sexta-feira, 29 de maio de 2020

O gol de Oldorelino

Oldorelino caminhava lentamente com suas pernas arqueadas. Eram arqueadas não por ele ter sido bom jogador de futebol na juventude. As pernas eram tortas como as de Garrincha por obra dos 75 anos de idade, das doenças dos joelhos e pelos trilhões de passos dados naqueles novecentos meses de vida.
Oldorelino, a princípio, não queria ingressar na grande cancha de futebol de campo, com seus cinquenta metros de largura e cem de comprimento. O campo estava vazio e solitário e fez Oldorelino pensar na frase de García Márquez que lera há pouco: "uma velhice feliz é um honroso pacto com a solidão".
Mas algo misterioso fez Oldorelino entrar em campo, mesmo sem uniforme, chuteiras, companheiros de time ou torcida. Ele lembrou que nunca fora bom jogador. Menino, aguardava, humilhado, ser dos últimos a serem escolhidos para a pelada na calçada. Muitas vezes era mandado para o gol ou para o banco de reservas. Perna-de-pau, ficava quieto, sabendo que de nada adiantaria reclamar.
No fundo o que fez Oldorelino entrar em campo foi uma velha bola, algo murcha, que estava perto da bandeirinha de escanteio. Ele foi até ela e conseguiu dar-lhe um chute. A bola ainda rolava. Meio devagar, mas rolava. Ele foi atrás dela e, com outro chute, aproximou a bola da goleira vazia. Antes de chutar a gol, resolveu ir chutando a bola até próximo da outra goleira.
Chutava e ia atrás, dando passes para si mesmo e gostando de ver que ainda podia bater uma bolinha. Num determinado momento resolveu fazer um longo lançamento para si próprio, em direção ao gol. Lembrou dos lançamentos de quarenta metros do tricampeão Gerson, aquele que levava vantagem em tudo e que depois ficou em desvantagem absoluta, quando foi promulgada a infeliz Lei de Gerson, que incrimina milhões de brasileiros até hoje.
Oldorelino foi caminhando até onde estava o balão meio murcho e chegou, animado, a apressar um pouco o passo. Nem achou estranho ter feito um lançamento para si. No gramado vazio, até podia. Lembrou do amigo Ruivo, que lançava a bola para si mesmo quando jogava futebol no Campo dos Cadetes, no Parque da Redenção. Lançar para si próprio, por que não? Quando os outros não dão a assistência ou quando o campo está vazio?
Ao chegar próximo da bola Oldorelino concentrou-se, colocou as mãos nos quadris, olhou fixo para ela e depois para a goleira deserta. Não podia errar. Queria chutar a gol e marcar. Foi o que fez, depois de alguns passos rápidos. Um chute certeiro mandou a bola para o fundo da rede, como deve ser.
Feito o antigo goleador Quarentinha, Oldorelino não comemorou o gol. Ficou impassível, diante do campo vazio e das arquibancadas solitárias como escolas nos domingos.
Mas ele sentiu-se feliz por dentro. Sorriu para dentro, pensou que ainda podia fazer gols, mesmo com bola meio murcha, especialmente em campos vazios, com invisíveis goleiros e zero jogadores e torcida. Ele não precisava de mais nada além daquilo.

Lançamentos

cult - livro entrevista com o vampiro, de anne rice
cult - livro entrevista com o vampiro, de anne rice
REPRODUÇÃO/DIVULGAÇÃO/JC
  • Entrevista com o vampiro (Rocco, 320 páginas, R$ 54,90, tradução de Clarice Lispector)(acima), da consagrada escritora norte-americana Anne Rice, traz em nova edição, em capa dura, o melhor livro da autora, a rainha dos vampiros. Críticos consideram o livro a mais voluptuosa e sedutora história de horror de nosso tempo.
  • Ana e o Mundo do Avesso (Paulus, 32 páginas, R$ 25,00), da psicóloga, artererapeuta, educadora e escritora Mônica Guttmann, mostra Ana, uma menina esperta e sensível, que tenta descobrir qual seu lugar no mundo. Viaja até o Mundo do Avesso em busca de respostas, nem sempre fáceis de encontrar.
  • Migração e tolerância (Record, 96 páginas, R$ 29,90, tradução de Eliana Aguiar e Alessandra Bonrruquer), do genial italiano Umberto Eco, reúne quatro ensaios sobre temas atuais: "Eliminar o racismo não significa demonstrar e se convencer de que os outros não são diferentes de nós, mas compreendê-los e aceitá-los em sua diversidade".

A propósito...

Oldorelino pensou que nem todos na vida, só pouquíssimos, nascem com os dons divinos e reais de um Pelé. Mas pensou que não existiria Pelé jogando sozinho, sem os Coalhadas, os pernas-de-pau e os medianos que completam os times. O que seria do azul se todos gostassem do vermelho, pensou, lembrando a velha propaganda de tinta. Pensou que tem mais gente, no futebol, que gosta de vermelho do que de azul, mas que isto é normal. Os azuis são rivais e coirmãos simpáticos e, normalmente, valorizam as árduas vitórias dos vermelhos. Isso ao menos no passado. Oldorelino saiu do gramado feliz, pensando que ainda estava no jogo. No jogo da vida real, pelo menos. E nos jogos da imaginação e dos sonhos.
Jaime Cimenti

Retorno triunfal ao universo de Crepúsculo

A trama gira em torno de uma icônica e simbólica história de amor.
A trama gira em torno de uma icônica e simbólica história de amor.
REPRODUÇÃO/DIVULGAÇÃO/JC
A saga Crepúsculo, como todos sabem, se transformou num dos maiores fenômenos editoriais dos últimos tempos. A trama gira em torno de uma icônica e simbólica história de amor.
O casal é formado por Bella Swan, uma garota tímida e desastrada que acaba de mudar de cidade, e por Edward Cullen, um rapaz misterioso que esconde um segredo aterrorizante: ele é um vampiro.
Desde a primeira troca de olhares, ele fez tudo para ficar longe dela, mas e se as coisas não tivessem acontecido exatamente assim? Até agora os milhões de leitores conheceram esta trama apenas pelos olhos de Bella.
No aguardado Sol da meia-noite (Intrínseca, 736 páginas, R$ 59,00 físico e R$ 39,90 em e-book, a ser lançado em 4 de agosto de 2020), a celebrada autora Stephenie Meyer conta a história de amor através da visão de Edward. Os leitores mergulharão em um universo novo, sombrio e surpreendente, cheio de revelações.
Stephenie Meyer se formou em Literatura Inglesa na Brigham Young University e estreou como autora com a saga Crepúsculo, que vendeu mais de 150 milhões de exemplares. A revista Time a considerou uma das 100 pessoas mais influentes do mundo.
Além de Crepúsculo, Lua Nova, Eclipse e Amanhecer, Stephenie também publicou pela Intrínseca A hospedeira e A química. A autora mora no Arizona com o marido e os três filhos.
Conhecer Bella foi o mais irritante e instigante que aconteceu para Edward. Conhecendo seu passado e a complexidade de seus pensamentos, entendemos porque Bella se tornou o eixo central de uma batalha decisiva em sua vida.
Como Edward poderia seguir seu coração se isso significava colocar a amada em perigo? Do que ele seria capaz de abrir mão?
Retornando triunfalmente à saga de Crepúsculo, mais uma vez transportados para Forks, vamos revisitar cada detalhe dessa história que conquistou milhões de fãs em todo o mundo. Em meio a uma paixão cercada de perigos sobrenaturais, vamos descobrir como Edward encara seus prazeres mais profundos e as consequências devastadoras de um amor proibido e imortal.

