quinta-feira, 11 de março de 2021


11 DE MARÇO DE 2021
DAVID COIMBRA

Que inocente foi condenado pela Lava-Jato?

Só existe uma questão que realmente interessa neste novo abalo político-jurídico que faz o Brasil estremecer e rugir.

Só uma. A seguinte: A Lava-Jato condenou algum inocente?

Crime, sabemos que houve. Bilhões de dólares foram regurgitados das bocas dos bueiros de Brasília, fortunas escusas surgiram em paraísos fiscais no além-mar, um pedaço do roubo foi devolvido aos cofres públicos, corruptos e corruptores, uns mais contritos, outros menos, fizeram confissões.

Então, está claro que o Brasil vinha sendo saqueado. Já acontecia antes? Decerto que sim, e há tempo. A diferença foi que, pela primeira vez, os culpados estavam sendo punidos. Quem diria que empresários poderosos e políticos influentes seriam presos por corrupção no Brasil?

Quem diria? Eu, no fervor da Lava-Jato, fui um iludido. Admito, envergonhado: um iludido.

Lembro de um episódio que demonstrou minha cândida inocência. Vivia nos Estados Unidos e uma ou duas vezes por semana ia almoçar na Bottega Fiorentina, cantina toscana do meu amigo Andrea Ferrini, um italiano de Florença, admirador do Batistuta, de quem tinha uma foto em cima do balcão do restaurante.

Lá, na cantina do Andrea, almoçava também um americano que se chamava, por coincidência, David. Ele almoçava na Bottega todos os dias, sentava-se sempre no mesmo canto e, em geral, fazia as refeições sozinho. Certa vez, o Andrea cumprimentou, à porta da cozinha: "Hi, David!". Nós dois respondemos. Começamos a rir. "Two Davids?". A partir daí, iniciou-se uma amizade. Eu dizia que eu era o David primo, primeiro em italiano, ele dizia que era o number one. Ou o contrário, cada dia um dizia algo.

Bem. Num desses almoços, depois do fettuccine à carbonara e do tiramisu, ficamos conversando por bastante tempo, cada um bebericando o seu expresso, e meu xará comentou sobre o horror da corrupção no Brasil. Então, estufei o peito de ufanismo e ponderei:

- É verdade, muita corrupção está sendo revelada no Brasil. Mas, que eu saiba, existe também corrupção aqui, nos Estados Unidos, e na Europa, e no Japão, e em toda parte. Só que no Brasil está sendo revelada e, o principal, está sendo punida.

David balançou a cabeça em concordância:

- Você está certo. Todos sabemos que existe corrupção, mas descobri-la e puni-la é um grande avanço! Os brasileiros estão de parabéns!

Fiquei todo contente. Hoje, se reencontrar meu tocaio, o que lhe direi? Que a corrupção foi punida e, depois, "despunida"? Como explicarei a ele esse Brasil que sabe o que aconteceu, que sabe que foi violentado pelos mais diversos crimes e que agora parece mais disposto a punir juízes e promotores e livrar os culpados?

Meu amigo americano não vai entender. Acho que terei de apelar para a ajuda do Andrea. Essa é uma tarefa que só um italiano, experimentado nas nossas contradições latinas, é capaz de cumprir.

DAVID COIMBRA

11 DE MARÇO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

A IMPORTÂNCIA DA UNIÃO

Lançado oficialmente há cerca de um mês, o movimento Unidos pela Vacina começa agora a atuar de forma mais efetiva no Rio Grande do Sul. De caráter apartidário, a iniciativa une e mobiliza empresários, profissionais liberais, líderes sociais e entidades e se propõe a meritória tarefa de atuar na ponta, diretamente com os municípios, para verificar e sanar eventuais carências locais que possam prejudicar o ritmo de vacinação, quando o país contar com um volume adequado de imunizantes. Trata-se de um exemplo de como a sociedade organizada pode fazer a sua parte para acelerar a superação da crise sanitária e econômica, conjugando esforços com o poder público. A pandemia do novo coronavírus é, sem dúvida, o maior desafio vivido em várias gerações e, para vencê-lo, é preciso canalizar toda a energia disponível na mesma direção.

No Estado, o Unidos pela Vacina vai contar com uma bem-vinda articulação entre a Federação das Associações de Municípios do Rio Grande do Sul (Famurs), o Instituto Cultural Floresta (ICF) e a Associação Gaúcha de Emissoras de Rádio e Televisão (Agert), além de empresários e executivos que se voluntariaram para se juntar a essa nobre missão. O objetivo é ter o mais rapidamente possível um diagnóstico dos municípios quanto a questões como logística, transporte e disponibilidade de insumos para a aplicação das doses. Essa fase terá à frente a Famurs e o Grupo Mulheres do Brasil, nacionalmente liderado pela empresária Luiza Trajano, presidente do Conselho de Administração da varejista Magazine Luiza. Se conseguir ter em mãos esse raio X até o final de março, como se propõe, será uma contribuição decisiva para que os gargalos sejam contornados.

Tão importante quanto dispor de um mapa das carências será, em um segundo momento, organizar uma rede de apoiadores para mitigar as fragilidades identificadas. Nesta segunda etapa, será decisiva a atuação do Instituto Floresta, que já tem um trabalho reconhecido no auxílio ao aparelhamento das forças de segurança no Estado e, no ano passado, também contribuiu para repassar respiradores para hospitais. Outra ação de extrema relevância é amplificar informações corretas sobre a importância da vacinação e, nesta parte, é crucial a contribuição da Agert, que conta um grande número de emissoras associadas espalhadas pelo território gaúcho. Esta é também uma responsabilidade dos veículos do Grupo RBS, que desde a primeira hora aderiu ao movimento.

O Unidos pela Vacina, desta forma, traz para o Rio Grande do Sul uma notável contribuição para deixar a rede de saúde preparada para a chegada dos imunizantes. O desenvolvimento de vacinas em tempo recorde foi um triunfo da ciência e a aplicação em massa representa a única saída sustentável para vencer a pandemia, salvando vidas e permitindo o retorno seguro ao trabalho. O Estado e o país passam pelo momento mais angustiante da atual crise, com hospitais saturados e mortes em quantidades crescentes. A esperança de uma reversão duradoura deste quadro depende de assegurar mais doses, com a maior celeridade possível. Espera-se, agora, que o governo federal concretize rapidamente a promessa de fechar contratos com mais laboratórios, para o país não ficar atrás na corrida global para deter o vírus.


11 DE MARÇO DE 2021
+ ECONOMIA

Como frear gasolina antes de chegar a R$ 7

Há menos de um mês, a coluna se assustou com a placa de preço de gasolina que marcava R$ 4,999. Na terça-feira, depois do sexto reajuste nos primeiros 68 dias de 2021, o valor exposto tocou em R$ 5,999, ou seja, R$ 6. Todos sabemos: o aumento acumulado em 54% nas refinarias só neste ano é resultado da combinação de alta na cotação do petróleo e desvalorização do real. Com o barril encostando em US$ 70 e o dólar arranhando os R$ 6, a gasolina pode chegar a R$ 7?

