independente dos outros? Existe alguma planta, animal, pedra ou qualquer forma de vida independente e/ou separada das outras?

Observe em profundidade. Perceba que somos interdependentes, que precisamos de tudo e de todos para viver e morrer, que é colaborando e compartilhando que a vida se manifesta em toda sua pluralidade e plenitude.

Na juventude, queremos ser independentes de nossos pais e cuidadores. Há a fase da língua em ene: quer fazer isso? Não. Não sou como vocês. É o momento em que estamos criando a identidade separada, individual, e nem nos damos conta que estamos repetindo comportamento de nossos pais.

Aliás, mãe e pai sempre nos habitam. Vivos ou mortos.

Buda recomendava aos seus discípulos que primeiro recebessem as bênçãos de seus pais, antes de se comprometer com os votos monásticos. Será que nossos ancestrais aprovam e nos abençoam em nossas atividades, nossas escolhas? Se formos capazes de os convencer, é porque estamos realmente convencidos de nossas decisões.

Reflitam. Sua mãe, pai, avó, avô aprovam seu comportamento, sua fala, seus gestos e atitudes?

Em dúvida, não - é uma frase importante para nossas decisões. Acabem com as dúvidas completamente, que as palavras de Buda são verdadeiras, não falsas - trecho de um ensinamento sagrado.

Cuidado com as fake news. Procure a verdade, investigue, analise - confie em quem seja digno de confiança. Não deixe nem que sua mente o engane.

Passamos por várias dificuldades e dúvidas. Sofremos traições e abusos, muitas vezes de pessoas próximas e queridas, em quem confiávamos completamente. Conheço um jovem cujo sócio - um senhor de toda sua confiança - passou a desviar fundos da empresa e criou uma outra empresa para suas filhas, sem falar nada ao amigo/sócio. O jovem ficou muito triste, deprimido, meses trancado em casa. Todo seu mundo havia sido destruído, e o antigo sócio ainda tentou um processo judicial.

Dor, sofrimento e insatisfações existem. Há causas. Mas há também um estado de paz, de plenitude, de tranquilidade, chamado Nirvana, que é acessado através da prática do caminho de oito aspectos: memória correta, pensamento correto, ponto de vista correto, fala correta, meio de vida correto, esforço correto, meditação correta e sabedoria.

Assim, lembrando-nos da verdade e do caminho, percebendo que estamos todos interligados e que interdependemos - não só de outros países, mas de todos os seres -, podemos viver em tranquilidade e harmonia.

Aos traidores, que não perceberam ainda a interdependência entre tudo que foi, é e será, podemos nos apiedar e criar meios educacionais e estratégias, meios hábeis, para que despertem. Seres despertos compreendem que nossa independência é na verdade a interdependência. Por isso cuidam e respeitam, não enganam, nada escondem e compartilham com ternura, sabedoria e compaixão a existência. Que todos os seres possam despertar.

Mãos em prece

MONJA COEN

10 DE SETEMBRO DE 2022
FRANCISCO MARSHALL

ESTATÍSTICAS

Como ciência matemática que coleta, analisa e apresenta dados, a estatística aplica-se a muitos campos do conhecimento e aspectos da vida prática, mormente ao estudo de populações e como amparo a processos decisórios. O termo estatística deriva do germânico statistik, aplicando-se à descrição de um Estado ou nação. Além da persistente preocupação com a inflação e com dados epidemiológicos, ora temos as pesquisas eleitorais, assinadas por profissionais de estatística. Na falta de um censo atual, as estatísticas podem nos informar e renovar a pergunta: que país é este?

O dado mais assombroso é que cerca de 32% do eleitorado atual do Brasil identifica-se com a barbárie e apoia a agressão ostensiva à civilidade. É assustador um percentual tão alto de pessoas convictas de que excremento é perfume. Entre 2016 e 2017, achava-se que este percentual não passaria de 17%, mas na eleição de 2018, com suas manipulações e golpes, 39% dos eleitores sufragaram o estafermo, correspondendo a 55% dos votos válidos, ou 26,19% da população total, que então era de 210 milhões de habitantes. 

Esse número assombra artistas e educadores: como trazer tal multidão de volta para o mundo educado de uma democracia contemporânea, com ciência, cultura, estado laico, respeito à natureza, à mulher, aos indígenas, às minorias, à livre opção sexual e aos direitos humanos, com sensibilidade social e liberdade? Eis o grande desafio cultural do Brasil.

Aqui, 100% das pessoas decentes consideram indecente o presidente mobilizar o povo para saudar seu pênis em comício no dia do bicentenário da independência do Brasil, mas há aqueles 32%, ou 31,9%, e muitos deles acham bonito bradar para o aparelho urinário do seu líder durante a festa cívica. 100% das pessoas honestas desconfiam muito dos pagamentos em dinheiro vivo para a compra milionária de 51 imóveis pelo bando presidencial, mas o que pensarão os tais 31,8%? Sejamos otimistas: alguns dos apoiadores daquele amigo de torturadores, milicianos e assassinos podem cair na real, e restarem menos de 31,7% de cativos no cercadinho.

