sábado, 1 de novembro de 2008



02 de novembro de 2008
N° 15777 - PAULO SANT’ANA


Isto não vai ficar assim!

Refletindo sobre a morte do amigo Renato Sirotsky, filho do seu Semi e sobrinho do seu Maurício, tão moço, tão entusiasmado, tão gremista, tão cheio de planos, tão cheio assim de cuidados com seus filhos, cheguei à conclusão de que sou um reencarnacionista.

Ou seja, a vida só tem uma lógica garantida se não for única, se se constituir meramente em apenas uma etapa, uma passagem, uma estação, a qual sobrevirão outras vidas, outras passagens, outras estações.

Fiquei sabendo pelo livro A Nova Ciência e a Fé, recentemente lançado, de autoria do porto-alegrense Mário Costa de Araújo Lima, que os grandes filósofos gregos Platão e Sócrates, duas das inteligências mais luminosas da humanidade, eram reencarnacionistas.

A reencarnação é a idéia segundo a qual os espíritos em seu processo evolutivo vivem muitas vidas, em diferentes corpos, assumindo portanto distintas personalidades.

Eu só posso admitir a idéia de um Deus bom, de um Deus justo, de um Deus misericordioso e acima de tudo de suprema lucidez e sabedoria, se concluir que não há uma vida única, que as pessoas que se tornam mártires, que vivem em extremo sofrimento, ou sobre as quais se abateram as injustiças e os tormentos, terão em outra vida recompensas que restituirão à sua vida um plano de justiça e lógica de proporcionalidade.

Como eu escrevi em outras colunas, isto não vai ficar assim.

Não pode Deus ter criado ao mesmo tempo uma besta e um filósofo, um rico e um miserável, um cruel e um bondoso, um feio e um bonito, um dotado de raras virtudes, outro pleno de todos os defeitos.

Uma só passagem pela vida, pela efemeridade em que ela consiste, pela incompletude das experiências que se desenrolam para um só indivíduo em particular, pela exigüidade do seu campo de desenvolvimento, será insuficiente para torná-lo apto a ser considerado um ser que tenha absorvido todo o húmus da existência e ter encerrado seu ciclo.

Não me resta dúvida nenhuma de que aqui na Terra estou vivendo apenas uma etapa da minha evolução e que outras missões me serão confiadas em vidas futuras, até que minha formação como espírito ocorra para que eu ganhe talvez para a eternidade um lugar na planície de Deus, quando então me reencontrarei com todos aqueles com quem compartilhei a ocasião maravilhosa da vida.

Não há céu nem inferno depois de uma só única vida. O que há é um inferno parcial, do qual o homem escapará por seu mérito, subindo os degraus da justiça através de muitas vidas, no rumo do aperfeiçoamento.

Não há também dúvida de que estamos sendo testados, estão sendo pesadas as nossas boas obras e as nossas maldades, num lento e progressivo andar pela vida, numa sucessão de várias vidas em que o Criador nos dá oportunidade de exercitá-las em situações absolutamente distintas uma das outras, com a finalidade de nos completarmos como seres dignos da criação, agarremo-nos ou não a uma religião ou crença, o que importa é que atinjamos um grau de bondade e dignidade a ponto de que sejamos considerados – e nos consideremos – justos.

Não faz sentido que Deus – ou qualquer outra força superior e reguladora que contenha o conteúdo desse nome – nos jogue aqui na Terra e nos faça néscio ou sábio, faminto ou regalado, oprimido ou poderoso, saudável ou doente, desde o nosso nascimento, tornando-nos assim tão facilmente condenados ou premiados.

Nada disso, isso é apenas um dos inumeráveis ciclos de vida a que temos de nos submeter.

Até nossa “formação”, muitas e muitas gerações e séculos vão suceder a este átimo de existência que nos cerca.

Não foi só esta vida que nos esperava. Isto não vai ficar assim. Seria profundamente injusto.


A terra não agüenta

A humanidade já consome mais recursos naturais do que o planeta é capaz de repor. O colapso é visível nas florestas, oceanos e rios. O ritmo atual de consumo é uma ameaça para a prosperidade futura da humanidade

Roberta de Abreu Lima e Vanessa Vieira

Montagem com foto de William Whitehurst/Corbis



A exploração dos recursos naturais da Terra permite à humanidade atingir patamares de conforto cada vez maiores. Diante da abundância de riquezas proporcionada pela natureza, sempre se aproveitou como se o dote fosse inesgotável.

Essa visão foi reformulada. Hoje se sabe que a maioria dos recursos naturais dos quais o homem depende para manter seu padrão de vida pode desaparecer num prazo relativamente curto – e que é urgente evitar o desperdício.

Um relatório publicado na semana passada pela ONG World Wildlife Fund dá a dimensão de como a exploração dos recursos da Terra saiu do controle e das conseqüências que isso pode ter no futuro.

O estudo mostra que o atual padrão de consumo de recursos naturais pela humanidade supera em 30% a capacidade do planeta de recuperá-los. Ou seja, a natureza não mais dá conta de repor tudo o que o bicho-homem tira dela.

A conta da ONG foi feita da seguinte forma. Primeiro, estimou-se a quantidade de terra, água e ar necessária para produzir os bens e serviços utilizados pelas populações e para absorver o lixo que elas geram durante um ano.

A seguir, esses valores foram transformados em hectares e o resultado dividido pelo número de habitantes do planeta. Chegou-se à conclusão de que cada habitante usa 2,7 hectares do planeta por ano. Nesta conta, o brasileiro utiliza 2,4 hectares.

De acordo com a análise, para usar os recursos sem provocar danos irreversíveis à natureza, seria preciso que cada habitante utilizasse, no máximo, 2,1 hectares. Se o homem continuar a explorar a natureza sem dar tempo para que ela se restabeleça, em 2030 serão necessários recursos equivalentes a dois planetas Terra para atender ao padrão de consumo.

Essa perspectiva, conclui o relatório, é uma ameaça à prosperidade futura da humanidade, com impacto no preço dos alimentos e da energia.

Nos últimos 45 anos, a demanda pelos recursos naturais do planeta dobrou. Esse aumento se deve, principalmente, à elevação do padrão de vida das nações ricas e emergentes e ao crescimento demográfico dos países pobres.

A população africana triplicou nas últimas quatro décadas. O crescimento econômico dos países em desenvolvimento, como a China e a Índia, vem aumentando em ritmo frenético a necessidade de matérias-primas para as indústrias.

China e Estados Unidos, juntos, consomem quase metade das riquezas naturais da Terra. O impacto ambiental da China se explica pela demanda de sua imensa população e, nos Estados Unidos, pelo elevado nível de consumo.

Nas contas da World Wildlife Fund, enquanto o chinês usa 2,1 hectares do planeta, o americano chega a utilizar 9,4 hectares. Se todos os habitantes do planeta tivessem o mesmo padrão de vida dos americanos, seriam necessárias quatro Terras e meia para suprir suas necessidades.

A exploração abusiva do planeta já tem conseqüências visíveis. A cada ano, uma área de floresta equivalente a duas vezes o território da Holanda desaparece. Metade dos rios do mundo está contaminada por esgoto, agrotóxicos e lixo industrial.

A degradação e a pesca predatória ameaçam reduzir em 90% a oferta de peixes utilizados para a alimentação. As emissões de CO2 cresceram em ritmo geométrico nas últimas décadas, provocando o aumento da temperatura do globo.

Evitar uma catástrofe planetária é possível. O grande desafio é conciliar o desenvolvimento dos países com a preservação dos recursos naturais. Para isso, segundo os especialistas, são necessárias soluções tecnológicas e políticas.

"Os governos precisam criar medidas que assegurem a adoção de hábitos sustentáveis, em vez de apenas esperar que as pessoas o façam voluntariamente", disse a VEJA o antropólogo americano Richard Walker, especialista em desenvolvimento sustentável da Universidade Indiana, nos Estados Unidos.