No período em que a gasolina subiu 54% no Brasil, o óleo tipo brent, usado pela Petrobras para definir seus reajustes, aumentou 33,2%. O dólar, o outro componente da equação, subiu 10%. Nesse caso, não basta somar os dois fatores, o que daria 43,2%, mas fazer a conta da pressão acumulada, que alcança 46,5%. Os pontos percentuais excedentes equivalem a repasses represados em 2020.

Portanto, a maior pressão sobre os reajustes dos combustíveis no Brasil veio mesmo do petróleo, cujo destino está nas mãos de um cartel, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), que decidiu manter cortes na produção até abril. Com oferta limitada, faz o preço subir. Na manhã de quarta-feira, a cotação do barril de brent era de US$ 67,75.

No Brasil, o câmbio seria a variável mais controlável - pouco, mas uma economia equilibrada contribui para a valorização da própria moeda. O problema que é o dólar subiu neste início de ano, e não por uma irrefreável tendência internacional. Ao contrário, a moeda americana cedeu ante várias outras com a eleição de Joe Biden à presidência dos Estados Unidos.

Havia a perspectiva de que o real também conseguisse se recuperar, o que não foi possível diante da desconfiança do mercado quanto à política populista de Jair Bolsonaro. Agora, o dólar retoma valorização ante as demais moedas, como mostra a elevação dos títulos do Tesouro americano, os Treasuries.

Ontem, dólar caiu 2.5% para R$ 5,665. Embora analistas admitam que pode chegar a R$ 6, projetam que feche o ano por volta de R$ 5,50. Ou seja, existe perspectiva de alívio. E avança no governo a intenção de uma saída à Dinamarca: a criação de um fundo de estabilização para os combustíveis, abastecido com recursos de royalties e participações especiais arrecadadas pelo governo federal na exploração de petróleo e gás. Não é uma garantia de que a gasolina não chegue a R$ 7 na bomba, mas é uma das poucas alternativas possíveis.

"Deus Mercado" não reage a Lula

No discurso de tom eleitoral feito ontem, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu:

- Não tenham medo de mim.

Referia-se à reação de dólar e bolsa nos dois dias anteriores, mas Lula assoprou e mordeu, ao dizer que não se deve dar tudo o que quer o "Deus Mercado" e criticar privatizações. Na fala preparada para soar racional e pacífica, não reeditou a Carta ao Povo Brasileiro. Insistiu que a Petrobras não deve seguir preço internacional do petróleo.

Nesse ponto, concorda com Bolsonaro. Paulo Guedes foi o único ministro citado, além de Eduardo Pazuello, da Saúde. Nos dois casos, com críticas. Mas acenou ao empresariado ao dizer que sempre buscou diálogo.

E pegou carona no desconforto crescente da população ao apontar da alta dos preços dos alimentos e dos combustíveis. Com ajuda do Banco Central e da aprovação do pacote de US$ 1,9 trilhão nos EUA, dólar caiu 2,5% e bolsa subiu 1,3%.

Investimento de R$ 2 bi em latas

Não está faltando nem vai faltar, disse o gaúcho Cátilo Cândido, presidente da Associação Brasileira dos Fabricantes de Latas (Abralatas), à dúvida da coluna sobre a normalidade do abastecimento que ainda é incerta em vários setores.

Em 2020, afirmou Cátilo, as 24 indústrias do Brasil, incluindo uma no Rio Grande do Sul, produziram número recorde de latas: 32 bilhões, com alta de 7,3% ante o ano anterior no faturamento, que ficou em R$ 17,5 bilhões.

- A pandemia teve vários impactos, e um foi o forte crescimento na demanda por latas, que já vinha se acelerando e se intensificou. No final de 2019, de toda a cerveja do país, 55% era envasada em lata. No final do ano passado, chegou a 70%. Crescemos em um ano o que esperávamos crescer em três. Então, ocorreram faltas pontuais, não disrupção. Ninguém consegue crescer 7,3% se não entregar produto - sustentou.

Antes da pandemia, o consumo de cerveja se concentrava em bares e restaurantes, onde dominam as garrafas de vidro. Com o distanciamento social, a venda se concentrou no varejo, em hiper e supermercados.

Para 2021, há previsão de três novas fábricas de latas: duas em Minas Gerais, com investimento de R$ 2 bilhões, cerca de 20% de expansão, e a terceira ainda sem local definido.

Sabor de 1949

Depois de bom desempenho em Santa Catarina, a Fruki vai relançar seu sabor laranja, batizado de Laranjinha, no mercado gaúcho. O produto deve chegar às gôndolas ainda neste mês, inicialmente em embalagens de dois litros. A marca renovou a fórmula de 1949 e lançou a bebida no Estado vizinho em julho passado. Como as vendas superaram as projeções, a empresa decidiu "trazer" o produto para casa. Julio Eggers, diretor administrativo e de marketing da Fruki, diz que a expectativa é de que o sucesso no mercado catarinense se repita no Estado. A Fruki teve em dezembro passado seu melhor mês, com 8,8% do total das vendas. O sabor guaraná chegou a 30% do mercado, tornou-se a bebida desse tipo mais vendida no Estado.

A expectativa com o avanço da pec emergencial na câmara dos deputados é de que a medida provisória que renova o auxílio emergencial por mais quatro meses seja editada na próxima semana. os pagamentos do benefício podem começar na segunda quinzena de março.

55,6 pontos foi o nível de emprego na indústria gaúcha em janeiro, que teve o sétimo aumento seguido e ficou acima do padrão do mês, de média histórica de 50,2. Acima de 50 pontos, o indicador reflete crescimento ante o mês anterior.

Gaúchos deixam XP por gestora local

Depois de 10 anos como sócios da XP Investimentos, Laura Grendene Bartelle e Rossano Oltramari mudaram de casa: ingressam na 051 Capital. A missão dos dois gaúchos será levar os produtos da gestora para as plataformas digitais de investimento. A 051 Capital, que administra R$ 2 bilhões em recursos de terceiros em Porto Alegre, Rio de Janeiro (RJ) e Teresina (PI), passa a atuar com clientes de varejo de alta renda.

Nascida em Porto Alegre, mas baseada no Rio de Janeiro, Laura Grendene Bartelle, filha de Alexandre Grendene, começou a carreira como analista de investimentos na XP com 17 anos. Com mais de 20 anos de experiência no mercado, Rossano Oltramari foi um dos integrantes do grupo de gaúchos fundadores da XP Investimentos em 2002, onde atuou como analista-chefe.