O baú de Nico Nicolaiewsky: família e amigos preservam memória do compositor

Viúva, filha e parceiros musicais organizam projetos com material do compositor, que faleceu em 7 de fevereiro de 2014, aos 56 anos
Viúva, filha e parceiros musicais organizam projetos com material do compositor, que faleceu em 7 de fevereiro de 2014, aos 56 anos

ANTONIO PAZ/ARQUIVO/JC
Márcio Pinheiro, especial para o JC
A situação era quase irreversível e o desfecho não teria grande chance de ser diferente do que acabou sendo. A saúde de Nico Nicolaiewsky estava debilitada e não se acreditava mais em recuperação.
Restava conversar.
Márcia, a mulher, chamou a filha Nina e os três se reuniram pela última vez. Foi uma despedida e também um balanço de vida - com saldo altamente positivo. Mas por ser a derradeira conversa, a tristeza tomava conta. Afora isso, o que mais ficaria daquele momento seria a esperança.
Nico morreria pouco depois, pondo fim a uma agonia que começara alguns dias antes, no dia 23 de janeiro de 2014, às vésperas da comemoração de 30 anos do espetáculo Tangos & Tragédias. As dores que Nico sentia - e que a ele pareciam um problema postural e do peso do acordeon - mostraram-se mais graves e foram diagnosticadas como sendo uma leucemia mieloide aguda. Nico foi internado às pressas. Porém, o tratamento não foi suficiente para retardar o avanço da doença e ele morreu na madrugada do dia 7 de fevereiro. Tinha 56 anos.
Um dos temas do encontro final entre os três foi o futuro. E essa é uma das questões centrais na vida de Márcia e de Nina e que foi bem ressaltada na conversa que tivemos no começo de março no apartamento do Bonfim onde os três viveram durante tantos anos. Hoje Nina mora ali com o marido Tiago e o setter Bono.
Naquele mesmo dia, Márcia iria se reunir com Fernando Pezão e Claudio Levitan, dois dos mais antigos e constantes amigos de Nico, para falar de novos projetos, que incluem songbooks, shows e catalogação do material deixado por Nico. Os três estão juntos desde logo após a morte de Nico, quando criaram U.Nico, grupo voltado à preservação da memória musical do compositor.
Em outra vertente, Nina se aliou à amiga de infância Carina Levitan, filha de Claudio Levitan e da fotógrafa Eneida Serrano, para começar a desenvolver um espetáculo: "A ideia é recuperar músicas antigas, algumas do tempo do Saracura, revirar os arquivos e dar a este material uma outra roupagem, menos óbvia". "Como eu e a Carina não temos idade para ter visto o Saracura em ação, nossa tarefa fica até mais fácil", acrescenta Nina, lembrando ainda que elas nem sabem se não encontrarão algo inédito no meio do material pesquisado.
"O Nico convivia com a minha família desde que ele era pequeno, ou seja, desde antes de eu nascer. Então eu presenciei muito improviso, com todos tocando por brincadeira. Ele sempre me deixava muito à vontade, porque ele tinha uma franqueza no tratamento com as pessoas e um cuidado, uma atenção e um desejo que as coisas dessem certo. Era assim que eu o via", conta Carina.

Homenagens após a perda que desconcertou a cena artística

Com o pai em registro de 2013 (um ano antes da morte), Nina Nicolaiewsky hoje monta espetáculo de músicas antigas com Carina Levitan
Com o pai em registro de 2013 (um ano antes da morte), Nina Nicolaiewsky hoje monta espetáculo de músicas antigas com Carina Levitan
JOÃO MATTOS/JC
Márcio Pinheiro*
Uma das últimas apresentações de Nico Nicolaiewsky foi ao lado de Márcia do Canto, sua esposa, e de Nina Nicolaiewsky, sua filha, então com 20 anos. Foi em dezembro de 2013, na cerimônia de encerramento do Prêmio Açorianos de Literatura, no Teatro Renascença. A família subiu ao palco, e os três se dividiram entre números musicais e a apresentação dos indicados e dos vencedores dos prêmios. Nico morreria em menos de 50 dias.
Dois anos depois, Nina já estava tocando e estudando música de maneira mais efetiva. "Na faculdade, passei a ter contato com uma outra garotada muito boa, que está trabalhando firme e sempre em busca de um crescimento musical", explica ela, acrescentando que seu pai sempre lhe dava muita força para que continuasse os estudos musicais.
Ainda sobre o projeto do show em que estão envolvidas, Carina Levitan recorda que a morte de Nico foi um baque muito grande, repentino demais, e que desconcertou todo mundo. Assim, o projeto do tributo deverá se consolidar como algo incrível.
"Sempre participei como cenógrafa e entendo que uma equipe que trabalha junto acaba virando uma grande família. Todos se envolvem com o coração e deixam o clima leve e inspirador. É uma delícia participar", diz. "Agora, a Nina e eu vamos encarar uma postura diferente: pensar o repertório, os arranjos e os músicos que irão participar. Pensar qual formato de show faremos. Ainda está tudo no começo desta construção."
Por causa da pandemia, tudo está parado. Quando as atividades forem retomadas, este Nico que continua tão presente na memória de amigos e familiares será devidamente homenageado das mais diversas formas.

