quinta-feira, 4 de junho de 2020



04 DE JUNHO DE 2020
CORONAVÍRUS

Demissões no shopping e no setor aéreo

Carlos Augusto dos Santos levou duas horas de ônibus até o Sine da Avenida Sepúlveda, no Centro Histórico de Porto Alegre. Na mochila, os documentos para dar entrada no auxílio do INSS - a terceira tentativa no mês. Há mais de uma década, o morador da área rural de Viamão não precisava dos serviços de apoio às pessoas desempregadas: foram 13 anos ininterruptos atuando no estacionamento do Shopping Total, no bairro Floresta.

Com 230 mil demissões, o comércio foi o segundo setor que mais fechou postos de trabalho no Brasil em abril. No Rio Grande do Sul, a redução foi a terceira maior, atrás da indústria e do setor de serviços. Ao todo, 19,7 mil trabalhadores perderam o emprego no comércio gaúcho, de acordo com o Caged.

- Vou ter de procurar alguma coisa em Viamão mesmo. Uma pena, eu gostava de trabalhar lá (no Shopping Total) - lamenta.

Sem carro, Carlos Augusto gastava, diariamente, R$ 24 em quatro viagens de ônibus.

- Tenho fé que vou conseguir - promete a si mesmo.

Procurado na segunda-feira, o Shopping Total não se manifestou até o fechamento desta edição.

Voos

Enquanto o mundo fechava as fronteiras, as companhias aéreas viram o número de passageiros cair vertiginosamente. A procura por voos domésticos caiu 93% em abril se comparada ao mesmo período de 2019 - o pior resultado mensal da série histórica da Agência Nacional da Aviação Civil (Anac), iniciada em 2000. Os números são da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear) e incluem dados das principais operadoras nacionais. Perdendo só para a indústria, o setor de serviços encerrou cerca de 23 mil vagas em abril no Estado.

A situação atingiu diretamente Fábio Goulart Santos. Contratado em 2017, como profissional de rampa, foi um dos demitidos, em cortes que ultrapassam 60% dos funcionários nas seis empresas que operam no terminal gaúcho, de acordo com a Associação Brasileira das Empresas de Serviços Auxiliares do Transporte Aéreo (Abesata).

- Meu gerente foi sincero, disse que o movimento caiu muito e que espera, quando voltarem os voos, me contratar novamente. Eu quero muito - explica.

Santos avalia que sua especialização será levada em conta após a retomada do setor:

- As empresas não precisam gastar com treinamento, só uma reciclagem, e isso vai me ajudar.

04 DE JUNHO DE 2020
VERISSIMO

Precisão

O acoplamento de módulos espaciais é uma manobra de alta tecnologia e incrível precisão. Poucos países no mundo dominam o processo. Russos e americanos disputam uma corrida pela primazia no espaço que começou com as primeiras voltas do Sputnik em órbita da Terra, seguiu com as primeiras voltas de cães e, pouco depois, de um homem russo (ou soviético, faz tempo), com alta tecnologia e incrível precisão. Os Estados Unidos responderam com a promessa do presidente Kennedy de botar um americano na Lua, antes de qualquer outra nacionalidade, o que conseguiram.

Russos e americanos atravessaram anos de História, o aquecimento e o ocaso da Guerra Fria, a morte do Kennedy, a queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética, e hoje ocupam os mesmos módulos, acoplados no espaço com alta tecnologia e incrível precisão.

Ainda não se sabe ao certo o que matou George Floyd. Segundo a autópsia oficial, foi o coração. Segundo uma autópsia encomendada pela família, Floyd morreu asfixiado pelo joelho do policial que pressionava sua garganta. Não se sabe se joelho pressionando garganta é uma técnica de submissão comum para controlar detidos. Mesmo se for, os gritos de Floyd, "Não posso respirar!", deveriam ter sensibilizado o policial que o prendia e os policiais que o cercavam.

Se o joelho apertando a garganta era uma técnica de submissão admissível que apenas dera errado, então entramos no terreno do fortuito, do azar, da falta de precisão. O que faz o produto, afinal, de uma civilização que chegou à Lua ajoelhar na garganta de outro ser humano e ignorar seus protestos de que não pode respirar, que está morrendo, mesmo que a técnica de submissão seja correta?

Nas últimas etapas de um acoplamento espacial, os tripulantes têm pouco controle sobre seus módulos. Quase tudo é decidido na base de lançamento, a distancia, onde a precisão é garantida, intocada por decisões humanas. A mesma civilização que desceu na Lua apertou a cabeça do Floyd contra o chão até ele morrer. Se do coração ou de falta de ar, dá, tristemente, na mesma.

L.F. VERISSIMO

quarta-feira, 3 de junho de 2020



03 DE JUNHO DE 2020
DAVID COIMBRA

A palavra que não se fala

Tem uma palavra que branco não pode falar nos Estados Unidos. É nigger. Pronuncia-se "nigah". A tradução literal seria negro, mas não é bem isso. Nigger, ou nigga, é um termo pejorativo, altamente preconceituoso. Era usado, sobretudo, pelos sulistas para se referir aos escravos de origem africana e seus descendentes.

Então, é algo ofensivo e, sendo assim, só negros podem falar essa palavra por lá. Se um branco quer se referir a nigger por algum motivo, tem de dizer N word. Ou "a palavra que começa com ene".

O meu filho, latino que é, gozava de popularidade entre os grupos de negros na escola em que estudava. E seus amigos negros brincavam que, por isso, ele tinha o N pass. Isto é: a permissão concedida pelos negros a um branco para falar a palavra nigger.

"E tu fala?", perguntei a ele.

"Eu, não, papai! Capaz que eu ia falar uma palavra dessas!"

Veja como desde pequenos os negros americanos lidam conceitualmente com a discriminação. Porque o formato da sociedade americana é bem diferente do da brasileira. A começar pela geografia das cidades. Como os Estados Unidos estão sempre recebendo imigrantes, os guetos de nacionalidades se mantêm. Em Boston e em Nova York, por exemplo, há Chinatowns e Little Italys. E bairros coreanos, bairros judeus, bairros russos, bairros brasileiros. Há towns de Boston em que você entra e pensa ter voltado ao Brasil - por toda parte você vê lojas com letreiros em português e bandeiras da Seleção nas janelas, enquanto o som da música sertaneja empesteia o ar. Alguns estrangeiros vivem de tal maneira isolados, que passam 20 anos morando nos Estados Unidos sem aprender a falar inglês.

Em cada uma dessas grandes cidades, há também bairros negros. Em Boston há o Roxbury, onde Malcolm X viveu, tornou-se assaltante de casas e foi preso. Em Nova York há o Harlem, onde Malcolm X pregou o islamismo e foi assassinado por islâmicos.