O engenheiro agrônomo uruguaio Juan Izquierdo, do Programa das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, propõe que se concedam incentivos e subsídios a agricultores que produzam de forma sustentável.

Diz ele: "Hoje, a produtividade de uma lavoura é calculada com base nos quilos de alimento produzidos por hectare.

No futuro, deverá ser baseada na capacidade de economizar recursos escassos, como a água". Como mostra o relatório da World Wildlife Fund, é preciso evitar a todo custo que se usem mais recursos do que a natureza é capaz de repor.

Stephen Kanitz

O fim dos homens alfa

"Na próxima crise, tenha mais cuidado

com o poder de persuasão e sedução dos homens que querem aparecer"

A crise mundial que estamos presenciando é um fenômeno conhecido por zoólogos como o estouro da manada. Ela ocorre quando os machos alfa se assustam por alguma razão, seja um vulto de leão, um relâmpago ou um trovão.

Sem analisar a situação por um segundo, fogem em pânico, na esperança de que comido será o bezerro retardatário. As fêmeas, surpresas, fogem atrás, seguindo "o nobre exemplo" do macho alfa em disparada.

Os primeiros a sair gritando "fogo", numa casa de espetáculos, e dizendo que "200 bancos americanos vão quebrar e o mundo vai derreter" foram os machos alfa. O alfa dos alfas, o diretor-geral do FMI, saiu a público afirmando que as bolsas iriam derreter 20% em dois dias, algo que uma pessoa na sua posição jamais poderia dizer.

Boa parte daqueles que saíram resgatando fundos de investimento foram pessoas inocentes, que confiavam nos profissionais do Fed e do FMI. Mas, se eles mesmos estão em pânico, o pânico se espalha.

O macho alfa sobrevive usando a força bruta, e não a inteligência. Ele quer e detém o poder. É sedutor, aprende a falar bem, acha que sexo se consegue ou com poesia ou mentindo descaradamente. Numa crise, são os homens alfa os mais interessados em aparecer, no rádio ou na televisão, que, devido à concorrência, baixam seu padrão de seleção.

Eles tratam primeiro de salvar a própria pele. Raramente pensam nos mais fracos, como gostam de afirmar, muito menos procuram acalmá-los.

Nenhum alfa brasileiro saiu acalmando os investidores brasileiros ou estrangeiros, mostrando-lhes que o Brasil não tinha esse tal de "subprime", nem "alavancagem financeira", nem bancos com prejuízo, prestes a quebrar. Só disseram que a crise iria piorar e atingiria o Brasil, profecia que se cumpriu.

Nenhum alfa brasileiro saiu apresentando fatos concretos, informando que nossos bancos financiam governo, e não imóveis, que nosso crédito ao consumidor não passa dos 36% do PIB, contra os 160% do americano, que metade dos bancos já era estatal, que o momento era para comprar ações dos alfas apavorados, e não para sair vendendo junto.

"Será pior do que 1929", berrava o professor Nouriel Roubini, encantado com sua súbita notoriedade, correndo de entrevista em entrevista. "Será igual a 1929", afirmava o antigo alfa aposentado Alan Greenspan, quando o correto teria sido o silêncio.

Ilustração Atômica Studio

O desemprego nos Estados Unidos não chegará aos 24% de 1929 nem 4.000 bancos quebrarão. E, mesmo que 4.000 bancos quebrassem, o dinheiro hoje está em fundos DI, e não em contas remuneradas.

Os fundos DI e de investimento estão no nome dos cotistas, e não dos bancos. Eles conseguiram, com suas previsões, provocar uma corrida aos fundos de investimento, e não aos bancos, como em 1929.

As fotos do professor Roubini rodeado de mulheres são sintomáticas de alguém que quer ser associado aos alfas, ao contrário das fotos de Hank Paulson e Sheila Bair, do FDIC (a agência federal de seguro de depósitos), tentando conter o estouro da manada.

Como nessas horas nossos instintos são parecidos com os dos animais, machos alfa contaminam gente inocente. O homem ômega e a maioria das mulheres têm coisas mais importantes a fazer no meio de uma crise, como cuidar das crianças e das finanças em perigo, do que dar entrevistas.

Não se culpe por ter-se deixado levar por homens que você achou que eram mais inteligentes do que você. A crise caminhará para o fim quando os alfas cansarem de correr.

Na próxima crise, tenha mais cuidado com o poder de persuasão e sedução dos homens que querem aparecer. Aplique seu dinheiro com homens ômega mais velhos, preferencialmente avós experientes, gente que não se abala com crises, pois já as viu acontecer muitas vezes. Ignore solenemente os homens alfa, daqui por diante.

Eles são um atraso evolutivo e estão em extinção. Vire a página, mude de canal. Ouça mais aquele homem ômega que você tem em casa, aquele que não se desesperou, correndo e berrando "fogo" numa casa de espetáculos.

Confie naquele que lhe deu apoio e proteção, naquele que se preocupa com os retardatários e que ficou ao seu lado. Eles são os verdadeiros "machos" da história da humanidade, o resto é balela e encenação.

Stephen Kanitz é administrador www.kanitz.com.br

José Antonio Lima

Cuidado: você pode estar tomando um placebo

Pesquisa americana mostra que 50% dos médicos receitam com freqüência placebos ou remédios sem eficácia comprovada. A prática é difundida, mas sofre críticas do ponto de vista ético e da saúde pública

Imagine que você está com uma forte dor, desmarca compromissos, falta no trabalho e corre para o médico em busca de ajuda.

No consultório, a sua expectativa é receber um remédio que fará o incômodo passar, mas existe uma grande chance, de 50% segundo um estudo divulgado na semana passada, de que o médico prescreva uma droga inócua – os placebos – ou um medicamento sem eficiência comprovada.

Em ambos os casos, a intenção é que você sinta o efeito placebo – aquele em que a simples impressão de ser medicado produz uma reação psicológica positiva que se reflete em uma melhora real no estado de saúde do paciente.

Esse tipo de prática é comum na medicina há séculos e tem sucesso relativo para determinados tipos de doentes, mas é questionada tanto do ponto de vista ético como da saúde pública.

"Dar um placebo ou um remédio que não tem eficácia provada sem o paciente saber não é ético", diz Décio Mion, coordenador do Núcleo de Apoio à Pesquisa Clínica do Hospital das Clínicas, da Universidade de São Paulo. "O médico não pode se sentir onipotente".

Duas das justificativas para dar esse tipo de medicamento são a pressa e o descaso com pacientes mais complicados, como os que têm algum nível de hipocondria.

"Para esse tipo de médico, o paciente incomoda. Parece que é muito mais fácil dar um remédio do que explicar o que pode estar causando problemas ao doente", afirma Antonio Carlos Lopes, professor titular de Clínica Médica da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Segundo Mion, uma motivação mais nobre para usar esse tipo de recurso é o resultado de algumas pesquisas. Em testes com pacientes hipertensos, por exemplo, chega a 20% o número de pessoas que conseguem normalizar a pressão tomando apenas placebos.

Conta muito para isso, explica Mion, o fato de a hipertensão ser uma doença com um forte componente emocional – e suscetível, portanto, ao efeito placebo.

Ainda que esse efeito positivo tenha sido demonstrado empiricamente, o uso de placebos é controlado em quase todo o mundo. No Brasil, a restrição foi ampliada em 22 de outubro deste ano pelo Conselho Federal de Medicina.

O texto da entidade proíbe a participação de médicos em pesquisas que utilizem placebo quando houver disponível tratamento eficaz já conhecido.

Para as pesquisas, a fiscalização funciona, mas o problema é quando os placebos são substituídos por remédios ineficazes. Nesses casos, não há controle.

