sábado, 22 de outubro de 2011



23 de outubro de 2011 | N° 16864
MARTHA MEDEIROS


Nadir, Euripedes e Yuri

O Nadir poderia ter feito isso, assinado “Um abraço do Nadir”, e eu não teria passado a vergonha de ter mandado uma resposta iniciando com “Querida Nadir”

Quando acontece de eu receber um e-mail sem ter certeza se quem assina é homem ou mulher, geralmente descubro uma pista dentro da mensagem mesmo. Ou a pessoa diz sou sua fã ou termina enviando um abraço do.... O Nadir poderia ter feito isso, assinado Um abraço do Nadir, e eu não teria passado a vergonha de ter mandado uma resposta iniciando com Querida Nadir.

O Nadir, meu leitor, ficou bravo comigo. Disse que eu deveria saber que Nadir é um nome árabe masculino. Desculpe, Nadir. Mas é que há muitas Nadir também. Anos atrás, quando a Luiza Brunet pensou em se dedicar à carreira de atriz, ela fez um personagem de novela que se chamava Nadir. Tem coisa mais inquestionavelmente mulher do que a Luiza Brunet?

As Nadir e os Nadir talvez passem por esse tipo de engano com alguma frequência quando o contato não é visual. Por telefone, onde não raro confundimos voz de mulher e de homem, deve ser uma bola fora atrás da outra. Na hora de preencher cadastro, também. Como assim, Nadir, 1m89cm, 97 quilos, treinador de jiu-jitsu e casado com a Leila? Mas quem garante que uma Nadir não possa ser alta, forte e casada com uma moça? Ah, os tempos modernos. De qualquer forma, os pais, ao registrarem seus filhos, podiam ser mais facilitadores.

Eurípedes concorda. A dona Eurípedes. Ela conta que seus três filhos já ouviram muita piada por terem como pais Roberto e Eurípedes. E a Donizete fica furiosa quando não reconhecem seu nome como sendo de mulher. Diz que a família das “etes” não deixa dúvida: Elizabete, Claudete, Bernadete, Janete. Pelo visto ela nunca ouviu falar daquele jogador que chegou à Seleção e foi campeão brasileiro pelo Botafogo.

A Yuri, que é cabeleireira, também não gosta de dar explicação, mas se conformou. Sabe que existiu um Yuri Gagarin que foi mais famoso do que ela. As Yuri passaram a ser confundidas com os rapazes.

Nomes estrangeiros, uma sinuca. Kim Novak, Kim Basinger, Kim Kardashian: várias gerações de Kim glamurosas, e aí surge o belo Kim Ricelli, filho da Bruna Lombardi, pra mostrar que é tão Kim quanto. Se for nome francês, então. Pergunte a um Renê ou a uma Ettienne. Ou a uma Renê e um Etienne.

Sasha, todos sabem, é filha da Xuxa, e não filho, mesmo com um nome russo masculino. E admito, envergonhada, que a primeira vez que ouvi falar de George Sand, nome expressivo da literatura francesa do século 19, nem me passou pela cabeça que pudesse ser mulher.

Chamava-se na verdade Amandine-Aurore, mas passou a assinar seus livros como George Sand e assim ficou eternizada. Diferentemente do Nelson Rodrigues, que publicou alguns folhetins como Suzana Flag, mas que nunca chegou a ser tratado por “senhorita”.

Do que se conclui que assinar e-mail com Abraço, Nadir é provocação. Do Nadir, da Nadir. E assim seremos todos felizes.


23 de outubro de 2011 | N° 16864
LUÍSA MEDEIROS
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Uma oração em cinco línguas

“Ave-Maria, gratia plena. Dominus tecum. Benedicta tu (...)”. Quem entra em uma aula de catequese dos alunos da 1ª Eucaristia da Paróquia São João Bosco, no bairro Passo D’Areia, na Capital, pode pensar que está entrando na classe errada. Em um momento, crianças de nove a 11 anos exercitam o latim. Em outro, o francês. Mais adiante o inglês, o espanhol e o então italiano. Em uníssono, apenas o burburinho normal da gurizada que, agitada pelas novidades, não consegue esconder a empolgação.

– O meu grupo aprendeu em inglês, eu achei difícil, mas foi bem legal. Ouvi também em espanhol e fiquei com vontade de aprender. Acho que posso usar quando viajar para outro país – diz o aplicado Vinicius Cainã Pinheiro, nove anos.

A animação é seguida por toda a turma. O pároco local, padre Márcio Augusto Lacoski, diz que não imaginava que o projeto – que já está na sua terceira edição – teria tanta aceitação por parte das crianças, que acolheu a ideia com muito entusiasmo.

– A finalidade das religiões não é construir muralhas, mas sim pontes, e as línguas são pontes entre as pessoas e as culturas. Queremos preparar as crianças para construir essas pontes entre as culturas – explica.

O trabalho é intenso durante todo o ano. A escolha dos idiomas segue a representatividade das etnias da comunidade que frequenta a paróquia, tanto que quem ensina o idioma aos alunos são os próprios catequistas, com a ajuda dos vizinhos. O resultado poderá ser visto em uma apresentação na missa das 10h deste domingo.

Maria Alice Bernardon é um exemplo. A professora de literatura portuguesa e inglesa aproveitou e passou o Hail Mary para a criançada. Já a catequista e, por hora, professora de francês Mara Lopes, diz que chega a ficar emocionada de ver os pequenos alunos rezando na língua europeia.

– A Ave-Maria em francês é quase um cântico, então vejo os aluninhos fazendo biquinho para fazer a oração, chego a chorar – conta.

E enquanto os adultos se esforçam nas lições, os pequenos capricham nos estudos. Com 10 anos, Ana Carolina Golombiewski aprendeu a Ave-Maria em francês e narra algumas dificuldades com a língua, até então, desconhecida.

– É muito diferente do português e tem umas partes que rimam então a gente se atrapalha um pouco, mas é muito bonito – diz a menina.

Já o Henrique Prusch, 11 anos, não teve a mesma sorte: o seu grupo ficou com o latim.

– As palavras são muito difíceis, ainda não consegui decorar tudo. Se pudesse escolher, ficava com o francês, que parecia ser bem mais fácil – admite o guri, que diz ter treinado muito.

luisa.medeiros@zerohora.com.br


23 de outubro de 2011 | N° 16864
EDITORIAIS ZH


SETE BILHÕES E UMA CASA SÓ

Estabelecido por demógrafos como o dia em que a Terra atingirá a marca de 7 bilhões de seres humanos, o próximo 31 de outubro deve provocar, de forma simbólica, um confronto de governantes mundiais com questões irresolvidas no planeta, apesar do desenvolvimento tecnológico das últimas décadas.

Foi vertiginoso, como previram pesquisadores, o crescimento da população mundial, de modo especial no último século. No início dos anos 1800, ela somava pouco mais de 1 bilhão. Por volta de 1930, havia duplicado de tamanho e cresceu de forma assombrosa nos últimos 80 anos, com a perspectiva, mesmo que as taxas de fecundidade tenham baixado, de atingir 9 bilhões em 2045, um futuro nem tão distante.

Diferentemente das previsões pessimistas do economista inglês Thomas Malthus (1766-1834), porém, indicando que a população aumentaria em progressão geométrica, enquanto os meios de subsistência cresceriam somente em progressão aritmética, a superpopulação já não é o principal temor.

Na maior parte dos países, o tamanho das famílias diminuiu – na Europa, no final dos anos 1990, chegou a 1,4 filho por mulher –, e a Organização das Nações Unidas (ONU) estima que o planeta alcançará a taxa de fecundidade mínima de reposição até 2030.

