sábado, 13 de março de 2021


13 DE MARÇO DE 2021
DRAUZIO VARELLA

PLACEBOS ALTERNATIVOS

Os efeitos placebo e nocebo são conhecidos da medicina e podem explicar por que muitas pessoas relatam benefícios à saúde quando tomam vitaminas desnecessariamente.

Meu amigo disse que toma 12 vitaminas por dia. Diante do meu espanto, justificou: "Há cinco anos, não tenho gripe".

O primeiro impulso foi dizer que minha última gripe foi há mais de 20 anos, sem tomar vitamina nenhuma, mas fiquei quieto. A experiência clínica me ensinou a não afrontar crendices populares.

A crença nos superpoderes das vitaminas não é das piores, afinal, existe uma ou outra condição em que elas estão indicadas: ácido fólico na gestação, B12 na anemia perniciosa, por exemplo. Agora, chás de plantas exóticas, gotinhas a cada duas horas, injeções de "antioxidantes" ortomoleculares e até um "shot" de vitamina D, anunciado na internet para não pegar coronavírus no carnaval, são esquisitices que fazem pensar: o que leva as pessoas a acreditar em tanta besteira?

A resposta está na neurobiologia. O cérebro humano é mestre na arte de antecipar. Reagir com rapidez ao perigo iminente foi tão essencial à sobrevivência da espécie, que a simples expectativa de um estímulo doloroso provoca a liberação de mediadores químicos associados ao sofrimento. Por outros caminhos, buscamos a repetição das ações que nos trouxeram prazer (mecanismo que se transforma em armadilha no caso das drogas psicoativas).

Quando a mera expectativa de bons resultados é capaz de trazer benefícios à saúde e ao bem-estar, estamos diante do efeito placebo. No caso contrário, temos o efeito nocebo.

Em ensaios clínicos conduzidos com rigor científico, é frequente usarmos placebos - que não passam de comprimidos de talco com aparência externa idêntica à do medicamento que pretendemos testar. Essa técnica é conhecida como "duplo-cego", porque nem os participantes nem os pesquisadores conseguem identificar quem toma o comprimido inerte ou o princípio ativo.

Em ensaios desse tipo para testar a eficácia de medicamentos para dor e para transtornos psiquiátricos, não é incomum obtermos respostas no grupo-placebo comparáveis às dos que receberam o princípio ativo (efeito placebo).

Em muitas publicações, até 26% dos adultos sorteados para o grupo-placebo, queixam-se de reações indesejáveis (efeito nocebo). Nos estudos, é esperado que um em cada quatro participantes interromperá os comprimidos de placebo alegando efeitos colaterais.

O efeito placebo não é resultado de fenômenos puramente psicológicos em pessoas frágeis, mas consequência da liberação de opioides endógenos, endocanabinoides, dopamina e outros mediadores com ações específicas no controle da dor, da parte motora e até da resposta imunológica.

Quando sentimos dor, a sugestão verbal de que ela se tornará excruciante basta para provocar aumento da intensidade (efeito nocebo). Nesse momento, ocorre ativação do eixo hipotalâmico-pituitário-adrenal com estimulação dos mecanismos que interferem com a ansiedade.

No caso dos remédios populares, as expectativas são afetadas pela forma e pela credibilidade de quem os indicou. Morfina apresentada como um analgésico muito potente para quem acabou de ser operado reduz a intensidade da dor com mais eficiência do que a mesma dose administrada na rotina hospitalar, sem o paciente saber.

A simples advertência da possibilidade de efeitos indesejáveis é capaz de provocá-los. Num estudo com o betabloqueador atenolol, usado em casos de hipertensão e doenças cardiovasculares, a incidência de disfunção erétil nos pacientes alertados para esse efeito colateral foi de 31%, contra 16% naqueles que desconheciam essa eventualidade. Resultados semelhantes ocorreram com a finasterida empregada no tratamento da hiperplasia prostática benigna.

Recém-nascidos submetidos a punções venosas de repetição muitas vezes começam a chorar assim que a enfermeira passa o algodão com álcool na pele. Cerca de 30% das pacientes com câncer de mama submetidas à quimioterapia apresentam náuseas antecipatórias no caminho ou ao entrar no hospital.

Essas e outras evidências fazem a fama dos charlatães. O simples ato de tomar remédios receitados por pessoas em quem confiamos pode ajudar na resposta terapêutica.

Tomar partido do efeito placebo para receitar remédios sem eficácia comprovada é antiético. No entanto, nada há de errado em prescrever placebos com a anuência do paciente. Por que não dizer: no seu caso, há estudos que obtiveram 20% a 30% de resposta usando um comprimido de talco. Quer tentar?

DRAUZIO VARELLA

13 DE MARÇO DE 2021
MONJA COEN

OS DILEMAS DA HIPERCONVIVÊNCIA

As águas do mar. As águas de março. As águas dos poços profundos, das nascentes subterrâneas. As águas das cachoeiras. As águas do Guaíba. As águas são líquidas. Algumas vezes congelam. São duras, quebram moléculas e ossos. De outras vezes macias, mas insistentes, furam as rochas.

Nosso corpo é 75% líquido. Mas esse líquido pode empedrar. Um obstáculo no fluir dos líquidos dentro dos tubos, vasos e artérias. Nos rins, pode virar cálculo, pedrinha ou pedrona. Dizem que o coronavírus pode fazer os pulmões - que são duas esponjas macias - ficarem empedrados, enrijecidos, nos impedindo de respirar.

Respiro e caminho em círculos nos pequenos espaços dentro das grades da minha cela. Monjas gostam de viver em celas individuais. Pequeninas. Uma cama pequena, uma mesa também pequena, uma cadeira, um armário e uma lâmpada. Em alguns mosteiros, há um pequeno genuflexório, onde as monjas podem se ajoelhar para orar. Vida de oração, de estudo, de trabalho, de meditação.

Hoje há quem fale em hiperconvivência. É como hipermercado - tem de tudo, tem muito, em excesso. Excesso de conviver em casa com o povo que mora conosco. Cada dia mais irritados e impacientes uns com os outros. Mas alguns são capazes de rir e de encontrar a leveza.

Algumas vezes somos espelhos uns para os outros. Há espelhos que deformam nossa imagem, e se só tivermos esse espelho acabamos pensando que a deformação é o real. Complicado. Há quem só veja faltas e erros. Há quem só veja beleza e acertos. É preciso encontrar o centro.

Pense bem. Está mal ficar em casa com essa turma? Melhor morrer? Ou que a turma morra? Imagine-se só em casa, no quarto, na sala. Ninguém querendo usar o banheiro ou estar no banheiro quando você precisa ir. Céu? Paraíso?

Comer o que quiser, quando quiser. Ver TV o tempo todo ou nunca. Livre. Livre de falas, conversas, vigias. Livre para ser e para não ser. Por que, então, no Japão criaram o Ministério da Solidão? Há gente que não sabe ficar só, acaba se matando. Que desperdício.