Marcas da ausência em exposição de fotografias

Piano azul de Nico Nicolaiewsky é guardado por anjo missioneiro
Piano azul de Nico Nicolaiewsky é guardado por anjo missioneiro
FOTOS ENEIDA SERRANO/DIVULGAÇÃO/JC
Entre os projetos engatilhados, Márcia destaca a possibilidade de um songbook reunindo as obras de Nico, com produção de Arthur de Faria, e a exposição de textos e fotografias que resultará da parceria dela com Eneida Serrano - parte das fotos que deve ser exposta está sendo mostrada pela primeira vez ao público nesta reportagem.

Eneida lembra: "A Márcia me disse que a fotografia poderia ser um recurso para conservar e compartilhar a memória de todo aquele espaço na casa deles que representava o Nico. Adorei o privilégio da amizade e da minha condição de fotógrafa. Assim, me senti inserida num momento muito importante, e fotografei de maneira discreta e silenciosa, com a câmera do telefone, a presença do Nico revelada naqueles objetos. Eles iriam, então, tomar diferentes destinos".

Márcia do Canto manteve objetos pessoais do compositor intocados
Márcia do Canto manteve objetos pessoais do compositor intocados
ENEIDA SERRANO/DIVULGAÇÃO/JC
Para Eneida, fazer essas fotos foi um auxílio na maneira de entender a partida, tão rápida, tão precoce. "Acredito que, num jeito de prolongar a presença do Nico, ou de assimilar a sua ausência, a Márcia manteve as coisas pessoais dele intocadas. Tudo lembrava o Nico na casa repleta de personalidade. Mas não era um rastro de tristeza o que os objetos marcavam. Cada detalhe que eu descobria durante a visita me provocava uma exclamação ou um sorriso. Era alegria, amor, humor, criatividade. Muitas vezes eu tinha ido à casa deles antes, mas nunca havia olhado com a mesma atenção. A possibilidade da perda dava outra dimensão àquele cenário real. O tempo era outro."

Por influência materna, começou a estudar piano clássico aos sete anos de idade
Por influência materna, começou a estudar piano clássico aos sete anos de idade
ENEIDA SERRANO/DIVULGAÇÃO/JC
Estes projetos se somarão a outras tantas ações que vêm acontecendo desde 2015, um ano depois da morte de Nico. Primeiro foi o Nico Tributo, em janeiro, quando foi apresentado um show com diversos artistas no Theatro São Pedro. O show, filmado e patrocinado através de um financiamento coletivo, foi lançado em DVD. Na sequência foi colocado no ar o site oficial do artista e também montado um espetáculo cênico-musical, A grande atração, em janeiro de 2016, baseado nas principais músicas da trajetória artística do compositor.
Em mais de três décadas de atuação, Nico foi um dos mais importantes artistas gaúchos de sua geração. Nascido Nelson Nicolaiewsky, em Porto Alegre, em 9 de junho de 1957, Nico era descendente de uma família de judeus da Bessarábia. Por influência materna, começou a estudar piano clássico aos sete anos de idade e, aos 13, foi aprovado em um teste no Instituto de Belas Artes da Ufrgs, onde seguiu seus estudos até os 16 anos.

Eneida Serrano clicou boneco de marionete que representa o artista
Eneida Serrano clicou boneco de marionete que representa o artista
ENEIDA SERRANO/DIVULGAÇÃO/JC
Já nessa época dividia-se entre o erudito e outros interesses musicais, como Tom Jobim e Astor Piazzolla. Integrando o efervescente cenário musical da Porto Alegre dos anos 1970, Nico, aos 21 anos, foi um dos criadores do Musical Saracura, banda gaúcha que alcançou grande popularidade na virada dos anos 1970 para os 1980, numa linha que havia sido inaugurada poucos anos antes pelos Almôndegas, de Kleiton e Kledir.
Formada por Nico (piano e voz), Sílvio Marques (guitarra e voz), Flávio “Chaminé” (baixo e voz) e Gata (bateria, depois substituída por Fernando Pezão), o grupo teve grande importância na mistura da música urbana com os sons nativistas, aproximando-se de outros artistas como Claudio Levitan e Mário Barbará. Com shows, o Saracura seguiu até 1984, deixando apenas um disco – com sucessos como Xote da amizade, Flor, Nada mais e Marcou bobeira – gravado em 1982 e nunca relançado em CD.
Com o fim do Saracura, em meados da década de 1980, Nico entrou na mais longa e bem-sucedida aventura musical de sua carreira. Em 1984, ao lado de Hique Gomez, os dois criaram a comédia musical Tangos & Tragédias.

Kraunus Sang e o Maestro Pletskaya no espetáculo cênico-musical que atravessou gerações
Kraunus Sang e o Maestro Pletskaya no espetáculo cênico-musical que atravessou gerações
FL/ARQUIVO/JC
A história fictícia – ou será verdadeira? – de Tangos & Tragédias começa quando os dois personagens, Kraunus Sang e o Maestro Plestkaya, nascidos num país chamado Sbórnia, são obrigados a fugir do local após a chegada do rock and roll. Assim, a dupla opta por se refugiar no Rio Grande do Sul, mas, mesmo à distância, procura sempre manter viva a saudade e as tradições da terra-natal.
A história verdadeira – ou será fictícia? – começa quando Hique Gomez e Nico Nicolaiewsky, dois nomes já respeitados no cenário musical gaúcho da década de 1980, resolvem criar um espetáculo que recuperasse antigos sucessos musicais e tivesse a dinâmica de um espetáculo teatral.
Tangos & Tragédias estreou no final de setembro de 1984 no Bar do IAB (Instituto dos Arquitetos do Brasil). Mesmo para um público restrito, a proposta bem-humorada chamou atenção e garantiu à dupla uma série de apresentações por vários outros bares da Capital – quando Nico e Hique ainda brincavam com o título dizendo que estava previsto que num futuro próximo fosse montado o show Sambas & Sadismos.
O upgrade viria logo depois, quando o espetáculo passou a ser apresentado em teatros, como o do Círculo Social Israelita, e chegaria a um patamar mais alto quando Tangos & Tragédias se transformasse no primeiro espetáculo a ter data cativa no Theatro São Pedro. Incorporando o Maestro Pletskaya – Hique era Kraunus Sang – Nico se tornaria parte do patrimônio musical de Porto Alegre.
A dupla marcaria a temporada musical, transformando os verões – quase sempre pobres em termos de atrações culturais – num período criativo e animado. Desde 1987, nas temporadas do mês de janeiro, a dupla conseguia com seus delirantes personagens a incrível façanha de lotar todas as sessões em pleno verão gaúcho.
“Quem não ia à praia, ia ver o Tangos & Tragédias”, lembra Hique. “A única diferença no público era quando o espetáculo estava lotado ou superlotado”, avaliava Nico. “O Tangos & Tragédias me ajuda muito psicologicamente, financeiramente e na maneira de me estimular a ter mais confiança no meu trabalho como artista”, explicava.