Pesquisa

Na semana passada, pesquisadores das universidades de Chicago, Harvard e do National Institutes of Health, um dos órgãos de pesquisa mais respeitados dos Estados Unidos, publicaram no British Medical Journal (BMJ) um levantamento feito com clínicos gerais e reumatologistas, médicos que tratam com freqüência pacientes com condições clínicas debilitantes, e que são difíceis de diagnosticar.

Segundo os dados, 50% dos 679 médicos entrevistados confirmaram que receitam drogas sem efeito comprovado aos pacientes. Quase 70% dizem que o medicamento é "potencialmente benéfico, mas não usado tipicamente para a sua condição".

A pesquisa revelou que, dos remédios receitados, apenas 5% são os placebos usados em pesquisas – pílulas de açúcar (2%) e injeções salinas (3%). O grosso é formado por analgésicos que podem ser comprados em farmácias, vitaminas e até sedativos e antibióticos.

Para os médicos contrários à prática, a prescrição desse tipo de medicamento amplia o problema. "Quanto às vitaminas, não há tanto problema, mas o caso do antibiótico é ainda mais grave, pois pode criar resistência no paciente e dificultar tratamentos futuros", diz Décio Mion, do Hospital das Clínicas.

Quanto aos sedativos, o perigo é que uma pessoa medicada com um remédio desse tipo fique sonolenta, e não possa fazer atividades como dirigir ou trabalhar com materiais perigosos.

O que é preciso fazer então para escapar desse tipo de receita? Talvez o melhor seja procurar um médico que valorize a relação com o paciente.

"Muitas vezes um médico que tenha carisma, postura e esteja disponível para o paciente pode resolver o problema sem usar medicamentos, especialmente quando questões emocionais estão envolvidas", diz Antonio Carlos Lopes, da Unifesp.

Mas um outro dado da pesquisa mostra que as críticas e a polêmica acerca do tema não devem diminuir a quantidade de médicos que fazem esse tipo de prescrição.

Enquanto 50% dos entrevistados receitam placebos e remédios sem eficácia comprovada, 62% acreditam que essa prática é eticamente aceitável. Ao que parece, mesmo que os pacientes tentem evitar essa situação, a decisão está nas mãos apenas dos médicos.


01 de novembro de 2008
N° 15776 - NILSON SOUZA


A casa de livros

Muito legal o anúncio da Feira, que mostra um sobrado construído inteiramente de livros. O visitante é recebido na escada por Raul Pompéia e José Clemente Pozenato, ingressa numa área edificada sobre um alicerce de Hemingways, Camões e Joyces, com uma guarnição de obras de Thomas Mann e Dante Alighieri.

Pára diante de uma porta de Ericos, observa uma parede inteira de Nabokovs e Conrads, e pode subir para um segundo andar de Tolstois ou até para um telhado de Cervantes.

Estão todos lá, os autores da História e de muitas histórias, e devem estar lá, também, seus personagens surpreendentes, emocionantes, inesquecíveis.

Mesmo sem ter visitado o seu interior, tenho certeza de que se trata de uma casa bem-assombrada – freqüentada por heróis e vilões, mas principalmente por pessoas comuns. E são essas pessoas do povo, gente como a gente, que constituem a matéria-prima da literatura.

Pegue, por exemplo, um velho pescador solitário, entre com ele no mar atrás de um marlim disposto a lutar incansavelmente por sua vida de peixe, e você terá um romance épico e inesquecível.

Na casa dos livros impera um fantasma poderoso chamado Imaginação. Haja criatividade para construir tantos mundos de letras, na forma de contos, crônicas, poesias e romances, que enchem páginas e páginas de informação e ficção.

Quem lê tanto livro em tempos de realidade virtual? Difícil saber, mas a verdade é que esse objeto medieval, quase tosco se comparado com a parafernália tecnológica dos nossos tempos, continua atraindo a atenção e a curiosidade das pessoas.

Borges, que deve estar em algum desvão daquela casa encantada, definiu magistralmente esta invenção humana: “Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, sem dúvida, o livro.

Os demais são extensão do seu corpo... Mas o livro é outra coisa, o livro é um extensão da memória e da imaginação”.

Há, também, uma outra simbologia na construção de livros arquitetada pela Agência Matriz para convencer o público de que ler realmente enriquece.

A casa é a proteção, é o refúgio, é o lugar onde buscamos o descanso, o alimento, o afeto e o sonho.

Nada mais adequado do que uma casa de histórias encadernadas, portanto. Abrir um livro equivale a abrir uma janela para a vida, para a luz, para o infinito, para a inigualável aventura do conhecimento.


01 de novembro de 2008
N° 15776 - PAULO SANT’ANA


Há um galho no Grêmio!

Desculpem os leitores que não gostam de futebol, mas o momento é importante, estamos diante de uma decisão no Campeonato Brasileiro, o Grêmio está metido no centro dela e eu tenho de tomar uma providência para desencargo de consciência.

É que eu aposto que está havendo algo grave no Grêmio.

Alguma coisa está acontecendo. Não sei se o presidente Paulo Odone tem de investigar ou se o próprio André Krieger pode deslindar o mistério e revirar esta tendência, que parece inexorável, de o Grêmio perder o título.

Distante do vestiário e do Olímpico, não sei detectar.

Mas está havendo algo que está levando o Grêmio ao precipício.

Essas questões não são difíceis de resolver. Basta haver um dirigente que converse em particular com um jogador, pode conversar com outro, em seguida se chega ao nó górdio do problema.

Só para exemplificar, sem nada ter a ver especificamente sobre a questão gremista, nesses casos os motivos são muitas vezes financeiros, não acertaram com os jogadores a quantia de prêmio pelo título ou participação na Libertadores etc.

Outras vezes é um ruído na comunicação entre o treinador e os jogadores. Ou entre os dirigentes e o treinador. Ou seja, uma crise grave de relacionamento.

Alguma coisa está havendo no Grêmio para o time ter afundado numa crise técnica sem precedentes.

Até mesmo nas vitórias sobre o Botafogo, o Santos e o Sport, no Olímpico, as atuações gremistas foram sofríveis.

Mas, afinal, o que está havendo no Grêmio neste segundo turno?

A comparação com o primeiro turno, quando o time esteve ajustado, é surpreendente: o Grêmio é um outro time, sem rumo, sem orientação, vazio de tática e deplorável de técnica dos jogadores.

Algo está havendo. Não pode o presidente gremista e seu representante no vestiário continuarem a assistir impassíveis ao Grêmio se precipitar num abismo sem fazer nada, sem tomar qualquer medida restauradora, sem chamar o técnico e dizer para ele que assim não dá para continuar. E ainda há tempo para consertar esta encrenca.

Algo grave está acontecendo. Não é lógico, não é racional e não é humano que o Grêmio tenha se distanciado 12 pontos do São Paulo neste campeonato e essa diferença tenha desaparecido por encanto, inteiramente.

Há algo de grave no reino da Dinamarca, ou melhor, no vestiário do Grêmio.

Eu não sei isto por sábio, sei por ser antigo no ramo.


01 de novembro de 2008
N° 15776 - CLÁUDIA LAITANO


A roda da história

O que são 40 anos na história? Se você tem 20, uma eternidade, um intervalo de tempo tão grande comparado a sua curta presença no planeta que Jango e Rui Barbosa, a Tropicália e a Semana de Arte Moderna, a Primavera de Praga e a Comuna de Paris parecem igualmente remotos.

Uma das boas surpresas da maturidade é descobrir que a noção de tempo evolui conosco rumo a um certo alargamento de horizontes históricos – sim, sou uma otimista.

Aos 40 anos, o espaço de tempo que nos separa da época em que nascemos nos parece um pulinho ali na esquina da história – a curta distância entre o moleque que fomos e o adulto que já conta os primeiros cabelos brancos.

O mesmo período de tempo estica e encolhe conforme a idade de quem olha para ele – e pelo menos nesse jogo os mais velhos costumam levar a vantagem da perspectiva.

