sábado, 26 de abril de 2025


25/04/2025 - 14h00min
Martha Medeiros

Essa reconexão pessoal promovida pelos finais de romance não deveria assustar

É triste perder alguém, mas a separação só será desesperadora se você estiver perdido de si mesmo, se já nem souber mais quem é.

A relação acabou de comum acordo, disseram. A gente sabe que não é bem assim, sempre tem um que lidera o desfecho e o outro concorda, mas, ainda assim, são finais civilizados. Decidida a separação, vem a fase do “quem fica com o quê”, que pode ser complicada quando se trata de um longo casamento, mas se era um namoro em casas separadas, é só cada um buscar suas roupas, livros e seguir a vida em frente. 

Seria menos sofrido, realmente, se a questão da devolução ficasse restringida apenas a coisas materiais. O problema é que muitas pessoas, ao saírem de um relacionamento, não se querem de volta. Não aceitam ser devolvidas para elas mesmas. Relacionamentos suprem carências. Casais não trazem apenas objetos para dentro da relação: trazem seus parentes, seus amigos, seu universo profissional.

Novos olhares e abraços. Infelizmente, na hora de separar, essa turma entra no inventário. Por mais que o afeto se mantenha, terminará a convivência. Você não será apenas a ex-mulher ou o ex-marido de alguém. Será também ex-cunhado, ex-genro, ex-nora, ex-madrasta, ex-padrasto. Mesmo tendo ampliado sua rede de contatos, precisará de equilíbrio emocional para voltar para si mesmo e ser bem recebido por aquele que você era antes da relação iniciar.

Nosso RG traz foto, assinatura e um número, mas essa é apenas a parte burocrática da nossa identidade. A matéria-prima que nos constitui vem de alegrias, traumas, aprendizados, bullying, conquistas e rejeições, enfim, tudo o que foi vivido antes de crescer e escolher alguém para compartilhar sua história. Não dá para iniciar uma relação esvaziado disso tudo. A pessoa que não consegue lidar com o adulto que se tornou, e que não preserva o lugar dentro dela que deveria chamar de “casa”, vira uma sem-teto hospedada na vida alheia.

Toda separação é uma devolução. Você é devolvido para si. Com mais bagagem e mais lembranças, mas tem que retornar ao seu eu essencial. Você é o seu próprio lar, diz a música. É triste perder alguém, mas a separação só será desesperadora se você estiver perdido de si mesmo, se já nem souber mais quem é. 

Machistas inseguros chegam a ponto de entrar em surto diante do rompimento e cometem feminicídio: no Rio Grande do Sul, seis mulheres foram assassinadas por seus ex-parceiros na última Sexta-Feira Santa. Tudo o que o criminoso consegue com essa violência é arranjar um novo lugar para morar: atrás das grades, onde aprenderá na marra a conviver consigo próprio.


26 de Abril de 2025
CARPINEJAR

O tempo de Tite -Tite deu um tempo para si:

- Antes de ser técnico, sou humano.

O ex-treinador da Seleção, campeão mundial pelo Corinthians, anunciou sua retirada por período indeterminado para cuidar da saúde mental e física. Aos 63 anos, tomou a surpreendente decisão de suspender a sua carreira.

O susto da arritmia cardíaca ao retornar de um confronto da Libertadores na Bolívia, em agosto de 2024, na época no Flamengo, contribuiu para a reviravolta profissional - quem enfrentou dilema semelhante ao de Tite foi o tetracampeão brasileiro Muricy Ramalho, que abreviou a sua carreira em abril de 2016, enquanto comandava o Flamengo, após sentir dores no peito.

Num esporte em que a resiliência atinge os extremos da autoviolência, em que não se desiste, tal exposição pública de um coliseu, o que Tite fez é uma atitude corajosa. É uma aula de civilidade terapêutica para o futebol, mostrando a importância da pausa.

Torna-se um ícone masculino, seguindo a lucidez de Simone Biles: reconhece suas fronteiras e opta por um intervalo, mesmo sob os holofotes, mesmo com convites irrecusáveis, para defender a sua privacidade e preservar os seus valores.

Essa resolução do Tite rompe com um padrão cultural entre os homens: o da resistência silenciosa a qualquer preço, da mania de "aguentar tudo" e jamais pedir ajuda, da negação da vulnerabilidade. Ele vinha dizendo que não suportava mais o ritmo. Se continuasse assim, subestimando os sinais de alerta, poderia morrer sentado numa casamata, ou sucumbir pela depressão ou ansiedade num quarto de hotel.

O sacrifício traz a ilusão da influência: você desfruta de fama nas ruas, mas, dentro de casa, não passa de um fantasma. Deixa de aproveitar os momentos preciosos ao lado de quem mais ama. Perde a fase dourada do crescimento dos filhos, que nunca terá estorno - adultos, eles não desejarão igual proximidade.

Como Biles na Olimpíada de Tóquio (2021), que abandonou as provas por sérias questões emocionais e foi duramente criticada por declinar de futuras medalhas de ouro, Tite assume o que parece uma fraqueza, mas é a força maior da franqueza: a valentia de parar simbolicamente o seu cargo para retomar a sua vida e reencontrar a sua inspiração.

Treinadores são tratados como máquinas, submetidos a experiências assustadoras, numa imprevisibilidade doméstica, sempre prestes a ser demitidos, sempre trocando de cidade e de clube, levando as famílias de roldão, numa condição provisória e ambulante, matriculando e rematriculando suas crianças no vaivém das escolas.

As glórias duram pouco. As vaias, essas sim, sufocam.

Ainda que carreguem rescisões polpudas e recebam salários astronômicos, acabam devorados pela crítica. A cada jogo, precisam lidar com uma coletiva para explicar o que funcionou ou o que não vingou nos seus esquemas táticos. Não devem falar mal dos atletas ou dos dirigentes. Protegem o vestiário. Permanecem à beira do campo se esgoelando, gesticulando enlouquecidos, raciocinando uma mímica para conter ou desarmar o adversário. É um estresse desumano, de implosões psicológicas e pressões externas.

Técnico já nasce com a Síndrome de Burnout. A tensão é a sua rotina: do treinamento para a concentração e daí para a partida, num labirinto interminável.

Também sofre de um agravante. Diferentemente dos jogadores, que possuem um ciclo definido de produtividade e penduram as chuteiras até os 40 anos, o técnico não tem um limite biológico, à mercê dos humores do mercado e da aceitação das torcidas. Pode se manter no posto de forma vitalícia, até o último suspiro. A data de validade é somente quando adoece.

Tite pensa que está se salvando, mas na verdade está salvando vários de seus colegas a partir de seu exemplo. 

CARPINEJAR

26 de Abril de 2025
COM A PALAVRA

Amauri Soares - Diretor-executivo da área de Afiliadas, dos Estúdios Globo e da TV Globo

"O compromisso da TV Globo com o Brasil não mudou e não mudará"

O homem por trás da engrenagem que movimenta a maior rede de televisão do Brasil, Amauri Soares fala com orgulho da trajetória construída pela Globo ao longo de suas seis décadas de existência. Em entrevista, projeta os desafios para o futuro.

Camila Bengo

A TV Globo chega aos 60 anos consolidada como a maior emissora de televisão do Brasil, também uma das maiores do mundo. No seu entendimento, o que levou a Globo a se tornar essa potência? Qual é o elemento X?

A determinação de andar sempre com a sociedade. A Globo é uma TV do Brasil para o Brasil. São 14 mil pessoas da TV Globo, mais 10 mil pessoas nas afiliadas, que saem de casa todos os dias para fazer uma televisão brasileira. Andar com a sociedade significa estar sempre aberta ao diálogo, propor temas para debate, abrir espaço para todos, valorizar o regional. Veja o exemplo do Rio Grande do Sul. A RBS TV é a Globo dos gaúchos. Uma das primeiras afiliadas da Globo, hoje com 12 emissoras em todo o Estado. Cada uma produzindo conteúdo regional, olhando de perto a realidade e contribuindo com a comunidade. Este conhecimento local, estas raízes profundas em cada região do país, como as que a RBS tem no Sul, formam o maior diferencial estratégico da Globo.