A chegada dos dois à 051 Capital marca a entrada da gestora de recursos no varejo. O objetivo é permitir acesso, para quem tem valores menores para investir, a produtos normalmente reservados para o perfil private, ou seja, de alta renda, com custo acessível, diversificação e "alinhamento de interesses" - quando o gestor não apenas vende produtos de investimento, mas divide o ganho com o cliente. Há quatro anos, a 051 Capital faz planejamento e gestão de patrimônio, no modelo conhecido como múlti family office, ou gestão de fortunas.

MARTA SFREDO


11 DE MARÇO DE 2021
ACERTO DE CONTAS

Mistura de atacado e supermercado

Está confirmada a entrada em Porto Alegre do Grupo Imec, varejista com sede em Lajeado e fundada há 65 anos. Misturando supermercado com atacado, a unidade do Desco Super&Atacado será construída no local onde ficava uma concessionária Copagra, fechada em 2018, na Rua Ramiro Barcelos.

- O formato é pensado para servir com praticidade e economia os consumidores finais e empreendedores que querem abastecer seus negócios - diz o diretor-presidente do Grupo Imec, Leonardo Taufer.

O aporte financeiro não foi divulgado, mas a megaloja vai gerar 200 empregos e vender 7 mil itens, sendo que 40% da área de vendas será para produtos frescos e perecíveis. No ano passado, o Imec anunciou um plano de expansão de cinco anos, incluindo a ampliação de seu centro de distribuição.

800 farmácias

A rede de farmácias São João abrirá nesta semana a sua 800ª loja. A unidade ficará em Canoas. A empresa tem sede em Passo Fundo, no norte do RS, onde inaugurou recentemente a sua primeira farmácia com estrutura de drive-thru.

Com o nome limpo

Apesar do ano difícil, a inadimplência dos gaúchos caiu 5,2% em 2020 na comparação com 2019. Segundo a Serasa Experian, são 2,919 milhões de pessoas com dívidas atrasadas, ou seja, 32,7% da população do Rio Grande do Sul. É um número alto, mas, em dezembro de 2019, eram 3,080 milhões. O PIB caiu e o desemprego subiu. O que explica, então, a queda da inadimplência? Luiz Rabi, economista da Serasa, cita o auxílio emergencial, a baixa taxa de juros e a disposição das instituições financeiras para renegociar os débitos. A coluna acrescenta ainda o receio do consumidor de assumir dívidas na crise.

Aliás, segue valendo a dica de pedir revisão da taxa de juros de empréstimos de longo prazo, como financiamento imobiliário. Bons pagadores são disputados pelos bancos.

GIANE GUERRA

11 DE MARÇO DE 2021
POLÍTICA +

Lula faz Bolsonaro e sua família mudarem o discurso

Em tom de palanque, a primeira manifestação do ex-presidente Lula depois da decisão do ministro Edson Fachin que o tornou apto a concorrer na eleição de 2022, produziu um efeito imediato sobre o presidente Jair Bolsonaro e seus filhos.

Ao defender vacina, máscara e distanciamento social, Lula tirou o provável adversário da toca: à tarde, na sanção do projeto que facilita a compra de vacinas, Bolsonaro apareceu de máscara, convertido ao que o mundo adota desde o início de 2020 e que ele não só se recusava a usar, como criticava. Todos os demais participantes da cerimônia usavam a proteção no rosto.

Crítico das vacinas, Bolsonaro prometeu 400 milhões de doses até o final do ano e anunciou investimentos no desenvolvimento de um imunizante brasileiro.

O senador Flavio Bolsonaro, que nunca foi adepto dos protocolos da Organização Mundial da Saúde, converteu-se em defensor tardio da vacina. Em seu perfil no Twitter, postou, com oito hashtags "Vacina para gerar empregos! Nos próximos dois meses vacinaremos dezenas de milhões de brasileiros!". O post é ilustrado com uma foto do pai e a frase "Nossa arma é a vacina".

Com seu estilo mais belicoso, o vereador Carlos Bolsonaro postou: "Siga a ordem cronológica dos fatos para não cair em narrativas. Presidente @jairbolsonaro nunca foi contra vacina como dizem os canalhas!". Na publicação, um vídeo com trechos de manifestações do pai sobre a vacina. A edição, naturalmente, ignorou todas as vezes em que o pai fez manifestações contra as vacinas em geral e "a chinesa" em particular.

A um ano e sete meses da eleição, é prematuro dizer que o Brasil terá segundo turno entre Lula e Bolsonaro. Os dois estão em campanha, mas há vida inteligente fora de suas bolhas.

Defensoria também terá auxílio

Além do Judiciário e do Ministério Público, a Defensoria Pública Estadual também instituiu um auxílio-saúde para defensores e servidores ativos e aposentados. Conforme o defensor-público-geral Antonio Flávio de Oliveira, isso ocorreu em razão do princípio constitucional da simetria, que garante à instituição o acesso aos mesmos benefícios das carreiras jurídicas. 

ROSANE DE OLIVEIRA


11 DE MARÇO DE 2021
L.F. VERISSIMO

Vida de cinema

Os filmes que víamos antigamente não nos prepararam para a vida. Em alguns casos, continuam nos iludindo. Por exemplo: briga de socos. Entre as convenções do cinema que persistem até hoje está a de que socos na cara produzem um som que na vida real nunca se ouviu. O choque de punho contra rosto fazia estrago nos rostos - ou não fazia, era comum lutas em que os brigões quase se matavam a murros terminarem sem nenhuma marca nos rostos -, mas poupava os punhos. E, como sabe quem, mal informado pelo cinema, entrou numa briga a socos, o punho quando acerta o alvo sofre tanto quanto o alvo.

No cinema de antigamente, você já sabia: quando alguém tossia, era porque iria morrer em pouco tempo. Tosse nunca significava apenas algo preso na garganta ou uma gripe passageira - era morte certa. Quando um casal se beijava apaixonadamente e em seguida desaparecia da tela era sinal de que tinha se deitado. E depois, não falhava: a mulher aparecia grávida. 

Nunca se ficava sabendo o que acontecia, exatamente, depois que o casal desaparecia da tela, a não ser que o filme fosse francês. Pode-se mesmo dizer que o começo da mudança do cinema americano começou na primeira vez em que a câmera acompanhou a descida do casal e mostrou o que eles faziam deitados. Depois desse momento revolucionário, não demoraria até aparecerem o beijo de língua e o seio de fora. E chegarmos ao cinema americano de hoje, em que, de cada duas palavras ditas, uma é "fucking".

Se a vida fosse como o cinema nos dizia, nunca faltaria bala nas nossas pistolas ou gelo no balde para o nosso uísque quando chegássemos em casa. E, sempre que tivéssemos de sair às pressas de um restaurante, atiraríamos dinheiro em cima da mesa sem precisar contá-lo e sem esperar que o garçom trouxesse a nota. Seria uma vida mais simples, a cores ou em preto e branco, interrompida a intervalos por números musicais em que cantaríamos acompanhados por violinos invisíveis, e quando dançássemos com nossas namoradas seria como se tivéssemos ensaiado durante semanas, e não erraríamos um passo, e seríamos felizes até the end.

