quarta-feira, 7 de setembro de 2022

07 DE SETEMBRO DE 2022
CARPINEJAR

As cascas da laranja

Na casa da minha mãe, ao entrar na cozinha, vislumbrará cascas de laranja nos pregos das panelas. Um santuário de espirais e serpentinas. São como heras que crescem das mãos maternas e cobrem as paredes.

Minha mãe tem o costume de descascar uma laranja no despontar do sol. É o seu gesto fundador quando acorda. Não com qualquer faca, mas com o canivete que herdou de sua mãe. Ela corta a fruta rente aos dedos, arredondando o sumo branco.

As cascas caem inteiras na mesa. Não são fatiadas. É como se uma caixinha fosse retirada de uma caixinha. Similar ao movimento de uma matriosca, o brinquedo russo - bonecas de madeira colocadas umas nas outras, que se abrem da maior até a menor.

Não parece que ela rompe uma superfície, mas apenas retira magicamente o conteúdo da laranja de seu invólucro. É o jeito que ela tem de matar a saudade da minha avó. Mata toda manhã um pouco da saudade. Só morremos quando a saudade morre totalmente conosco. Quando a saudade termina dentro de nós.

Com seus 83 anos, jamais faltou um dia ao seu compromisso com a ausência, ao encontro com o ventre das suas lembranças, com a genitora da sua delicadeza, com a sua falecida predileta.

Ela diz que reza o terço nas cascas de laranja. Encontra os nós e as pedras na textura, para dedilhar a Ave-Maria e o Pai-Nosso. A cada amanhecer, ela fabrica o seu rosário manualmente, depois o estende no alto dos azulejos.

Tal como velas acendidas religiosamente nas janelas, onde a luz entra e já encontra uma claridade habitada. Sabemos o quanto o nosso sexto sentido está no olfato.

Ela não tem nenhum retrato da sua mãe pelos cômodos e estantes. Não precisa, pois vive reconstituindo o cheiro dela: o perfume dos temperos (alecrim, manjerona, sálvia), o suor do avental, o vento gelado da cozinha do pampa que faz você aquecer as mãos sentando em cima delas.

Ela continua repartindo a primeira fruta do dia com a sua mãe. Oferecendo gomos de gratidão. Porque gratidão mesmo não se demonstra somente quando a pessoa está presente. Você segue falando bem dela pelas costas.

Mesmo sozinha, minha mãe nunca está sozinha. Nunca toma café sozinha. Nunca cozinha sozinha. Amar alguém é nunca mais ser sozinho na vida. Por debaixo das cascas da aparência, das cascas dos costumes, das cascas dos corpos, das cascas do tempo, duas almas conversam animadamente no interior dos pensamentos.

Enquanto a minha mãe come a laranja, vai segurando as sementes no punho esquerdo. Com firmeza. Com pressão. Com força. Não duvide de que tenha a mão de sua mãe na semente.

CARPINEJAR

07 DE SETEMBRO DE 2022
ARTIGOS

A FORÇA DO ECOSSISTEMA

Uma palavra que tem origem na ecologia, quando aplicada ao mundo empresarial, é capaz de impulsionar o desenvolvimento de uma região. O conceito de ecossistema surgiu na década de 1930 e, transportado aos negócios, também remete a um conjunto funcional de elementos. O ecossistema empreendedor é formado por diferentes empresas que se juntam para garantir desde o fornecimento de matéria-prima até a entrega do produto, incluindo o atendimento aos clientes. Com isso, diferentes negócios são desenvolvidos, o que transforma também a região onde eles estão.

O fundamental neste formato é entender que a empresa não é uma parte única ou um organismo isolado, mas integra um ambiente maior que interage com outros organismos daquele ambiente. Nesse ecossistema, a transparência e a ética são fatores essenciais na construção de laços de confiança. Não há crescimento ou ganhos isolados, todos estão juntos na garantia da sobrevivência e na multiplicação de conquistas.

Estamos evoluindo cada vez mais nesta direção. Deixamos de ter segredos e reservas para um modelo em que há troca de experiências entre empresas com know-how e compartilhamento de informações. E neste modelo cabe muito mais do que empresas. Cada vez mais, precisamos aproximar a academia e seu conhecimento científico deste ecossistema, integrando assim diferentes agentes. As contribuições de pesquisadores são essenciais para a segurança e a evolução de maneira que consigamos atender ao dinamismo do mercado e às necessidades da sociedade. Somente dessa forma realmente construiremos soluções disruptivas e inovadoras, baseadas na colaboração e na evolução da cultura organizacional.

Empresas múltiplas, com diferentes capacidades e habilidades - conduzidas por líderes arrojados e times inspirados em uma cultura de compartilhamento e agilidade -, trabalham melhor juntas do que apenas uma isoladamente tentando dar conta de tudo ou desintegrada do ambiente de negócios. O diálogo e o fortalecimento das conexões são fundamentais para que o ecossistema possa abrir espaço para o crescimento de empreendimentos em ambientes colaborativos. Assim, crescemos juntos, todos.

CEO do Grupo Medical San - MAURO DOS SANTOS FILHO

07 DE SETEMBRO DE 2022
OPINIÃO DA RBS

AOS 200 ANOS, CONQUISTAS E DESAFIOS

O Bicentenário da Independência, como uma efeméride especialíssima para o Brasil, deveria servir como ensejo para a reflexão sobre as conquistas do país, as dívidas ainda existentes com a população e os caminhos para o desenvolvimento. Idealmente, seria ainda um momento de congraçamento dos cidadãos nas celebrações da passagem dos 200 anos do nascimento da nação. Mas, quis o traiçoeiro destino, o 7 de Setembro de 2022 chega com a marca dolorosa de um profundo dissenso na sociedade, acentuado pela aproximação da mais tensa eleição da trajetória democrática nacional. É preciso superar este momento traumático, como o país já se mostrou capaz em episódios do passado.

Desde que se separou de Portugal, são diversas as passagens históricas que moldaram o Brasil de hoje, com suas virtudes e mazelas. Foram avanços obtidos pelo esforço de todos os brasileiros, assim como é tarefa coletiva suplantar os desafios que se apresentam. No século 19, o país passou por conflitos internos, mas conseguiu manter a unidade territorial, ao contrário da porção de língua espanhola da América do Sul. Aboliu _ tardiamente _ a escravidão e de império se transformou em república.