A celebração dos 60 anos contará com programação especial de 60 horas. Como foi o processo de planejamento?

Começamos a planejar esta celebração um ano e meio antes. Desde o início, algo ficou muito claro para nós: queríamos honrar nosso passado e celebrar as histórias e as pessoas que nos trouxeram até aqui. Além de apontar para o futuro, mostrar a nova Globo que começa a nascer, com a chegada da TV 3.0.

A partir da programação de 60 anos, que mensagem essa Globo deixará aos espectadores?

Que muita coisa mudou na televisão e no país, que o futuro começa agora, mas que o compromisso da Globo com o Brasil não mudou e não mudará. Somos contadores de histórias brasileiras. Somos 120 emissoras de televisão que conhecem profundamente suas regiões e suas comunidades. Esta é a base para construir os próximos 60 anos de Globo.

Como a emissora tem se adaptado às novas demandas do público e à evolução das plataformas digitais, especialmente em um cenário tão competitivo com o streaming?

Fazendo o dever de casa. Somos 100% digitais. Estamos na TV da sala, mas também no celular, nos computadores, nas distribuidoras de TV paga e nas distribuidoras de banda larga. A Globo está com as pessoas onde elas estiverem e quando elas quiserem.

Isso também inclui a implementação da TV 3.0? Como essa tecnologia vai impactar a produção dos conteúdos e a experiência do espectador?

TV 3.0 é a televisão que todos conhecemos, mas com a possibilidade da customização. Cada pessoa poderá acrescentar informações e recursos que fazem sentido para ela. Na hora do telejornal, por exemplo, a pessoa poderá ter mais informações da sua cidade ou a previsão do tempo local. Na hora do jogo, poderá ouvir só a torcida do seu time. Imagine assistir à novela em um grupo com familiares e amigos, podendo trocar impressões e comentários enquanto o capítulo está no ar. A TV 3.0 viabiliza todas essas possibilidades.

A TV Globo é a maior referência na produção de novelas no país, mas é inegável que a entrada das plataformas de streaming nesse formato tem sido bem-sucedida. Como a emissora observa esse cenário?

A estrutura da Globo para a produção de novelas não tem paralelo no país e no mundo. A chegada de novos criadores garante que essa estrutura seguirá produzindo grandes telenovelas brasileiras. A procura do formato por todos os streamings e redes de TV mostra que a telenovela permanece como o gênero brasileiro mais relevante do audiovisual.

Vale Tudo, uma das grandes apostas da emissora neste ano, tem uma forte crítica social. Como a reinterpretação dessa obra pode refletir os dilemas atuais da sociedade brasileira?

Uma condição básica para avaliar o remake de uma novela é se o tema continua atual na sociedade. A discussão proposta em Vale Tudo, sobre ética, é muito atual. Vale tudo para vencer na vida? Quais os limites? O grande mérito da dupla de criadores desta nova versão, Manuela Dias e Paulo Silvestrini, foi preservar as intenções da obra original num contexto todo novo, do Brasil de hoje. A reação do público tem sido a melhor possível.

A Globo é frequentemente citada nos debates ideológicos. Para a esquerda, a emissora é de direita. Para a direita, a Globo é de esquerda. Diante dessa divisão ideológica que se acirrou no país, em que lugar está a Globo?

No lugar da maior produtora de jornalismo profissional do país. O jornalismo profissional é alvo dos ataques de pequenos grupos mais polarizados, mais extremados, assim como a própria democracia e as suas instituições são alvos. Esses ataques acontecem de forma organizada nas redes sociais, mas não representam o sentimento do conjunto da sociedade. Pelo contrário: vemos a sociedade buscando cada vez mais o jornalismo profissional de qualidade para entender o que é fato e o que é fake. É um fenômeno novo, mas que não acontece só no Brasil. Estamos vendo isso acontecer no mundo todo e sabemos qual o nosso caminho: seguir investindo em jornalismo profissional isento e na construção de relações de respeito e afeto.

O que podemos esperar da TV Globo nos próximos anos?

Seguir sendo a televisão que busca surpreender, propor novos temas, contar novas histórias. Sempre a partir do Brasil como inspiração. E com a melhor qualidade possível, como tem sido desde 1965. Tudo isso, é bom sempre lembrar, numa oferta gratuita. A TV aberta é gratuita, monetizada pela publicidade e acessível a todos. A gratuidade da TV aberta é a base da sua essência.

E qual será o desafio?

O maior deles é andar com a sociedade. Representar a complexa e diversa sociedade brasileira na tela de maneira rica, positiva e inspiradora. 


26 de Abril de 2025
MARCELO RECH

É preciso olhar para Recife

Em geral associado ao frevo, a multidões em festa, praia e desigualdade social, Recife poderia ser apenas mais um desses estereótipos do nordeste brasileiro. A capital pernambucana, porém, tem lições a ensinar mesmo a metrópoles que se consideram na vanguarda do desenvolvimento.

A transformação de Recife começou há cerca de duas décadas e meia, com a criação do Porto Digital, um distrito de tecnologia e inovação que se espalha por 171 hectares do que era antes uma área degradada da cidade histórica. Desde lá, o parque tecnológico já estimulou a restauração de 138 mil metros quadrados de prédios antigos, convertidos em empresas inovadoras, restaurantes, hotéis e centros culturais.

O Porto Digital e sua cascata de benefícios sociais e econômicos é a melhor justificativa para que outras capitais, entre elas Porto Alegre, criem e consolidem parques tecnológicos capazes de reverter tendências de estagnação. Mas, por si só, eles não respondem por toda a transformação da cidade.

No caso de Recife, sobressai um fenômeno de popularidade, o jovem prefeito João Campos, do PSB, reeleito em 2024 com 78,11% dos votos, um recorde nas capitais. Filho do ex-governador Eduardo Campos, candidato a presidente morto num acidente aéreo, João Campos é descrito por adversários como um rei do marketing. De fato, o prefeito de 31 anos entende como poucos políticos a linguagem das redes. No Instagram, ele surfa em 3 milhões de seguidores, quase o dobro de seu congênere em São Paulo, Ricardo Nunes. João Campos usa nas redes uma linguagem informal, repleta de memes, e toma emprestada a popularidade de celebridades da periferia, como influenciadores do bregafunk.

A estratégia, contudo, está longe de explicar todo o alcance do sucesso do prefeito. Primeiro, ele governa a cidade com um arco ideológico que vai do PT ao União Brasil. Mais relevante é a máquina de obras municipais. Em um só programa, que doa projetos de engenharia e material, enquanto a comunidade entra com a mão de obra, são tocadas 1,6 mil pequenas obras que livram a população de tormentos que pareciam eternos. A cidade toda é um canteiro de obras públicas, somadas a investimentos privados que apostam no futuro de Recife como centro econômico.

A prefeitura é, ela própria, um centro de tecnologia, com plataformas que fazem quase de tudo, da intermediação de vagas de emprego à adoção de cães e gatos. Nas ruas, totens com 500 câmeras são armas para enfrentar a criminalidade, uma chaga exposta de Recife, e, na orla, banheiros bem cuidados surpreendem visitantes. Por todo lado, Recife expõe o potencial transformador de visões novas para um mundo novo. É bom prestar atenção. _

MARCELO RECH

26 de Abril de 2025
ANDRESSA XAVIER

Inimigo imaginário

O historiador britânico Laurence Rees, no livro Hitler e Stalin, mostra com fatos, documentos e relatos o horror criado por esses dois personagens diabólicos à frente do nazismo e do comunismo no período da Segunda Guerra Mundial. Antagônicos, viviam em dois projetos extremos, mas que eram ligados por um objetivo comum, de acabar com as liberdades individuais.