A produção de alimentos em larga escala, facilitada pela tecnologia, garante ainda que não falte comida. Só passam fome as populações de países isolados, assolados por conflitos internos ou envolvidos em guerras. A fome é, hoje, um problema localizado, mas não menos importante, claro, e que deve ser atacado com urgência, para evitar que mais vidas se percam. Da mesma forma, nesses mesmos pontos, é preciso lutar pela erradicação de doenças corriqueiras que seguem dizimando populações mais pobres.

Mais do que a superpopulação, preocupa agora a humanidade a crise econômica, o desemprego, a falta de infraestrutura e mobilidade nos grandes centros urbanos, o descaso com o ambiente, a escassez de água potável, as poucas alternativas a fontes de energia não renováveis como o petróleo, os conflitos armados e o terrorismo.

Viver em cidades superpovoadas e enfrentar problemas como o trânsito, o consumo de água e energia, de modo particular, deverá ocupar as atenções de governantes e estudiosos de urbanismo.

A tendência, indicam as projeções, é de que a população urbana não pare de crescer. Em 1975, só três cidades no mundo tinham mais de 10 milhões de moradores; hoje já são 21 as megacidades e especula-se que, em 2050, 70% da população mundial viverá em áreas urbanas.

Malthus, com outros pesquisadores e futurólogos que lhe sucederam, não tinha como imaginar a Terra com 7 bilhões de habitantes considerando o mundo globalizado, a revolução da tecnologia e das comunicações, que rompe fronteiras e aproxima os povos, mas que não veio acompanhada, na mesma velocidade, por uma moderna governança global.

A ONU à qual, em tese, caberia esse papel, já não satisfaz, da mesma forma como se têm revelado ineficientes as áreas de integração econômica criadas mais recentemente, como a União Europeia ou, para ficarmos com a realidade local, o próprio Mercosul.

Há novas necessidades criadas por esse mundo novo. Uma das fundamentais é a utilização inteligente e solidária dos recursos do planeta, de modo especial nos países mais ricos. Sabe-se, por exemplo, que uma pessoa nos Estados Unidos consome, em média, cinco vezes mais energia do que uma em Gana, assim como a grande parte da emissão de gases que causa o efeito estufa se origina do mundo desenvolvido.

Não confrontar esses problemas pode ter um efeito muito mais danoso do que os altos índices de natalidade. Somos 7 bilhões e vivemos todos na mesma casa. Se não nos entendermos e não cuidarmos melhor do nosso planeta, não haverá futuro para a humanidade.


23 de outubro de 2011 | N° 16864
PAULO SANT’ANA


Colóquio

Travei recentemente com uma mulher o seguinte diálogo:

ELA – Deve ser interessante ser tua mulher.

EU – Ela não acha.

ELA – Talvez porque não tenha ainda te descoberto.

EU – Ela não acha interessante ser minha mulher exatamente porque me descobriu por inteiro.

ELA – Ela com certeza te descobriu somente na epiderme. Fosse eu e prospectaria tuas profundezas.

EU – Por sinal, sempre me pergunto se nas minhas profundezas não haverá sublimidades mas também torpezas.

ELA – Eu teria o cuidado de ficar com as sublimidades e eliminar as torpezas.

EU – A gente é o que é por inteiro, não dá para separar-se em uma pessoa os seus defeitos e as suas virtudes. Até porque uns são consequências dos outros. Judas, o personagem bíblico é um exemplo. Por um lado, ele amou Jesus; por outro, traiu-o e levou-o à morte.

Eu sempre me interessei pelo amor que Judas teve por Jesus, antes de traí-lo. Porque ninguém se interessa pelo apóstolo Judas, todos só destacam a sua traição. Não há, pois, nas minhas profundezas, como eleger as excelências e expungir as coisas espúrias.

ELA – Mudando de assunto, como vão teus amores?

EU – Depende do que seja amor. Se é amizade, diálogo, aproximação entre amigos, vai tudo bem com meus amores. Se é uma mulher eleita para ser parceira sexual e idílica, ando morrendo à míngua. Faz já muito tempo que não me aparece um grande amor. Talvez seja eu que espante esta circunstância.

ELA – Quer dizer então que atualmente, em matéria de amor, não passas de um faquir, um jejuador?

EU – Exatamente. Vou te dizer uma coisa: tive, sim, um grande amor, tive sim. Mas ele foi tão grande e envolvente para mim, no tempo em que eu vivi em Tapes, que nada mais viria a superá-lo. Acho-me até estéril para encontrar um outro amor. Concordo que uma figurinha repetida não completa um álbum. Nenhum homem ou nenhuma mulher poderão dizer que tiveram dois grandes amores. Se foi grande, foi um só, único!

Então, quando amei pela primeira vez, vacinei-me assim de outros amores. O amor é como a idade, nunca mais se volta aos 17, 18 anos. O amor é uma estrada que não tem retorno por uma vicinal. É aquilo e pronto: aconteceu o amor em um coração, dali por diante nunca mais crescerá grama naquele lugar.

ELA – Pois comigo se dá tudo completamente diferente. Já tive quatro grandes amores. E todo meu sonho é encontrar o quinto. Porque o segundo suplantou o primeiro, o terceiro suplantou o segundo, e o quarto foi fantástico e inigualável.

EU – Fico imaginando que, jovem que és, se preencheste tua curta vida com quatro amores, eles foram muito breves.

ELA – Nem tão breves que me tenham deixado insatisfeita. Mas em intensidade, excetuando a duração, até que foram longos.

EU – Eu te invejo. Porque, ao contrário de mim, estás à procura e à espera de um novo e quinto amor. Enquanto, pobrezinho de mim, só tive unzinho.

ELA – Pois o que te desejo é que abras a tranca do teu coração e te ofereças para um novo amor.

EU – Juro que vou seguir o teu conselho. A propósito, qual é mesmo o número do teu telefone?

Augusto Nunes

O ministro descobriu que, para um farsante, sábado costuma ser o mais cruel dos dias

“Nunca houve, não há e nunca haverá provas”, repetiu Orlando Silva depois da conversa com Dilma Rousseff. Há, são contundentes e desmontam a discurseira do ministro e do PCdoB, sabem agora Orlando Silva, Dilma Rousseff e todos os leitores de VEJA. “A presidente disse para continuar trabalhando normalmente”, tentou aparentar confiança, para avisar em seguida que vai permanecer no cargo. Não vai, informam os trechos da conversa entre o PM João Dias Ferreira e dois chefões do esquema bandido instalado no ministério sob controle de comunistas loucos por dinheiro.

Divulgados por VEJA, os diálogos escancaram um repulsivo acerto entre quadrilheiros. Orlando Silva atravessou a semana tentando apresentar-se ao país como um inocente massacrado pela imprensa golpista, pela elite preconceituosa e por inimigos do povo em geral. Talvez já tenha aprendido que sábado costuma ser o mais cruel dos dias para quem tem culpa no cartório ─ sobretudo para farsantes que acham possível enganar as vítimas da roubalheira. Muitos pagadores de impostos engolem desaforos sem engasgos. Nem todos são idiotas.

Às bandidagens divulgadas por VEJA, somaram-se neste sábado patifarias de bom tamanho descobertas pelo Estadão, pela Folha e pelo Globo. “Não quero ir a reboque da imprensa”, tropeçou de novo a presidente. A imprensa independente não reboca ninguém. Publica fatos.

E é inútil brigar com fatos. Por ignorar essa antiga lei das redações, Dilma mantém os olhos fechados à verdade para atender aos interesses do delinquente de estimação e de um partido alugado. Vai descobrir tardiamente que optou pelo abraço do afogado.

Se soubesse agir com juízo e presteza, Dilma teria afastado Orlando Silva logo depois de confrontada com os fatos. Nessa hipótese, talvez conseguisse prorrogar sem barulhos o arrendamento do Ministério do Esporte ao Partido Comunista do Brasil.