Ao longo do século 20, urbanizou-se e industrializou-se, passou por períodos ditatoriais e democráticos, tornou-se uma das principais economias do mundo, formulou a Constituição Cidadã e começou a se consolidar como uma das grandes potências globais do agronegócio. Especialmente nas últimas décadas, fez progressos substantivos que significaram melhor qualidade de vida, como a estabilização da moeda com o Plano Real, a grande redução da mortalidade infantil e o movimento de universalização do acesso ao Ensino Fundamental. De caráter pacífico, o Brasil fez do softpower seu grande meio de influência, em áreas como o esporte, as artes, o meio ambiente e pela imagem de um povo criativo, afável e alegre.

Passaram-se 200 anos do brado de Dom Pedro às margens do Riacho Ipiranga e, embora existam razões para orgulho, o projeto de nação resta incompleto e a pátria ainda está distante de ser a mãe gentil cantada no Hino da Independência. A visão de país do futuro permanece uma quimera. Os mais de 210 milhões de habitantes padecem com a violência, o ensino de baixa qualidade, a desigualdade social e racial e o baixíssimo crescimento do PIB e da renda nas últimas décadas. O país, com sua gente trabalhadora, envelhece sem ter enriquecido antes. Claudica nas reformas que poderiam destravar o potencial econômico e, incrível, hoje se vê às voltas com a necessidade de reiterar a obviedade de que a democracia é inegociável.

Não é aceitável, no entanto, resignar-se como se o subdesenvolvimento fosse o destino do Brasil. Existem, aqui, condições inigualáveis para reencontrar a trilha do progresso. Os requisitos são conhecidos. A base dessa virada está na educação, um desafio maior e mais urgente devido à pandemia. Só o conhecimento é capaz de forjar indivíduos mais produtivos e conscientes de sua cidadania - a fórmula do crescimento com inclusão.

Esse possível salto tem ainda como fator-chave a compreensão de que a economia verde tende a ser a próxima grande onda global. É uma área em que o Brasil tem um incomparável potencial por reunir plenas condições de conciliar preservação dos recursos naturais com desenvolvimento em áreas como biotecnologia, energia limpa e produção de alimentos. Mas é indispensável, por outro lado, garantir segurança jurídica e persistir em reformas que tornem o ambiente de negócios no Brasil menos hostil aos empreendedores e ajudem a atrair investimentos.

Mas essa jornada modernizante e civilizatória tem pré-requisitos. Um dos mais basilares é o apaziguamento social. Outro é um esforço para a sedimentação da confiança dos brasileiros nas instituições, fortalecendo-as, para assim restabelecer a plena harmonia entre os poderes da República, consolidando e robustecendo a jovem democracia brasileira. Esse é o regime em que a vontade das maiorias legitimamente se sobrepõe, mas com respeito e proteção às minorias. É o sistema que permite a convivência plural, zela pela livre circulação das ideias e privilegia o respeito e o diálogo para a construção dos consensos que poderão entregar para as gerações vindouras, enfim, o prometido país do futuro. Mais próspero, justo e pacificado e motivo de orgulho para todos os seus cidadãos. 



07 DE SETEMBRO DE 2022
CHAMOU ATENÇÃO

Museu do Ipiranga ressurge

Após nove anos fechado para o público, o Museu do Ipiranga da USP, em São Paulo (SP), foi reinaugurado para convidados na noite de ontem em cerimônia oficial. Segundo informações da plataforma g1, o evento contou com a presença de autoridades como o secretário de Governo da prefeitura de São Paulo, Marcos Penido, o secretário da Cultura do Estado, Sérgio Sá Leitão, e o príncipe Dom Luiz de Orleans e Bragança, que representava a família real.

Ainda segundo o g1, além de discursos de autoridades, foi realizada apresentação da Orquestra Sinfônica da USP. Os convidados também fizeram uma visita guiada pelo espaço revitalizado.

A reabertura do museu estava marcada para hoje, quando se comemora o bicentenário da Independência do Brasil, mas foi antecipada para evitar que manifestações políticas prejudicassem o evento.

A obra teve o custo total de R$ 235 milhões, custeados pela Lei de Incentivo à Cultura, por investimentos privados sem incentivo fiscal e também aportes públicos feitos pelos governos do Estado e federal. Além da restauração do prédio, um novo setor foi construído, dobrando a área do museu fundado em 1885. Agora, o local conta com mais espaços expositivos, um mirante e recursos de acessibilidade. Na área externa, foi feita a restauração do jardim francês.

Com 11 novas exposições, o museu vai exibir em torno de 3,7 mil itens. Entre os destaques, estão o quadro Independência ou Morte, de Pedro Américo, objetos de Santos Dumont e uma maquete de gesso que representa a cidade de São Paulo em 1841.

Neste feriado de 7 de Setembro, o museu abre apenas para as famílias dos operários que trabalharam ao longo dos três anos de obras e para estudantes e professores de escolas públicas. Porém, o Parque da Independência, que fica no entorno, estará aberto a partir do meio-dia e, à noite, contará com programação de shows para celebrar a reabertura.

Estão programadas apresentações de João Carlos Martins, Juliette, Vanessa da Mata, Fafá de Belém, Criolo, entre outros.

O Museu do Ipiranga reabrirá ao público geral amanhã. Paralelamente, até o dia 11 de setembro, haverá no local uma série de apresentações culturais de música, dança, teatro e circo, que serão transmitidas online. Os festejos terão atrações como Gabriel Sater, Geraldo Azevedo e a banda Melim.

terça-feira, 6 de setembro de 2022


06 DE SETEMBRO DE 2022
CARPINEJAR

Juventude não pode jogar a toalha

O Juventude não pode jogar a toalha. A desmobilização precipitada é inadmissível, é covarde. O vice-presidente de futebol do clube, Osvaldo Pioner, já admite "começar a série B com as contas em dia".

A resignação não é realismo, mas desespero antecipado. O Verdão do Sul tem ainda 13 rodadas, 39 pontos a disputar no Brasileirão, sendo seis partidas no Alfredo Jaconi com o apoio fervoroso do caldeirão caxiense.

Se a torcida colorada sonha com o título brasileiro, a oito pontos do Palmeiras, a torcida do Juventude pode confiar na permanência na Série A, já que dista exatamente oito pontos do Cuiabá, o primeiro time fora do rebaixamento. É o mesmo quadro, do alto para baixo.

Juventude é grande e não deve jamais pensar pequeno. Para o campeão da Copa do Brasil (1999), única equipe do Interior a disputar Libertadores e Sul-Americana, não há o que temer. Desfruta de camisa, tradição e feitos surpreendentes para se inspirar, não é nanico, não está entre os maiores por acidente ou favor.

Acreditar é atrair. Se a direção abandona espiritualmente o campeonato na metade - ainda estamos na metade -, só passará a imagem aos adversários de plantel inofensivo cumprindo a tabela. Será atropelado. Será riscado do mapa. Será menosprezado.