Luis Fernando Verissimo está em licença médica.

Esta coluna foi publicada originalmente em 31 de julho de 2014.

L.F. VERISSIMO

quarta-feira, 10 de março de 2021


10 DE MARÇO DE 2021
DAVID COIMBRA

Não aguento mais tanta conversa

Estava escrevendo em meu computador quando, PAM!, ouvi um ruído forte de pancada. Um passarinho colidira contra a porta envidraçada da biblioteca. Vi que caíra no chão. Fui até ali. Cheguei bem perto, a uma distância que passarinhos, em geral, não toleram. Agachei-me. O passarinho estava com os olhos fechados, deitado de lado, uma asa esticada ao lado do corpo. Mas ainda vivia, percebi por sua respiração pesada.

Era um passarinho bonitinho, do tamanho de um punho. A barriga era amarela; o resto das penas, verde: um passarinho definitivamente brasileiro. De que raça seria? Queria conhecer mais sobre os passarinhos e as árvores, sempre digo isso.

Sua respiração ficou mais fraca, e temi que morresse. Essa ideia começou a me deixar angustiado. Será que devia fazer algo? Quem sabe lhe borrifar umas gotinhas d?água no bico, para que se reanimasse? Ou deixá-lo descansar seria a melhor providência? A dúvida aumentou minha aflição. Por algum motivo, concluí que o destino daquele passarinho tinha uma relevância que ultrapassava sua mera existência. Não se tratava apenas de um passarinho acidentado, era algo simbólico. Algo importante. Ele tem que sobreviver, disse para mim mesmo. Ele tem que sobreviver.

Em seguida, pensei que não fazia sentido dar essa transcendência ao que aconteceria com o passarinho. Milhares de passarinhos devem bater contra vidros durante o dia, no Brasil e no mundo, e, ainda que não resistam, nossa vida continua igual sem eles. Nada muda. Por que aquilo parecia tão decisivo para mim?

Deve ser a pandemia. Está todo mundo nervoso. Mais: está todo "o" mundo nervoso. Com exceção de Israel, em que grande parte da população já se vacinou contra o coronavírus, a Humanidade inteira se vê sitiada por um inimigo que parece indestrutível, e sente alguns dos mais altos níveis do maior horror do ser pensante, do medo ancestral, o medo que nos move: o medo da morte.

É exatamente esse medo que deixa as pessoas tensas. No caso do Brasil, a tensão é ainda maior, porque não existe consenso sobre a forma de combater o Mal. Cada liderança aponta para um lado diferente, cada cidadão tem a sua opinião e contesta a do outro e discute e briga e quer identificar (e punir) os culpados por seu sofrimento.

É muito ruim esse clima. Faz mal. Eu, olha, eu quero dizer uma coisa para você: eu não aguento mais esses debates, esses argumentos e contra-argumentos, essa falação. Quero paz. Quero um dia mais leve. O vírus está por aí, nos cercando, bem sei. Mas faço o possível para me proteger e aos meus, e pronto. Às vezes é necessário pagar algum preço? Pago, e torço para que seja breve o padecimento, para que a vacina chegue logo, para que o índice de contágio baixe, aquilo tudo. De resto, quero paz.

O Brasil se tornou um lugar chato, cheio de gente que acusa, que aponta, que julga, que tem certezas. Muito chato. E, agora, esse passarinho ferido aqui na minha frente. Deu-me uma tristeza infinita vê-lo ali, imóvel, e senti um peso no peito e, então, ele se mexeu. Abriu os olhos, moveu um pouco a asa. Ponderei: vou me afastar um pouco, para não assustá-lo. Foi o que fiz. Voltei ao computador, mas fiquei com o canto do olho nele. E vi quando se ergueu. "Oh, Deus!", exclamei. "Vai viver!"

Mas ele estava absolutamente duro, paralisado, eu não distinguia se ainda respirava ou não. Não consegui voltar a escrever, fiquei observando-o. Ele não se mexia. Nenhuma pena se movia, os olhos não viravam, nada. Estaria vivo? Passarinhos morrem assim, de pé, como cavalos? Bem, cavalos dormem de pé, mas morrer, duvido que morram. Não era possível. Mais uma vez, invadiu-me o sentimento de que o passarinho TINHA de sobreviver. Que era de significado fundamental para mim, para a minha família, para os meus amigos, para os meus irmãos brasileiros que ele se recuperasse. Só que os minutos iam passando, e ele ali, uma estatuetinha de passarinho.

Fui me aproximando, para descobrir seu estado. Cada vez mais próximo, cada vez mais próximo. E, no momento em que cheguei a metro e meio de distância, ele se empinou e alçou voo. Zuniu em tamanha velocidade, céu azul afora, que nem vi para onde foi. Dei um grito, como se tivesse marcado um gol. Tudo vai dar certo, disse alto para mim mesmo e para você e para o mundo. Tudo vai dar certo!

DAVID COIMBRA

10 DE MARÇO DE 2021
ARTIGOS

O MERCADO E O MUNDO CROSS BORDER

Em épocas de aplicações intensivas em tecnologias e inovações, os mercados nunca mais serão os mesmos. Nenhuma empresa atua hoje como há cinco anos e será também diferente daqui a cinco anos.

O diferencial está na capacidade de ler mercados e tendências, o comportamento do consumidor e sua cultura.

O consumidor brasileiro é antenado em inovações tecnológicas e esse processo responde a partir de faixas etárias mais jovens, graus de instrução, bem como à disponibilidade de telecomunicações eficientes e de baixo custo, fundamentais para a disseminação do mundo digital.

Exemplo de fácil compreensão é o que vem ocorrendo no comércio eletrônico e no sistema financeiro. Cada vez mais nos afastamos das compras nas lojas físicas e das agências bancárias. Hoje temos um mundo híbrido, onde o digital e o físico convivem. Palavra criada para caracterizar esse novo ambiente é o "fisital", que é a mistura do mundo físico com o digital. Na linha do tempo, a participação do digital vai conquistando espaço em relação ao físico.

O e-commerce invadiu o comércio tradicional, tendo em 2020 superado R$ 200 bilhões; significa que, se uma empresa atua no comércio e não possui vendas por internet, ficou de fora desse mercado, que inexoravelmente vai continuar se expandindo. Grandes redes de lojas abriram seus canais de e-commerce e posteriormente as transformaram em grandes marketplaces e, com o uso de canais digitais, invadiram o mercado dos bancos, oferecendo crédito.

Os bancos também mudaram sua atuação, com uma vasta oferta de produtos e serviços, farta disponibilização de canais digitais, o uso maciço de aplicativos e o "self-service". Com isso, o funcionamento das agências se alterou. No mundo fisital, as agências bancárias continuarão importantes, mas com outro perfil. A criação de ambientes de convivência para a busca de consultoria e orientação financeira vai gerar um processo de inteligência que qualificará o sistema e seus clientes.