O adiamento do velório ampliou de tal forma o estrago que a renovação do contrato com o PCdoB já se transformou numa afronta intolerável. Uma semana depois da explosão inaugural, sabe-se que o prontuário do ministro não é menor que os que comprometem seus principais assessores. Todos devem sair. Estão igualmente afundados na areia movediça que também vai engolindo o companheiro Agnelo Queiroz, antecessor de Orlando Silva e governador do Distrito Federal.

Em 1975, diante de teimosas cobranças do deputado Ulisses Guimarães, líder da oposição, o presidente Ernesto Geisel irritou-se: “Não ajo sob pressão”, avisou. “Eu só ajo sob pressão”, ensinou-lhe Ulisses no mesmo dia.

Alguém precisa sugerir a Dilma que seja menos Geisel e mais Ulisses quando pressionada pelos fatos: deve agir sem demora ─ e agir acertadamente. Graças a Lula e à miopia de milhões de eleitores, o Brasil é presidido por alguém que não tem ideia do que é governar um país.

É demais querer que se comporte como estadista. Mas não é muito exigir que enxergue a diferença entre a verdade e a mentira.

RUTH DE AQUINO

Esporte mais popular do Brasil

O time com mais prestígio e dinheiro é o Brasília Corrupção Clube. O “bicho” para eles é a propina

é colunista de ÉPOCA raquino@edglobo.com.brVocê achou que era o futebol? Não é. Nosso esporte mais popular é a corrupção. O time de maior prestígio e mais bem remunerado é o BCC, Brasília Corrupção Clube. Seus estádios são verdadeiros palácios, com subsedes imponentes.

Uma pena que, mesmo com ingresso de graça, as arquibancadas estejam quase sempre vazias, a não ser que os jogadores entrem em campo em benefí$io próprio ou tenham algum companheiro ameaçado por cartões vermelhos. Aí, as torcidas lotam o recinto e reúnem jovens furiosos a gaviões fiéis. Confraternizam, xingam e chegam a entrar no tapa.

Há os atacantes que disputam, aos trancos e barrancos, até o fim do Segundo Tempo. E os zagueiros que já deveriam ter pendurado as chuteiras no século passado, mas insistem na prorrogação. O “bicho”, nesse torneio, é a propina. Tem muito empurra-empurra. Já foram expulsos cinco neste ano da Seleção, e o sexto estava na marca do pênalti aguardando o apito da juíza.

O maior medo dos jogadores é sofrer um “drible da vaca”. É um daqueles dribles humilhantes em que o jogador, de frente para o oponente, toca ou chuta a bola para um lado e corre para o lado oposto, buscando a bola novamente. Em política, é comum. Você faz de conta que dá todo o apoio ao coitado, mas o faz de bobo.

E, quando o outro percebe, já foi até substituído. Nesse Brasileirão de impedimentos, quem rouba não é o juiz. (Até é também, mas o campeonato é outro, superior – os atletas jogam de toga e o uniforme faz a diferença, que o diga a juíza dos árbitros Eliana Calmon, que denunciou bandidos em campo.)

Poderíamos recorrer apenas ao humor, e não à indignação, mas o assunto é muito sério. Só no Brasil uma arte milenar chinesa como o kung fu acaba usada pelo Ministério do Esporte para desviar milhões de reais de dinheiro público. Dinheiro meu e seu destinado a material esportivo para crianças e jovens. O que se rouba em nome dos carentes e destituídos é vergonhoso. Não sei quase nada de kung fu, a não ser que há golpes mortais. Mas, no Brasil, o golpe é de grana mesmo.

O enlameado desta vez foi o ministro Orlando Silva, titular da pasta mais estratégica para um país que sediará a Copa do Mundo e a Olimpíada. Foi surpresa? Silva comprou em 2008 por R$ 8,30 uma tapioca recheada de queijo coalho e manteiga da terra com um cartão corporativo.

Foi “por engano” e ele devolveu o dinheiro. Ficou feio. Mais um ministro que Dilma Rousseff herdou de seu mentor Lula, o presidente mais complacente, boa-praça e popular da história, corintiano roxo e amante das metáforas futebolísticas. Lula chegou a telefonar ao ministro, expressando sua solidariedade.

O time com mais prestígio e dinheiro é o Brasília Corrupção Clube. O “bicho” para eles é a propina

Quem acusou Silva é um desclassificado. Soldado da Polícia Militar, João Dias é ex-militante do PCdoB, o mesmo partido do ministro, e dono de ONGs de kung fu com sede em Brasília. Tem mansão incompatível com seu salário e três carros importados na garagem: um Camaro, um Volvo e um BMW. Só começou a enriquecer quando se aliou a um grupo do PCdoB, então liderado pelo governador Agnelo Queiroz.

Fez convênios com o Ministério do Esporte, comandado por Orlando Silva por cinco anos. João Dias foi intimado pelo Ministério Público a devolver R$ 4 milhões aos cofres públicos. É rico, temido e suspeito.

Silva tentou se defender dizendo que queriam tirá-lo “no grito”, sem provas materiais. Seria a palavra de um contra o outro. Mas por que ele assinou convênios com João Dias? Teria sido iludido pelo soldado kung fu? Nenhum ministro cai por um único depoimento. A folha corrida de Silva nos últimos anos afetou a rodada da semana.

A União cobra a devolução de R$ 49 milhões desviados em convênios irregulares do Ministério do Esporte. É pouco? Esse dinheiro não vai reaparecer. Quanto o PCdoB ganhou não se sabe, mas um pouco deve ter sido gasto na campanha que o partido maoista deslanchou na TV, dizendo que nada mancharia uma legenda criada “para estar ao lado do povo”. Ah, esse povo merecia mais.

E Dilma com isso? Para ela, foi oportuno estar na África. Driblou o ministro ao chegar na quinta-feira à noite. Em seu morde-assopra costumeiro, a presidente condenou qualquer tipo de “apedrejamento moral”. Tudo como manda o figurino. Mas já tinha deixado claro que não faria nenhum esforço para Silva ficar. Dilma criticou a demonização do PCdoB.

E não poderia agir diferente. O PCdoB comanda a pasta do Esporte há nove anos, desde o início do mandato de Lula. É um partido que nasceu em 1962 de um racha comunista, com fama de “pequeno mas ideológico”.

Sua ideologia aparentemente mudou. Sua marca ainda são a foice e o martelo cruzados, simbolizando a aliança de operários e os camponeses. Ah, os operários e os camponeses mereciam mais.


22 de outubro de 2011 | N° 16863
NILSON SOUZA


Folha em branco

Milhares de estudantes que enfrentam neste fim de semana o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) estarão amanhã diante de um dos terrores da vida escolar: a folha em branco. Naquele espaço fatídico (não usem esta palavra, por favor), eles terão que fazer uma redação de próprio punho para provar que sabem se comunicar por escrito em bom português e que são capazes de se posicionar sobre a realidade que os cerca. Na condição de quem se vê diariamente confrontado com esse desafio, por dever de ofício, me atrevo a deixar duas ou três sugestões para a garotada nesta crônica sabatina.

A primeira delas é resposta que sempre dou quando um jovem vem me dizer que não sabe nem como começar um texto:

– Conte para um amigo! – respondo.

Um truque elementar para destravar o cérebro é a gente escrever como se estivesse contando um episódio qualquer para um amigo. Claro, numa redação formal é preciso ter cuidado para não cair na armadilha das gírias, dos clichês e das repetições, mas ajuda bastante usar uma linguagem simples e evitar termos que não são do vocabulário usual do autor.

Outra coisa que costumo esclarecer aos angustiados redatores é que ninguém escreve bem sem um pouco de sacrifício. Juntar as letrinhas é sempre difícil, inclusive para quem faz isso todos os dias. Mas também é muito gratificante constatar que aquilo que escrevemos faz sentido para as outras pessoas e, às vezes, até as emociona.

