sábado, 3 de setembro de 2022


03 DE SETEMBRO DE 2022
LEANDRO KARNAL

Uma amiga comentou sobre o filho que estuda em uma escola privada de São Paulo. O adolescente parece ter entrado em atrito com o professor de Geografia. Em determinado momento, o educador disse que o menino era burro. Sempre devemos avaliar criticamente depoimentos, inclusive dos nossos filhos. Toda narrativa é subjetiva e enviesada pelos interesses. Quem conta seleciona, omite coisas e possui um objetivo político, quase sempre de exaltação de si e da sua inocência. Isso vale para um adolescente, um jornalista, um professor ou o presidente da República.

Existe a hipótese de o aluno estar falando a verdade. Houve testemunhos da frase. Como profissional da educação há 40 anos, sei, perfeitamente, que a tensão de uma sala de aula pode levar um adulto a cometer desatinos verbais. Já testemunhei físicos, inclusive. É muito difícil lidar com um grupo de crianças e adolescentes. Um monge zen treinado há 70 anos na paz de u m mosteiro perderia a calma.

Todo professor já se irritou. A maioria já gritou. Eu já fui muito agressivo em respostas e ironias. Essa é a "sociologia do pecador", mas não sua justificativa. Estou tentando entender (a partir do meu lugar de fala profissional). A sala de aula é uma trincheira de guerra com fogo amigo, inclusive. Dito isso, temos de concordar: nenhum professor poderia dizer que seu aluno é burro. Primeiro porque é subjetivo: as inteligências são múltiplas; as habilidades são variadas.

Um aluno pode ser pior em Geografia, genial em Matemática, mas pode ser medíocre em ambas, por falta de estímulo. Einstein não foi o melhor aluno do mundo. Notas não avaliam inteligência, apenas adaptação a um sistema. O primeiro argumento é este: é muito impreciso classificar o aluno de burro.

O segundo argumento é a atividade-fim da escola. A instituição foi criada para estimular a inteligência e o conhecimento. Da mesma forma, a tarefa principal de um hospital é a saúde. Se o paciente está doente (ou o aluno não souber algo), é parte da missão central da instituição resolver o problema. Um aluno "que não sabe" é o ponto de partida do esforço pedagógico. Dizer que um paciente não está se recuperando é reconhecer que os esforços médicos estão falhando. Um aluno que não aprende leva a questionar seu processo cognitivo individual - e o método escolar ao mesmo tempo. Apontar só um lado é, no mínimo, injusto.

Vamos ao terceiro argumento. A crítica pesada e pública não melhora o processo de conhecimento. Dizer que o aluno tem incompetência mental não resolve a questão, antes a piora. Burrice, se existente, não é uma escolha. É diferente da preguiça, por exemplo. Mesmo que alguém tivesse uma limitação mental, constatá-la em público e de forma humilhante seria inútil; falaria apenas da minha violência e descontrole, nada resolveria; antes, pioraria a relação do alvo da crítica comigo, com a escola e com sua autoestima.

Eu disse que atacar alguém como burro é impreciso, subjetivo, foge à atividade-fim da escola e (ainda!) é argumento inútil. Encerro lembrando um embasamento jurídico contra a frase "você é burro". A Lei 8.609 foi criada no dia 13 de julho de 1990. Ficou conhecida como ECA: Estatuto da Criança e do Adolescente. O estatuto desenvolve normas a partir do artigo 227 da nossa Constituição em vigor, o qual estabelece o amparo à criança e ao adolescente como prioridade e um dever social e do Estado. O artigo 17 do ECA garante a inviolabilidade física, psíquica e moral dos menores. A lei segue proibindo castigo cruel ou degradante para crianças e adolescentes. Humilhações públicas são vedadas. Agressões verbais podem ser condenadas em tribunais. Se os argumentos iniciais não comoveram pais e educadores, este último tem mais força de coerção.

Quem lida com alunos perde a paciência. De novo, eu entendo, sem justificar, o descontrole. Se você se irrita com um ou dois filhos em casa, pense em 45 em uma sala quente no fim de uma manhã tensa. Um profissional da educação deve ter controle emocional acima da média, equilíbrio psíquico agudo, sabedoria humana excepcional e consciência do motivo de estar lá todos os dias na sala de aula. Os professores deveriam ter acesso a acompanhamento psicológico permanente, como parte de uma "cesta básica". Há traumas de soldados em batalha e existem traumas pedagógicos.

Um aposentado do magistério deveria ser chamado de veterano de guerra, com medalhas vistosas. Dito isso, relembro a mim e a quaisquer colegas: nunca chamem um aluno de burro, pois isso apenas mostra nosso descontrole, despreparo, falta de conhecimento do ECA e incompetência psíquica.

Eu posso me considerar burro, é meu direito de consciência individual. Meu aluno é meu objetivo, minha função, meu destino profissional, meu foco. É errado considerá-lo burro e, pior ainda, dizê-lo em público. Crer na educação é, também, educar-se de forma permanente. Essa é minha esperança, ainda que eu tenha sido burro muitas vezes como mestre. Alunos e professores podem melhorar sempre.

LEANDRO KARNAL

03 DE SETEMBRO DE 2022
ELIANE MARQUES

A MORTEDA MORTE

Em O Mundo se Despedaça (1959), Chinua Achebe conta que Okonkuo, grande homem de Umuófia, atirou seu pai, o flautista Unoka, na Floresta Maligna. Abandonado para morrer ali, não teve túmulo. Unoka sofrera de inchação, abominável para a deusa terra, por isso se proibiu a ele o enterro em suas entranhas. Unoka "morreu e apodreceu por cima da terra e não lhe fizeram enterro, nem de primeira, nem de segunda", diz Achebe. 

Contudo, a rejeição da terra a Unoka deriva do fracasso dele em viver a vida que seu filho considerava boa - quase todos fracassamos nisso. É como se a Unoka fosse atribuído crime contra a mãe (terra). Mas era Okonkuo quem padecia do medo do fracasso que atribuía ao pai, era ele quem sofria do medo de ser descoberto na sua quase semelhança com o velho. Mais por isso do que pelo inchaço, o grande homem talvez tenha negado os ritos fúnebres ao pequeno. Ao não reconhecer nesse "pequeno" a condição de ancestral, Okonkuo mata o luto. E, anos depois, ele mesmo comete crime tido como "feminino" e vem a morrer com os pés distantes da terra.

Há frases para falar ou para silenciar a morte, para se fazer o luto e para consolar os enlutados e até o morto e a morte. No caso do flautista Unoka, tais frases foram banidas, enterradas no corpo de quem ficou. Não sendo possível o enterro do morto, enterraram-se, em seu lugar, as palavras do enlutamento. 