Ainda que o retrospecto não seja favorável - o time se encontra na lanterna, com 18 pontos em 25 rodadas, há seis jogos sem vencer na competição -, futebol não é uma ciência exata, tem o Sobrenatural de Almeida (expressão de Nelson Rodrigues) combatendo a arrogância das estatísticas.

Que ele se mire no exemplo do Fluminense em 2009, que tinha 99% de chance de rebaixamento, com míseros 18 pontos em 24 jogos. Conseguiu o impossível 1%: seis vitórias e um empate nas sete batalhas que restavam.

É sempre temerário e imprevisível o descenso. A receita da televisão se reduzirá drasticamente. Perde-se a vitrine para contratações. Patrocinadores são capazes de não renovar nos mesmos termos.

A última vez em que isso aconteceu, em 2007, após 13 anos consecutivos na elite, teve efeitos catastróficos. Juventude caiu em seguida para a C, e depois para a D, quase fechando a tampa do caixão das suas finanças.

Nesta hora, a cicatriz precisa doer para repor o ânimo. O juventudista não pode se esquecer do calvário, do quanto foi penoso, sofrido, assustador emergir de novo. Vejo que é mais em conta se agarrar ao fio da corda atual do que repetir o perigoso rapel de retorno.

Até entendo o que o presidente do Juventude, Walter Dal Zotto Jr., está passando sem enxergar nada pela frente. Mas, como filho de ex-presidente (Walter Humberto Dal Zotto), como gringo, não deve temer a cerração fechada.

Acostumado com esse fenômeno natural na Serra, ele bem sabe que o blecaute é provisório. Como diz o ditado, "cerração baixa, sol que racha". É dar a vida pela luz que virá. Melhor lutar contra a calculadora do que contra a própria esperança.

Rio Grande do Sul, pelo seu tamanho, prestígio e influência, merece ter três times na Série A em 2023.

CARPINEJAR

06 DE SETEMBRO DE 2022
ARTIGOS

DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS

Uma situação ocorrida durante sessão de julgamento do Tribunal de Justiça do Amazonas, há algumas semanas, ganhou repercussão nacional com a divulgação de um vídeo do momento em que um desembargador repreendia a advogada devido aos sons que sua bebê fazia. Segundo o magistrado, tais ruídos tiravam a concentração e atrapalhavam a sessão virtual. O caso faz pensar sobre os obstáculos enfrentados pelas mães que trabalham.

No início da sessão, a advogada pediu preferência na sua sustentação oral, pois precisava amamentar a filha, o que foi negado pelo desembargador e representa violação à Lei 13.363/2016, que alterou o Estatuto da OAB e o código de processo civil para prever, entre outros direitos, a preferência nas sustentações orais para a advogada lactante. A lei foi criada após um episódio semelhante, em 2013, no CNJ.

Não bastasse a reprimenda pelos ruídos da bebê, o desembargador, inexplicavelmente, questionou a ética da advogada. Isto é, mãe teve seu direito legal de preferência negado e, por estar com a filha no colo, sua conduta foi considerada antiética. A ordem era para que a criança fosse colocada em ambiente apropriado. O que faria a mãe, que precisava trabalhar e amamentar, não deve ter sido ponderado pelo julgador, por óbvio.

Curiosamente, menos de uma semana antes, um advogado levou o filho de um ano a uma sessão presencial do Superior Tribunal de Justiça. Nesse caso, o pedido de preferência foi atendido com base na Constituição Federal e no Estatuto da Criança e do Adolescente, além de o pai ter ganhado elogios dos ministros e a repercussão ter sido positiva.

As reações diferentes à mesma situação não surpreendem, afinal, a maternidade ainda é vista como dever, e a paternidade, como mérito. Ocorre que o Poder Judiciário, que deveria ser exemplo de empatia e respeito aos direitos das mulheres, sobretudo da mulher advogada, neste caso, optou por ser espelho da nossa sociedade desigual e machista. 


06 DE SETEMBRO DE 2022
ACAMPAMENTO FARROUPILHA

Programação especial para o Galpão RBS

No mês mais regionalista do ano, o Grupo RBS celebra a paixão pelo Rio Grande do Sul com o público. Entre os dias 7 e 20 de setembro, a empresa se junta às milhares de pessoas que circulam no Parque Maurício Sirotsky Sobrinho, em Porto Alegre, e abre as portas do Galpão RBS no Acampamento Farroupilha para proporcionar diferentes atrações aos tradicionalistas.

Localizado na parte central do Parque, o Galpão RBS poderá ser visitado diariamente, mediante lotação. O espaço permitirá ao público acompanhar a atuação dos veículos e comunicadores do Grupo RBS com transmissões e gravações de programas das rádios Gaúcha, Atlântida e 92.

Amanhã, mesmo dia em que se iniciam os festejos oficialmente do acampamento, as jornalistas Andressa Xavier, Giane Guerra e Rosane de Oliveira estreiam a programação do Galpão RBS com a apresentação do Atualidade.

O espaço, que tem patrocínio de BIG/Nacional, apoio de Isabela e com cota de ativação para Suvinil, também será palco da gravação do Cardápio do Zé, programa da Gaúcha comandado pelo jornalista José Alberto Andrade com convidados especiais.

Além das transmissões, o Galpão RBS receberá o Show dos Fagundes, marcado para ocorrer no último domingo do Acampamento Farroupilha, dia 18, às 15h.

Revisitação

Para além da programação no evento, em homenagem ao Dia do Gaúcho, comemorado em 20 de setembro, a RBS TV irá exibir um programa especial que revisita a história da Revolução Farroupilha com música, dança e poesia.

Sob o comando dos apresentadores Shana Müller e Neto Fagundes, a atração será transmitida no dia 17, às 14h50min, direto de Guaíba, no casarão onde viveu Gomes Jardim, considerado oficialmente o primeiro presidente da República Rio-Grandense.


06 DE SETEMBRO DE 2022
NÍLSON SOUZA

Anjos da guarda

Acho que nunca tive um anjo da guarda de asas negras e olhos verdes, como tinha o poeta Mario Quintana, nem jamais avistei um desses seres mitológicos voando de cabeça para baixo como imaginou o poeta na divertida concepção do seu personagem Malaquias. Mas de vez em quando meu agnosticismo adquirido vacila diante de fatos inexplicáveis.

Esse episódio da Cristina Kirchner, por exemplo. Alguma coisa sobrenatural deve ter ocorrido para aquela pistola falhar. Os conhecedores de armas dizem que a causa do engasgo pode ter sido munição velha, disparador com defeito ou mesmo imperícia do atirador, mas eu suspeito seriamente de uma intervenção divina. Precedentes não faltam: o papa Francisco, "la mano de Dios", esses argentinos são cheios de surpresas...