Poder ficar com você é poder escolher o que vai ler, assistir, com quem vai conversar, o que faz quando ninguém está por perto. Mas que gostoso ter alguém por perto para rir e para chorar, para dialogar, ler um poema, um trecho de um livro. Para isso é preciso criar rima, afago, afeto, estima.

Minha mestra no mosteiro feminino de Nagoya sempre nos aconselhava dizendo: "O lado do avesso deve ser tão bonito, tão bem acabado, como o lado direito".

Pense bem. Mesmo que haja cinco pessoas na casa, sempre há um canto na sala onde você pode se sentar virada para a parede. Alinhar a coluna vertebral. Respirar conscientemente e estar absolutamente presente. Como se não houvesse mais nada a fazer. Não é relaxar. Não é descansar. É estar. Todos os sentidos funcionando livremente. Sons, imagens, luz, sombra, pensamentos, memórias, sentimentos, sensações - tudo existe, tudo faz parte e tudo passa.

Como a brisa. Como as águas. Nenhuma gota de água passa duas vezes pelo mesmo lugar. Será outra esta gota que agora rola para o mar.

Aprecie a vida. Reconheça-se em cada ser e se imagine lá no céu, em cima de uma nuvem olhando a terra, você na janela e uma gota de água suavemente pousando na ponta de seu nariz. Mãos em prece...

MONJA COEN

13 DE MARÇO DE 2021
J.J. CAMARGO

FILHOS PARA TODOS OS GOSTOS

Com a rapidez com que os tempos mudam nesta marcha acelerada da modernidade, um dos maiores desafios que a vida pode nos oferecer é como preparar os filhos para enfrentá-la. Na falta de tempo para elaborar o melhor modelo, acabamos, por comodidade, fixando-nos no jeito com que fomos educados, que se não foi perfeito, trouxe-nos até aqui e, convenhamos, não foi tão ruim assim. Acontece que o tempo em que fomos educados não existe mais. Por mais que sejamos conservadores, perceberemos, na mais completa isenção, que poderíamos, sim, ter sido melhores.

Mas é inevitável que essa análise retrospectiva leve em conta qual era mesmo o projeto que tínhamos e que, bem ou mal, serviu de referência na construção dos alicerces da prole, rastro que deixaremos como herança.

Os modelos extremados e em muitos quesitos opostos remontam à polarização que tem mantido as ideologias em confronto acirrado.

Em resumo, se optarmos pelo modelo capitalista, teremos que educar os filhos para a competição, porque esta é a característica de quem acredita que as melhores oportunidades têm que ser construídas, com preparação, gana e persistência. Eles têm que estar eticamente condicionados para a controvérsia, porque uma das características desse tipo é a pretensão de decidir por conta própria e sustentar a opinião. Oferecer os atributos que fazem da independência uma aspiração natural, mesmo que doa a separação física, é uma das durezas inevitáveis para esse pai, que considera liberdade e autonomia bens inegociáveis na busca elementar de felicidade.

Se a opção for pelo regime socialista, com o Estado como gerente de um modelo que tolera impulsos moderados e não descarta as vocações imprecisas, devemos treiná-los na luta pela equiparação de oportunidades, a partir de uma formação mais contestadora, com afiado discurso de protesto. Faz parte do pacote uma busca menos apressada de alocação profissional, naturalmente menos disputada, que lhe garanta uma remuneração fixa e, muito importante, estabilidade do emprego, uma dádiva divina, inexistente na iniciativa privada, sempre escravizada por gestores cruéis e materialistas. Como um bom socialista, menos preocupado com deveres absurdos, ele terá tempo de investigar os seus direitos e descobrir que sempre tem alguém tentando surrupiá-los.

Definido o modelo a ser utilizado na construção do futuro, não haverá surpresas com o resultado final.

O do modelo socialista, se estimulado à formação superior, optará por uma faculdade pouco exigente e, por conta disso, com uma remota possibilidade de emprego, que engordará a legião de jovens com diploma na parede e mesada do pai. Depois de um tempo, exasperante para a família, surge uma nova luz: o concurso público. Ali ele envelhecerá sem tensões que o tornarão um baixo risco para infarto, apesar do colesterol alto e do sobrepeso, inerente à apatia e ao sedentarismo. A aversão a compromissos explica, em grande medida, a baixa tendência à procriação e suas enervantes responsabilidades.

O filho da visão capitalista dá muito mais trabalho, porque precisamos convencê-lo de que não há conquista sem risco, que sentir medo é normal, mas não ajuda que os outros percebam que nós somos só o que fazemos, que temos que estar disponíveis o tempo todo, e que, ainda que não consigamos ser o melhor no que façamos, temos a obrigação moral de tentar ser e que não há justificativas para desistir.

Se compararmos a construção da felicidade desse filho como uma locomotiva, cabe-nos acrescentar os vagões de qualificação a sua vida e protegê-lo a distância, assegurando-lhe, como no clipe que viralizou na web, que, enquanto vivermos, estaremos no último vagão. Como uma reserva técnica.

J.J. CAMARGO

13 DE MARÇO DE 2021
DAVID COIMBRA

Homens que fazem diferença na História

Sem entrar em méritos, sem ser contra ou a favor, é fascinante analisar os principais personagens do drama brasileiro do século 21.

Dependendo do tamanho do homem, ele pode influenciar a história de um país inteiro, e é o que está acontecendo.

A propósito: agora mesmo estou lendo um livro que me foi indicado pelo Daniel Scola, O Esplêndido e o Vil, de Erik Larson. Escrevi, tempos atrás, sobre outro livro desse jornalista americano, o excelente O Diabo na Cidade Branca. É uma ótima obra de não ficção. Mas essa que o Scola indicou, O Esplêndido e o Vil, é ainda melhor. Larson narra em pormenores o começo do mandato de Churchill como primeiro-ministro da Inglaterra, na Segunda Guerra Mundial. Foi um ano de sangue, suor e lágrimas, em que os exércitos nazistas pareciam invencíveis e a Ilha resistiu sozinha diante da Europa submetida por Hitler. Larson traça um perfil impecável de Churchill e demonstra como a personalidade de um único indivíduo foi capaz de salvar o Ocidente.

Churchill era um homem cheio de defeitos. Quando assumiu, a maioria dos líderes da época duvidou da sua capacidade. Mas ele também possuía os predicados certos para o momento certo. Quer dizer: a pessoa não precisa ser perfeita, até porque ninguém é, mas, se contar com determinadas qualidades, pode fazer diferença em seu meio. Pode influenciar a história de uma nação.

Tome os três grandes personagens do Brasil de hoje, Moro, Lula e Bolsonaro. Há muito de interessante a dizer a respeito deles. E, repito, não estou julgando méritos, estou observando os homens.