Tal cena se pode imediatamente associar ao padecimento do corpo amefricano advindo dos milhões de assassinados, aparentados a nós, no processo de escravização transatlântica cuja morte não se fez acompanhar de palavra, pranto ou túmulo. Sim, não é a mesma coisa; Unoka estava ainda sobre uma terra considerada sua. Mas quantos de nós, que transitamos entre os vários significantes "Negro", pensamos (sem pensar) que fomos rejeitados por nossa terra-mãe e, por isso, jogados à flor da terra estrangeira amaldiçoados como "pretos novos"?

"Aos 18 de julho de 1827, Joaquim Antônio Ferreira mandou sepultar um escravo novo, com a marca à margem no braço direito, vindo de Angola no navio Despique; do que fiz este assento (...)". Se compararmos os sequestrados de África com o quantum dos que morreram na travessia transatlântica, na chegada, antes de serem vendidos, ou depois, com os corpos jogados ao sal do mar ou atirados à flor da terra ou mesmo jamais enterrados, o trecho acima, citado de À Flor da Terra: Pretos Novos no Rio de Janeiro (Júlio Pereira), não enuncia a regra quanto ao sepultamento das gentes escravizadas, mas a exceção. 

Quem é que pranteava por essas vidas-mortas, quem se recordava de que tais corpos tinham um nome e uma história, quem falava deles? É o que pergunta Preta Susana, no romance Úrsula, de Maria Firmina dos Reis. A colunista estará mais uma vez de mimimi ao convocar a leitora para mais do que "pensar", falar sobre isso?

Com a repressão da morte, se reprimiram também as coisas do amor. A recusa do enlutamento é uma recusa da morte e do amor. Por isso, é tempo de viver o luto por esses mortos ainda sem nome enterrados em nós.

ELIANE MARQUES

03 DE SETEMBRO DE 2022
BRUNA LOMBARDI

VOCÊ GOSTA DE SILÊNCIO?

Sabe o que é o silêncio? É a gente mesmo, demais?

Essas sabedorias, preciosas e miúdas, percorrem a obra de Guimarães Rosa. Ele observa as coisas mais simples com grandeza, aponta a nossa natureza e a matéria de que é feita nossa alma. Recentemente, uma tia minha, muito querida, partiu aos 93 anos da maneira mais serena possível. Foi lúcida e sem nenhuma doença. Apenas fez a passagem.

Como disse lindamente o escritor Agualusa: "...foi desaparecendo aos poucos, como um arco-íris se dissolvendo no céu?"; Postei no meu Insta @brunalombardi suas últimas fotos e um vídeo, onde juntas olhávamos o pôr do sol. Minha tia dizia que a coisa mais bonita e importante da vida é o silêncio. E eu, quieta ao seu lado, a escutava comovida.

Somente na nossa própria quietude somos capazes de ouvir nossa voz interior. A voz do coração é a nossa conexão mais profunda. A nossa escuta é uma arte, e se é difícil aprender a escutar os outros, imagina conseguir ouvir a si mesmo?

O silêncio nos leva a um mergulho profundo dentro de nós, nos faz olhar pra dentro, o que não é uma coisa fácil. Na verdade, é uma das mais difíceis e corajosas aventuras.

Aventurar-se no fluxo dos sentimentos, das sensações, das emoções que nos assombram e tantas vezes nos dominam exige muita força de vontade. Existe tanta coisa para ser descoberta no silêncio. Tantas razões que a nossa razão não compreende, lógicas que não resistem à sensatez, raciocínios que nós mesmos distorcemos sem perceber.

E se o silêncio nos proporciona essa conexão profunda, por que o evitamos? Por que uma grande maioria não suporta o silencio?

Vivemos num tempo do excesso de tudo. Estamos mergulhados dentro dessa ininterrupta centrífuga de informações, notícias, entretenimento, ofertas, onde tudo se mistura, onde se vive de extremos. Estamos nadando contra a corrente e tentando não se afogar.

Tudo se embaralha e nos acelera numa busca incessante de estímulos, cada vez mais intensos e fortes. Precisamos do barulho em volta de nós, quanto mais, melhor. Gente falando alto, música alta, TV ligada, tudo nos atrai e nos distrai.

Nossa atenção está cada vez mais fragmentada na rapidez do feed das redes sociais, numa confusão de imagens e assuntos que ter déficit de atenção é inevitável.

Assim vamos ficando amortecidos, anestesiados e temos necessidade de doses cada vez maiores. E tudo é muito e tanto e ao mesmo tempo e agora.

Vivemos na ilusão de participar desse agito, dessa balada num ritmo frenético, dessa dança, dessa festa, desse avanço tecnológico, numa velocidade impossível de acompanhar.

Estamos correndo atrás, ansiosos, perturbados, criando uma sequência infinita de desejos inalcançáveis. Inventamos consumos e acúmulos e com eles, ansiedade, ressentimentos, decepções e frustrações.

E disso tudo fazemos um embrulho indigesto, tóxico e nocivo, que fica em algum lugar guardado dentro de nós. Esse é um dos mecanismos que nos desconecta do que somos, da nossa essência. Precisamos do silêncio pra nos limpar de tanta intoxicação. Precisamos escutar nós mesmos, demais?

BRUNA LOMBARDI

03 DE SETEMBRO DE 2022
CARPINEJAR

A toalha do bispo

Fui acompanhar a minha esposa no shopping. Eu acompanho na boa. Não fico reclamando, acelerando o passeio, cobrando a cortesia do estacionamento, resmungando as demoras e indecisões no provador de roupa. Sou uma sombra comportada. Sento-me num cantinho, naqueles pufes pretos em círculo, e observo o formato das nuvens dos meus pensamentos.

Só não chego ao cúmulo de segurar a bolsa dela. Isso é uma aberração masculina. Cada um com os seus pesos. Depois que você segura uma vez a bolsa, vira capacho para sempre. É um caminho sem volta. Vêm em seguida os chifres e as renas do Papai Noel.

Até porque você não pode levar algo se você não sabe o que tem dentro, se você não pode mexer. Corre o risco de acabar preso, desinformado, numa blitz, por transportar muamba.

Imagine que você, todo garboso e leal, carregando a bolsa de sua mulher, é apanhado numa operação da Polícia Militar, e ela diz que a bolsa é sua e que ela não tem nada a ver com isso. Casamento tem limites.

Naquela tarde, Beatriz se dedicava a espiar promoções de lençóis, contava os mil fios de um e de outro, e eu, matando o tempo, encontrei uma toalha vermelha na estante. Entenda a epifania: uma toalha vermelha imensa, duas vezes o meu tamanho, brilhante, inesquecível.

Tive um troço, um arrebatamento, um amor à primeira vista. Talvez ela tenha despertado a carência da infância por uma capa de super-herói. Talvez tenha suscitado as histórias romanas das minhas estantes do inconsciente. Ao sair do banho, já me sentiria com o manto do imperador César.