Estudiosos de assuntos esotéricos garantem que cada ser humano já nasce com um anjo protetor, que é pessoal e intransferível. Pena isso, pois seria bom contar com os serviços, mesmo que temporários, desse guardião celestial que segurou a bala fatal no bairro Recoleta. Ou daquele outro que sugeriu o assento no avião da Chapecoense ao gaúcho Alan Ruschel, que saiu inteiro da tragédia e continua chutando bola por aí.

Brinco, mas tenho o maior respeito pelas pessoas que confiam no seu anjo da guarda, pois elas costumam usar a própria espiritualidade para o bem e esbanjam a autoconfiança de se sentirem protegidas. Além disso, se atribuirmos tudo o que nos acontece apenas à casualidade, a vida perde muito do seu encanto e do seu sentido. Mais: há que se considerar a conotação simbólica. Um anjo da guarda não é, necessariamente, a luz ofuscante e indecifrável, como muitas vezes é descrito. Pode ser também aquele amigo ou amiga fiel que nos apoia sempre, pode ser o animal de estimação carinhoso que nos acompanha sem reclamar e até mesmo a nossa legítima impressão de companhia de afetos que já passaram para outra dimensão. Não importa: se você crê, ele existe

Nesse sentido, é também inegável a existência de conhecidos e anônimos anjos da guarda da humanidade, aquelas pessoas que se tornam protetoras de seus semelhantes pela prática do amor desinteressado, de cuidados pessoais, de orações sinceras e de ações beneficentes. Mesmo quando não creio em anjos, sou devoto incondicional desses serafins e querubins do faça o bem sem olhar a quem.

Mas é preciso reconhecer: poucos superam em eficiência aquele da senhora Kirchner, que segurou a bala e ainda fez com que ela se abaixasse para juntar um livro estrategicamente lançado ao chão.

NÍLSON SOUZA

06 DE SETEMBRO DE 2022
CHAMOU ATENÇÃO

Corrida pelo sonho de ouro

Em julho de 2017, um acidente de moto mudou a vida de Wallison Fortes, 26 anos, morador de Eldorado do Sul, na Região Metropolitana. Por conta das lesões, ele precisou amputar parte da perna direita. No entanto, usou o acontecimento como inspiração para lutar novamente por aquilo que, devido à idade, acreditava que não conseguiria mais: seguir carreira no esporte.

Hoje paratleta no atletismo, Wallison é recordista brasileiro nos 200 e 400 metros rasos. O próximo grande passo é participar dos Jogos Paralímpicos de Paris 2024. Para isso, é exigido pelo Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) que o atleta tenha uma classificação internacional - algo que ainda não possui.

Para ter a tão sonhada classificação, Wallison viajará no próximo dia 11 para o Marrocos, onde disputará a sexta edição da Para Athletics Meeting Marrakech. Embora resida em Eldorado, o atleta passa mais tempo em Porto Alegre, no Centro Estadual de Treinamento Esportivo (Cete), onde treina seis vezes por semana.

Porém, mais do que conquistar medalhas, ele quer espaço para ser ouvido. Wallison sonha em contar histórias de superação e falar sobre os problemas diversos que pessoas com deficiências físicas enfrentam:

- Hoje, se tiram a deficiência de mim, acabam com o meu sonho. Mas nem todo mundo pensa da mesma forma, isso que quero mostrar para o máximo de pessoas possível - revela.

Produção: Leonardo Bender

segunda-feira, 5 de setembro de 2022


05 DE SETEMBRO DE 2022
CAPA

Brado de mil encantos

Da criação até a longa trajetória ao sucesso, conheça histórias que falam da ascensão de "Querência Amada" a hino informal do Estado

Como se fosse uma regra de etiqueta, quando um artista popular visita o Rio Grande do Sul e quer agradar ao público local, convém tocar e interpretar Querência Amada. A música é uma bola de segurança, já que os gaúchos sempre respondem extasiados. Algumas vezes, é comum bradarem "Ah, eu sou gaúcho" na se- quência. Thiaguinho, Gusttavo Lima, KLB, Leonardo, Maiara e Maraisa e por aí vai: a lista de versões de Querência Amada em apresentações no Estado é extensa, o que se pode conferir em uma busca no YouTube. Porém, se hoje é um dos hinos informais do RS, a música só foi explodir anos após a morte de quem a criou.

Composta por Teixeirinha, é a segunda faixa do lado A do disco Aliança de Ouro, de 1975. Trata-se de um xote de exaltação ao RS, enfatizando a paisagem, as personalidades políticas, as mulheres, os gaúchos e até um pouco de autoafirmação, além de criar uma imagem divina regionalista ("Deus é gaúcho/ De espora e mango/ Foi maragato ou foi chimango").

Segundo o jornalista Daniel Feix, autor da biografia Teixeirinha: Coração do Brasil, Querência Amada reflete uma parte da persona do cantor e compositor, que incorpora em suas canções a ideia de exaltação da terra, o que inclui locais (Gaúcho de Passo Fundo, Xote Soledade e Capão da Canoa) e personalidades (de Presidente Médici a Ieda Maria Vargas com Miss Universo 63).

A música foi composta em um período de maturidade do artista, em que seu método de criação passou a variar. Feix descreve na biografia que Teixeirinha "escrevia em fluxo de consciência, registrando na ponta da caneta as ideias conforme surgiam em sua cabeça".

Só que além da canção (ele lançava pelo menos um disco de inéditas por ano), o cantor também desempenhava outras atividades - como no cinema e com seu próprio programa de rádio, Teixeirinha Amanhece Cantando. Por conta dessas demandas, a partir dos anos 1970, ele passou a sistematizar sua produção artística.

- Teixeirinha enviava as canções para a gravadora, para as pessoas que confiava, e gravava logo em seguida. Esse era um sistema que fazia a roda girar. Acho que até por isso Querência Amada talvez não tenha feito tanto sucesso naquele ano - explica o biógrafo.

Apesar de ser a canção mais regravada de Teixeirinha e ter se tornado uma das músicas mais populares do regionalismo gaúcho, Querência Amada não foi uma música de trabalho (single) do disco Aliança de Ouro. Para Feix, talvez tenha havido um descompasso com o que a gravadora esperava, sem ter se dado conta do potencial que tinha em mãos. A sistematização do músico também pode ter contribuído para a faixa ter passado despercebida:

- Ele produzia muito e reservava algumas músicas com enorme potencial, mas que acabavam nem estourando porque não dava tempo.