O esforço, portanto, faz parte do processo de escrita e tem que começar bem antes do confronto com a folha em branco. É essencial, para quem precisa superar esse desafio, dominar o conteúdo gramatical, saber concordância nominal e verbal, não tropeçar na ortografia, caprichar na pontuação e na acentuação. Com esse instrumental nas mãos (e na cabeça), é só fazer o óbvio: ler o enunciado com atenção, formular uma tese clara, desenvolvê-la e defendê-la.

A redação exige uma conclusão e um posicionamento do autor. Mas não está terminada quando a gente coloca o ponto final. Aí, é preciso fazer um exercício de humildade: reler, cortar tudo o que não for cavalo (a sábia lição do escultor grego Phídias) e, o mais importante, passar para o lugar do amigo que está “ouvindo” a sua história.

É pelo olhar do leitor – e não do autor – que a redação tem que fazer sentido, ter uma mensagem clara e cumprir o seu propósito de comunicar. Senão, mesmo com linhas e parágrafos, ela continuará sendo uma folha em branco.


22 de outubro de 2011 | N° 16863
PAULO SANT’ANA


Poema na madrugada


O fotógrafo Tiago Trindade, dono de um estúdio e credenciado por diversas associações jornalísticas, me escreve, reclamando de que quer fotografar eventos no interior da Igreja São José, em Porto Alegre, mas o pároco não lhe concede licença. Lá só podem atuar fotógrafos credenciados pela igreja, que já são muitos, não havendo mais lugar para outros.

Escreveu-me para quê? Que posso fazer por ele? A não ser talvez dar este destaque que estou dando neste canhão que é esta coluna.

Mas eu escrevi isso porque quero concluir o seguinte. Noto fotógrafos brigando por fotografar casamentos em igrejas, fazendo de tudo para fotografar casamentos nas igrejas.

São ansiosos por fotografar casamentos, mas não vejo nenhum fotógrafo vir até mim para fotografar o meu celibato.

Fotografariam cada cena do meu celibato!

Essa inspiração me surgiu agora,

De madrugada:

Eu já sei o caminho.

Por isso não tenho surpresas.

Já sofri ingratidões,

Já fui traído, igualmente traí.

Agora mesmo estou passando por grande infortúnio.

E nem sei como reuni forças para enfrentá-lo.

Outra vez, me aprisionaram

Numa camisa de força

De que ainda não pude me livrar.

Tristeza, poxa, se fosse só tristeza

Que eu tivera!

Bati contra coisas mais graves

Povoando a minha mente.

Tive agonias. Quase tombei

Em face de calúnias e mentiras

Que inventaram sobre mim.

Mas ainda nos lábios das gentes

Afloram muitas verdades a meu respeito.

Fui vaiado mas também

Tive aclamações.

Dividi o palco, como intruso bem-vindo,

Com grandes artistas.

Quase não posso sair às ruas,

Todos querem me saudar.

Valeu a pena, aqui estou ainda

A colher os frutos e os castigos

Dessa longa caminhada.

Quantas vezes ouvi dela: “Não me deixa

Nunca, pelo amor de Deus!”.

E quantas vezes eu disse a ela:

“Não me deixa nunca, pelo amor de Deus”.

Nos deixamos.

Vivi, sofri, tive filhos, tenho netos

Que vão me suceder nas esperanças.

Vim e ainda não fui.

Será que resta algo mais a ser vivido?


22 de outubro de 2011 | N° 16863
DAVID COIMBRA


Tramas da memória

Uma vez explodiu uma fábrica de fogos de artifício no Navegantes, perto de onde morava o meu avô. Quadras inteiras foram arrasadas, como se o bairro tivesse sido bombardeado pela Luftwaffe. Pedaços de pessoas voaram pelos ares e aterrissaram quilômetros adiante. Os sobreviventes não identificavam mortos;

identificavam partes deles. Uma moça reconheceu o braço do pai pelo anel que ainda levava no dedo, um rapaz sabia que aquela era a perna do amigo pelo sapato de pele de crocodilo que lhe restara no pé. Meu irmão, que era bem pequeno, ficou traumatizado. Repetia a toda hora:

– Bum! Bum!

Foi exatamente isso. Ou será que não foi bem assim? Juro que tenho essa história impressa na memória como algo que realmente aconteceu, mas, agora, passados tantos anos, duvido de mim mesmo. Tenho quase certeza de que a explosão da fábrica ocorreu, mas será que foi tão trágica?

Pedaços de gente voaram como bem-te-vis pelo céu da cidade? A história da mão com o anel. Estou vendo agora mesmo a mão com o anel, a filha assistindo à cena com a boca escancarada de horror. Parece que fui testemunha. Fui mesmo? Ou alguém inventou e me contou? Ou eu inventei?

A memória é ardilosa. Quando estava escrevendo o livro sobre a história dos Gre-Nais, entrevistei centenas de jogadores do passado. Eles contavam uma história da qual tinham sido protagonistas, depois eu ia falar com outros envolvidos e esses relatavam o mesmo episódio de forma diferente.

Então eu ia aos jornais da época para descobrir quem estava certo. E lá havia mais uma versão, que não raro pouco tinha a ver com o que me haviam dito uns e outros personagens. Não que pretendessem mentir, nada disso. Eles ACREDITAVAM no que contavam. Era o que estava gravado na sua memória.

Existe uma memória coletiva, também. Imagens e reputações se constroem, versões se consagram. Difícil distinguir a realidade crua da réstia de fantasia. Pensando bem, talvez nem exista realidade crua. Talvez tudo seja representação da realidade. E agora, lembrando daquele naco de tempo mais ou menos próximo de quando deve ter ocorrido (ou não) a terrível explosão da fábrica de fogos, percebo como tudo está mesclado, superposto ou contraposto na minha lembrança.

Vejo-me pedalando minha Calói Zero azul-escura, minha irmã Silvia de pé na carona e meu irmão Régis sentado na barra do guidom. Estamos indo até um silo de cereais ali pertinho para subir no morro formado pelas sacas e lá de cima, rente ao teto, nos atirarmos na piscina de grãos abaixo, onde ficávamos enterrados até a cintura. Anos depois li que um menino se afogou nos grãos fazendo exatamente isso. Os perigos da infância.

Vejo Figueroa matando a bola no peito de lenhador e saindo da área com o queixo erguido, a passada larga, a cabeleira esvoaçante, ou será que esse é Beckenbauer, o Kaiser, o homem que não conhecia a cor da grama porque não olhava para baixo, ou será que é Didi, o Príncipe Etíope, que se orgulhava de jamais ter pisado na bola? Não, Didi não podia ser, nunca vi Didi em campo, mas vi o shortinho branco da Alice,

oh, lembro bem daquele shortinho branco e das pernas dourado-escuras da Alice, as primeiras pernas de mulher em que toquei, quase não acreditei quando senti a textura macia da sua pele e senti também vertigens, pensei que ia sair flutuando do Fusca verde do pai dela, que era onde estávamos, eu e Alice e suas coxas de chocolate ao leite, e falando nisso vem-me a imagem do Choco Preto e Branco, acho que não existe mais Choco Preto e Branco, nem Beijo de Moça,

nem quebra-queixo, nem bala gasosa, até porque diziam que bala gasosa matava a criança que a engolia inteira, a bala gasosa era do tamanho de uma bola de pingue-pongue, eu que era bom no pingue-pongue, dava um saque de revesgueio, mas não tão bom quanto o Edu Brites, que batia forte na bolinha, o Edu Brites tinha saque forte, inhaque forte e também tinha um chute forte,

uma espingarda na perna direita, talvez tão forte quanto o chute do Éder, só que o Éder era canhoto, os canhotos são revoltados e uma vez li que o Éder era revoltado porque, quando criança, uma serpente enroscou-se nele durante uma enchente em Belo Horizonte, deve ter sido uma enchente tipo a de 41 em Porto Alegre, o meu avô vivia me mostrando a marca da enchente na parede da casa dele no Navegantes, uma marca alta, ele tinha de levantar a mão para tocá-la com o dedo indicador, ah,