Da população mundial de cerca de 7,9 bilhões de pessoas, já morreram 6,5 milhões de covid-19, correspondendo a 0,082% de óbitos da população total. No Brasil, com 215 milhões de habitantes, já perdemos mais de 684 mil vidas, correspondendo a 0,318% da população; é um índice 3,87 vezes maior que o número global. Caso se verificasse aqui o percentual mundial de mortes por covid-19 (0,082%), mesmo sem descontar-se o desvio do caso brasileiro, teríamos 172.430 mortes. Logo, o genocídio aqui ocorrido, por incúria, malícia, corrupção, ignorância, incompetência e outras irresponsabilidades, pode ser aferido estatisticamente: houve mais de 506 mil mortes indevidas; são as vítimas do genocídio brasileiro, um fato histórico terrível, que não deve ser esquecido - pois tu não gostarias de figurar nesta estatística. Ainda assim, 31,6% parecem apoiar ao senhor desse gadanho inclemente.

A matemática que ora importa é a de 2/10: ao menos 50% dos votos mais um, para uma nova era de vida digna no Brasil.

FRANCISCO MARSHALL


10 DE SETEMBRO DE 2022
CAPA

Manifesto de amor

Especialista explica como as diferentes formas de expressar os sentimentos impactam as relações e casais contam como traduzem suas linguagens

Eles demonstram que se amam de maneiras bem diferentes e isso, às vezes, vem à tona quando o casal discute: Como tu não entendes que eu te amo, se estou há cinco horas abraçado em ti?, exemplifica Gabriel Severo Curuja, 31 anos. Para ele, o natural é demonstrar com abraços, beijos, ficando perto ou colocando a mão na perna da namorada quando sentam lado a lado. A resposta, segundo a parceira, Laura Schneider Longhi, 27, é que ela precisa que o afeto seja verbalizado para sentir-se amada e confortável na relação.

- Não sou muito do toque físico. Sou mais de palavras - explica ela.

Assim como outros casais, os dois já entenderam que suas linguagens do amor não são a mesma. Também pudera: cada pessoa desenvolve a sua maneira de amar e de compreender que é correspondida. Conforme a psicóloga Maria Eduarda de Alencastro, essa construção está relacionada à personalidade e à bagagem emocional.

- Ao longo da vida, vamos aprendendo modelos de como demonstrar o amor e como recebê-lo. Tem a ver com nossa sociedade, geração, traumas pessoais e com como isso é transmitido na nossa família. A relação entre as pessoas que estão ao meu redor enquanto cresço, pai, mãe, avós, tios, tem grande impacto sobre essa construção. Há também fatores genéticos, características de personalidade, de ser mais aberto ou fechado - explica a terapeuta.

O tema volta à moda de tempos em tempos (especialmente nas redes sociais). Além de ser um assunto com o qual é fácil de se identificar - já que trata de sensações comuns nos relacionamentos - o ressurgimento do debate também está relacionado ao best-seller As Cinco Linguagens do Amor, escrito nos anos 1990 pelo antropólogo americano Gary Chapman. O escritor lista cinco formas através das quais as pessoas enxergam as demonstrações do sentimento: palavras de afirmação, tempo de qualidade, presentes, atos de serviço e toque físico.

Segundo a lógica do escritor, se o estilo da pessoa é dar presentes, possivelmente, haverá um problema se ela só receber do companheiro palavras de afirmação (como dizer "eu te amo"). Para ele, é preciso que um entenda a linguagem do outro e se esforce para corresponder a ela.

A psicóloga vê este movimento com bons olhos, já que ele motiva as pessoas a refletirem acerca de seu comportamento. No entanto, faz as ressalvas de que o livro de Chapman não tem embasamento científico e de que este tema é complexo. Existem muitas linguagens e um casal que expressa seu carinho de formas diferentes não terá, necessariamente, uma relação ruim.

- Os pacientes trazem esse tema, geralmente, como fator limitante, uma quebra de expectativa, ao perceber que o parceiro não consegue expressar amor da forma que a pessoa gostaria de receber, o que gera um conflito. Já ouvi coisas como "estava começando a sair com um cara, mas vi que a linguagem dele é ?tal? e essa não me satisfaz, então, não quis levar adiante". É preciso tomar cuidado para não assumir isso como grande verdade, porque podemos mudar e aprender coisas novas - afirma a psicóloga.

O pulo do gato, segundo ela, é desenvolver a flexibilidade no relacionamento e se abrir ao aprendizado. Este é um caminho tanto para fornecer um pouco do que o companheiro precisa (respeitando limites pessoais) quanto para conseguir receber e apreciar uma manifestação de amor diferente de suas expectativas.

- Quando o parceiro não demonstra da forma que eu gostaria, é preciso avaliar o quanto aquilo é intolerável para mim e se o outro é capaz de flexibilizar. Ou então pensar se posso tolerar e se consigo aprender a apreciar outras formas. A gente não está fadado a entender uma só linguagem, como se só ela fosse nos satisfazer. À medida em que crescemos, nos satisfazemos de outras formas. É preciso se abrir e reconhecer o amor que vem em gestos diferentes dos que estávamos acostumados - defende a terapeuta.