Em 1986, aos 20 anos, morei durante alguns meses na cidade americana de San Francisco, estudando inglês e trabalhando como babá.

Naquele ano, vários eventos na cidade lembravam as duas décadas de um fato que entrou para a história da música:

em 1966, no estádio de beisebol Candlestick Park, os Beatles fizeram sua última grande apresentação pública antes da separação. Naquela época, esses 20 anos que coincidiam com a minha idade me pareciam uma enormidade de tempo.

Hoje, quando lembro disso, penso que faziam “apenas” 20 anos que os Beatles haviam estado na mesma cidade que eu – o que hoje me parece um intervalinho de nada, quase como se eu ainda pudesse ouvir os acordes da última música que eles tocaram.

Nunca voltei a San Francisco, mas nos anos 80 ainda havia na cidade o curioso costume de os negros sentarem-se nos assentos traseiros dos ônibus. O hábito remontava à época em que eles ocupavam um lugar separado no transporte público, em geral os últimos assentos, e eram obrigados a levantar-se para dar lugar aos brancos se não houvesse um banco vazio à disposição.

Essa história, como se sabe, começou a mudar em 1955, quando uma costureira negra chamada Rosa Parks desafiou a lei de segregação ao não ceder o seu lugar no ônibus para um rapaz branco.

Rosa morreu em 2005, aos 92 anos, tendo se tornado aquele tipo de personagem que entra para a história não pela sua liderança ou por grandes articulações políticas, mas por um gesto aparentemente simples de coragem pessoal que, por uma conjunção imprevisível de fatores, acaba movimentando a manivela dos acontecimentos –

como a última gota que finalmente faz um copo cheio transbordar. Inspirado pelo gesto de Rosa Parks, o jovem pastor negro Martin Luther King Jr. começou a incentivar seus fiéis a boicotar o transporte oferecido pelos brancos.

Começava ali o movimento pelos direitos civis, que viraria lei em 1964 e repercutiria no mundo inteiro nos anos seguintes. Luther King foi assassinado há exatos 40 anos, em abril de 1968, mas a roda da história já havia sido posta em marcha.

O que são 40 anos? Uma eternidade para quem tem 20 anos, quase nada para a trajetória de um país.

Ligar a televisão na madrugada da próxima quarta-feira e descobrir que os Estados Unidos elegeram um presidente negro vai provocar aquela sensação, rara e inesquecível, de puro contentamento pelo simples fato de se estar vivo para ver a história acontecer.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008


JOSÉ SIMÃO

Interlagos! Rubinho, bate no Hamilton!

Primeiro, o Rubinho vai ter que chegar perto do Hamilton. Aí ele erra e bate no Massa! Rarará!

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta! Consumidor encontra bicho em lata de pêssego em calda em Santa Catarina!

Adivinha qual é o bicho? PERERECA! Perereca em calda. E foi a mulher dele que descobriu. O que você tá comendo: Perereca em calda. E corre na internet uma campanha nacional para o Massa ganhar. E o Rubinho virar herói nacional.

RUBINHO, BATE NO HAMILTON! Primeiro, o Rubinho vai ter que chegar perto do Hamilton. Segundo: aí ele erra e bate no Massa. Rarará.

Vai provocar engavetamento em Interlagos. E a melhor frase da Fórmula 1 é do Rubinho: "O azar me HONDA!". E hoje é Halloween! Chama o Serra!

O Serra Vampiro Anêmico! Manda ele levantar do caixão. Hoje é Dia das Bruxas. Chama a Marta. Não precisa nem de fantasia, só falta a vassoura! Pega emprestado o cabelo do Supla.

Ele parece um porco espinho oxigenado! E tem umas sapatas que todo ano comemoram o Halloween com uma festa chamada Rala-O-Hímen! Rarará! E sabe qual o endereço do Serra? Cemitério da Consolação, tumba 3, carneira 4. Rarará!

E bruxa é coisa de americano. No Brasil, tem um movimento pra trocar a bruxa pelo saci! Hoje é Dia do Saci! Pra comemorar, sabe o que o saci falou pra sacia?

FICA DE TRÊS! E dizem que o bom de namorar saci é que, se te der um pé na bunda, quem cai é ele! O melhor pé na bunda que existe é ver o outro caindo!

E olha a notícia: "Cortaram 70% das verbas do PAC!". O PAC fez POC!
Ou nessa versão: O PAC fez POC por falta de PIQUE, diz o professor da PUC! Rarará!

E as marias-gasolina que vão pra Interlagos, dão em cima de qualquer uniforme e acabam pegando o borracheiro. Quem se dá bem em Interlagos é o borracheiro! Rarará! É mole? É mole, mas sobe!

OU como diz aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece! Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha heróica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês.

É que no Minho, em Portugal, tem uma placa indicando: As Caralhotas das Caldeiras. Rarará. Portugal é o berço do antitucanês, o Brasil só tropicalizou! Mais direto, impossível.

Viva o antitucanês. Viva o Brasil E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Acareação": companheiro que assina a "Caras". Rarará! O lulês é mais fácil que o inglês.

Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno! E, como diz o Rubinho: vai indo, que eu não vou!

simao@uol.com.br


Saramago usa elefante contra "inimigos"

O escritor português ataca igreja e capitalismo em nova obra, baseada em fato verídico, e defende reforma ortográfica

"Já vínhamos avisando que algo assim [como a crise global] ia acontecer. E agora o que vemos? Que aconteceu mesmo!"

DA ENVIADA A LISBOA

Saramago ainda se recupera de uma grave doença respiratória, que quase o levou embora no ano passado. Na dedicatória de "A Viagem do Elefante", ele homenageia quem parece tê-lo salvo do pior: "A Pilar, que não deixou que eu morresse".

Pilar é a jornalista espanhola com quem está casado há mais de duas décadas. Mais jovem do que ele 28 anos, é ela quem organiza seus dias, vigia o que sai na imprensa e cada passo de lançamentos e entrevistas do marido mundo afora.

Mesmo fragilizado, ele continua com a agenda cheia. Fala, viaja e mantém um blog (caderno.josesaramago.org). O casal passa temporadas em Lisboa, mas mora mesmo na ilha de Lanzarote, no arquipélago das Canárias, na Espanha.

"A Viagem do Elefante" parte de um episódio verídico e inusitado. Em 1551, o rei português dom João 3º deu de presente ao arquiduque da Áustria um elefante indiano.

Uma caravana, que literalmente caminhava a passo de elefante, atravessou então boa parte da Europa para entregar o animal a seu destino, causando sensação nos povoados ao longo do caminho.

Afinal, tratava-se de um animal que as pessoas, na época, sequer sabiam como era.

Na comitiva, iam um comandante, um tratador de elefantes, soldados e bois. Homens e animais se observam o tempo todo ao longo da narrativa. "Quis usar o elefante como metáfora da vida humana.

Os homens não entendiam bem as reações e os sentimentos do animal, mas também talvez porque não entendessem os seus mesmos", diz o escritor.

Partindo de um exemplo da realidade histórica, Saramago aproxima-se do tipo de romances que escreveu nos anos 80, como "O Ano da Morte de Ricardo Reis" ou "História do Cerco de Lisboa".

Por outro lado, o livro é também uma grande fábula, como os que vieram a partir da década seguinte, como "As Intermitências da Morte", "A Caverna" ou o já citado "Ensaio sobre a Cegueira".

Igreja e capital

A obra traz provocações a seus inimigos de costume. Entre eles, a igreja. Num dado momento, a população de uma aldeia alerta o cura local de que algumas pessoas andavam dizendo que o elefante que por ali passava era uma representação de Deus, segundo os indianos. O padre resolve, então, exorcizar o elefante.