Póstumo

Duas décadas depois de lançada, Querência Amada estourou. Teixeirinha já havia partido em 4 de dezembro de 1985. Foi na versão de Oswaldir & Carlos Magrão que a canção se popularizou - em especial, com sua levada country e sua introdução com guitarra.

A ex-dupla - hoje cada um segue carreira solo - regravou Querência Amada pela primeira vez enquanto ainda vivia em São Paulo (SP), e a faixa entrou no repertório do disco Velha Gaita (1993), pela gravadora Continental. Os dois estavam na casa de um amigo, que tinha uma coleção de discos de Teixeirinha.

Entre a audição de uma música e outra do artista, Querência Amada surgiu. Carlos Magrão lembrou de seu pai, que costumava ouvir e cantar a canção. Ele recorda que, como estavam longe do Estado, a música "bateu forte no coração" pela saudade. Já Oswaldir relata que pegou o violão e anunciou: "Vamos mudar isto aqui".

- Como venho de um outro segmento musical, que foi o rock and roll, pensei: "Vamos botar um country aí". Fiz aquela levada que está aí até hoje - assinala Oswaldir.

Os dois voltaram ao Rio Grande do Sul em 1995 e assinaram com a gravadora Acit. No disco lançado no ano seguinte, que leva o nome da dupla, incluíram uma versão mais polida de Querência Amada - pela qual ficaria difundida.

Mas a música também teria um empurrãozinho do esporte: o zagueiro Adílson Batista, que jogava pelo Grêmio na época, chegou a cantá-la nos programas de esporte. A faixa também embalou trilhas de reportagens do Grêmio de Felipão, campeão brasileiro em 1996. Só que a canção transcende o futebol.

Carlos Magrão corrobora: - Embora não seja uma letra nossa, ficou conhecida pela nossa característica. O arranjo que a gente trouxe também foi inovador para a época, tiramos a gaita e incluímos uma guitarra country nela.

A partir da versão de Oswaldir & Carlos Magrão, Querência Amada se consolidou como um dos hinos informais do RS sendo tocada por aqui e por artistas de fora como afago aos gaúchos ou lembrada acima do Mampituba.

Fora do Estado, Querência Amada é muito pedida, aponta a cantora regionalista Nair Teresinha:

- Ela engrandece o Rio Grande do Sul naquele último refrão que arrepia! Acho que esse é o valor todo que a canção tem, de trazer para a gente a lembrança. Eu tive a experiência de viver em outros Estados e essa música me tocava.

Sobre o sucesso tardio de Querência Amada, anos após a morte de Teixeirinha, Feix observa:

- É mais impressionante isso não ter acontecido antes, porque é uma música que tem essa exaltação forte. Parece que nasceu para ser um hino informal do Rio Grande do Sul.

 WILLIAM MANSQUE



05 DE SETEMBRO DE 2022
ARTIGOS

ECONOMIA CIRCULAR: COMO COLOCAR EM PRÁTICA

Fabiana Quiroga - Diretora de Economia Circular da Braskem na América do Sul

A referência à economia circular é cada vez mais comum quando o assunto é o meio ambiente e a busca por soluções mais sustentáveis. As pessoas a conectam com reciclagem de resíduos e retorno à produção, mas a economia circular é mais ampla. Inclui a priorização da utilização de energia e matéria-prima renovável, reuso, consumo consciente e produção com menos geração de resíduos e emissões.

Nesse contexto, o design do produto é bastante relevante. A sua concepção deve considerar o menor impacto e como facilitar o seu retorno ao ciclo. Na Braskem, as iniciativas relacionadas à economia circular estão alinhadas ao seu compromisso de produzir 300 mil toneladas de produtos com conteúdo reciclado até 2025, 1 milhão de toneladas até 2030 e recuperar 1,5 milhão de resíduos plásticos até o mesmo ano.

Neste mês, foi inaugurado o Cazoolo, primeiro Centro de Desenvolvimento de Embalagens para Economia Circular, um investimento de R$ 20 milhões. Para aumentar a reciclagem mecânica, a Braskem desembolsou R$ 121 milhões para comprar 61,1% da recicladora Wise Plásticos. Em março, lançou a primeira planta de reciclagem em parceria com a Valoren, com um investimento de R$ 67 milhões. Para os resíduos com maior dificuldade de reciclar, desenvolvemos a reciclagem avançada, processo que transforma os resíduos plásticos em matéria-prima circular.

São iniciativas que contribuem para a entrega de um futuro mais sustentável, e cada um de nós tem o seu papel, começando com o consumo consciente e o descarte adequado. Empresas, instituições e o poder público devem trabalhar juntos para ampliar a coleta e a separação e incentivar a inclusão das cooperativas e investimentos em gestão de resíduos e reciclagem.

O conceito de economia circular é uma jornada que está iniciando e é importante concretizar esse caminho com o engajamento de todos.


05 DE SETEMBRO DE 2022
OPINIÃO DA RBS

A IMPORTÂNCIA DOS LEGISLATIVOS

Recente pesquisa publicada pela escola de renovação política RenovaBR, com 1,5 mil eleitores em todo o país, revelou que somente 15% dos entrevistados garantiram lembrar em quem votaram para deputado em 2018. Mais da metade admitiu sequer saber o que faz um parlamentar. Não chega a ser surpreendente. Levantamentos anteriores mostraram resultados parecidos. O ideal para a democracia brasileira seria que essa indiferença fosse revertida.

É uma característica das eleições do país, onde os pleitos para governos e Legislativos são realizados de forma concomitante, que o público concentre as maiores atenções nas disputas à Presidência da República e ao comando dos Estados e dos municípios. A concorrência pelo Poder Executivo é a que costuma mover as maiores paixões e, por isso, passa a ser acompanhada mais de perto, enquanto a competição pelos parlamentos muitas vezes evolui sem despertar um interesse à altura da relevância do papel que desempenham.

É comum o eleitor decidir o voto em um vereador, deputado ou senador na reta final do pleito. Muitas vezes, infelizmente, a escolha se dá por critérios que não são os melhores, como a sugestão de um conhecido ou familiar, simpatia pessoal ou, pior, pelo caráter exótico do candidato.

Os gaúchos vão às urnas no dia 2 de outubro para eleger 55 deputados estaduais, 31 federais e um senador. Trata-se de uma escolha de grande responsabilidade e importância, pela função essencial dos Legislativos na democracia. Parlamentares formulam leis, discutem e votam temas que têm impacto direto no dia a dia da população, como mostrou reportagem de Carlos Rollsing publicada na última superedição de Zero Hora. Alteram proposições dos Executivos, fiscalizam os atos dos governos e têm ainda a atribuição de interferir no orçamento público, zelando pela melhor alocação possível dos recursos oriundos dos impostos recolhidos junto a cidadãos e empresas. Senado, Câmara Federal e Assembleias estaduais são pilares do sistema de freios e contrapesos da democracia.