Essa divisão acentua as diferenças. Proporcionalmente, há muito mais negros no Brasil (50% da população) do que nos Estados Unidos (13% da população). Mas os negros americanos são mais incisivos na afirmação da sua africanidade, digamos assim. Se isso é bom ou ruim, não sei. Sei que é.

Pegue Porto Alegre em comparação com Boston e Nova York. Porto Alegre tinha seus guetos - a Ilhota era um bairro negro, o Moinhos de Vento era um bairro alemão, o Bom Fim, judeu. Mas, como a cidade parou de receber imigrantes, os filhos de negros, alemães e judeus foram se mesclando, foram ganhando brasilidade e perdendo a identificação com a origem dos pais.

Agora, nos Estados Unidos, uma revolta espetacular explodiu no país por causa daquele crime brutal cometido por policiais de Minneapolis. A cena do policial com o joelho no pescoço do homem negro foi tão chocante, que mobilizou negros e brancos, homens e mulheres, uniu o país e certamente representará um avanço. Os Estados Unidos vão melhorar depois dessa rebelião. Haverá menos ações violentas da polícia, menos discriminação e, provavelmente, mais paz.

Enquanto isso, no Brasil, um grupo sai marchando por Brasília com máscaras brancas cobrindo o rosto e com tochas na mão, numa óbvia referência à Ku Klux Klan, a odienta organização racista americana. Como podemos tolerar uma afronta dessas? Por que não nos indignamos? Tenho a impressão de que, ao contrário dos Estados Unidos, estamos andando para trás. Em direção às sombras. Cada vez mais para trás.

DAVID COIMBRA

03 DE JUNHO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

FRAUDES NO AUXÍLIO EMERGENCIAL


É estarrecedora a descoberta de que cerca de 230 mil pessoas no país, além de outros 23 mil brasileiros que vivem no Exterior, podem ter recebido ilegalmente recursos do auxílio emergencial, pago pelo governo federal para ajudar trabalhadores informais, autônomos e desempregados durante o momento mais crítico da pandemia. A revelação, feita no programa Fantástico, da Rede Globo, no último domingo, mostra a existência de sérias fragilidades na análise sobre quem pode ou não ter acesso ao dinheiro, o que precisa ser urgentemente corrigido. Enquanto centenas de milhares que deveriam estar excluídos conseguem os R$ 600, também proliferam relatos de cidadãos que estão enquadrados nas normas como possíveis beneficiários, mas têm resposta negativa na hora de buscar o amparo financeiro.

Choca especialmente a informação de que mais de 27 mil foragidos da Justiça, em todo o Brasil, tiveram o auxílio emergencial aprovado e, apenas na primeira parcela da ajuda, foram agraciados com R$ 16 milhões. Destes não se esperava que deixassem de agir de má-fé, mas seria preciso um mínimo de controle do governo e da Caixa sobre o banco de dados e um cruzamento de informações com outros órgãos para detectar a presença de criminosos na lista de candidatos a receber os recursos. Outra falha já detectada foi a que permitiu a mais de 70 mil militares das Forças Armadas sacarem o valor, que deverá ser devolvido, conforme ordem do Tribunal de Contas da União (TCU).

O grave é que não são criminosos comuns apenas os que buscam perpetrar essa fraude. Onze dos 22 bandidos mais procurados do país, conforme relação do Ministério da Justiça e da Segurança Pública, solicitaram e conseguiram os recursos que deveriam ser direcionados para brasileiros humildes e trabalhadores. A ameaça de enquadrar tais elementos - que já deveriam estar atrás das grades - em crimes como estelionato e falsidade ideológica tampouco serve para inibir a ação desses delinquentes. Afinal, no rol dos mais procurados figuram bandidos condenados por roubos milionários, tráfico de drogas e outras transgressões pesadas.

A melhor alternativa para solucionar este problema sério é aperfeiçoar o sistema de filtros dos que pedem o benefício, com um cruzamento com os bancos de dados do Conselho Nacional de Justiça, para detectar a presença de foragidos, e da Receita Federal e Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para outros casos, como quem vai morar no Exterior. 

O TCU, em boa hora, está pedindo esclarecimentos do governo federal para estancar essa sangria de recursos, que acontece ao mesmo tempo que laboriosos brasileiros ainda lutam de forma desesperada pela sobrevivência em meio ao caos em que se transformou a economia com a chegada do novo coronavírus. Custoso e meritório, o auxílio emergencial ampara quase 60 milhões de brasileiros neste período de maior incerteza. Mesmo que as fraudes sejam minoritárias, é preciso estabelecer um melhor controle para detectar rapidamente quem não se enquadra e agilizar a inclusão dos cidadãos que têm direito ao benefício.

OPINIÃO DA RBS


03 DE JUNHO DE 2020
CORONAVÍRUS

Número de vítimas no Brasil pode quadruplicar em 60 dias

País cruzou barreira das 30 mil mortes e ainda não tem perspectiva de redução no contágio

Ontem, o Brasil entrou para um grupo tão seleto quanto indesejável. Ao ultrapassar a barreira das 30 mil mortes por coronavírus, está ao lado de EUA, Reino Unido e Itália na lista de países que enterraram uma quantidade de vítimas do novo vírus equivalente à população de uma cidade do porte de Flores da Cunha, na Serra.

A diferença em relação aos demais integrantes desse clube do qual ninguém deseja fazer parte é que as outras nações cruzaram esse patamar quando já haviam superado o pico de óbitos diários - nos EUA, isso ocorreu na mesma data. Projeções matemáticas e avaliações de epidemiologistas indicam que os brasileiros ainda devem testemunhar o agravamento da pandemia. Por isso, segundo projeções do centro americano que assessora a Casa Branca e a Organização Pan-Americana da Saúde em relação ao coronavírus, o número de mortes poderia quadruplicar e chegar a 120 mil até o começo de agosto.

Estimativa do Instituto de Métricas e Avaliação da Saúde (IHME) da Universidade de Washington aponta que podem ocorrer 120.242 óbitos até o final de julho, e 125 mil até 4 de agosto. A margem de erro, porém, é ampla. O número final até o fim do próximo mês poderia variar entre 65,9 mil e 212 mil.

Até a semana passada, a mesma organização esperava 88 mil mortes no país. A atualização nos dados usados para antecipar os rumos da covid-19 previu ainda que, especificamente no Rio Grande do Sul, até o último dia de julho essa cifra pode chegar a 1.087 vítimas. É preciso cuidado ao levar em consideração esses cálculos, já que nem sempre informações como o número de novos casos são confiáveis, e mudanças no comportamento da população alteram o ritmo de contágio.