"A igreja, que, para efeitos propagandísticos, cultiva a modéstia e a humildade, nos comportamentos age com um orgulho sem limite. Por isso criei esse padre, que quer exorcizar um elefante, como se fosse possível imaginar o que vai ali pela cabeça do bicho e, por analogia, o que vai pela cabeça de um homem comum."

Já contra o capital, Saramago hoje posa com segurança devido ao cenário de crise global. "Algumas pessoas, entre as quais me incluo, já vínhamos avisando que algo assim ia acontecer. E agora o que vemos? Que aconteceu mesmo!"

A esquerda, porém, para ele, não tem como dar respostas à tragédia. "Não dá nem para dizer que há em processo a elaboração de uma alternativa."

Ortografia

Apesar de não querer saber de mudar seu modo de escrever, Saramago é um defensor do acordo ortográfico firmado entre países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e que começará a entrar em vigor no Brasil em janeiro do ano que vem.
"Ele é necessário, mais para nós do que para vocês.

O Brasil é quem lidera o ensino e a divulgação da língua pelo mundo. Temos de nos adaptar, para o nosso próprio bem, para a sobrevivência da nossa cultura."

As novas regras vão afetar principalmente o uso dos acentos agudo e circunflexo, do trema e do hífen. Em Portugal, onde haverá mudanças maiores, houve resistência por parte de intelectuais. "Tenho certeza de que com o tempo verão que a mudança terá sido benéfica."

Ele mesmo, porém, diz que não vai mudar sua escrita. "Os que forem revisar meus textos que o façam. Podem republicar meus livros dentro das novas regras, mas não serei eu a aprender, a essa altura da vida, um outro jeito de escrever." (SYLVIA COLOMBO)

Jaime Cimenti

Livro, Feira, leitores & Cia.

Eternos como o horizonte, os livros, os leitores, os editores, os livreiros, os distribuidores, os jornalistas, os pipoqueiros, os namorados, os desgarrados, os ocupados, os pombos, os desocupados, os mudos e os bocas-frouxas, os loucos e os menos loucos, e muitos e muita coisa mais estarão na Praça da Alfândega, cobertos pelo infinito céu, pelas milenares águas da chuva e, claro, envoltos nos ares democráticos do espaço público.

Tão certa e pontual quanto a primavera, a Feira do Livro chega para lembrar e avisar que a vida é boa, que continua, que passa rápido e que temos de aproveitar. Como falou Arnaldo Campos, a Feira, antes, cabia num olhar.

Em tempos de milhões de sons, imagens e palavras, hiperatividade, tagarelice desenfreada e clima maníaco-deprê pós-moderno, precisamos, agora, de milhões de olhos, ouvidos, narizes, dedos, línguas e percepções extrasensoriais para aproveitar tudo, todo o tempo, em todo lugar.

Como de costume, seremos, ao menos por uns dias, simpáticos polvos cheios de braços, abraços e livros. Vamos curtir as performances dos poetas que se acham mais importantes do que a poesia, vamos ouvir as matracas dos prosadores-24 horas, vamos fazer mil cursos, assistir a milhões de palestras e conversar centenas de assuntos com milhares de pessoas. Vai ser aquela overdose, mas da boa, de um monte de coisas.

Vamos acolher o choro inicial dos primeiros dias e o sorriso final dos livreiros, depois das vendas dos últimos dias. Depois a Praça voltará a ser de seus usuários de todo o ano.

Será mais silenciosa, mais calma e mais sem-graça. Silenciosa e calma, aliás, como deve ser a leitura de livros que trazem palavras, silêncios, poemas, cheiros, memórias, lugares, pausas, personagens e histórias inesquecíveis.

Desses livros que nos transportam para os infinitos espaços de liberdade, imaginação e fantasia e que nos levam a mundos e seres que vamos percorrer e encarnar sem precisar sair da cama, da poltrona, do pelego ou da rede.

Livros que não precisam falar alto, gritar e muito menos utilizar marketing agressivo ou mentiroso para dizer que o que mais importa são os livros verdadeiros, a imaginação vertiginosa, os leitores seduzidos e o tempo e a vida livres de cronômetros. (Jaime Cimenti)

Ótima sexta-feira e um excelene fm de semana para todos nós.


Jaime Cimenti
31/10/2008


Síntese de dois milênios de pensamento filosófico


Uma nova História da Filosofia Ocidental - volume l - Filosofia Antiga, de Sir Anthony Kenny, ex-presidente da British Academy, ex-pró-vice-chanceler da University of Oxford e atual presidente do Royal Institute of Philosophy, é o início de um projeto ambicioso.

A idéia é sintetizar mais de dois milênios de pensamento filosófico e vivificar as grandes mentes do passado. Kenny é um dos mais influentes pensadores da atualidade e nos oferece uma visão particular da filosofia ao conectar em uma única e acessível narrativa as várias escolas e idéias dos períodos antigo, medieval, moderno e contemporâneo.

O resultado dessa conexão é Uma nova História da Filosofia Ocidental, cujo primeiro volume foi lançado há poucos dias no Brasil.

Kenny já recebeu vários títulos de doutor honoris causa e escreveu muitos livros sobre filosofia da mente, filosofia da religião e história da filosofia, incluindo trabalhos populares e densos.

Publicada originalmente pela Oxford University Press, a obra tem uma organização inédita, com a apresentação do conteúdo de forma transversal, permitindo uma abordagem original da temática. No primeiro dos quatro volumes, o autor narra os séculos iniciais da filosofia e seu florescimento no mundo mediterrâneo antigo. Começa por um passeio cronológico por fatos do conhecimento - Platão e sua caverna de sombras, a ética de Aristóteles, a Cidade de Deus de Santo Agostinho, entre outros.

Para Kenny, a filosofia não trata de acumular informações, mas do entendimento, isto é, de organizar o que se conhece. Ele aprofunda tópicos nos quais acredita que ainda temos a aprender com nossos predecessores da Grécia clássica e da Roma imperial. Kenny estabelece, assim, as conexões necessárias entre o que cada filósofo pensava e examina o desenvolvimento da lógica e da razão, as idéias da antigüidade sobre física (por que as coisas acontecem), metafísica e ética e os primeiros conceitos sobre alma e Deus em uma análise crítica que nos ajuda a entender os pontos fortes e fracos de cada sistema filosófico.

Enfim, a obra realiza, com brilho, uma aproximação do leitor contemporâneo com os grandes filósofos do passado.

Malcom Schofield escreveu na Londo Review of Books: "Este genial e acessível livro apresenta e analisa com exemplar lucidez as mais importantes idéias e argumentos com os quais os antigos filósofos contribuíram para a maior parte das questões filosóficas.

A amplitude e beleza de seus inesperados exemplos são o triunfo do livro". Tradução de Carlos Alberto Bárbaro, 400 páginas, R$ 56,00. Edições Loyola, telefone 11-6914-1922.


31 de outubro de 2008
N° 15775 - PAULO SANT’ANA


Alienação dominante

Para decepção dos otimistas com relação ao Grêmio, tivemos uma noite trágica anteontem.

Sou acusado nas últimas semanas de ser pessimista com relação ao Grêmio.

Prefiro ser acusado de pessimista do que ser acusado de burro.

Otimismo com relação ao Grêmio é sinônimo de alienação.

Se o time do treinador Celso Roth não ganhou sequer um jogo fora de casa no segundo turno, como esperar que ele revire este valor essencial chamado tendência, como já tantas vezes expliquei?

Eu sou um estraga-prazeres dos otimistas e dos esperançados.

Aqui na redação de Zero Hora, existem dois desses alienados, o chargista Rekern e o Léo Gerchmann. São gremistas fervorosos, mas alienados. Não entendem nada de futebol, mas são gremistas. E, na sua fúria irracional, acham sempre que o Grêmio vai ganhar.

Faz dois meses que eles me dizem que o Grêmio vai ser campeão. E eu tento explicar a eles que esse seu vaticínio não se casa com a lógica: não pode ser campeão um time de pobre valor econômico e de paupérrimos valores individuais.