Os Legislativos são conhecidos como "casa do povo". Nos parlamentos estão presentes as várias representações da sociedade. Vencem as maiorias, mas as minorias têm voz, dando pluralidade e vigor ao saudável confronto de ideias. No entanto, há queixas e críticas devido ao fato de muitas vezes legislarem em causa própria ou votarem matérias irrelevantes, como propor nomes de ruas e datas simbólicas. 

Mas, se existem reparos quanto a desempenho e posturas dos representantes da população, é dever ainda maior do eleitor buscar informações sobre biografia, atuação e propostas dos candidatos para decidir quem sufragará. Ao refletir e definir o voto de maneira consciente, os cidadãos diminuem as chances de errar e, se for necessário, têm mais legitimidade para cobrar. Compreender e dar a devida importância à eleição para os Legislativos é uma forma de contribuir para o aperfeiçoamento da democracia.

 


05 DE SETEMBRO DE 2022
+ ECONOMIA

Shopping adiado

O parque público à beira do Guaíba será aberto em outubro, como previsto, mas a abertura das lojas do Pontal Shopping (acima, a maquete), anunciada para novembro, foi adiada até abril de 2023. Segundo a administração, foi pedido dos lojistas para ter mais tempo de preparar os espaços entregues em agosto por SVBPar e Melnick. A primeira operação do shopping, uma megaloja da Leroy Merlin, funciona desde maio. Em outubro, devem se iniciar as operações do hotel Double Tree by Hilton, e começa a entrega das salas comerciais na torre.

ARRI COSER Presidente do conselho do Grupo MDR

Quando assumiu sua primeira churrascaria, a Fogo de Chão, Arri Coser não imaginava que, décadas depois, a marca estaria espalhada pelo mundo. Menos ainda que ele, com parte do dinheiro da venda, teria um grupo gastronômico com 22 unidades que devem empregar, até o final do ano, 800 pessoas. A origem do grupo MDR foi o restaurante Na Brasa (hoje NB), depois veio a compra do Maremonti. Na última quinta-feira, Coser inaugurou uma nova rede, Avec. É um dos passos de um ambicioso, mas cauteloso, plano de expansão, que prevê novas marcas também em Porto Alegre, onde tudo começou.

Chegou a hora de desengavetar a expansão?

Sim, esses projetos eram de 2020, que engavetamos porque não sabíamos o que ia acontecer. Acabamos de abrir um novo conceito em São Paulo, o Avec, que tem sotaque francês mas faz comidas do mundo, vai de sanduíches a pratos elaborados. Fizemos um quarteirão gastronômico com nossas três marcas. E duas operações que não são nossas, Pirajá Bar e Dengo Chocolate.

Vai ter só em São Paulo ou chegará a Porto Alegre?

A ideia é abrir uma de cada rede de restaurantes em Porto Alegre em 2023. Vamos com o Maremonti e, depois de ver como se comporta o Avec, levar também.

Os gaúchos conhecem pouco o Maremonti, qual é a história?

Nós fundamos o grupo em 2012, com o Na Brasa, em 2014 abrimos em São Paulo. No final de 2014, compramos o Maremonti, quando havia só três unidades. Agora são 12. É uma trattoria e pizzaria em que todos os ingredientes, do tomate à farinha, vêm da Itália.

Para restaurantes, a pandemia foi mais difícil?

Foi uma surpresa, não se sabia como trabalhar. Mas foi um aprendizado. No próximo problema, estaremos mais preparados. Vimos que o time estava engajado, valente. Agora estamos fazendo a nossa parte, em meio à incerteza, vamos investir e gerar mais emprego. Temos confiança de que o país vai dar certo.

O que dá essa confiança?

É um projeto de 20 ou 30 anos, de longo prazo. Quantos governos vão entrar e sair nesse período? Na pandemia, aprendemos a ser mais cautelosos, contrair o menos possível de dívidas. Com muitas, talvez não tivéssemos sobrevivido.

Como vêm reagindo as operações dos restaurantes?

Desde maio, vem superando 2019 em faturamento e fluxo. Mas a inflação consumiu a margem de lucro. A arroba do boi foi de R$ 140 a R$ 350. Temos de repassar aos poucos. Ainda falta um bom pedaço. As refeições fora de casa ainda vão ter reajustes neste ano e no próximo.

Como o grupo investe sem fazer dívidas?

Estávamos capitalizados em 2020. Deixamos de fazer aquisições e usamos o caixa para manter as lojas. O que sobrou, estamos colocando na expansão. É tudo com recursos próprios.

Imaginava ter um grupo desse tamanho?

Nunca pensei. E não imaginava que venderia uma rede 30 anos depois e criaria outra, que já tem 10. O que aprendi lá atrás tornou o caminho mais fácil.

MARTA SFREDO

05 DE SETEMBRO DE 2022
CHAMOU ATENÇÃO

Na pele de heróis e vilões

No que mais parecia um multiverso da loucura, Harry Potter, Salvador Dalí, Mickey Mouse, Princesa Leia, Homem-Aranha e Naruto perambulavam livremente pelo mesmo ambiente. Enredo de alguma história em quadrinhos ou filme da cultura pop? Não. Apenas o retorno da ComicCon RS (CCRS), realizado nesse fim de semana na Universidade La Salle, em Canoas.

Depois de dois anos sem ocorrer presencialmente devido à pandemia, a maior convenção de quadrinhos e cultura pop do Estado voltou a receber o público. Pelas fotos tiradas com itens nerds e alta movimentação nos diversos espaços do evento, ficou claro que os fãs ansiavam por esse reencontro.

Desfile

Um dos principais atrativos foram os desfiles de cosplayers, com presença de público que surpreendeu os organizadores.

- É a primeira vez que existe um nicho forte de pessoas que chegam interessadas em ver o concurso de cosplay - comemora Émerson Vasconcelos, criador da CCRS.

A própria procura pelo evento demonstra a animação do público após o fim do período mais duro da pandemia. O Artists Alley foi um dos pontos altos, com média de 120 artistas expondo seus trabalhos, a maioria gaúcha, sendo classificado como o maior Artists Alley da história do Rio Grande do Sul, conforme o organizador.

Os painéis com artistas e especialistas sobre temas variados também atraíram muitos fãs. A CCRS 2022 contou ainda com estandes de lojas geek, sessões de autógrafos, food trucks e apresentações de k-pop. Além disso, o público pode conferir salas temáticas de Star Wars e Harry Potter e espaços "instagramáveis" com temas como Stranger Things e O Estranho Mundo de Jack. 