eu adorava ouvir as histórias do meu avô e passei a gostar de futebol por causa dele, ele que torcia pelo Zequinha, mas admirava o Lara, o Tesourinha e o Foguinho, meu avô falava sempre do Foguinho e um dia eu o conheci, ao Foguinho, e o entrevistei tantas vezes que posso dizer que nos tornamos amigos, ao ponto de o Foguinho perguntar por mim quando já estava no fim da sua vida, doente, de cama, abatido, justo o Foguinho que prezava tanto a saúde e a força física e provo o que digo lembrando de um dia em que fui visitá-lo,

ele desceu para abrir a porta e me fez entrar, ele estava de pijama e chinelos, e nós nos acomodamos no elevador e eu perguntei “está tudo bem, seu Rolla?”, e ele me enviou um olhar triste, suspirou e respondeu “estava tudo bem quando eu tinha a sua idade”, e aquilo me deixou sem palavras, subi mudo até o nono andar e lá, no apartamento dele, seu Rolla tirou umas caixas de papelão do armário e começou a me mostrar fotos e viu uma do Pinheiro Machado, que disse ser “o maior homem” que já havia conhecido,

e finalmente tomou nas mãos uma pequena de Luiz Carvalho, o velho Rei da Virada, centroavante que foi presidente do Grêmio nos anos 70, na época em que talvez tenha explodido aquela fábrica de fogos de artifício no Navegantes, o bairro do meu avô, que admirava o Foguinho, e então o Foguinho pegou aquela foto e olhou para a imagem do seu amigo já morto e pensou por um momento e murmurou:

– Todos os dias eu penso no Luiz Carvalho.

Para isso também serve a memória.


22 de outubro de 2011 | N° 16863
CLÁUDIA LAITANO


A pornografia da morte

Há exatos 15 anos, quando a rede mundial de computadores ainda não era tão mundial assim, o Brasil assistiu à eclosão de um fenômeno que viria a crescer junto com a internet nos anos seguintes. Poucas horas depois do acidente que matou os integrantes da banda Mamonas Assassinas, em março de 1996, chegavam à rede imagens chocantes de corpos mutilados, espalhados pela mata onde caiu o avião.

Nunca se soube exatamente como as fotos vazaram, mas a rapidez com que elas se disseminaram era inédita até então e anunciava o início de uma nova era: a tecnologia de compartilhamento instantâneo de informações, associada à humana inclinação para a curiosidade mórbida, ampliava exponencialmente o alcance de uma das mais desprezíveis formas de invasão da privacidade – aquela em que as vítimas não têm qualquer chance de defesa. O fenômeno ganhou um nome, “death porn”, algo como “pornografia da morte”.

Na pornografia da morte, o corpo é banalizado e subtraído do seu conteúdo humano, como na pornografia do sexo. Quem vê uma foto de uma mulher nua em uma revista não está preocupado em saber se ela paga aluguel ou se é uma filha amorosa de pais velhinhos. O corpo é reduzido à função básica de satisfazer uma fantasia – e qualquer subjetividade só é admitida no jogo quando serve ao propósito dessa fantasia.

No caso da pornografia da morte, o corpo também deixa de ligar-se a uma pessoa para tornar-se o objeto de um voyeurismo mórbido. Se a pornografia convencional busca o prazer do sexo sem obstáculos e sem complicação, a pornografia da morte é o exercício de uma espécie de sadismo sem vítimas e sem punição.

A história é recheada de cadáveres célebres usados como propaganda política – tanto para honrar a memória da vítima quanto para sepultá-la simbolicamente. Durante a Revolução Francesa, o quadro A Morte de Marat, de Jacques-Louis David, foi usado para retratar o sanguinário líder revolucionário como um mártir heroico da causa do povo. Mais tarde, quando os ventos políticos mudaram, o quadro foi banido da França.

As clássicas imagens de Che Guevara morto nas selvas da Bolívia serviram tanto para provar que ele fora derrotado quanto para alimentar o mito quase religioso que cercaria sua memória nos anos seguintes. Mortos costumam ser muito obedientes ao uso que os mais vivos decidem fazer deles.

No caso de Kadafi, no entanto, o conteúdo pornográfico e aleatório das imagens de sua execução parece ter superado qualquer subtexto político. Os inimigos do ditador líbio podem argumentar que mostrá-lo morto era indispensável, mas a sensação é de que algum limite inédito foi transposto nessa exibição obscena do cadáver.

Houve um tempo em que esse tipo de imagens seria filtrado antes de chegar à grande imprensa. Não mais. Um observador de posse de um celular é o que basta para que o conteúdo extrapole qualquer tentativa de mediação ou pudor.

A decisão de divulgar ou não uma imagem não está mais na mão de quem pode achar importante refletir sobre o que é ou não adequado divulgar ou mesmo de quem deseja fazer o uso político dela – mas na ponta dos dedos do voyeur tecnológico mais próximo.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011



21 de outubro de 2011 | N° 16862
ARTIGOS - Maira Caleffi*


Se não fizer por você, faça por mim

Estima-se que perdemos 30 mulheres por dia no Brasil, por câncer de mama, de acordo com dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca). Por esse motivo, a Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (Femama) está realizando no Brasil mais uma edição do Outubro Rosa.

Assim, cada prédio e monumento que for iluminado de rosa neste mês, em cada canto do país, servirá para que a população se lembre de tantas mães, filhas e amigas que faleceram da doença nos últimos anos.

Nesta edição do Outubro Rosa, o mote da campanha da Femama é “Faça por mim”, que tem como foco a importância do exame de mamografia para a detecção precoce da doença e é dirigida às mulheres e às pessoas que convivem com elas. Temos que lembrar que o exame de mamografia detecta com grande margem de segurança um tumor no seio antes que se possa sentir o nódulo. Assim, se realizado na fase inicial da doença, aumenta em aproximadamente 95% as chances de cura.

Com o conceito “Mamografia. Se não fizer por você, faça por mim”, a campanha tem como principal meta romper mitos e barreiras em relação à mamografia. Entretanto, não adianta fazermos toda essa movimentação, em todo o país, se não alertarmos também a população e o poder público sobre as reais condições de saúde no Brasil.

Segundo o Ministério da Saúde, dos 1.514 mamógrafos que realizam exame de mama pelo SUS, apenas 85% estão em funcionamento no país. Ou seja, 223 equipamentos estão sem uso, 111 não têm produção, 85 apresentam defeito e 27 ainda estão na embalagem. A região sul do país, de acordo com o mesmo levantamento, possui 287 mamógrafos, sendo 130 deles no Estado do Rio Grande do Sul.

Desses, 114 estão em uso e 11 estão sem produção. Outros quatro apresentam defeito. Mas como esses mamógrafos, que custam tão caro aos cofres públicos, podem estar parados, enquanto tantas mulheres precisam fazer o exame de mama, com urgência?

Vale ressaltar que o problema não está na quantidade de equipamentos, mas, sim, na concentração regional e na baixa produtividade dos mamógrafos – o indicado é que cada equipamento faça até 25 exames por dia, mas o número não chega a 10, segundo o Tribunal de Contas da União. No Brasil, estima-se que ocorram até o final deste ano quase 50 mil novos casos de câncer de mama, segundo o Inca. Mas precisamos mudar essa história.

Por esse motivo, convidamos a população gaúcha a iluminar todo o Estado em mais uma edição do Outubro Rosa. E, a cada nova luz rosa acesa, esperamos que mais pessoas se iluminem e sejam contagiadas com essa energia. Que essas mesmas pessoas saibam convocar suas amigas, mães e vizinhas a consultar seus médicos regularmente e, se for necessário, apoiá-las a fazer o exame de mamografia, alegando: se não fizer por você, faça por mim.