No dia 23 de maio, o IHME previu que 264 gaúchos teriam morrido por coronavírus até 1º de junho. O número verificado de fato, conforme a Secretaria Estadual da Saúde, foi 232 - erro de 13,8% para mais. A previsão nacional indicava que seriam 32 mil óbitos até a data, tendo ocorrido erro de 8,2% a mais. Se esse percentual se repetir, ainda assim o Brasil registraria mais de cem mil mortes ao final do período analisado.

- Não arrisco um número, mas tudo indica que ainda não passamos pelo pior momento da pandemia, e as mortes devem continuar aumentando. Não é o que gostaríamos, mas é o que se espera no momento - analisa o epidemiologista e professor da UFRGS Paulo Petry.

Sistema

Professor do Instituto de Informática da mesma universidade e pós-doutor na área da computação, João Comba ajudou a desenvolver ferramenta que compara o avanço da pandemia em diferentes regiões do planeta e projeta números. Pelo sistema, o país chegaria ao final deste mês com 1,5 milhão de casos e perto de 40 mil mortes.

- Há modelos mais sofisticados do que o nosso, mas temos alcançado boa margem de acerto. A partir de agora, na verdade tudo depende de como as coisas vão evoluir - afirma Comba.

Comparando-se o Brasil com os demais países campeões de mortes por covid, um indicador é ligeiramente mais favorável: o país levou um pouco mais de tempo para chegar ao patamar de 30 mil, ou seja, controlou melhor a doença nas fases iniciais. Foram 77 dias, contra 76 da Itália e 69 nos Estados Unidos, por exemplo.

O dado negativo é que a Itália já havia superado o pico de mortes 42 dias antes de atingir essa marca em 8 de maio. Ou seja, a pandemia já encolhia significativamente. Por isso, o número não subiu muito mais do que isso desde então e, até ontem, permanecia em pouco mais de 33 mil óbitos. A dúvida é quantos mortos a mais os brasileiros ainda vão contar além dos 30 mil que já compõem a cruel estatística do coronavírus.

MARCELO GONZATTO


03 DE JUNHO DE 2020
MÁRIO CORSO

Amores em quarentena

Aumentou o número de divórcios durante a quarentena. Na China, onde a pandemia começou antes, os números anunciavam. Agora, no Brasil, repete-se o quadro.

Um conselho aos casais estressados pelo convívio: não se precipitem. Sair-se mal no caos não quer dizer que vocês fracassariam na normalidade. A quarentena requer uma rotina que é massacrante para qualquer relação.

Um casal se nutre do entra e sai que o cotidiano fornece. Agora perdemos a saudade. Às vezes passávamos uma semana sem uma conversa mais longa, sem um abraço apertado, sem o momento da delicadeza. E a graça estava na oscilação entre estar juntos e separados.

No extremo, existem casais que se dão bem desde que morem separados. Morando juntos, fenecem. A questão é que não existe um ideal de relação. O importante é amar e se sentir amado. É ter alguém que te ajuda a ser melhor a cada dia.

Não conseguirem estar grudados o tempo todo, encerrados em poucos metros, não quer dizer pouco amor. Quer dizer que não aguentam uma relação que beira a simbiose. Algumas pessoas perdem seus contornos com o convívio excessivo.

A questão é que alguns ficam capturados num ideal de relação que deveria suportar qualquer caos. Porém vivemos um tempo de exceção, de medo, de neblina à frente. Não é só o cotidiano enclausurado que ameaça, é o futuro incerto. Pessoas normais adoecem psiquicamente nesses casos. E, quando os dois adoecem juntos, um não consegue apoiar o outro.

Brinca-se que não há relação que sobreviva a uma reforma. A sucessão de contratempos e infortúnios de uma obra, junto com a dificuldade em harmonizar decisões, lima a harmonia do casal. Justo quando estão construindo um ninho acolhedor...

Com a pandemia é parecido: não deveríamos estar em êxtase por ter tanto tempo para a intimidade? Não deveríamos estar numa jornada contínua de encontros plenos?

Infelizmente o confinamento se parece mais com a obra do que com uma lua de mel: há uma série de minúcias, imprevistos, o dinheiro encolhe e o tempo espicha. Amores pedem paz, saídas para poder haver entradas e um ambiente em que as paredes não venham abaixo.

Nossas relações estão suportando um terremoto que transformou nossa casa, que é o mundo, em uma versão antirromântica. Tenham paciência, casais dormem juntos, porém viram-se obrigados a compartilhar um pesadelo. Um dia amanhece.

MÁRIO CORSO

03 DE JUNHO DE 2020
RBS BRASÍLIA

Escalada dos radicais


O país alcançou a apavorante marca de 31.199 mortos pela covid-19 e 555.383 casos confirmados, mas o que mobiliza as atenções em Brasília é a escalada dos radicais. Depois de semanas do desfile de grupos bolsonaristas ostentando faixas pedindo o fechamento do Supremo Tribunal Federal e intervenção militar, grupos de oposição se manifestaram.

A violência é condenável, assim como o vazamento de dados pessoais do presidente da República e sua família pelas redes sociais, o que já está sendo investigado. Um quadro de tensão e incerteza que em nada contribui para o país. Nem Bolsonaro, que sempre se alimentou da polarização, tem tanto a ganhar assim. Sem um plano para a recuperação da economia, sem liderança no combate à pandemia e agarrado ao centrão, ele tende a perder ainda mais popularidade. E o problema, neste momento, é que faltam bombeiros.

O Planalto deveria aproveitar que o Congresso está concentrado na votação de propostas de combate ao coronavírus para dar mais rapidez à regulamentação de medidas relacionadas à pandemia. Por exemplo, o projeto de auxílio às pequenas empresas que, aprovado há mais de um mês, só foi regulamentado nesta semana.

Bolsonaro nunca teve foco, mas, agora, prestar mais atenção aos rumos da economia e da política está quase virando questão de sobrevivência. Ontem, uma apoiadora que estava em frente ao Palácio da Alvorada insistiu que ele mandasse uma mensagem para famílias das vítimas. Após desconversar, respondeu:

- Eu lamento todos os mortos, mas é o destino de todo mundo.

CAROLINA BAHIA


03 DE JUNHO DE 2020
CHAMOU ATENÇÃO

Cinema drive-in no shopping


Formato de cinema que tem ressurgido no país com o distanciamento social, o drive- in chegou ao Rio Grande do Sul. O Passo Fundo Shopping marcou a sua primeira sessão para 11 de junho, véspera do Dia dos Namorados. A estrutura para exibir o filme ficará no estacionamento externo.

Os clientes poderão matar a saudade de ver um filme e terão a segurança de que o farão de dentro do próprio carro, com a projeção feita em tela grande. O projeto foi batizado de Cine Drive-in Passo Fundo Shopping, concebido em parceria com a Cinelaser Cinemas e Online Sonorizações.