Lula e Bolsonaro despertam paixões que, para mim, são inexplicáveis. As pessoas os amam com amor de mãe, amor incondicional. É um sentimento típico de um povo frágil, afeito a paternalismos, bem sei, mas, ainda assim, o fervor dos adeptos ao lulismo e ao bolsonarismo me espanta. É muito amor. Então, qualquer exame que se faça deles fica contaminado por essa paixão, e a razão sempre perde para a paixão.

Com Sergio Moro, o caso é outro, e por isso quero falar dele hoje. A trajetória de Sergio Moro é uma espetacular sucessão de surpresas. Primeiro, por sua improvável ascensão ao estrelato. Afinal, Moro era um juiz de primeira instância. Juízes são importantes, não há dúvida, mas a função que exercem não rende popularidade, salvo os do STF, que foram jogados no palco pelas transmissões de TV.

Quem iluminou a figura de Sergio Moro e o tornou protagonista foi, ironicamente, o PT. Quando os petistas perceberam que seus governos poderiam ser esfacelados pela Lava-Jato, desencadearam ações para individualizar o processo. Não era o sistema que atuava, era uma pessoa, com interesses particulares que todas as pessoas têm.

Trata-se de um movimento inteligente, porque, se é a "Justiça" que condena, estamos falando da Lei com ele maiúsculo, da sociedade constituída, impessoal e imparcial. Mas, se quem condena é um homem só, você pode alegar que esse homem teve suas motivações escusas.

Assim, pouco importava o envolvimento de centenas de outros servidores, os procuradores, os policiais, os juízes, os desembargadores, na Lava-Jato. Sergio Moro tinha de ser elevado a gênio do Mal, a mentor de um plano pérfido com objetivos políticos.

Pensar que a figura quase anódina de Moro, agindo de uma vara de primeira instância em Curitiba, seria capaz de tamanha façanha é algo risível, mas foi o que os governistas conseguiram fazer, e dias atrás essa tese foi endossada inclusive pelo STF.

Ungido como "o" homem da Lava-Jato, Moro tornou-se o super-herói do Brasil. Ele era aplaudido por onde passava, Roberto Carlos o homenageou em show, seu nome se transformou em referência internacional de luta contra a corrupção. Havia um boneco dele no Carnaval de Olinda! É possível um ser humano não se deixar abalar por tanta exposição?

Moro decerto que cometeu deslizes éticos em alguns momentos da Lava-Jato, mas a Lava-Jato poderia fazer o que fez atendendo a todas as filigranas jurídicas brasileiras? O sistema, afinal, não está todo construído para favorecer os poderosos? O mecanismo não reage sempre, e vence sempre?

As pessoas entendem isso e entenderiam os deslizes de Moro exatamente como nada mais do que deslizes, só que ele cometeu o erro supremo de avaliar mal sua própria dimensão e aceitar o convite para ingressar no governo Bolsonaro.

Grande, imenso, fulcral, caudaloso, oceânico, imperdoável erro.

Vaidade das vaidades, tudo é vaidade debaixo do sol, dizia o Eclesiastes.

Moro agiu por vaidade. Ele não sabia quem é Bolsonaro? Não sabia o que representa Bolsonaro? Moro não supunha que os políticos que tanto vergastou se voltariam contra ele? Não percebeu que, ao ir para Brasília, perfilou-se na linha de tiro de seus inimigos?

A classe política está devorando Moro por uma perna, como um tubarão que vem mordendo das profundezas do oceano. Sua única saída seria ele também se transformar em político, mas não qualquer político, e sim um aos moldes de um Lula, de um Bolsonaro. Não é uma tarefa comum, capaz de ser cumprida por um homem comum. Moro, se quiser fazer diferença na história, terá de ser muito diferente do que sempre foi.

DAVID COIMBRA

13 DE MARÇO DE 2021
ARTIGOS

A LIÇÃO DE PIRRO

Em 279 antes de Cristo, Pirro - rei e general do Epiro - travou contra os romanos a Batalha de Ásculo e conquistou a vitória. Porém, com um elevado número de baixas de oficiais e soldados, obteve prejuízos irreparáveis para o seu exército, o que comprometeu a continuidade da guerra contra Roma. Ao observar os saldos da batalha, Pirro teria dito: "Outra vitória como esta e estamos acabados". O episódio ficou conhecido como "vitória de Pirro", termo que hoje é utilizado para descrever uma vitória com efeitos prejudiciais ao vencedor.

O episódio vivido por Pirro explica que determinadas estratégias ou decisões que desconsideram complexidades existentes entre dois problemas poderão levar a resultados desastrosos. É o caso de ter que escolher como prioridade a saúde ou a economia, diante da pandemia da covid-19. Ao tomar como verdade uma falsa dicotomia entre saúde e economia, os resultados serão os mesmos contabilizados por Pirro. E as baixas já são evidentes. Na economia, já se observam a quebradeira de empresas, o aumento do desemprego, o aumento do endividamento e das despesas públicas, com redução na arrecadação, elementos que pulverizam as expectativas dos investidores e comprometem o futuro da vida da população.

As baixas na saúde e na vida humana são sentidas a cada minuto, com aumento do número de infectados, internações, filas para UTI, óbitos e possíveis sequelas da doença. A única forma de garantir a sobrevivência da economia e da vida humana passa pela autorresponsabilidade de cada cidadão. Enquanto se aguarda ansiosamente o acesso às vacinas, a população deve ser mais rigorosa com os cuidados, para reduzir a transmissão da doença. Da mesma forma, os setores econômicos devem colaborar no processo educativo da população, com o poder público realizando o máximo de esforços, para manter a atividade econômica, de uma forma que garanta e preserve a saúde das pessoas. Esta é a lição de Pirro: é mais importante vencer a guerra do que uma batalha.


13 DE MARÇO DE 2021
FLAVIO TAVARES

PANDEMIA POLÍTICA

A expansão da pandemia é tão alarmante e mata tanto, que, agora, inunda a política como se festejasse (em triunfo) o primeiro aniversário do seu aparecimento no Brasil.

De um lado, regredimos à eleição de 2018, quando a maioria confiou, de boa-fé, nas palavras de Bolsonaro, que hoje se revelam reles fantasias ou mentiras. De outro - e mais grave -, nos faz esquecer da inépcia do governo federal para vacinar a população e evitar o contágio.

O mais daninho, porém, é desacreditar - ou exterminar - a Operação Lava-Jato, tal qual propõe o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal, como relator do pedido dos advogados de Lula da Silva de declarar "a suspeição" do então juiz Sergio Moro.

Gilmar Mendes foi enfático: "Por razões mais do que espúrias, Moro menosprezou o sistema judicial e extrapolou os limites ao assumir o papel de coordenador dos órgãos de investigação e acusação".

Aceitar essa tese é destruir a investigação que revelou como grandes empresários e políticos se juntaram num sórdido conluio cujo único fim era a rapina. Perto dela, a decisão do ministro Edson Fachin, do STF, de anular os processos que condenaram o ex-presidente Lula da Silva, torna-se diminuta.