Vira e mexe a palavra comunista aparece hoje em dia. Isso acontece quando é conveniente para um debate. Sempre que é preciso ter um inimigo a ser combatido, o mal a ser evitado. Nem o papa Francisco escapou do xingamento doentio ao longo dos últimos anos.

A teóloga Maria Cristina Padilha refletia nesta semana, na Gaúcha, sobre esse rótulo equivocado que muitos deram ao Papa. O que ela disse foi que Francisco ajudou a retomar o que chama de igreja primitiva, a igreja pensada por Jesus, há mais de 2 mil anos, e não a construída e modificada pelos homens ao longo do tempo. Isso não é ser comunista e, sim, seguir o Evangelho de Cristo.

O fantasma da camisa vermelha, no entanto, segue assombrando quem insiste em chamar de comunista quem discorda de sua opinião mais conservadora. A história mostra que esse inimigo imaginário só existe no discurso inflamado de quem quer encobrir alguma inconsistência no que defende ou ganhar apoio de um grupo que tem horror do comunismo. De fato, precisamos ter horror dos regimes que mataram milhares, viveram sob os desmandos de malucos e que criaram capítulos tristes da humanidade, mas o que digo aqui é que o comunismo não vai tomar conta do Brasil e do mundo.

Historicamente, o comunismo como regime político ruiu há décadas, com o colapso da União Soviética, em 1991. A derrubada do Muro de Berlim e a derrocada da URSS permitiram que personagens contassem a Laurence Rees muitos dos depoimentos que ele utiliza em seus livros, porque devolveram a liberdade às pessoas que viveram aquele tempo.

Ainda há quem tente usar o comunismo como uma tática de medo, como se estivéssemos à beira de um levante popular marxista, o que não é verdade. É uma distorção que serve para silenciar vozes que apenas pedem justiça social, combate à pobreza e dignidade humana. A crítica ao sistema vigente não é automaticamente comunismo, é apenas crítica e, muitas vezes, necessária.

O que o Papa fez, com coragem, foi ecoar os valores centrais do cristianismo. Solidariedade, compaixão, atenção aos pobres e marginalizados. Não há nada de comunista em chamar atenção para o sofrimento humano causado por desigualdades obscenas. O Evangelho fala dos pobres, não dos mercados financeiros. A ideologia, no entanto, faz com que as interpretações tenham viés. A pobreza que enfrentamos não é só a miséria da falta de comida na mesa, mas também dos debates públicos. 

ANDRESSA XAVIER


26 de Abril de 2025
OPINIÃO RBS

OPINIÃO RBS

Tão logo a tragédia de maio de 2024 se materializou, ficou patente que o Estado precisaria de novas e grande obras de contenção de cheias. O primeiro desses projetos estruturantes, iniciado do zero, é o do dique de Eldorado do Sul. Na quinta-feira, ao apresentar o balanço do Plano Rio Grande, o governo gaúcho anunciou que estava prestes a lançar o edital para a atualização do anteprojeto. Trata-se de uma etapa preliminar, mas essencial.

Deve-se, a partir de agora, acompanhar pari passu o andamento de cada fase e dos prazos anunciados. Observar de forma atenta o cumprimento do cronograma e cobrar eventuais atrasos é essencial para elevar a garantia de que a construção não vai se arrastar por um tempo demasiado, além da demora usual de obras públicas no país. Por se localizar em uma área extremamente plana às margens do Rio Jacuí, Eldorado do Sul sofre periodicamente com inundações. 

No ano passado, foi o município mais afetado pela enchente. Cerca de 80% dos domicílios foram atingidos, 32 mil pessoas sofreram diretamente as consequências da cheia. O sistema de proteção é uma demanda antiga da comunidade local. Com os riscos de novos episódios de chuva extrema se repetirem com maior frequência no futuro, é obra urgente para proteger os cidadãos e a economia local, uma vez que o município tem recebido investimentos corporativos vultosos.

A previsão é de que a contratação da empresa responsável pelo anteprojeto ocorra até 20 de maio. A vencedora da concorrência terá o prazo de seis meses para finalizar o trabalho. Sem sobressaltos, portanto, seria concluído em novembro. A etapa seguinte teria novo certame para definir a empresa que fará o projeto executivo e executará a obra. No início de 2025, estimava-se que a construção poderia se iniciar em 2026 e levar 36 meses. O custo, antes estimado em R$ 530 milhões, pode chegar na verdade a um montante mais próximo de R$ 1 bilhão. A obra será custeada pelo fundo extraordinário de R$ 6,5 bilhões criado pelo governo federal.

Além de reconstruir o que foi destruído, o Estado está em uma corrida para que a infraestrutura e as cidades resistam a cheias semelhantes à de maio - que virão, só não se sabe quando. Isso faz com que se precise conciliar a elaboração de projetos consistentes que se transformem em obras robustas, o que leva mais tempo, com a celeridade necessária para minimizar riscos de novas tragédias e perdas financeiras e de vidas.

Às vésperas de o maior desastre climático da história gaúcha completar um ano, renova-se a lembrança da importância de a sociedade cobrar as promessas feitas. O Painel da Reconstrução, ferramenta do Grupo RBS que permite acompanhar o andamento de projetos e repasses, disponibiliza essas informações. Ali está, por exemplo, a situação atual dos projetos das demais obras de contenção de cheias, como a do Arroio Feijó, no limite entre Porto Alegre e Alvorada, e as das bacias dos rios dos Sinos e Gravataí. 

Aguarda-se que, em breve, também andem. Todas fazem parte do Plano Rio Grande, um planejamento consistente que, votado pela Assembleia, se tornou um programa de Estado, previsto para atravessar governos. Mas, por melhores atributos que tenha, não se concretizará sozinho. A execução plena dependerá da vigilância dos gaúchos. 


26 de Abril de 2025
GPS DA ECONOMIA - Marta Sfredo

É preciso vigiar o trilhão da previdência

A coluna vem insistindo que o escândalo da fraude nos benefícios pagos pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) não é "apenas" mais um - com todo o constrangimento que deveria ser para todos o uso da palavra entre aspas. As despesas com previdência social são as maiores entre todas as demais primárias - isso quer dizer que só perde para o desembolso com os custos da dívida, não contabilizados como gasto primário, os que importam para o cálculo da meta do equilíbrio fiscal.

Para este ano, o orçamento previsto para a área é de R$ 1,07 trilhão. Sim, tri, grandeza só comparável a PIB de países ou valor de mercado de big techs. E só nos últimos cinco anos, aumentou 35,2% - isso depois de aprovada uma reforma previdenciária que deixou milhões de brasileiros sem perspectiva de aposentadoria no curto prazo.

Para dar uma ideia mais precisa, neste ano o total do orçamento primário - sem contar o custo da dívida - é de R$ 2,2 trilhões. Isso significa que os gastos previdenciários previstos em R$ 1,07 trilhão correspondem a quase metade do total (48,6%). Isso significa que sobra metade para todas as demais áreas, incluído o custeio da máquina pública não diretamente relacionada.

E esse valor estratosférico ainda está sob escrutínio, porque nos últimos anos o valor desembolsado tem sido maior do que o previsto no orçamento. Além disso, no ano passado, o Regime Geral de Previdência Social (RGPS, focado nos trabalhadores do setor privado) teve resultado negativo de R$ 297,389 bilhões, conforme dados da Secretaria do Tesouro Nacional.

Essa situação faz com que vários especialistas em previdência diagnostiquem que o Brasil vai precisar de uma nova reforma previdenciária, ainda mais severa do que a anterior. Por isso, escandaliza a gestão frouxa - para dizer o mínimo - dessa área com gastos tão estratosféricos e aplicação tão vital - a sobrevivência de dezenas de milhões de brasileiros depende dos benefícios.