Delirava roçando o rosto no tecido felpudo, quando Beatriz, enxergando o meu interesse um tanto perigoso, surgiu na minha frente para me dissuadir:

- Que horror, tem cor de bispo! Eu resisti diante da sua corneta, tentando me concentrar em sensações agradáveis e imagens relaxantes, agarrando-me às minhas fantasias, buscando definir se a cor da toalha era Cabernet Sauvignon chileno ou Malbec argentino.

Apesar dos protestos, o vinho mental me embriagou e comprei. A primeira vez que comprava uma toalha, a minha toalha, não uma toalha qualquer escolhida por outros, dobrada para serventia anônima. Não uma toalha coletiva, que qualquer um poderia usar. Faltaria apenas bordar o meu nome nela para completar a possessividade.

Cheguei em casa louco para uma chuveirada, o que é um disparate no nosso inverno.

Na hora de me secar, ela não absorveu nada, espalhava a água na minha pele. Não reclamei por uma questão de orgulho. Concluí que deveria lavá-la na máquina para amaciar suas fibras. Uma semana depois, ela continuou não me enxugando. Eu tiritava de frio. Um mês depois, ela seguiu debochando do meu corpo. Já a tinha estreado o suficiente e não venci a goma da fábrica. Parecia que me esfregava com esponja seca, plástico, capa de chuva. Linda e atraente na loja, mostrava-se impermeável e insossa na convivência.

Hoje ela serve de coberta ao cachorro, em sua caminha. Não tenho nenhum remorso. Mas a ciência ainda precisa me explicar como a intuição feminina se antecipa às nossas decisões equivocadas.

CARPINEJAR

03 DE SETEMBRO DE 2022
OPINIÃO DA RBS

PARA VOTAR EM PAZ E SEGURANÇA

Decidiu com sensatez o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ao proibir o porte de armas em um raio de 100 metros das seções de votação. A determinação abrange os dias do primeiro e segundo turnos, incluindo as 48 horas anteriores às datas do pleito e as 24 subsequentes. A exceção, conforme definiu a corte, vale para agentes de segurança em serviço.

A posição unânime dos ministros, que acompanharam integralmente o voto do relator do caso, Ricardo Lewandowski, demonstra o grau de preocupação com a violência política. Razões não faltam. O discurso de ódio encontra espaços especialmente nas redes sociais, mas vez por outra transborda para agressões físicas. Há maior quantidade de armas em circulação no país a partir de decretos do governo federal que facilitaram a aquisição e o porte. É uma mistura explosiva.

A tensão gira em torno principalmente da disputa ao Palácio do Planalto e já gerou episódios graves e fatais, como o assassinato, em julho, em Foz do Iguaçu (PR), de um guarda municipal petista por um apoiador do presidente Jair Bolsonaro. No último fim de semana, no Distrito Federal, uma discussão banal também levou o segurança de um candidato a dar um tiro na cabeça de um funcionário de um restaurante. O próprio Bolsonaro, há quatro anos, foi vítima de um atentado, embora com arma branca. É um mal que não se limita ao Brasil, como mostrou a tentativa de assassinato da vice-presidente argentina, Cristina Kirchner, na quinta-feira à noite.

Se existe um temor justificado de que a agressividade derivada de diferenças políticas possa escalar, é prudente tomar todas as precauções ao alcance das autoridades para que novas tragédias possam ser evitadas. É preciso garantir segurança aos eleitores e aos mesários que, no dia das votações, estarão nas seções. Caberia ainda aos líderes políticos moderar o tom e deixar claro, aos seus seguidores, que a violência é incompatível com a democracia.

Dados divulgados pelos Instituto Sou da Paz e Igarapé mostram que o número de armas registradas por caçadores, atiradores e colecionadores (CACs) chegou a 1 milhão em julho, o triplo de dezembro de 2018. Deve-se sempre evitar generalizações, mas o fato de mais pessoas terem o direito de porte, em um período de especial acirramento de ânimos, requer especial atenção.

Acertou também o TSE ao definir que eleitores devem deixar com os mesários os seus aparelhos celulares antes de votar. A medida, em primeiro lugar, assegura o sigilo do voto, uma garantia constitucional. Também evita que mal-intencionados, como ocorreu em pleitos anteriores, distorçam situações ou produzam imagens, depois postadas em redes sociais, que sirvam para tentar desacreditar as urnas eletrônicas e causar tumulto.

As alterações nas resoluções que regulamentam o uso de armas e celulares foram publicadas na quinta-feira. O eleitor que se negar a entregar o telefone ou aparelhos com câmeras não será autorizado a votar. Até detectores de metais poderão ser usados, se for o entendimento da Justiça Eleitoral local. Quem desrespeitar a limitação do perímetro portando arma será preso em flagrante. É preciso crer que os cidadãos com bons propósitos e conscientes de seus deveres colaborarão. Assim, será possível celebrar o voto pacificamente e diminuir o risco de conflitos com desfechos trágicos e tumultos que manchem a democracia brasileira. 

OPINIÃO DA RBS

03 DE SETEMBRO DE 2022
MARCELO RECH

Independência ou ...

Se já houvesse textão de Facebook há 200 anos, a independência teria sido bem mais complicada. Como uma dessas vozes iradas nas redes, sem os habituais erros de português, trataria o gesto de Dom Pedro:

"A imprensa podre está querendo nos aplicar que Dom Pedro declarou a independência do Brasil há alguns dias em São Paulo. Só pode ser fake news destes jornais desde que Portugal cortou a mamata. Agora eu pergunto: quem viu essa declaração? Onde está registrada? Um amigo meu com fontes na corte me garante que foi tudo uma farsa, que era um sósia de Dom Pedro ali nas margens do Riacho Ipiranga, e que o regente, na verdade, está encarcerado nos porões de um palácio no Rio. Não sei, não tenho como provar, mas passo adiante como eu recebi.

Seja o que for, esse Dom Pedrinho (Acorda, Pedrinho! kkkk) nunca foi flor que se cheire. Passou a perna no próprio pai, Dom João, quando ele estava longe. Que falta de caráter. Traidor! Só pode ter maquinação aí. Como ele não reconhece todos os avanços desde que Dom João chegou aqui? Está certo que ele foi embora com todo o dinheiro do Banco do Brasil e 4 mil pessoas na comitiva. Exagero? Pode ser, mas abriu os portos às nações amigas. E o que Dom Pedro quer agora? Entregar esse patrimônio do Estado, do povo, nas mãos dos liberais? Alguém tem dúvida de que a Inglaterra (sempre ela!) não está por trás desta independência fajuta?

Aliás, dizem que Dom Pedro é um robô nas mãos dessa figura abjeta do José Bonifácio, neoliberalzinho de peruca branca (só pode! kkkk!) que fica fazendo a cabeça da corte e da imprensa. O que vão querer depois? Proclamar a república? Vejam só a loucura! Como não aparece alguém para dar um jeito nesta turma? Foi esse Zé Bonifácio, mancomunado com a primeira-dama, a tal de Leopoldina (aí tem, hein? kkkk!), que escreveu a cartinha sobre a intenção de Portugal de fazer o Brasil virar colônia de novo, o que teria irritado Dom Pedro na margem do riacho. Invenção pura, claro, e seguramente com apoio destes jornalistazinhos vendidos.