Resumindo, varejistas ou bancos que continuam a operar com os mesmos mixes de produtos e serviços e sem inovar em seus canais de distribuição, provavelmente já constatam um processo de encolhimento e podem ficar no passado. Devemos sempre lembrar que vivemos em um mundo "cross border" e que a inovação não respeita limites físicos ou geográficos. Há sempre espaço a ser conquistado, inclusive o de nossas próprias empresas.


10 DE MARÇO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

PACTO NACIONAL PARA COMBATER A COVID-19

A ausência de uma liderança federal responsável para conduzir o país nas medidas de combate à pandemia força governadores e Congresso a formar uma aliança para tentar dar uma coordenação nacional às ações que se impõem. Diante das omissões e de reiterados erros do governo Jair Bolsonaro, agem corretamente os chefes dos Executivos estaduais, articulados com o parlamento, para buscar pressionar pela negociação de mais vacinas, cobrar prazos para a entrega dos imunizantes e, principalmente, dar uniformidade a iniciativas que tentem conter o desenfreado ritmo de contágios pelo novo coronavírus.

Com as repetidas negativas do Planalto em reconhecer o distanciamento social como a alternativa mais viável para diminuir a marcha acelerada do vírus, que resulta em escalada de hospitalizações e mortes, não poderiam os governadores trabalhar de forma isolada. Pouco adianta um Estado tentar implementar medidas restritivas à circulação de pessoas se, nas demais unidades da federação, preponderar o descontrole e a disseminação galopante da covid-19. Ao se unirem, demonstram força e também diluem o desgaste político, porque sabem que, em Brasília, terão apenas uma voz contrária às providências conhecidas como eficazes para controlar o vírus.

Em outra frente, os presidentes do Senado e da Câmara, Rodrigo Pacheco (DEM-MG) e Arthur Lira (PP-AL), formalizaram ontem questionamento ao ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, sobre o calendário de vacinação. Nos últimos dias, são quase diárias as alterações das projeções vindas do governo federal sobre o cronograma de entrega de vacinas, mais uma prova do quanto o governo federal, lamentavelmente, é inepto na tarefa de assegurar uma previsão confiável à sociedade. Coube também a Lira ontem tratar com o embaixador chinês, Yang Wanming, sobre pedido para Pequim ajudar o país a superar esta verdadeira tragédia que tirou a vida de quase 270 mil brasileiros, agilizando o envio de vacinas ou de insumos. A iniciativa de Lira comprova a interlocução deficiente do Planalto, após vários ataques de membros do governo Bolsonaro e do entorno do presidente à China.

Diante do descrédito de Brasília, que não assume responsabilidades e falha na negociação de vacinas, a solução definitiva para a pandemia, torna-se premente a instalação dessa espécie de gabinete de crise, com governadores e Congresso, para dar um caráter nacional ao enfrentamento do drama sanitário, social, econômico e humanitário instalado no território nacional. Em um momento de colapso dos hospitais, recordes de mortes e vácuo na presidência da República, não há como adiar a implementação de pacto nacional que tente, com ações racionais e concatenadas, dar aos brasileiros alguma esperança de que haverá um mínimo de harmonia e cooperação para debelar a pandemia no país.


10 DE MARÇO DE 2021
ACERTODE CONTAS

Bairro de R$ 3 bilhões

Após o início das obras, há quatro meses, foi lançado agora o site do Golden Lake (bairrogoldenlake.com.br), um bairro planejado e privativo na zona sul de Porto Alegre. O valor geral de vendas (VGV) deve superar R$ 3 bilhões. O projeto é da Multiplan, que também administra o BarraShoppingSul, bem próximo do local.

O complexo foi batizado de Bairro Golden Lake, mas suas 18 torres são divididas em sete condomínios, no terreno de 160 mil metros quadrados que era do Jockey Club. O primeiro lançamento é das quatro torres do Lake Victoria, que ficam de frente para a rótula da Avenida Diário de Notícias com a Avenida Guaíba. Os apartamentos terão de 299 a 732 metros quadrados. Está previsto um espaço de bem-estar projetado sobre um lago com piscinas e spas. Destaque ainda para a Golden Beach, uma praia artificial na área de lazer que terá até um aquário.

Pé no acelerador

A Rede Polo acelerou a reabertura dos supermercados comprados do Dia em 2020, quando a empresa espanhola deixou o RS. Desde dezembro, foram inauguradas lojas em Farroupilha, Esteio, Tramandaí, Gravataí e Canoas. Em março, começa a operar em Campo Bom e Alvorada. E, para abril, o diretor-executivo Fabiano Mussi projeta os supermercados de São Leopoldo e de São Jerônimo. A unidade de Porto Alegre deve ser inaugurada em maio, na Rua Coronel Neves, no bairro Medianeira. A Rede Polo comprou a operação de 57 das 70 lojas do Dia.

GIANE GUERRA

terça-feira, 9 de março de 2021


João Franco E Cassiano - Paredes Azuis

   

João Franco E Cassiano - Ainda Ontem - Semi Luz

   

Pode Ser - João Franco E Cassiano

09 DE MARÇO DE 2021
DAVID COIMBRA

Decisão de Fachin pode viabilizar Moro

Era meio óbvio, se é que existe "meio óbvio", que a Lava-Jato sofreria derrotas sérias como a de ontem, com a anulação das condenações de Lula pelo ministro Fachin, do STF. O establishment político foi atingido com muita dureza pela operação, a reação viria inevitavelmente, como veio na Itália, depois da Mãos Limpas.

O que importa, agora, é saber o que na verdade significa essa decisão de Fachin para o Brasil, porque há muitas implicações profundas, muitas consequências que ainda serão sentidas.

A primeira delas, no clima político. Se o país já vivia tempos nervosos, imagine a partir de agora. A vitória de Lula reforça o discurso do bolsonarismo. A resposta-padrão a qualquer crítica ao presidente, "preferia o Lula?", ganhou validade e cor. Ninguém mais pode argumentar "esqueçam o Lula" ou "esqueçam o PT" - Lula e o PT estão aí, justificando a ferocidade dos governistas.

O debate vai recrudescer, vai ficar mais amargo, as discussões nos grupos de WhatsApp serão intermináveis, mais amizades se romperão. Mas isso é só o começo, porque faltam quase dois anos para a eleição presidencial. Com Lula na disputa, Bolsonaro se agiganta. De certa forma, foi o que ocorreu em 2018, com o PT sustentando a possibilidade de Lula concorrer até o último momento, eletrizando o eleitor e arrastando parte da população para o lado do antipetismo raiz representado por Bolsonaro.

A provável candidatura de Lula é um doce para Bolsonaro. É tudo o que ele queria.