"Nico tinha um olhar muito particular", afirma Claudio Levitan

ENTREVISTA COM NICO NICOLAIEWSKY , SOBRE A  ESTREIA 28ª TEMPORADA DE TANGOS E TRAGÉDIAS.
Em Música de camelô, ele cantava sozinho ao piano canções superpopulares, beirando o brega
ANTONIO PAZ/ARQUIVO/JC
Mesmo com o sucesso de Tangos & Tragédias, Nico – já então casado com Márcia do Canto – mudou-se para o Rio de Janeiro. Por lá ficou cerca de uma década. Durante este período, ele teve aulas com o maestro, compositor e musicólogo alemão Hans-Joachim Koellreuter, tornou-se pai de Nina e trabalhou em trilhas de peças e filmes ao lado de nomes como Aderbal Freire-Filho e Domingos Oliveira. De Koellreuter, admirador da proposta de Tangos & Tragédias, Nico recolheu um ensinamento: “O que nos separa é justamente aquilo que nos une. Ensina a gente que alegria e tristeza são dois lados de uma mesma moeda”, resumiu o maestro.
Ao voltar para Porto Alegre, em 1995, Nico lançou dois discos: o primeiro solo, Nico Nicolaiewsky, no ano seguinte, e, seis anos depois, As sete caras da verdade. O primeiro contém valsas e canções líricas e virou trilha do filme Amores, de Domingos de Oliveira. O segundo trata-se de uma ópera-cômica, em que Nico interpreta o vilão Rodolfo.
Só mais de 10 anos depois destes dois trabalhos, Nico voltaria aos estúdios, lançando o terceiro disco, Onde está o amor?. O disco trazia uma proposta mais pop, com produção do guitarrista John Ulhoa, guitarrista da banda Pato Fu.
“Se você encontrar, me avisa”, me disse Nico a respeito do título durante uma entrevista na época do show de lançamento do disco no Theatro São Pedro. No trabalho, Nico havia reunido uma coleção de 12 canções de amor, todas escritas por ele, algumas delas em parceria com velhos amigos como Claudio Levitan (Volta menina e Tudo que eu fiz), Antonio Villeroy (Bombas de beijo e Nada faz sentido) e Fernando Pezão (Só eu e mais ninguém).
Naquele tempo, inspirado por Roberto Carlos (da boa fase, que vai até meados dos anos 1970) e pelos Beatles (em que todas as fases foram ótimas), Nico explicava que aquela concepção musical surgia a partir de um desafio que ele se impôs: a de ser um autor de músicas claramente populares. “Descobri que para a canção popular surgir de uma maneira fácil é preciso valorizar a simplicidade”, ensinava Nico.
Essa proposta seria elevada a um outro patamar em 2013, quando Nico montou o espetáculo Música de camelô, onde cantava sozinho ao piano, canções superpopulares, beirando o brega, tais como Ai se eu te pego, de Michel Teló, e Tô nem aí, da cantora Luka, até a música do desenho animado japonês Pokémon e Tchê Tchê Rerê, do cantor Gusttavo Lima, sugestões de sua filha Nina, que eram executadas com arranjos surpreendentes.
Claudio Levitan considera que Música de camelô teria chance de ter se transformador em outro fenômeno nacional, na mesma linha de Tangos & Tragédias. Infelizmente, Nico não teve tempo.
“Como saber onde estaria a cabeça de um artista, que para o meu desejo deveria estaria hoje nas grandes paradas de sucesso?”, avalia Levitan. “Nas nossas últimas conversas, Nico me sugeriu um projeto divertido: montarmos o 'show-caseiro' dos Pipinelas: meus pais e tios faziam nas festas familiares uma apresentação musical cuja ideia era uma viagem pelo mundo através das canções, a maioria marchinhas de Carnaval. Chegamos a experimentar no último show que fizemos juntos no Lar dos Velhos em outubro do ano anterior a sua morte, tocando uma sequência de quatro canções: uma italiana, uma russa, uma alemã e uma em idish. Desta proposta, poderíamos deduzir que suas pesquisas poderiam estar focadas em questões mais pessoais, introspectivas, existenciais. Algo como, dando importância às suas memórias musicais, da infância à atualidade”.
E o que Nico estaria achando da situação atual, da cultura, do Brasil? “Nós somos a cultura. Consequentemente somos o negócio da cultura. Eu penso que ele estaria pessoalmente honrado porque finalmente conseguimos nos profissionalizar nos projetos culturais com os quais conseguimos movimentar cerca de 14 empresas em nossas temporadas gerando renda e empregos e contribuindo com a geração de impostos”, aposta Hique. Completando: “E acredito que ele também estaria contente em saber que pessoas que não tiveram a oportunidade de assistir a Tangos & Tragédias, já voltaram inúmeras vezes para participar da sequência, A Sbornia Køntr'Atracka, em que atuo ao lado da Simone Rasslan. Um deles já o espetáculo viu mais de 10 vezes”.
Hique finaliza: “O Nico gostava de mergulhar na música de vertente popular. Acredito que ele ainda estaria remexendo na lixeira cultural e encontrando verdadeiras pérolas. Nico foi um parceiro muito exigente. Eu dei o meu melhor para agradá-lo e sei que consegui”.
Levitan reconhece o caráter surpreendente do amigo e parceiro, sempre com uma ampla visão do cenário musical e com capacidade para transitar por todas as áreas. “Ele se envolvia com o erudito, com o cancioneiro popular, com a música pop... E tudo ele encarava com humor e ao mesmo tempo com profunda seriedade. O Nico tinha um olhar muito particular”, eximindo-se do palpite de como Nico estaria artisticamente.
“Não me atreveria a dizer onde estaria seu pensamento agora. A gente vai se acostumando com a ausência. Tem momentos que gostaria de compartilhar músicas novas, ouvir suas risadas e críticas. Assim, inventamos uma maneira de superar esse buraco: nos encontramos quase semanalmente para falar dos projetos da U.Nico. Então ele continua presente e aí, fica mais fácil, né?”.