Não adianta, o Rekern é um dos maiores cabeças-duras que eu conheço. Ele passava por mim nos últimos dias e, sabendo-me pessimista, tocava flauta: “Como é bom ser líder!”.

Eu dizia ao Rekern, perguntem a ele, que o Grêmio não era líder de nada, que a utópica e ilusória liderança do Grêmio ia virar pó.

Acreditem, o Rekern e o Léo Gerchmann, como a maioria amassadora da torcida do Grêmio, apostam ainda que o Grêmio vai ser campeão. São uns alienados.

Eles não sabem que o Grêmio agora terá de fazer das tripas coração para entrar na Libertadores do ano que vem. Deve ficar fora.

Mas os alienados não querem nem saber disso, pouco importa a eles que o treinador Celso Roth não tenha tido nenhum gesto, nenhum impulso de reação à tendência trágica do desempenho gremista no segundo turno. O Grêmio veio desabando, declinando, sem nenhuma atitude enérgica do treinador e da comissão técnica para evitar o desastre que anteontem se consumou.

Sabem por quê? Porque Celso Roth e a comissão técnica são como a torcida, exatamente iguais, preside sua intelecção a mais completa alienação da realidade.

Só que assim como o meu pessimismo faz parte do meu DNA, o otimismo deles todos integra sua herança genética: eles acham que o Grêmio ainda vai ser campeão com este time ridículo.

E eu acho que o Grêmio está prestes a cair fora da Libertadores do ano que vem.

Na sua alienação, eles não viram que a tabela marca para domingo que vem São Paulo x Inter no Morumbi.

Pode alguém que não seja alienado imaginar que o Internacional vá querer ganhar ou empatar com o São Paulo domingo? Pode?

Este é um campeonato imoral em que alguns times jogam desmotivados e querendo perder contra alguns motivados até a goleada contra outros.

Este é um campeonato imoral em que, anteontem, o São Paulo foi beneficiado escandalosamente por um gol legítimo do Botafogo, anulado pela comprometida arbitragem.

E o sinistro Vágner Tardelli deu um pênalti inexistente a favor do Palmeiras contra o Goiás.

Mas os otimistas alienados nem cogitaram disso. São muito mais felizes do que eu os otimistas alienados. Pelo menos conseguem dormir à noite.


31 de outubro de 2008
N° 15775 - DAVID COIMBRA


Abaixo Machado de Assis!

Por Deus que o imeil que vou reproduzir abaixo é verdadeiro. Recebi-o dias atrás. É de uma aluna de um colégio particular de Porto Alegre. Ó:

“Olá. Estudo na oitava série. Tenho que fazer um trabalho de português sobre a presença da intertextualidade nos gêneros textuais e um deles são as crônicas. Gostaria de saber se você sabe de alguma crônica que tenhas feito com a presença da intertextualidade (polifonia) que possas me mandar. Desde já agradeço.”

Terminei de ler o imeil e fiquei parado, fitando o vazio. Assim permaneci por, sei lá, três, cinco, 10 minutos. Reli o imeil. “Presença da intertextualidade nos gêneros textuais”. E agora?

O que responderia para a pequena aluna em apuros com suas tarefas escolares? Doloroso dilema. Porque, na verdade, o burrão aqui não sabe o que é intertextualidade, quanto mais identificar sua presença nos gêneros textuais, seja lá o que forem eles.

Pior: a menina que me perguntou sobre intertextualidade e polifonia e tudo mais, ela está na oitava série. Quantos anos tem um aluno de oitava série? Quatorze? E já está lidando com a intertextualidade... Quer dizer: sou, realmente, um imbecil.

O problema é que suspeito existirem vários imbecis parecidos comigo. Gente pouco interessada na intertextualidade. Cultivo inclusive a desconfiança de que conhecer os meandros da intertextualidade talvez não seja exatamente útil para a imensa maioria das pessoas, mesmo aquelas que, como eu, ganham a vida escrevendo. Então, alguém aí me diga: por que uma aluna da oitava série está estudando esse troço???

Eis uma reflexão pertinente para um dia como hoje, de abertura da Feira do Livro. A leitura é o alicerce da Educação, todo mundo sabe disso. E todo mundo também sabe que o Brasil é um país que não lê. No Brasil, um livro que vende 2 mil exemplares é best-seller, e o número de todas as livrarias do país não ultrapassa o da cidade de Buenos Aires.

Vivemos numa nação em que grande parte dos habitantes não sabe interpretar o sentido de uma frase direta, sujeito, verbo, complemento.

Por que isso? Por causa da intertextualidade. Como podem falar de intertextualidade com alunos de oitava série? Ou de transitivo direto? Por favor! A estrutura do ensino no Brasil é formulada para que os jovens sintam nojo da palavra escrita.

Gramática, cruzcredo. O ensino da gramática devia ser vetado pelo menos até os últimos anos do segundo grau. Uma vírgula ou um acentinho, volta e meia, tudo bem, mas não me venham com pronomes oblíquos.

Dêem livros aos alunos. Que eles leiam o tempo todo. Leiam e interpretem, leiam e escrevam. E que os professores corrijam os textos e expliquem por que os corrigiram. Livros! Mas também não me venham com autores que escrevem destarte e outrossim.

Não estou falando dos piores do século 19, como o tal Joaquim Manuel de Macedo e sua insuportável Moreninha; estou falando do melhor: Machado de Assis.

Não empurrem Machado de Assis para menores de 16 anos, por favor. Se não quiserem lhes dar um Verissimo, que seja o Harry Potter, que seja O Código da Vinci. Não deixem as crianças ficar com raiva de livro!

quinta-feira, 30 de outubro de 2008


ELIANE CANTANHÊDE

Cara a tapa

BRASÍLIA - Vencida a guerra da eleição, José Serra deveria enfrentar com igual ânimo uma outra batalha: a greve da Polícia Civil, que já dura mais de mês, pode piorar muito e se prolongar por um bom tempo, alastrar-se por pelo menos oito Estados e desabar no Congresso.

Está tramitando um projeto para equiparar os salários de policiais e promotores. O inicial de uns é de pouco mais de R$ 4.000, e o dos outros bate em R$ 18.000. A emenda é dessas que não passam, mas dão um suadouro danado.

A CUT e o PT aproveitaram o movimento e o embalo das eleições e das dificuldades de Marta Suplicy para tentar sitiar o Palácio dos Bandeirantes. Serra não só jogou a Polícia Militar contra a Civil, como tirou uma lasquinha ao denunciar na TV a motivação política.

Mas a eleição passou, e a situação não pode continuar como está, até com foto de policial estapeando motoqueiro. Negociação já!

Os policiais reclamam que recebem o menor salário da categoria em todo o país e exigem 15% de aumento agora, mais 12% em 2009 e mais o mesmo percentual em 2010.

A contraproposta de Serra, de 6,5% em janeiro de 2009 e mais 6,5% em 2010, pode até ser justa e razoável -talvez seja, talvez não-, mas o principal é que ela chegou tarde, com os ânimos exaltados e contaminados pelo confronto PT-PSDB. Não deixa de ser curiosa a ausência do secretário de Segurança, o...

Como é mesmo o nome dele? Até a defesa e o ataque via imprensa quem assume é a Secretaria de Gestão Pública. E Serra ficou na linha de frente, numa batalha em que não há vitória, mas pode haver derrota.

Ele deixou a coisa ir longe demais, e ela está fora de controle.

Confronto de gente armada nas ruas é bem diferente de uma queda-de-braço política "com esse pessoal da CUT e do PT". E pode se repetir.

Os delegados não têm cara no meio da multidão grevista, e a cara que está a tapa não é deles nem de motoqueiro. É a do próprio Serra.
elianec@uol.com.br

CLÓVIS ROSSI

O BC é o único certo no mundo?