Parece - não sei, é o que dizem - que o príncipe foi pego no Ipiranga de calças na mão porque estava com diarreia. (Só prova que ele é um c@@ão kkkk!) Mas vá lá que tenha um fundo de verdade e que Dom Pedro tenha mesmo declarado a independência. Vamos ver se a suprema corte em Portugal toma vergonha na cara e faz alguma coisa. Bando de salafrários! Supremo é o povo, e o povo não subscreve essa independência.

Como o Exército e Portugal não fazem nada (bando de melancias!), temos nós que nos mexer. Tire o traseiro da cadeira e vamos em cavalgada até o Palácio São Cristóvão mostrar praquele mulherengo quem manda no Brasil. Se não fizermos nada, daqui a 200 anos vão dizer que só tinha frouxo por aqui."

MARCELO RECH

O desprezo do ministro ao MP

O inquérito do ministro Alexandre de Moraes para desvendar, impedir e castigar o "golpe do WhatsApp", mais uma palhaçada totalitária e ilegal do STF em sua guerra para controlar a vida pública no Brasil, começou com uma aberração; é inevitável que produza aberrações novas a cada dia em que continuar aberto. Os "atos antidemocráticos" que levantaram a ira do ministro são, como se sabe, conversas privadas pelo celular por um grupo de empresários. Por conta disso, mandou a Polícia Federal invadir residências e escritórios de cidadãos que não violaram absolutamente nenhuma lei - e se serviu mais uma vez da habitual penca de horrores que soca em cima das vítimas de suas investigações. Está agora, também mais uma vez, em confronto direto com o Ministério Público.

É claro que está. Há três anos o ministro Moraes, com o pleno apoio da maioria dos seus colegas, desrespeita abertamente a Constituição com o seu inquérito perpétuo contra supostos "atos antidemocráticos"; pelo que estabelece o texto constitucional, só o MP tem o direito de colocar em andamento uma investigação criminal, mas o ministro não toma conhecimento disso. Não só passa por cima da lei ao fazer algo que é exclusividade dos procuradores; ignora sistematicamente suas repetidas objeções à ilegalidade do inquérito. Não é possível, assim, evitar novos conflitos a cada vez que se lança em expedições como a desse "golpe pelo WhatsApp". O que está errado na origem, só pode gerar mais e mais erros, na medida em que o pecado original continua sendo praticado.

A Procuradoria-Geral da República, no caso, define precisamente o que é, em sua essência, a investigação dos empresários: uma "espetacularização midiática". É o que diz a vice-procuradora ao pedir que o STF negue a quebra de sigilo de comunicações exigida agora por um grupo de senadores "de esquerda" que se utiliza o tempo todo das ações de Alexandre de Moraes para promover seus interesses políticos pessoais. Ela vai exatamente ao centro de toda essa questão: trata-se, como diz em seu pedido, de uma perseguição penal especulativa e indiscriminada, sem objeto certo ou declarado - a não ser aparecer na mídia. A quebra de sigilo não tem nenhum cabimento. Nada, no inquérito de Moraes, tem algum cabimento. É assim desde 2019, quando ele iniciou sua perseguição geral aos "inimigos da democracia". Vai continuar assim.

J.R.GUZZO

sexta-feira, 2 de setembro de 2022


02 DE SETEMBRO DE 2022
CARPINEJAR

Não há ladrão menos ladrão

Um ladrão em Cariacica (ES) devolveu o veículo roubado que tinha uma cadeira adaptada a criança com deficiência no banco de trás. No painel do carro, pendurou um bilhete: "O crime pede perdão. Na hora da tensão, não deu pra ver o problema da criança. O carro está sendo devolvido. Tanque cheio!!!".

Não acredite no conto de fadas do ladrão arrependido. Ele não é um herói, não é um Robin Hood. Não devemos inverter os valores e glorificar a bandidagem. É o equivalente a normalizar o medo e aceitar passivamente a contravenção.

Quem leva o dinheiro, mas deixa a carteira com documentos, por exemplo, não é menos ladrão do que quem leva tudo. Concessões jamais abolem a gravidade do delito. Com o aumento da nossa tolerância, meu temor é passarmos a beatificar bestas quadradas, admitindo prejuízos por antecipação.

Não há ética profissional no furto e no assalto. Não há um sindicato com plano de saúde. Ou você acha que é dado um desconto a um motorista de aplicativo porque ele usa o carro para o serviço?

Não há restrições de abordagem a indefesas crianças, distraídos adolescentes e crédulos idosos; aliás, formam o público mais cobiçado na captação de celulares, na investida à mão armada e na realização de golpes.

Para o criminoso, é sempre tudo ou nada, vida ou morte. Dependendo da reação, a vítima pode perder o seu futuro por um tênis ou por um relógio. O luto é desencadeado por banalidades. Depois não tem como resgatar existências assassinadas.

A redenção, portanto, não é de verdade. O delinquente capixaba só restituiu o automóvel devido à ampla campanha da família nas redes sociais para obter de volta a cadeira. Não pense que foi compaixão por uma criança deficiente. Se ele soubesse o valor do equipamento, avaliado em R$ 17 mil, mudaria logo de ideia. Talvez devolvesse o carro sem a cadeirinha.

Ele não se entregou à polícia, não confessou os seus crimes. Continuará agindo, e desfalcando bens, e aterrorizando outras pessoas. Não atendeu a nenhum chamado divino para endireitar a sua trajetória. Segue igual. Abriu apenas uma exceção dentro de uma inabalável conduta violenta.

O trauma do último domingo permanecerá por muito tempo no pensamento da dona de casa, assim como os danos psicológicos nos seus dois filhos, de quatro e 10 anos. A truculência dos bandidos armados, que coagiam, gritavam e empunhavam o cano frio apontado para a cabeça, se repetirá mentalmente dia após dia na família, que não vai mais fechar o portão da garagem sem pavor, rezando para que o controle pisque rápido.

CARPINEJAR

02 DE SETEMBRO DE 2022
OPINIÃO DA RBS

A SURPRESA POSITIVA DO PIB

Não há dúvidas de que a atividade econômica brasileira vem apresentando uma série de surpresas positivas ao longo de 2022. No início do ano, predominavam entre renomados economistas e instituições financeiras reconhecidas previsões de crescimento abaixo de 0,5% e, em alguns casos, calculava-se até a possibilidade de uma leve retração. No decorrer dos últimos meses, sucessivas revisões para cima vêm sendo feitas, e ontem o IBGE trouxe mais um número acima do esperado.