Em mais de três décadas de atuação, foi um dos mais importantes artistas gaúchos de sua geração
Em mais de três décadas de atuação, foi um dos mais importantes artistas gaúchos de sua geração
ENEIDA SERRANO/DIVULGAÇÃO/JC
Aos 59 anos, Márcia agora mora sozinha num apartamento no Bairro Rio Branco, acompanhada por três vira-latas. “A vida segue. O tempo vai nos libertando aos poucos e uma certa independência vai se criando. Permanece a saudade”, diz ela, que atualmente trabalha como psicopedagoga no Colégio Santa Inês e se mantém envolvida com livros infantis e trabalhos teatrais, além, óbvio, da coordenação de U.Nico.
Recentemente, Márcia novamente passou pela dor da perda. Pedro, seu filho mais velho, do seu primeiro casamento, morreu aos 39 anos. “Dia 17 de abril Pedro não acordou. Pedro cansou. Estava tudo normal, mas ele insistiu em não acordar. Foi apagando feito fogo. Com serenidade. Filho meu. Obrigada pelo tanto que me ensinou. Te amo”, escreveu ela no Facebook.
Sobre Nico, Márcia conta que até hoje “conversa” com ele, que ainda sente ele muito presente, principalmente com relação ao que ele pensava e ao companheirismo. “Seus conselhos ainda me são muito úteis”. E essa durabilidade é também a confirmação de que quem é lembrado, permanece.
* Márcio Pinheiro é porto-alegrense e jornalista. Trabalhou em diversos veículos da Capital, de São Paulo e do Rio de Janeiro.


29 DE MAIO DE 2020
CAPA

Uma multidão no fim da fila

Empresários do setor cultural se organizam para retomada dos shows musicais, sem data definida

Arena do Grêmio, Beira-Rio, Pepsi On Stage, Opinião, Auditório Araújo Vianna, Theatro São Pedro, Teatro do Bourbon Country e outros palcos importantes de Porto Alegre habituados a receber grandes nomes da música nacional e internacional foram silenciados pelo coronavírus. Há mais de dois meses não recebem shows e não há prazo para voltarem a abrigar eventos com aglomerações.

No Brasil e no mundo, este segmento do setor cultural, fortemente atingido pela paralisação imposta pela covid-19, ocupa o fim da fila no cronograma de retomada das atividades. Sabe-se que será uma volta gradual e cercada de cuidados que devem reconfigurar o negócio.

Apesar das incertezas e no aguardo de orientações dos governos estadual e municipal, o setor se mobiliza para as adequações necessárias. Neste mês, o grupo Live Marketing RS, criado em 2017, que envolve 340 empresários do segmento de shows e entretenimento do Rio Grande do Sul, voltou a se reunir. Segundo um de seus organizadores, Rodrigo Machado, sócio-diretor da Opinião Produtora, que administra o Opinião, o Pepsi On Stage e o Araújo Vianna, o primeiro passo antes de enviar qualquer sugestão para os governos foi radiografar as especificidades do setor no Estado.

- Nosso tema de casa foi separar os tipos de eventos. Até então, um espetáculo em casa de show era igual ao da boate, do teatro, de um evento corporativo e do evento de rua, por exemplo. Separamos em subtipos e, para cada um deles, sugerimos protocolos específicos - explica Machado.

No documento, os empresários listaram prevenções que estão sendo tomadas para quando shows e eventos do gênero forem liberados: máscaras para o público e colaboradores, distanciamento entre as pessoas, limite de ocupação do espaço, atendimento diferenciado para grupos de risco, higienização de ambientes e equipamentos de proteção obrigatórios.

Machado descarta especular sobre como serão os novos formatos, pelo fato de que as autoridades é que definirão as normas:

- Vão analisar os protocolos que enviamos e nos mandarão as considerações em cima das propostas. O que disserem que temos de fazer, faremos. Quando as casas forem autorizadas a reabrir, teremos dois tipos de segurança: a biológica, de saúde, e a psicológica, pois as pessoas têm que entender que estarão entrando em local seguro.

Carlos Branco, produtor cultural da Branco Produções, responsável por shows na Capital e Região Metropolitana, afirma que ainda tem esperança de realizar em setembro o primeiro evento dos que foram transferidos.

- Mas vai depender da evolução do vírus e dos protocolos das secretarias estaduais e municipais de Saúde, visando a garantir a saúde de nosso público.

Branco afirma que, assim que acontecer a reabertura de locais, pretende se reunir com os responsáveis para traçar estratégias:

- Esperamos que o Rio Grande do Sul continue a ter bons resultados em sua política pública em relação ao vírus. No momento, estamos retomando a programação musical do Instituto Ling, onde fazemos a curadoria e a produção, no formato online.

Segurança

A médica Maria Eugênia Bresolin Pinto, doutora em Epidemiologia e integrante do Comitê Técnico de Informações Estratégicas e Respostas Rápidas à Emergência em Vigilância em Saúde Referente ao Coronavírus da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), alerta:

- Vamos chegar no momento em que os eventos de lazer poderão voltar, mas temos um passo anterior, que será a abertura das escolas e das universidades. Aí, testaremos, inclusive, a maturidade dos jovens em seguir ações de prevenção. Mas também veremos se não terá uma piora dos indicadores e a necessidade de darmos um passo atrás.

A especialista ressalta que as atividades com aglomerações devem ser as últimas a serem liberadas:

- Mas têm suas peculiaridades. Uma sessão de cinema é muito diferente de um show em casa noturna. Talvez shows em ambientes abertos, longe do inverno gaúcho, possam ocorrer. Em alguns parques europeus, estão sendo desenhados círculos nos gramados para delimitar o espaço de cada pessoa. Mas imagine isso no Anfiteatro Pôr do Sol, com as pessoas ingerindo bebidas alcoólicas. Não acredito que seria respeitado.

Maria Eugênia destaca ainda que, além dos cuidados básicos para reduzir o risco de transmissão da covid-19, devem ser observados outros fatores para que os shows voltem a ocorrer:

- Os locais onde ocorrem estas atividades, normalmente, são fechados, e isso gera outros cuidados, como manter janelas abertas para circular o ar, cuidados com os sistemas de refrigeração. A capacidade (do local) também deverá ser reduzida, os funcionários deverão usar protetores faciais e máscaras, entre outros ajustes que teremos que verificar de acordo com a evolução desta doença no Estado e na cidade.

JOSÉ AUGUSTO BARROS


29 DE MAIO DE 2020

DAVID COIMBRA

O menino e o foguete

"Papai, estou tão triste", dizia a mensagem que recebi do meu filho no celular. Aquilo me inquietou. Como assim? Fazia poucos minutos que o vira, e estava tudo bem. Ele havia passado o dia inteiro animado. Inclusive, a primeira frase que falou, ao sentar-se à mesa do café da manhã, tinha um ponto de exclamação no final:

- Papai, a Nasa vai lançar um foguete hoje!