*Presidente da Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (Femama)


21 de outubro de 2011 | N° 16862
ARTIGOS - Milton dos Santos Martins*

Beleza de cada um

Quando se fala em beleza, logo se imagina a pessoa, o semblante, o corpo, enfim, pois se analisam as formas físicas, as plásticas realizadas, o modo de ser, como ainda o modo de vestir, principalmente os tipos de roupas, as cores da estação ou da moda, ou ainda modo de se portar, falar e locomover-se.

Evidente que é importante para a pessoa estar bem apresentável e, sobre isso, dá-lhe confiança no relacionamento, pois se sente valorizada, certo que só poderiam apreciá-la. Na verdade, porém, trata-se da aparência que pode até demonstrar o bom gosto.

Todavia, isso que pode mostrar até uma boa presença, na verdade, não significa realmente a pessoa. Podemos até comentar, referir que é alguém bem apresentável, mas nada acrescentamos sobre o seu conteúdo... Então, precisamos saber o que, de fato, qualificaria a pessoa.

O que realmente marca a personalidade é sua composição de ideias, os pensamentos que expõe, o modo de ser e de agir, a espiritualidade que revela, sintonia e respeito para com a natureza, sobretudo o trabalho social que está sempre a desenvolver a par do seu trabalho de subsistência.

Essa a verdadeira presença que se destaca, que elogiamos, que valorizamos. Pode até não cuidar muito de sua aparência, não se vestir tão bem, mas a pessoa é reconhecida por suas manifestações, atitudes, trabalhos, não só o destaque dos trabalhos profissionais exercidos com responsabilidade, zelo e competência, mas principalmente também as atividades de ordem social, relacionadas com seu trabalho. Essa é a virtude de cada um que o projeta porque virtude que significa beleza.

É aí que se confere em todas profissões, pessoas que se destacam pelo respeito a todos os outros, como pela preocupação de que tenham seus direitos à vida respeitados. E a começar evidentemente pela saúde, pela educação, pelo trabalho assegurado e com remuneração digna. Certo que é de responsabilidade fundamental da União, Estado e município os cuidados primeiros para que tudo isso ocorra dentro da normalidade.

Todavia, evidente aí, cada um de nós tem a obrigação de conferir e colaborar, nem só por simples reclamação, sim, para que todos nos empenhemos em resolver eventuais problemas. Vamos divulgar os direitos de cada um, direito à vida saudável, à liberdade de pensar e agir, respeitando-se outrem, por indispensável tolerância.

E aí, com essa fraternidade é que devemos contar, agir, e exigir, e vamos contar não só com deputados e senadores, mas presidente, governadores, cônsules, servidores em geral, vereadores, como profissionais da medicina, engenharia, direito, cantores, agricultores, porteiros, dentistas, motoristas, empresários, professores, corretores, barbeiros, secretários etc. etc.

Então, é por isso que conhecemos e elogiamos aqueles profissionais, aquelas pessoas que realmente são belas pelo seu modo de ser e agir. Essa é a verdadeira beleza pela qual todos nós somos maravilhados. E que beleza de pátria não seria a nossa!

*Magistrado aposentado


21 de outubro de 2011 | N° 16862
PAULO SANT’ANA


Homenagem merecida

A Imperadores do Samba, escola da minha preferência, pela qual já desfilei várias vezes, escolheu como tema-enredo para o desfile de Carnaval de 2012 o senador Paulo Paim.

Nada mais merecido. É um dos senadores de vida parlamentar mais profícua da história gaúcha.

E, em homenagem ainda à apropriada ideia, esta coluna transcreve hoje o samba-enredo da Imperadores do Samba para 2012:

O céu se enfeitou

E o sol nascendo vem para clarear

É luz que iluminou o seu caminhar

Menino começa a sonhar

Vem de lá de Caxias do Sul

Trabalho é sua verdade

pra mudar toda realidade

Encontrou no aço e no metal

resistência é luta sindical

As ideias chegam, vão surgir

É a liderança a lhe seguir

Sua estrela brilhou

companheira é a sua verdade

O povo quer paz, mais amor e dignidade

O negro sonhou, vibrou, gritou

Igualdade, liberdade!

O homem é um “mundo”

de coragem, carinho e paixão

que roda o mundo, unindo a nossa nação

Exemplo de garra, cidadão brasileiro

é gente da gente, um bravo guerreiro

Aplausos...

Ao grande senador

orgulho do país, hoje sou mais feliz

E ao som da sinfônica vem

um leão que só faz o bem sem olhar a quem

Vem meu amor, a Imperadores chegou

A nossa família te envolve em seu manto

Respeite o Leão, nessa avenida

Traz Paulo Paim, lição de vida


21 de outubro de 2011 | N° 16862
DAVID COIMBRA


O maior medo do homem

Não é a morte o que mais assusta o homem. É o acaso. Contra o acaso, o homem constrói sistemas de pensamento, filosofias, mitologias, religiões. Para se proteger do acaso, o homem criou Deus. Aí está: o homem se diz criatura, quando é o criador.

Mas crentes e carolas não precisam se ouriçar, não estou pregando o ateísmo. Porém, é preciso entender que, ainda que Deus exista, Ele continuará sendo uma abstração. A ideia de Deus tem de ser aprendida. E, se tem de ser aprendida, tem de ser concebida. Criada. Logo, Deus é criatura. Zeus, Amon, Jeová, Astarte, Cibele, Alá, Tupã, seja qual for o nome do ser divino, ele tem de ser concebido pelo homem, junto com sua mitologia.

E por que o homem teve de criar Deus? Por que existe essa necessidade em todo lugar e em todo tempo? Exatamente para que o homem possa se defender do acaso. O acaso é tão apavorante, que o homem criou até o diabo para combatê-lo.

É preferível enfrentar uma legião de demônios com intenções bem claras e regras de comportamento definidas do que simplesmente cogitar a hipótese de que as coisas possam acontecer sem que sejam movidas por razão alguma.

Você precisa encontrar um desígnio oculto por trás de qualquer ocorrência da sua vida. Toda consequência teve uma causa. E, se toda consequência tem uma causa, em tudo podem ser vistos méritos e culpas. Você faz tudo certinho, age bem, é uma boa pessoa, não faz nada de errado?

O Todo-Poderoso o recompensará com uma vida venturosa. Você faz coisas erradas, oprime o próximo e rouba a merenda escolar das criancinhas? Você será punido em algum momento, você não perde por esperar as terríveis consequências de seus atos.

É assim que deveria ser, se o acaso não existisse. Se o mundo fosse justo. Mas o acaso existe. Mas o mundo não é justo. Coisas ruins acontecem a todo momento com pessoas que não merecem sofrer. Coisas boas acontecem a todo momento com pessoas que não merecem a felicidade.

Canalhas são homenageados, incompetentes ganham aumento, oportunistas usufruem da fama, cofres caem do oitavo andar, vírus são contraídos pelo ar, rádios tocam axé a cada minuto. A vida é cheia de perigos e você não pode fazer nada para evitá-los. O mundo está repleto de cafajestes e muito provavelmente a maioria deles jamais será punida. Não adianta rezar. Não adianta cultivar superstições. Não adianta esperar pela intervenção transcendental.

Adianta, um pouco, prevenir-se. Pessoalmente, há muitas formas de prevenção. A principal delas é zelar pela saúde. Comunitariamente, o Estado tem a função de fazer a prevenção. No caso de o Estado estar acometido de alguns desses males, como a corrupção endêmica brasileira, só se pode, mesmo, fiscalizar.

E a fiscalização só é viável quando ocorre em âmbito municipal, quando o cidadão encontra a autoridade na farmácia, no supermercado, na igreja, no estádio de futebol, e o olha na cara, e cobra, com o mero olhar, o efeito de seus atos.