Só que um terceiro personagem surge desse quadro: Sergio Moro. Com seu desastrado ingresso no governo, Moro enfraqueceu a Lava-Jato e minou seu próprio prestígio. Agora, ele reaparece como uma possibilidade política, como um contraponto aos outros dois radicais, Lula na esquerda e Bolsonaro na direita.

Isso é viável, por ironia, graças à decisão de Fachin. Pois a anulação das condenações de Lula se deu porque o ministro julgou que a vara federal de Curitiba não tinha competência para julgar esses processos. Assim, Moro saiu ileso dessa confusão. Sua suspeição nos julgamentos, pedida pela defesa de Lula, não foi analisada. Seria, e pelo ressentido Gilmar Mendes, mas agora esse pleito perdeu sua motivação - as condenações já foram anuladas.

Não foi à toa que o presidente da Câmara, Arthur Lira, escreveu no Twitter:

"Minha maior dúvida é se a decisão monocrática foi para absolver Lula ou Moro. Lula pode até merecer absolvição. Moro, jamais"...

Em resumo, a classe política está se lixando para Lula, Lula é um deles. A preocupação é Sergio Moro, é a vendeta pelo pavor que eles sentiram enquanto a Lava-Jato esteve forte e o braço da lei ameaçava alcançá-los.

Sergio Moro, portanto, tem saída, se quiser se manter como um personagem de primeiro plano da política nacional. Mas, para enveredar por essa saída, terá de enfrentar a oposição de Lula e Bolsonaro. Será preciso coragem. E estômago forte.

DAVID COIMBRA

09 DE MARÇO DE 2021
LUÍS AUGUSTO FISCHER

Um ano

Reza a lenda que uma vez perguntaram ao Albert Einstein uma explicação direta e simples da relatividade, e que ele teria pensado um pouco - vamos colocá-lo, imaginariamente, com aqueles cabelos espantados, sorriso ameno, bigode escondendo os lábios como ocorria com o Paixão Côrtes, ele elevando os olhos ao céu para encontrar inspiração - e respondido:

"Imagina um minuto ao lado da pessoa amada; e agora imagina um minuto com a mão na chapa quente do fogão".

Não vou ao Google para aferir a verdade da história, que é tão boa que deveria ter acontecido assim mesmo, para bem das boas histórias da humanidade. O que interessa é a força expressiva da comparação.

Depois dos 40 anos, os anos passam mais rapidamente. A gente termina de celebrar o ano-novo já está na Páscoa, a gente aniversaria e os filhos também, passa o inverno, nascem de novo as flores e eis o final do ano, que aqui em Porto Alegre começa na Feira do Livro, não sei se todos se deram conta disso. E já é Natal e acabou. E a gente encontra sem querer um velho amigo, ou um desafeto recente, e já paga IPTU e IPVA de novo, e já pensa de novo em baixar as roupas de frio, que este ano talvez venha forte.

Para gente madura e velha, um ano é assim, uma experiência veloz e imparável. Por que tão rápido? E as crianças, por que pararam de ser crianças?

Esse ano infinito que acabamos de celebrar, um ano dessa pandemia que se acrescenta de um governo federal infernal e infenso à razão, para nós talvez tenha passado com a lentidão que gostaríamos de ver em cada um e em todos os anos do calendário. Uma lentidão amarga, agora.

Mas o que dói mesmo é pensar nas crianças em idade escolar, no tanto que elas estão sofrendo sem nem saber. Tem a chatice das aulas online, a escassez de relacionamentos. E tem tudo que não foi possível viver, na sala de aula, no pátio, na entrada e na saída, naquele alvoroço diário que tem a densidade da vida. Um ano. Que tristeza.

LUÍS AUGUSTO FISCHER

09 DE MARÇO DE 2021
NÍLSON SOUZA

Muitas luzes

Uma das passagens mais emocionantes e emblemáticas da obra de Erico Verissimo é o trecho de Solo de Clarineta em que o escritor relembra sua experiência adolescente de ter que segurar uma lâmpada elétrica na mesa de operações da farmácia de seu pai enquanto o médico remendava um sujeito estropiado. Ele conta que superou o horror e a náusea pensando que iluminar a improvisada cirurgia não era nada comparado às dores do ferido. E conclui brilhantemente:

"Desde que, adulto, comecei a escrever romance, tem-me animado até hoje a ideia de que o menos que o escritor pode fazer, numa época de atrocidades e injustiças como a nossa, é acender a sua lâmpada, fazer luz sobre a realidade de seu mundo, evitando que sobre ele caia a escuridão, propícia aos ladrões, aos assassinos e aos tiranos".

Quando passamos por situações calamitosas, a vontade de fechar os olhos é grande. Agora mesmo, ninguém aguenta mais tanta notícia ruim sobre mortes, UTIs superlotadas, corpos insepultos em contêineres e estatísticas macabras, tudo isso junto com a insensibilidade de governantes e grupos negacionistas diante da maior catástrofe humanitária da nossa geração. Ainda assim, não podemos virar o rosto, nem deixar de fazer o que nos compete nesta hora de provações. Atrevo-me a falar em nome de meus colegas jornalistas, que também sentem náuseas e traumas emocionais para apurar, divulgar e acompanhar tantos fatos deprimentes.

Porém, como escreveu Erico, esse acaba sendo um pequeno sacrifício na comparação com o sofrimento das vítimas e de seus afetos, e menor ainda diante da determinação daqueles que, mesmo sob riscos constantes, continuam segurando as lâmpadas que salvam vidas - médicas e médicos, enfermeiras e enfermeiros, fisioterapeutas, motoristas, auxiliares, servidores da limpeza, da segurança e da administração das instituições de saúde. Há ainda os trabalhadores essenciais que atuam na rede de alimentação, nas farmácias, no trânsito, na educação, no comércio, na indústria e nos serviços - todos merecedores de reconhecimento da sociedade e prioridade no nosso precário processo de imunização.

Talvez não sejamos mais do que vaga-lumes nesta prolongada noite de terror, mas, juntos, podemos iluminar o país.

NÍLSON SOUZA

09 DE MARÇO DE 2021
INFORME ESPECIAL

O tamanho da fila da esperança

Existe um indicativo que merece mais atenção. O número de pacientes internados em UTIs é uma informação relevante, não resta dúvida. Mas o tamanho da fila é mais importante. Ontem, no começo da tarde, havia 171 esperando leitos de cuidados intensivos em Porto Alegre. No final do dia, já eram 185. Se fossem duas, ou três, a ocupação das UTIs - mais de 100%, na média - não seria tão dramática.

Antes de desafogar as UTIs, precisamos reduzir as filas. Para isso, é preciso frear a contaminação. Todo mundo sabe como, mas sempre é bom repetir: máscara, higiene das mãos, circular apenas o essencial, etiqueta respiratória. E vacina. Já existe a cura. Se o governo federal é lento, cabe aos Estados, municípios, empresas, entidades e cidadãos reagir. Os defensores da liberdade individual alojados em Brasília deveriam ser os primeiros a defender a tese que as pessoas têm o direito a se vacinar e a buscar a vacina se quem deve fazer demora ou não faz.