Anular os processos conduzidos em Curitiba sobre Lula (sob o argumento de que não tinham relação direta com o "petrolão", como fez Fachin) leva a reabri-los em Brasília. Mas a "suspeição" do juiz Moro (como quer Gilmar) arrasa com tudo o que a Lava-Jato apurou sobre Lula e outras trapaças, pois o futuro juízo no DF nada poderá usar dos processos de Curitiba.

No lento recomeçar do zero, os processos prescreverão e Lula sairá ileso, beneficiado pelas prescrições. Outras condenações da Lava-Jato poderão ser extintas e, talvez, até, os ladrões reivindiquem os bilhões roubados que eles próprios devolveram em delações premiadas?

Assim, o efeito colateral da "suspeição" de Moro leva a pandemia à política e ao sistema judicial.

Tão inexplicável quanto saber de onde surgiu a covid-19 é entender a tentativa de transformar Sergio Moro em "demônio".

A decisão de Fachin não inocenta o ex-presidente Lula e só aponta eventual falha processual. O Supremo levou, porém, cinco anos para "descobrir" que o roubo na Petrobras não tinha relação direta com o apartamento triplex dado a Lula como aparente suborno.

O juiz não cerceou a defesa do réu, só quis ir ao cerne da trapaça. Mas, agora, o Supremo Tribunal pode, talvez, transformar o juiz em réu, invertendo a ordem natural da Justiça.

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES

13 DE MARÇO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

OS HOLOFOTES E O STF

A Suprema Corte brasileira ocupa novamente um espaço desproporcional no debate público nacional. Desta vez, os holofotes voltados para Brasília se acenderam ainda com mais intensidade depois da decisão de anular as condenações do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no âmbito da Operação Lava-Jato, após quase cinco anos da denúncia e de uma série de análises feitas pelo próprio Supremo Tribunal Federal (STF). Com a decisão monocrática do ministro Edson Fachin, uma série de incertezas se apresenta à nação. Temas como prescrição, destino dos bilhões de reais recuperados de desvios e efeitos em outras condenações de políticos comprovadamente corruptos são apenas algumas delas. Nas democracias consolidadas, a Suprema Corte é fator imprescindível de estabilidade. Suas decisões devem, para tanto, ser claras e contemplar interpretações, sempre à luz da lei e da Justiça, relacionadas aos preceitos constitucionais. Não no Brasil, onde o protagonismo exagerado dos ministros empurra a mais alta instância do país na direção do pântano da política corriqueira, baseada em interesses imediatos.

Confunde-se transparência com vaidade, combustível de bate-bocas públicos entre ministros, muitos dos quais não demonstram constrangimento em postar opiniões inadequadas nas redes sociais. Em países como a Alemanha, as deliberações da Suprema Corte são construídas a portas fechadas e apresentadas aos cidadãos, de forma direta, como decisões do tribunal, e não de um ou de outro de seus integrantes. No Brasil, a transmissão ao vivo das sessões, uma ideia sem dúvida bem- intencionada, serviu para alongar votos e inflar egos, distorcendo uma dinâmica que deveria se pautar pela sobriedade. Pela sua relevância e poder, uma vez que detém a palavra final em todas as áreas, deveria esperar-se do STF discrição, humildade e celeridade.

Independentemente do mérito da decisão de anular as condenações de Lula, a demora e a forma como foi tomada enfraquecem a Justiça. A prova do descalabro é que, dias depois, o Brasil ainda tenta compreender as reais motivações e as circunstâncias. Ainda mais que a defesa de Lula já vinha alertando sobre os conflitos de competência desde 2016. Passado esse primeiro impacto, o STF expande sua presença nas manchetes mais uma vez, agora debruçado na denúncia de parcialidade do ex-juiz Sergio Moro. Como se todos os atos praticados por ele já não tivessem transitado pela Corte, com a manutenção de decisões confirmadas pela segunda instância. Magistrados, por definição, não são justiceiros, mas agentes da Justiça. Por isso, seus olhares devem estar postos não na próxima eleição, e sim na próxima geração.

Ressalte-se que as críticas ao STF se dividem, basicamente, em dois grandes grupos. Há as oportunistas e antidemocráticas, que enxergam no seu enfraquecimento ou mesmo no seu fechamento uma oportunidade de abocanhar fatias de poder de forma autoritária. São, por isso, inaceitáveis. Mas existe também uma linha, como as ideias aqui defendidas, que rejeita qualquer visão de país sem uma suprema corte forte, independente e guardiã da Constituição.

 


No BBB 

A casa mais vigiada do Brasil faz parte dos clientes de uma empresa gaúcha. À coluna, a metalúrgica Staiger relata que fabricou cadeiras, mesa e lustre para o Big Brother Brasil 21. Fundada na década de 1930, a companhia está sediada em Porto Alegre.

Entre os itens produzidos pela metalúrgica para o BBB, está a cadeira do confessionário, feita com chapas de aço galvanizado, conforme o diretor da Staiger, Klaus Schneider. A empresa é especializada em corte e dobra de metais pesados e leves.

- Em geral, recebemos uma consulta com desenhos técnicos e um pedido de orçamento. Normalmente, clientes de outros Estados nos procuram por recomendação de alguém ou por terem visto nossos serviços em algum lugar - afirma Schneider.

Desembarque no RS 

Tem novidade no setor de inovação do Estado. Criada em São Paulo, a Pipeline Capital anuncia chegada ao Rio Grande do Sul com o plano de aproximar empresas inovadoras de potenciais investidores. Quem comanda a operação é o empreendedor Cesar Paz, fundador da AG2 Publicis, mentor do ecossistema criativo Ecosys e articulador do movimento Porto Alegre Inquieta.

Fundada há sete anos, a Pipeline Capital se apresenta como empresa especializada em fusões e aquisições na área da tecnologia. No momento, vive expansão, com abertura de representações na Região Nordeste, nos EUA e na Europa.

No Rio Grande do Sul, a meta é viabilizar pelo menos 15 fusões ou aquisições nos primeiros três anos, conforme Alon Sochaczewski, sócio da Pipeline Capital. A unidade gaúcha está sediada em Porto Alegre.

A atuação da empresa pode ser dividida em três etapas. A primeira é a análise, a partir de metodologias próprias, da condição atual e do grau de maturidade de cada negócio. São avaliados cerca de 200 atributos. A segunda fase consiste em aprimorar a atuação das empresas, a partir de plano de ação que pode se estender por meses. Por fim, a Pipeline cria "teses de investimento" e faz a conexão com potenciais fundos ou companhias investidoras.

LEONARDO VIECELI - INTERINO

13 DE MARÇO DE 2021
MARCELO RECH

Passado congelado

Agora que estão explícitos a lambança jurídica do STF e os contornos de uma possível nova candidatura de Lula, entre eles a promessa de que não se ouvirá dele qualquer intenção de privatização, pode-se constatar que, em se tratando da modernização do Estado, o ex-presidente segue congelado no passado.