A municipalização não tem poder divino, não evita a corrupção, não impede a ação de cafajestes nem as tramas incompreensíveis do acaso. Mas ajuda a preveni-los.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011



20 de outubro de 2011 | N° 16861
CELSO GUTFREIND


Disparada

A canção se chama Disparada. É do Geraldo Vandré, mas ficou célebre na voz de Jair Rodrigues. A imagem serve para esta crônica sobre a criança, que também se vale da música materna para fazer o seu nome. E, quanto mais eficaz for a melodia, mais anônima ficará a mãe e conhecido, o filho.

“Prepare o seu coração/ Pras coisas/ Que eu vou contar.” A criança tornou-se capaz de narrar. Deve mesmo ter havido, lá no começo, aquela mãe cantando em tal sintonia, que o filho não precisa ser bonzinho. Pode ser verdadeiro. E acrescenta: “posso não lhe agradar...”.

Ele vai longe na arte, mas a vida não é fácil e vem mais um solavanco: “Aprendi a dizer não/ Ver a morte sem chorar”. Os versos sugerem falta de choro, liberdade para expressar-se. Mas a barreira maior vem a seguir: “A morte e o destino, tudo/ Estava fora do lugar/ Eu vivo pra consertar...”.

Freud foi pioneiro ao detectar o quanto as crianças nascem para resolver a vida de seus pais. Quando já se idealizava a infância, teve a coragem de dizer que o desejo de ser mãe e pai não começa nobre. Trata-se, no início, de uma vontade de não morrer e outra de que o filho resgate o que os pais não puderam ser. Ou seja, viva pra consertar.

Felizmente, a vida nem sempre dispara. Ela também dá um tempo para que os pais, verdadeiros responsáveis pelos consertos, possam rever seus desejos. O começo egoísta volta-se aos poucos para o outro até se tornar capaz de dizer: – Meu filho, podes ser tu mesmo e viver a tua própria história.

O processo parece complicado e é, porque se chama amor.

Na canção, ele acontece: o bebê crescido precisa assumir a boiada de um boiadeiro que morreu, mas tem a liberdade de fazê-lo só depois de aproveitar a infância. E reinar. E sonhar: “Seguia como num sonho/ E boiadeiro era um rei...”.

Seus pais entenderam uma noção afetiva fundamental: “gado a gente marca/ Tange, ferra, engorda e mata/ Mas com gente é diferente...”.

Sim, com gente é diferente: convém dar muito na largada para separar-se no meio, poder reencontrar-se durante e estar junto, por dentro, até o final. É preciso deixar ser para poder ser verdadeiro. Disparada canta: “Não canto pra enganar”.

Haja talento de ficar tão próximo, permitir crescer e depois partir a ponto de ficar maior do que a gente: “Por qualquer coisa de seu/ Querer ir mais longe/ Do que eu...”.

Para o próprio Freud, era impossível. Mas a prática também o superou. Volta e meia, vemos filhos capazes de sonhar. E serem livres para a disparada de pegar a viola e cantar mais forte noutro lugar.


20 de outubro de 2011 | N° 16861
EDITORIAIS ZH


Cinzas na comunicação

Pela segunda vez neste ano, as cinzas do vulcão chileno Puyehue recobriram o céu do Rio Grande do Sul e interferiram nas operações do aeroporto Salgado Filho, mostrando que à falta de estrutura do terminal, esgotado apenas 10 anos após sua inauguração, somam-se deficiências do ponto de vista gerencial, por parte de companhias aéreas e da própria Infraero.

Na terça-feira, dezenas de voos tiveram de ser cancelados e, num efeito cascata, outros sofreram atrasos. Os problemas se arrastaram ao longo do início da quarta-feira, com novos atrasos e cancelamentos, causando desconforto a centenas de passageiros, muitos dos quais tiveram de pernoitar no Salgado Filho. Filas serpenteavam em frente aos guichês, tumultuando o já exíguo espaço do saguão.

Contra o fenômeno natural, obviamente, não há o que fazer e é louvável a preocupação com a segurança dos voos. Mas, como em outras ocasiões e por outros motivos, os usuários acabam não recebendo um tratamento condizente, num momento em que, mais do que nunca, informação colabora para diminuir o estresse.

Viajando a negócios ou a lazer, as pessoas têm suas rotinas e planos alterados e é evidente que o inesperado gera irritação e mau humor, e funcionários de companhias aéreas precisam estar preparados para enfrentar a situação, munidos de gentileza e informações precisas. A Infraero, por sua vez, tem de se preocupar com o conforto de quem amarga horas de espera.

Com uma capacidade atual de 4,5 milhões de passageiros/ano, o arrastado projeto de ampliação do Salgado Filho prevê um aumento da capacidade para 12 milhões – em 2014, o ano da Copa, a demanda é estimada em 11 milhões.

Um módulo provisório, que deve ficar pronto até o final do ano no segundo andar do terminal, oferecerá uma nova sala de embarque e mais 20 balcões de check-in, o que poderá amenizar as dificuldades em casos como o ocorrido nesta semana. Enquanto isso não acontece, o mínimo que os passageiros merecem é atenção e informação.


20 de outubro de 2011 | N° 16861
ARTIGOS - Renato Silvano Pulz*


Insustentável leveza de ser corrupto

Um simples abrir os olhos e confesso que não consigo evitar uma visão sombria dos fatos. Uma sucessão de maracutaias com o dinheiro público embotando qualquer sinal de esperança. Mas, quando estamos quase jogando a toalha, surge uma réstia iluminando um futuro distante. Nem tudo é cinza, às vezes, um azul aparece.

A prisão de um comandante de batalhão da polícia e seus asseclas, envolvidos com o tráfico carioca. Licitações irregulares desvendadas, a Justiça garantindo o direito de termos uma imprensa livre para divulgar as irregularidades dos nossos políticos. E, agora, o povo saindo às ruas e voltando a se mobilizar.

A corrupção já faz parte de nosso cotidiano. Um fardo pesado. Ao ponto de quase nem merecer o tempo que dedico a estas linhas. Nos noticiários, um escândalo atrás do outro. Pessoas, que deveriam zelar pelo coletivo, seduzidas pelo lucro fácil.

As explicações sobre a origem histórica, sobre os fatores socioculturais não nos servem de consolo. Os brados contra a classe política ecoam por todos os cantos de um país que ocupa uma vergonhosa posição no ranking dos que mais desviam o dinheiro público.

Mas aqueles que gritam esquecem que os políticos são legítimos representantes do povo e foram eleitos democraticamente. É, pois, a tolerância da sociedade às vantagens recebidas, à custa dos outros, uma prática socialmente aceita. Um alicerce aos logros dos inescrupulosos.

O romance de Milan Kundera nos proporciona uma reflexão. Levar uma vida leve, sem o peso do comprometimento, pode ser uma escolha, mas tem seu preço. Levar a vida sem comprometer-se com algo, além de seus próprios interesses, corrobora a filosofia dos corruptos.

Se almejarmos alguma mudança, devemos sustentar o peso de nossas escolhas. Devemos entender que esperar na fila, devolver o troco a mais, gerir bem o dinheiro público, ou seja, abdicar do jeitinho é uma opção que devemos fazer se quisermos um futuro melhor.

Apesar dos momentos de desesperança, acredito que a maioria dos cidadãos são honestos e pessoas de bem. Por isto sei que é insustentável a leviandade, é chegada a hora de todos escolherem como querem viver.

*Professor universitário


20 de outubro de 2011 | N° 16861
PAULO SANT’ANA


Inversão da lógica

Eu estava anteontem assistindo ao ministro do Esporte, Orlando Silva, desdobrar-se em sua defesa das acusações de corrupção desfechadas pela revista Veja.