O Cine Drive-in terá sessões de quintas a domingos, às 19h e 21h30min. Para celebrar o Dia dos Namorados, os primeiros dias terão a exibição do filme romântico ganhador do Oscar Nasce uma Estrela, com Lady Gaga. Haverá uma nova programação a cada semana.

Os ingressos poderão ser comprados pelo aplicativo do Cinelaser Cinemas já a partir de hoje. A entrada custa R$ 20 ou R$ 10 para crianças, estudantes e idosos. O Cinelaser venderá combos de lanche pelo WhatsApp, que serão entregues no carro.

Mesmo com o público dentro dos veículos, haverá protocolos de segurança. Os automóveis deverão manter distância mínima de 1,5 metro lateral e de quatro metros de distância frontal e traseira. Com isso, a capacidade da sessão será de 90 carros. Os locais serão escolhidos por ordem de chegada, com abertura do espaço com uma hora de antecedência do início do filme, avisa a AD Shopping, administradora do Passo Fundo Shopping.

Após autorização municipal, o Passo Fundo Shopping retomou as atividades em 25 de maio.

GIANE GUERRA

terça-feira, 2 de junho de 2020



02 DE JUNHO DE 2020
DAVID COIMBRA

O nariz de Cleópatra

Pascal escreveu que, se o nariz de Cleópatra fosse menor, a história do mundo seria diferente. O que essa frase fez, em primeiro lugar, foi tornar famoso o nariz de Cleópatra. Curioso, porque essa era uma parte do corpo da rainha sobre a qual não havia menção alguma em depoimento algum da História. Quer dizer: quem viu aquele nariz sorvendo oxigênio não se manifestou a respeito.

O pedaço do corpo de Cleópatra de que se falou foram os lábios. Ela era chamada de Cheilon, "a que tem lábios grossos", e dizem que possuía perturbadora habilidade com eles. Mas não se pode dar crédito a tudo o que escreviam os antigos historiadores, havia muita fake news naquela época.

O interessante dessa frase de Pascal não é sua consideração nasal. É o seu sentido. Significa que o destino de milhões de seres humanos poderia ter sido outro, não fosse esse ou aquele detalhe aparentemente insignificante. Cleópatra, por ter um nariz tão belo, seduziu dois generais romanos, dois donos do mundo, Júlio César e Marco Antônio. 

Se seu nariz fosse feio, Júlio César não teria se detido no Egito por tanto tempo para se repoltrear com ela às margens do Nilo, o Senado não se levantaria contra ele e a história do império e, por conseguinte, do Ocidente, tomaria rumo diverso do que tomou. Marco Antônio também teria outra sorte se não se apaixonasse por aquela beldade egípcia. Ele provavelmente se concentraria na guerra, venceria Augusto e se tornaria o primeiro imperador. Assim, o mês de agosto talvez se chamasse Antônio.

Enfim. Conjecturas. Poderia fazer inúmeras.

Se Hitler tivesse sido aprovado pela escola de arquitetura de Viena, a Segunda Guerra não teria ocorrido e milhões de pessoas não teriam perdido suas vidas, o império britânico levaria muito mais tempo para se esfacelar, a Europa ainda seria o centro econômico do mundo e nós nos vestiríamos com gabardine inglesa, não com jeans americanos.

Se Tancredo tivesse procurado um médico quando sentiu pela primeira vez uma indisposição estomacal, em 1985, sua situação de saúde não se complicaria, ele assumiria a Presidência e talvez o Brasil não buscasse soluções populistas nas eleições posteriores. Hoje, o presidente seria alguém moderado, como, sei lá, o Bonner.

Deus mora nos detalhes, disse Einstein. Uma pequena decisão causa uma grande mudança de rumo. Num império, num país, numa empresa, na sua vida.

E se você tivesse aceitado a proposta de emprego?

E se não tivesse dito aquela frase?

E se Galato não tivesse levantado o pé na cobrança do pênalti?

E se Ronaldinho tivesse acertado aquela falta no fim do jogo no Japão?

E se aquele chinês não tivesse comido morcego em novembro do ano passado?

Parece tão pouco, mas mudaria tanto. Preste atenção nos detalhes. Cuide das pequenas coisas. Tenha medo da minoria.

DAVID COIMBRA

02 DE JUNHO DE 2020
ARTIGOS - Psicanalista e escritor | celso.gut@terra.com.br

Na hora de ser e escolher as laranjas

A expressão "laranja podre" é bastante conhecida. E útil, por mais forte ou relativa que seja. Sabemos o quanto uma nota desafinada compromete a música toda. Um instrumento fora do tom, a orquestra. Isto é fundamental para quem trabalha com grupos, desde uma família até um time. Uma escola. Um país.

O psicanalista Winnicott cunhou a expressão "ambiente facilitador" como necessário ao desenvolvimento da criança. Tal ambiente é composto por pessoas. Basta uma sem empatia ou não comprometida com a causa, especialmente se representar uma autoridade, e haverá consequências nefastas para o grupo inteiro.

Há razoável consenso de quem seja a laranja, por aqui. Sem ouvidos para a ciência, para a cultura, de olhos fixados em inimigos, fora do tom, desafinado, tudo em nome desta falta inominável de empatia. No entanto, o tempo vem descortinando novas laranjas suspeitas, entre Estados e municípios: Rio, Rio Grande do Sul, São Paulo, Manaus, Belém, exemplos não faltam para que a mais conhecida ganhe novas companhias, por menos más que pareçam.

Diversas autoridades, na contramão do mundo, estão colocando seus projetos pessoais acima da vida e da morte. Afrouxam o isolamento social, antes da descida da curva de mortos e infectados pelo vírus, em nome de um afastamento ineficaz para salvar mais gente. E não comparecem como Estado firme para mitigar os efeitos colaterais do remédio amargo, mas necessário, segundo a maioria científica do mundo.

Há uma laranja, mas, junto a ela, outras muitas, no cesto contaminado, há muitos séculos. Não é fácil cavar o espaço que promova um ambiente facilitador de uma sobrevivência difícil para todos.

Parece que se vai precisar de muito tempo e esforço de todas as frutas restantes, em seus cestos pessoais, limitados e à mercê da sujeira pública de seus exemplos. Que possam, no pouco que podem, lutar por muito mais saúde, segurança e pelo dobro disso na educação de pessoas que pensem e sintam melhor, na hora de ser e escolher as laranjas.

CELSO GUTFREIND


02 DE JUNHO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

A ESCALADA RADICAL

Não bastassem a pandemia e os problemas humanos e econômicos decorrentes, o Brasil se vê às voltas agora com uma preocupante escalada extremista de desfecho imprevisível. As manifestações que vão se disseminando em capitais nos fins de semana são a face mais evidente de um confronto que migra das redes sociais para os núcleos de poder em Brasília e retorna para a realidade do país em um diapasão cada vez mais grave e sectário.