O espírito de porco Gre-Nal

É absurdo o que aconteceu em Porto Alegre depois de Inter e Grêmio deixarem escapar as vitórias na última rodada. Esperei passar a final da Copa do Brasil para escrever esse texto. Não queria parecer um colorado magoado. Até estava, mas não é isso que me move nesse momento.

O que se viu e ouviu na Capital dos gaúchos depois de Flamengo e Palmeiras se sagrarem campeões é triste: carros buzinando nas ruas, foguetório e gritos de vizinhos debochando e agredindo uns aos outros. Gremistas alegres com a derrota do Inter. Colorados felizes com o fracasso do Grêmio. Até aí tudo bem, não sejamos cínicos. Mas o que me choca é a expressão pública desse sentimento, da forma como foi feita por alguns. Não foram poucos. Entendo que a flauta corra solta nos grupos de amigos e de familiares, onde as regras são claras e as brincadeiras dirigidas a quem quer brincar. Mas festejar publicamente, aos berros? É muito espírito de porco. Ainda mais em um momento em que nossas UTIs estão lotadas. É a falta de empatia levada ao seu extremo de desumanidade.

Fico imaginando uma criança, colorada ou gremista, já deprimida pelo momento, socada em casa pela pandemia, e que teve no sonho de título do seu clube mais uma esperança frustrada. Como ela se sentiu ao ouvir a algazarra sádica depois da derrota?

Sinto vergonha e desprezo pelos colorados e gremistas que protagonizaram esse fiasco público. Que seria deprimente em tempos normais, mas assume ares de monstruosidade no momento em que vivemos.

Novos desafios

Superintendente regional da Câmara Americana de Comércio - Porto Alegre, Marcelo Rodrigues passa agora também a desempenhar a função de Diretor de Inovação da Amcham Brasil. O gaúcho lidera projetos como a Lab Community, uma comunidade nacional de ecossistemas de inovação do país.

MP lança "botão do pânico" para mulheres

O Ministério Público do RS lança hoje um "botão do pânico" para mulheres vítimas da violência. O aplicativo dispara mensagens de SMS para contatos cadastrados pela usuária, com pedidos de socorro e informações sobre a localização aproximada da vítima, baseadas no GPS do celular.

O design e o nome do aplicativo não serão divulgados, para que possa passar despercebido na tela dos celulares. As informações sobre o serviço serão repassadas diretamente às usuárias, durante os atendimentos e nas audiências que tenham participação de representantes do MP.

O app foi desenvolvido em conjunto pela Subprocuradoria-Geral de Justiça de Gestão Estratégica, Centro de Apoio Operacional de Direitos Humanos e Unidade de Aplicativos e Internet da Divisão de Tecnologia de Informação e Comunicação.

Conhecimento

O empreendedor do Vale do Silício e professor de Stanford Steve Blank participará de evento gratuito e transmitido ao vivo pelo Facebook da PUCRS. A live será mediada pela equipe do Tecnopuc Startups nna sexta-feira, às 16h30. Blank é considerado o pai do empreendedorismo moderno. Para inscrições, acesse http://gzh.rs/3cef1t3.

Cinco perguntas que restam sobre a anulação das condenações de Lula

Sob o impacto da surpresa, especialistas em direito tentam compreender o embasamento da decisão que anulou as condenações de Lula na Lava-Jato. Mesmo que o ministro do STF Edson Fachin tenha tratado de alguns pontos em seu despacho, restam dúvidas. Há a convergência em que, por enquanto, o efeito político é igual ou maior do que o jurídico. A decisão será alvo de recurso. Colhi as seguintes indagações:

Por que agora?

Por que uma decisão monocrática?

Com que base, uma vez que o tema da competência já havia sido analisado pelos tribunais superiores?

O que acontecerá com os outros processos vinculados à Lava-Jato, como as delações premiadas que resultaram na devolução de bilhões da corrupção. Esses valores serão devolvidos? A quem? Aos corruptos e corruptores?

E se, com os processos voltando à estaca zero, a prescrição prevalecer e, com ela, a impunidade?

TULIO MILMAN

segunda-feira, 8 de março de 2021


08 DE MARÇO DE 2021
LITERATURA 

Nas palavras delas 

Mulheres que leem mulheres. Neste 8 de março, escritoras indicam livros de outras autoras - de ficção a antologia, as obras levam a reflexões sociais e provocam inquietações sobre temas como o luto e o custo pago pelos sonhos 

Cíntia Moscovich 

Escritora porto-alegrense, jornalista e mestre em Teoria Literária 

Indico "A Hora da Estrela", de Clarice Lispector, publicado pela Rocco. É um clássico, último livro escrito pela autora antes de morrer, precocemente, de câncer. É, como ela mesma diz, um livro escrito em estado de urgência. Como estamos todos nós. 

A Hora da Estrela 

De Clarice Lispector 

Editora Rocco, 88 páginas 

Winnie Bueno 

Criadora da Winnieteca, projeto que combate o racismo com a doação de livros 

Recomendo "Olhos D?água", de Conceição Evaristo, pois é um livro que expressa múltiplas subjetividades de mulheres a partir de uma escrita potente que mobiliza vivências femininas para além do padrão. Uma forma de falar de nós onde podemos nos sentir e nos ver. 

Olhos D?água 

De Conceição Evaristo 

Editora Pallas, 116 páginas 

Ana dos Santos 

Poeta e professora de Literatura, é mestranda em Estudos Literários 

Indico a leitura do livro de contos de Conceição Evaristo, "Insubmissas Lágrimas de Mulheres". São histórias contadas por mulheres negras que a narradora compõe com a sua própria "escrevivência". É uma leitura que humaniza estas mulheres escrita com maestria por uma das mais importantes escritoras da contemporaneidade. 

Insubmissas lágrimas de mulheres 

De Conceição Evaristo 

Editora Malê, 140 páginas 

Lilian Rocha 

Poeta porto-alegrense, membro da coordenação do Sarau Sopapo Poético 

Indico o livro "Visite o Decorado", da escritora Taiasmin Ohnmacht, que foi publicado pela Editora Figura de Linguagem. É uma novela com um desfecho surpreendente e que busca uma reflexão muito atual: o quanto desejamos estar seguros e o quanto amamos a nossa liberdade? Os nossos sonhos não precisam ter um custo tão alto. 

Visite o Decorado 

De Taiasmin Ohnmacht 

Editora Figura de Linguagem, 65 páginas 

Lya Luft 

Natural de Santa Cruz do Sul, é uma das mais prestigiadas escritoras brasileiras 

Indico "Mulheres Que Correm Com os Lobos", de Clarissa Pinkola Estes ou "Paula", de Isabel Allende. Os dois falam de certa força, uma aura, um segredo qualquer que nos torna especiais, frágeis e fortes anjos e bruxas. 