Apesar de tudo o que ocorreu no mensalão e no petrolão, Lula ainda pinta o Estado com os mesmos pincéis do regime militar, que criou 47 empresas estatais, quatro a mais do que os governos do PT. Líderes de esquerda e direita se detestam, mas, quando se trata de proteger os mamutes estatais, os cargos políticos e seus privilégios, andam de braços dados. Lula não privatiza e Bolsonaro também não. Enquanto isso, a imensa maioria de desvalidos sem voz ajuda a sustentar uma constelação de empresas que podiam ser extintas ou ter seu risco transferido para a iniciativa privada.

Veja-se o caso da Usiminas, uma siderúrgica estatal que produzia rombos sistemáticos aos cofres públicos. Em 1991, cobri por ZH na então Bolsa de Valores do Rio o primeiro leilão de privatização. Alguns sindicalistas, em volta de um caminhão de som, arrancavam pedras portuguesas do calçamento e as atiravam contra o prédio da bolsa cercado pela polícia. A batalha campal fazia crer em enorme resistência popular, quando não havia mais que 50 manifestantes. Privatizada a siderúrgica deficitária, três anos depois a revista Exame a escolheu como melhor empresa do Brasil. Desde então, teve altos e baixos, inclusive um prejuízo de R$ 3,7 bilhões em 2015. Mas você pagou por isso? Não, porque, numa empresa privada, esse é um problema dos acionistas e não dos contribuintes.

Se Estado obeso fosse garantia de soberania, não estaríamos sofrendo a maior ameaça à nossa integridade social e econômica desde o Império. O Brasil produz armas, energia e até notícia por meio de estatais, mas tem de rastejar por vacinas e seus insumos ante empresas privadas dos Estados Unidos, da Europa, da Índia e até da comunista China. Sim, a Sinovac, criadora da CoronaVac, é uma farmacêutica privada.

Embraer, Vale, CSN, Light e tantas outras privatizadas estão longe da perfeição, mas deixaram para trás amarras que impediam seu crescimento e o de seus profissionais. Falo com conhecimento de causa. Em 1988, me tornei um raro caso de migração voluntária do conforto de uma estatal (a EBN) para a aventura de uma empresa privada (a RBS). Não me arrependi um dia sequer da troca. Parafraseando Lula no seu discurso, não há por que o país ter medo. A privatização é uma estrada aberta para o desenvolvimento sem os constrangimentos de intervenções políticas e da burocracia sem fim.

Privatizações liberam também escassos recursos para serem aplicados onde são mais necessários. Privatize-se, portanto, e jogue-se todo o dinheiro em um fundo que mantenha público e aprimore o SUS por muitas décadas à frente. Veremos quem sairá ganhando.

MARCELO RECH

13 DE MARÇO DE 2021
J.R. GUZZO

Ficha suja

O ex-presidente Lula foi condenado por corrupção e lavagem de dinheiro em primeira instância, em sentença do juiz Sergio Moro, numa vara penal de Curitiba. Foi condenado a seguir em segunda instância, pelo Tribunal Federal da 4ª Região, em Porto Alegre - e por unanimidade dos três desembargadores que julgaram o seu caso. Foi condenado, enfim, pelo Superior Tribunal de Justiça, em Brasília - de novo, por unanimidade dos cinco ministros.

São nove juízes diferentes, em três instâncias separadas, uma depois da outra; todos eles examinaram as provas apresentadas contra Lula e julgaram que elas eram suficientes para declarar o ex-presidente culpado dos crimes de que foi acusado. Na verdade, são 10 juízes - a esses tem de se somar a juíza, também de Curitiba, que o condenou numa segunda ação penal. Muito bem: o ministro Edson Fachin, que militou no PT, pediu voto para Dilma Rousseff e foi advogado do MST, decidiu que tudo isso não vale nada.

Fachin, que hoje governa o Brasil junto com seus 10 colegas de Supremo Tribunal Federal - governam sem nunca terem recebido um único voto em suas vidas, e governam como uma junta de ditadura, fazendo o que bem entendem com a lei -, não falou nada sobre culpa ou inocência. Isso, para ele, é um detalhe insignificante.

Também não abriu a boca para falar das sentenças - se são justas ou não. Apenas diz que está tudo anulado, seja lá quais foram as provas materiais contra Lula, porque o juiz Moro estava no lugar errado. Para condenar o ex-presidente, ele teria de estar em Brasília, e não em Curitiba. Como não estava, Fachin decidiu que as quatro ações penais contra Lula, com tudo o que elas têm dentro, não existem mais.

O objetivo de Fachin não teve nada a ver com a prestação de justiça. Também não teve nada a ver com a única função verdadeira do STF, que é garantir a vigência da Constituição - que raio de questão constitucional poderia haver numa discussão dessas? Teve tudo a ver, isso sim, com a eliminação da ficha suja de Lula - agora, como as suas condenações não valem nada, pode ser candidato à presidência da República em 2022.

A ficha de Lula, perante os fatos, continua tão suja como sempre esteve. Nem Fachin, nem Gilmar Mendes - que não apenas advoga para Lula, mas quer punir quem o condenou -, nem todos os 11 ministros juntos podem apagar crimes de corrupção e lavagem de dinheiro que estão provados, inclusive através de confissões. Aí, os únicos que decidem são os eleitores: o Supremo pode arrumar o prontuário de Lula, mas não pode arrumar voto. Para devolver o governo à esquerda, o STF ainda vai ter muito trabalho pela frente.

*Conteúdo distribuído por Gazeta do Povo Vozes - J.R. GUZZO*

sexta-feira, 12 de março de 2021


12 DE MARÇO DE 2021
DAVID COIMBRA

#APLAUSOPELAVIDA

Hoje, às 19h30min, aplauda da sua janela os profissionais da saúde de todo o Estado

A ideia, no fim da tarde de hoje, é que prestemos uma homenagem aos profissionais de saúde que estão atuando há um ano no combate à covid-19. Gosto disso. Devo muito do meu bem-estar e da minha própria vida aos profissionais de saúde. E, para tornar esse ato mais pessoal, vou destacar três deles. São três oncologistas gaúchos que servem de referência profissional a todo o Brasil. Estão, portanto, atuando indiretamente na crise da covid, mas diretamente na crise sanitária. São os médicos André Fay, Fabio Franke e Carlos Barrios. No meu livro Hoje Eu Venci o Câncer eu os comparo a Pelé, Rivellino e Garrincha. Só não digo quem é quem.

O que dizer a Lula e Bolsonaro

O discurso que Lula fez na quarta-feira, em São Paulo, excitou a intelectualidade brasileira. "Oh, como ele fala bem!", maravilharam-se uns quantos, redes sociais afora.

Lula fala bem, de fato. Tem treino de mais de 40 anos, desde que comandava as greves dos metalúrgicos do ABC paulista. Mas fala o óbvio. Se você transcrever o que Lula diz em seus discursos, só restará o lugar-comum, as imagens corroídas pelo uso popular, a repetição de ideias previamente encaixotadas por outros que pensaram antes dele.