Eu estava meio distraído, passando manteiga no pão e pensando alternadamente nos perigos que corre o Estado democrático de direito e na falta que faz o autêntico salamito italiano, que é bom de se comer com chimia de uva, por isso não entendi muito bem:

- Foguete? - Foguete! Com astronautas dentro!

E passou a discorrer com entusiasmo sobre a importância do lançamento daquele foguete e tudo mais. Foi tanta ênfase, tanta alegria que até esqueci das minhas preocupações com o Estado democrático de direito, embora a carência do autêntico salamito italiano continuasse a me provocar certa inquietação, porque é muito bom, mesmo, de se comer com chimia de uva.

Lembrei-me de quando o homem pisou na lua pela primeira vez. Foi um evento excitante para o menino que eu era. Nos reunimos em frente à TV preto e branco do meu avô, na sala da casa dele. Estávamos eu e meus irmãos, meu avô, minha mãe, minha madrinha, todos nós, menos a minha avó, que preferiu ficar lidando na cozinha. Nós a chamávamos:

- Vem ver, vó! O homem chegando à lua!

- Ah, isso é mentira... - ela rebatia, e não havia o que a convencesse do contrário. Até o fim da vida duvidou de que pudéssemos ter alcançado a lua. Hoje, contemplando o canavial de opiniões que toma conta das redes sociais, com olavistas, terraplanistas e negacionistas esfervilhando, penso que minha avó foi uma mulher à frente do seu tempo.

Talvez isso de se empolgar com foguetes seja próprio de meninos. Deve ser, ou a minha vó viria da cozinha para ver Neil Armstrong na TV em 1969 e eu não ficaria pensando tanto no salamito italiano com chimia de uva em 2020.

Meu filho, menino que é, continuou animado com o foguete durante todo o dia. Três horas antes do momento marcado para o lançamento, ele se postou em frente à TV e conectou no canal que transmitia o evento direto do Centro Espacial Kennedy. Pensei que logo iria se aborrecer e correr para os games, mas qual o quê. Continuou firme no sofá, tecendo comentários espaciais.

Aí chegou o João Francisco.

O João Francisco é amigo do meu filho desde a escolinha. Ele mora perto e, como ambos estão isolados, podem brincar juntos. Foi para isso que veio.

- Vamos brincar? - convidou.

E o Bernardo: - Estou vendo o foguete.

- Ah, o foguete! Também quero ver. Mas falta tempo... Quem sabe vamos brincar e voltamos na hora do lançamento?

- Boa. E eles se foram, e eu fiquei em meio a meus afazeres terráqueos. Foi então que recebi aquela mensagem: "Papai, estou tão triste". Fiquei intrigado. "O que aconteceu?", perguntei. E ele: "A Nasa não vai mais lançar o foguete..."

Senti algo entre o alívio e a consternação. Alívio porque não ocorrera nada de grave com ele, consternação porque sua tristeza era autêntica. Foguetes são importantes para os meninos inocentes de todo o mundo. E é importante para a inocência de todo o mundo que haja meninos que se importem com os foguetes.

DAVID COIMBRA


29 DE MAIO DE 2020

ARTIGOS - Presidente da Federação Israelita do RSpresidencia@firs.org.br


AINDA O HOMEM CORDIAL


A partir da década de 1930, diversos intelectuais se debruçaram sobre a tarefa de interpretar o Brasil e o brasileiro. "Homem Cordial" é um conceito desenvolvido pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda em seu livro Raízes do Brasil. Na obra, o historiador analisa as virtudes dos brasileiros, como a hospitalidade e a generosidade, tão elogiadas por estrangeiros. A atitude polida equivale a um disfarce que permite cada qual preservar sua sensibilidade e suas emoções. A cordialidade, a seu turno, faz com que o brasileiro sinta, ao mesmo tempo, o desejo de estabelecer apreço e aversão a qualquer formalismo social.

Entretanto, as raízes do caráter brasileiro se encontram no meio rural e patriarcal do período colonial. Na prática, isto faz com que as relações familiares continuem a ser o modelo obrigatório de qualquer composição social entre nós. Assim, "as relações que se criam na vida doméstica sempre forneceram o modelo obrigatório de qualquer composição social entre nós". É por isso, em geral, que os indivíduos não conseguem compreender a distinção fundamental entre as instâncias pública e privada.

Buarque de Holanda acreditava que com o processo de urbanização, o "Homem Cordial" estaria fadado a desaparecer. A radicalização da democracia e a inclusão social deveriam ser os grandes pilares para o futuro da nação. A toda evidência, isso não ocorreu.

Ainda que Buarque de Holanda não seja unânime, não é exagero dizer que a ideia do "Homem Cordial" permanece viva no senso comum. A ideia de um brasileiro dominado pelo coração, pouco afeito à razão, é parte da cultura coloquial. Assim, a emotividade faz o brasileiro dividir o mundo entre amigos, os que merecem todos os favores, e inimigos, os que só merecem o rigor e a letra dura da lei.

Essa visão polarizada tem ficado ainda mais forte nos tempos recentes. E os tempos de crise são um terreno fértil para a radicalização. Vivemos no Brasil uma crise econômica, política, ética e sanitária. São tempos difíceis, através dos quais navegamos na busca de um novo modelo de sociedade e de país, tendo nesse processo a árdua tarefa de não nos afastarmos do Estado democrático de direito e, por consequência, do respeito às liberdades civis, aos direitos humanos e às garantias fundamentais.

SEBASTIAN WATENBERG

29 DE MAIO DE 2020
INFORME ESPECIAL

Desafios da gestão pública

Definir o limite entre superfaturamento e inflação acelerada é um dos grandes desafios de gestores públicos e de órgãos de fiscalização em tempos de pandemia. A observação foi feita pelo advogado e ex-ministro da AGU Fábio Medina Osório, durante uma conferência online promovida ontem pelo MP gaúcho.

O procurador-geral de Justiça do RS, Fabiano Dallazen, afirmou que a capacidade de fiscalizar "foi aprimorada" nos últimos anos, no Brasil. Tanto que já começam a espocar denúncias de desvios de recursos públicos no combate à covid-19, por exemplo, no Rio de Janeiro. Durante a semana, o prefeito de Rio Pardo foi preso, acusado de desviar recursos da saúde.

- Nós temos formas de controlar - garantiu Dallazen.