SÃO PAULO - Relatório recente do Iedi (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial) usou, pela primeira vez que eu tenha notado, a palavra "recessão" para falar da economia brasileira -aquela que estava "blindada" contra a crise externa, lembra-se?

Diz o Iedi: "Tão acentuados têm sido os efeitos internos e externos sobre o crédito aos agentes produtivos, que não se deve descartar a hipótese de a economia brasileira proximamente entrar em uma recessão.

Como cabe observar, se o crédito não era o único mecanismo indutor do crescimento do consumo e do investimento na economia brasileira, era, certamente, o mais importante".

Se há esse baita problema de crédito, deve-se fazer o diabo para injetar dinheiro na economia. O governo até vem fazendo um bocado nessa área, mas o Banco Central resolveu ontem andar na contramão de todos os BCs do planeta, ao manter os juros no obsceno patamar em que se encontram.

Não dá para entender. Basta ler a nota com a qual o Fed, o BC norte-americano, explicou a decisão de reduzir os juros de 1,5% para 1% ao ano.

Praticamente tudo o que está nela vale também para o Brasil, guardadas as proporções: "O ritmo da atividade econômica parece ter se desacelerado marcadamente, em grande medida devido a um declínio nos gastos do consumidor. (...)

A desaceleração da atividade econômica em muitas economias externas está prejudicando as perspectivas para as exportações dos EUA.

Além disso, a intensificação da turbulência no mercado financeiro provavelmente representará um constrangimento adicional sobre o gasto, em parte por reduzir ainda mais a capacidade de pessoas e negócios de obter crédito".

Se, nessas circunstâncias, comuns ao planeta, todo mundo reduz os juros, só o BC brasileiro acerta ao mantê-los?

crossi@uol.com.br

JOSÉ SIMÃO

Uau! Motoboy invade Salão do Carro!

Lula foi ao salão acabar com estoque de carro a álcool! Deve ter bebido todos os carros!

BUEMBA! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta! Salão do Automóvel!

O Lula foi ao Salão do Automóvel! Acabar com o estoque de carro a álcool! Deve ter bebido todos os carros. Ele não comprou os carros, ele BEBEU os carros. Rarará!

E quem mais vai ao Salão do Automóvel é motoboy. Querem ver os novos modelos de retrovisor que eles vão quebrar! "Olha aquele ali, mano, irado, todo prateado." Motoboys invadem o Salão do Automóvel.

E quebram tudo que é retrovisor. E Salão do Automóvel é sempre assim: carrão e gostosa. Só serve pra duas coisas: sentir cheiro de couro novo e lembrar como a mulher da gente é feia. Rarará!

Um amigo meu diz que vai pro salão pra ver duas coisas: o carro que comprarei e a mulher que comerei. Daqui a 20 anos! Todo mundo se apertando pra ver um carro que ninguém pode comprar.

Parece cachorro babando em máquina de frango de padaria. Aqueles carros rodando e a gente babando!

E sabe como se chama a Associação dos Motoqueiros? ABRAM! Abram caminho! Abram alas! E pelo preço dos carros, eu vou acabar comprando um jegue. Com tração nas quatro patas! Jegue off-road! Rarará!

Arrentina Urgente! Piada pronta: Maradona é o técnico da seleção argentina! Ele devia ser a bola da seleção argentina. E ainda lutar sumô com o Ronaldo Fofômeno! Socuerro!

A seleção argentina vai virar pó! Bem, a seleção de los hermanos tá uma droga mesmo. Droga? Chama o Maradona! Mas dizem que ele largou as drogas.

O único que ainda não largou as drogas foi o Dunga!
Pensei que Maradona era técnico em aspirador de pó. E eu acho que ele vai treinar gol de nariz. La Narigada del Maradona!

Narigada e Barrigada! Enfim: em vez de terminar a carreira, ele esticou. Rarará! Maradona vira técnico da Argentina e estica a carreira. Rarará!

Não chores por mim, Argentina, que amanhã é tu na latrina. E o Maradona devia ser técnico de sumô e arremesso de canudinho a distância.

Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha heróica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo de antitucanês.

É que aqui em Sampa tem uma loja de aspiradores de pó chamada O Feirão do Maradona. Mais direto, impossível! Viva o antitucanês! Viva o Brasil!

E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Ofuscar":companheiro que foi pro Salão do Automóvel comprar um fusca!

Rarará! O lulês é mais fácil que o inglês. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno.

simao@uol.com.br


O BRINQUEDO E SEUS SIGNIFICADOS
PATRÍCIA COSTA

Durante muito tempo, a criança era vista como um pequeno adulto, não se tinha a visão da infância, dos momentos e das fases que as crianças vivenciavam na sua formação, na sua construção como ser humano.

Tendo Freud sido um dos primeiros pesquisadores a observar e analisar a criança, ele percebeu que, com a brincadeira, a criança expressava algo que não conseguia expressar pela fala, como o adulto.

Vejo que na construção e na formação das crianças, nós, enquanto educadores, precisamos incluir na rotina escolar o brincar. Muitas são as escolas que ou excluem muito cedo esses momentos tão importantes ou oferecem somente uma brincadeira dirigida com alguma intenção pedagógica.

O brincar é algo que sempre foi natural e inato no mundo infantil... Nunca se precisou ensinar uma criança a brincar. E isso é muito importante para a sua formação e o desenvolvimento.

No mundo atual, onde o consumismo e a explosão de possibilidades invadem a realidade de nossas crianças, estas não conseguem desenvolver com os seus brinquedos um significado.

Vivemos em um mundo onde ter é o mais importante. Acabamos de comemorar o Dia da Criança e muitas receberam de seus pais mais um brinquedo, talvez o mais caro, ou aquele que saiu no comercial de televisão como lançamento.

Mas por que será que nós compramos, entregamos o presente em um ritual e logo depois aqueles pequeninos já não ligam mais para o objeto tão desejado?

Por que será que o quarto muita das vezes está repleto de coleção de carrinhos e bonecas, e nós não vemos nossos filhos viajarem na fantasia com nós fazíamos na nossa infância? Porque a quantidade de brinquedos adquiridos hoje é muito maior do que nas décadas passadas, afinal esse mercado infantil cresceu e muito.

Antigamente existia tempo para nos apegarmos a uma boneca e fazer dela a favorita, escolher aquele carrinho como o mais veloz e o qual não gostaríamos de perder.

Os nossos brinquedos tinham um significado, havia uma relação com eles... Eles representaram uma época de nossas vidas. Hoje estamos oferecendo demasiadamente às nossas crianças, talvez para nos livrarmos da culpa de não termos tempo ou vontade de brincar com nossos filhos.

Pense nisso, o mais importante não é o trenzinho que anda velozmente nos trilhos no meio da sua sala de estar ou o videogame que hipnotiza seu filho horas a fio.

Mas o que você deveria oferecer como presente é o seu tempo para compartilhar com o seu filho, a verdadeira brincadeira.

Ele não precisa do brinquedo mais caro, mas ele precisa da sua atenção.
educadora


SENSO DE HUMOR

– Parem com as piadas. A crise é séria. Muito séria. Temos uma crise mundial de conseqüências devastadoras. – Não estamos rindo, Henrique Meirelles. São nossos dentes batendo de medo de ter que trocar Miami pelo Rio.

– Bom, confesso, no meu caso, eu estava rindo de uma piada sem graça. Na lápide de Marx estaria escrito 'quem ri por último, ri melhor'. É idiota. Mas faz rir. Não? – Não acho graça alguma nisso – diz Meirelles.

– É, eu também não. Mas, se me permitem certa fraqueza e franqueza, estou me lembrando de todos os pacotes econômicos que apresentamos com um sorriso enquanto boa parte da população não achava graça alguma naquilo. – Sim, lembram quando o Collor confiscou a poupança e nós apoiamos?