Os predicados de Lula que fazem a intelectualidade cair de quatro são outros, além do sentido das palavras. Em primeiro lugar, são suas origens. Ter origem pobre é grande trunfo no Brasil. O brasileiro adora uma história de superação. E o intelectual, especialmente, é fascinado pela figura do operário que se transformou em líder. Este, para o intelectual, é alguém iluminado, dotado de uma sabedoria exclusiva, a sabedoria "do povo".

A segunda e a terceira qualidades de Lula se aliam poderosamente na tarefa de comover quem o escuta. São a eloquência e o carisma. Já vi oradores levarem as massas ao êxtase valendo-se apenas de gestos e tom de voz, imagem e som, pouco importando o conteúdo do que diziam.

Tecendo uma comparação clássica: Hitler e Churchill.

Hitler era o histrião, o ator, o homem que falava com os punhos cerrados e a boca espumando. Churchill era o cerebral, consumia horas escrevendo e reescrevendo os seus discursos, cuidava de cada verbo como se fosse um filho, mas sua oratória acabava sendo monótona, quase sonolenta. Já o texto saía impecável e mais comovia quanto mais fosse lido e relido. Os discursos de Churchill entraram para a História, ficaram para o futuro. Hitler empolgou só quem o ouvia no presente.

Mas empolgou, isso que importa. Porque a forma também é importante, e Lula sabe mesmerizar a plateia pela forma. O que se estende, inclusive, à sua aparência física. Lula ficou mais bonito depois de velho. Tornou-se um senhor respeitável e simpático, aquilo que antigamente se chamaria de "bem-apessoado". Em seu discurso desta semana, ele caprichou: surgiu com um terno bem cortado, a barba branca aparada com esmero, o cabelo já ralo, mas domesticado.

Não se iluda, porém: sua grande vantagem, hoje, é factual. É a comparação com Bolsonaro. Li e ouvi dezenas de pessoas fazendo a seguinte ponderação: "Você pode não gostar de Lula, mas...". E aí vinha a referência a Bolsonaro, que, por ter dificuldades na forma E no conteúdo, consagra qualquer adversário.

Lula, em seu discurso, pronunciou trivialidades de estudante de Ensino Médio. Tipo: "Tome vacina, use máscara, minha solidariedade aos mortos de covid". E as pessoas: "Oooh, que estadista!". Porque o seu rival, Bolsonaro, faz exatamente o contrário: desdenhou da vacina, desprezou a máscara, desrespeitou os mortos. Ficou fácil ser inteligente, perto dele.

Já eu não caio nessa. Não vou entrar nesse maniqueísmo. O duelo Lula versus Bolsonaro não foi travado em segundo turno algum e talvez nunca venha a acontecer. Faltam quase dois anos para a eleição, tudo pode mudar. Essa conversa serve para eles. Os bolsonaristas querem Lula como rival, assim como os petistas querem Bolsonaro. Eu, não. Não tenho de querer um dos dois, não sou obrigado a escolher entre os dois. Posso olhar para um e outro e proclamar solenemente o que desejo dizer a eles. Que é uma palavra só. Curta, seca e dura: "Não!".

DAVID COIMBRA

12 DE MARÇO DE 2021
ARTIGOS

A QUEM INTERESSA UM POVO SEM MEMÓRIA?

Relembrar o passado para compreender o presente e projetar o futuro é o caminho para não cometer os mesmos erros. No Brasil, a desigualdade social faz história. Possuímos a segunda maior concentração de renda do mundo e o 1% mais rico reúne 28,3% da renda total. Na pandemia, a situação se agravou. Enquanto a maioria da população depende do auxílio emergencial para viver, a fortuna dos bilionários brasileiros cresceu R$ 34 bilhões, segundo a Oxfam. O que os nossos governantes têm feito a respeito?

Enquanto países desenvolvidos investem continuamente em serviços públicos, o Brasil aprovou uma PEC que congelou por 20 anos os gastos com saúde, educação, segurança e áreas essenciais. Enquanto o mundo inteiro taxa lucros e dividendos, o Brasil e a Estônia são os únicos que continuam a isentá-los. Passamos pelas reformas trabalhista, previdenciária, administrativa, privatizações, todas blindadas pelo discurso de que o governo precisa gastar menos, extinguir privilégios e gerar emprego. Mas, nos últimos tempos, o país chegou ao pior PIB da história, mesmo antes da pandemia. Quem está errado, o Brasil ou o mundo?

Se existe algo que a covid-19 mostrou, é que o investimento em serviços públicos deve ocorrer de forma contínua e que não há espaço para a lógica do Estado mínimo. No RS, o governo não aprende com os erros do passado. Após reformas ineficientes, privatizações, retirada de direitos, o governador está propondo congelar, por 10 anos, investimentos dos serviços essenciais. Quem perde é a população que precisa do posto de saúde, da vaga na creche, do transporte público, da moradia digna. A justificativa, tanto no Brasil quanto no RS, é pagar a dívida.

Porém, só venceremos a crise com investimento público. É claro que a busca pelo ajuste fiscal deve ser prioridade, mas ele não pode ser um fim em si mesmo. Aliás, os governantes esquecem que a maior dívida a ser paga está prevista no Artigo 6 da CF, em que está claro que educação, saúde, trabalho, moradia e segurança são direitos de todo cidadão. E essa dívida, há tempos, já venceu para muita gente.

JULIANA BRIZOLA

12 DE MARÇO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

HOMENAGENS A QUEM SALVA

Milhares de profissionais da saúde do Estado estão, neste momento, amparando pessoas angustiadas com sintomas da covid-19, prestando atendimento a internados em leitos clínicos, cuidando atentamente de pacientes em UTIs, sofrendo com uma batalha perdida ou vibrando com uma alta. Espalhados em postos de saúde, prontos-atendimentos, clínicas e hospitais, médicos, enfermeiros, técnicos em enfermagem, fisioterapeutas, nutricionistas, psicólogos e outros homens e mulheres de várias outras especialidades enfrentam, há 12 meses, a exaustiva rotina de lutar de forma abnegada para salvar vidas, enquanto também se expõem aos riscos de contaminação.

Na semana que marca um ano da chegada da pandemia ao Rio Grande do Sul, o Grupo RBS chama a população a participar hoje do Aplauso pela Vida - Uma Homenagem aos Profissionais da Saúde. Os gaúchos estão convidados para pontualmente às 19h30min, após o RBS Notícias, na RBS TV, ir a janelas e sacadas para bater palmas como agradecimento e encorajamento a esses trabalhadores que, como nunca, atravessam jornadas exaustivas e o esgotamento físico e mental para honrarem seus juramentos e evitar que ainda mais famílias acabem enlutadas.