FERNANDA POLO

sábado, 3 de setembro de 2022


03 DE SETEMBRO DE 2022
TEATRO

APRENDIZADO PELA DIFERENÇA

Luiz Fernando Guimarães e Bruno Gissoni estrelam a peça "Ponto a Ponto"

Dois atores de peso farão o público rir e se emocionar em duas apresentações no Teatro do Bourbon Country (Av. Túlio de Rose, 80), em Porto Alegre, no sábado, às 17h30min e às 20h30min. Luiz Fernando Guimarães e Bruno Gissoni desembarcam na Capital com a comédia Ponto a Ponto - 4000 Milhas (veja detalhes sobre ingressos na página 6). A trama foca no distanciamento entre as pessoas, provocando uma reflexão sobre família por meio do relacionamento entre avó e neto.

A montagem apresenta Guimarães com seu humor de sempre, mas de modo inusitado: ele interpreta Vera, uma idosa que vive sozinha na cidade e que recebe a visita inesperada do neto Léo (Gissoni). O jovem, que gosta de se aventurar de bicicleta pelas montanhas, chega ao apartamento da avó após vivenciar uma situação traumática. O diálogo entre avó e neto faz emergir diferentes temas e pontos de vista que transformam a relação, permitindo ao público perceber o que aproxima e o que distancia os dois.

Relações familiares, política, idade, morte, distanciamento e solidão são temas presentes na relação mais próxima que os dois passam a desenvolver. O jovem está lidando com o luto, e estar próximo à avó ajuda a suportar esse momento difícil. Vera, por sua vez, se incomoda com as consequências da idade em sua vida solitária. A chegada inesperada do neto a faz perceber que gosta de estar ao lado dele, apesar de ter o cotidiano revirado por sua presença. A relação de Léo e Vera, no decorrer da peça, segue diferentes direções, não lineares.

- O que os distancia é tudo. A postura dele e a postura dela, o fato de ele não saber exatamente nada da vida ainda. Ele é um caminhante, um andante por aí, e ela é uma mulher muito estruturada, viúva de cinco maridos, com uma vivência - afirma Guimarães.

Relacionamentos

O texto já foi montado em diversos países e chega ao Brasil adaptado e dirigido por Gustavo Barchilon. Escrito por Amy Herzog, teve sua primeira montagem nos EUA, na Broadway, em 2011.

No espetáculo, entra em cena ainda a atriz Renata Ricci, interpretando dois papéis: Rebeca e Amanda. Com a ajuda delas, avó e neto se reconhecem em vários aspectos da vida, mesmo tendo pontos de vista divergentes. Assim, mais do que mostrar como um assunto é visto por duas pessoas de modo oposto, Ponto a Ponto é sobre relacionamentos.

- A peça aborda muitos temas, entre eles esse distanciamento entre as pessoas. O título, Ponto a Ponto, faz essa referência - explica Gissoni.

- E as 4 mil milhas são de distância. Esse tempo todo de pandemia fez com que as pessoas perdessem a comunicação, e o fato de a gente fazer teatro aproxima as pessoas, que estavam ávidas para ficar juntas, se tocar, ver uma peça, para sair - complementa Guimarães.

Ao chegar na casa de Vera, Léo encontra o conforto e o carinho de um familiar enquanto passa pelo processo de luto. Ele redescobre, assim, os laços com a própria avó, que lhe dá lições, lhe fala sobre a vida e abre seu coração. Ele, em troca, puxa Vera para a realidade. Deste modo, os dois vão se ajudando mutuamente - e as 4 mil milhas de distância vão diminuindo.

- Vendo a reação do público, é muito mais uma peça de aproximação de quem a gente ama, é uma peça que fala sobre diálogo. As pessoas saem muito emocionadas e muito felizes, porque também é uma peça muito divertida. Bate em um lugar muito sensível no coração de cada um - destaca o intérprete de Léo. 

FERNANDA POLO

03 DE SETEMBRO DE 2022
MÚSICA

CANÇÕES DE TOQUINHO PARA TODAS AS IDADES

Artista apresenta o show "55 Anos de Música" no Theatro São Pedro, que também recebe no fim de semana musical infantil com composições suas

Toquinho é um artista ocupado. Está sempre trabalhando, com o violão nas mãos. Por isso, atendeu à ligação da reportagem de ZH no meio do ensaio de preparação para a sua turnê pelas principais capitais do país. Ao fundo, dava para ouvir que ele terminava a sua participação na canção Fogão de Lenha, clássico nas vozes de Chitãozinho & Xororó.

- Estamos passando uma série de opções para o show. E por que não Fogão de Lenha? A Camila (Faustino, que o acompanha) canta muito bem o sertanejo, e talvez com um acordeom possamos fazer, sim, em Porto Alegre - adianta Toquinho.

O artista apresentará o show 55 Anos de Música, levando ao público grandes sucessos de sua trajetória, que conta com hits atemporais que vão de Aquarela e Carta ao Tom 74, passando por Tarde em Itapuã e Regra Três, até O Pato e Samba pra Vinicius. No total, são mais de 300 composições e 80 álbuns gravados.

O show será no Theatro São Pedro (Praça Marechal Deodoro, s/nº), neste sábado, às 21h. Os ingressos estão sendo vendidos pelo site teatrosaopedro.rs.gov.br (veja detalhes na página 6). Acompanhado de uma banda a que considera "excepcional", Toquinho espera que a comemoração seja repleta de informalidade e descontração, em um espetáculo que busca ser, ao mesmo tempo, grandioso e intimista.

- O show vai ter um apanhado da minha carreira e estou tentando colocar as canções mais importantes em ordem cronológica. Então, vai ter uma moldura muito boa em cada canção. E poder falar da vida, né? Do que aconteceu e das coisas importantes, com algumas histórias no meio e parceiros. Enfim, um pouco de cada coisa que aconteceu aí nesse apanhado todo de 55 anos de vida artística - explica.

Entre as homenagens que Toquinho pretende fazer no show, ele levará ao palco canções dos ídolos que, com o tempo, tornaram-se colegas de composição e amigos, como Tom Jobim, com os clássicos Este Seu Olhar, Corcovado, Eu Sei que Vou te Amar e Se Todos Fossem Iguais a Você; Baden Powell, com Berimbau; Paulinho Nogueira, com Bachianinha n.º 1; e Jorge Ben Jor, com Que Maravilha - este fará uma "participação" virtual no show, assim como Paulinho da Viola e Chico Buarque, os três por meio de gravações em vídeo.