O esquema de fraude vai custar bilhões extras. A estimativa dos descontos feitos de forma irregular varia de R$ 6 bilhões a R$ 8 bilhões. Até agora, foram apreendidos bens avaliados em R$ 2 bilhões. Sem considerar eventual diferença entre avaliação e efetiva reposição, além de custos embutidos na venda, foi criado novo buraco de "poucos bilhões" (outro absurdo) em um rombo de muitos bilhões. _

Crédito rende vaga

No ano em que chegou perto de R$ 6 bilhões em financiamentos, o Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE) ajudou a gerar 90.351 postos de trabalho nos quatro Estados onde atua - Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, que são acionistas da instituição, e Mato Grosso do Sul.

Conforme esse cálculo de impacto, o volume de investimentos com participação do BRDE no RS em 2024 (R$ 2,2 bilhões) gerou 36.348 empregos diretos e indiretos. A estimativa é feita com base na matriz insumo- produto para definir padrões de impactos diretos, indiretos e induzidos (efeito-renda).

Para o diretor-presidente do BRDE, Ranolfo Vieira Júnior, os indicadores ilustram o efeito dos projetos estratégicos que passam pelo banco para o fortalecimento econômico da região.

No RS, os projetos apoiados pelo BRDE somaram R$ 287 milhões ao recolhimento de ICMS em 2024, alta nominal de 25% ante 2023. _

Entre trégua nas tarifas e perspectivas negativas

Com queda acumulada de cerca de 2% frente ao real na semana, o dólar fechou com oscilação para baixo de 0,08%, para R$ 5,687, na sexta-feira, a sexta baixa consecutiva.

Uma perspectiva de alívio na guerra comercial entre EUA e China fez a moeda americana perder força. Donald Trump havia declarado que pretendia reduzir "substancialmente" as tarifas aplicadas ao gigante asiático, que hoje chegam a 145%. A China chegou a negar negociações, mas admitiu isentar alguns produtos americanos.

Apesar de sinais dos dois lados de arrefecimento na guerra comercial, as informações ainda não foram oficializadas, e há perspectivas conflitantes, freando maior apetite ao risco - o que ajudaria uma maior valorização do real frente ao dólar.

Nos EUA, começou a temporada de apresentação de balanços do primeiro trimestre, e empresas como American Airlines e Procter & Gamble (Pampers, Ariel, Downy) estão dando más notícias - embora sejam as esperadas: queda na demanda e risco de aumento de preços. A crise aberta pelo tarifaço troca de epicentro: do mercado financeiro para os resultados corporativos. _

GPS DA ECONOMIA

26 de Abril de 2025
FRAUDE BILIONÁRIA

FRAUDE BILIONÁRIA

INSS vai devolver na folha de maio descontos em aposentadorias de abril

Fraude bilionária

O Ministério da Previdência informou que vai devolver, na folha de maio, os valores que foram descontados indevidamente de aposentadorias e pensões do INSS em abril.

O anúncio ocorreu após a operação da Polícia Federal (PF) e Controladoria-Geral da União (CGU) que revelou um esquema que pode ter desviado até R$ 6,3 bilhões entre 2019 e 2024.

Os descontos referiam-se a mensalidades de associações e sindicatos, mas não haviam sido autorizados pelos beneficiários. A investigação levou à demissão do presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, e ao afastamento de outros integrantes da cúpula do órgão.

Diante da operação, os descontos foram todos suspensos e o governo garantiu que as vítimas do esquema serão ressarcidas. Ainda não está definido, porém, como e quando serão devolvidos os valores descontados antes de abril.

"A devolução dos descontos associativos não reconhecidos pelos beneficiários - ocorridos antes de abril de 2025 - serão avaliados por grupo da Advocacia-Geral da União (AGU) que tratará do tema", afirmou o Ministério da Previdência.

Sem cancelamento

O órgão ainda alegou que, como os descontos estão suspensos, não há necessidade de os beneficiários solicitarem cancelamento ou procurarem agências do INSS para tratar do assunto. 



26 de Abril de 2025
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Prisão de Collor expõe contrastes da Lava-Jato

Você não precisa gostar de Fernando Collor para sentir um estranhamento diante de sua prisão, determinada pelo ministro Alexandre de Moraes depois de se esgotarem todos os recursos no Supremo Tribunal Federal (STF). Quem acompanhou o impeachment de Collor em 1992 achava que havia razões para prendê-lo à época, mas ele só perdeu o mandato e os direitos políticos por oito anos.

O que intriga quem não está acostumado às filigranas da Justiça é ver Collor sendo preso enquanto outros condenados na Operação Lava-Jato estão livres, leves e soltos.

O Brasil está cansado de saber dos motivos que levaram o Supremo a anular as condenações do presidente Lula, que amargou uma temporada na cadeia em Curitiba, foi libertado, retomou a vida política e se elegeu para o terceiro mandato. Mais do que o conluio entre o então juiz Sergio Moro e o procurador Deltan Dallagnol, o que levou à anulação foi a interpretação de que ele deveria ter sido processado na Justiça Federal de Brasília, e não em Curitiba.

Mais difícil de entender é a libertação de Sérgio Cabral, condenado a mais de 400 anos de prisão. De sua cobertura num dos bairros mais caros do Rio de Janeiro, Cabral debocha dos brasileiros comendo e bebendo do bom e do melhor.

E nós ainda temos na memória as imagens das joias compradas com dinheiro da corrupção, dos abusos praticados com o dinheiro do povo, do esbanjamento de sua esposa, de quem hoje está separado.

E os outros corruptos e corruptores identificados na Lava-Jato? Antonio Palocci, o delator que espera pela liberação do dinheiro para curtir a vida na Itália? José Dirceu, atuando nos bastidores? Marcelo Odebrecht e seu pai, Emilio? Leo Pinheiro? Uma releitura do livro A Organização, de Malu Gaspar, seria interessante neste momento para completar o listão.

Tecnicamente, Collor foi preso porque seu processo correu no foro adequado, teve todas as oportunidades para se defender e foi condenado em última instância. As leis não foram feitas para ser entendidas pelos mortais. _

Leite ignora apelos e troca Bia por Loureiro na Cultura

Os apelos da comunidade cultural pela manutenção de Beatriz Araújo na Secretaria da Cultura não foram suficientes para evitar a sua substituição pelo deputado Eduardo Loureiro (PDT), ex-prefeito de Santo Ângelo. A troca, prevista há várias semanas, foi consumada na sexta-feira.

Em uma rede social, o governador Eduardo Leite afirmou que Beatriz "ajudou a liderar uma verdadeira virada na política cultural do Estado" e "seguirá contribuindo com a cultura gaúcha em uma nova importante missão que será anunciada em breve". Disse ainda que Loureiro "sempre teve uma forte ligação com a cultura, especialmente com a região das Missões".

Por fim, Leite afirma: "Daremos continuidade às políticas estruturantes da área e ampliaremos o diálogo com as regiões, as tradições e as expressões que fazem da cultura do Rio Grande do Sul uma das mais ricas do país. Agradeço profundamente à Bia pelo trabalho". _

Mudança abre caminho para PDT apoiar Gabriel no ano que vem

As negociações se arrastavam há alguns meses, mas a troca na Cultura era dada como certa desde o início de abril. Envolvem não apenas a participação maior do PDT no governo, mas um esboço de aliança para a eleição de 2026, que terá o vice-governador Gabriel Souza como candidato do governo. O PDT deverá fazer parte da aliança.

A indicação de Loureiro chegou a balançar quando o PDT realizou encontro em São Leopoldo e Juliana Brizola foi lançada candidata a governadora. Publicamente, Juliana afirma que será candidata ao Piratini.