Mesmo assim, separar realidade de mercado da má-fé e da omissão será, no futuro próximo, um dos maiores focos de polêmica na relação da sociedade com governos de todo os níveis, pressionados agora pela busca de soluções emergenciais. Capacidade técnica, aconselhamento jurídico competente, controle interno e gestão responsável do orçamento são caminhos recomendados para evitar problemas futuros.

Do bem

Nesta semana, a prefeitura de Uruguaiana, em parceria com o Exército, começou a verificar a temperatura corporal dos caminhoneiros que entram na cidade pela ponte que liga Brasil e Argentina. Cerca de mil veículos ingressam semanalmente no município pelo país vizinho.

Apenados do Presídio de Arroio do Meio estão fabricando casinhas para cães em abrigos no Vale do Taquari. A iniciativa é da psicóloga Candice Tieze, que contatou a direção da cadeia e fez a parceria. O projeto precisa de doações de madeira, telhas de fibrocimento, parafusos e pregos. Para ajudar: (51) 3716-1551 ou entrega de materiais na Associação dos Protetores de Animais de Arroio do Meio.

Desde o início da pandemia, a distribuidora Fröhlich, de Ivoti, doou aproximadamente sete toneladas de alimentos e produtos de limpeza a hospitais, entidades de assistência e famílias em situação de vulnerabilidade social no RS.

A primeira assembleia geral remota do projeto social WimBelemDon teve número recorde de participantes. Marcaram presença 23 associados (de um total de 36). Por videoconferência, discutiram como aumentar a captação de recursos da ONG que dá aulas de tênis a crianças da Zona Sul da Capital.


Malotes e uniformes usados dos Correios estão sendo doados pelo Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos para a produção de equipamentos de proteção contra o coronavírus. Mais de 4 mil itens serão entregues a entidades que fabricam máscaras, toucas, mochilas e sacos de dormir.

TULIO MILMAN

quinta-feira, 28 de maio de 2020



28 DE MAIO DE 2020
DAVID COIMBRA

Em busca do inimigo

Em 1980, no galopar do governo Figueiredo, os aparelhos repressivos da ditadura não tinham mais a quem reprimir. A guerrilha urbana havia sido derrotada, e a anistia fora decretada. Gabeira, que participara do sequestro do embaixador americano, agora usava tanga de crochê na praia e pregava a "política do corpo". Brizola, o brasileiro que mais tempo ficou no exílio (15 anos), desembarcou de um pequeno avião em Foz do Iguaçu ansioso para retomar o comando do seu PTB, o que lhe seria tirado por uma astúcia de Golbery.

Então, não havia mais a quem prender nem a quem torturar. Mas a "tigrada", como eram chamados os torturadores, continuava na ativa. E agora? Como legitimar o emprego, se não existia trabalho? Elio Gaspari descreve essa situação constrangedora no quinto e último volume de sua obra sobre o regime militar, A Ditadura Acabada: "...era necessário justificar a existência da máquina repressiva. Ela encolhera, talvez à metade, mas ainda assim faltava-lhe serviço. (...) O veterano Doutor Diogo, controlador de informantes do DOI do I Exército, reconheceria: ?Havia uma apatia... iam ao cinema ou iam para casa?. No DOI de São Paulo, a mesma coisa: ?Aquilo passou a ser um marasmo?".

Tratava-se de um drama de mercado: se o seu trabalho é combater inimigos, você deixa de ter trabalho quando deixa de ter inimigos. Logo, deixa de ter importância.

A saída dos repressores foi abrir novos campos de atuação, criando novos inimigos. Foi aí que começaram a explodir bombas em bancas de revista, escritórios de advocacia e jornais. Finalmente, uma carta-bomba foi enviada à sede da OAB, matando a secretária que abriu o pacote, e outra amputou o braço do assessor de um vereador na Câmara do Rio. Encontrar inimigos era preciso. Em busca deles, os repressores chamavam até o general Golbery de comunista.

Essa é a lógica de quem se justifica pelo conflito. É a lógica bolsonarista. Bolsonaro foi eleito como contraponto às esquerdas, à "velha política" e à corrupção. O voto em Bolsonaro não foi de construção, foi de destruição. O eleitor o identificou como oposto "a tudo isso que está aí" porque ele realmente é oposto a tudo isso que está aí. Esse foi sempre o seu comportamento, seja no Exército, seja na Câmara de Deputados. Bolsonaro sempre foi do contra. Ele gosta do enfrentamento e o procura onde estiver.

Observe o ritual diário que Bolsonaro promove na saída do Palácio da Alvorada, quando fala a jornalistas em um brete precário, no qual profissionais da imprensa e apoiadores do presidente se misturam. Por que ele faz isso? Se ele não gosta da imprensa, por que fala todos os dias com os repórteres? É porque identifica nos jornalistas os seus inimigos, e Bolsonaro necessita de inimigos para se legitimar. Assim, diante do Alvorada, ele criou o campo de batalha ideal: fala quanto quiser e o que quiser, não interessa forma ou conteúdo, o que interessa é que o aplauso está assegurado.

Alguns veículos desistiram de cobrir esse evento. Todos deveriam fazer o mesmo. Bolsonaro não está lá para ser questionado ou para informar. Ele está lá apenas para brigar.

DAVID COIMBRA


28 DE MAIO DE 2020

EM DIA - Consultora em inovação e empreendedorismo e professora da PUCRS 

Negócios de futuro

Como serão os negócios do futuro? Essa, entre tantas outras neste momento, é uma pergunta que não quer calar. A pandemia é e deve ser a principal preocupação, sem sombra de dúvida, mas não custa reforçar - a saúde das pessoas trouxe também a preocupação com a saúde das empresas. A redução do consumo colocou em xeque a dinâmica econômica e, em vários casos, um ponto final nos negócios. Neste contexto, tanto os que precisam se reerguer quanto os que pretendem nascer (e há muitos surgindo) buscam respostas para a pergunta inicial.

E essa resposta, que não sei se é de um milhão de dólares ou apenas vale a sobrevivência de todos, é complexa, multifacetada e nunca estará totalmente pronta. Porque assim é o mundo dos negócios, com ou sem pandemia. A intenção que sempre temos é de buscar certezas e, a partir delas, traçar planos para serem executados. Ocorre que as certezas não existem, a cada ação nossa, o cenário muda e já não é mais aquele no qual começamos. Não temos respostas prontas, mas flexibilidade e capacidade de adaptação são elementos fundamentais.