No caldeirão de Brasília, o Palácio do Planalto ferve em teorias conspiratórias, a principal delas a de que há um complô entre líderes dos outros dois poderes, o Congresso e o Judiciário, para destituir o presidente Jair Bolsonaro. Como resultado da paranoia palaciana, o presidente abre as comportas para a radicalização de seus seguidores, ao dar curso à teoria e frequentar manifestações nas quais se pedem intervenção militar e o fechamento do Supremo Tribunal Federal (STF). No cúmulo do sectarismo, em uma assustadora referência a manifestações racistas, uma falange bolsonarista marchou à luz de tochas para um protesto diante do STF.

Como era previsível, radicalismo de um lado leva ao de outro, e assim começaram a pipocar pelo país manifestações de um certo movimento autodenominado "antifascista". A mais estridente delas ocorreu na Avenida Paulista, em São Paulo, no domingo, quando torcidas organizadas, mimetizadas sob um vago ato "pró- democracia", demonstraram aquilo que sabem fazer de melhor: desprezar outras correntes de pensamento, atiçar adversários, provocar a polícia e arrumar briga.

Na saraivada de atos e ações fora de tom, não se excluem também gestos no mínimo controversos de ministros da Suprema Corte. A instauração de um inquérito para investigar e julgar, pelo mesmo STF, ameaças e ataques aos ministros rendeu suspeitas de corporativismo e de desvio de função da Suprema Corte. Da mesma forma, não foi sem estranhamento de muitos juristas que o ministro Celso de Mello decidiu liberar virtualmente a íntegra de uma reunião reservada do ministério de Bolsonaro, ainda que apenas algumas passagens tivessem relação direta com a investigação sobre eventual interferência presidencial na Polícia Federal.

Tais ações, seguidas de declarações de teor político que se tornam públicas, trazem a sensação de que também ministros do STF, por mais sinceras que possam ser as intenções, se movem por convicções além da lei, o que desinfla a aura de imparcialidade do Supremo e robustece discursos contra a própria Corte em bolsões radicais. O próprio núcleo militar do Planalto, identificado inicialmente como um poder moderador, vem se alinhando gradativamente ao lado daqueles que enxergam um dedo político em iniciativas de ministros do Supremo, reduzindo o território da moderação dentro do Planalto.

Em tempos normais, as desconfianças de parte a parte já teriam o condão de gerar instabilidades e fissuras no tecido democrático. Em meio à maior emergência sanitária do século, o crescendo de radicalismo é mais do que uma temeridade: é uma irresponsabilidade que será julgada pelas gerações futuras e seguramente apontada como um reflexo da combinação de mentes perturbadas por desinformações com sectarismos estimulados via redes sociais. Enquanto o Brasil se encaminha para o topo da crise do coronavírus, é preciso dar um freio às radicalizações. No Brasil de hoje, é fácil brigar e apontar os outros como responsáveis pela escalada de ataques. Antes que seja tarde demais, os espíritos precisam ser desarmados por todos aqueles que têm poder para tanto.

OPINIÃO DA RBS

02 DE JUNHO DE 2020
+ ECONOMIA

Empresa cria visita virtual a imóvel


Uma empresa gaúcha especializada em narrativas audiovisuais arquitetônicas, a Neorama, criou uma plataforma de realidade virtual para visitas a imóveis. A plataforma de realidade virtual permite que o usuário "se movimente" pelos espaços e observe detalhes como iluminação e área útil.

Para usar o mecanismo, assegura a empresa, basta uma conexão regular. Não é preciso instalar plugin ou usar óculos de realidade virtual. O acesso pode ser feito inclusive por celular.

Para as incorporadoras, segundo Márcio Carvalho, arquiteto e sócio-fundador da Neorama, a principal vantagem é a possibilidade de testar múltiplas opções de decorados, além da redução de custos.

A visita virtual exige de 10% a 15% do orçamento utilizado para o desenvolvimento de um apartamento físico.

Para Carvalho, a plataforma permite que os clientes tenham mais autonomia para escolher a melhor hora e quanto tempo vão dedicar à visita. A empresa está em negociações com incorporadoras do Brasil e com arquitetos dos Estados Unidos para licenciar a ferramenta.

R$ 8 milhões

é o valor do edital da segunda edição do Tecnova RS, lançado ontem pelo governo do Estado. Tem recursos de Finep, Sebrae-RS e Fapergs. Os candidatos a receber até R$ 300 mil por projeto devem se inscrever no site sig.fapergs.rs.gov.br.

MARTA SFREDO

02 DE JUNHO DE 2020
NÍLSON SOUZA

Tempo de perguntas


Gosto muito desta minianedota. O professor propõe ao aluno:- Se você pudesse jantar com qualquer pessoa, viva ou morta, quem escolheria? E o rapaz, rápido no gatilho: - A viva, lógico!

Pois uma multinacional de alimentos fez uma campanha publicitária utilizando a mesma pergunta, só que feita separadamente a pais e filhos. Os adultos cravaram em celebridades: Justin Bieber, Nelson Mandela, Elvis Presley e por aí. Depois, as crianças foram questionadas sozinhas, com os pais acompanhando a distância, por câmeras, sem que elas soubessem. Vários deles ficaram constrangidos e emocionados ao constatar que meninos e meninas respondiam sem hesitar:

- Meu pai e minha mãe.

Há variações em torno do tema. Uma questão recorrente no Ensino Médio, para provocar a reflexão dos adolescentes, é a seguinte: se você pudesse escolher apenas uma pessoa para conversar pelo resto da vida, quem seria e por quê? Aqui já não devem aparecer tanto pais e mães nas respostas, se é que aparecem. A garotada provavelmente viaja por outras galáxias, onde orbitam amigos, namoradas e namorados. Não sei. Tenho a curiosidade, não tenho a resposta.

Já vi também uma provocação dessas dirigida a escritores e cronistas: se você pudesse escolher apenas uma coisa sobre a qual escrever para o resto de sua vida, o que escolheria? Como sou um curioso por natureza e ofício, acho que escolheria perguntas. Sempre rendem. Benjamin Franklin, jornalista e revolucionário norte-americano, dizia que o segredo de uma vida digna era fazer-se duas perguntas diariamente. Pela manhã: "O que eu farei de bom hoje?". À noite: "O que eu fiz de bom hoje". Eis aí uma atitude interessante para se praticar nestes tempos de pandemia e disputas de poder.