Nos bastidores, líderes do PDT e PSDB dizem que a aliança está em debate e que Juliana concorrerá a deputada federal. 

BNDES financia revolução verde

Na entrevista que deu ao Gaúcha Atualidade na sexta-feira, o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante, que vem a Porto Alegre na segunda-feira, tocou em um dos pontos mais sensíveis para o futuro do planeta: a necessidade de financiar projetos de transição energética e de preservação ambiental.

O BNDES tem não só o dinheiro, com juros subsidiados para empresas interessadas em fazer uma revolução verde nos seus processos, mas técnicos que podem orientar os projetos. _

mirante

Buscando retomar o patamar pré-enchente do turismo gaúcho, o secretário Ronaldo Santini recebeu uma boa notícia: o Estado é o terceiro mais seguro para turistas, atrás do Distrito Federal e de Santa Catarina. A informação é da Polícia Civil, que apresentou os dados de segurança para representantes do setor na quinta-feira.

As convenções municipais do MDB ocorrem neste sábado em todo o Estado. Os presidentes que forem escolhidos terão a missão de conduzir o partido para as eleições de 2026.

Os três vereadores do PSDB de Porto Alegre - Moisés Barboza, Gilson Padeiro e Marcelo Bernardi - lançaram uma carta aberta ao governador Eduardo Leite, apelando para que permaneça no partido após a fusão com o Podemos. A reunião da executiva nacional do PSDB, quando deve ser formalizada a união, está marcada para terça-feira.

Caron rebate Lewandowski

O secretário da Segurança Pública, Sandro Caron, reagiu à manifestação do ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, que questionou a não utilização de R$ 4 milhões do Fundo Nacional de Segurança Pública.

De acordo com o secretário, dos R$ 4,5 milhões enviados para o plano de ação apresentado pelo Estado em 2024, R$ 3,3 milhões (73%) já foram empenhados.

"A secretaria está tocando o plano e em seis meses já executamos a maioria dos recursos", disse, em nota. 

POLÍTICA E PODER

26 de Abril de 2025
1NFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Por dentro do local mais privativo da Igreja Católica

Eram por volta das 18h30min, quando entrei na Casa Santa Marta, o local escolhido pelo papa Francisco para morar, onde morreu, e residência de passagem dos cardeais durante o conclave que elegerá o sucessor do trono de São Pedro.

As votações ocorrem na Capela Sistina, mas é na Casa Santa Marta que eles dormem, fazem as refeições e convivem no dia a dia do conclave, atrás dos muros do Vaticano, sem contato com o mundo exterior até que a fumaça branca anuncie que os católicos já têm um novo papa.

De antemão, é possível perceber que o prédio cinza-claro é bem diferente do tom sombrio apresentado no filme Conclave, que ganhou o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado. Aliás, é motivo de piada entre os frequentadores uma das cenas do filme, em que um cardeal entra no elevador e pede ao ascensorista o oitavo andar. A Casa Santa Marta real tem cinco andares, e os elevadores não contam com ascensorista.

Feito o esclarecimento, vamos ao que vi: chama atenção que os aposentos de Francisco ficam bem em frente à entrada, no segundo andar. As quatro janelas estão fechadas: as duas centrais, onde na fachada está a bandeira do Vaticano à meio-mastro, era sala de reuniões. Ali que o Papa, após sair do Hospital Gemelli, recebeu o rei Charles do Reino Unido. À direita fica um escritório e, à esquerda, o quarto onde Francisco morreu. Todo o local foi lacrado após o falecimento, seguindo a tradição.

Interior do espaço

Entra-se na Santa Marta por uma porta automática de vidro, onde um segurança em trajes civis cumprimenta, de forma respeitosa e tom baixo, quem passa. No hall, à direita, há o busto do papa João Paulo II, em cujo pontificado a residência foi construída. À frente, uma estátua pequena de dois órfãos, presente dado por uma comunidade católica armênia. Pode-se descer para o saguão central por escadas em ambos os lados. Ali há uma pequena recepção.

Havia poucas pessoas na Casa porque, no horário em que visitei, a maioria estava envolvida com a cerimônia de fechamento do caixão de Francisco, ali ao lado, na Basílica de São Pedro.

No saguão, à direita, fica o refeitório. Aqui, mais uma diferença em relação ao filme: as mesas são redondas ou retangulares em ambiente acolhedor - nada como aquelas longas mesas do filme, que mais parecem de presídios. Todas estavam cobertas com toalhas brancas, impecavelmente limpas, pratos e talheres postos para refeição. Há uma garrafa de vinho em cada uma delas.

A mesa que era utilizada por Francisco fica na entrada e, ontem, estava sem pratos, talheres ou vinho. Até sem cadeiras. Desde que o Papa morreu, os moradores falam em um tom mais baixo do que o habitual nas refeições. A todo momento, cruzo por bispos e cardeais: o arcebispo de Quebec (Canadá), de Argel (Argélia) e o núncio apostólico da Síria, cardeal italiano Mário Zenari.

Duas curiosidades

É ao fundo do prédio, quase nos muros do Vaticano, que está a capela. Foi dali que Farrell anunciou ao mundo que o Papa "voltou para a Casa do Pai". Também foi ali que o corpo de Francisco foi exposto pela primeira vez - até ser trasladado para a Basílica de São Pedro. Em um primeiro momento, só moradores da Santa Marta puderam ir até ali, em um funeral privado, para se despedir.

Antes de ir embora, descubro curiosidades: Francisco foi o primeiro papa a morar na casa e muitos dizem que ele abrira mão do Palácio Apostólico para dar exemplo de simplicidade. Na verdade, não é só isso. O Papa não queria ficar só, gostava do convívio. A outra é que, como nos próximos dias os cardeais se mudarão para lá, os moradores, a maioria funcionários do Vaticano, terão de achar outro lugar para ficar até que a fumaça branca saia da chaminé da Capela Sistina. _

Alerta pelo celular

Às 13h10min, os celulares de quem estava em Roma na sexta-feira soaram um alerta que causa surpresa para quem não está acostumado. A mensagem do Departamento de Proteção Civil estoura na tela com um alarme, informando que o acesso à Praça de São Pedro será fechado às 17h. Simples e eficiente. Precisávamos de um desses no RS, para alertas climáticos. É impossível não parar e prestar atenção. _

Reflexões antes do conclave

Pela entrevista que dom Odilo Scherer nos concedeu (leia na página 5), informando que o colégio cardinalício já está em oração e refletindo sobre os desafios do mundo atual, nas reuniões gerais que vêm ocorrendo desde a morte de Francisco, pode-se dizer que as articulações para o futuro papa, informalmente, já começaram. Claro que as votações e escolhas se darão só após o início do conclave, em algumas semanas. _

"O mundo a Roma"

O Il Messagero trouxe como manchete de sua edição impressa de sexta-feira a expressão "Il mondo a Roma" (O mundo a Roma, em tradução livre). Era essa a sensação. À medida que o horário de fechamento do caixão do Papa se aproximava, uma multidão tomava as ruas nos arredores do Vaticano. Tem chamado atenção a grande quantidade de adolescentes, em grupos que vieram para a canonização de Carlo Acutis, o chamado "santo millennial", que acabou sendo cancelada em razão da morte de Francisco. Essas pessoas ficaram para o funeral, e agora se misturam a milhares de peregrinos de outras partes do mundo - e de todas as idades. _

Líderes mundiais no enterro

Mais de 160 delegações internacionais estarão presentes nas cerimônias fúnebres do papa Francisco.

Segundo informações exclusivas obtidas pela coluna junto a fontes do Vaticano, a lista prévia inclui chefes de Estado, primeiros-ministros e parlamentares de diversos países.