É claro que eu pude tirar meu dinheiro antes. – Não sejam patéticos. Uma coisa nada tem a ver com a outra. Essas crises são inerentes ao sistema capitalista. – Pode ser. Mas não deixa de ser chato ter de recorrer ao Estado e dar tantos argumentos a esses esquerdistas chatos.

Vejam só o despautério do presidente da República querendo estatizar bancos e se tornar sócio de construtoras e de empreiteiras. Será que ele ainda não aprendeu que o Estado funciona mal na economia?

– Isso mesmo! O único jeito é nos ajudar com bons financiamentos, em nome do interesse geral, e deixar a gente tocar o negócio para evitar corrupção, incompetência administrativa e uma quebradeira geral. Henrique Meirelles ouve de cara amarrada.

– Sim, onde o Estado mete o bedelho, dá tudo errado. – É o que eu sempre digo: a que Estado chegamos.

– Chegamos a um Estado terrível em que, apesar dos lucros sempre crescentes dos nossos bancos, temos de mendigar ajuda estatal. Esse é um precedente terrível.

Depois esses esquerdistas vão querer se vingar nos fazendo pagar impostos que se perderão na cobertura das dívidas de uma máquina mal gerida, inchada e com expectativas artificiais. Não entendo os economistas que trabalham para o Estado, nunca acertam uma. É muita inépcia.

– Meirelles tem razão. Não dá mais para ficar ouvindo essas piadinhas de mau gosto sobre privatização de lucros e socialização de prejuízos. Isso é coisa de leigo, de quem não tem responsabilidade e não sabe o que diz. – Claro, evidentemente, estamos todos no mesmo barco.

– Sim, nós em iates e eles em jangadas e canoas. – Já disse para pararem com essas piadas idiotas.

– Desculpa, Meirelles, essa me escapou. É que, às vezes, sou daqueles que perdem o capital, mas não a piada. – Muito engraçadinho. Só que o nosso transatlântico está afundando. Somente a cooperação de todos vai nos salvar para que possamos retomar o espírito de competição e salvar os nossos salvadores pela livre iniciativa.

– É, precisamos de um máximo de Estado agora para garantir um Estado mínimo assim que a crise passar. – Talvez tenhamos de fazer muitas demissões agora e aprender a trabalhar no futuro com equipes muito menores.

– A saúde do capitalismo depende de mais produtividade e mais competividade com empresas enxutas e ágeis. – Como dizia Lênin, vamos dar um passo atrás para poder dar dois passos à frente. Eis o estado das coisas.

juremir@correiodopovo.com.br


30 de outubro de 2008 | N° 15774
LETICIA WIERZCHOWSKI


Verdades sem autoria

Não costumo ler textos que circulam pela internet, mas um deles me pegou. Falava sobre os sustos e maravilhas que nos acompanham a partir do momento em que geramos uma vida.

Não sei quem é a autora, mas ela é mãe. Toda mãe já deixou de fazer uma viagem porque o filho amanheceu doente, já quis fugir de uma reunião porque a saudade do seu bebê tornou-se insuportável.

Enfim, toda mãe já descobriu a sensação de não ser mais dona de si mesma, como se o coração da gente batesse em outro corpo. Lá pelas tantas, o texto falava “a decisão de um menino de cinco anos de ir ao banheiro masculino ao invés do feminino se tornará um enorme dilema”.

Quem acompanha as notícias sabe que um molestador de crianças pode estar em qualquer lugar, e que devemos estar atentos aos nossos filhos, não importa onde, e nem a classe social das pessoas que estão ao nosso redor.

Eu pratico natação diariamente, e trouxe meu filho para o esporte, de modo que vamos juntos ao clube duas vezes por semana. E, duas vezes por semana, administro o mesmo problema.

No vestiário feminino, existe um aviso de que “meninos com cinco anos ou mais devem usar o vestiário masculino ou o banheiro familiar”. Acontece que o clube tem apenas um banheiro familiar e individual para mães, e por não ser de passagem – as crianças tomam banho após a natação – o rolo está armado, e a fila também (pensem nos dias frios...).

Crianças com cinco anos não têm autonomia para se banharem sozinhas. Elas não sabem se lavar, escorregam no sabonete, se vestem mal e esquecem coisas.

Principalmente, como bem citou o texto da internet, não concebo que uma mãe fique tranqüila em deixar seu menininho banhar-se entre homens adultos desconhecidos.

Assim, o que fazer? Nesses anos de convívio em vestiários, vi muitas senhoras incomodadas com a presença de meninos “grandes demais”. Qualquer pai sabe que uma criança de seis, sete anos, não tem maldade.

E, se os meninos são mal vistos entre as mulheres, o que dizer de um pai com a sua menininha entre os marmanjos do vestiário masculino? Questões, enfim. Questões que podem parecer tolas para alguns, mas que são fundamentais para aqueles que acompanham as atividades dos filhos.

O clube que eu freqüento, infelizmente, coloca crianças e adultos em situação de conflito por causa de um simples banho quente. Num lugar onde a direção não se responsabiliza nem pelos “objetos de valor deixados na rouparia”, o que dizer dos nossos filhos?

O meu é que não vai se expor às fatalidades. Pelo menos, não às óbvias.


30 de outubro de 2008 | N° 15774
PAULO SANT’ANA


Bem e mal de mãos dadas

Há fatos que só ocorrem no Rio de Janeiro, mas, como é certo que em seguida serão copiados no Estado, eu fico sempre atento a eles.

Como se sabe, lá no Rio de Janeiro foi instituído um tipo estranho de entidade, algo assim como um ser hermafrodita, criado para defender o bem e o mal ao mesmo tempo: a milícia.

As milícias foram criadas informalmente nas favelas. E tinham como objetivo defender os moradores das favelas do domínio de opressão exercido pelos traficantes sobre eles.

Mas as milícias se tornaram organizações fortes, constituídas quase sempre de policiais e ex-policiais, também de agentes penitenciários.

E logo se transformaram em organizações perversas, que a exemplo dos traficantes cobram dos moradores das favelas taxas para protegê-los.

Em seguida, as milícias passaram a assaltar e matar, além, é claro, de associar-se a traficantes.

Quando se viu, as milícias estavam sendo procuradas pela polícia para responder por crimes os mais hediondos.

Estava preso até o início desta semana no Presídio Bangu 8, um dos mais importantes do Rio de Janeiro, um chefe de milícia: o ex-PM Ricardo Teixeira Cruz, o Batman.

Ele responde a três processos na Justiça por formação de quadrilha e a pelo menos quatro processos por homicídio.

Estava preso o Batman. Porque não está mais. Segunda-feira passada, entrou no sólido complexo penitenciário um Palio branco que conduzia dois homens, supostamente agentes penitenciários, que foram até uma das galerias e trouxeram Batman, sob o pretexto de transportá-lo até um hospital penitenciário que fica a um quilômetro do presídio, onde seria atendido.

Não se sabe como os homens que resgataram Batman se informaram de que ele teria de ir ao hospital, não se entende como eles se atravessaram no atendimento nem como penetraram no presídio.

O fato é que Batman foi retirado da prisão pela porta da frente, com escolta armada, num rapto e numa fuga espetaculares, diante de toda a segurança penitenciária, que certamente não foi feita de boba, ela tinha conhecimento daquele resgate.

Ou seja, o aparelho penitenciário estava corrompido pela quadrilha do resgate, em parte, a outra parte teve medo dos poderosos que levaram a efeito a bombástica manobra.

Assim é o Rio de Janeiro e assim se prepara para ser, por osmose, o Brasil: os mesmos criminosos que detêm por supremacia as chaves das favelas empunham também as chaves da prisão.

Não se sabe mais quem é polícia ou bandido na cidade, muitas vezes eles desempenham duplamente os mesmos papéis.

A Justiça, distante do calor dos fatos, é lograda e se torna indefesa. A população é praticamente governada pelo mal.