Perguntas, portanto, podem ser mais importantes do que as respostas. E não é este despretensioso escriba que está dizendo isso. O grande Voltaire já escreveu que um homem deve ser julgado mais por suas perguntas do que por suas respostas. A não ser, é claro, quando alguém consegue achar a resposta mais inspirada, mesmo que não seja a certa, como na historinha que abriu esta crônica. Respostas talentosas desmontam até perguntas embaraçosas.

A propósito, se você tivesse que escolher apenas uma pessoa, viva ou morta, para passar o resto da quarentena junto, quem escolheria? Respostas para meu e-mail. Não garanto sigilo.

NÍLSON SOUZA

segunda-feira, 1 de junho de 2020



01 DE JUNHO DE 2020
DAVID COIMBRA

Essa briga não vai acabar

Fez-me mal entrevistar o ex-deputado Jean Wyllys, na semana passada, no Timeline Gaúcha. Senti uma amargura, um desencanto. Não que Wyllys seja mau-caráter. Nem sei quem ele de fato é, a persona pública que representa é muito explosiva, ocupa-lhe todos os espaços de humanidade.

Afinal, você não gosta de uma pessoa porque ela defende essa ou aquela causa. Você gosta de uma pessoa mais pelo que ela sente do que pelo que ela pensa. Se ela é gentil, se é leal, se é atenciosa, se respeita as outras pessoas. Uma bandeira correta pode ser carregada por um ser humano vil. Conheço canalhas que fazem caridade, que têm belas ideias e que são honestos às vísceras. Então, repito, não sei quem de fato é Jean Wyllys. Mas sei que ele nada em uma corrente de pensamento razoavelmente caudalosa no Brasil. Foi isso o que me abateu naquela conversa. Porque, a partir dela, constatei que nós, brasileiros, estamos perdidos.

Em pouco mais de meia hora de entrevista, Jean Wyllys demonstrou toda a sua galhardia, toda a sua certeza de que é moralmente superior, todo o seu desprezo por quem não está festivamente a seu lado. A Jean Wyllys não basta ser radical, agressivo e arrogante, ele acredita que TEM DE SER radical, agressivo e arrogante, e proclamou isso com ênfase. Para ele, não interessa conquistar as pessoas para a sua causa, porque, na sua concepção, elas têm obrigação de defendê-la.

Ou seja: Jean Wyllys não aprendeu nada com o que aconteceu no Brasil nos últimos anos.

Jean Wyllys não percebeu o óbvio: que Bolsonaro e a nova direita brasileira escalaram sobre suas costas, sobre as de Maria de Rosário, sobre as de Gleisi Hoffmann, sobre as costas da esquerda excludente e pretensiosa, até se instalar no poder. Bolsonaro, em toda a sua rudeza, percebeu. No mesmo dia em que Jean Wyllys deu aquela enfatuada entrevista ao Timeline, Sergio Moro contava, em outra entrevista, que Bolsonaro comemorou a soltura de Lula da cadeia. Para Moro, Lula livre era uma afronta à justiça; para Bolsonaro, um ganho político.

Moro e Jean Wyllys não compreenderam o evidente: foi a radicalização de esquerda que cevou a radicalização de direita. Quando Jean Wyllys cuspiu na cara de Bolsonaro, não lhe deu perdigotos, deu-lhe votos. Quando Maria do Rosário atacou Bolsonaro do plenário, não o constrangeu, consagrou-o. Quando Lula insistiu em ser candidato, mesmo sabendo que não poderia, elegeu Bolsonaro presidente. E, antes disso tudo, cada vez que a esquerda julgou e condenou os que pensavam diferente, empurrou os que pensavam diferente para longe de si: empurrou para a direita. E empurrou com tanta força, que agora contemplamos, abismados, até gente fazendo manifestação com tochas e máscaras em Brasília, uma espécie de Ku Klux Klan cabocla.

É uma lógica tão simples. Você só consegue construir alguma coisa se somar, e você não soma dividindo. Os maiores cérebros políticos da humanidade sabiam disso e, em vez de afastar as pessoas, trouxeram-nas para o seu lado. Foi o exemplo dado por Gandhi, por Mandela, por Martin Luther King, três reis da humildade, da tolerância e, por consequência, da sagacidade.

Jean Wyllys, com um discurso rancoroso, belicoso e cheio de certezas pétreas, é o oposto desses gênios da humanidade e do humanismo. Fosse apenas ele, tudo bem. Não teria importância. Mas uma grande parte da esquerda ainda pensa assim. Ou seja: os opostos continuarão se afastando. A direita terá cada vez mais motivos para odiar a esquerda, porque a esquerda demonstrará cada vez mais os seus motivos para odiar a direita. Essa briga está longe de acabar. E a maioria silenciosa da população continuará entre os extremos, perplexa, silenciosa e inerte, esperando, em vão, pela paz.

DAVID COIMBRA

01 DE JUNHO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

A RESILIÊNCIADO CAMPO


Em meio à freada brusca do consumo e dos negócios no mundo causada pela chegada do coronavírus, há um setor que não parou e, pelo contrário, segue mostrando um desempenho acima da média dos demais segmentos da economia. É o agronegócio brasileiro, que, no primeiro quadrimestre de 2020, na contramão do encolhimento generalizado, elevou em 5,9% as exportações na comparação com igual período do ano passado, chegando a US$ 31,4 bilhões. A razão, mais uma vez, é o apetite chinês por soja e carnes. O cenário se repetiu no Rio Grande do Sul. De janeiro a abril, os embarques do grão cresceram 34% e, no caso da proteína animal, 61%.

Com as incertezas rondando a indústria, o comércio, o serviços e os investimentos em infraestrutura, a força e a resiliência do campo devem mais uma vez servir como um colchão a amortecer o impacto da crise no país. É sintomático que, também no primeiro quadrimestre do ano, foi o único setor a ter saldo positivo em postos de trabalho formais, criando 10 mil empregos com carteira assinada, conforme os dados do Caged. Enquanto se espera uma forte queda do PIB nacional neste ano, o Valor Bruto da Produção Agropecuária em 2020 deve subir 8% e chegar a R$ 697 bilhões, projeta a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Na sexta-feira, essa tendência ganhou reforço com a divulgação de que o agronegócio brasileiro cresceu, no primeiro trimestre, 0,6% em relação aos três últimos meses do ano passado, sendo o único setor com PIB positivo no país.

Para o Estado, apesar dos bons indicadores dos primeiros meses nas exportações, as perspectivas infelizmente não são tão animadoras, pela seca que dizimou metade da safra de soja, carro-chefe das lavouras gaúchas. A falta de chuva, porém, é um fenômeno ocasional e não tira as perspectivas que seguem animadoras para o agronegócio do Rio Grande do Sul no médio e longo prazos, um atividade que, nos anos mais duros da última recessão, impediu, com colheitas fartas, uma queda ainda mais acentuada do PIB do Estado.