LETÍCIA PALUDO

10 DE SETEMBRO DE 2022
CRISTINA BONORINO

PARA A PRÓXIMA

George W. Bush foi presidente durante dois dos maiores desastres já enfrentados na história dos EUA: os ataques do 11 de Setembro, em 2001, e o furacão Katrina, em 2005. Em nenhum dos casos tomou atitudes brilhantes, dado seu despreparo e o de seu governo. Mas pensou: o que mais pode acontecer?

Membros de seu gabinete lhe sugeriram a leitura do livro do historiador John Barry publicado em 2004 sobre a pandemia de influenza em 1918. O vírus infectou mais de um quarto da população americana e matou entre 50 e 100 milhões de pessoas no mundo - quase 700 mil nos EUA. Impressionado, Bush formou uma força-tarefa, cuja missão era estudar pandemias anteriores e criar um plano para o país do que fazer se outra acontecesse. Esses estudos duraram anos. Quando o time do novo presidente Obama substituiu o anterior na Casa Branca, em 2008, membros desse grupo foram mantidos e continuaram a assessorar a presidência, inclusive na pandemia de H1N1 em 2009.

A força-tarefa, após análise histórica e estudos de modelagem matemática, tirou duas conclusões principais. A primeira era a de que, se surgisse um novo vírus, enquanto não houvesse uma vacina a maneira mais efetiva de salvar vidas era a de reduzir interações sociais - principalmente as de crianças. Havia algo particular no comportamento infantil que intensificava o contato, tanto entre crianças como entre elas e adultos, e maximizava a transmissão. Fechamento de fronteiras teria pouca ou nenhuma eficácia. Testes e rastreamento de contatos nos bolsões de transmissão identificados eram imperativos - sem eles, a eficácia do isolamento era reduzida.

A segunda conclusão era a de a eficácia dessas medidas ser diretamente proporcional à rapidez com que fosse implementada, após a identificação de casos. As infecções virais se propagam exponencialmente - algo que não é óbvio para o pensamento humano. Se um centavo for dobrado todos os dias, em trinta dias o resultado é de milhões. Parece impossível, mas assim se espalham os vírus. Cada dia na demora para implementar as medidas nos aproximava de um ponto em que elas não são mais eficazes - e chegaria o ponto inevitável de lockdown, em que hospitais e necrotérios teriam suas capacidades esgotadas, e as cadeias de fornecimento - e a economia - seriam paralisadas.

Essa história - bem como a de como e por que tal plano nunca foi seguido em 2020 - é contada no livro The Premonition, por Michael Lewis. Os diferentes estudos que se seguiram, incorporando os dados da pandemia do SARS-CoV-2 nesse modelo, só reforçaram essas conclusões. A tendência é clara: quanto mais cedo governos e lideranças implantam as medidas de controle, mais rapidamente a transmissão é controlada, até que as vacinas estejam disponíveis. Foi o que se observou em países como a Nova Zelândia, que agiu rapidamente; e o contrário do visto no Brasil e nos Estados Unidos. Usar a ciência para evitar chegar a lockdown é administrar com eficácia. Culpar o lockdown pela economia só funciona para alguém que sistematicamente se recusa a aprender com a história.

CRISTINA BONORINO

10 DE SETEMBRO DE 2022
CARTA DA EDITORA

Você fala a minha língua?

Para quem cruzou com memes, cards ou frases divertidas no Twitter falando sobre uma tal linguagem do amor e ficou perdido, explicamos nesta semana a expressão que você pode não saber a origem, mas com certeza tem a resposta do seu glossário amoroso na ponta da língua. Um dos novos (ou nem tanto, devido ao vai-e-vem do tema) virais das redes sociais se refere a um best-seller escrito num tempo em que apenas o e-mail fazia parte da nossa rotina: As Cinco Linguagens do Amor, livro do antropólogo americano Gary Chapman lançado nos anos 1990.

Como amor é amor desde sempre, ainda bem, Chapman joga as iscas: palavras de afirmação, tempo de qualidade, presentes, atos de serviço e toque físico. Mesmo sem estudos científicos que comprovem a tese, conforme a entrevista da psicóloga Maria Eduarda de Alencastro para a repórter Letícia Paludo, é irresistível não pensar qual a nossa linguagem - e não preciso dizer as maravilhas que saíram de nossa reunião de pauta semanal. Não serei indiscreta com as meninas, então vou revelar apenas a minha: cozinhar para a pessoa ou mesmo receber com comidinhas compradas, se a semana foi corrida demais. Seria o tal "ato de serviço"?

Esse exercício vale muito, porque nos faz refletir sobre as diferenças que temos, o quanto estamos dispostos a ter flexibilidade nas relações e como não somos uma fórmula pronta. Maria Eduarda relata, ainda, que muito do que "dizemos" nas nossas ações são fruto de geração, cultura e experiências de vida. O outro também. E é quando juntamos tudo isso que a mágica acontece.

Só para comprovar: estou escrevendo esta carta no feriado, com um bolinho de chocolate ao lado, esperando a equipe para um café carinhoso no plantão.

CARTA DA EDITORA