Após um 2020 já exaustivo, os bravos profissionais da saúde encaram, neste março de 2021, dias ainda mais aflitivos. São quantidades assustadoras de internações e de mortes, muitas delas evitáveis não fossem a incapacidade material e a indisponibilidade de equipes em número suficiente para fazer frente ao ritmo de chegada de novos enfermos. Nem toda a dedicação e o desprendimento são sempre suficientes, ampliando o sofrimento de profissionais que, além da rotina massacrante, em muitos casos estão há longos períodos afastados de familiares, para protegê-los. 

Os heróis de jaleco, é preciso lembrar, não são imbatíveis. De acordo com o Conselho Federal de Medicina, mais de 500 médicos perderam a vida desde o ano passado no país, vencidos pela covid-19. Outros mais de 600 enfermeiros, auxiliares e técnicos de enfermagem também não sobreviveram à doença, segundo o Conselho Federal de Enfermagem. Antes de sucumbirem, porém, ajudaram milhares de brasileiras a voltar para casa.

A adesão à homenagem de hoje, entretanto, não pode se limitar a aplausos por alguns minutos. Deve ser seguida por uma ampla conscientização coletiva, em reconhecimento também a várias outras categorias de áreas essenciais, como segurança, transporte, energia e saneamento, que precisam estar nas ruas, enquanto parte da população pode ficar em casa, resguardada. Os profissionais da saúde se sentirão ainda mais verdadeiramente reconhecidos se cada gaúcho também se engajar na luta para deter o vírus, enquanto não há vacinação em massa. 

Para isso, não é necessário nenhum ato arrojado. Pede-se apenas que todo cidadão fique mais atento aos cuidados individuais básicos, como usar máscara, manter o distanciamento social e fazer assepsia constante das mãos. São pequenos gestos, mas poderosos. Têm o incrível condão de frear contágios, mortes, diminuir a pressão sobre os hospitais e fazer com que também os destemidos combatentes pela vida tenham a esperança de dias melhores pela frente. Na semana que marca um ano da chegada da pandemia ao RS, o Grupo RBS chama a população a participar hoje do Aplauso pela Vida

OPINIÃO DA RBS

12 DE MARÇO DE 2021
O PRAZER DAS PALAVRAS

Guaíba, o nosso rio

Com entusiasmo indisfarçável, Marilda B., grande amiga e fiel leitora, escreve na sua linguagem pitoresca para comemorar o que ela chama de "decisão histórica" do IBGE: "Estou passando alguns dias aqui na praia da Joaquina, em Floripa, e festejei a notícia com meu filho e minha nora: finalmente podemos dizer que nosso Guaíba é rio mesmo! O senhor viu? Deu até no Facebook! Agora puseram um fim naquela ladainha, enterraram para sempre a discussão! Só não entendo por que essa gente morrinha vive procurando chifre em cavalo".

Sim, minha cara Marilda, eu vi no Facebook da semana passada - mas isso é notícia que tem mais de quatro anos. A uma consulta feita pela Associação dos Amigos do Cais Mauá, a Coordenação de Cartografia do IBGE reconheceu que a classificação do Guaíba em seus mapas estava equivocada: "... a sua informação é procedente.

De fato, onde se lê Lago Guaíba, há um equívoco, uma vez que o topônimo correto é Rio Guaíba". Esta discussão, no entanto, velha como a Sé de Braga, não terminou aqui, e talvez jamais termine, pelo que vou explicar em seguida.

Em geral, a toponímia costuma usar, como padrão mais comum, um nome composto de duas partes. A primeira faz a classificação genérica do acidente geográfico - Cabo Frio, Lagoa Mirim, Atol das Rocas, Rio Amazonas; cabe à segunda individualizar o acidente em questão: Rio Amazonas, Rio Paraná, Rio Uruguai. Ora, esse enquadramento numa classe (como em todas as taxonomias) pode sofrer variações ao longo do tempo; primeiro, porque os conceitos podem mudar de acordo com o progresso da Ciência (a abrangência do conceito de continente, por exemplo, sofreu várias revisões ao longo dos séculos); segundo, porque novas pesquisas sobre um determinado acidente geográfico podem revelar detalhes que alterariam sua classificação - exatamente o caso do Guaíba. No universo acadêmico, correm várias teorias a seu respeito, baseadas em sua localização geográfica, no regime de suas águas, na sua relação com afluentes e em muitos outros critérios que ficam muito acima do meu conhecimento - ele poderia ser um rio, um lago, um estuário, uma bacia...

Essa definição caberá aos estudiosos, que poderão, ou não, chegar um dia a um consenso - mas isso não vai mudar a nossa vida, cara Marilda, a não ser pelas consequências legais que um determinado enquadramento possa provocar. Se for classificado como rio, a Área de Preservação Permanente junto às margens do Guaíba será dez vezes mais larga do que seria se ele fosse classificado como lago. Não preciso dizer que aqui a disputa deixa de interessar apenas aos acadêmicos e invade a vida de nós todos pelas óbvias implicações ecológicas que ela trará.

A nota do IBGE trouxe um alento para os que lutam para preservar nossos recursos naturais, mas não altera em nada - friso bem: em absolutamente nada - o nome rio que para sempre vai acompanhar o Guaíba. Como já escrevi nesta coluna, há muitos anos, "será que alguém imagina que vamos deixar de chamá-lo de rio só porque tecnicamente ele não é um rio?

Sabemos que já faz muito tempo que os especialistas vêm debatendo a verdadeira natureza do Guaíba. Depois de ser rio por dois séculos, passou alguns anos como lago e agora recebe o rótulo de estuário, que chega com ares de classificação definitiva (desde que, é bom lembrar, o próprio conceito de estuário não venha, um dia, sofrer alterações, como sói acontecer no mundo do conhecimento)".

Questões como essa pertencem a um mundo em que se exige precisão de linguagem para cada situação. O mais inexperiente advogado, ao contrário dos mortais, jamais confundiria furto e roubo ou taxa e imposto. Um biólogo distingue aves de pássaros, enquanto eu não seria capaz de dizer em qual das duas categoria se enquadram os urubus, as pombas, os periquitos, as andorinhas ou os canários. Os especialistas precisam manter esse rigor definitório, mas para nós, na vida real, essas distinções simplesmente não podem ser levadas em consideração, ou nossa vida viveria paralisada por crises de exatidão.

A lagoa dos Patos e a lagoa da Conceição, por estarem ligadas ao mar, são tecnicamente lagunas - mas só no mundo acadêmico. Há quem diga que o Mar Morto é, na verdade, um grande lago - mas ninguém vai inventar de chamá-lo de Lago Morto. Um aterro fez com que a ilha do Retiro, onde fica o estádio do Sport Recife, deixasse de ser ilha, mas ninguém pensa em trocar seu nome por aterro do Retiro. Por tudo isso, seja lago, estuário, bacia, laguna ou mesmo mar, o curso d?água que banha os pezinhos dos pequenos porto-alegrenses sempre será referido como o rio Guaíba.