O mundo seguirá, nos próximos anos, demandando alimento. E o Rio Grande do Sul e o Brasil permanecerão como celeiros estáveis, a fornecer quantidade e qualidade. O Estado, porém, ainda tem espaço para conquistar com a agregação de valor a produtos de atributos reconhecidos na agricultura e na pecuária. Uma marca que indicasse a procedência de itens do agronegócio do Rio Grande do Sul e funcionasse como uma espécie de certificação adicional poderia assegurar uma diferenciação que inclusive afastasse possíveis reveses aos negócios ocasionados pela crescente má imagem brasileira no Exterior causada pelo comportamento do governo na questão ambiental, na qual se mostra conivente com a degradação da natureza. As notícias mais recentes infelizmente apontam que o Brasil vai voltar a ganhar as manchetes internacionais de forma negativa devido a desmatamento e queimadas na Amazônia promovidos principalmente por madeireiros ilegais e garimpos clandestinos. Por mais que possam existir exageros eventuais, não se pode dizer que a condenação planetária, com o risco de embargos, não tem respaldo na realidade.

Os agropecuaristas gaúchos, de tradição afirmada e de competência reconhecida, que nada têm a ver com essa postura execrável, não podem pagar por um erro que não é seu. É preciso trabalhar para que esse estigma fique distante da produção do Estado.


01 DE JUNHO DE 2020
RBS BRASÍLIA

Protestos desprezam mortos pela covid-19

O final de semana foi de caos e desprezo com doentes e famílias dos mortos pela covid-19. Isso sem falar das milhares de pessoas que enfrentam dificuldades porque perderam o emprego ou a fonte de renda com que contavam antes da pandemia.

A bordo de um helicóptero ou em cima de um cavalo, o presidente da República mais uma vez incentivou as aglomerações e manifestações que defendem o fechamento do Congresso e a insana bandeira da intervenção militar. Tudo em nome da blindagem da própria família e até como habeas corpus preventivo a um futuro processo de impeachment.

Manifestantes a favor e contra o governo entraram em conflito. Torcidas organizadas de times de futebol, tradicionalmente violentas, foram o componente novo da oposição em São Paulo. As redes sociais governistas e de oposição deliraram. Como as ruas não têm dono, a tendência dos extremos, agora, é ampliar a radicalização e os confrontos.

Enquanto isso, a União Europeia já discute um plano de ação para enfrentar os efeitos econômicos no pós-pandemia. Já em Brasília, não sabemos o que vai acontecer na próxima semana. A imagem do país no Exterior se desmancha.

No sábado, até uma caricatura de supremacistas, apoiadores do governo, foi para frente do Supremo Tribunal Federal, em vigília. Trinta gatos pingados que retratam a insensatez do momento. Em mensagem a conhecidos, o ministro do STF Celso de Mello colocou ainda mais lenha na fogueira, comparando o momento à Alemanha de Hitler:

- Guardadas as devidas proporções, o ?ovo da serpente?, à semelhança do que ocorreu na República de Weimar, parece estar prestes a eclodir no Brasil.

A temperatura da crise política aumenta, enquanto o país está à deriva. E ninguém tira o pé.

Atenções voltadas para o Diário Oficial da união nos próximos dias. Cada vez mais alinhado às lideranças dos partidos do Centrão, o Palácio do Planalto deve fazer novas nomeações em cargos estratégicos e com polpudos orçamentos para o PL de Valdemar Costa Neto. Esse é o estelionato eleitoral de Bolsonaro.

Ética na geladeira

A bancada do PSOL na Câmara está exigindo do presidente Rodrigo Maia (DEM-RJ) que ele coloque o Conselho de Ética para funcionar. Líder do partido, a deputada Fernanda Melchionna (RS) lembra que, com o sistema de deliberação remoto em razão da pandemia, os trabalhos estão parados. A oposição quer que o conselho analise os processos que foram abertos contra Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), por uma possível ruptura democrática.

Outro lado do balcão

Sergio Moro só espera a decisão de uma consulta ao Conselho de Ética da Presidência da República para solicitar à OAB o registro para poder advogar. Cabe ao conselho liberar ou não o ex-ministro da necessidade de cumprir quarentena por seis meses, depois de ter deixado o Ministério da Justiça. Se decidirem pela obrigatoriedade, Moro ganhará mensalmente R$ 30.934,70, até ser autorizado a assumir outra atividade.

CAROLINA BAHIA

01 DE JUNHO DE 2020
CORONAVÍRUS

RS pode ter alívio apesar das incertezas


Até o momento, não há clareza sobre a duração da pandemia e seus impactos nos negócios. Mesmo assim, analistas avaliam que o Estado pode dar passo à frente na tentativa de reduzir os prejuízos gerados pela covid-19 a empresas e trabalhadores.

Além de registrar menor nível de contaminação do que outras regiões do país, o Rio Grande do Sul iniciou plano de reabertura gradual da economia. Chamado de distanciamento controlado, o modelo leva em consideração o quadro epidemiológico de 20 regiões para permitir ou não o funcionamento dos negócios. A iniciativa entrou em vigor em 11 de maio.

- O mérito do plano é trazer uma estratégia para enfrentar a situação. Além disso, divide o Rio Grande do Sul em regiões, e não fecha todo o Estado, o que é importante para diminuir os impactos econômicos - diz o economista-chefe da Fiergs, André Nunes de Nunes.

A economista-chefe da Fecomércio, Patrícia Palermo, avalia que o projeto é "positivo" e "traz maior previsibilidade" para as empresas. Por outro lado, lembra que, se uma região receber bandeira vermelha, tem de fechar setores como o comércio, considerado não essencial - a lógica é a mesma para a cor preta. Se houver avanço do vírus, novas paralisações colocariam em risco mais vagas de trabalho, argumenta Patrícia.

Em abril, os pedidos de seguro- desemprego cresceram 45,1% no Estado, em relação a igual período de 2019. Foram 52,7 mil solicitações, aponta a Fundação Gaúcha do Trabalho e Ação Social.

- Maio deve ser outro mês ruim, mas não tanto quanto abril. A grande questão é saber como será a retomada da economia nos próximos meses - declara Nunes.

Professora da UCS, a economista Maria Carolina Gullo afirma que a pandemia deve elevar a informalidade entre trabalhadores, tendência que já preocupava antes de o coronavírus golpear os negócios.

01 DE JUNHO DE 2020
CRISE POLÍTICA

Celso de Mello vê Brasil como Alemanha na época de Hitler


O decano do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Celso de Melo, comparou o Brasil à Alemanha de Hitler e, em mensagem a ministros da Corte, alertou que a "intervenção militar, como pretendida por bolsonaristas e outras lideranças autocráticas que desprezam a liberdade e odeiam a democracia", nada mais é "senão a instauração, no Brasil, de uma desprezível e abjeta ditadura militar!!!!".