Toquinho acabou de fazer uma turnê pela Itália, uma maratona de 16 shows em 20 dias, sendo cada apresentação em uma cidade diferente. E o músico, que está com 76 anos, reforça que sequer pensa em deixar os palcos - bem pelo contrário. Segue acumulando projetos e está sempre em processo de criação, buscando levar a sua arte a todos que querem escutá-la.

- Não espero me aposentar. Acho que, enquanto tiver saúde e o corpo ajudar, vou fazer shows. É uma coisa que gosto muito e me faz muito bem, inclusive.

Ao ser questionado se imaginava que quando começou, há 55 anos, que se tornaria uma referência na música nacional - e internacional -, Toquinho destaca que seria muita pretensão pensar que o futuro seria tão generoso com ele. De acordo com ele, "as coisas foram simplesmente acontecendo":

- E nem sei aonde é que vou chegar. Agora, não paro de trabalhar. Gosto muito disso, de fazer projetos, e os acúmulos vão acontecendo. Mas o tempo me ajudou e está aí uma carreira da qual, até agora, não posso me queixar. Faria tudo de novo, com muito amor, muito carinho.

E esta dedicação que Toquinho tem com os seus projetos - assim como o seu talento, é claro - transformou muitas de suas composições em clássicos. Saber que a sua obra perdura é, para ele, "um prazer muito grande", mas acredita que, acima de tudo, a forma como trabalha influenciou para que suas músicas fossem sucessos.

- Sempre tentei fazer a coisa de uma maneira natural, bem harmonizada, bem feita e, ao mesmo tempo, musicalmente lógica. Não é uma coisa simples fazer uma coisa simples. É muito difícil fazer o simples. Então, no fundo, talvez seja isso que tenha cooperado para essa permanência das canções na vida das pessoas - explica.

Crianças

No mesmo final de semana do show 55 Anos de Música, o Theatro São Pedro ainda recebe o espetáculo musical Os Direitos da Criança, baseado no CD que Toquinho fez inspirado na Declaração Universal dos Direitos da Criança. Foram 10 músicas compostas, uma para cada um dos princípios aprovados pela Assembleia Geral das Nações Unidas, em 1959.

Serão duas apresentações, neste sábado e no domingo, ambas às 16h. Com músicas de Toquinho e Elifas Andreato, o espetáculo tem texto e direção de Carla Candiotto, que buscou criar uma história divertida e atual, com rápidas movimentações em cena, corre-corre, luta e bordões que marcam cada personagem.

No reino da Rainha Má, as crianças são chamadas de "Coisinha" e estão às voltas com planos mirabolantes para convencer a todos de que precisam de comida para sobreviver. Na aventura, precisam vencer o fiel escudeiro da Rainha, o Primeiro- Ministro, que quer dominar o reino e o mundo. Toquinho não está no palco do espetáculo, mas garante que a experiência conversa muito bem com o seu show:

- Os Direitos da Criança é um espetáculo musical infantil muito bem feito. É um trabalho para adultos e para crianças. É consistente, bem montado e que já fez muito sucesso lá em São Paulo e por onde passou. E é o lado infantil meu que vai anteceder o meu show, porque o mundo infantil se casa perfeitamente com tudo que fiz para adultos. É a mesma intensidade, a mesma dedicação em cada canção.

Entre as canções do artista que foram escolhidas para o espetáculo, estão Gente Tem Sobrenome, É Bom Ser Criança, Bê-a- bá, Imaginem, Natureza Distraída, Herdeiros do Futuro e Aquarela. Os ingressos também podem ser adquiridos pelo site do teatro (veja detalhes na página 6).

CARLOS REDEL


03 DE SETEMBRO DE 2022
MARTHA MEDEIROS

Meu Brasil

Semana da Pátria de 1978. Eu tinha 17 anos e recebi do colégio um Diploma de Mérito por uma redação chamada "Meu Brasil". Não lembro uma linha sequer. Terei sido ingênua ou surpreendi as freiras com ideias provocantes? Jamais saberei. Na dúvida, deixo aqui uma versão atualizada do assunto, 44 anos depois.

Meu Brasil.

Meu? Este país é de milhões de pessoas diferentes que, em comum comigo, têm apenas a necessidade urgente de se encantar. Estamos todos fartos de lidar com a inércia e o desespero. Ou não é desesperante assistir à propaganda eleitoral? Desde a pré-história, os mesmos slogans vazios, os mesmos jingles bobinhos e dezenas de rostos maquiados para o próprio velório. O país da criatividade e da inovação, que sempre atraiu o olhar do planeta, consome-se em um conservadorismo acovardado. Não se atreve a realizar sua sina de gigante, é o legítimo "só tem tamanho". Cadê a audácia que caracteriza os que triunfam? 

O Brasil ainda se contenta em ser uma promessa, estratégia adolescente de enganar a si mesmo. Ser uma promessa é mais cômodo do que ser um fracasso, pensam os que nem tentam sair do lugar. Mas muitos aniversários se passaram e o mundo agora nos convoca a debater, a participar da construção do futuro. Não temos mais a prerrogativa de ser tão tolos. Fracasso é se agarrar à barra das calças do pai, não enfrentar os desafios do crescimento, brincar de acampamento dentro do quarto, protegidos pelo faz de conta. Brasilzinho, escuta a tia: o erro ensina, o sofrimento fortalece. Não perde a chance de virar gente grande, vai.

Que independência pretendemos celebrar, se ainda nos apegamos a ideias ultrapassadas e evitamos as discussões que pautam a vida moderna? Não precisamos de um tutorial de valores, sabemos muito bem a importância da honestidade e do trabalho. Temos é que ganhar impulso para nos alinharmos às transformações mundiais, e isso se alcança com volúpia, com foco, defendendo sentimentos e preceitos fundamentais, e não com heroísmo de soldadinho de chumbo e ameaças infantis. 

Quem teme mudanças refugia-se no blábláblá, se camufla em meio a gangues para fingir que é forte, quando deveria experimentar a verdadeira bravura: amadurecer. Todo adulto fala em nome de si mesmo, encontra sua própria voz. Uma nação independente é formada por indivíduos emocionados com a nova era que lhes coube viver, e não por uma massa de subordinados.

O próximo ou próxima presidente irá errar muitas vezes. É do processo civilizatório. Só não pode repudiar o conhecimento e temer a expansão. Quem só olha para trás, pleiteia a simpatia sonolenta dos nostálgicos, a fim de evitar avanços com os quais não sabe lidar, nem quer aprender. Foge à luta. Não é o meu Brasil.

MARTHA MEDEIROS