Mulheres Que Correm Com os Lobos 

De Clarissa Pinkola Estes 

Editora Rocco, 576 páginas 

Paula 

De Isabel Allende 

Editora Bertrand Brasil, 378 páginas 

Marília Floôr Kosby 

Poeta gaúcha finalista do Prêmio Jabuti por seu livro "Mugido" 

O livro "Pensamento Feminista Brasileiro: Formação e Contexto", organizado pela professora e crítica literária Heloísa Buarque de Hollanda (2019), é uma leitura imprescindível para quem quer conhecer formação e consolidação de teorias feministas no Brasil. 

Pensamento Feminista Brasileiro: Formação e contexto 

Organizado por Heloísa Buarque de Hollanda 

Editora Bazar do Tempo, 400 páginas 

Diana Corso 

Escritora e psicanalista, nasceu no Uruguai, mas vive no Brasil 

Em fevereiro vi o homem que amo lutar contra e vencer a covid-19. Tomada do pânico de ficar viúva, fui assistida por duas escritoras que narram seus lutos e ficaram, elas próprias, habitando o vazio: Joan Didion, com "O Ano do Pensamento Mágico", e Rosa Montero, com "A Ridícula Ideia de Nunca Mais Te Ver". 

O ano do pensamento mágico 

De Joan Didion 

Editora HarperCollins, 240 páginas 

A ridícula ideia de nunca mais te ver 

De Rosa Montero 

Editora Todavia, 208 páginas 

Martha Medeiros 

Uma das principais cronistas do Estado, com mais de 25 anos de carreira 

Indico "De Quem é Esta História", de Rebecca Solnit. "Estamos construindo algo imenso juntos" é a frase de abertura do excelente livro de ensaios desta historiadora californiana, colunista do The Guardian,que escreve com clareza e argúcia sobre os principais temas em debate no mundo contemporâneo. 

De Quem é Esta História 

De Rebecca Solnit 

Companhia das Letras, 216 páginas 

Leticia Wierzchowski 

Escritora gaúcha, autora de "A Casa das Sete Mulheres" 

Estou mergulhada no livro "Pra Amanhecer Ontem", da Ana Mariano. Indico porque é a história de quatro irmãs lutando para encontrarem seu espaço na vida num período muito duro do país, a ditadura. Embora sejam de uma família rica, os intrincados nós que as limitam são os mesmos de todas as mulheres. 

Pra Amanhecer Ontem 

De Ana Mariano 

Editora L&PM, 336 páginas 

Viviane Juguero 

Autora de "Lacatumba", dramaturga, mestre e doutora em Artes Cênicas 

Da dramaturga Dione Carlos, destaco o texto teatral "Ialodês", publicado na antologia "Dramaturgia Negra" (FUNARTE, 2018), além dos livros "Dramaturgias do Front" (Editora Primata, 2017) e "Black Brecht: e se Brecht Fosse Negro?" (Glacê Edições, 2020).

 Dramaturgia Negra 

FUNARTE, 480 páginas 

Maria Carpi 

Defensora pública aposentada, poeta, autora de "O que Resta Está por Vir" 

Recomendo "A Metáfora do Coração". De Maria Zambrano, une a razão à poesia, denominada como a razão poética. Mais do que nunca a razão não basta. Precisamos exercer a ética do cuidado que só a poesia oferece.

A Metáfora do Coração 

De Maria Zambrano 

Editora Assirio & Alvim, 153 páginas


08 DE MARÇO DE 2021
DAVID COIMBRA

O time ruim do Grêmio perdeu ao natural

Bem. Não é para me exibir, mas eu já sabia que isso ia acontecer. Já tinha dito, já tinha escrito. Agora, a verdade é que não era preciso ser nenhum Nostradamus para ver a ruindade do time do Grêmio diante de um time bem arrumadinho (no máximo isso, bem arrumadinho) do Palmeiras. Era óbvio que o Grêmio ia perder, e perdeu com a naturalidade das equipes inferiores.

Renato até tentou fazer algo diferente: escalou o jovem Vanderson na lateral direita e passou Victor Ferraz para o pântano sombrio da reserva. Nisso, acertou. Vanderson é melhor do que Ferraz, e foi um dos destaques da final. Outra mudança foi Thaciano no lugar do sonolento Jean Pyerre, se bem que Thaciano não jogou NO LUGAR do sonolento Jean Pyerre; jogou no de Alisson, pela direita, enquanto Alisson foi para o meio-campo (no lugar do sonolento Jean Pyerre).

Thaciano até que exerceu um trabalho razoável, uma espécie de Ramiro sem inspiração. E Alisson, no meio, foi igual ao Alisson no flanco: muita correria, pouco proveito.

Atrás, a zaga saiu-se bem. Mas Paulo Victor tomou dois gols de bolas defensáveis. No primeiro, como sói acontecer, ele espalmou para dentro. No segundo, a bola passou por baixo de seu corpo. Isso também era previsível. A escalação de Paulo Victor na final, depois de mais de um ano na reserva motivada pelo fiasco do zero a cinco no Maracanã, é o quarto segredo de Fátima. Ou: de Renato.

Na frente, Diego Souza jogou como se tivesse 35 anos de idade. E Pepê jogou como se tivesse sido vendido para outro clube e pouco ligasse para o que acontecesse com o Grêmio.

Mesmo assim, o Grêmio fez um bom enfrentamento no primeiro tempo. O jogo foi igual, tudo poderia ter acontecido. Só que nada aconteceu. No segundo tempo, com Maicon cansado, com o goleiro falhando e com Renato demorando a fazer substituições, o Palmeiras se impôs sem dificuldades, como se disputasse um amistoso. O Grêmio não parecia nem muito interessado em tentar virar o placar - não conseguiria, é claro, mas podia ter fingido que queria.

O que restou para o Grêmio depois de mais esse fracasso? Bem pouco. Vanderson deve ser efetivado como titular da lateral direita. Na esquerda, há Diogo Barbosa. No miolo da zaga, Kannemann. No meio-campo, só Matheus Henrique. No ataque, talvez (talvez!) Ferreirinha. Conte: são cinco jogadores com estatura de titulares. Ou seja: seriam necessárias pelo menos seis contratações que dessem certo. Como a direção do Grêmio tradicionalmente não sabe contratar... Reze, torcedor gremista! Reze!

Mas o pior é que tudo indica que Renato vai continuar insistindo no futebol de toque de bola que há três anos redunda em goleadas sofridas e finais perdidas. O Grêmio, que outrora punha medo nos adversários por ser forte, aguerrido e bravo, perdeu suas virtudes, tornou-se um time mole, sem alma, com Grapette correndo nas veias, em lugar de sangue.

Será um ano duro, torcedor. Reze. Reze!

DAVID COIMBRA