"Guardadas as devidas proporções, o ?ovo da serpente?, à semelhança do que ocorreu na República de Weimar (1919-1933) parece estar prestes a eclodir no Brasil", escreveu Celso de Mello. "É preciso resistir à destruição da ordem democrática, para evitar o que ocorreu na República de Weimar quando Hitler, após eleito pelo voto popular e posteriormente nomeado pelo presidente Paul von Hindenburg como chanceler da Alemanha, não hesitou em romper e em nulificar a progressista, democrática e inovadora Constituição de Weimar, impondo ao país um sistema totalitário de Poder", acrescentou.

Depois, ele ressaltou que a nota era de cunho "exclusivamente pessoal" e não dizia respeito a posição institucional do STF. Celso de Mello é o relator do inquérito que investiga as acusações, levantadas pelo ex-ministro Sergio Moro, de que Bolsonaro tentou interferir politicamente na Polícia Federal. O ministro se aposenta em novembro deste ano, quando completa 75 anos.

Mais tarde, após confrontos em São Paulo e no Rio de Janeiro e a nota de Celso de Mello, o ministro do STF Gilmar Mendes pediu "ponderação e cuidado".

- O ambiente está tão conturbado, tão tenso, que muitos estão tomando a desinformação como conselheira. Temos que esclarecer tudo que tudo que se está fazendo se faz nos marcos do devido processo legal, para dizer com muita tranquilidade que estamos no Estado de Direito, no qual não há soberanos - disse Gilmar Mendes em entrevista à GloboNews.

01 DE JUNHO DE 2020
CLÁUDIA LAITANO

Jack x Mark

O embate ainda não chegou às vias de fato - ainda que os desvios dos fatos sejam o próprio cerne da disputa. De um lado, Jack Dorsey, CEO do Twitter. Do outro Mark Zuckerberg, fundador e CEO do Facebook. No centro do ringue, um desafio de dimensões continentais: conter a disseminação de fake news sem esculhambar o espírito essencialmente anárquico das redes sociais.

Em ano de eleições presidenciais nos Estados Unidos, o Twitter decidiu sair de cima do muro. Na terça-feira passada, pela primeira vez, a rede social marcou dois tweets de Donald Trump com o selo de "potencialmente enganoso", criado para alertar usuários sobre informações não comprovadas usadas para fins eleitorais. Na sexta, voltou à carga, marcando um tweet do presidente americano sobre os protestos em Minneapolis com o selo de "glorificação da violência". Em represália, Trump assinou um decreto para reduzir proteções legais de empresas de tecnologia. Em uma entrevista para a Fox News, Zuckerberg entrou na briga, mas apenas para dizer que preferia não entrar na briga: "Acredito firmemente que o Facebook não deve ser o árbitro da verdade de tudo o que as pessoas dizem online".

No Brasil, a guerra às notícias falsas tomou dois caminhos distintos nos últimos dias. No Congresso, um projeto bem-intencionado de combate à desinformação (apelidado de "PL das fake news") propõe soluções simples para problemas complexos, e a emenda corre o risco de sair pior do que o soneto se não for discutida mais a fundo com a ajuda de especialistas. O projeto de lei do senador Alessandro Vieira deve entrar na pauta de votações na próxima terça-feira. No STF, o inquérito das fake news fechou o cerco em torno de políticos, empresários e blogueiros acusados de fazerem parte de uma associação criminosa dedicada à disseminação de notícias falsas, mas ainda é cedo para saber no que tudo isso vai dar.

Nunca é demais repetir que ideias com as quais não concordamos são uma coisa, desinformação maliciosa e manipulação de dados são outra. Para garantir a tranquilidade de quem compra, vende e produz notícias falsas, a estratégia mais comum tem sido a de equiparar propaganda política com jornalismo e liberdade de expressão com licença para enganar - o que é apenas mais uma forma de distorcer os fatos e o sentido das palavras. Não vamos nos livrar tão cedo das fake news, mas o posicionamento firme do Twitter marca um ruidoso rompimento com a política do "deixa estar para ver como é que fica" com a qual o Facebook, ao que tudo indica, pretende morrer abraçado.

CLÁUDIA LAITANO

domingo, 31 de maio de 2020


LE MONDINE LA BELLA FIORAIA


Le Mondine - La bella fioraia A bela florista
Quando il sole dell'aprile
era caldo e risplendeva
da quei monti discendeva
una donna coi suoi fiori
arrivava nella piazza
poi si sedeva e lì cantava
quella dolce sua canzone
e le parole dicevano così
su comprate i fiori bella gente sono qua
quanti bei colori viole rose che i lillà

li ho raccolti tutti in mezzo ai prati
 prati fioriti e profumati
sbocciano così anche nel cuore
frasi d'amore che ti dan felicità

la fioraia della piazza
poi un giorno s'è sposata
qui nessun l'ha più incontrata
e lassù in mezzo al sole
non rimane che il ricordo
la voce dolce di lei gentile
l'eco della sua canzone e le parole dicevano così
su comprate i fiori bella gente sono qua quanti bei colori viole rose che i lillà li ho raccolti tutti in mezzo ai prati prati fioriti e profumati

 sbocciano così anche nel cuore frasi d'amore che ti dan felicità li ho raccolti tutti in mezzo ai prati prati fioriti e profumati
sbocciano così anche nel cuore frasi d'amore che ti dan felicità sole d'aprile tuo che poi ritornerà ma quelle viole più nessuno raccoglierà
Quando o sol de abril
estava quente e brilhante
daquelas montanhas desceu
uma mulher com suas flores
chegou na praça
então ele se sentava e cantava
lá aquela doce canção
dela e as palavras disseram isso
em comprar as flores pessoas legais estão aqui
quantas cores lindas violetas rosas que lilases

Reuni todos eles no meio dos prados prados floridos e perfumados
eles também florescem no coração frases de amor que lhe dão felicidade

 o florista da praça então um dia ela se casou
ninguém a conheceu aqui e lá em cima no sol
tudo o que resta é a memória
a voz gentil de sua espécie
o eco de sua música e as palavras
disseram isso
 em comprar as flores pessoas legais estão aqui

quantas cores lindas violetas rosas que lilases
Reuni todos eles no meio
dos prados prados floridos e perfumados

eles também florescem no coração
frases de amor que lhe dão felicidade
 Reuni todos eles no meio dos prados prados floridos e perfumados
eles também florescem no coração frases de amor que lhe dão felicidade seu sol de abril, que retornará mas essas violetas não mais vão colecionar.