Entre as presenças confirmadas destacam-se os presidentes da Argentina, Javier Milei, dos Estados Unidos, Donald Trump, da Ucrânia, Volodimir Zelensky, da Comissão Europeia, Ursula Von der Layen, e o secretário-geral da ONU, António Guterres.

Comitiva brasileira

A comitiva brasileira é formada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva; a primeira-dama Janja da Silva; o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta; do Senado, Davi Alcolumbre; do Supremo Tribunal Federal (STF), Luís Roberto Barroso; ex-presidente e atual líder do Banco do Brics, Dilma Rousseff; e os ministros das Relações Exteriores, Mauro Vieira; da Justiça, Ricardo Lewandowski, dos Direitos Humanos e da Cidadania, Macaé Evaristo; e o assessor especial da Presidência Celso Amorim. _

INFORME ESPECIAL

sexta-feira, 25 de abril de 2025


25 de Abril de 2025
CARPINEJAR

Aposentados dilapidados

A taxa de desaprovação do governo Lula corresponde a 38% pelo Datafolha (1º a 3/4), alcançou 56% pelo instituto Genial/Quaest (27 a 31/3) e extrapolou em 57,4% segundo Paraná Pesquisas (16 a 19/4).

Agora um escândalo no INSS pode ser um pesado obstáculo para qualquer tentativa de reeleição ou de reversão da crise de popularidade no mandato. Descobrimos que os nossos idosos estão sendo extorquidos silenciosamente. Nem na aposentadoria se encontram a salvo de abusos.

A Operação Sem Desconto, deflagrada na quarta-feira pela Polícia Federal e pela Controladoria-Geral da União (CGU), expôs um esquema de fraudes envolvendo descontos indevidos em benefícios de aposentados e pensionistas do INSS. Identificou 11 associações que firmaram acordos de cooperação técnica (ACTs) com o INSS e que foram alvo de medidas judiciais. Na maioria dos casos, não havia autorização dos aposentados e pensionistas para efetuar as contribuições, estabelecidas diretamente via Previdência Social.

O irmão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva José Ferreira da Silva, conhecido como Frei Chico, é vice-presidente do Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos (Sindnapi), uma das entidades investigadas.

Além disso, a CGU constatou que 70% das 29 entidades analisadas não entregaram toda a documentação necessária para a assinatura dos ACTs com o INSS.

A questão se torna ainda mais grave porque os desvios atingem justamente quem pouco recebe, a parcela mais dependente e frágil da sociedade. Atualmente, cerca de 70% dos aposentados e pensionistas do INSS ganham o equivalente a um salário mínimo, de R$ 1.518,00.

O rombo previsto é de aproximadamente R$ 6,3 bilhões, subtraído de modo impune de 2019 a 2024, durante os quatro anos do governo de Jair Bolsonaro e dois da gestão atual de Lula, à custa do sofrimento e penúria de 6 milhões de beneficiários. As mensalidades estipuladas pelas entidades chegavam a R$ 81,57.

A operação resultou no afastamento de seis servidores públicos, incluindo o então presidente do INSS, Alessandro Stefanutto. A Polícia Federal acusa a direção do INSS de facilitar a liberação de descontos mesmo após denúncias de irregularidades. O ministro da Previdência Social, Carlos Lupi, enfrenta pressão para permanecer no cargo.

Tudo piora quando quem tem que protestar é a vítima. Os aposentados e pensionistas precisam assinalar esses descontos improcedentes em seus benefícios para solicitar o estorno dos valores cobrados. Devem entrar em contato com a entidade responsável pelo desconto ou enviar um e-mail para acordo.mensalidade@inss.gov.br, informando o ocorrido.

Ora bolas, milhares, senão milhões, de previdenciários não perceberão o problema. Jamais porque sobra dinheiro, mas porque o embuste é invisível diante de vários tipos de deduções já autorizadas, que acabam camuflando cobranças indevidas como as reveladas na Operação Sem Desconto. Localizar valores injustificados em seus contracheques é como procurar agulha no palheiro.

A linguagem nos extratos é ambígua e pouco transparente. As rubricas aparecem com nomes genéricos como "mensalidade associativa", "adesão sindical", "contribuição de entidade" ou apenas siglas. A tendência é se confundir e acreditar que todos os descontos são obrigatórios ou legais, sem desconfiança, sem nenhum questionamento. Cumpre lembrar que aposentados em situação de vulnerabilidade ou de escassa familiaridade digital têm dificuldade de acessar o extrato completo no Meu INSS.

Como definir o que é falso numa avalanche de números de contribuições e impostos, que podem abarcar empréstimos consignados, planos de saúde, imposto de renda, pensão alimentícia judicial, cofinanciamentos?

É possível que grande parte do desfalque, por causa da desinformação, nunca seja devolvida. 

CARPINEJAR


25 de Abril de 2025
MARCO MATOS

Franciscus

Eu contei aqui, há duas semanas quando escrevi sobre o Cristo Protetor de Encantado, o quanto sou católico e tenho orgulho disso. Hoje quero compartilhar um outro relato. Quando tinha 18 anos, em 2009, me vi perdendo a fé. A Igreja já não conversava comigo. Eu, já sabendo da minha sexualidade, me sentia marginalizado nas falas de padres, bispos e até do Papa. Bento XVI não era carismático.

A semana começou com a triste notícia da morte do papa Francisco. Ele não foi apenas "mais um papa", foi um papa muito querido e que sacudiu a instituição mais tradicional do planeta.

A Igreja Católica passa pela maior provação desde a sua criação. Os tempos de internet, a geração crescente de ateus e, inacreditavelmente, a briga política entre conservadores e liberais dentro do próprio Vaticano.

Quero trazer aqui uma indignação. O total desrespeito de algumas pessoas que foram para a internet e tiveram a coragem de publicar textos, fotos e vídeos ofensivos, rotulando o papa Francisco de comunista, criticando a conduta dele em relação a temas contemporâneos. Independentemente da sua fé, não lhe cabe num momento de partida fazer algo desse tipo. É pequeno, mesquinho. E, olha, teve até político fazendo isso. Que papelão!

Não espero ter um casamento na igreja com outro homem. Prefiro, de verdade, comemorar com amigos. Mas eu tenho direito de encontrar amparo para a minha fé - e no que eu acredito. Fui batizado, fiz quatro anos de catequese, confirmei minha fé na crisma e gosto de ir à igreja.

Foi o papa Francisco que me fez voltar a confiar na Igreja Católica. A questão importante aqui a esclarecer é que o Papa não autoriza ou desautoriza as minhas atitudes particulares. Eu teria perdido a minha fé, mas não deixaria de ser quem sou. Mas agradeço a Francisco por ter me dado a possibilidade de me sentir parte, de me sentir bem-vindo de novo.

A Igreja não pode retroceder ao pensamento da idade média, quando, aliás, ela foi responsável por muitas coisas que hoje são inimagináveis. O tempo no universo existe para que a gente evolua. Se você acredita em Deus, assim como eu, deve ter orgulho de ser tolerante, respeitoso, caridoso.

A fé de ninguém é maior ou mais nobre que a sua. Na Jornada Mundial da Juventude de Lisboa, em 2023, ele disse: "Não tenham medo".

Num mundo tão cruel - e, justamente nesse período, tão polarizado e com tantas ameaças as liberdades individuais - a voz de Francisco fará falta. _

MARCO MATOS


25 de Abril de 2025
OPINIÃO DA RBS

Uma fraude covarde

Não faltam aspectos chocantes no esquema de fraudes nos descontos de pagamentos a aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), alvo de uma operação conjunta da Controladoria-Geral da União (CGU) e da Polícia Federal (PF) na quarta-feira. Entre eles está a estranha leniência da própria autarquia com irregularidades que não eram nenhuma novidade. Também demorou uma providência dos órgãos de controle para apurar o descalabro e investigar condutas - ações e omissões.