Ele foi espontaneamente até a Câmara dos Deputados e, em reunião com os parlamentares, alinhou os seus argumentos defensivos, tendo tido a iniciativa inédita de ele próprio solicitar a instalação de uma CPI a respeito. Diga-se que ultimamente os acusados se conformam em se ver investigados pela Polícia Federal e pelo Ministério Público, mas fogem como diabo da cruz de CPIs.

Fiquei pensando que deve ser penoso para um homem público investido do cargo de ministro ter de se submeter a esse exercício dialético.

De um lado, uma testemunha acusando o ministro de receber propina relativa a seu cargo. De outro, o ministro se defendendo e atacando a credibilidade do denunciante.

Eu chego a pensar que se inverteu a equação do princípio de inocência presumida, absurdamente: nos tempos em que vivemos no país, todo homem público de início é considerado suspeito. A ele deverá ser dado o encargo de derrubar essa suspeição, agindo com lisura, mas além disso terá de ser eficiente e veemente em sua defesa, caso lhe sobrevenham acusações.

Imagino um artigo na Constituição que diga o seguinte: “Todo político será considerado corrupto, a menos que reúna comprovação de sua inocência absoluta”. Ou seja, o ônus da prova caberá ao político. Em vez da inocência presumida, a culpabilidade presumida, assim ficaram as coisas depois desse maremoto de corrupção que se abateu sobre o mundo político nacional.

Um grande autor escreveu uma vez uma frase que nunca mais saiu da minha cabeça: “Só existem duas forças invencíveis no mundo, a inteligência e a corrupção”.

É verdade quanto à corrupção. Nenhum regime por mais severo que seja conseguiu até hoje acabar com a corrupção. A gente de vez em quando topa com a notícia de que alguém foi executado com um tiro na nuca, na China, acusado de corrupção.

A corrupção parece ser inerente à condição humana.

Aqui no Brasil, a realidade faz crer que não se pode muitas vezes diferenciar determinados partidos políticos de organizações criminosas.

Alguns fazem recrutamento de filiados, convenções, depois das eleições indicam seus membros para assumir cargos no Executivo, mas toda a aparência é de que esse ritual visa a somente sugar recursos para os bolsos de seus afilhados, retirados do erário, fruto dos impostos recolhidos pelos contribuintes.

Evidentemente, nesses casos, em meio a essas pretensas organizações criminosas, existem pessoas de bem, honestas, idealistas, que pretendem com a prática política apenas o bem da sociedade, os incautos.

Mas o cerne dessas organizações espúrias, pelo que se nota, é dirigido para a locupletação de alguns mais espertos e ligeiros dos seus membros.

A impressão que se tem ultimamente é de que a única diferença entre o Fernandinho Beira-Mar e o Paulo Maluf é que nunca o Fernandinho Beira-Mar aparece de gravata.


20 de outubro de 2011 | N° 16861
CLAUDIA TAJES


Cabelo de jogador

Não é de hoje, como já mostravam, há vários anos, as cabeças dos então jogadores Biro-Biro, Vampeta e Valderrama, o goleiro colombiano com cabelo de Elba Ramalho. Mas talvez tenha virado fenômeno depois que ele, Ronaldo Fenômeno, usou o pior corte de todas as Copas na edição em que o Brasil foi Penta. Lembra?

Um tufo sobre a testa e o resto do coco pelado, bizarra criação que logo foi copiada pelos meninos do país. Verdade é que, de uns tempos para cá, tem jogador de futebol que se destaca mais pelo penteado do que pela habilidade com a bola.

Não é o caso de Neymar, do Santos, de moicano e dribles famosos. Basta o Neymar mudar o cabelo para ser imitado por uma legião de outros jogadores e fãs. O estilo Neymar encheu as ruas de genéricos dele. Desconfio mesmo que o entregador da última pizza que chamamos aqui em casa era o Neymar em pessoa. Quase pedi um autógrafo e uma foto para mostrar aos amigos.

Tenebroso é o penteado do Ronaldinho, do Flamengo. Dizem que o R9 não apara as pontas, nem usa aparelho nos dentes, porque o patrocinador não permite: as benfeitorias alterariam a imagem consagrada mundialmente.

No último sábado, depois de ter seu coque desfeito por um jogador do Ceará, Ronaldinho revidou e foi expulso. Onde se viu mexer na cabeleira de um ídolo? Mais cabelos dignos de má nota: os de Fábio Ferreira e Cortês, do Botafogo. O de Carlinhos Paraíba, do São Paulo. O de Kempes, do América Mineiro. E segue a lista.

Para quem não acompanha futebol ou não conhece os cabelos citados, vale uma passadinha pelo Google. Nem que seja para impedir que um corte desses vá parar na sua cabeça.

Se não existem assuntos mais palpitantes no esporte? Claro que sim. Obras de estádio empatadas, ataques sem gols, ministro denunciado, roubo do material de competição do Marcel Stürmer (isto é incrível), a Copa do Mundo que vai deixar alguns poucos ainda mais ricos. Tanto quanto a política, o esporte também dá uma medida do que a gente é, no fim das contas.

E, a se julgar pelos cabelos e pelos fatos, a coisa está feia.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011



19 de outubro de 2011 | N° 16860
MARTHA MEDEIROS


Quando menos se espera

Quando alguém se queixa de que não encontra sua cara-metade, que procura, procura, procura e nada, os amigos logo lembram o queixoso de que o amor só é encontrado ao acaso. Justamente no dia que você vai à locadora todo esculhambado para devolver um DVD, poderá esbarrar na mulher da sua vida.

E naquela noite em que você sai de pantufas do apartamento só pra descer até a garagem do prédio e desligar a droga do alarme do carro que disparou, é então que o Cupido poderá atacar, fazendo com que o príncipe dos sonhos divida com você o elevador.

Não acredita? Eu acredito. Nas vezes em que saí de casa preparada pra guerra, voltei de mãos vazias. Todos os meus namoros começaram quando eu estava completamente distraída. Mas não vale se fingir de distraída, tem que estar realmente com a cabeça na lua. Aí, acontece. O amor adora se fazer de difícil.

Pois foi meio assim que aconteceu com a universitária que foi parada numa blitz semana passada. Ela se recusou a fazer o teste do bafômetro, então teve a carteira recolhida e prestou algumas informações. Voltou pra casa e pouco tempo depois recebeu um torpedo de um dos agentes perguntando se ela estava no Facebook ou se podia dar seu MSN, porque ele gostaria de conhecê-la melhor.

Vibro com essas conspirações do destino, que fazem com que duas pessoas que estavam absolutamente despreparadas para um encontro amoroso (um trabalhando na madrugada, outra voltando de uma festa) se encontrem de forma inusitada e a partir daí comece um novo capítulo da história de cada um. Claro, levando-se em conta que ambos tenham simpatizado um com o outro, que a atração tenha sido recíproca.

Não foi o caso. A universitária não se agradou do rapaz. Acontece muito. O Cupido passa trabalho, não é fácil combinar os pares. Nesses casos, todo mundo sabe o que fazer: basta não responder ao torpedo, ou responder amavelmente dizendo que não está interessada, ou mandar um chega pra lá mais incisivo, desestimulando uma segunda tentativa.

A universitária desprezou essas três opções de dispensa. Inventou uma quarta maneira para liquidar o assunto: deu queixa do rapaz aos órgãos competentes. Dedurou o cara. Não perdoou que uma informação confidencial (o número do seu celular) houvesse sido utilizada indevidamente por um servidor público.

É duro viver num mundo sem humor. Uma cantada, uma reles cantada. Se fosse num bar, seria óbvia. Tendo sido após uma blitz, foi incomum. No mínimo, poderia ter arrancado um sorriso do rosto da garota que deveria estar pê da vida por ter a carteira apreendida.

Depois de um fim de noite aborrecido, ela teve a chance de achar graça de alguma coisa, mas se enfezou ainda mais. No próximo sábado, é provável que esteja de novo na balada, cercada de outras meninas e meninos, a maioria se queixando de que o amor não dá mole.