O PIB do segundo trimestre teve avanço de 1,2% sobre os três primeiros meses do ano, enquanto o consenso do mercado era de 0,9%. Assim, a taxa acumulada de 2022 ficou em 2,5%. Assim que o dado referente ao período de abril a junho foi revelado, começaram novas rodadas de recalibragem das projeções para o fechamento do atual exercício. Agora, já há prognósticos próximos de 3%.

Chamaram atenção, no segundo trimestre, o desempenho dos investimentos (4,8%), do consumo das famílias (2,6%), da indústria (2,2%) e dos serviços (1,3%). Contribuíram para o resultado a reabertura mais ampla da economia após o arrefecimento da pandemia, a normalização das condições climáticas e os estímulos do governo, como o saque de R$ 1 mil do FGTS e a antecipação do 13º salário para aposentados e pensionistas do INSS. Ao mesmo tempo, seguiu ocorrendo uma paulatina melhora do mercado de trabalho e da massa salarial. Ao final de junho, informou o IBGE um mês atrás, a taxa de desemprego estava em 9,3%. Também contrariando as estimativas majoritárias existentes até o final do ano passado de que demoraria mais para o país voltar a uma desocupação na casa de um dígito. E isso a despeito de uma inflação ainda em elevação à época e do ciclo de alta do juro em andamento.

Projeções para a atividade são feitas a partir dos dados disponíveis acerca dos mais diversos setores, cenário fiscal e monetário, horizonte macroeconômico interno e conjuntura internacional. É inequívoco que, na virada de 2021 para 2022, existiam inúmeras incertezas, agravadas pelo início da invasão da Ucrânia pela Rússia. Felizmente, para a população brasileira, as perspectivas mais pessimistas não se confirmaram, levando a roda da economia a girar com mais força.

Após um longo período de baixo crescimento, agravado pela pandemia, o Brasil precisa, mais do que surtos de altas do PIB, já observados em anos anteriores, avanços significativos e constantes, a taxas razoáveis. O desenvolvimento do país e a conquista do bem-estar pelas famílias estão mais para uma maratona do que para corrida de 100 metros. Economistas, agora, aguardam uma certa acomodação da atividade no segundo semestre, apesar da possibilidade de o auxílio emergencial de R$ 600 sustentar o consumo interno. Com cortes de impostos sobre combustíveis (junto à queda das cotações do petróleo), energia e telecomunicações, a inflação em 12 meses deve recuar de forma considerável, aliviando a corrosão da renda dos brasileiros observada há cerca de um ano e meio.

Para 2023, restam ainda temores pelo lado fiscal, devido aos pacotes de bondades aprovados no período pré-eleitoral, ao efeito do juro alto e à possível desaceleração global. É preciso, portanto, compreender as razões que levaram à melhora das condições econômicas do país, avaliando-as sem a contaminação própria das paixões despertadas pelo ano eleitoral. Assim, deve-se seguir em alerta quanto aos riscos internos e externos de 2023, elevando as chances de o PIB, o mercado de trabalho, os preços e a renda dos trabalhadores continuarem produzindo boas notícias. Tudo isso passa por estar atento à responsabilidade fiscal, pela persistência em reformas essenciais como a tributária e pela busca do apaziguamento político e institucional. 


02 DE SETEMBRO DE 2022
FRONTEIRAS DO PENSAMENTO

Martel: identidade local sobrevive à globalização

A segunda conferência presencial do Fronteiras do Pensamento 2022, com o tema Tecnologias Para a Vida, convidou o público a refletir, na noite de quarta- feira, sobre a realidade de um mundo cada vez mais conectado: a globalização. Enfatizando a proeminência do território local, Frédéric Martel, um dos autores franceses mais lidos da atualidade, compartilhou seus pontos de vista sobre o assunto na palestra Uma Noção de Lugar no Brasil: Globalização Ecológica e Digital, na Casa da Ospa, em Porto Alegre. Em sua 11ª viagem ao Brasil, o sociólogo e jornalista utilizou o país como referência para explicar o fenômeno, com mediação do professor Rodrigo de Lemos.

Martel é autor de Mainstream (2012) e Smart (2015), obras consideradas fundamentais para refletir sobre as indústrias criativas e a cultura digital, e do polêmico best-seller do New York Times No Armário do Vaticano (2019). Apaixonado pelo Brasil, já morou no país e o visita quase todo ano. Conhece de Porto Alegre a Brasília, da Amazônia à Mata Atlântica. Cada um de seus livros contém ao menos um capítulo sobre o país. Em suas pesquisas de campo, entrevistou dezenas de brasileiros, viu as queimadas e viajou com seringueiros, entre outras aventuras.

- Poderia dizer que sou um viciado no Brasil, e é como um amigo do Brasil que vou falar esta noite - alertou o sociólogo.

Martel estuda a globalização cultural há 25 anos. Afirma que, diferente da crença de que as fronteiras desapareceriam com a globalização e a digitalização, a cultura, a identidade e as diferenças regionais se mantêm.

- Nunca somos seres globais - decreta o pensador.

Em sua pesquisa de campo, o autor observou que a internet é um lugar onde não há fronteiras físicas, mas simbólicas - compostas por elementos linguísticos e contextos culturais ligados a identidade e território:

- Estamos sempre ligados a um território mesmo na internet. Somos globalmente conectados, mas localmente situados.

Portanto, até mesmo nas plataformas globais, o que se verifica é uma regionalização - a exemplo do Spotify, no qual as mais tocadas no Brasil incluem músicas brasileiras, seguidas das norteamericanas e, a seguir, latinas. Ocorre, desta forma, uma preferência por conteúdos próximos.

Porém, o autor salienta que o lado negativo do localismo é que pode levar ao esquecimento da necessidade de soluções de problemas maiores de nossa época, como a crise climática e as guerras. Para Martel, não basta apenas viver como que isolados em uma cidadezinha. Para ele, é preciso constituir massa crítica e encontrar modelos econômicos que permitam a sobrevivência no planeta.

FERNANDA POLO

02 DE SETEMBRO DE 2022
CHAMOU ATENÇÃO

Sítio do Laçador renovado

As melhorias no Sítio do Laçador, em Porto Alegre, foram entregues na manhã de ontem, após cinco meses de restauração. A cerimônia contou com apresentação do grupo Tchê Barbaridade em um palco montado em frente ao monumento.

A estátua do gaúcho, feita pelo escultor pelotense Antonio Caringi, está rodeada agora de um espaço com bancos pintados e vegetação renovada. Uma banca para venda de lanches e presentes também foi instalada no local.

Os proprietários da loja, batizada de Banca Laçador, já perceberam a mudança nos frequentadores. Em 2019, Rafael Garibaldi, 32 anos, e a esposa, Angélica Costa Soares, 33, vendiam café dentro do próprio carro para motoristas de aplicativo que costumavam ficar pela região.

- Mudou o público. E dia de chuva a gente não podia trabalhar. Se chovesse uma semana, ficava sem salário. Agora melhorou - explica o vendedor.