Mas passou o tempo - todo o restante do governo Jair Bolsonaro e uma parte da gestão Luiz Inácio Lula da Silva - e os desfalques nos benefícios não apenas continuaram como cresceram, em especial nos últimos dois anos. De acordo com a investigação, foram descontados entre 2019 e 2024 cerca de R$ 6,3 bilhões - em 97% dos casos, os descontos não foram autorizados. A apuração da CGU começou em 2023.

Essa é outra faceta revoltante a demonstrar a covardia do esquema. Era direcionado a alvos com reduzidas chances de se desvencilharem do golpe e que dependem de um benefício modesto, em idade avançada, para tentar viver de forma digna, driblando os altos custos de alimentação e de remédios. De acordo com o INSS, 28,68 milhões de brasileiros, 70,5% do total dos aposentados e pensionistas do instituto, ganham até um salário mínimo por mês.


25 de Abril de 2025
GPS DA ECONOMIA - Marta Sfredo

Resposta a fraude no INSS deveria ser reestruturação

A gravidade da escala da fraude nos benefícios pagos pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) é tamanha que deveria disparar uma grande reestruturação do governo. Não só a estimativa já espantosa de desvio de R$ 6,3 bilhões avançou para perto de R$ 8 bilhões como tende a agravar outros problemas internos e externos: a queda na popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a fragilidade exposta por um convite esnobado ao ministério e a já delicada situação das finanças públicas.

Por isso, a demissão do até então presidente, Alessandro Stefanutto, e dos outros cinco funcionários que tiveram pedido de afastamento aceito pela Justiça deveria ser apenas o ponto de partida, não o de chegada.

Embora o problema não seja novo - a fraude foi exposta pelo Grupo de Investigação da RBS (GDI) há seis anos - o que confere a seriedade do problema exposto por Polícia Federal e Controladoria-Geral da União (CGU) é a escala atingida entre 2023 e 2024, dois anos em que os descontos potencialmente irregulares ultrapassaram a casa do bilhão.

Há providências urgentes a serem tomadas: primeiro, é preciso permitir que milhões de aposentados e pensionistas consigam checar se foram ou não prejudicados. Como disse na véspera o ministro-chefe da CGU, Vinícius Marques de Carvalho, em uma amostragem feita na investigação, eram irregulares 97% dos descontos feitos nos benefícios.

Facilidade para golpistas

Essa constatação levou a uma enxurrada de consultas aos extratos do INSS e à conclusão de que os meios digitais para verificação não são nada amigáveis, especialmente para esse público, mas não apenas para os mais velhos. Essa característica, aliás, facilitou a ação dos fraudadores: uma das mais usuais formas de corrupção é criar dificuldades para vender facilidades.

Outra providência urgente é reparar as perdas dos beneficiários no menor prazo possível, não "um dia", como acenado pelo ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski. Essa tem de ser a prioridade 1 da nova estrutura do INSS. A Justiça já bloqueou e apreendeu bens adquiridos com o produto da fraude, o que pode ajudar, mas como ainda não se sabe sequer o valor exato do rombo, dificilmente será o bastante.

E a correção de um erro que não nasceu mas se agravou na atual gestão deveria dar novo norte ao governo Lula: recuperar no serviço público a noção original desse nome. É possível detectar, nos servidores mais bem-intencionados, mais foco no processo do que na entrega. Isso não quer dizer uma entrega por si mesma, como ocorre com algumas ferramentas que são oferecidas sem atenção ao seu uso na vida real. _

Povo condiciona escolha do sucessor de Francisco

O conclave para a escolha do papa que vai suceder Francisco não começa antes de 5 de maio, mas ainda vai se realizar sob o eco das multidões que se formaram para a despedida. Depois do sepultamento na igreja Santa Maria Maggiore, previsto para sábado, ainda falta o "novendiale", período de nove dias em que são realizadas missas para homenagear e orar pela alma do pontífice.

A mobilização popular reforça o legado e o exemplo do papa que considerava a Igreja Católica como lugar de "tutti, tutti, tutti". E também condiciona as escolhas do colégio cardinalício, cuja composição foi modificada de forma drástica por Francisco, sem significar que a maioria dos nomeados por ele se alinhe a suas ideias.

Os números impressionam, é verdade: foram indicados pelo mais recente papa 108 dos 135 cardeais votantes. Restam 22 indicados por Bento XVI; e cinco, por João Paulo II. A diversidade que Francisco buscou não foi a do posicionamento teológico ou ideológico, mas geográfica.

Embora exista debate legítimo sobre efeito líquido do pontificado de Francisco, há uma certeza: nunca se falou tanto sobre o líder da Igreja Católica. A discussão é se isso aumentou o número e o engajamento de fiéis em um mundo dominado por outro sistema de crenças e ídolos - dos de ouro aos de barro. _

Por que é mais fácil cortar árvores do que limpar postes?

Quase um ano depois da enchente que deixou quase todo o Centro Histórico de Porto Alegre inundado, cresceu a consciência sobre a necessidade de a Capital se aproximar do conceito de "cidade-esponja". Em tese. Na prática, ainda é mais fácil propor e executar o corte de árvores do que limpar os postes do lixo tóxico enroscado.

Cidades-esponja exigem áreas em que a água da chuva "é filtrada pela vegetação e permanece nesse solo por um determinado momento; depois, é absorvida pela rede de tubulação", como disse a porto-alegrense Taneha Kuzniecow Bacchin, professora de projeto urbano na Universidade Técnica de Delft, na Holanda.

Na Porto Alegre em que muitos veem nas árvores mais risco do que oportunidade, há dificuldades institucionais e burocráticas para a remoção de uma fiação que, além de inútil e fonte de poluição visual, ainda ameaça vidas e o fornecimento de energia sem cortes.

Podas adequadas, como já ensinou a bióloga Lilly Lutzemberger, filha do ecologista que mostrou o caminho há décadas, são "remédio", desde que não se tornem "mutilação adoecedora." Ávores não são intocáveis, portanto. Mas também não podem ser bode expiatório.

Com a mesma dedicação conferida a projetos para propor e executar podas e cortes, seria possível remover os obstáculos para a retirada dos fios. Mas isso exige determinação e persistência, não discurso populista. _

EUA X China: negociar ou não

Sob pressão de empresas, do mercado financeiro e até de parte expressiva do seu partido, Donald Trump cedeu, dando sinais de flexibilização na guerra comercial contra a China e na tentativa de derrubar o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA).

Ontem, seu necessário recuo ficou um pouco mais caro: a China avisou que não está em negociações com os Estados Unidos, como insinuava a Casa Branca. Mesmo assim, os mercados seguiam reagindo bem, mas sem euforia. Os principais índices da bolsa de Nova York subiram entre 1,23% (DJIA, o mais tradicional) e 2,03% (S&P 500, o mais abrangente). A bolsa de tecnologia Nasdaq avança 2,74%. O dólar no Brasil cai 0,47%, para R$ 5,692. Para resolver o problema que ele mesmo criou, Trump será obrigado a dar o primeiro passo. Já o fez verbalmente. Seu desafio, agora, será executar na prática a redução da tarifa que anunciou, mas não aplicou. _

GPS DA ECONOMIA

25 de Abril de 2025
INFORME ESPECIAL-Rodrigo Lopes

Direto do Vaticano -  Até na morte, Francisco rompe com a tradição

Francisco, como se sabe, era piadista: costumava dizer que, antes de morrer, precisava preparar o apartamento dele na casa de Maria. Pois a "casa" onde o Papa descansará para sempre é a Basílica de Santa Maria Maggiore, no centro de Roma. E o "apartamento" ficará entre a estátua da Rainha da Paz e o altar onde está uma pintura da Virgem que teria sido confeccionada por São Lucas, um dos quatro evangelistas.