CLÁUDIO MORENO

12 DE MARÇO DE 2021
APLAUSO PELA VIDA

Profissionais da área da saúde serão homenageados hoje

Na semana em que a pandemia de coronavírus completa um ano, veículos do Grupo RBS convidam os gaúchos a participarem de uma homenagem aos profissionais da saúde. Desde o ano passado, eles doam trabalho e dedicação, dobrando turnos e adiando o descanso, para acolher pacientes e familiares que sofrem com o vírus.

Para celebrar o empenho dos profissionais, RBS TV, Rádio Gaúcha, Diário Gaúcho, GZH e Zero Hora incluem ações em suas programações hoje. Entidades, autoridades, universidades e empresas também estão aderindo ao movimento.

Na Rádio Gaúcha, haverá entrevistas com profissionais da linha de frente. Às 19h, um programa especial será comandado por Daniel Scola. Na RBS TV, o Bom Dia, Rio Grande terá entrevistas ao vivo e irá recuperar imagens que mostram o trabalho e os êxitos dos trabalhadores. O Jornal do Almoço apresentará reportagens com médicos e profissionais da área. Os veículos também convidam os gaúchos a filmarem o momento em que ocorrerá o grande ato de homenagem: às 19h30min, no RBS Notícias, vamos aplaudir das nossas janelas para agradecer e incentivar médicos, enfermeiros e todos os profissionais que seguem na luta para salvar vidas.

Alexandre Zavascki, chefe do Serviço de Infectologia do Hospital Moinhos de Vento e médico do Hospital de Clínicas, pede que a população use máscara, mantenha ambientes ventilados e o distanciamento pessoal de no mínimo dois metros, além de higienizar as mãos.

- A melhor maneira de ajudar é garantindo que não seja você o próximo a disputar um dos leitos nos hospitais. Não por nós, mas por elas e por quem elas amam - diz Zavascki.

Nova campanha do movimento #juntoscontraovírus em jornal e nas redes sociais do Grupo RBS completam as iniciativas. Para participar, use a hashtag #aplausopelavida em suas redes.

 



12 DE MARÇO DE 2021
ACERTO DE CONTAS GIANE GUERRA

O que Spilki pensa?

De produtos contra o coronavírus a projeções, Fernando Spilki, professor da Feevale, coordenador da Rede Corona-ômica.BR (do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações) e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Virologia, responde a dúvidas de leitores e de fontes da coluna há um ano. A credibilidade é tanta, que já recebo perguntas como "o que Spilki pensa disso?" Hoje, vou aplaudi-lo pelo tempo dedicado, e trazer outra entrevista:

Qual o receio sobre a vacinação parcial?

Porque vacina o indivíduo e não o do lado, o que gera escapes, as variantes. Áreas em situação crítica, como a região metropolitana de Porto Alegre, precisam de uma estratégia agressiva, como ocorreu em Manaus. Precisamos de um bloqueio vacinal.

E o que seria bloqueio vacinal?

Diminuir faixa etária e acelerar o processo para chegar a 70% de pessoas vacinadas. As variantes não são estáticas. Elas brotam, e saem raminhos, o que precisa ser interrompido. Infelizmente, é preciso parar atividades econômicas para dar tempo à vacinação.

Como acelerar isso e como as empresas podem ajudar?

É preciso ter escala, tirando entraves para termos vacinas de mais empresas. Empresários precisam pressionar. Governos são sensíveis ao clamor empresarial. Isso tem que ganhar corpo para frearmos o processo evolutivo do vírus.

Quando vamos respirar novamente?

Se tudo der certo, a tensão diminuirá no final de 2021. Mas ninguém corre maratona depois de quebrar as duas pernas. O "novo normal" será bem próximo da normalidade, só que etiquetas precisam mudar, porque o vírus continuará aí. A frase "estou um pouco gripado, mas vou para o trabalho" não pode existir.

GIANE GUERRA


12 DE MARÇO DE 2021
EDUARDO BUENO

TRIO PARADA DURA

Ei, psiu, ô da poltrona... Caiu um botão aqui. Chega mais, diz uma coisa: será que é tão difícil assim fazer uma análise transparente, equilibrada, isenta - em uma palavra, "olímpica" - de Lula, de Bolsonaro e de Moro? Distanciar-se da polarização, despir-se de eventuais amores e ódios e, com base apenas nos fatos, tecer ponderações sobre o trio que dilacera e envenena o Brasil? É tão difícil assim? Não, não é. Os dados estão lançados (e disponíveis nas redes).

Luiz Inácio Lula da Silva nasceu na miséria do sertão, foi para São Paulo num pau de arara, não teve estudos, perdeu um dedo por excesso de trabalho, virou sindicalista. Um sindicalista ressentido, claro. Em 1977, liderou a mais corajosa greve do Brasil desde a de 1917. Fundou e virou dono do PT; fez seu partido votar contra a Constituição de 1988, contra o Plano Real, contra a Lei de Responsabilidade Fiscal. Perdeu as eleições para Collor em 1989 e para FHC em 1994 e 1998. Elegeu-se em 2002. Fez um governo quase que unanimemente elogiado no primeiro mandato, foi criticado no segundo e elegeu a desastrada Dilma para substituí-lo. Viu-se envolvido no escândalo da Petrobras e é preciso ser cego ou tolo para achar que ele não sabia daquilo. Ganhou um triplex e reformas num sítio. Foi julgado, condenado e preso. Acaba de ser virtualmente absolvido.

Jair Bolsonaro nasceu pobre, mas não na miséria. Entrou no Exército forçado pelo pai, virou militar medíocre e "atleta" medíocre, criticado por seus superiores pelo "excesso de ambição". Manifestou-se na imprensa pelo aumento dos soldos (o que era proibido), foi preso e se tornou um ressentido. Planejou um atentado terrorista, foi julgado e absolvido num processo espúrio. Reformado do Exército, foi um deputado medíocre por 27 anos, levou os filhos para a política e os ensinou a se locupletarem com rachadinhas. Lançou-se à Presidência no vácuo e no rastro do ódio ao PT. Elegeu-se e fez, até agora, um dos mais - se não o mais - desastrosos governos da história do Brasil.

Sergio Moro nasceu numa família de classe média. Formou-se em Direito, virou um juiz de carreira mediana, mas combativo. Enredou-se no julgamento do Banestado, foi parar na vara de Curitiba. Disposto a livrar o Brasil da corrupção, virou juiz, acusador e algoz ao mesmo tempo; um superjuiz, acima da lei, abaixo da ética. Sua delação premiada rendeu-lhe o cargo de ministro da Justiça no governo que ajudou a eleger. Em Brasília, foi humilhado e ofendido e saiu de lá escorraçado. Mensagens hackeadas botaram-lhe a pá de cal na toga esfarrapada.

Sabe o que acho? Acho que periga os três irem parar na lata de lixo da História. A diferença é que Lula é lixo orgânico e reciclável. Moro é o cotonete na narina duma tartaruga. O outro é lixo hospitalar tóxico. E tenho dito. Olimpicamente.

EDUARDO BUENO