O sobrenome de Rafael tem tudo a ver com a cultura gaúcha. Ele afirma que é parente distante do guerrilheiro italiano Giuseppe Garibaldi, personagem conhecido no Rio Grande do Sul por sua atuação na Guerra dos Farrapos, no século 19.

- Vem do lado do meu tataravô. Angélica também tem um carinho especial pela região.

- Meus pais se conheceram ali no aeroporto - comenta. Com a loja, turistas que visitam o Laçador podem levar uma lembrancinha para casa. Entre as opções, estão canecas, porta-canetas, cuia, erva-mate, bombas e até os enfeites de chimarrão para os gaúchos mais modernos.

O sítio ainda vai receber uma base de vidro para a estátua e serão instalados painéis de led com informações históricas. Uma iluminação especial também será colocada em breve.

A adoção do local foi feita pelo consórcio Metrooh, formado pelas empresas Imobi, Sinergy e Midialand. O investimento total é de R$ 108 mil. Em fevereiro, foi entregue a recuperação da estátua inspirada no folclorista Paixão Côrtes.

O monumento recebeu investimento privado de R$ 803 mil, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, e R$ 90 mil em recursos da prefeitura. O Laçador foi inaugurado em 20 de setembro de 1958 no Largo Bombeador, onde hoje se encontra o Viaduto Leonel Brizola.

KATHLYN MOREIRA

02 DE SETEMBRO DE 2022
EDUARDO BUENO

7 de Setembro

A história é uma construção - mesmo sendo "construída" com base em fatos reais. Para ser mais claro, e usar a palavra que agora virou palavrão: a história é uma narrativa - sempre foi e sempre será. Como tal, ela precisa, necessariamente, ser editada. E quem narra, quem conta, quem escreve (ou seja, quem edita), escolhe o que entra e o que fica de fora; o que vai virar manchete e o que não será mais do que nota de pé de página. Com o passar do tempo, a história vai se cristalizando por meio da tradição - e toda tradição é inventada. Não no sentido de que privilegie algo que não aconteceu, mas no sentido de que determinados acontecimentos são consolidados pela "história oficial" em detrimento de outros (ou de outras versões desses mesmos fatos), que assim acabam ignorados, esquecidos e então suprimidos da dita História com maiúscula.

Raras tradições foram mais inventadas do que o 7 de Setembro e o Grito do Ipiranga. Claro que Dom Pedro gritou às margens plácidas do Ipiranga - mas se o sol de fato brilhou com raios fúlgidos no céu da pátria naquele instante, não foram mais de 30 as pessoas que o viram (e ouviram). A independência do Brasil foi um processo lento e sinuoso, que teve início com a transmigração da família real portuguesa para o Brasil em 1808, passou pelo Dia do Fico, em 9 de janeiro de 1822, e só se concretizou com a assinatura do Tratado de Paz e Aliança, em agosto de 1825, quando o Brasil pagou (uma fortuna) para que Portugal enfim reconhecesse a separação.

A questão é que, até 1822, a "construção" da história se dava toda no Rio de Janeiro. E São Paulo não estava gostando nem um pouco de ficar fora da "narrativa". Assim, servindo-se daquele grito quase aleatório, proferido no meio do nada e escutado por quase ninguém - mas em São Paulo -, os paulistas construíram tijolo por tijolo, num desenho lógico, a tradição do 7 de Setembro, referendada depois pela pintura magistral de Pedro Américo, O Brado do Ipiranga, feita 66 anos após os eventos que representou de forma mais real do que a própria realidade - quase um deepfake.

Assim, e por isso, a gente continua fazendo de conta que não sabe que a independência foi articulação do centrão: uma artimanha da bancada ruralista do Senado para manter intocada a escravidão, fazendo o Brasil mudar só para continuar igual, como tantas vezes. Escrevi e apresento a série B de Brasil, exibida pelo History Channel a partir da próxima quarta-feira, às 23h, com reprises aos sábados, às 17h30min, e domingos, às 20h. Claro que também é uma construção - mas garanto que está mais longe da lenda e mais perto dos fatos. Sem deixar de ser divertida. É sério.

EDUARDO BUENO

quinta-feira, 1 de setembro de 2022


01 DE SETEMBRO DE 2022
CARPINEJAR

Você é liso ou anda com troco?

Assim como, no casal, há aquele que carrega a térmica de água quente e o outro que leva a cuia na hora das caminhadas, existe também o que é liso, sem nada na carteira, e o outro que anda com troco.

Todo par amoroso é formado por esses contrários. Os opostos se atraem, se distraem e se amparam.

Há o que nunca passa na agência e o que não dispensa a clássica e antiga visita. Há o otimista e o pessimista realista. Há o que acredita que sempre dará um jeito virtualmente e o que providencia soluções reais. Há o desencanado no mundo da lua e o preocupado com a luz do sol. Há o folgado e o cauteloso. Há aquele que vive de espírito e o que cuida de urgências e dos imprevistos da saúde. Há o desatento e o prático.

O amor se faz de temperamentos antagônicos, que se completam, inteiros diferentes que se encaixam. Raramente, por exemplo, os dois vão planejar juntos, de modo igualitário, uma viagem de férias. Aliás, o que acontece é uma injustiça. É sempre um que realiza a tomada de preços, marca vans e hotel, compra passagens, traça o roteiro de passeios e restaurantes, e um outro que somente tem o trabalho de embarcar.

No meu casamento, sou do partido da escassez. Nunca mantenho nenhuma nota na carteira, nenhuma cédula, só perambulo com cartões de crédito e o meu charme. No aperto, quando sozinho, recorro ao bendito Pix.

Já a minha esposa, Beatriz, é precavida, não sai para a rua desprovida de um dinheirinho de papel. E eu me aproveito. Acabo sendo oportunista. Ela se transformou em meu caixa automático, meu caixa 24h para pequenas somas.

Para que ir ao banco e ter o transtorno de sair de carro se ela está sempre comigo, ao alcance, com a sua bolsa de mágicos trocados? Não faz sentido qualquer deslocamento ou mesmo suportar congestionamento e filas.

No momento do flanelinha, é com ela. No momento da gorjeta, é com ela. No momento de receber o entregador, é com ela. No momento de comprar frutas e verduras na feira, é com ela. No momento da caridade na sinaleira, é com ela. No momento da banca de revistas, é com ela.

Ela não aguentou a descomunal exploração e resolveu o impasse. Como não contava com disponibilidade para me reeducar nem havia como me devolver para a minha mãe depois de tanto tempo comigo, decidiu estabelecer uma mesada. Sou um marido que recebe mesada em mãos toda semana. Não posso reclamar.