Ontem, cumpri, de táxi, parte do trecho que será percorrido pelo cortejo com o corpo do Pontífice, amanhã, entre o Vaticano e a basílica. São cinco quilômetros, normalmente feitos em 20 minutos. Levei 40, em um sinal de que Roma, superlotada para se despedir de Francisco, enfrenta dias tumultuados. O taxista, Andrea, me disse que, a partir de hoje, é melhor não circular de transporte público. A melhor escolha é caminhar. Em razão dos cerca de 200 líderes internacionais aguardados para a missa de despedida, entre eles Donald Trump, Emmanuel Macron e o presidente Lula, a cidade eterna estará, como poucas vezes se viu na história, blindada.

A última morada escolhida por Francisco ficará no corredor à esquerda da linda basílica, a primeira dedicada a Maria, em Roma. Ontem, tapumes de madeira ocupavam o local onde o caixão será depositado. Desde a morte de Francisco e a divulgação de seu desejo de ser sepultado ali, o número de visitantes se multiplicou. Entrei após passar por revista e detectores de metal em cerca de 20 minutos. À tarde, a espera na fila passava de uma hora.

Relíquia abrigada

Construída no século 5, é uma das sete basílicas papais e conta com uma relíquia, segundo a fé católica: embaixo do altar, protegidos por cristal, estão pedaços de madeira que seriam da manjedoura do Menino Jesus. Sete papas estão sepultados no prédio, número bem menor do que o total que repousa na cripta vaticana e na basílica de São Pedro: 90.

O último Pontífice que decidiu ser enterrado fora dos muros da Santa Sé foi Leão XIII, em 1903, na Arquibasílica de São João de Latrão. Francisco, que rezava em frente ao quadro da Virgem na Maggiore, antes e depois de cada viagem apostólica, pode não ter optado pelo local com o propósito de enviar mais uma de suas mensagens ao mundo. Afinal, o Papa não era adepto de subterfúgios. Dizia o que pensava. Mas, conscientemente ou não, até na morte rompe, mais uma vez, com a tradição. _

Como será o túmulo

Apesar dos tapumes no local, o Vaticano divulgou ontem uma imagem de onde será o túmulo do papa Francisco na Basílica de Santa Maria Maggiore.

De acordo com comunicado da Santa Sé, o túmulo foi confeccionado em mármore da Ligúria, região noroeste da Itália, e apresenta apenas a inscrição "FRANCISCUS" (em latim) e a reprodução da cruz peitoral que o Papa usava. _

O selamento do caixão

O Vaticano também detalhou como será o rito de selamento do caixão do papa Francisco. A cerimônia fechada, que será realizada hoje, será presidida pelo cardeal Kevin Farrell, camerlengo da Igreja Católica, marcando o encerramento do período de visitação pública ao corpo do Pontífice na Basílica de São Pedro.

De acordo com a Santa Sé, o ritual litúrgico incluirá orações em latim. Primeiramente, o rosto do Papa será coberto por um véu de seda branca. Em seguida, serão depositados no caixão um saco contendo moedas cunhadas durante seu pontificado, medalhas de prata e bronze que representam seus anos de serviço à Igreja, e um tubo metálico com um documento que narra sua vida.

Sepultamento é amanhã

O rito ainda contará com a tradicional benção de água benta sobre o caixão.

Após o selamento, os religiosos presentes celebrarão a Missa de Exéquias em homenagem ao Papa.

O funeral solene está marcado para ocorrer amanhã, no turno da manhã, na Praça São Pedro, seguido pelo translado do corpo para a Basílica de Santa Maria Maggiore, onde Francisco será sepultado. O túmulo será aberto a visitação pública a partir de domingo. _

Dom Jaime Spengler no velório

O cardeal dom Jaime Spengler, arcebispo metropolitano de Porto Alegre, esteve na Basílica de São Pedro na tarde de quarta-feira para prestar homenagem ao papa Francisco. Ele havia desembarcado em Roma no final da manhã e é um dos cardeais que integram o conclave, assembleia que elegerá o novo papa.

Em uma imagem divulgada pela Arquidiocese de Porto Alegre, o cardeal aparece em frente ao caixão do Pontífice.

Na noite de quarta-feira, a Basílica permaneceu aberta para que os fiéis prestassem homenagem ao corpo do Papa até as 5h30min de quinta-feira, reabrindo às 7h (horário local). Inicialmente, o local deveria ser fechado, mas permaneceu aberto devido ao grande número de visitantes. _

Cerco nas vias

Roma começa a ser blindada por terra, água e ar para o funeral de Francisco. Em várias avenidas e ruas que circundam o Vaticano há, desde ontem, fitas em cor amarela com a seguinte inscrição: "Sem parar - por razões de ordem e segurança pública - das 13h de 25 de abril até o fim das necessidades de 26 de abril". 

INFORME ESPECIAL

quinta-feira, 24 de abril de 2025


24 de Abril de 2025
CARPINEJAR

A humildade do sorriso

É possível estabelecer a cumplicidade com o outro a partir da escuta atenta, respeitando o valor das confidências e não subestimando o sofrimento alheio, ou a partir da autocrítica, em que você não se julga tão importante, expõe seus defeitos e humaniza o contato.

O papa Francisco manejava com extrema habilidade essas duas matrizes da existência, sendo capaz, ao mesmo tempo, de mergulhar na dor mais funda e sobrevoar a graça mais etérea.

Ele entendia o papel do senso de humor para lapidar a humildade. Quem ri de si facilita o convívio, destrói os escudos da soberba e do narcisismo. Este era um dos segredos de Francisco. Tornou-se conhecido pela sua empatia emocionada e contrita e também se consagrou pelas suas interações jocosas com os fiéis.

Tinha como lema: "Pés no chão, coração no céu". A naturalidade de seu comportamento era influência de sua avó, a italiana Rosa Margherita Vassallo, que o ensinou a rezar como se fosse uma conversa franca e divertida com Deus. Afinal, Deus é o nosso melhor amigo, não dá para esconder nada dele: nem as dúvidas, nem as inquietações, muito menos as brincadeiras.

Não me lembro de um papa que sorrisse tanto. Na sua visão, a risada representava um atestado de sanidade - aqueles que não desfrutassem dessa partilha do cotidiano, dessa exaltação do simples, padeceriam de amargura e ingratidão.

Por isso, em suas orações matinais, ele rogava para não perder o riso. Francisco rezava diariamente a "Oração para pedir o bom humor", atribuída a São Tomás Moro: "Concedei-me a saúde do corpo, com o bom humor necessário para mantê-la".

Pelo jeito, sua prece foi atendida. Ele se mostrava prodigioso em tiradas espirituosas. Sobre dietas, dizia que comer muito não era o maior dos pecados, só comer sozinho. Recomendava que todo padre tivesse um kit básico de sobrevivência: um terço, uma cruz de madeira, a lista com os nomes das pessoas para acudir e balas de menta, já que o bafo prejudicava o alcance do sermão.

No seu caso, a religiosidade não entrava em conflito com a alegria. Sua condição de argentino rendia gargalhadas surpreendentes. "Como um argentino se suicida? Ele sobe no próprio ego? e se joga lá de cima."

Ele contou essa piada durante uma entrevista, como forma de quebrar o gelo e neutralizar o excesso de reverência que recebia dos repórteres.

Francisco não se levava a sério, permitindo os laços de confiança que vêm com a informalidade. Não suportava regalias ou diferenciação no tratamento.

Sua leveza o aproximava das pessoas - desarmando o medo da autoridade. Todo mundo ficava à vontade em sua presença. Para o conclave que vai eleger o seu sucessor, previsto para a primeira quinzena de maio, ele deixou um recado:

- Espero que o próximo papa seja melhor do que eu. Mas não tão bonito, senão vão se esquecer de mim! 

CARPINEJAR