Outro fator que sabemos ser muito importante é a coerência. O aumento do alcance e da velocidade das conexões, possibilitado pela internet, que estamos vivenciando como nunca neste período, além de muitos benefícios, também pode ser implacável para as empresas. Quando a repercussão da opinião pública é quase instantânea, em segundos - e em alguns caracteres - um negócio pode ter seu valor significativamente reduzido. Assim, não adianta a marca, e o que a empresa diz de si, comunicar uma coisa e sua reputação, que é a percepção das pessoas em relação a ela, dizer outra; elas são, cada vez mais, indissociáveis.

Para completar o trio de fatores-chave para o futuro, temos que falar de sustentabilidade. E aqui falo de um conceito que é tridimensional, uma empresa sustentável tem que sê-lo nos seus aspectos econômico, ambiental e social. Não é mais possível pensar em aspectos financeiros e fazer "ações sociais" e "mutirões de coleta de lixo": o mundo precisa de compromisso.

Temos muitas dúvidas e poucas certezas, mas, já era sabido antes da pandemia, que negócios sustentáveis, coerentes com suas escolhas e capazes de aprender continuamente, já são, há algum tempo, os que melhor passam pelas crises. E o seu, tem futuro?

GABRIELA FERREIRA

28 DE MAIO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

A mais sórdida das corrupções

Todo desvio de dinheiro público é abominável, deve ser investigado e punido. Mas não há forma mais sórdida de se apropriar de recursos oriundos do trabalhado árduo dos brasileiros do que perpetrar este crime na área da saúde, ainda mais em pleno evento considerado a maior emergência sanitária em um século. 

A crise do coronavírus, que já vitimou cerca de 25 mil pessoas no país, é repulsivamente usada por grupos inescrupulosos, muitas vezes com a participação de gestores públicos, que enxergam no desespero pela aquisição de equipamentos e montagem de estruturas necessárias para o enfrentamento da epidemia a oportunidade perfeita para assaltar o erário. Escassas verbas que deveriam ser empregadas na tarefa de salvar vidas, atendendo pacientes na ponta, acabam no bolso de patifes. Descobertos, devem merecer todos os rigores previstos em lei.

A área da saúde é especialmente atraente para corruptos e corruptores por lidar com grandes somas e ter contratos pulverizados. Uma legislação federal aprovada no início de fevereiro liberou de licitação a compra de serviços e produtos destinados ao combate do coronavírus. Foi uma medida necessária em nome da agilidade, mas que parece que também vem sendo usada, infelizmente, para facilitar malfeitos. Fazem bem os organismos fiscalizadores e policiais que mostram-se atentos para detectar e flagrar as fraudes.

Ainda que pairem dúvidas sobre eventual motivação de fundo político, a ação desencadeada na terça-feira contra empresários e integrantes do governo do Rio não é resultado apenas da ação da Polícia Federal, mas de outros órgãos, como a própria Polícia Civil fluminense e o Ministério Público Federal (MPF), com o aval do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que analisou o caso e autorizou a operação. Com ou sem o envolvimento do governador Wilson Witzel no conluio, o que deve ser rapidamente esclarecido, o fato é que os desvios verificados não podem ficar sem as devidas sanções legais. Não são poucos, aliás, os episódios suspeitos em outros Estados. São situações que precisam ser aclaradas, seja qual for o partido no poder ou o grau de simpatia entre o governador e o presidente Jair Bolsonaro.

Da mesma forma, merece aplauso a operação deflagrada ontem que, no Rio Grande do Sul, com uma exemplar colaboração entre órgãos e instâncias estaduais e federais, desnudou um caso de desvios na área de saúde em Rio Pardo, com possível participação do prefeito. As investigações devem seguir e, se comprovadas as suspeitas, é preciso chegar à responsabilização e a punições pedagógicas para as duas pontas do suposto esquema de corrupção, desestimulando novas falcatruas do gênero, que, além de desonestidade, demonstram uma assombrosa frieza e desprezo pela vida dos cidadãos.

OPINIÃO DA RBS

28 DE MAIO DE 2020
L.F.VERISSIMO

Bengaladas


Andei caindo, ou caí andando. Cara no chão, joelhos esfolados, mas nada grave. Uma das simpáticas enfermeiras que me atenderam na emergência do hospital se chamava Verlaine. Só vi os seus olhos, por cima da máscara. Um dos efeitos colaterais dessa maldita pandemia é que nos obrigou a migrar, de uma civilização de rostos inteiros para uma civilização só de olhos. Os rostos perderam os recursos de comunicação que tinham, como o beicinho e o muxoxo e, principalmente, o sorriso. Agora, os olhos precisam fazer trabalho dobrado, o trabalho de um rosto inteiro. A máscara nos roubou o rosto. Não posso dizer nada sobre o sorriso da Verlaine. Mas foi diferente, ser atendido por uma enfermeira com nome de poeta.

Não foi minha primeira queda adulta, e não foi a primeira vez que ouvi a sugestão de passar a andar com uma bengala, para restabelecer o prumo perdido. Há quem diga que a bengala mais atrapalha do que ajuda quem precisa de uma terceira perna, e tropeçar na própria bengala é uma ocorrência que se repete, para divertimento geral. 

Outros dizem que a bengala não ajuda nem atrapalha, é apenas uma maneira de parecer inglês sem necessariamente ser inglês, uma exigência desumana. Existiriam tipos diferentes de cabos de bengala, dependendo do tipo e do caráter de quem as usa. Cabos com uma forma sensual feminina proporcionariam aos cavalheiros o prazer de uma bolina interminável, eximindo-o de bolinar sua mulher, ou cabos de guarda-chuvas usados como bengalas - três utilidades em uma! E, claro, cabos ocos, com espaço para um bom conhaque.

Mas é preciso lembrar que, do jeito que as coisas vão ou não vão no país, estamos à beira de uma guerra civil. O presidente Bolsonaro & Filhos já anunciou que quer armar a população brasileira para eliminar comunistas como o kal7xp0t!! do João Doria e tem sua própria polícia, o Primeiro Filho Flávio Bolsonaro tem, notoriamente, contatos com gente da milícia, e o Exército brasileiro se dedica ao seu papel constitucional, que é o de mal governar o país enquanto os outros poderes se xingam mutuamente. Nós precisamos ter lado nessa briga. Bengalas, gente!

L.F. VERISSIMO

quarta-feira, 27 de maio de 2020


Mamma di mamma - Orchestra Italiana Bagutti


El Canfin - La domenica andando alla messa


Vecchio paesello_LAS VEGAS BAND