CARPINEJAR

01 DE SETEMBRO DE 2022
OPINIÃO DA RBS

AGILIDADE, RIGOR E JUSTIÇA

A Polícia Civil deve concluir hoje a investigação sobre a morte do jovem Gabriel Marques Cavalheiro, 18 anos, e em seguida enviar o inquérito à Justiça. Desta forma, como espera a sociedade gaúcha, parecem estar sendo cumpridas as promessas das autoridades do Estado de agilidade e rigor na apuração das circunstâncias do crime e, como próxima etapa, o julgamento dos acusados. Os três policiais militares de São Gabriel apontados como responsáveis pela abordagem que teve um desfecho fatal já foram indiciados pela corregedoria da Brigada Militar e o mesmo tende a acontecer por parte da Polícia Civil.

O caso será analisado nas Justiças comum e militar. Na primeira, os envolvidos devem ser julgados por homicídio pelo Tribunal do Júri. Na segunda, por falsidade ideológica devido às informações falsas no registro da ocorrência e por ocultação de cadáver. É interesse da própria Brigada Militar que o episódio seja elucidado rapidamente e, restadas comprovadas as culpas, as devidas punições sejam estabelecidas. Mas garantindo-se, sempre, amplo direito de defesa aos acusados.

O comandante-geral da corporação, coronel Claudio dos Santos Feoli, de maneira transparente, admite as transgressões dos dois soldados e de um segundo-sargento, mas lembra que condutas atrozes de indivíduos não devem contaminar a imagem da instituição, de largos e reconhecidos serviços prestados à comunidade gaúcha no combate à criminalidade. Nada melhor para preservar toda credibilidade da Brigada Militar amealhada em quase 185 anos do que trabalhar por uma resposta rápida. E que, ao fim, se faça justiça, o único conforto possível a familiares e amigos de Gabriel. É positiva, na mesma linha, a postura do presidente do Tribunal de Justiça Militar, Amílcar Macedo, assegurando que não haverá impunidade. Macedo promete celeridade e, em caso de condenação, a expulsão dos implicados.

A corporação também deve ficar atenta a outros sinais de más condutas, mesmo de uma minoria. Zero Hora noticiou na terça-feira que, segundo a Defensoria Pública do Estado, foram registrados até julho 246 relatos de truculência em abordagens policiais de agentes da segurança pública, número superior a todo o ano passado. A maior parte dos casos envolveria policiais militares.

Apesar de ser um número pequeno em comparação com o total de abordagens e com o contingente de brigadianos, é um sinal amarelo a merecer atenção. É preciso verificar se eventuais desvios em relação ao padrão para procedimentos do gênero têm origem em questões ligadas à assimilação da boa técnica ou a aspectos pessoais e comportamentais. Torna-se relevante, neste contexto, a informação de Feoli de que a Brigada Militar estuda mudar o perfil dos membros da corporação e, ao mesmo tempo, a utilização de equipamentos com menor potencial ofensivo.

O caso Gabriel e tantos outros mostram ainda o quanto é urgente a adoção de câmeras corporais pelos servidores públicos da área. Após testes, a Brigada Militar está em processo de aquisição de 900 dispositivos. Um terço começaria a ser usado ainda neste ano. Espera-se que o número possa ser em breve ampliado, oferecendo mais segurança tanto para os cidadãos quanto para os policiais.

OPINIÃO DA RBS

01 DE SETEMBRO DE 2022
O PRAZER DAS PALAVRAS

Fichu

A pitoresca consulta vem da leitora Analice R., natural de Curitiba, que está fazendo uma pesquisa acadêmica sobre a moda naquela cidade durante o 2º Império. Diz ela: "Professor, tenho coletado dezenas de anúncios dos principais magazines daquele período e várias vezes deparei com nomes de roupas e de adereços que eu desconhecia totalmente. Para não abusar de sua boa vontade, peço-lhe que me ajude a entender exatamente o que seriam fichus de cassa e chiquitos de marroquim, itens anunciados por uma das lojas que importavam moda da Europa".

Prezada Analice, entendo perfeitamente o teu problema. Sempre que leio nossos autores do séc. 19 sei que vou empacar, aqui e ali, com vocábulos que pertenciam à tecnologia do passado. Algumas áreas semânticas são as piores: primeiro, vêm os tipos de veículos em que nossos personagens se deslocavam; ao contrário de qualquer moleque da época, eu não consigo distinguir um tílburi de um faetonte ou de um fiacre - sei apenas que eram "aplicativos" de tração animal.

Depois vêm os termos náuticos (lembrando que os navios eram o único meio de transporte de longa distância). Para quem não é navegador, o léxico é incompreensível. A respeito disso, aproveito o miniconto da escritora argentina Ana Maria Shua, no seu livro La Sueñera: "Baixar a bujarrona! - grita o capitão. Baixar a bujarrona! - repete o imediato. Orçar a bombordo! - grita o capitão. Orçar a bombordo! - repete o imediato. Olho no gurupés! - grita o capitão. O gurupés! - repete o imediato. Abater a verga da mezena! - grita o capitão. A verga da mezena! - grita o imediato. Enquanto isso, a tormenta recrudesce e nós, marinheiros, corremos de um lado para o outro do tombadilho, desconcertados. Se não encontramos logo um dicionário, vamos direto para o fundo!".

Por fim - e chegamos à primeira parte de tua pergunta - vem o vocabulário riquíssimo daquela arte que se costumava chamar de "corte e costura". Como muitos meninos da minha idade, muitas vezes acompanhei minha mãe ou minha irmã em suas visitas à costureira; enquanto aguardava impacientemente as inúmeras provas que eram feitas antes da versão final da roupa, ficava matando o tempo implicando com o indefectível gato manhoso (geralmente um angorá) ou com o cachorrinho irritadiço (sempre um pequinês rabugento).

Destas intermináveis sessões, certas palavras, embora eu não saiba muito bem o que significam, ficaram guardadas para sempre como pedrinhas coloridas: anarruga, fustão, cretone, batista, morim? Agora, cassa eu nunca tinha ouvido; o amansa-burro me informa que é um tecido semelhante à musselina, "muito leve, diáfano, quase transparente" - bem adequado, portanto, para um fichu (sem acento, como qualquer oxítona terminada em U).

Apesar das variantes que existem, um fichu é um tipo de lenço quadrado, dobrado ao meio para formar um triângulo, que as mulheres elegantes, com os decotes generosos da moda de então, usavam sobre os ombros, geralmente com as duas pontas amarradas num nó frouxo ou unidas por um broche. No início, era reservado à elite. Em 1883, escreve Machado de Assis em seu conto História comum: "Sou um simples alfinete vilão, modesto, não alfinete de adorno, mas de uso, desses com que as mulheres do povo pregam os lenços de chita, e as damas de sociedade os fichus, ou as flores, ou isto, ou aquilo". Pouco a pouco, no entanto, tornou-se popular por sua praticidade, e hoje faz parte, inclusive, da idumentária de nossas prendas.

Finalmente, a segunda parte da pergunta deu menos trabalho: marroquim é um tipo de couro ainda hoje muito usado em artefatos de viagem de luxo e na encadernação refinada de livros, enquanto chiquito era um termo usado em Portugal, certamente derivado do Espanhol, para sapatos infantis.

CLÁUDIO MORENO

01 DE SETEMBRO DE 2022
+ ECONOMIA

Qual o problema de comprar imóveis com dinheiro vivo

Tão surpreendente quanto o levantamento de que 51 dos 107 imóveis negociados por sua família desde 1990 foram pagos, total ou parcialmente, com dinheiro vivo, foi a reação do presidente e candidato à reeleição Jair Bolsonaro (PL):

- Qual o problema comprar com dinheiro vivo algum imóvel?

A coluna não fará juízo de valor sobre a atividade imobiliária. Mas vai tentar responder à pergunta do presidente-candidato que bate na corrupção. Em primeiro lugar, quitar um imóvel "em moeda corrente nacional" não é ilegal. Mas transações desse tipo embutem interrogações que vão da origem do dinheiro - seria lícita? - à prestação de contas ao Fisco - será declarado? Quando passa pelo sistema financeiro, deixa um rastro. Quando o evita, fica mais difícil de mapear.

O que passa pelo sistema financeiro pode ser foco do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), criado em 1988. O órgão surgiu da pressão internacional contra a lavagem de dinheiro.

Esse órgão federal integra o Grupo de Ação Financeira contra a Lavagem de Dinheiro e o Financiamento do Terrorismo (Gafi), organização intergovernamental que desenvolve e promove políticas de combate à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo.

Entre as normas do Gafi, uma aponta que "a falta de transparência com relação à titularidade e controle de pessoas jurídicas e outras estruturas ou com relação às partes responsáveis por transferências eletrônicas faz com que sejam vulneráveis ao mau uso".

Outro foco são as pessoas politicamente expostas - quem atua em alguma organização formal já teve de responder algum formulário com consulta sobre essa condição. A diretriz é exigir "diligência devida melhorada" a esse grupo, que, conforme o órgão internacional, pode "representar um risco maior de corrupção devido às posições que ocupa".

Na lista de proprietários desses imóveis, há outros três detentores de mandato, todos "pessoas politicamente expostas". Por qualquer critério de obediência à lei (o famoso "compliance"), deveriam ter ainda mais zelo com o registro de suas atividades financeiras.

MARTA SFREDO

01 DE SETEMBRO DE 2022
INFORME ESPECIAL

A presença feminina na Expointer - Uma pioneira

Hoje, a partir das 19h, a primeira leiloeira rural do Brasil, Patrícia Cáceres Gonçalves, vai dar mais uma amostra do protagonismo feminino na Expointer. A porto-alegrense irá conduzir um leilão de búfalos na pista B. Será a primeira vez na história da feira.

- Estou muito feliz. Terei a honra de ser, mais uma vez, uma precursora no setor, para orgulho do meu pai, Pedro Paulo Gonçalves (fundador da Guará Remates). Ele partiu em 2020, vítima da covid. Foi meu grande incentivador - conta Patrícia.

Eles ainda são maioria entre expositores, competidores e leiloeiros, mas elas também estão fazendo bonito na Expointer. De mansinho e sem alarde, as mulheres provam que podem, sim, caminhar lado a lado com os homens e dividir com eles funções historicamente masculinas.

Pela primeira vez, o Parque de Exposições Assis Brasil, em Esteio, é comandado por uma produtora rural. Elizabeth Cirne Lima tem merecido elogios do setor pelo trabalho incansável. E ela não é a única.

Importantes entidades do segmento também são lideradas por profissionais bem-sucedidas. Entre elas, estão Simone Bianchini, presidente da Associação Brasileira de Criadores de Devon e Bravon (que tem Elizabeth como vice), e Desireé Hastenpflug Möller, à frente da Associação Sulina de Criadores de Búfalos.

- As mulheres sempre foram muito presentes no agro, mas da porteira para dentro. Agora, estão saindo mais e sendo vistas, mas não conquistaram esse espaço apenas por serem mulheres. É uma questão de competência - diz Desireé.

65 motivos para comemorar - Guardiões de sementes crioulas

Gol de placa

Golaço da Secretaria Estadual da Saúde ao levar a vacinação para as escolas gaúchas. Os baixos índices de imunização justificam a medida. Vacina neles.

Uma energia boa tomou conta, ontem, de todas as sedes da RBS, onde os colaboradores se reuniram para cantar parabéns e celebrar os 65 anos do grupo.

Do restaurante no prédio da Avenida Erico Verissimo, na Capital, o CEO Claudio Toigo Filho e o publisher e acionista Nelson Sirotsky agradeceram, por videoconferência, a todos que fazem e fizeram parte dessa história de sucesso.

- As pessoas são o principal ativo da empresa que, desde o princípio, foi construída a partir da paixão da nossa família pela comunicação, um valor que é compartilhado por todos os nossos colegas - destacou Nelson.

Além de relembrar a essência do grupo fundado por Maurício Sirotsky Sobrinho em 1957, o momento foi de otimismo e de projetar o próximo ciclo de crescimento da RBS.

- Para mim, é uma honra estar aqui neste momento tão especial e, principalmente, poder contribuir para o futuro que estamos construindo, no exercício do nosso propósito, de fazer jornalismo, esporte e entretenimento próximos aos gaúchos e ajudando o nosso Estado - disse Toigo.

Mais detalhes da trajetória da RBS poderão ser conferidos no caderno DOC, em ZH e GZH, neste final de semana. Para marcar a data, o grupo também lançou uma campanha com o mote "Todo dia é uma vida. 365 dias por ano com você, há 65 anos", que traduz a conexão da marca com o Rio Grande.

Orquídeas

Para os amantes das plantas, a Expointer conta com dois espaços especiais: os pavilhões da Flor Gaúcha, com a Associação Riograndense de Floricultura, e da Agricultura Familiar, com 17 bancas do tipo. Entre elas, está o Orquidário Tabaí, que oferece 70 variedades de orquídeas, de R$ 35 a R$ 250 - entre os exemplares, está o "sapatinho" (abaixo).

Marlete Sornberger e João Gabriel Kohl (acima) fazem parte do contingente de pequenos produtores rurais que contribui para a preservação da agrobiodiversidade no RS, com apoio de entidades como a Emater e a Federação dos Trabalhadores na Agricultura.

Moradores de Quinze de Novembro, no Noroeste, eles são guardiões de sementes crioulas e estão no pavilhão da Agricultura Familiar, na Expointer, vendendo grãos orgânicos ancestrais.

- O que fazemos é resgatar sementes não transgênicas e tradicionais da nossa região, que não queremos perder - explica Marlete.

Perguntar não ofende

Comprar um - ou 51 imóveis, como fez a família do presidente da República nos últimos 30 anos - usando dinheiro vivo (precisamente, R$ 13,5 milhões) não é ilegal. Mas usual também não é. Ou estou enganada?

INFORME ESPECIAL